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21 janeiro, 2026

O novo tabuleiro sul-americano avança e o Brasil segue atrasado na sua leitura estratégica

 

*Luiz Alberto Cureau Jr., via LinkedIn - 21/01/2026

A América do Sul já não é mais um espaço periférico na geopolítica global. O que se observa hoje é uma movimentação coordenada, pragmática e silenciosa de grandes potências sobre infraestrutura crítica, energia e presença militar. Não se trata de teoria: são fatos em curso.

No Peru, por exemplo, os Estados Unidos autorizaram um investimento de até US$ 1,5 bilhão para a modernização e reposicionamento da Base Naval de Callao. O discurso oficial fala em eficiência logística e combate a ilícitos transnacionais. O dado estratégico é outro, a base está a menos de 80 km do megaporto de Chancay, operado pela COSCO Shipping, peça central da projeção logística chinesa no Pacífico Sul. Não é parceria equilibrada nem diplomacia neutra, é contenção direta da influência chinesa em um corredor vital do comércio marítimo.

Esse movimento evidencia, ao meu ver,  que o Peru não é protagonista soberano dessa equação, mas território sensível de disputa entre potências. A expansão chinesa em infraestrutura provoca resposta militar americana. O país vira espaço de fricção estratégica, não ator autônomo. Essa é a realidade objetiva.

Na Venezuela, o cenário é ainda mais explícito. Após a intervenção e a captura de sua liderança política, o país passa a operar sob forte tutela externa. O petróleo segue como ativo central, agora inserido em uma lógica de reordenamento forçado de alianças e fluxos energéticos. A reabertura controlada ao capital ocidental não representa soberania recuperada, mas submissão funcional a quem controla sanções, mercados e segurança.

Mais ao norte, a Guiana ilustra como recursos estratégicos redesenham destinos nacionais. Com as descobertas petrolíferas offshore, o país tornou-se um dos que mais crescem em PIB per capita no mundo. Pequeno, antes irrelevante, hoje é disputado, protegido e monitorado. O petróleo não traz apenas riqueza: traz presença militar, acordos de segurança e interesse permanente das grandes potências.

Tudo isso ocorre ao redor do Brasil, que insiste na confortável narrativa de “país sem inimigos”. Uma ilusão perigosa. O Brasil possui nove tríplices fronteiras, todas em áreas sensíveis, muitas associadas a petróleo, minerais críticos, terras raras, biodiversidade, água doce e corredores logísticos. São zonas expostas à pressão externa, ao crime transnacional e à instrumentalização geopolítica caso o Estado não esteja presente com estratégia e poder dissuasório.

Enquanto bases são modernizadas, portos adquiridos, rotas redesenhadas e cadeias de energia reposicionadas, seguimos tratando defesa, fronteiras e projeção estratégica como temas secundários. Ignorar esse movimento não nos torna neutros. Nos torna vulneráveis. 

A história é clara: países ricos em recursos, mas frágeis institucionalmente e pobres em estratégia não escolhem seu papel no tabuleiro, ele lhes é imposto. 

02 novembro, 2025

A urgente modernização das Forças Armadas brasileiras: resposta estratégica à nova ordem geopolítica sul-americana

 


*
LRCA Defense Consulting - 02/11/2025

A América do Sul emergiu como um dos principais teatros da rivalidade geopolítica entre Estados Unidos e China no século XXI. Esta disputa por influência regional não apenas redefine as relações internacionais no continente, mas também impõe novos desafios de segurança e defesa que exigem uma resposta estratégica coordenada dos países sul-americanos, especialmente do Brasil. Neste contexto, a modernização das Forças Armadas brasileiras deixa de ser uma opção para tornar-se uma necessidade imperativa para a preservação da soberania nacional e a manutenção da estabilidade regional.

A América do Sul no epicentro da disputa sino-americana
A América do Sul transformou-se em um palco central da competição geopolítica global devido a uma combinação única de fatores estratégicos que atraem o interesse das superpotências mundiais. A região detém algumas das maiores reservas de recursos naturais do planeta, incluindo petróleo, gás natural, minerais estratégicos como lítio e terras raras, além de vastas extensões de terras aráveis e recursos hídricos.

A China tem intensificado significativamente sua presença na região através de investimentos massivos em infraestrutura e comércio. O projeto mais emblemático dessa estratégia é o porto de Chancay no Peru, um investimento de US$ 3,4 bilhões que representa um marco na Iniciativa do Cinturão e Rota chinesa na América Latina. Este porto não apenas fortalece a presença econômica chinesa, mas também estabelece um ponto estratégico de controle sobre rotas comerciais cruciais no Pacífico.

Paralelamente, países como a Colômbia têm aderido à Rota da Seda, apesar da forte oposição dos Estados Unidos. Esta dinâmica ilustra como a região se tornou um campo de batalha diplomático e econômico entre as duas superpotências, com a China reivindicando crescente influência frente aos Estados Unidos.

As rotas comerciais sul-americanas conectam os oceanos Atlântico e Pacífico, oferecendo acesso privilegiado aos mercados asiáticos e europeus. O controle dessas rotas representa vantagem estratégica significativa para qualquer potência que busque projetar poder global. Além disso, a infraestrutura crítica da região - portos, aeroportos, redes de telecomunicações e instalações energéticas - tornou-se alvo de investimentos e interesse geopolítico intenso.

Ameaças e desafios: novos riscos em um cenário multipolar
O novo cenário geopolítico sul-americano apresenta ameaças multifacetadas que exigem resposta coordenada das forças de segurança regionais. A intensificação da presença de potências estrangeiras aumenta o risco de intervenções externas diretas ou indiretas, especialmente em situações de instabilidade política ou conflitos territoriais.

Um exemplo concreto dessas tensões foi a crise da Guiana Essequiba em 2023, onde a descoberta de reservas significativas de petróleo intensificou as disputas territoriais entre Guiana e Venezuela. Este episódio demonstra como recursos naturais podem rapidamente escalar tensões regionais, potencialmente atraindo intervenções de potências externas interessadas em garantir acesso a esses recursos.

A proteção de infraestruturas críticas emerge como prioridade de segurança nacional. Portos, refinarias, usinas hidrelétricas, redes de telecomunicações e instalações de mineração tornaram-se alvos estratégicos que requerem proteção sofisticada contra ameaças convencionais e não-convencionais, incluindo ataques cibernéticos e sabotagem.

As ameaças híbridas - que combinam elementos militares convencionais com guerra cibernética, desinformação e pressão econômica - representam desafios particulares para forças armadas tradicionais. A capacidade de responder a essas ameaças multidimensionais exige modernização tecnológica e adaptação doutrinária significativas.

Adicionalmente, o crime organizado transnacional, incluindo narcotráfico e contrabando, pode ser instrumentalizado por atores estatais para desestabilizar regiões estratégicas, criando zonas de instabilidade que facilitam intervenções externas.

Estado atual das Forças Armadas: capacidades e limitações gerais
As Forças Armadas brasileiras mantêm a posição de maior força militar da América Latina, operando aproximadamente 715 aeronaves militares, a maior frota da região. No entanto, uma análise detalhada revela deficiências significativas que comprometem a capacidade operacional em cenários de alta intensidade.

Grande parte da frota aérea brasileira é composta por aeronaves consideradas obsoletas pelos padrões contemporâneos. O Northrop F-5E/F Tiger II, embora confiável, representa tecnologia dos anos 1970, enquanto o AMX, apesar de mais moderno, não possui capacidades de última geração necessárias para enfrentar ameaças aéreas sofisticadas.

O programa de aquisição do caça sueco Saab Gripen NG representa um avanço significativo, mas sua implementação tem sido prejudicada por restrições orçamentárias e atrasos logísticos. Mesmo com a modernização parcial da frota, o número de aeronaves de combate de última geração permanece insuficiente para cobrir adequadamente o vasto território nacional.

O Processo de Transformação do Exército, iniciado em 2010, busca adaptar a força terrestre às demandas contemporâneas, mas enfrenta sérias limitações financeiras que retardam a aquisição de equipamentos modernos e a implementação de novas doutrinas operacionais.

A Marinha brasileira, embora possua capacidades regionais respeitáveis, carece de sistemas de defesa aérea naval avançados e plataformas de projeção de poder que permitam operações sustentadas em águas distantes. O programa de submarinos nucleares, desenvolvido em parceria com a França, representa avanço estratégico importante, mas sua conclusão ainda demandará anos de desenvolvimento.


Uma lacuna crítica: defesa antiaérea de média e grande altitude
Uma das deficiências mais preocupantes das Forças Armadas brasileiras reside na ausência de sistemas modernos de artilharia antiaérea (AAA) capazes de engajar ameaças aéreas em média e grande altitude. Esta lacuna representa vulnerabilidade estratégica crítica que compromete a capacidade de proteger infraestruturas vitais e centros populacionais contra ataques aéreos sofisticados.

O arsenal atual de defesa antiaérea brasileiro baseia-se principalmente em sistemas de curto alcance e baixa altitude, incluindo canhões antiaéreos Oerlikon de 35mm e sistemas portáteis como o Igla-S e o RBS-70 NG. Embora eficazes contra aeronaves de baixa altitude e helicópteros, esses sistemas são inadequados para interceptar aeronaves modernas operando em altitudes médias (5.000-15.000 metros) e altas (acima de 15.000 metros).

A ameaça contemporânea inclui não apenas aeronaves tripuladas, mas também mísseis de cruzeiro, drones de longo alcance e mísseis balísticos. Estes vetores frequentemente operam em altitudes que excedem as capacidades dos sistemas antiaéreos brasileiros atuais, criando janelas de vulnerabilidade que podem ser exploradas por adversários potenciais.

A ausência de sistemas como o Patriot (Estados Unidos), S-300/S-400 (Rússia), Iron Dome (Israel) ou NASAMS (Noruega/Estados Unidos) deixa o espaço aéreo brasileiro vulnerável a penetrações hostis. Esta deficiência é particularmente preocupante, considerando a vastidão do território nacional e a impossibilidade de cobertura aérea contínua por aeronaves de interceptação.

A modernização da defesa antiaérea deve priorizar sistemas integrados capazes de engajar múltiplas ameaças simultaneamente, incluindo aeronaves, mísseis e drones. Estes sistemas devem possuir alcance suficiente para criar zonas de exclusão aérea sobre áreas estratégicas e capacidade de integração com radares de alerta antecipado e sistemas de comando e controle.

A aquisição de sistemas de defesa antiaérea modernos também contribuiria para a dissuasão estratégica, sinalizando a adversários potenciais que ataques aéreos contra o território brasileiro enfrentariam resistência eficaz. Esta capacidade é fundamental para preservar a credibilidade da defesa nacional em cenários de escalada de tensões regionais.

Necessidade de modernização: imperativos estratégicos

A modernização das Forças Armadas brasileiras não constitui apenas uma questão de prestígio nacional, mas uma necessidade estratégica fundamental para enfrentar as ameaças emergentes do século XXI. O rearmamento deve abranger múltiplas dimensões: tecnológica, doutrinária e operacional.

A aquisição de sistemas de armas modernos deve priorizar capacidades de dissuasão e resposta rápida. Isso inclui, além de sistemas de defesa aérea de longo alcance, mísseis de cruzeiro, maior número de aeronaves de combate multifuncionais e sistemas de guerra eletrônica. A capacidade de projeção de poder também requer investimentos em transporte estratégico, tanto aéreo quanto naval.

A dimensão cibernética da defesa nacional exige investimentos urgentes em capacidades de guerra cibernética, proteção de infraestruturas críticas e inteligência eletrônica. As ameaças híbridas contemporâneas demandam integração entre capacidades convencionais e não-convencionais de resposta.

A modernização tecnológica deve incluir sistemas de comando, controle, comunicações, computação e inteligência (C4I) que permitam coordenação eficaz entre as três forças e integração com sistemas de defesa de países aliados. A interoperabilidade com forças aliadas torna-se crucial em cenários de cooperação regional.

O desenvolvimento de capacidades espaciais e de inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR) representa prioridade estratégica para monitoramento territorial e detecção precoce de ameaças. Satélites de observação e comunicação militar proporcionam vantagens operacionais decisivas em conflitos contemporâneos.

Demonstração de poderio e soberania: dissuasão através da força

Uma força militar modernizada serve como instrumento fundamental de dissuasão estratégica, desencorajando potenciais agressores através da demonstração de capacidade de resposta eficaz. No contexto sul-americano atual, onde potências externas competem por influência, a posse de capacidades militares credíveis sinaliza determinação nacional em defender interesses soberanos.

A dissuasão eficaz requer não apenas equipamentos modernos, mas também demonstração pública de capacidades operacionais através de exercícios militares, manobras conjuntas e participação em operações internacionais. Estas atividades comunicam tanto a capacidade técnica quanto a vontade política de emprego da força quando necessário.

A modernização das Forças Armadas também contribui para o fortalecimento da posição diplomática brasileira em negociações internacionais. Países com capacidades militares respeitáveis exercem maior influência em fóruns multilaterais e possuem maior margem de manobra em negociações bilaterais.

O poderio militar moderno também facilita a liderança regional em questões de segurança, permitindo ao Brasil exercer papel estabilizador em crises regionais e coordenar respostas coletivas a ameaças transnacionais. Esta liderança fortalece a posição geopolítica brasileira frente às superpotências globais.

A capacidade de proteger infraestruturas críticas e recursos estratégicos nacionais demonstra soberania efetiva sobre o território nacional, desencorajando tentativas de coerção econômica ou política por parte de atores externos.


Negociações e parcerias: estratégias de cooperação internacional

O estabelecimento de parcerias estratégicas com fabricantes internacionais de equipamentos militares representa elemento crucial para a modernização das Forças Armadas brasileiras. Estas parcerias devem transcender simples relações comerciais para incluir transferência de tecnologia, desenvolvimento conjunto e fortalecimento da base industrial de defesa nacional.

A colaboração com a Suécia no programa Gripen NG exemplifica modelo bem-sucedido de parceria que combina aquisição de equipamentos modernos com transferência tecnológica e desenvolvimento de capacidades industriais nacionais. Similarmente, a parceria com a França no desenvolvimento de submarinos nucleares demonstra como cooperação internacional pode acelerar o desenvolvimento de capacidades estratégicas complexas.

As negociações devem priorizar acordos que incluam cláusulas de transferência de tecnologia, produção local de componentes e desenvolvimento conjunto de versões adaptadas às necessidades específicas brasileiras. Isso fortalece a base industrial de defesa nacional e reduz dependência externa a longo prazo.

A diversificação de parceiros tecnológicos reduz riscos de dependência excessiva de um único fornecedor e proporciona acesso a diferentes tecnologias e abordagens. Parcerias com países como Israel, Coreia do Sul, Índia e Turquia podem oferecer soluções inovadoras e custo-efetivas para necessidades específicas.

A participação em programas multilaterais de desenvolvimento de armamentos, como projetos europeus ou iniciativas regionais sul-americanas, pode reduzir custos individuais e acelerar o desenvolvimento de capacidades avançadas através do compartilhamento de recursos e conhecimentos.

Navegando complexidades e aproveitando potenciais
O processo de modernização das Forças Armadas brasileiras enfrenta desafios significativos que requerem abordagem estratégica cuidadosa. As restrições orçamentárias representam o obstáculo mais imediato, exigindo priorização criteriosa de investimentos e busca por soluções custo-efetivas que maximizem capacidades operacionais.

As complexidades diplomáticas incluem o gerenciamento de relações com múltiplos fornecedores internacionais, evitando dependência excessiva de qualquer potência específica e mantendo autonomia estratégica. O Brasil deve navegar cuidadosamente entre pressões americanas e chinesas, preservando margem de manobra para decisões soberanas.

As barreiras tecnológicas incluem controles de exportação de tecnologias sensíveis e limitações no acesso a sistemas de armas mais avançados. Isso exige desenvolvimento de capacidades nacionais de pesquisa e desenvolvimento, bem como parcerias estratégicas que facilitem acesso a tecnologias críticas.

No entanto, o processo de modernização também apresenta oportunidades significativas. O fortalecimento da indústria de defesa nacional pode gerar empregos qualificados, estimular inovação tecnológica e promover desenvolvimento de tecnologias duais com aplicações civis. Investimentos em defesa frequentemente resultam em avanços tecnológicos que beneficiam setores como aeroespacial, eletrônica e materiais avançados.

A modernização militar também pode fortalecer a cooperação regional em questões de segurança, facilitando exercícios conjuntos, compartilhamento de inteligência e desenvolvimento de capacidades complementares com países vizinhos. Isso contribui para a estabilidade regional e reduz riscos de conflitos interestatais.

O desenvolvimento de capacidades militares avançadas pode posicionar o Brasil como exportador de equipamentos de defesa, gerando receitas e fortalecendo a posição da indústria nacional em mercados internacionais. Países como Israel e Coreia do Sul demonstram como investimentos em defesa podem resultar em setores de exportação lucrativos.

Novo paradigma de segurança exige resposta estratégica coordenada do Brasil
A crescente tensão geopolítica na América do Sul, alimentada pela rivalidade sino-americana, estabelece um novo paradigma de segurança que exige resposta estratégica coordenada do Brasil. A modernização das Forças Armadas brasileiras não representa apenas uma opção política, mas uma necessidade imperativa para a preservação da soberania nacional e a manutenção da estabilidade regional.

O contexto atual demanda investimentos urgentes em capacidades militares modernas, desenvolvimento de parcerias estratégicas internacionais e fortalecimento da base industrial de defesa nacional. Embora os desafios sejam significativos - incluindo restrições orçamentárias e complexidades diplomáticas - as oportunidades de fortalecimento da segurança nacional, desenvolvimento tecnológico e liderança regional justificam os investimentos necessários.

O Brasil possui os recursos naturais, a capacidade industrial e o capital humano necessários para desenvolver forças armadas modernas e eficazes. O que falta é vontade política para priorizar adequadamente os investimentos em defesa e visão estratégica para navegar as complexidades do novo cenário geopolítico sul-americano.

A modernização das Forças Armadas brasileiras deve ser entendida não como preparação para guerra, mas como investimento na paz através da dissuasão. Uma força militar moderna e bem equipada constitui o melhor seguro contra aventuras militares de potências externas e o instrumento mais eficaz para preservar a autonomia estratégica nacional em um mundo cada vez mais competitivo e incerto.

O momento para ação é agora. A janela de oportunidade para modernização adequada das capacidades de defesa pode não permanecer aberta indefinidamente, e o custo da inação pode ser muito superior ao investimento necessário para garantir a segurança e soberania nacionais no século XXI.

16 julho, 2025

Embraer C-390 Millennium: um novo paradigma para a Defesa sul-americana?

Análise revela potencial de aquisição do cargueiro da Embraer por Colômbia, Chile e Peru, impulsionando a segurança regional e a resposta a crises


*LRCA Defense Consulting - 16/07/2025

O Embraer C-390 Millennium, o robusto avião de transporte militar e reabastecedor desenvolvido no Brasil, está no centro das atenções na América do Sul. Uma análise acurada indica que Colômbia, Chile e Peru — nações com desafios geográficos e de segurança semelhantes — emergem como fortes candidatos a integrar essa aeronave em suas frotas aéreas. Essa potencial aquisição não apenas modernizaria as capacidades de defesa desses países, mas também poderia redefinir a dinâmica da cooperação militar na região, promovendo interoperabilidade e fortalecendo a resposta a desafios de segurança e humanitários.

Cenário geopolítico e necessidades militares urgentes
A América do Sul é um continente de extremos, marcado por vastas florestas, imponentes cordilheiras e uma linha costeira extensa. Essa geografia impõe desafios únicos para a logística militar e para a resposta oportuna e eficaz a emergências. Além disso, a região enfrenta ameaças persistentes como o narcotráfico, o crime organizado transnacional e a crescente frequência de desastres naturais — de terremotos a inundações severas. A capacidade de movimentar tropas, equipamentos e suprimentos rapidamente, e de operar em condições adversas, é uma prioridade estratégica.

As frotas de transporte aéreo militar na Colômbia, Chile e Peru, embora competentes, apresentam sinais de envelhecimento. Aeronaves como o C-130 Hercules, um pilar da aviação de transporte global, em muitos casos estão se aproximando do fim de sua vida útil operacional, demandando substituição e modernização.

- Força Aérea Colombiana (FAC)
Lida com uma geografia complexa e a necessidade contínua de apoio logístico em operações contra grupos armados e no combate ao narcotráfico. A modernização visa maior agilidade e versatilidade.

- Força Aérea do Chile (FACh)
Reconhecida por sua capacidade operacional e projeção, a FACh busca otimizar sua logística em um país de grande extensão latitudinal, incluindo o apoio a missões na Antártida. A capacidade de reabastecimento em voo é um atrativo estratégico para estender o alcance de sua frota de caças.

- Força Aérea do Peru (FAP)
Opera em um território que abrange a Amazônia, os Andes e o deserto costeiro. A resposta rápida a desastres naturais e o suporte a operações em áreas remotas são cruciais, exigindo aeronaves robustas e capazes de operar em pistas semipreparadas.

O C-390 como resposta estratégica
Para entender o potencial da aeronave da Embraer na região, é necessário considerar que o C-390 não é apenas um substituto; é um salto geracional para essas forças aéreas. Sua capacidade multifuncional, combinando transporte tático e reabastecimento em uma única plataforma, além de outras potencialidades, é um divisor de águas. Permite que as forças aéreas façam mais com menos, um imperativo para orçamentos de defesa que são sempre apertados.

Em uma outra perspectiva, a padronização se torna um fator preponderante para o continente. Se Colômbia, Peru, Chile e Brasil operarem o mesmo vetor, a interoperabilidade em missões conjuntas, desde exercícios militares até operações de paz e ajuda humanitária em desastres, será exponencialmente facilitada.

C-390 Millennium: análise detalhada das capacidades
O Embraer C-390 Millennium é um avião a jato de transporte militar tático desenvolvido para ser o mais novo e moderno em sua categoria.

- Capacidade de carga
O C-390 pode transportar até 26 toneladas, acomodando desde veículos leves e helicópteros até 80 soldados, 66 paraquedistas ou 74 macas. Sua rampa traseira e sistemas de manuseio de carga são projetados para máxima eficiência em embarque e desembarque.

- Velocidade e alcance

Capaz de atingir Mach 0.8 (aproximadamente 870 km/h), é um dos cargueiros mais rápidos de sua classe. Com um alcance de translado superior a 6.000 km, ou 4.500 km com 23 toneladas de carga, oferece uma flexibilidade operacional notável.

- Operações em pistas não pavimentadas
Um de seus maiores trunfos para a realidade sul-americana. Sua robustez e design permitem pousos e decolagens em pistas de terra, cascalho ou grama, garantindo acesso a regiões remotas e a capacidade de operar em cenários de infraestrutura limitada ou danificada por desastres.

- Reabastecimento em voo (KC-390)
A versão KC-390 é equipada com pods de reabastecimento sob as asas, podendo reabastecer outras aeronaves em voo, uma capacidade que estende significativamente a autonomia e o alcance das missões aéreas.

- Tecnologia embarcada
Com sistemas fly-by-wire, aviônicos de última geração e alta automatização, o C-390 oferece segurança operacional e reduz a carga de trabalho da tripulação.

Impactos e benefícios: para além da capacidade militar
A aquisição do C-390 por Colômbia, Chile e Peru transcenderia a mera modernização de equipamentos. Os impactos seriam sentidos em diversas esferas.

A agilidade e a capacidade de operar em locais remotos fariam do C-390 um recurso inestimável em situações de emergência, permitindo o rápido transporte de ajuda humanitária, equipes de resgate e suprimentos médicos.

A interoperabilidade entre as forças aéreas dos três países, e destes com o Brasil, seria ampliada, facilitando exercícios conjuntos, missões de apoio mútuo e a participação em operações de paz da ONU. Isso solidificaria um bloco de defesa mais coeso na região.

Potenciais acordos de compensação industrial (offset) com a Embraer poderiam significar transferência de tecnologia, investimentos em manutenção local e geração de empregos qualificados nas indústrias de defesa de cada país.

Em termos continentais, a escolha de uma aeronave de fabricação sul-americana reforçaria a capacidade industrial da região e promoveria um senso de autonomia tecnológica.

Desafios no horizonte: do orçamento à política
Apesar dos claros benefícios, o caminho para a aquisição do C-390 não é isento de obstáculos.

O custo unitário da aeronave, embora competitivo em sua categoria, representa um investimento significativo para orçamentos de defesa que muitas vezes enfrentam restrições. Modelos de financiamento flexíveis e pacotes de longo prazo seriam essenciais.

Além disso, a introdução de uma nova plataforma demandaria investimentos substanciais em infraestrutura de manutenção, peças de reposição e, crucialmente, no treinamento de pilotos, mecânicos e equipes de solo. A amenizar tais fatos, estaria a proximidade geográfica da Embraer.

Embora o C-390 se destaque, o mercado de aeronaves de transporte militar é competitivo, com players como o C-130J da Lockheed Martin e as ofertas da Airbus (C295, A400M). Além disso, relações históricas com fornecedores tradicionais, como os Estados Unidos e a Europa, podem influenciar as decisões. 

Estimativas percentuais de probabilidade de aquisição (2024-2029)
Atribuições feitas por ferramentas de inteligência artificial com base nos contextos histórico, técnico e comercial, bem como em notícias recentes e tendências de defesa, apontam que o Chile teria 75% de probabilidade de aquisição, haja vista ter maior estabilidade orçamentária, interesse oficial declarado e prioridade de modernização de frota, além de manter uma relação histórica positiva com a Embraer.

Em segundo lugar viria a Colômbia, com 60%, devido à: necessidade crítica de renovação da frota, já existirem negociações em andamento e delegações terem visitado a Embraer em 2024. No entanto, o país é particularmente sensível à questão de financiamento.

Por último, viria o Peru, com 45%, que tem grande parte da frota de C-130 obsoleta. O C-390 parece ser a opção tecnicamente preferida, porém aquisições podem atrasar ou ser escalonadas dado ao fato de o país evidenciar um severo desafio orçamentário.

América do Sul em um novo patamar logístico e geopolítico
A possível entrada de Colômbia, Chile e Peru ao lado Brasil no universo de operadores do C-390 Millennium implicaria não só em modernização tecnológica, mas na integração a um ecossistema similar ao que países europeus da OTAN estão fazendo. Isso posicionaria a América do Sul em um novo patamar logístico e geopolítico, aumentando a interoperabilidade e inserindo a região em correntes globais de inovação, suporte e treinamento militar em cooperação com aliados internacionais. 

Um novo capítulo na aviação de transporte sul-americana
Esta Consultoria acredita que a probabilidade de Colômbia, Peru e Chile considerarem fortemente a aquisição do Embraer C-390 Millennium é alta, dada a consonância da aeronave com suas necessidades operacionais e a busca por modernização. A aquisição dessa plataforma versátil, robusta e com tecnologia de ponta representaria um avanço significativo em suas capacidades de transporte aéreo, reabastecimento e resposta a emergências. 

O C-390 se consolida assim, em nosso entender, como favorito desses três países, seja pelas sinergias regionais, seja pelo desempenho operacional ou seja ainda pela atratividade comercial para a América do Sul.

Por fim, a combinação de necessidades operacionais prementes com a excelência técnica do C-390 cria um cenário otimista para que o cargueiro brasileiro se torne um pilar da segurança e da cooperação regional, escrevendo um novo e importante capítulo na história da aviação de transporte na América do Sul. 

13 janeiro, 2025

Nações sul-americanas acrescentam 'melhoria das forças aéreas' às resoluções de 2025


*Breaking Defense, por Wilder Alejandro Sanchez - 13/01/2025 

No final de dezembro, a primeira aeronave F-16 Bloco 10 da Força Aérea Argentina chegou ao país, no que o Ministro da Defesa Luis Petri saudou como a aquisição "mais importante" desde o "retorno à democracia" do país em 1982.

A nação sul-americana operou sem uma aeronave de combate primária por quase uma década, mas agora, após muitas negociações e falsos começos, Buenos Aires recebeu o primeiro de 25 F-16s (incluindo uma aeronave de treinamento) anteriormente operados pela Força Aérea Dinamarquesa. O preço do contrato é de cerca de US$ 300 milhões , auxiliado por cerca de US$ 40 milhões em Financiamento Militar Estrangeiro pelos EUA.

Poucas semanas antes, os Gripens fabricados pela Saab e pertencentes à Força Aérea Brasileira (FAB) fizeram sua estreia em exercícios internacionais na CRUZEX 2024 liderada pelo Brasil, dois anos após os caças suecos se juntarem oficialmente à força.

Argentina e Brasil não estão sozinhos na busca por aeronaves de combate mais capazes, já que países como Peru e Uruguai assinaram ou estão considerando novos acordos recentemente.

Mas esta não é uma corrida armamentista aérea na América do Sul, que não vê uma guerra interestatal desde 1995. Na verdade, é uma corrida principalmente contra a obsolescência, de acordo com especialistas, e, para qualquer nação que não se chame Brasil, uma corrida limitada por orçamentos de defesa apertados.

As forças aéreas regionais “precisam modernizar seus inventários e também treinar seu pessoal para operar tecnologias mais novas”, mas apenas “dentro das possibilidades econômicas de cada país”, explicou o Brigadeiro-General aposentado argentino Jorge Antelo à Breaking Defense.

Embora a ameaça de guerra seja baixa, as aeronaves ainda funcionam como dissuasores e para auxiliar operações antidrogas. André Carvalho, pesquisador PhD na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro, disse que as aeronaves de combate “são um grande símbolo do hard power de um Estado e ressaltam o comprometimento de um governo em defender a soberania do país”.

Grandes compras da Argentina e do Brasil
O primeiro F-16 recebido pela Argentina, a aeronave de treinamento, já foi bem recebido pela força aérea de lá, de acordo com Andrei Serbin Pont, analista e diretor do centro de pesquisa argentino CRIES. O avião “dá ao serviço uma ideia do status do resto da frota”, disse ele.

Também em dezembro, a Argentina assinou uma Carta de Acordo com os EUA para equipamentos americanos avançados para os novos caças. Antelo, que recentemente serviu como secretário de estratégia nacional da Argentina, disse à Breaking Defense que os acordos sinalizaram um marco tecnológico para os militares.

Mas Serbin Pont observou que os F-16 não serão capazes de resolver todos os problemas da força aérea argentina. A força ainda opera o Douglas A-4 Skyhawk, que Serbin Pont diz que não está voando e não tem "nenhum papel" nas operações atuais.

A Argentina também voa com sua aeronave de ataque leve e aeronave de combate IA-63 Pampa , de fabricação nacional . O fabricante local do Pampa, FADEA, está desenvolvendo uma nova versão da aeronave de ataque leve Pucará, chamada Pucará Fénix, explicou Serbin Pont. No entanto, a nova versão permanece no nível de protótipo.

Enquanto isso, o Brasil enfrenta uma situação semelhante: está em processo de aquisição de uma grande frota de Gripens, mas ainda precisa atualizar aeronaves de companhia mais antigas.

“A frota de Gripens não é suficiente para substituir o número envelhecido de F-5s e A-1s”, disse Serbin Pont, referindo-se ao ataque leve americano F-5EM e ao AMX A1 brasileiro-italiano.

Brasília está supostamente atualizando sua aeronave de ataque leve A-29 Super Tucano para operar com o Gripen, mas Carlos Eduardo Valle Rosa, coronel da reserva da Força Aérea Brasileira, disse que estudos estão em andamento para determinar a melhor maneira de substituir o F-5 e o A-1.

Orçamentos menores, grandes ambições
Além da Argentina e do Brasil, alguns países menores da América do Sul também estão de olho em atualizações que podem ser caras, se puderem pagar por elas.

O Peru atualmente voa aviões de guerra Dassault Mirage 2000, mas eles foram comprados originalmente na década de 1980, assim como Sukhoi Su-25s de fabricação russa comprados de segunda mão pela Bielorrússia na década de 1990. Em outubro deste ano, o chefe da Força Aérea Peruana, Gen. Carlos Enrique Chávez Cateriano, disse que quer que sua nação compre uma frota de 24 aeronaves multifuncionais "para proteger a soberania e a integridade do nosso país pelos próximos 30-40 anos". (Lima também comprou da Bielorrússia uma frota de Mig-29s, no entanto, eles parecem não estar operacionais)

Reportagens da mídia sugerem que alguns grandes players se alinharam na esperança de fornecer novas aeronaves a Lima, incluindo a Lockheed Martin com seu F-16, a Saab com o Gripen, a Dassault com o Rafale e a empresa sul-coreana Korea Aerospace Industries com seu FA-50 e KF-21.

O vizinho do Peru ao norte, a Colômbia, também sinalizou seu interesse em atualizar suas fuselagens, que atualmente consistem em Kfirs israelenses de quatro décadas. A geopolítica se intrometeu nessa perspectiva em particular, já que Bogotá rompeu relações com Israel por sua conduta em Gaza.

Tanto o Peru quanto a Colômbia, disse Valle Rosa, estão interessados ​​em manter uma força aérea eficaz em parte “para resolver questões históricas de fronteira”, provavelmente uma referência às tensões históricas entre Peru e Chile, e Colômbia e Venezuela.

Duas outras nações sul-americanas assinaram acordos para novas aeronaves de combate em 2024: Paraguai e Uruguai, embora com preços muito menores. Nesses casos, cada país concordou em comprar seis Super Tucanos da Embraer do Brasil.

Como está, o Uruguai opera uma pequena frota de aeronaves A-37B Dragonfly envelhecidas como sua única plataforma de combate. Valle Rosa disse que a escolha de ir com o Super Tucano "foi uma decisão de Montevidéu de manter as capacidades operacionais do serviço, particularmente para missões de patrulha aérea". A mídia uruguaia colocou o contrato em US$ 100 milhões. O Paraguai não tem nenhuma aeronave de combate atual, tornando sua aquisição particularmente importante. O custo será semelhante ao acordo uruguaio, em torno de US$ 96 milhões , disse o Ministro da Defesa paraguaio Óscar González em uma entrevista.

Valle Rosa observou que, apesar do interesse em novas aeronaves de várias nações e da falta de conflitos interestatais na história recente, as nações sul-americanas foram prejudicadas no reino da aquisição de defesa pela falta de cooperação de defesa como a vista na produção conjunta da Europa do Eurofighter Typhoon — tão pesado quanto esses tipos de programas conjuntos podem ser. Em sua opinião, as diferentes prioridades de aquisição, limitações orçamentárias, ambições geopolíticas e tensões de fronteira pendentes provavelmente significam que as forças aéreas sul-americanas continuarão a voar sozinhas e, fora da Embraer, dependerão de fornecedores extrarregionais.

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