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05 outubro, 2026

Programa e interlocutores indicam os prováveis rumos de Flávio Bolsonaro para a defesa e a BID

Drones e inteligência artificial no programa oficial somam-se à experiência de Marcos Degaut no apoio à indústria e ao acesso de Eduardo Bolsonaro ao governo Trump, enquanto orçamento, prioridades e compromissos formais permanecem em aberto 



*LRCA Defense Consulting - 05/10/2026

A cerca de três semanas do segundo turno, marcado para 25 de outubro, a disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Lula (PT) ficou acirrada: 47% a 45% dos votos válidos no primeiro turno, realizado em 4 de outubro. Para o setor de defesa, a dúvida é o que mudaria com a vitória da oposição. Como o programa de Flávio dedica poucas informações ao tema, esta matéria cruza o documento oficial com as propostas de seus interlocutores e com a campanha da Embraer nos Estados Unidos, buscando separar compromissos formais de indícios.

Novas tecnologias e poder militar
O incentivo a novas tecnologias e a defesa de um poder militar capaz de sustentar a atuação internacional do Brasil permitem identificar uma provável orientação de Flávio Bolsonaro para as Forças Armadas e a Base Industrial de Defesa (BID). O direcionamento emerge da leitura conjunta do programa da candidatura e das propostas apresentadas por Eduardo Bolsonaro, irmão do candidato radicado nos EUA, e pelo ex-secretário de Produtos de Defesa Marcos Degaut, hoje o articulador internacional da campanha. Há convergência em torno do fortalecimento das capacidades nacionais, embora os instrumentos para executá-lo ainda não estejam detalhados publicamente.

A distinção entre as fontes é essencial. Drones e inteligência artificial aparecem no programa oficial. Já a transformação mais abrangente das Forças Armadas e o fortalecimento da BID foram defendidos pelos dois interlocutores em uma entrevista de setembro, na qual anunciaram a elaboração de um projeto para um eventual governo de Flávio.

A experiência de Degaut em financiamento e promoção comercial, somada ao acesso do irmão do candidato à Casa Branca, sugere a possibilidade de uma política que combine modernização militar, sustentação industrial e diplomacia voltada a negócios. O KC-390 Millennium permite avaliar como essa combinação poderia funcionar. A Embraer já desenvolve, com a Northrop Grumman, capacidades destinadas ao mercado americano, e uma eventual articulação política brasileira poderia dar visibilidade e apoio institucional a essa campanha. 

Tecnologia e fronteiras no programa
O texto publicado no site da candidatura prevê concentrar esforços contra o crime organizado e outras ameaças à segurança e à defesa nacional. Nesse contexto, propõe estimular tecnologias, com menção explícita a drones e inteligência artificial, e afirma que os investimentos nas Forças Armadas devem corresponder à inserção internacional do Brasil.

Outra proposta é criar o Sistema Nacional de Fronteira, reunindo integrantes do Exército, da Marinha e da Força Aérea Brasileira, equipados com inteligência, tecnologia e armamentos para interceptar drogas e armas. O documento também contempla a proteção cibernética dos serviços públicos, das infraestruturas críticas e dos cidadãos.

Essas referências estabelecem prioridades gerais, mas não especificam orçamento, modelos de drones, aplicações militares de IA, quantidades, fornecedores ou prioridades de reequipamento. Tampouco permitem concluir que haverá preferência por equipamentos nacionais ou importados. Essa definição será determinante para avaliar quanto da demanda poderá se converter em desenvolvimento e produção no País.

A proposta de transformação militar
Em 7 de setembro de 2026, Eduardo Bolsonaro e Marcos Degaut participaram do programa ALive, de Claudio Dantas. Segundo a publicação do próprio programa, ambos trabalhavam em um projeto de reforma e reestruturação das Forças Armadas destinado ao senador.

Degaut defendeu atualização de missões, métodos e doutrina, recuperação da capacidade de interpretar o cenário internacional e equipamentos adequados às atribuições militares. Relacionou a transformação ao fortalecimento da liderança, da unidade de propósito e da legitimidade institucional das Forças.

A ligação com a política externa foi explícita. Para Degaut, "uma boa diplomacia, uma boa política externa, não prescinde de um poder militar forte". Eduardo associou respeito internacional e liderança regional a Forças Armadas modernas e a uma indústria de defesa desenvolvida no Brasil.

Na cobertura da entrevista, a DefesaNet registrou que Degaut situou as propostas em um planejamento estratégico de longo prazo, envolvendo defesa, comércio e investimentos. Ele afirmou que o projeto estava pronto e seguia em aperfeiçoamento, mas informou que seus detalhes não seriam integralmente divulgados naquele momento.

O conjunto dessas manifestações sugere uma ambição que ultrapassa o emprego militar nas fronteiras. A capacidade de dissuasão e a sustentação industrial aparecem como componentes da posição internacional pretendida para o País. Trata-se de uma interpretação das declarações, não de um programa de reequipamento já aprovado pelo candidato.

Degaut e a ampliação do acesso ao crédito
A defesa de uma indústria nacional fortalecida tem antecedentes na trajetória administrativa de Degaut. Um dos resultados mais concretos associados à sua passagem pela Secretaria de Produtos de Defesa (SEPROD) foi a articulação com o BNDES. Em fevereiro de 2020, o Ministério da Defesa e o banco firmaram um protocolo para estudar instrumentos de financiamento, apoio às exportações e nacionalização progressiva de produtos e tecnologias. Na ocasião, conforme registro do LRCA, Degaut vinculou a iniciativa ao planejamento estratégico da secretaria.

O desdobramento verificável veio em 2021. Segundo o Ministério da Defesa, empresas encontravam dificuldades para cadastrar seus produtos no BNDES e, por isso, não conseguiam financiá-los. A parceria levou a um regulamento específico de credenciamento de produtos de defesa, com vigência a partir de 1º de novembro daquele ano, ampliando o conjunto de bens elegíveis ao crédito, inclusive pelas linhas BNDES Exim Pré-Embarque e Pós-Embarque.

A importância dessa mudança está na remoção de um obstáculo operacional. Um produto que não consegue ingressar no sistema de financiamento perde competitividade mesmo quando atende às necessidades do comprador. O regulamento ampliou a possibilidade de acesso ao crédito; não significou aprovação automática de operações ou desembolso garantido às empresas.

Promoção comercial e resultados institucionais
O balanço oficial da SEPROD de 2019 registrou atendimento a 361 empresas, realização de 14 missões internacionais e diálogos da indústria de defesa com seis países. A secretaria também produziu estudos comerciais sobre 69 países. Os dados mostram uma atuação organizada de prospecção e apoio às empresas, além da presença em feiras.

No mesmo balanço, o Ministério informou crescimento de 21,8% no número de empresas habilitadas ao Regime Especial de Tributação para a Indústria de Defesa (RETID) e de 75% no número das que passaram a usufruir do regime, em relação a 2018. São resultados institucionais do período de sua gestão, produzidos por equipes e outros órgãos envolvidos; não realizações individuais exclusivas do secretário.

O Relatório de Gestão do Ministério da Defesa de 2021 registrou, à época, cerca de US$ 1,7 bilhão em exportações autorizadas de produtos de defesa, apresentado como recorde histórico. A expressão é importante: autorizações não devem ser confundidas com embarques efetivados ou receitas recebidas no mesmo ano. O indicador documenta a expansão das autorizações durante aquela gestão, sem permitir atribuir toda a evolução comercial a uma única autoridade.

Há ainda reconhecimentos posteriores. Em janeiro de 2023, já na nova administração federal, o então secretário Rui Chagas Mesquita enalteceu o trabalho de seus antecessores, destacando Degaut e o general Luis Antônio Duizit Brito. 

No mês seguinte, em entrevista reproduzida pelo portal LRCA em 25 de fevereiro de 2023, o próprio Degaut cobrou maior atuação do Itamaraty na promoção das exportações de defesa e defendeu recursos para pesquisa e desenvolvimento de tecnologias capazes de reduzir a dependência externa.

Esse histórico confere consistência à orientação apresentada em setembro, pois a articulação entre diplomacia, indústria e capacidade militar não surgiu apenas na discussão eleitoral. Uma eventual participação de Degaut teria potencial para aproximar a discussão estratégica dos instrumentos de execução: credenciamento, crédito e promoção externa. Sua tradução em política de governo, porém, dependerá de medidas que transformem essa visão em financiamento, apoio comercial e continuidade de projetos.

Eduardo e o acesso à Casa Branca
A capacidade de interlocução de Eduardo com o governo Trump tem evidência recente. A Reuters informou que ele acompanhou Flávio em uma reunião com o presidente americano no Salão Oval, em 26 de maio de 2026. Um representante da Casa Branca confirmou o encontro. Segundo Flávio, foram discutidos crime organizado, tarifas e minerais críticos.

Embora o relato não mencione o KC-390, há um antecedente específico de promoção do avião por Eduardo. Em entrevista à Agência de Notícias Brasil-Árabe, publicada em agosto de 2019, ele relatou que discutira a possibilidade de venda do KC-390 durante reuniões nos Emirados Árabes Unidos, quando presidia a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara. O registro documenta familiaridade com a promoção internacional do produto, sem comprovar resultado comercial ou atuação equivalente nos EUA. Sete anos depois, em maio de 2026, a Embraer fechou com os Emirados um contrato para até 20 aeronaves, a maior encomenda internacional do cargueiro por um único país e a primeira venda no Oriente Médio.

A influência possível seria, sobretudo, de acesso e articulação: facilitar a apresentação da proposta a autoridades, incentivar seu exame no diálogo bilateral e dar visibilidade aos benefícios industriais para os americanos. 

Uma campanha industrial que já está em andamento
A iniciativa da Embraer tem trajetória própria. Em comunicado de 19 de fevereiro de 2026, a empresa e a Northrop Grumman anunciaram investimentos conjuntos para desenvolver o KC-390 Multi-Mission Tanker, voltado aos Estados Unidos e a países aliados. O trabalho inclui uma lança rígida autônoma de reabastecimento, comunicações aprimoradas, opções de consciência situacional e sobrevivência e sistemas de missão adaptáveis.

Em setembro, a FlightGlobal voltou a destacar a campanha sob o conceito Multi-Mission Airlift and Tanker, apresentando o KC-390 como complemento ao KC-46. A lógica comercial é oferecer uma plataforma que reúna transporte tático e reabastecimento, ampliando as alternativas de emprego da frota.

O desenvolvimento da lança rígida é uma distinção técnica essencial. O KC-390 já dispõe de reabastecimento por mangueira e cesto, documentado pela Embraer, mas o sistema anunciado com a Northrop pretende ampliar o universo de aeronaves atendidas, embora essa nova configuração ainda não esteja pronta e qualificada.

Também há contato operacional anterior à campanha eleitoral. A própria USAF registrou a participação de um C-390 brasileiro no exercício Storm Flag, na Louisiana, em março de 2024, junto a aeronaves americanas e suecas. O exercício demonstra interação militar e familiaridade com o modelo.

O argumento americano que poderia interessar a Trump
A perspectiva de produção local oferece um argumento concreto para uma eventual articulação política. Em declaração publicada pela Defense One em fevereiro de 2026, Bosco da Costa Junior, presidente da Embraer Defesa & Segurança, afirmou que a empresa estaria disposta a investir mais de US$ 500 milhões em uma instalação dedicada ao KC-390 nos EUA, caso houvesse viabilidade de negócio. 

Em 24 de setembro, o vice-presidente de Estratégia de Mercado e Produto da Embraer, Alvadi Serpa Junior, indicou Melbourne, na Flórida, onde a empresa já monta jatos executivos, como possível sede da fábrica, condicionada a uma encomenda expressiva do governo americano.

Uma proposta desse tipo permitiria apresentar o avião também como fonte de investimento, atividade industrial e empregos nos Estados Unidos. A associação com a Northrop Grumman reforça essa dimensão. Como análise, esse seria um argumento mais consistente para mobilizar interesse em Washington do que a afinidade pessoal entre dirigentes brasileiros e americanos.

A orientação pública de Trump oferece um ponto de convergência: a ordem executiva de 9 de abril de 2025 sobre aquisições de defesa enfatiza rapidez, inovação e revitalização da base industrial americana. A proposta da Embraer poderia ser defendida à luz desses objetivos.

Para o Brasil, o valor de uma eventual montagem nos EUA dependeria da divisão industrial negociada. Seria necessário avaliar quais atividades de engenharia, componentes, propriedade intelectual e receitas permaneceriam no País. Uma venda internacional relevante pode beneficiar a BID, mas seus efeitos não são iguais em qualquer arranjo de produção.

Onde termina o acesso político e começa a decisão de compra
Uma eventual atuação de Eduardo poderia ajudar a colocar o projeto na agenda. A conversão desse acesso em aquisição dependeria de necessidade operacional reconhecida, desenvolvimento e demonstração da configuração proposta, custos de implantação e sustentação e disponibilidade de recursos. A discussão orçamentária também passa pelo Congresso americano, como mostram as audiências públicas da USAF sobre suas prioridades de modernização.

A apresentação como complemento ao KC-46 pode reduzir a percepção de confronto direto com um programa existente, mas não elimina a disputa por orçamento. Mesmo um avião com funções adicionais precisa demonstrar por que sua incorporação oferece vantagem diante de outras formas de atender à missão. 

Tarifaço e mercado interno: o teste do acesso político
O raciocínio aplicado ao KC-390 vale também para um problema mais imediato da BID: as tarifas americanas sobre produtos brasileiros. Desde 22 de julho, vigora uma sobretaxa de 25% com base na Seção 301 da lei comercial dos EUA, justificada pelo USTR com o Pix, a taxação do etanol americano e falhas no combate à corrupção e ao desmatamento. Somada ao adicional de 12,5% ligado à investigação sobre trabalho forçado, a carga chega a 37,5%, segundo a Taurus. Partes de aviões ficaram entre as exceções, o que preserva uma parcela das exportações da Embraer, mas as armas leves e aeronaves militares não.

Uma vitória de Flávio no dia 25 poderia mudar o quadro. Como as tarifas de 2025 nasceram vinculadas à situação de Jair Bolsonaro, um governo alinhado a Washington teria mais condições de negociar um acordo comercial amplo, e o acesso de Eduardo ajudaria a abrir portas. A redução, nesse caso, decorreria de um entendimento soberano entre Estados, não de afinidades pessoais com empresas, e poderia exigir concessões brasileiras concretas nos temas que fundamentam a Seção 301.

Por outro lado, para a Taurus e para as demais empresas que produzem armamento leve, um eventual governo Flávio poderia oferecer ainda uma compensação doméstica. Em agosto, o deputado Marcos Pollon (PL-MS), integrante da equipe do candidato, defendeu como "primeiro passo" a revogação dos decretos de armas editados por Lula. Em seguida viria uma nova lei para substituir o Estatuto do Desarmamento, com critérios objetivos para aquisição e porte e a recomposição das prerrogativas de caçadores, atiradores desportivos e colecionadores (CACs). A proposta não consta do programa registrado no TSE, mas indica a disposição do grupo político do candidato.

O histórico recente mostra como o mercado reage a essas regras. Segundo o Sistema Nacional de Armas (Sinarm), da Polícia Federal, os registros chegaram a 185.497 em 2021 e a 135.334 em 2022. Com as restrições adotadas a partir de 2023, caíram 80%, para 28.328, o menor número desde 2004. A receita da Taurus no Brasil recuou 70,5% no quarto trimestre de 2023, e o presidente da empresa, Salesio Nuhs, afirmou que o mercado interno "simplesmente não existiu" naquele ano. Com as exportações para os Estados Unidos encarecidas pela tarifa, a reativação da demanda interna funcionaria como alternativa parcial.

O efeito, porém, teria limites. Em 2021, o Brasil respondia por apenas 8% a 10% da produção da Taurus, de modo que o mercado interno complementaria as vendas americanas, mas não as substituiria. Regras fixadas por decreto também podem ser revertidas rapidamente, como ocorreu em 2023, e uma nova lei dependeria do Congresso e de eventuais questionamentos no Supremo.

Indícios relevantes e compromissos ainda abertos
A participação do irmão do candidato e de um ex-secretário com larga experiência no setor constitui um indício relevante para compreender a direção em discussão. Isso não equivale, entretanto, à confirmação de que todas as propostas foram incorporadas pela candidatura.

Em reportagem de 29 de setembro sobre uma possível reforma do Itamaraty, a Folha de S.Paulo registrou que a campanha declarou que nem Eduardo Bolsonaro nem Degaut falavam pelo candidato. A manifestação ocorreu no contexto da política externa e não elimina o valor analítico das declarações, mas exige atribuir aos próprios autores as ideias apresentadas e distingui-las dos compromissos oficiais de Flávio.

Também permanecem lacunas materiais. A análise dos programas publicada pelo Forças Terrestres em 11 de setembro apontou a ausência, no documento de Flávio, de meta orçamentária específica para defesa, prioridades de plataformas e uma política detalhada para a BID. A promessa de duplicar investimentos, observou o portal, refere-se à segurança pública, não ao orçamento militar.

Para a indústria, a questão decisiva será como a orientação anunciada se converterá em demanda previsível. Um compromisso com modernização ganha alcance industrial quando define recursos, prazos e condições para desenvolver, produzir e sustentar equipamentos. Sem essas escolhas, ainda não é possível projetar encomendas ou identificar empresas beneficiadas.

Direção provável: tecnologia, capacidade militar e fortalecimento da BID
Os dados conhecidos permitem, portanto, reconhecer uma direção provável: tecnologia aplicada à segurança, valorização da capacidade militar e interesse, expresso por interlocutores próximos, em fortalecer a base industrial de defesa. 

Degaut reúne experiência documentada em instrumentos de apoio à BID. Eduardo dispõe de acesso político e já participou da promoção do KC-390 no exterior; a Embraer possui uma iniciativa industrial concreta nos Estados Unidos e a Taurus, além de já estar estabelecida neste país, poderia se beneficiar tanto de uma negociação tarifária quanto da reabertura do mercado interno. 

Esses elementos sustentam a hipótese de uma diplomacia de defesa mais ativa em favor das empresas brasileiras. A confirmação dependerá da apresentação, pela própria candidatura, das prioridades e dos meios para executar essa orientação.

28 setembro, 2026

Da falange ao algoritmo, a guerra certamente mudou. E a Defesa?


 
*Luiz Alberto Cureau Jr. - 28/09/2026

A história da guerra é, em grande medida, a história da adaptação. Quando lutar isoladamente deixou de ser suficiente, surgiram formações capazes de transformar homens em força organizada. Macedônios combinaram falanges, cavalaria e infantaria. Romanos acrescentaram flexibilidade, comando e logística.

A lição atravessa o tempo, nenhuma vantagem militar é permanente. Organizações também não sobrevivem apenas do passado.

No século XX, a combinação de armas tornou-se condição para vencer. No século XXI, continua necessária, mas já não é suficiente. O campo de batalha passou a integrar terra, mar, ar, espaço, ambiente cibernético e espectro eletromagnético. Drones observam e atacam. Satélites orientam operações. Inteligência artificial processa dados em velocidade crescente. Sistemas não tripulados, guerra eletrônica, sensores e redes encurtam o tempo entre detectar, decidir e agir.

Isso muda também o papel da indústria de defesa.

Já não basta fabricar uma excelente plataforma isolada. Um blindado, aeronave, navio ou míssil será tão eficaz quanto sua capacidade de comunicar, receber dados, operar sob interferência, proteger seus acessos e integrar-se aos demais meios. A nova combinação de armas é também uma combinação de tecnologias.

Para o Brasil, há aqui uma questão estratégica. Temos empresas, centros de pesquisa, universidades, engenheiros e programas militares. Mas possuir competências dispersas não significa possuir capacidade de combate integrada. Entre tecnologia e poder militar estão doutrina, escala, orçamento, treinamento e integração.

Forças Armadas e Base Industrial de Defesa não podem caminhar em pistas paralelas. A Força precisa indicar o problema operacional, a indústria, transformar a necessidade em solução, a academia, ampliar o conhecimento, e o Estado, assegurar continuidade. Sem demanda previsível, a indústria não investe. Sem indústria nacional robusta, a autonomia militar diminui. E sem doutrina atualizada, até a melhor tecnologia pode ser apenas equipamento caro.

O maior perigo é preparar estruturas para a guerra conhecida enquanto possíveis adversários se preparam para a próxima.

A falange foi revolucionária. A legião também. O carro de combate, o avião e o míssil igualmente. Hoje, a transformação passa pela integração de sensores, dados, inteligência, ciberdefesa, sistemas autônomos e decisão.

A história militar é severa com quem demora a aprender, tecnologia sem doutrina é ferramenta, doutrina sem indústria é intenção, e Forças Armadas sem capacidade de adaptação podem descobrir tarde demais que estavam prontas para a guerra de ontem. 
 
E o Brasil está pronto para a nova era ou ainda joga os dados da Segunda Grande Guerra?
 
 
*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 (Veterano) do Exército Brasileiro, Doutor em Ciências Militares e Bacharel em Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército. Foi comandante do 19º Batalhão de Infantaria Motorizado, comandante do Centro de Capacitação Física do Exército, comandante da 6ª Brigada de Infantaria Blindada e, atualmente, é consultor de Defesa e Clima na Segura.  

13 setembro, 2026

ABIMDE promove fórum nacional sobre aquisições estratégicas para a Defesa

Evento on-line reunirá especialistas para discutir legislação, planejamento, tributação, transferência de tecnologia e instrumentos capazes de aproximar o poder público da Base Industrial de Defesa

 


*
LRCA Defense Consulting - 13/09/2026

A Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (ABIMDE) promoverá, nos dias 16 e 17 de setembro, o 1º Fórum Nacional de Aquisições Estratégicas. Realizado em formato on-line, com transmissão ao vivo, o encontro reunirá militares, juristas e especialistas para examinar os mecanismos que regulam as compras públicas de produtos e sistemas de defesa no Brasil.

A programação aborda um dos pontos mais sensíveis para o fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID): a transformação das necessidades operacionais do Estado em contratos capazes de preservar conhecimento, continuidade produtiva e autonomia tecnológica no País. O fórum tratará tanto dos fundamentos jurídicos quanto das dificuldades práticas enfrentadas pelos órgãos contratantes e pelas empresas.

Aquisições de defesa exigem planejamento de longo prazo
A compra de um sistema militar não pode ser analisada apenas pelo preço ou pela entrega imediata. Projetos de defesa envolvem ciclos prolongados de desenvolvimento, certificação, produção, treinamento, manutenção e atualização. Também podem exigir proteção de informações sensíveis, segurança da cadeia de suprimentos e garantias de fornecimento durante crises internacionais.

A Lei nº 12.598/2012 criou normas especiais para compras, contratações e desenvolvimento de produtos e sistemas de defesa. O marco permite, em determinadas condições, restringir licitações a Empresas Estratégicas de Defesa (EED) ou a produtos desenvolvidos e fabricados no Brasil. Também prevê transferência de conhecimento tecnológico, participação nacional na cadeia produtiva, continuidade produtiva e compensações industriais e tecnológicas.

A relevância desses instrumentos ficou evidente em junho, durante encontro realizado pela ABIMDE e pelo Sistema FIERGS na AEL Sistemas, em Porto Alegre. Na ocasião, representantes da indústria e das Forças Armadas apontaram a falta de informação e a morosidade dos processos como obstáculos à aplicação mais ampla do Termo de Licitação Especial (TLE). O assunto retorna agora em uma programação voltada especificamente à qualificação do relacionamento entre o Estado e a indústria.

Primeiro dia examinará o ambiente jurídico e tributário
A programação de 16 de setembro começará às 9h15, com o tenente-brigadeiro do ar R1 José A. Crepaldi Affonso. Em sua apresentação, o diretor-executivo da ABIMDE traçará um panorama das aquisições estratégicas no Brasil, relacionando defesa, soberania nacional e autonomia estratégica. Também abordará o papel da BID, as mudanças no ambiente das contratações e as oportunidades abertas para empresas e para a Administração Pública.

Às 10h15, Monique Rocha Furtado apresentará uma introdução às contratações de defesa e segurança sob a perspectiva da Lei nº 14.133/2021. A exposição discutirá as diferenças entre uma contratação comum e uma contratação estratégica, as hipóteses jurídicas aplicáveis, as peculiaridades ligadas à segurança nacional e as possibilidades oferecidas pela nova Lei de Licitações.

Na sequência, às 11h15, André Jansen e João Vianna analisarão a Lei nº 12.598/2012 como marco jurídico de fomento à BID. A apresentação tratará da estrutura jurídica do setor, dos microssistemas de aquisição de defesa e do papel do governo na implementação dos instrumentos criados pela legislação.

As atividades serão retomadas às 14h, quando Angelina Leonez falará sobre o planejamento das contratações estratégicas. Entre os temas previstos estão a fase preparatória, a governança, a análise de riscos e o alinhamento entre a necessidade operacional, o objeto contratado e a estratégia de aquisição.

Às 15h, João Vianna apresentará o TLE como ferramenta de fomento à BID, com base na experiência do Exército Brasileiro. A exposição detalhará a lógica, a estrutura e as etapas do procedimento, além de examinar o Catálogo de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa e dados sobre a aplicação do instrumento.

O primeiro dia terminará com a apresentação de Luis Carlos Szymonowicz, das 16h às 17h, sobre a reforma tributária e os incentivos aplicáveis ao setor de defesa. Serão analisados o RETID, o tratamento das Empresas de Defesa e das Empresas Estratégicas de Defesa, o Anexo XI, o split payment, os créditos acumulados, o risco de formação de estoques tributários durante a transição e os efeitos sobre exportações, drawback e contratos públicos de longo prazo.

Segundo dia abordará tecnologia e novos modelos de contratação
O segundo dia começará às 9h com João Gabriel Álvares, que tratará das compensações comerciais, industriais e tecnológicas nas aquisições estratégicas. A apresentação examinará como contrapartidas negociadas em grandes contratos podem contribuir para internalizar tecnologias, gerar capacidade industrial no País e reduzir dependências externas.

Às 10h, Monique Rocha Furtado voltará ao fórum para abordar sanções administrativas, responsabilização, prevenção de passivos e boas práticas institucionais. O tema é particularmente relevante em contratos de defesa, nos quais falhas de execução podem afetar capacidades operacionais e programas de longa duração.

Às 11h, André Jansen explicará o funcionamento das contratações governo a governo, conhecidas pela sigla G2G. A exposição discutirá vantagens, limites e oportunidades para a indústria brasileira, assim como a compatibilização desses acordos com os interesses estratégicos do Estado.

No período da tarde, Madeline Rocha Furtado tratará, às 14h, da gestão de contratos de terceirização de mão de obra no setor de defesa. A palestra examinará riscos de execução, fiscalização, responsabilização e governança em contratos considerados sensíveis.

Às 15h, Renila Bragagnoli abordará a integridade no setor, com foco na prevenção de fraudes e conflitos de interesse, nos controles internos e na construção de uma cultura de conformidade. Em seguida, às 16h, João Vianna apresentará os fundamentos do diálogo competitivo, suas fases, critérios de julgamento e possibilidades de aplicação nas contratações estratégicas.

Painel encerrará os debates sobre a relação público-privada
O fórum será concluído com um painel conduzido por João Vianna, Madeline Rocha Furtado e pelo brigadeiro Crepaldi. Sob o título “Diálogos e peculiaridades na relação público-privada”, o encontro deverá reunir os principais pontos discutidos nos dois dias e aproximar as perspectivas da Administração Pública e das empresas. O material de divulgação não informa o horário específico do painel.

A composição da programação indica que o evento pretende ir além da exposição das normas. Ao reunir planejamento, tributação, transferência de tecnologia, integridade, sanções e modalidades especiais de contratação, o fórum aborda diferentes etapas de uma mesma questão: como fazer com que os recursos destinados à Defesa também preservem capacidades produtivas e tecnológicas consideradas essenciais para o País.

Um debate diretamente ligado à autonomia nacional
A capacidade de adquirir no mercado interno reduz vulnerabilidades logísticas, mantém conhecimento técnico no País e permite que equipamentos sejam adaptados às necessidades das Forças Armadas. Essa política, contudo, depende de planejamento orçamentário, segurança jurídica e continuidade dos programas. Sem encomendas previsíveis, empresas que trabalham com produtos de alta complexidade têm dificuldade para manter equipes, fornecedores e linhas de produção.

O 1º Fórum Nacional de Aquisições Estratégicas surge nesse contexto. A iniciativa oferece aos gestores públicos e às empresas uma oportunidade de compreender melhor os instrumentos disponíveis e discutir os pontos que ainda limitam sua utilização. Para a BID, o resultado esperado é uma relação mais clara com o Estado, capaz de transformar compras públicas em capacidade de defesa, desenvolvimento industrial e autonomia tecnológica.

Serviço

Evento: 1º Fórum Nacional de Aquisições Estratégicas da ABIMDE

Datas: 16 e 17 de setembro de 2026

Formato: on-line, com transmissão ao vivo

Inscrições: link divulgado pela organização



05 setembro, 2026

Estudo na revista Science mostra que El Niño nunca foi tão forte em mil anos

Reconstrução publicada na revista Science aponta variabilidade do fenômeno 36,5% maior desde 1984 do que em todo o período entre os anos 1000 e 1850; em Porto Alegre, prosseguem as obras e projetos, enquanto o Comando Militar do Sul já realizou o planejamento de suas próprias medidas preventivas


*LRCA Defense Consulting - 05/09/2026

Passados quase dois meses da última reportagem da LRCA Defense Consulting, publicada em 11 de julho sob o título "À espera do novo El Niño: o Rio Grande do Sul entre a ciência, a prevenção e a capacidade de resposta", dois fatos novos justificam voltar ao tema. O primeiro é científico: um estudo publicado em 27 de agosto na revista Science reconstituiu mil anos de temperatura do Pacífico equatorial a partir de corais das Ilhas Galápagos e concluiu que os episódios de El Niño das últimas quatro décadas são os mais fortes de todo o período analisado, com indícios de que a intensificação tem origem humana. O segundo é local: um levantamento técnico do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS), de 1º de setembro, revela que o sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre, formado pelo Muro da Mauá, diques e casas de bombas, segue apenas parcialmente recuperado desde a catástrofe de 2024.

O que os corais de Galápagos revelam sobre os últimos mil anos
A pesquisa foi conduzida por Julia Cole, do Departamento de Ciências da Terra e do Ambiente da Universidade de Michigan, com colaboração de cientistas da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara. A equipe coletou 13 amostras de esqueletos de coral, vivos e fósseis, nas Ilhas Galápagos, região situada no ponto de origem da formação do El Niño. Como os corais incorporam ano a ano, em seu esqueleto de carbonato de cálcio, elementos-traço da água do mar ao redor, a proporção de estrôncio e a razão isotópica do oxigênio-18 registradas em cada camada funcionam como um termômetro histórico do oceano.

O resultado, segundo os autores, é uma das reconstruções mais confiáveis já produzidas sobre a variabilidade do fenômeno: a oceanógrafa Kim Cobb, que não participou do estudo, classificou o trabalho, em entrevista à CNN, como próximo de um "padrão-ouro". Os dados mostram que a variabilidade do El Niño desde 1984 é 36,5% maior do que em todo o período entre os anos 1000 e 1850, e que os eventos das últimas quatro décadas superam em intensidade qualquer outro registrado no milênio estudado. Para Julia Cole, a coincidência entre esse salto e o aquecimento global de origem humana não parece casual: "Se alguém questionar essa conclusão, eu gostaria de saber qual seria a explicação alternativa", disse a pesquisadora à revista Science.

O estudo recupera, para efeito de comparação histórica, o custo de dois episódios recentes: o El Niño de 1982 e 1983, que provocou enchentes no Quênia e no Peru e seca na Indonésia e no Brasil, com perdas estimadas em até US$ 4 trilhões à economia global; e o de 1997 e 1998, que resultou em 23 mil mortes por doenças e desastres climáticos ao redor do mundo. Segundo os pesquisadores, o El Niño em curso já apresenta sinais de poder rivalizar com esses dois episódios em magnitude.

O prognóstico segue piorando desde julho
Os números oficiais também subiram desde a última reportagem da LRCA Defense Consulting. Em 29 de junho, o primeiro boletim conjunto de Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), Serviço Geológico do Brasil (SGB) e Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) já apontava probabilidade superior a 90% de o fenômeno persistir até pelo menos o início de 2027, com alta chance de um El Niño muito forte. Em 9 de julho, o Climate Prediction Center, da National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa), elevou de 63% para 81% a chance de o evento atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026.

Já em julho, a força do novo padrão climático se manifestou na prática: entre os dias 26 e 28, a Defesa Civil do Rio Grande do Sul emitiu alerta para tempestades com granizo, rajadas de vento acima de 90 quilômetros por hora e acumulados de até 200 milímetros de chuva em 48 horas, colocando em monitoramento permanente os rios Uruguai, Jacuí e Ibirapuitã. Boletins mais recentes de previsão para setembro, mês em que o fenômeno segue se fortalecendo, indicam chuva frequente e risco de temporais em diversas regiões gaúchas, com o pico do El Niño projetado para a transição entre a primavera e o início do verão, podendo atingir, segundo alguns modelos, intensidade inédita.

Porto Alegre: a defesa contra cheias avança, mas segue incompleta
O dado mais sensível para o Rio Grande do Sul, porém, é local. Segundo o pesquisador Rodrigo Paiva, do IPH/UFRGS, ouvido em reportagem publicada em 1º de setembro, é difícil afirmar se uma nova cheia terá magnitude igual à de 2024, mas o novo El Niño exige a aceleração de medidas preventivas. Paiva reconhece avanços: investimentos em Defesa Civil, em sistemas de previsão e na reconstrução de pontes e estradas, estas projetadas com maior resiliência a eventos climáticos extremos. A principal vulnerabilidade, no entanto, persiste na capital gaúcha.

De acordo com o pesquisador, o sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre, composto pelo Muro da Mauá, diques e casas de bombas, foi severamente danificado em 2024 e ainda não está totalmente recuperado. Apresentações do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) mostram que os esforços de intervenção foram grandes, mas apenas parte das falhas foi corrigida, enquanto a maioria dos trabalhos necessários segue com obras em andamento ou ainda em fase de projeto.

E na Defesa? Nos EUA e no Brasil, boletins do El Niño tendem a ser tratados como indicador de ameaça militar
Se a vulnerabilidade civil de Porto Alegre segue exposta, o mesmo alerta vale, em outra dimensão, para as próprias Forças Armadas. Em 28 de julho, o jornal norte-americano Defense News publicou artigo de opinião de John Conger, ex-subsecretário adjunto principal de Defesa dos Estados Unidos para assuntos orçamentários, defendendo que comandos militares tratem boletins de El Niño como indicador de ameaça, testando com meses de antecedência suas próprias reservas de energia, combustível e água, suas rotas de acesso e seus sistemas de comunicação, além de reforçar a capacidade de socorrer a população civil.

A pergunta tem endereço direto no Rio Grande do Sul, sede do Comando Militar do Sul (CMS), a Grande Unidade do Exército Brasileiro com maior efetivo do País (cerca de 50 mil militares, um quarto de toda a Força, distribuídos por 160 organizações militares). O próprio núcleo histórico e administrativo do CMS, na Rua da Praia, em Porto Alegre, foi atingido pela enchente de 2024: o alagamento chegou a cortar a energia do Quartel-General Integrado e a tirar do ar, por um período, os sistemas lógicos então concentrados fisicamente no prédio, sob responsabilidade do Centro de Telemática de Área (CTA).

Questionado por esta reportagem sobre o que mudou desde então, o CMS informou que foi elaborado um plano de evacuação do Quartel-General que prevê a continuidade das operações administrativas e de comando no 3º Regimento de Cavalaria de Guarda (3º RCG), organização militar da Região Metropolitana de Porto Alegre. Quanto à infraestrutura de TI, o Comando confirmou que os servidores continuam fisicamente no mesmo local, mas que passou a existir a possibilidade de link com os servidores de outro Comando Militar de Área, dando redundância à estrutura e evitando que uma nova interrupção local volte a tirar os sistemas do ar. 

O CMS acrescentou que as demais organizações militares sob seu comando também reanalisaram e melhoraram os planos de contingência próprios para eventos climáticos severos, reforçando ainda as capacidades de apoio à população civil. Ou seja: assim como a defesa física de Porto Alegre contra cheias, a defesa da própria continuidade administrativa do Exército no Rio Grande do Sul já foi posta à prova em 2024 e, segundo o Comando, foi proativamente redesenhada desde então, permanecendo sob constante monitoramento.

O que muda com esses dois achados
Antes, o alerta sobre o El Niño no Rio Grande do Sul se apoiava em boletins de probabilidade e no precedente direto de 2024. Agora, um estudo publicado em revista científica de referência sugere que o próprio fenômeno está estruturalmente mais forte do que em qualquer momento dos últimos mil anos, e que essa mudança tende a ser permanente, não um pico isolado. 

Ao mesmo tempo, duas vulnerabilidades identificadas em 2024, a defesa física de Porto Alegre contra cheias e a continuidade administrativa do Comando Militar do Sul, aparecem em situações distintas: a primeira, ainda sob ameaça; a segunda, conforme o próprio CMS, já planejada e reforçada.


Fontes: revista Science; Julia Cole (Universidade de Michigan); CNN; Inmet; Inpe; ANA; Cemaden; SGB; Sedec; Noaa/Climate Prediction Center; Defesa Civil do Rio Grande do Sul; Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS; DMAE; LRCA Defense Consulting.

02 setembro, 2026

PLOA 2027 movimenta bilhões entre fabricantes de aviões, mísseis, blindados, drones, fragatas e submarinos

Proposta orçamentária do Governo Federal destina R$ 20,4 bilhões ao programa Defesa Nacional; Embraer e os estaleiros do programa de submarinos e das fragatas Tamandaré concentram os maiores contratos já confirmados com a indústria privada, mas peça ainda depende da aprovação do Congresso Nacional



*LRCA Defense Consulting - 02/09/2026

O Governo Federal encaminhou ao Congresso Nacional, em 31 de agosto, o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027, com previsão de R$ 147,68 bilhões para o Ministério da Defesa. Desse total, R$ 20,43 bilhões estão classificados no programa orçamentário Defesa Nacional, no qual estão concentradas diversas ações de reaparelhamento, manutenção operacional e desenvolvimento tecnológico das Forças Armadas. Um levantamento produzido a partir do Volume IV do PLOA mostra que parcela relevante desses recursos está concentrada em poucas ações orçamentárias relacionadas a grandes programas de reaparelhamento, alguns deles com contratos já firmados com empresas da Base Industrial de Defesa (BID).. Por se tratar de uma proposta, o texto ainda será analisado pela Comissão Mista de Orçamento, poderá receber emendas parlamentares e só terá redação final depois da votação no Congresso, prevista para o fim do ano.

Aeronáutica concentra grandes projetos, com Gripen, KC-390, helicópteros e A-29 
O maior item individual do orçamento de Defesa é o Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro (SISCEAB), com R$ 3,31 bilhões, dos quais R$ 1,80 bilhão classificado como investimento. Logo atrás vem o projeto FX-2, responsável pela aquisição dos caças F-39 Gripen, com R$ 2,89 bilhões, praticamente todo (97%) em investimento. O caça é fabricado pela sueca Saab em parceria com a Embraer, que monta as aeronaves em Gavião Peixoto (SP) e entregou em março o primeiro exemplar produzido em solo brasileiro, um marco que coloca o País entre o pequeno grupo de nações capazes de montar aeronaves de combate supersônicas. O contrato atual prevê 36 unidades, das quais 15 devem sair da linha brasileira. Em julho, as duas empresas assinaram, em Farnborough, um acordo preliminar para viabilizar a produção, em Gavião Peixoto, de outros 20 caças Gripen. O acordo, porém, não representa uma encomenda adicional da FAB e, portanto, não permite afirmar que a frota brasileira chegará a 56 aeronaves.

A Aeronáutica também aparece no PLOA com R$ 571,8 milhões para a aquisição do cargueiro KC-390 (Embraer), R$ 413 milhões para os helicópteros leves H125 Esquilo (fabricados pela Helibras, subsidiária da Airbus Helicopters, em Itajubá, MG) e R$ 337,6 milhões para a disponibilização dos A-29 Super Tucano (também Embraer) no âmbito do programa Sisdabra.

Marinha reforça os programas de submarinos e frasgatas
O PLOA reserva R$ 1,43 bilhão para o "Desenvolvimento de Sistemas de Tecnologia Nuclear da Marinha", quase integralmente (98%) classificado como investimento. O valor está associado ao programa nuclear da Marinha e constitui um dos principais componentes tecnológicos necessários ao futuro submarino de propulsão nuclear Álvaro Alberto, desenvolvido no âmbito do Prosub, que reúne a Marinha do Brasil, a francesa Naval Group e o estaleiro Itaguaí Construções Navais (ICN). A dotação chega depois de um período de turbulência financeira: em março, a própria Marinha alertou sobre risco de paralisação parcial do Complexo Naval de Itaguaí sem um aporte extra de cerca de R$ 1 bilhão, e em julho o cronograma de lançamento do submarino foi adiado para 2038, atraso atribuído pela Marinha à falta de previsibilidade orçamentária dos anos anteriores.

O Prosub soma ainda R$ 388,8 milhões para a construção do próprio submarino nuclear, R$ 248,0 milhões para os submarinos convencionais da classe Riachuelo e R$ 215,75 milhões para a infraestrutura do estaleiro, os três praticamente 100% classificados como investimento.

Outro contrato relevante da Marinha é o das fragatas da classe Tamandaré, com R$ 900 milhões previstos para 2027. A dotação está vinculada à disponibilização de uma fragata do programa, cuja construção é realizada pela SPE Águas Azuis, formado pela alemã ThyssenKrupp Marine Systems (TKMS), pela Embraer Defesa & Segurança e pela Atech, que constroem as embarcações no estaleiro de Itajaí (SC) sob gestão da EMGEPRON.

Exército distribui recursos entre blindados, mísseis, drones e SISFRON
No Exército, o maior projeto individual é a Implantação do Projeto Forças Blindadas, com R$ 1,02 bilhão (93% investimento) e produto declarado de 126 blindados adquiridos; o PLOA não identifica fabricante nem modelo. O dado chama atenção porque a Força assinou, em 31 de agosto, um dia antes do envio do PLOA ao Congresso, o contrato do VBC Centauro II BR, dentro de um programa que prevê até 221 viaturas ao longo do tempo. Não é possível confirmar, a partir do texto orçamentário, se a dotação de 126 unidades corresponde a esse mesmo contrato.

Em seguida vem o sistema ASTROS-FOGOS, com R$ 671,4 milhões (96% investimento); a Implantação do Sistema de Aviação do Exército e Drones, com R$ 520 milhões; e o SISFRON, com R$ 467 milhões voltados a sensores, radares e integração de sistemas de monitoramento de fronteira. O PLOA não identifica fabricantes em nenhum item de aquisição do documento; o ASTROS-FOGOS, porém, é historicamente produzido pela Avibras Aeroco, única fornecedora do sistema no País.

Defesa antiaérea de média altura ainda não tem rubrica própria
Um programa que não aparece no PLOA 2027 é o de defesa antiaérea de média altura. Por diretriz aprovada pelo Exército em dezembro de 2025 e divulgada em janeiro de 2026, o Exército definiu o sistema EMADS, da europeia MBDA, equipado com o míssil CAMM-ER (o mesmo das fragatas Tamandaré), para suprir uma lacuna histórica: hoje a Força só dispõe de meios de baixa altura, como o RBS-70 NG e o blindado Gepard. Até a elaboração do PLOA, no entanto, o contrato ainda não tinha data nem valor definidos, e nenhuma rubrica do orçamento de 2027 faz referência ao sistema ou à MBDA; os itens de artilharia antiaérea do Exército somam, ao todo, pouco mais de R$ 39 milhões, valor incompatível com uma aquisição desse porte. É um programa a acompanhar nos próximos créditos suplementares ou na LOA definitiva.

Dotações das estatais são majoritariamente destinadas a pessoal e custeio 

Entre as empresas estatais vinculadas ao Ministério da Defesa, a AMAZUL recebe a maior dotação (R$ 664,9 milhões) e a IMBEL, a segunda maior (R$ 543,2 milhões), mas a composição de ambas é dominada por pessoal e custeio administrativo; a AMAZUL destina apenas R$ 275 mil a investimento, e a IMBEL, R$ 67,5 milhões. Isso indica que, apesar dos valores absolutos, o potencial de movimentação da cadeia produtiva privada por meio dessas duas estatais é limitado em comparação aos grandes projetos de aquisição das Forças. Assim, os valores totais destinados às duas empresas não podem ser interpretados, isoladamente, como volume de novos contratos de fornecimento à indústria.

O quadro traçado pelo PLOA 2027 confirma uma tendência observada em orçamentos recentes: aeronaves de combate e tecnologia naval de propulsão nuclear concentram os maiores volumes de recursos, à frente de programas terrestres como o ASTROS-FOGOS e o SISFRON. Como projeto de lei, porém, o texto está sujeito a emendas parlamentares e alterações durante a tramitação no Congresso. Depois de aprovado e sancionado, a execução dos valores dependerá ainda da programação financeira e da eventual ocorrência de bloqueios ou contingenciamentos.

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