O El Niño de 2026/2027 entrou em uma nova fase. O que até poucos meses atrás era tratado principalmente como uma previsão climática passou a orientar decisões concretas sobre agricultura, abastecimento, energia, recursos hídricos, infraestrutura e preparação militar. E, no Rio Grande do Sul, antes mesmo de o fenômeno alcançar a máxima intensidade projetada, novos temporais voltaram a provocar elevações significativas de rios e risco de inundações.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) considera o fenômeno firmemente estabelecido e prevê intensidade muito forte. No Brasil, os organismos responsáveis pelo Painel El Niño 2026-2027 mantêm a perspectiva de impactos particularmente distintos entre as regiões: excesso de chuva no Sul e condições mais secas e quentes em grande parte do centro-norte do País.
Desde a última reportagem da LRCA Defense Consulting sobre o assunto, publicada em 5 de setembro, surgiram elementos importantes. A NOAA aumentou a probabilidade de um evento de intensidade histórica, o CEMADEN delimitou melhor o período provável de máxima temperatura do Pacífico, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) colocou em execução um plano específico para enfrentar os impactos do El Niño até março de 2027 e, no Rio Grande do Sul, o risco hidrológico voltou a se materializar.
Ao mesmo tempo, o Comando Militar do Sul (CMS), diretamente marcado pela catástrofe de 2024, apresenta um conjunto de mudanças estruturais, logísticas e operacionais destinadas a enfrentar novos eventos climáticos extremos.
75% de possibilidade de um El Niño histórico
O Climate Prediction Center (CPC), da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), informa que o El Niño continua se fortalecendo. Em agosto, a anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 alcançou +1,8 °C; na Niño 3, +2,5 °C; e na Niño 1+2, +3,4 °C. No Pacífico equatorial oriental, as anomalias ultrapassaram +3,0 °C.
A NOAA mantém probabilidade superior a 90% de que o fenômeno alcance intensidade muito forte durante o outono e o inverno de 2026/2027 no Hemisfério Norte. Mas a atualização de setembro acrescentou um dado especialmente relevante: para o trimestre outubro, novembro e dezembro, existe agora 75% de probabilidade de o evento alcançar RONI trimestral igual ou superior a +2,5 °C e superar em intensidade os El Niños anteriores do registro utilizado pela NOAA, iniciado em 1950.
A previsão oficial atribui ainda 100% de probabilidade de permanência do El Niño até o trimestre janeiro, fevereiro e março de 2027. Depois disso, a probabilidade cai gradualmente: 97% em fevereiro, março e abril; 82% em março, abril e maio; e 43% em abril, maio e junho.
A intensidade do fenômeno, entretanto, não determina automaticamente a magnitude de seus impactos em cada região. Outros padrões oceânicos e atmosféricos podem reforçar, deslocar ou atenuar seus efeitos. Um El Niño excepcionalmente forte aumenta a probabilidade de impactos característicos do fenômeno, mas não permite determinar antecipadamente a intensidade de cada episódio de chuva, seca ou calor.
CEMADEN projeta máxima entre novembro e janeiro
No Brasil, o CEMADEN acrescenta outra informação importante. No início de setembro, a região Niño 1+2, mais próxima às costas do Peru e do Equador, apresentava anomalia semanal de +3,9 °C.
Embora ainda exista incerteza sobre o valor máximo que será alcançado pela temperatura da superfície do mar, todos os modelos considerados pelo órgão enquadram o episódio na categoria de El Niño muito forte, com anomalias superiores a +2,0 °C na média trimestral.
O CEMADEN situa atualmente o período de máxima temperatura entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Isso significa que o intervalo de maior preocupação avança pelo verão e reforça a necessidade de manutenção das medidas preventivas por vários meses.
Essas projeções complementam o quadro apresentado pela LRCA Defense Consulting em 5 de setembro, quando uma reconstrução publicada na revista Science mostrou que a variabilidade do El Niño desde 1984 é 36,5% maior do que no período entre os anos 1000 e 1850.
A questão, portanto, deixou de ser apenas se haverá um El Niño muito forte. Passou a ser como País, estados, empresas e Forças Armadas utilizarão a antecedência proporcionada pelos modelos climáticos para reduzir seus impactos.
O Sul já tem a única Sala de Crise ativa da ANA
A mudança mais importante ocorrida desde a elaboração inicial desta reportagem talvez esteja na preparação dos recursos hídricos.
Em 14 de setembro, a ANA apresentou o Plano de Preparação para o Enfrentamento dos Impactos do El Niño 2026/2027 sobre os Recursos Hídricos do Brasil. O documento estabelece ações estratégicas, operativas e regulatórias para administrar riscos até março de 2027.
O Plano trabalha com três níveis de acompanhamento: Salas de Crise, destinadas às bacias onde eventos hidrológicos críticos já estão instalados; Salas de Acompanhamento, voltadas a sistemas hídricos estratégicos; e reuniões preventivas de avaliação das condições hidrometeorológicas, que podem ser transformadas em Salas de Crise se houver agravamento.
Há um dado particularmente significativo para o Rio Grande do Sul: a Sala de Crise da Região Sul é atualmente a única Sala de Crise ativa da ANA no País. Seu foco está nas cheias, inundações graduais, enxurradas e segurança de barragens diante do excesso de precipitação.
A ANA também poderá adotar condições especiais de operação de reservatórios quando houver risco de cheias ou redução expressiva dos volumes armazenados. O Plano prevê ainda briefings técnicos mensais ao Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (CENAD) e à Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC), procurando antecipar decisões de preparação, resposta e assistência humanitária.
Trata-se de uma mudança importante de abordagem: o gerenciamento do El Niño passa da observação meteorológica para uma estrutura institucional de acompanhamento e intervenção.
No Rio Grande do Sul, o risco já voltou aos rios
Enquanto os modelos projetam a máxima intensidade do fenômeno para os próximos meses, o Rio Grande do Sul voltou a enfrentar, neste fim de semana, condições meteorológicas severas.
A Defesa Civil estadual havia advertido que os acumulados entre 19 e 21 de setembro poderiam superar pontualmente 230 milímetros na metade norte do Estado, com possibilidade de mais de 150 milímetros em apenas 12 horas em algumas áreas. Também foram previstas tempestades, granizo e rajadas superiores a 100 quilômetros por hora.
Na tarde de 21 de setembro, a situação já aparecia nos rios. A Defesa Civil informou elevações significativas de arroios e cursos d'água da Região Hidrográfica do Guaíba. O rio Caí, em Nova Palmira, e o rio Paranhana, em Igrejinha, já apresentavam limiares de inundação.
As projeções hidrológicas indicavam risco de inundação também no Jacuí, entre Dona Francisca e Cachoeira do Sul; no Taquari, a partir de Santa Tereza; no Caí; no Paranhana; e no Sinos, em Campo Bom.
Um episódio meteorológico específico não pode ser atribuído isoladamente ao El Niño. O quadro atual, porém, demonstra concretamente o tipo de pressão sobre rios, infraestrutura, energia, transportes, Defesa Civil e capacidade de resposta que torna particularmente sensível a previsão de aumento das chuvas no Sul durante um evento muito forte.
Agricultura e abastecimento passam à prevenção
No campo, o Ministério da Agricultura e Pecuária recebeu da Embrapa 163 medidas de gestão de riscos climáticos para a safra 2026/2027. Elaborado por cerca de 50 profissionais da Embrapa, com participação do INMET, o conjunto inclui 14 medidas transversais, 139 específicas por segmento produtivo e dez ações de apoio a políticas públicas.
A proposta vai além do evento atual e procura transformar a experiência com o El Niño em capacidade permanente de adaptação agroclimática.
O governo também autorizou a Conab a empregar até R$ 500 milhões na compra, por leilões públicos, de arroz longo fino em casca da safra 2025/2026 para formação de estoques públicos. A iniciativa está entre as ações destinadas a mitigar impactos associados ao El Niño.
O movimento é especialmente significativo para o Rio Grande do Sul, principal produtor de arroz do País e, simultaneamente, uma das áreas mais expostas ao excesso de precipitação projetado para os próximos meses.
Energia: 1,8 GW adicionais antes do período crítico
O setor elétrico também antecipou decisões. Em julho, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), seguindo recomendações do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), aprovou a antecipação do suprimento de cinco contratos de reserva de capacidade, acrescentando 1,8 GW ao Sistema Interligado Nacional a partir de 1º de setembro.
O Ministério de Minas e Energia relacionou a medida à segurança do atendimento diante do El Niño e das incertezas geopolíticas sobre os preços dos combustíveis.
Segundo o governo, o fenômeno pode reduzir a disponibilidade de energia produzida na Região Norte e elevar a carga do sistema em razão das temperaturas mais altas. O ONS acompanha continuamente precipitação, temperatura, nebulosidade e ventos, incorporando os possíveis efeitos do El Niño ao planejamento da operação.
O risco econômico vai além das fronteiras
A dimensão internacional amplia a preocupação. Análise da S&P Global Market Intelligence trata um eventual Super El Niño como choque de oferta capaz de atuar simultaneamente por três canais: produção agrícola, estresse no setor de energia e interrupções na logística e nas operações portuárias.
A combinação pode pressionar preços, cadeias de suprimento e crescimento econômico, com efeitos diferentes conforme a exposição de cada país e setor.
Para o Brasil, isso significa que os impactos não precisam ocorrer apenas onde chover demais ou de menos. Problemas em safras estrangeiras, portos, energia ou fertilizantes podem chegar ao País por meio dos preços e do comércio internacional, enquanto danos internos a rodovias, ferrovias, linhas de transmissão e terminais portuários podem afetar exportações e abastecimento.
O El Niño passa, assim, a funcionar como multiplicador de riscos já existentes.
CMS transforma as lições de 2024 em capacidade permanente
É nesse cenário que a preparação militar ganha importância estratégica. A enchente de 2024 mostrou que as Forças Armadas podem ser chamadas a realizar uma operação humanitária de enorme escala ao mesmo tempo em que suas próprias instalações, comunicações, acessos e sistemas são atingidos.
Informações obtidas pela LRCA Defense Consulting junto ao Comando Militar do Sul mostram que as lições daquela crise estão sendo convertidas em novas estruturas, reposicionamento de material de Engenharia, aquisição de equipamentos, exercícios de apoio à Defesa Civil, treinamento do Estado-Maior, acompanhamento sistemático dos alertas e aperfeiçoamento da capacidade de comando e controle.
Engenharia e transporte recebem novas estruturas
Entre as medidas está a criação da 8ª Companhia de Engenharia de Combate, em São Leopoldo, ativada em 12 de março de 2026.
Segundo o CMS, a unidade deverá contar com meios de Engenharia comprovados na Operação Taquari 2, incluindo pontes móveis e passadeiras, e terá condições de realizar transposição de cursos d'água, reparos de vias e tratamento e purificação de água.
Outra mudança é a 3ª Companhia de Transporte, ativada em 15 de junho no 3º Batalhão de Suprimento, em Nova Santa Rita. A nova organização possui estrutura inicial com 47 militares e 48 viaturas, com a finalidade de garantir pronta resposta em calamidades e apoiar mais de 100 unidades militares na região.
Em uma crise que interrompa pontes e rodovias, capacidade de transporte deixa de ser apenas função logística e passa a constituir elemento central da resposta humanitária.
O CMS também informa o reposicionamento de material de Engenharia, incluindo carregadeira sobre rodas, motores de popa, trator polivalente, embarcação de assalto, coletes salva-vidas e caminhão basculante.
Paralelamente, foi elaborado edital para aquisição de 21 tipos de equipamentos voltados à atuação em ambientes adversos, entre eles botas e macacões impermeáveis, equipamentos de proteção respiratória, coletes salva-vidas, capas de chuva, escadas e material para remoção de entulho.
Treinar antes da cheia
A preparação não se limita à aquisição de meios. A 5ª Divisão de Exército realizou, em São João Batista, Santa Catarina, exercício de apoio à Defesa Civil com aproximadamente 400 militares, cerca de 60 viaturas e um blindado Guarani, integrados a órgãos civis. As situações simuladas envolveram gerenciamento de abrigos, evacuação de escolas e resgate de feridos e pessoas ilhadas.
A 6ª Divisão de Exército, por sua vez, planejou a Operação Jacuí em Eldorado do Sul, município severamente atingido em 2024. O exercício foi concebido para ampliar a cooperação interagências, desenvolver estratégias de resposta rápida e fortalecer a atuação conjunta do Exército, Defesa Civil e autoridades municipais diante de grandes emergências.
O próprio comando precisa continuar funcionando
Talvez a mudança mais importante esteja no nível de comando e controle. O CMS realizou, em seu Centro de Coordenação de Operações, exercício de acionamento do Estado-Maior baseado em cenário fictício de enchentes severas numa região entre as mais atingidas em 2024.
Foram testados o funcionamento completo do centro, a ativação do Centro de Coordenação Civil-Militar, a Sala de Imprensa e a estrutura de videoconferência operacional.
A iniciativa se soma às medidas já informadas anteriormente pelo CMS à LRCA: plano de evacuação do Quartel-General Integrado, possibilidade de continuidade das atividades de comando no 3º Regimento de Cavalaria de Guarda e redundância de tecnologia da informação mediante ligação com servidores de outro Comando Militar de Área.
O objetivo é evitar que a interrupção de energia ou o alagamento de uma instalação paralise o sistema de comando.
O CMS acrescenta ainda o acompanhamento mais intenso e sistemático dos canais de alerta da Defesa Civil e o aprimoramento da capacidade de comando e controle das operações. Na prática, a previsão meteorológica passa a integrar o ciclo de decisão militar antes da emergência, e não apenas depois que o desastre ocorre.
Duas missões ao mesmo tempo
Esse ponto é decisivo. Em um evento extremo, as Forças Armadas precisam cumprir duas tarefas simultâneas: preservar sua própria capacidade operacional e empregar essa capacidade em apoio à população.
Quartéis, depósitos, sistemas de comunicações, energia, água, combustível, hospitais, aeródromos e rotas logísticas também podem ser atingidos. Se a primeira missão falhar, a segunda fica comprometida.
A preparação apresentada pelo CMS indica uma mudança de postura em relação a 2024: criar redundância, distribuir meios, aumentar capacidades de Engenharia e transporte, exercitar o comando e integrar-se antecipadamente à Defesa Civil.
Isso não significa que um novo desastre de magnitude igual ou superior ao de 2024 esteja solucionado de antemão. Significa que parte importante das vulnerabilidades conhecidas foi incorporada ao planejamento.
E há agora uma conexão institucional importante: enquanto o CMS prepara suas estruturas e tropas para enfrentar eventos extremos, a ANA mantém justamente no Sul a única Sala de Crise ativa do País. A preparação militar e a gestão federal dos recursos hídricos passam, portanto, a responder preventivamente ao mesmo cenário de risco.
Da previsão à preparação, e da preparação ao primeiro teste
As reportagens da LRCA Defense Consulting sobre o atual ciclo do El Niño registram uma evolução clara. Em julho, a questão era a aproximação do fenômeno e a capacidade de resposta do Rio Grande do Sul. Em 5 de setembro, a reconstrução publicada na Science mostrou que a variabilidade recente do El Niño ultrapassa a observada ao longo de muitos séculos e recolocou em evidência as vulnerabilidades ainda existentes em Porto Alegre.
Agora, o cenário avançou novamente. A NOAA atribui 75% de probabilidade a um El Niño capaz de superar em intensidade os eventos de seu registro desde 1950; o CEMADEN situa a máxima temperatura entre novembro e janeiro; a ANA colocou em execução um plano nacional de preparação e mantém uma Sala de Crise especificamente para a Região Sul; agricultura, abastecimento e energia já adotaram medidas preventivas; e o CMS transformou parte das lições de 2024 em novas capacidades.
Ao mesmo tempo, antes mesmo do pico projetado, as chuvas de setembro voltam a elevar rios gaúchos a níveis de inundação e colocam diferentes bacias em situação de risco.
A vantagem de 2026 sobre 2024 é que, desta vez, existe uma janela de preparação e parte das instituições já começou a utilizá-la.
O maior risco seria confundir antecedência com garantia de segurança.
A questão que se coloca para o País já não é apenas quando e com que intensidade o El Niño chegará ao pico. É saber se infraestrutura civil, sistemas produtivos, setor energético, Defesa Civil e Forças Armadas conseguirão transformar meses de aviso em resiliência real.
No Sul, esse processo já começou. Os próximos meses mostrarão até onde ele foi suficiente.
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21 setembro, 2026
El Niño se fortalece e Brasil acelera preparação para impactos econômicos, hídricos e militares
05 setembro, 2026
Estudo na revista Science mostra que El Niño nunca foi tão forte em mil anos
Passados quase dois meses da última reportagem da LRCA Defense Consulting, publicada em 11 de julho sob o título "À espera do novo El Niño: o Rio Grande do Sul entre a ciência, a prevenção e a capacidade de resposta", dois fatos novos justificam voltar ao tema. O primeiro é científico: um estudo publicado em 27 de agosto na revista Science reconstituiu mil anos de temperatura do Pacífico equatorial a partir de corais das Ilhas Galápagos e concluiu que os episódios de El Niño das últimas quatro décadas são os mais fortes de todo o período analisado, com indícios de que a intensificação tem origem humana. O segundo é local: um levantamento técnico do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS), de 1º de setembro, revela que o sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre, formado pelo Muro da Mauá, diques e casas de bombas, segue apenas parcialmente recuperado desde a catástrofe de 2024.
O que os corais
de Galápagos revelam sobre os últimos mil anos
A pesquisa foi
conduzida por Julia Cole, do Departamento de Ciências da Terra e do Ambiente da
Universidade de Michigan, com colaboração de cientistas da Universidade da
Califórnia em Santa Bárbara. A equipe coletou 13 amostras de esqueletos de
coral, vivos e fósseis, nas Ilhas Galápagos, região situada no ponto de origem
da formação do El Niño. Como os corais incorporam ano a ano, em seu esqueleto
de carbonato de cálcio, elementos-traço da água do mar ao redor, a proporção de
estrôncio e a razão isotópica do oxigênio-18 registradas em cada camada
funcionam como um termômetro histórico do oceano.
O resultado, segundo os autores, é uma das reconstruções mais confiáveis já produzidas sobre a variabilidade do fenômeno: a oceanógrafa Kim Cobb, que não participou do estudo, classificou o trabalho, em entrevista à CNN, como próximo de um "padrão-ouro". Os dados mostram que a variabilidade do El Niño desde 1984 é 36,5% maior do que em todo o período entre os anos 1000 e 1850, e que os eventos das últimas quatro décadas superam em intensidade qualquer outro registrado no milênio estudado. Para Julia Cole, a coincidência entre esse salto e o aquecimento global de origem humana não parece casual: "Se alguém questionar essa conclusão, eu gostaria de saber qual seria a explicação alternativa", disse a pesquisadora à revista Science.
O estudo recupera, para efeito de comparação histórica, o custo de dois episódios recentes: o El Niño de 1982 e 1983, que provocou enchentes no Quênia e no Peru e seca na Indonésia e no Brasil, com perdas estimadas em até US$ 4 trilhões à economia global; e o de 1997 e 1998, que resultou em 23 mil mortes por doenças e desastres climáticos ao redor do mundo. Segundo os pesquisadores, o El Niño em curso já apresenta sinais de poder rivalizar com esses dois episódios em magnitude.
O prognóstico
segue piorando desde julho
Os números
oficiais também subiram desde a última reportagem da LRCA Defense Consulting.
Em 29 de junho, o primeiro boletim conjunto de Instituto Nacional de
Meteorologia (Inmet), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Agência
Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e
Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), Serviço Geológico do Brasil (SGB) e
Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) já apontava
probabilidade superior a 90% de o fenômeno persistir até pelo menos o início de
2027, com alta chance de um El Niño muito forte. Em 9 de julho, o Climate
Prediction Center, da National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa),
elevou de 63% para 81% a chance de o evento atingir intensidade muito forte
entre outubro e dezembro de 2026.
Já em julho, a força do novo padrão climático se manifestou na prática: entre os dias 26 e 28, a Defesa Civil do Rio Grande do Sul emitiu alerta para tempestades com granizo, rajadas de vento acima de 90 quilômetros por hora e acumulados de até 200 milímetros de chuva em 48 horas, colocando em monitoramento permanente os rios Uruguai, Jacuí e Ibirapuitã. Boletins mais recentes de previsão para setembro, mês em que o fenômeno segue se fortalecendo, indicam chuva frequente e risco de temporais em diversas regiões gaúchas, com o pico do El Niño projetado para a transição entre a primavera e o início do verão, podendo atingir, segundo alguns modelos, intensidade inédita.
Porto Alegre: a
defesa contra cheias avança, mas segue incompleta
O dado mais
sensível para o Rio Grande do Sul, porém, é local. Segundo o pesquisador
Rodrigo Paiva, do IPH/UFRGS, ouvido em reportagem publicada em 1º de setembro,
é difícil afirmar se uma nova cheia terá magnitude igual à de 2024, mas o novo
El Niño exige a aceleração de medidas preventivas. Paiva reconhece avanços:
investimentos em Defesa Civil, em sistemas de previsão e na reconstrução de
pontes e estradas, estas projetadas com maior resiliência a eventos climáticos
extremos. A principal vulnerabilidade, no entanto, persiste na capital gaúcha.
De acordo com o pesquisador, o sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre, composto pelo Muro da Mauá, diques e casas de bombas, foi severamente danificado em 2024 e ainda não está totalmente recuperado. Apresentações do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) mostram que os esforços de intervenção foram grandes, mas apenas parte das falhas foi corrigida, enquanto a maioria dos trabalhos necessários segue com obras em andamento ou ainda em fase de projeto.
E na Defesa? Nos EUA e no Brasil, boletins do El Niño tendem a ser tratados como indicador de ameaça militar
Se a
vulnerabilidade civil de Porto Alegre segue exposta, o mesmo alerta vale, em
outra dimensão, para as próprias Forças Armadas. Em 28 de julho, o jornal
norte-americano Defense News publicou artigo de opinião de John Conger,
ex-subsecretário adjunto principal de Defesa dos Estados Unidos para assuntos
orçamentários, defendendo que comandos militares tratem boletins de El Niño
como indicador de ameaça, testando com meses de antecedência suas próprias
reservas de energia, combustível e água, suas rotas de acesso e seus sistemas
de comunicação, além de reforçar a capacidade de socorrer a população civil.
A pergunta tem endereço direto no Rio Grande do Sul, sede do Comando Militar do Sul (CMS), a Grande Unidade do Exército Brasileiro com maior efetivo do País (cerca de 50 mil militares, um quarto de toda a Força, distribuídos por 160 organizações militares). O próprio núcleo histórico e administrativo do CMS, na Rua da Praia, em Porto Alegre, foi atingido pela enchente de 2024: o alagamento chegou a cortar a energia do Quartel-General Integrado e a tirar do ar, por um período, os sistemas lógicos então concentrados fisicamente no prédio, sob responsabilidade do Centro de Telemática de Área (CTA).
Questionado por esta reportagem sobre o que mudou desde então, o CMS informou que foi elaborado um plano de evacuação do Quartel-General que prevê a continuidade das operações administrativas e de comando no 3º Regimento de Cavalaria de Guarda (3º RCG), organização militar da Região Metropolitana de Porto Alegre. Quanto à infraestrutura de TI, o Comando confirmou que os servidores continuam fisicamente no mesmo local, mas que passou a existir a possibilidade de link com os servidores de outro Comando Militar de Área, dando redundância à estrutura e evitando que uma nova interrupção local volte a tirar os sistemas do ar.
O CMS acrescentou que as demais organizações militares sob seu comando também reanalisaram e melhoraram os planos de contingência próprios para eventos climáticos severos, reforçando ainda as capacidades de apoio à população civil. Ou seja: assim como a defesa física de Porto Alegre contra cheias, a defesa da própria continuidade administrativa do Exército no Rio Grande do Sul já foi posta à prova em 2024 e, segundo o Comando, foi proativamente redesenhada desde então, permanecendo sob constante monitoramento.
O que muda com
esses dois achados
Antes, o alerta sobre o El Niño no Rio Grande do Sul se apoiava em
boletins de probabilidade e no precedente direto de 2024. Agora, um estudo
publicado em revista científica de referência sugere que o próprio fenômeno
está estruturalmente mais forte do que em qualquer momento dos últimos mil
anos, e que essa mudança tende a ser permanente, não um pico isolado.
Ao mesmo tempo, duas vulnerabilidades identificadas em 2024, a defesa física de Porto Alegre contra cheias e a continuidade administrativa do Comando Militar do Sul, aparecem em situações distintas: a primeira, ainda sob ameaça; a segunda, conforme o próprio CMS, já planejada e reforçada.
08 setembro, 2025
Inovação nacional em defesa e segurança: Atech mostra portfólio estratégico e tecnologias críticas na DSEI Londres
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| Programa Fragatas Classe Tamandaré |
*LRCA Defense Consulting - 08/09/2025
A Atech, empresa do Grupo Embraer, anuncia sua participação na DSEI (Defence and Security Equipment International), que acontece em Londres de 9 a 12 de setembro de 2025. A empresa estará no estande ABIMDE N10-240 – North Halls, ao lado de outros importantes representantes da Base Industrial de Defesa do Brasil.
No evento, a Atech apresentará seu portfólio Arkhe, que oferece tecnologias completas para integração de sistemas, comando e controle, missão e combate, cibersegurança, treinamento e sistemas embarcados. As soluções da empresa se destacam por suas capacidades avançadas de integração, inclusive de sistemas legados, e escalabilidade.
Essas soluções dão suporte a operações que
exigem tomada de decisão em tempo real em diferentes domínios (terra, ar, mar e
ciberespaço), do planejamento ao debriefing. Elas se destacam pela segurança na
transmissão de dados e comunicação, processamento de grandes volumes de
informações e antecipação de ameaças por meio da coleta, análise e disseminação
de dados críticos.
A Atech atualmente está presente com suas tecnologias na América do Sul, Índia e Norte da África, e vem ampliando sua participação no mercado internacional. Recentemente, a empresa inaugurou seu primeiro escritório na Europa, em Portugal.
No Brasil, a Atech tem importante participação no desenvolvimento e modernização das capacidades de defesa do país em parceria com as Forças Armadas. Na Marinha do Brasil, participa do Programa Fragatas Classe Tamandaré, fornecendo o sistema de gerenciamento de combate (CMS) e o sistema de gestão integrada da plataforma (IPMS). Também atua no Labgene (Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica), desenvolvendo todos os sistemas de monitoramento, controle e proteção da planta. Outro projeto de destaque é o Sistema Avançado de Gerenciamento de Informações de Tráfego Aéreo e Relatório de Interesse Operacional (SAGITARIO), desenvolvido em parceria com a FAB.
Sobre
Atech
A Atech é uma empresa do Grupo Embraer
amplamente reconhecida como uma “System House” brasileira de Sistemas de Defesa
e Provedora de Soluções de Gerenciamento de Tráfego Aéreo.
Com base em padrões internacionais, a Atech é responsável pelo desenvolvimento do sistema brasileiro de gerenciamento de tráfego aéreo, reconhecido pela ICAO como um sistema de referência mundial.


