Passados quase dois meses da última reportagem da LRCA Defense Consulting, publicada em 11 de julho sob o título "À espera do novo El Niño: o Rio Grande do Sul entre a ciência, a prevenção e a capacidade de resposta", dois fatos novos justificam voltar ao tema. O primeiro é científico: um estudo publicado em 27 de agosto na revista Science reconstituiu mil anos de temperatura do Pacífico equatorial a partir de corais das Ilhas Galápagos e concluiu que os episódios de El Niño das últimas quatro décadas são os mais fortes de todo o período analisado, com indícios de que a intensificação tem origem humana. O segundo é local: um levantamento técnico do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS), de 1º de setembro, revela que o sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre, formado pelo Muro da Mauá, diques e casas de bombas, segue apenas parcialmente recuperado desde a catástrofe de 2024.
O que os corais
de Galápagos revelam sobre os últimos mil anos
A pesquisa foi
conduzida por Julia Cole, do Departamento de Ciências da Terra e do Ambiente da
Universidade de Michigan, com colaboração de cientistas da Universidade da
Califórnia em Santa Bárbara. A equipe coletou 13 amostras de esqueletos de
coral, vivos e fósseis, nas Ilhas Galápagos, região situada no ponto de origem
da formação do El Niño. Como os corais incorporam ano a ano, em seu esqueleto
de carbonato de cálcio, elementos-traço da água do mar ao redor, a proporção de
estrôncio e a razão isotópica do oxigênio-18 registradas em cada camada
funcionam como um termômetro histórico do oceano.
O resultado, segundo os autores, é uma das reconstruções mais confiáveis já produzidas sobre a variabilidade do fenômeno: a oceanógrafa Kim Cobb, que não participou do estudo, classificou o trabalho, em entrevista à CNN, como próximo de um "padrão-ouro". Os dados mostram que a variabilidade do El Niño desde 1984 é 36,5% maior do que em todo o período entre os anos 1000 e 1850, e que os eventos das últimas quatro décadas superam em intensidade qualquer outro registrado no milênio estudado. Para Julia Cole, a coincidência entre esse salto e o aquecimento global de origem humana não parece casual: "Se alguém questionar essa conclusão, eu gostaria de saber qual seria a explicação alternativa", disse a pesquisadora à revista Science.
O estudo recupera, para efeito de comparação histórica, o custo de dois episódios recentes: o El Niño de 1982 e 1983, que provocou enchentes no Quênia e no Peru e seca na Indonésia e no Brasil, com perdas estimadas em até US$ 4 trilhões à economia global; e o de 1997 e 1998, que resultou em 23 mil mortes por doenças e desastres climáticos ao redor do mundo. Segundo os pesquisadores, o El Niño em curso já apresenta sinais de poder rivalizar com esses dois episódios em magnitude.
O prognóstico
segue piorando desde julho
Os números
oficiais também subiram desde a última reportagem da LRCA Defense Consulting.
Em 29 de junho, o primeiro boletim conjunto de Instituto Nacional de
Meteorologia (Inmet), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Agência
Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e
Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), Serviço Geológico do Brasil (SGB) e
Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) já apontava
probabilidade superior a 90% de o fenômeno persistir até pelo menos o início de
2027, com alta chance de um El Niño muito forte. Em 9 de julho, o Climate
Prediction Center, da National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa),
elevou de 63% para 81% a chance de o evento atingir intensidade muito forte
entre outubro e dezembro de 2026.
Já em julho, a força do novo padrão climático se manifestou na prática: entre os dias 26 e 28, a Defesa Civil do Rio Grande do Sul emitiu alerta para tempestades com granizo, rajadas de vento acima de 90 quilômetros por hora e acumulados de até 200 milímetros de chuva em 48 horas, colocando em monitoramento permanente os rios Uruguai, Jacuí e Ibirapuitã. Boletins mais recentes de previsão para setembro, mês em que o fenômeno segue se fortalecendo, indicam chuva frequente e risco de temporais em diversas regiões gaúchas, com o pico do El Niño projetado para a transição entre a primavera e o início do verão, podendo atingir, segundo alguns modelos, intensidade inédita.
Porto Alegre: a
defesa contra cheias avança, mas segue incompleta
O dado mais
sensível para o Rio Grande do Sul, porém, é local. Segundo o pesquisador
Rodrigo Paiva, do IPH/UFRGS, ouvido em reportagem publicada em 1º de setembro,
é difícil afirmar se uma nova cheia terá magnitude igual à de 2024, mas o novo
El Niño exige a aceleração de medidas preventivas. Paiva reconhece avanços:
investimentos em Defesa Civil, em sistemas de previsão e na reconstrução de
pontes e estradas, estas projetadas com maior resiliência a eventos climáticos
extremos. A principal vulnerabilidade, no entanto, persiste na capital gaúcha.
De acordo com o pesquisador, o sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre, composto pelo Muro da Mauá, diques e casas de bombas, foi severamente danificado em 2024 e ainda não está totalmente recuperado. Apresentações do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) mostram que os esforços de intervenção foram grandes, mas apenas parte das falhas foi corrigida, enquanto a maioria dos trabalhos necessários segue com obras em andamento ou ainda em fase de projeto.
E na Defesa? Nos EUA e no Brasil, boletins do El Niño tendem a ser tratados como indicador de ameaça militar
Se a
vulnerabilidade civil de Porto Alegre segue exposta, o mesmo alerta vale, em
outra dimensão, para as próprias Forças Armadas. Em 28 de julho, o jornal
norte-americano Defense News publicou artigo de opinião de John Conger,
ex-subsecretário adjunto principal de Defesa dos Estados Unidos para assuntos
orçamentários, defendendo que comandos militares tratem boletins de El Niño
como indicador de ameaça, testando com meses de antecedência suas próprias
reservas de energia, combustível e água, suas rotas de acesso e seus sistemas
de comunicação, além de reforçar a capacidade de socorrer a população civil.
A pergunta tem endereço direto no Rio Grande do Sul, sede do Comando Militar do Sul (CMS), a Grande Unidade do Exército Brasileiro com maior efetivo do País (cerca de 50 mil militares, um quarto de toda a Força, distribuídos por 160 organizações militares). O próprio núcleo histórico e administrativo do CMS, na Rua da Praia, em Porto Alegre, foi atingido pela enchente de 2024: o alagamento chegou a cortar a energia do Quartel-General Integrado e a tirar do ar, por um período, os sistemas lógicos então concentrados fisicamente no prédio, sob responsabilidade do Centro de Telemática de Área (CTA).
Questionado por esta reportagem sobre o que mudou desde então, o CMS informou que foi elaborado um plano de evacuação do Quartel-General que prevê a continuidade das operações administrativas e de comando no 3º Regimento de Cavalaria de Guarda (3º RCG), organização militar da Região Metropolitana de Porto Alegre. Quanto à infraestrutura de TI, o Comando confirmou que os servidores continuam fisicamente no mesmo local, mas que passou a existir a possibilidade de link com os servidores de outro Comando Militar de Área, dando redundância à estrutura e evitando que uma nova interrupção local volte a tirar os sistemas do ar.
O CMS acrescentou que as demais organizações militares sob seu comando também reanalisaram e melhoraram os planos de contingência próprios para eventos climáticos severos, reforçando ainda as capacidades de apoio à população civil. Ou seja: assim como a defesa física de Porto Alegre contra cheias, a defesa da própria continuidade administrativa do Exército no Rio Grande do Sul já foi posta à prova em 2024 e, segundo o Comando, foi proativamente redesenhada desde então, permanecendo sob constante monitoramento.
O que muda com
esses dois achados
Antes, o alerta sobre o El Niño no Rio Grande do Sul se apoiava em
boletins de probabilidade e no precedente direto de 2024. Agora, um estudo
publicado em revista científica de referência sugere que o próprio fenômeno
está estruturalmente mais forte do que em qualquer momento dos últimos mil
anos, e que essa mudança tende a ser permanente, não um pico isolado.
Ao mesmo tempo, duas vulnerabilidades identificadas em 2024, a defesa física de Porto Alegre contra cheias e a continuidade administrativa do Comando Militar do Sul, aparecem em situações distintas: a primeira, ainda sob ameaça; a segunda, conforme o próprio CMS, já planejada e reforçada.

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