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21 setembro, 2026

El Niño se fortalece e Brasil acelera preparação para impactos econômicos, hídricos e militares

NOAA eleva para 75% a chance de um evento de intensidade histórica, ANA mantém no Sul sua única Sala de Crise ativa e CMS amplia capacidades para enfrentar eventos extremos; antes mesmo do pico previsto, rios gaúchos voltam a atingir níveis de inundação


*LRCA Defense Consulting - 22/09/2026

O El Niño de 2026/2027 entrou em uma nova fase. O que até poucos meses atrás era tratado principalmente como uma previsão climática passou a orientar decisões concretas sobre agricultura, abastecimento, energia, recursos hídricos, infraestrutura e preparação militar. E, no Rio Grande do Sul, antes mesmo de o fenômeno alcançar a máxima intensidade projetada, novos temporais voltaram a provocar elevações significativas de rios e risco de inundações.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) considera o fenômeno firmemente estabelecido e prevê intensidade muito forte. No Brasil, os organismos responsáveis pelo Painel El Niño 2026-2027 mantêm a perspectiva de impactos particularmente distintos entre as regiões: excesso de chuva no Sul e condições mais secas e quentes em grande parte do centro-norte do País.

Desde a última reportagem da LRCA Defense Consulting sobre o assunto, publicada em 5 de setembro, surgiram elementos importantes. A NOAA aumentou a probabilidade de um evento de intensidade histórica, o CEMADEN delimitou melhor o período provável de máxima temperatura do Pacífico, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) colocou em execução um plano específico para enfrentar os impactos do El Niño até março de 2027 e, no Rio Grande do Sul, o risco hidrológico voltou a se materializar.

Ao mesmo tempo, o Comando Militar do Sul (CMS), diretamente marcado pela catástrofe de 2024, apresenta um conjunto de mudanças estruturais, logísticas e operacionais destinadas a enfrentar novos eventos climáticos extremos.

75% de possibilidade de um El Niño histórico 
O Climate Prediction Center (CPC), da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), informa que o El Niño continua se fortalecendo. Em agosto, a anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 alcançou +1,8 °C; na Niño 3, +2,5 °C; e na Niño 1+2, +3,4 °C. No Pacífico equatorial oriental, as anomalias ultrapassaram +3,0 °C.

A NOAA mantém probabilidade superior a 90% de que o fenômeno alcance intensidade muito forte durante o outono e o inverno de 2026/2027 no Hemisfério Norte. Mas a atualização de setembro acrescentou um dado especialmente relevante: para o trimestre outubro, novembro e dezembro, existe agora 75% de probabilidade de o evento alcançar RONI trimestral igual ou superior a +2,5 °C e superar em intensidade os El Niños anteriores do registro utilizado pela NOAA, iniciado em 1950.

A previsão oficial atribui ainda 100% de probabilidade de permanência do El Niño até o trimestre janeiro, fevereiro e março de 2027. Depois disso, a probabilidade cai gradualmente: 97% em fevereiro, março e abril; 82% em março, abril e maio; e 43% em abril, maio e junho.

A intensidade do fenômeno, entretanto, não determina automaticamente a magnitude de seus impactos em cada região. Outros padrões oceânicos e atmosféricos podem reforçar, deslocar ou atenuar seus efeitos. Um El Niño excepcionalmente forte aumenta a probabilidade de impactos característicos do fenômeno, mas não permite determinar antecipadamente a intensidade de cada episódio de chuva, seca ou calor.

CEMADEN projeta máxima entre novembro e janeiro 

No Brasil, o CEMADEN acrescenta outra informação importante. No início de setembro, a região Niño 1+2, mais próxima às costas do Peru e do Equador, apresentava anomalia semanal de +3,9 °C.

Embora ainda exista incerteza sobre o valor máximo que será alcançado pela temperatura da superfície do mar, todos os modelos considerados pelo órgão enquadram o episódio na categoria de El Niño muito forte, com anomalias superiores a +2,0 °C na média trimestral.

O CEMADEN situa atualmente o período de máxima temperatura entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Isso significa que o intervalo de maior preocupação avança pelo verão e reforça a necessidade de manutenção das medidas preventivas por vários meses.

Essas projeções complementam o quadro apresentado pela LRCA Defense Consulting em 5 de setembro, quando uma reconstrução publicada na revista Science mostrou que a variabilidade do El Niño desde 1984 é 36,5% maior do que no período entre os anos 1000 e 1850.

A questão, portanto, deixou de ser apenas se haverá um El Niño muito forte. Passou a ser como País, estados, empresas e Forças Armadas utilizarão a antecedência proporcionada pelos modelos climáticos para reduzir seus impactos.

O Sul já tem a única Sala de Crise ativa da ANA 
A mudança mais importante ocorrida desde a elaboração inicial desta reportagem talvez esteja na preparação dos recursos hídricos.

Em 14 de setembro, a ANA apresentou o Plano de Preparação para o Enfrentamento dos Impactos do El Niño 2026/2027 sobre os Recursos Hídricos do Brasil. O documento estabelece ações estratégicas, operativas e regulatórias para administrar riscos até março de 2027.

O Plano trabalha com três níveis de acompanhamento: Salas de Crise, destinadas às bacias onde eventos hidrológicos críticos já estão instalados; Salas de Acompanhamento, voltadas a sistemas hídricos estratégicos; e reuniões preventivas de avaliação das condições hidrometeorológicas, que podem ser transformadas em Salas de Crise se houver agravamento.

Há um dado particularmente significativo para o Rio Grande do Sul: a Sala de Crise da Região Sul é atualmente a única Sala de Crise ativa da ANA no País. Seu foco está nas cheias, inundações graduais, enxurradas e segurança de barragens diante do excesso de precipitação.

A ANA também poderá adotar condições especiais de operação de reservatórios quando houver risco de cheias ou redução expressiva dos volumes armazenados. O Plano prevê ainda briefings técnicos mensais ao Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (CENAD) e à Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC), procurando antecipar decisões de preparação, resposta e assistência humanitária.

Trata-se de uma mudança importante de abordagem: o gerenciamento do El Niño passa da observação meteorológica para uma estrutura institucional de acompanhamento e intervenção.

No Rio Grande do Sul, o risco já voltou aos rios 
Enquanto os modelos projetam a máxima intensidade do fenômeno para os próximos meses, o Rio Grande do Sul voltou a enfrentar, neste fim de semana, condições meteorológicas severas.

A Defesa Civil estadual havia advertido que os acumulados entre 19 e 21 de setembro poderiam superar pontualmente 230 milímetros na metade norte do Estado, com possibilidade de mais de 150 milímetros em apenas 12 horas em algumas áreas. Também foram previstas tempestades, granizo e rajadas superiores a 100 quilômetros por hora.

Na tarde de 21 de setembro, a situação já aparecia nos rios. A Defesa Civil informou elevações significativas de arroios e cursos d'água da Região Hidrográfica do Guaíba. O rio Caí, em Nova Palmira, e o rio Paranhana, em Igrejinha, já apresentavam limiares de inundação.

As projeções hidrológicas indicavam risco de inundação também no Jacuí, entre Dona Francisca e Cachoeira do Sul; no Taquari, a partir de Santa Tereza; no Caí; no Paranhana; e no Sinos, em Campo Bom.

Um episódio meteorológico específico não pode ser atribuído isoladamente ao El Niño. O quadro atual, porém, demonstra concretamente o tipo de pressão sobre rios, infraestrutura, energia, transportes, Defesa Civil e capacidade de resposta que torna particularmente sensível a previsão de aumento das chuvas no Sul durante um evento muito forte.

Agricultura e abastecimento passam à prevenção 
No campo, o Ministério da Agricultura e Pecuária recebeu da Embrapa 163 medidas de gestão de riscos climáticos para a safra 2026/2027. Elaborado por cerca de 50 profissionais da Embrapa, com participação do INMET, o conjunto inclui 14 medidas transversais, 139 específicas por segmento produtivo e dez ações de apoio a políticas públicas.

A proposta vai além do evento atual e procura transformar a experiência com o El Niño em capacidade permanente de adaptação agroclimática.

O governo também autorizou a Conab a empregar até R$ 500 milhões na compra, por leilões públicos, de arroz longo fino em casca da safra 2025/2026 para formação de estoques públicos. A iniciativa está entre as ações destinadas a mitigar impactos associados ao El Niño.

O movimento é especialmente significativo para o Rio Grande do Sul, principal produtor de arroz do País e, simultaneamente, uma das áreas mais expostas ao excesso de precipitação projetado para os próximos meses.

Energia: 1,8 GW adicionais antes do período crítico 
O setor elétrico também antecipou decisões. Em julho, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), seguindo recomendações do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), aprovou a antecipação do suprimento de cinco contratos de reserva de capacidade, acrescentando 1,8 GW ao Sistema Interligado Nacional a partir de 1º de setembro.

O Ministério de Minas e Energia relacionou a medida à segurança do atendimento diante do El Niño e das incertezas geopolíticas sobre os preços dos combustíveis.

Segundo o governo, o fenômeno pode reduzir a disponibilidade de energia produzida na Região Norte e elevar a carga do sistema em razão das temperaturas mais altas. O ONS acompanha continuamente precipitação, temperatura, nebulosidade e ventos, incorporando os possíveis efeitos do El Niño ao planejamento da operação.

O risco econômico vai além das fronteiras 
A dimensão internacional amplia a preocupação. Análise da S&P Global Market Intelligence trata um eventual Super El Niño como choque de oferta capaz de atuar simultaneamente por três canais: produção agrícola, estresse no setor de energia e interrupções na logística e nas operações portuárias.

A combinação pode pressionar preços, cadeias de suprimento e crescimento econômico, com efeitos diferentes conforme a exposição de cada país e setor.

Para o Brasil, isso significa que os impactos não precisam ocorrer apenas onde chover demais ou de menos. Problemas em safras estrangeiras, portos, energia ou fertilizantes podem chegar ao País por meio dos preços e do comércio internacional, enquanto danos internos a rodovias, ferrovias, linhas de transmissão e terminais portuários podem afetar exportações e abastecimento.

O El Niño passa, assim, a funcionar como multiplicador de riscos já existentes.

CMS transforma as lições de 2024 em capacidade permanente 

É nesse cenário que a preparação militar ganha importância estratégica. A enchente de 2024 mostrou que as Forças Armadas podem ser chamadas a realizar uma operação humanitária de enorme escala ao mesmo tempo em que suas próprias instalações, comunicações, acessos e sistemas são atingidos.

Informações obtidas pela LRCA Defense Consulting junto ao Comando Militar do Sul mostram que as lições daquela crise estão sendo convertidas em novas estruturas, reposicionamento de material de Engenharia, aquisição de equipamentos, exercícios de apoio à Defesa Civil, treinamento do Estado-Maior, acompanhamento sistemático dos alertas e aperfeiçoamento da capacidade de comando e controle.

Engenharia e transporte recebem novas estruturas 
Entre as medidas está a criação da 8ª Companhia de Engenharia de Combate, em São Leopoldo, ativada em 12 de março de 2026.

Segundo o CMS, a unidade deverá contar com meios de Engenharia comprovados na Operação Taquari 2, incluindo pontes móveis e passadeiras, e terá condições de realizar transposição de cursos d'água, reparos de vias e tratamento e purificação de água.

Outra mudança é a 3ª Companhia de Transporte, ativada em 15 de junho no 3º Batalhão de Suprimento, em Nova Santa Rita. A nova organização possui estrutura inicial com 47 militares e 48 viaturas, com a finalidade de garantir pronta resposta em calamidades e apoiar mais de 100 unidades militares na região.

Em uma crise que interrompa pontes e rodovias, capacidade de transporte deixa de ser apenas função logística e passa a constituir elemento central da resposta humanitária.

O CMS também informa o reposicionamento de material de Engenharia, incluindo carregadeira sobre rodas, motores de popa, trator polivalente, embarcação de assalto, coletes salva-vidas e caminhão basculante.

Paralelamente, foi elaborado edital para aquisição de 21 tipos de equipamentos voltados à atuação em ambientes adversos, entre eles botas e macacões impermeáveis, equipamentos de proteção respiratória, coletes salva-vidas, capas de chuva, escadas e material para remoção de entulho.

Treinar antes da cheia 
A preparação não se limita à aquisição de meios. A 5ª Divisão de Exército realizou, em São João Batista, Santa Catarina, exercício de apoio à Defesa Civil com aproximadamente 400 militares, cerca de 60 viaturas e um blindado Guarani, integrados a órgãos civis. As situações simuladas envolveram gerenciamento de abrigos, evacuação de escolas e resgate de feridos e pessoas ilhadas.

A 6ª Divisão de Exército, por sua vez, planejou a Operação Jacuí em Eldorado do Sul, município severamente atingido em 2024. O exercício foi concebido para ampliar a cooperação interagências, desenvolver estratégias de resposta rápida e fortalecer a atuação conjunta do Exército, Defesa Civil e autoridades municipais diante de grandes emergências.

O próprio comando precisa continuar funcionando 
Talvez a mudança mais importante esteja no nível de comando e controle. O CMS realizou, em seu Centro de Coordenação de Operações, exercício de acionamento do Estado-Maior baseado em cenário fictício de enchentes severas numa região entre as mais atingidas em 2024.

Foram testados o funcionamento completo do centro, a ativação do Centro de Coordenação Civil-Militar, a Sala de Imprensa e a estrutura de videoconferência operacional.

A iniciativa se soma às medidas já informadas anteriormente pelo CMS à LRCA: plano de evacuação do Quartel-General Integrado, possibilidade de continuidade das atividades de comando no 3º Regimento de Cavalaria de Guarda e redundância de tecnologia da informação mediante ligação com servidores de outro Comando Militar de Área.

O objetivo é evitar que a interrupção de energia ou o alagamento de uma instalação paralise o sistema de comando.

O CMS acrescenta ainda o acompanhamento mais intenso e sistemático dos canais de alerta da Defesa Civil e o aprimoramento da capacidade de comando e controle das operações. Na prática, a previsão meteorológica passa a integrar o ciclo de decisão militar antes da emergência, e não apenas depois que o desastre ocorre.

Duas missões ao mesmo tempo 
Esse ponto é decisivo. Em um evento extremo, as Forças Armadas precisam cumprir duas tarefas simultâneas: preservar sua própria capacidade operacional e empregar essa capacidade em apoio à população.

Quartéis, depósitos, sistemas de comunicações, energia, água, combustível, hospitais, aeródromos e rotas logísticas também podem ser atingidos. Se a primeira missão falhar, a segunda fica comprometida.

A preparação apresentada pelo CMS indica uma mudança de postura em relação a 2024: criar redundância, distribuir meios, aumentar capacidades de Engenharia e transporte, exercitar o comando e integrar-se antecipadamente à Defesa Civil.

Isso não significa que um novo desastre de magnitude igual ou superior ao de 2024 esteja solucionado de antemão. Significa que parte importante das vulnerabilidades conhecidas foi incorporada ao planejamento.

E há agora uma conexão institucional importante: enquanto o CMS prepara suas estruturas e tropas para enfrentar eventos extremos, a ANA mantém justamente no Sul a única Sala de Crise ativa do País. A preparação militar e a gestão federal dos recursos hídricos passam, portanto, a responder preventivamente ao mesmo cenário de risco.

Da previsão à preparação, e da preparação ao primeiro teste 
As reportagens da LRCA Defense Consulting sobre o atual ciclo do El Niño registram uma evolução clara. Em julho, a questão era a aproximação do fenômeno e a capacidade de resposta do Rio Grande do Sul. Em 5 de setembro, a reconstrução publicada na Science mostrou que a variabilidade recente do El Niño ultrapassa a observada ao longo de muitos séculos e recolocou em evidência as vulnerabilidades ainda existentes em Porto Alegre.

Agora, o cenário avançou novamente. A NOAA atribui 75% de probabilidade a um El Niño capaz de superar em intensidade os eventos de seu registro desde 1950; o CEMADEN situa a máxima temperatura entre novembro e janeiro; a ANA colocou em execução um plano nacional de preparação e mantém uma Sala de Crise especificamente para a Região Sul; agricultura, abastecimento e energia já adotaram medidas preventivas; e o CMS transformou parte das lições de 2024 em novas capacidades.

Ao mesmo tempo, antes mesmo do pico projetado, as chuvas de setembro voltam a elevar rios gaúchos a níveis de inundação e colocam diferentes bacias em situação de risco.

A vantagem de 2026 sobre 2024 é que, desta vez, existe uma janela de preparação e parte das instituições já começou a utilizá-la.

O maior risco seria confundir antecedência com garantia de segurança.

A questão que se coloca para o País já não é apenas quando e com que intensidade o El Niño chegará ao pico. É saber se infraestrutura civil, sistemas produtivos, setor energético, Defesa Civil e Forças Armadas conseguirão transformar meses de aviso em resiliência real.

No Sul, esse processo já começou. Os próximos meses mostrarão até onde ele foi suficiente.

05 setembro, 2026

Estudo na revista Science mostra que El Niño nunca foi tão forte em mil anos

Reconstrução publicada na revista Science aponta variabilidade do fenômeno 36,5% maior desde 1984 do que em todo o período entre os anos 1000 e 1850; em Porto Alegre, prosseguem as obras e projetos, enquanto o Comando Militar do Sul já realizou o planejamento de suas próprias medidas preventivas


*LRCA Defense Consulting - 05/09/2026

Passados quase dois meses da última reportagem da LRCA Defense Consulting, publicada em 11 de julho sob o título "À espera do novo El Niño: o Rio Grande do Sul entre a ciência, a prevenção e a capacidade de resposta", dois fatos novos justificam voltar ao tema. O primeiro é científico: um estudo publicado em 27 de agosto na revista Science reconstituiu mil anos de temperatura do Pacífico equatorial a partir de corais das Ilhas Galápagos e concluiu que os episódios de El Niño das últimas quatro décadas são os mais fortes de todo o período analisado, com indícios de que a intensificação tem origem humana. O segundo é local: um levantamento técnico do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS), de 1º de setembro, revela que o sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre, formado pelo Muro da Mauá, diques e casas de bombas, segue apenas parcialmente recuperado desde a catástrofe de 2024.

O que os corais de Galápagos revelam sobre os últimos mil anos
A pesquisa foi conduzida por Julia Cole, do Departamento de Ciências da Terra e do Ambiente da Universidade de Michigan, com colaboração de cientistas da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara. A equipe coletou 13 amostras de esqueletos de coral, vivos e fósseis, nas Ilhas Galápagos, região situada no ponto de origem da formação do El Niño. Como os corais incorporam ano a ano, em seu esqueleto de carbonato de cálcio, elementos-traço da água do mar ao redor, a proporção de estrôncio e a razão isotópica do oxigênio-18 registradas em cada camada funcionam como um termômetro histórico do oceano.

O resultado, segundo os autores, é uma das reconstruções mais confiáveis já produzidas sobre a variabilidade do fenômeno: a oceanógrafa Kim Cobb, que não participou do estudo, classificou o trabalho, em entrevista à CNN, como próximo de um "padrão-ouro". Os dados mostram que a variabilidade do El Niño desde 1984 é 36,5% maior do que em todo o período entre os anos 1000 e 1850, e que os eventos das últimas quatro décadas superam em intensidade qualquer outro registrado no milênio estudado. Para Julia Cole, a coincidência entre esse salto e o aquecimento global de origem humana não parece casual: "Se alguém questionar essa conclusão, eu gostaria de saber qual seria a explicação alternativa", disse a pesquisadora à revista Science.

O estudo recupera, para efeito de comparação histórica, o custo de dois episódios recentes: o El Niño de 1982 e 1983, que provocou enchentes no Quênia e no Peru e seca na Indonésia e no Brasil, com perdas estimadas em até US$ 4 trilhões à economia global; e o de 1997 e 1998, que resultou em 23 mil mortes por doenças e desastres climáticos ao redor do mundo. Segundo os pesquisadores, o El Niño em curso já apresenta sinais de poder rivalizar com esses dois episódios em magnitude.

O prognóstico segue piorando desde julho
Os números oficiais também subiram desde a última reportagem da LRCA Defense Consulting. Em 29 de junho, o primeiro boletim conjunto de Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), Serviço Geológico do Brasil (SGB) e Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) já apontava probabilidade superior a 90% de o fenômeno persistir até pelo menos o início de 2027, com alta chance de um El Niño muito forte. Em 9 de julho, o Climate Prediction Center, da National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa), elevou de 63% para 81% a chance de o evento atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026.

Já em julho, a força do novo padrão climático se manifestou na prática: entre os dias 26 e 28, a Defesa Civil do Rio Grande do Sul emitiu alerta para tempestades com granizo, rajadas de vento acima de 90 quilômetros por hora e acumulados de até 200 milímetros de chuva em 48 horas, colocando em monitoramento permanente os rios Uruguai, Jacuí e Ibirapuitã. Boletins mais recentes de previsão para setembro, mês em que o fenômeno segue se fortalecendo, indicam chuva frequente e risco de temporais em diversas regiões gaúchas, com o pico do El Niño projetado para a transição entre a primavera e o início do verão, podendo atingir, segundo alguns modelos, intensidade inédita.

Porto Alegre: a defesa contra cheias avança, mas segue incompleta
O dado mais sensível para o Rio Grande do Sul, porém, é local. Segundo o pesquisador Rodrigo Paiva, do IPH/UFRGS, ouvido em reportagem publicada em 1º de setembro, é difícil afirmar se uma nova cheia terá magnitude igual à de 2024, mas o novo El Niño exige a aceleração de medidas preventivas. Paiva reconhece avanços: investimentos em Defesa Civil, em sistemas de previsão e na reconstrução de pontes e estradas, estas projetadas com maior resiliência a eventos climáticos extremos. A principal vulnerabilidade, no entanto, persiste na capital gaúcha.

De acordo com o pesquisador, o sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre, composto pelo Muro da Mauá, diques e casas de bombas, foi severamente danificado em 2024 e ainda não está totalmente recuperado. Apresentações do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) mostram que os esforços de intervenção foram grandes, mas apenas parte das falhas foi corrigida, enquanto a maioria dos trabalhos necessários segue com obras em andamento ou ainda em fase de projeto.

E na Defesa? Nos EUA e no Brasil, boletins do El Niño tendem a ser tratados como indicador de ameaça militar
Se a vulnerabilidade civil de Porto Alegre segue exposta, o mesmo alerta vale, em outra dimensão, para as próprias Forças Armadas. Em 28 de julho, o jornal norte-americano Defense News publicou artigo de opinião de John Conger, ex-subsecretário adjunto principal de Defesa dos Estados Unidos para assuntos orçamentários, defendendo que comandos militares tratem boletins de El Niño como indicador de ameaça, testando com meses de antecedência suas próprias reservas de energia, combustível e água, suas rotas de acesso e seus sistemas de comunicação, além de reforçar a capacidade de socorrer a população civil.

A pergunta tem endereço direto no Rio Grande do Sul, sede do Comando Militar do Sul (CMS), a Grande Unidade do Exército Brasileiro com maior efetivo do País (cerca de 50 mil militares, um quarto de toda a Força, distribuídos por 160 organizações militares). O próprio núcleo histórico e administrativo do CMS, na Rua da Praia, em Porto Alegre, foi atingido pela enchente de 2024: o alagamento chegou a cortar a energia do Quartel-General Integrado e a tirar do ar, por um período, os sistemas lógicos então concentrados fisicamente no prédio, sob responsabilidade do Centro de Telemática de Área (CTA).

Questionado por esta reportagem sobre o que mudou desde então, o CMS informou que foi elaborado um plano de evacuação do Quartel-General que prevê a continuidade das operações administrativas e de comando no 3º Regimento de Cavalaria de Guarda (3º RCG), organização militar da Região Metropolitana de Porto Alegre. Quanto à infraestrutura de TI, o Comando confirmou que os servidores continuam fisicamente no mesmo local, mas que passou a existir a possibilidade de link com os servidores de outro Comando Militar de Área, dando redundância à estrutura e evitando que uma nova interrupção local volte a tirar os sistemas do ar. 

O CMS acrescentou que as demais organizações militares sob seu comando também reanalisaram e melhoraram os planos de contingência próprios para eventos climáticos severos, reforçando ainda as capacidades de apoio à população civil. Ou seja: assim como a defesa física de Porto Alegre contra cheias, a defesa da própria continuidade administrativa do Exército no Rio Grande do Sul já foi posta à prova em 2024 e, segundo o Comando, foi proativamente redesenhada desde então, permanecendo sob constante monitoramento.

O que muda com esses dois achados
Antes, o alerta sobre o El Niño no Rio Grande do Sul se apoiava em boletins de probabilidade e no precedente direto de 2024. Agora, um estudo publicado em revista científica de referência sugere que o próprio fenômeno está estruturalmente mais forte do que em qualquer momento dos últimos mil anos, e que essa mudança tende a ser permanente, não um pico isolado. 

Ao mesmo tempo, duas vulnerabilidades identificadas em 2024, a defesa física de Porto Alegre contra cheias e a continuidade administrativa do Comando Militar do Sul, aparecem em situações distintas: a primeira, ainda sob ameaça; a segunda, conforme o próprio CMS, já planejada e reforçada.


Fontes: revista Science; Julia Cole (Universidade de Michigan); CNN; Inmet; Inpe; ANA; Cemaden; SGB; Sedec; Noaa/Climate Prediction Center; Defesa Civil do Rio Grande do Sul; Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS; DMAE; LRCA Defense Consulting.

11 julho, 2026

À espera do novo El Niño: o Rio Grande do Sul entre a ciência, a prevenção e a capacidade de resposta

Com probabilidade superior a 90% de um novo El Niño ainda em 2026, Comando Militar do Sul e Defesa Civil já simularam um novo colapso no Vale do Taquari. Governo federal, estado e municípios ajustam e reforçam seus planos de contingência; Justiça Federal mantém suspensa a retomada da mineração de areia no Guaíba


*LRCA Defense Consulting - 11/07/2026

Um novo El Niño, classificado por parte da comunidade científica como potencialmente comparável ao episódio de 2015–2016, avança sobre o Oceano Pacífico com probabilidade superior a 90% de formação ainda em 2026, segundo boletins recentes do Climate Prediction Center, órgão da National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa), e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Para o Rio Grande do Sul, o prognóstico reacende uma pergunta que ainda não tem resposta fechada: o estado, os municípios e as Forças Armadas estão preparados para uma repetição, ou algo pior, da catástrofe de maio de 2024?  

O tema ganhou um capítulo novo em maio deste ano, quando o governo gaúcho tentou destravar mais de duas décadas de embargo à mineração comercial de areia no Lago Guaíba, medida que reacendeu a discussão sobre assoreamento e risco de cheias na capital e na região metropolitana, mas que a Justiça Federal, a pedido do Ministério Público Federal, decidiu manter suspensa até a conclusão da análise pericial do MPF, quando então o zoneamento poderá, de fato, ser ou não homologado.

Um alerta que se aproxima do consenso técnico
Boletim do Climate Prediction Center, órgão da National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa), divulgado em 9 de julho de 2026, elevou de 63% para 81% a probabilidade de o fenômeno atingir intensidade classificada como muito forte entre outubro e dezembro de 2026, e apontou 97% de chance de o El Niño persistir até o início da primavera de 2027. Segundo o boletim, o evento já superou a fase fraca e se encontra em nível moderado, sem sinais de desaceleração. Cientistas ouvidos pela Associated Press, como Emily Becker, da Universidade de Miami, e Daniel Swain, da Universidade da Califórnia, avaliam que o episódio pode rivalizar com o super El Niño de 1997 e 1998, que, segundo o Banco Mundial, provocou 23 mil mortes em desastres climáticos ao redor do mundo e custou a governos até US$ 45 bilhões.

Já em maio, a Defesa Civil do Rio Grande do Sul, em comunicado do Governo do Estado, havia elevado para 83% a chance de a anomalia térmica no Pacífico ficar entre 1,5°C e 2°C acima da média, patamar equivalente ao episódio de 2015 e 2016. A pesquisadora Regina Rodrigues, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), observa que o intervalo entre eventos de grande magnitude, historicamente próximo de 15 anos, caiu para apenas dois anos desde a última grande cheia. Para o Sul do País, o padrão favorece condições semelhantes às observadas em 2024 (El Niño, bloqueio atmosférico, rios atmosféricos, aquecimento do Atlântico, mudanças climáticas), podendo resultar em chuva muito acima da média, com risco elevado sobre a bacia do Guaíba.

Durante episódios intensos de El Niño, o aquecimento anômalo das águas do Pacífico altera a circulação atmosférica sobre a América do Sul. No Sul do Brasil, isso tende a favorecer a formação e persistência de sistemas frontais e corredores de umidade, aumentando a frequência de chuvas volumosas, especialmente na primavera e no início do verão. 

Um dado técnico merece atenção: em 2024, a pior fase da enchente ocorreu em maio, quando o fenômeno já caminhava para sua fase de dissipação, e não no seu pico. Isso significa que o risco para o Rio Grande do Sul pode se estender além do auge climático do episódio atual, projetado para o fim de 2026 e início de 2027. 

O precedente de 2024: a maior operação humanitária das Forças Armadas no País
A enchente de abril e maio de 2024 atingiu 428 dos 497 municípios gaúchos, deixou mais de 180 mortos e um prejuízo estimado em R$ 88,9 bilhões, segundo relatório conjunto do Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento e da Cepal. A resposta das Forças Armadas, batizada de Operação Taquari II, escalou progressivamente: começou com 626 militares em 19 municípios, em 1º de maio, e chegou a mobilizar cerca de 19,5 mil integrantes de Exército, Marinha e Aeronáutica ao fim de dois meses de operação, em uma atuação que o então ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, chamou de "operação de guerra". Ao todo, o conjunto das três Forças somou mais de 52 mil resgates aéreos, terrestres e fluviais, cerca de 84 mil pessoas e 10,5 mil animais assistidos, 55 embarcações, 27 aeronaves e 1.710 viaturas empregadas.

Exército Brasileiro
Foi o ramo com maior efetivo empregado, superando 9 mil militares somente sob o Comando Conjunto Taquari II. Concentrou-se na desobstrução de vias, no resgate terrestre e fluvial e na montagem de infraestrutura de emergência. O 4º Grupamento de Engenharia, sediado em Porto Alegre, coordenou o lançamento de pontes de equipagem por meio do 3º Batalhão de Engenharia de Combate (Cachoeira do Sul) e do 6º Batalhão de Engenharia de Combate (São Gabriel). O caso mais emblemático foi a Ponte de Suporte Logístico (Logistic Support Bridge) erguida sobre o Arroio Grande, em Santa Maria, com vão de 60,96 metros e capacidade para veículos de até 80 toneladas, concluída em dez dias de trabalho contínuo, em temperaturas próximas de 0°C. 

O Exército também instalou dois hospitais de campanha, um em Lajeado e outro em Estrela, este com 40 leitos e mais de 20 militares de saúde, empregou viaturas de transporte de carga do tipo 5 toneladas para remoção de pacientes em situação crítica (entre eles casos de hemodiálise e pós-cirúrgicos) e recorreu a viaturas blindadas Guarani para acesso a ruas alagadas onde embarcações não podiam circular. Equipes de defesa química, biológica, radiológica e nuclear (QBRN) do Exército, em conjunto com técnicos da Fepam, também vistoriaram áreas industriais alagadas em Canoas, recolhendo cerca de 2 mil recipientes com produtos químicos.

Marinha do Brasil
Empregou cerca de 2 mil militares na Operação Abrigo pelo Mar-RS, com destaque para o navio-aeródromo multipropósito Atlântico, o maior navio de guerra da América Latina, que partiu do Rio de Janeiro para Rio Grande levando 1.350 militares, 154 toneladas de donativos, 38 viaturas, 24 embarcações de pequeno e médio porte e três helicópteros. O Atlântico dispõe do segundo maior complexo médico embarcado da Marinha, com centro cirúrgico, raio X, consultório odontológico, laboratório e UTI com dois leitos. 

A Força também enviou o navio-patrulha oceânico Amazonas e o navio-patrulha Babitonga, além da fragata Defensora, e montou um hospital de campanha em Guaíba, com mais de 2.500 atendimentos realizados pelo Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais em Apoio à Defesa Civil. Um dos ativos mais decisivos foram as duas estações móveis de tratamento de água transportadas a bordo do Atlântico, com capacidade conjunta de gerar até 20 mil litros de água potável por hora; ao longo da operação, essas unidades trataram mais de 263 mil litros de água, entregues à Corsan para distribuição em áreas com abastecimento interrompido. Fuzileiros navais também empregaram carros lagarta anfíbios em patrulhamento conjunto com a Brigada Militar nas áreas mais castigadas.

Força Aérea Brasileira
Operou a partir das bases aéreas de Santa Maria (BASM), Canoas (BACO) e Florianópolis (BAFL), com mais de 1.300 militares e chegando a reunir 26 aeronaves próprias, entre elas o KC-390 Millennium (usado tanto para lançamento aéreo de cargas quanto para transporte de módulos dos hospitais de campanha das três Forças), o C-105 Amazonas (convertido em UTI aérea para evacuações aeromédicas), os helicópteros H-60L Black Hawk e H-36 Caracal (empregados em resgates de pessoas ilhadas, inclusive noturnos, com uso de óculos de visão noturna) e o KC-30, usado, entre outras missões, para transportar cerca de 20 toneladas de ração a mais de 80 mil animais resgatados. 

A Força coordenou ainda, por meio do Comando de Operações Aeroespaciais (Comae), o tráfego de 36 aeronaves de diferentes órgãos no espaço aéreo de Canoas e Santa Maria, tendo ultrapassado 2 mil horas de voo e mais de 2.167 resgates aéreos ao longo da operação. Um dos resgates mais citados foi o salvamento noturno de 147 pessoas presas em uma igreja no município de Guaíba, com infiltração de policiais militares por meio de guincho a partir de um H-60L.

O emprego combinado desses meios (pontes de engenharia e viaturas blindadas do Exército, navios-hospital e estações de tratamento de água da Marinha, e a malha de transporte aéreo e resgate da FAB) é hoje referência doutrinária citada pelo próprio Exército como base para o adestramento de 2026, tema tratado adiante.

 
Documentário de GZH DOC (2025): "Maio 24 - Um ano da enchente do RS"

Vídeo do "Bom dia, Rio Grande" (2026): "Enchente de 2024 ainda deixa reflexos em Porto Alegre" - cidade tenta reforçar proteção, enquanto moradores convivem com incertezas

Governo libera o zoneamento, mas Justiça mantém o embargo à mineração no Guaíba
A extração comercial de areia no Lago Guaíba foi interrompida ainda em 2003, após ação judicial movida pela ONG Mar de Dentro Ambiente e Educação, que contestou a regularidade das licenças de lavra concedidas na época em que o licenciamento era municipal. Em 2013, uma ação civil pública da Associação Comunitária Amigos do Lami levou a Justiça Federal a suspender de forma ampla qualquer nova licença de mineração no lago até a conclusão de um Zoneamento Ecológico-Econômico pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), decisão mantida pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região em 2016 e reafirmada pela Justiça Federal em 2021. O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) também expediu, em 2015, recomendação formal para que a Fepam se abstivesse de licenciar qualquer atividade de pesquisa ou extração enquanto o zoneamento não fosse concluído.

O quadro mudou em 25 de maio de 2026, quando o governador Eduardo Leite assinou as portarias Fepam nº 597/2026 e nº 601/2026. A primeira aprova o zoneamento ambiental da mineração no Guaíba, liberando cerca de 2.051 hectares (aproximadamente 4% da área do lago) para eventual exploração. A segunda regulamenta o aproveitamento econômico da areia retirada durante as dragagens de manutenção das hidrovias gaúchas, sistema que soma 286 quilômetros entre os portos de Porto Alegre e Rio Grande. Antes, embora a dragagem já fosse realizada para manter a navegabilidade, o material removido era, em regra, depositado em áreas de descarte licenciadas. Com a nova norma, essa areia poderá ser comercializada, desde que cumpridas as exigências ambientais e minerárias. 

A liberação não é automática: cada empresa interessada precisa obter Licença Prévia e de Instalação individual junto à Fepam, além de autorização federal da Agência Nacional de Mineração. O presidente do Sindareia, Laércio Thadeu Silva, definiu o cenário anterior como "mais de 23 anos impossibilitados de tirar um grão de areia" do Guaíba.

As portarias estaduais, porém, não encerraram a disputa judicial. No fim de junho, o juiz federal substituto Bruno Brum Ribas, da 9ª Vara Federal de Porto Alegre, jurisdição do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), atendeu a pedido do Ministério Público Federal (MPF) e determinou que a Assessoria Nacional de Perícia em Meio Ambiente (ANPMA), vinculada ao Centro Nacional de Perícia do MPF, analise em até 60 dias os documentos e as justificativas apresentados pela Fepam para a retomada da mineração. Na decisão, o magistrado registrou que "fica mantida a proibição de concessão de licenças ambientais para a atividade de mineração no Lago Guaíba até que sobrevenha decisão judicial definitiva acerca da homologação do referido zoneamento". A Fepam já foi intimada da decisão, e o MPF também deverá se manifestar sobre o zoneamento após a perícia. 

Na prática, portanto, o embargo à mineração comercial no Guaíba segue formalmente em vigor: as portarias de maio criaram o arcabouço administrativo para uma eventual retomada, mas caberá à Justiça Federal, após a análise pericial do MPF, decidir se e quando o zoneamento poderá de fato ser homologado.

Assoreamento foi decisivo na enchente de 2024? O que dizem os técnicos
A literatura técnica sobre extração de areia reconhece que a atividade tem, entre seus poucos efeitos considerados positivos, a redução do assoreamento, já que remove sedimento que de outra forma se acumularia no leito. Nesse sentido, mais de duas décadas sem extração comercial no Guaíba são compatíveis, do ponto de vista teórico, com maior acúmulo de sedimento ao longo do tempo.

Esse não é, porém, o diagnóstico oficial sobre a causa da enchente de 2024. O Comitê Científico do Plano Rio Grande, formado após o desastre, concluiu que o assoreamento não foi fator decisivo nas cheias registradas no Guaíba, no Delta do Jacuí e no Rio Taquari, atribuindo o episódio majoritariamente ao volume pluviométrico extremo, superior a mil milímetros em poucos dias em parte da bacia. Nota técnica do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS (IPH/UFRGS) chegou a refutar explicitamente a hipótese de que o assoreamento tenha causado ou intensificado a cheia de maio de 2024 no Taquari, e a Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRHidro) classificou a dragagem em corpos hídricos do porte do Guaíba como uma solução "complexa e limitada", de custo elevado e sujeita a reassoreamento rápido. O próprio governo estadual reforçou essa leitura ao anunciar as portarias de maio de 2026, afirmando publicamente que a liberação da mineração "não tem relação com ações de prevenção a enchentes" e que a inundação de 2024 não alterou o perfil hidrológico histórico do lago.

O setor de mineração defende posição diferente. Para o Sindareia, a retomada da dragagem comercial pode contribuir para a prevenção de eventos como o de 2024, argumento reiterado por representantes do setor à imprensa gaúcha. 

O tema, portanto, segue sem consenso pleno: há base técnica para afirmar que a ausência de extração favoreceu o acúmulo de sedimento ao longo de duas décadas (em termos teóricos e em estudos sobre dinâmica sedimentar), mas não há comprovação oficial de que esse fator tenha sido determinante para a magnitude da catástrofe de 2024, que os estudos atribuem sobretudo à excepcionalidade das chuvas.

Comando Militar do Sul, em caráter preventivo, simula novo colapso no Vale do Taquari
Em 30 de abril de 2026, o Comando Militar do Sul (CMS) realizou, em seu quartel-general em Porto Alegre, um exercício de planejamento de resposta a desastres chamado de "Operação Pampa Pronto", reunindo mais de 40 militares de dez organizações do Exército, além de representantes da Brigada Militar, do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil estadual. O cenário fictício reproduziu uma nova onda de enchentes severas no Vale do Taquari, uma das regiões mais castigadas em 2024, com chuvas acima de 300 milímetros em 24 horas, rompimento de barragem, 15 municípios atingidos, pontes destruídas, hospitais isolados e torres de telefonia fora de operação.

Sob supervisão do general de brigada Renato Souza Pinto Soeiro, Chefe do Centro de Coordenação de Operações do Comando Militar do Sul (CMS), dez células funcionais atuaram simultaneamente, cobrindo inteligência, operações, logística, comunicações, planejamento, assuntos civis, jurídico e finanças. O exercício testou, entre outros dilemas, a distribuição de água potável para 100 mil pessoas sem acesso rodoviário e a coordenação de helicópteros, caminhões e equipes médicas em cenário de comunicações limitadas. Segundo o CMS, os avanços doutrinários incorporados às lições de 2024 incluem coordenação interagências desde as primeiras horas de crise, ativação antecipada de estruturas jurídicas e de comunicação social, e planejamento para continuidade de operações mesmo sem energia elétrica ou internet. O Comando informou que exercícios semelhantes seguirão ao longo de todo o ano de 2026.

A preparação também avançou em estrutura permanente. Em 15 de junho de 2026, o CMS inaugurou, em Nova Santa Rita, na Região Metropolitana de Porto Alegre, o Núcleo da 3ª Companhia de Transporte, junto ao 3º Batalhão de Suprimento (3º B Sup), unidade que concentrou boa parte da logística da Operação Taquari II em 2024. A nova companhia conta com 47 militares e 48 viaturas, entre caminhões-prancha, cavalos mecânicos e caminhões-guincho, ampliando a capacidade de resposta rápida do Exército na região que mais concentra população e infraestrutura crítica do estado.

 
Vídeo do 
exercício de planejamento de resposta a desastres do CMS 

O que está preparado e o que ainda está em aberto
O Rio Grande do Sul chega ao novo ciclo de El Niño com estrutura de governança muito mais consolidada do que em 2024: o governo estadual informa que os 497 municípios contam hoje com planos de contingência atualizados, 60 municípios prioritários já receberam diagnóstico individualizado de vulnerabilidade, dentro do programa estadual Prepara RS, lançado por decreto em 17 de junho de 2026. Em nível federal, uma Sala de Situação Interministerial, coordenada pela Casa Civil com participação do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, unifica 20 ministérios e órgãos, incluindo o planejamento do emprego das Forças Armadas.

Permanecem, contudo, três questões sem resposta definitiva: 
1. A Justiça Federal irá de fato homologar o zoneamento e liberar o licenciamento, hoje travado por decisão que aguarda perícia do MPF? 

2. Qual é a efetiva capacidade das novas regras de mineração, uma vez liberadas, de reduzir o assoreamento do Guaíba ao longo dos próximos anos?

3. E o mais importante: a combinação de obras de dragagem (R$ 731 milhões já investidos em hidrovias gaúchas desde 2024, segundo o governo estadual), medidas preventivas já realizadas, planos de contingência federal/estadual/municipais e prontidão militar serão suficientes diante de um fenômeno que a maioria dos modelos climáticos já trata como certo, restando apenas definir a intensidade?



Fontes: Noaa; Inmet; Defesa Civil do Rio Grande do Sul; Ministério da Defesa; governo do Estado do Rio Grande do Sul; Fepam; Comando Militar do Sul; jornal Correio do Povo; Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS; ABRHidro; Sindareia; Banco Mundial, BID e Cepal. 

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