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07 outubro, 2026

Marcos Degaut: Defesa, indústria e diplomacia sob uma mesma estratégia nacional

Marcos Degaut tornou-se um dos nomes relevantes para compreender as ideias de política externa e Defesa que circulam no entorno da candidatura de Flávio Bolsonaro. A trajetória do ex-secretário revela uma arquitetura estratégica baseada em autonomia tecnológica, transferência de tecnologia, previsibilidade orçamentária, fortalecimento da BID e integração entre Defesa, diplomacia, indústria e comércio exterior



*LRCA Defense Consulting - 07/10/2026

Marcos Degaut tornou-se um dos nomes relevantes para compreender as ideias de política externa e Defesa que circulam no entorno da candidatura de Flávio Bolsonaro. Aliado próximo de Eduardo Bolsonaro, o ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa participa do debate político atual, mas suas formulações sobre poder nacional são muito anteriores à campanha de 2026.

A análise de artigos, entrevistas, discursos e iniciativas de Degaut ao longo de quase uma década revela mais do que uma sucessão de posições conjunturais. Há uma consistência estrutural entre sua atuação na Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), sua passagem pela Secretaria de Produtos de Defesa (SEPROD), sua experiência posterior no setor privado de Defesa e seus textos recentes.

No centro dessa arquitetura aparecem conceitos recorrentes: autonomia tecnológica, transferência de tecnologia, previsibilidade orçamentária, Base Industrial de Defesa (BID) sustentável e exportadora, capacidade de dissuasão e uma política externa orientada pelo interesse nacional.

Defesa como instrumento de poder nacional 
Para Degaut, Defesa não pode ser tratada apenas como despesa pública nem como política isolada das demais dimensões do Estado. Ainda em 2020, quando comandava a SEPROD, defendia que Defesa, Segurança e BID deveriam integrar uma grande estratégia nacional e eram indissociáveis da política externa de um país que pretendesse possuir peso internacional.

Em textos recentes, o diagnóstico tornou-se mais abrangente. A competição estratégica contemporânea, em sua leitura, deslocou parte da vulnerabilidade nacional para áreas como semicondutores, comunicações, satélites, componentes eletrônicos, sistemas antiaéreos, armas inteligentes, cibernética, inteligência artificial, drones e sensores. A soberania, portanto, dependeria não apenas de território e efetivos militares, mas do domínio ou acesso seguro a tecnologias, cadeias produtivas e infraestrutura crítica.

No artigo “A Sétima República”, publicado em 6 de outubro, Degaut defende explicitamente Forças Armadas capazes de proteger o território e uma Defesa orientada pela dissuasão por negação, com Amazônia e Atlântico Sul como teatros prioritários.

O conceito procura tornar inviável ou excessivamente custoso ao adversário alcançar seus objetivos, o que remete a vigilância, consciência situacional, capacidade de reação e meios capazes de negar liberdade de ação em áreas vitais.

Uma linha que antecede a SEPROD 
A preocupação com programas estratégicos e autonomia já aparecia quando Degaut atuava na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, no governo Michel Temer.

Em setembro de 2017, durante visita à Corveta Jaceguai, foi registrado publicamente que ele vinha trabalhando ativamente para apoiar a construção das então Corvetas Classe Tamandaré, programa que posteriormente evoluiu para as Fragatas Classe Tamandaré.

Esse antecedente é relevante porque mostra que a preocupação com o fortalecimento material das Forças e com programas nacionais não nasceu de sua passagem pela SEPROD. Ela atravessa diferentes funções exercidas por Degaut e ajuda a explicar a continuidade entre sua atuação administrativa e suas formulações atuais.

Autonomia tecnológica como eixo central 
Poucos conceitos aparecem com tanta frequência em suas manifestações quanto autonomia tecnológica.

Em 2021, ao tratar de protocolos de inovação e tecnologia, Degaut afirmou que a criação de redes entre governo, academia e empresas deveria gerar produtos e serviços capazes de aumentar progressivamente a autonomia tecnológica brasileira e reduzir a dependência de produtos estrangeiros.

Em 2023, já no EDGE Group, sintetizou a ideia de maneira direta: não existe autonomia estratégica sem autonomia tecnológica.

A formulação ajuda a organizar todo o restante de seu pensamento. Um país que dependa integralmente de terceiros para sensores, componentes, munições, sistemas de comando, satélites, comunicações ou armamentos sofisticados pode conservar soberania jurídica, mas terá sua liberdade de decisão limitada em uma crise.

Transferência de tecnologia: comprar não basta 
A consequência prática desse raciocínio é a importância atribuída à transferência de tecnologia.

Para Degaut, a aquisição de equipamentos no exterior não deveria ser analisada apenas pelo desempenho do produto ou pelo preço da compra. O valor estratégico aumenta quando a operação permite absorver conhecimento, formar pessoal, internalizar competências, produzir componentes, realizar manutenção e evoluir sistemas no Brasil.

Isso não significa que toda tecnologia sensível esteja disponível para transferência, nem que acordos de offset produzam automaticamente autonomia. A questão central é negociar compras e parcerias de modo que parte relevante do conhecimento permaneça no País.

Sob essa lógica, transferência de tecnologia deixa de ser contrapartida acessória e passa a integrar o cálculo estratégico da aquisição.

Essa orientação também ajuda a interpretar sua atuação posterior no EDGE Group e a aproximação com empresas brasileiras. Parcerias internacionais são vistas como instrumentos úteis quando agregam tecnologia, capacidade produtiva, acesso a mercados e desenvolvimento conjunto, e não apenas capital.

Previsibilidade orçamentária: condição para planejar 
Outro pilar é a previsibilidade orçamentária.

Degaut tem sustentado que a indústria de Defesa não consegue executar planejamento estratégico consistente se não souber se haverá continuidade de recursos para programas que atravessam muitos anos. Em entrevista de 2023, afirmou que a imprevisibilidade afeta desenvolvimento de projetos e produtos, contratação de pessoal e participação em licitações internacionais.

O problema é particularmente sensível porque grandes projetos militares possuem longos ciclos de maturação, contratos complexos, pagamentos distribuídos por vários exercícios e, frequentemente, compromissos em moeda estrangeira, compensações industriais e transferência de tecnologia.

Cortes abruptos podem elevar custos, retardar cronogramas, provocar perda de equipes especializadas e enfraquecer a confiança de fornecedores e parceiros.

A ênfase, portanto, não está apenas em gastar mais. Está em permitir que Forças Armadas e indústria saibam, dentro de horizontes plurianuais razoáveis, quais recursos estarão disponíveis.

A discussão sobre mecanismos capazes de oferecer essa estabilidade financeira é estratégica, mas eventuais modelos ainda em formulação não podem ser tratados como política definida enquanto não forem apresentados publicamente.

A BID como instrumento militar, econômico e tecnológico 
Na visão de Degaut, a BID ultrapassa a função de abastecer as Forças Armadas. Ela produz empregos qualificados, inovação, renda, exportações, divisas e tecnologias de uso dual.

Durante sua gestão na SEPROD, procurou aproximar Ministério da Defesa, BNDES, indústria, academia e instrumentos de promoção comercial.

Em artigo de 2021 republicado pelo LRCA Defense Consulting, destacou novas formas de financiamento e garantias, aperfeiçoamento da Tríplice Hélice, envolvendo Estado, academia e iniciativa privada, e busca de maior isonomia normativa e tributária para a indústria nacional. Também sustentou que exportar é crucial para preservar a capacidade de fornecer produtos, serviços e tecnologia de ponta.

A lógica econômica é objetiva: a demanda interna brasileira, sujeita a restrições fiscais e oscilações, não oferece escala contínua para todos os segmentos industriais de Defesa.

Exportações permitem diluir custos, sustentar linhas produtivas, conservar equipes especializadas e financiar novos ciclos de inovação.

Financiamento e garantias completam a equação 
A previsibilidade das encomendas domésticas, contudo, não resolve sozinha o problema.

Degaut também tem chamado atenção para financiamento e garantias às exportações. Produtos de Defesa disputam mercados nos quais Estados estrangeiros frequentemente apoiam suas empresas com crédito, seguro, garantias soberanas e instrumentos diplomáticos.

Sem mecanismos competitivos, uma empresa brasileira pode possuir um bom produto e ainda assim perder uma concorrência porque o comprador recebeu condições financeiras melhores de outro país.

Daí a tentativa, durante a SEPROD, de aproximar a BID de instituições como o BNDES e fortalecer instrumentos de promoção comercial. 


Capital estrangeiro e autonomia não são necessariamente opostos 
A experiência posterior de Degaut no EDGE Group acrescenta uma nuance importante.

Sua concepção de autonomia não implica fechamento ao capital estrangeiro. Investimentos e parcerias internacionais podem fortalecer a soberania quando aumentam domínio tecnológico, produção local, qualificação de pessoal e capacidade exportadora.

O critério relevante, nessa perspectiva, não seria simplesmente a nacionalidade do investidor, mas o resultado estratégico da parceria: quanto conhecimento é absorvido, quais competências permanecem no Brasil e se a operação reduz ou amplia dependências críticas.

Política externa: diplomacia como instrumento de poder
A mesma arquitetura aparece em suas formulações sobre política externa.

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo em 1º de outubro, Degaut defendeu um Itamaraty mais forte, estratégico e valorizado, capaz de converter diplomacia em influência, mercados, investimentos, tecnologia, segurança e prosperidade.

No texto, contestou a caracterização de suas ideias como uma suposta “Reforma Rubio”. Afirmou que nunca discutiu projeto com esse nome nem defendeu transplantar ao Brasil a reforma do Departamento de Estado norte-americano.

Também registrou que suas reflexões não constituíam programa fechado nem proposta oficial de governo. A distinção é importante para qualquer tentativa de antecipar políticas futuras: existem ideias em debate, mas nem todas podem ser apresentadas como decisões da campanha.

O conteúdo defendido publicamente por Degaut inclui fortalecimento da capacidade de formulação e antecipação do Itamaraty, maior centralidade para diplomacia econômica, comércio, investimentos, tecnologia e Defesa, simplificação administrativa e critérios mais objetivos de mérito e desempenho na carreira.

Estados Unidos, China e interesse nacional 

Suas manifestações recentes apontam para maior aproximação estratégica com os Estados Unidos, mas não necessariamente para ruptura econômica com a China.

O fio condutor é o interesse nacional: relações internacionais deveriam ser avaliadas pela capacidade de gerar segurança, tecnologia, mercados, investimentos e liberdade de ação.

Esse pragmatismo também aparece na discussão sobre minerais críticos, energia, inteligência artificial e infraestrutura. Recursos naturais, isoladamente, não produzem poder. Eles precisam ser transformados em capacidade industrial, conhecimento, tecnologia e instrumentos de negociação internacional.

A nova guerra tecnológica 
A atenção dada a drones, inteligência artificial, sensores, espaço, defesa cibernética, comunicações e sistemas antiaéreos mostra que a visão de Degaut não está limitada aos grandes programas tradicionais.

As guerras recentes demonstraram que plataformas sofisticadas convivem com sistemas baratos, produção em massa, software, guerra eletrônica e ciclos tecnológicos extremamente rápidos.

Para o Brasil, o desafio seria combinar programas de longo prazo com capacidade de inovação acelerada, aproximando Forças Armadas, empresas, universidades e centros de pesquisa.

Nesse ambiente, autonomia não significa produzir absolutamente tudo, mas identificar tecnologias cuja dependência externa pode comprometer a liberdade de ação e desenvolver capacidade nacional ou parcerias confiáveis para dominá-las. 

Uma arquitetura de poder nacional 
Quando reunidas, as posições de Degaut formam uma cadeia coerente: previsibilidade orçamentária permite planejamento; planejamento sustenta programas e indústria; transferência de tecnologia e pesquisa ampliam autonomia tecnológica; autonomia tecnológica fortalece a BID; uma BID robusta aumenta a capacidade militar e exportadora; capacidade militar gera dissuasão; e dissuasão oferece maior liberdade de ação à política externa.

É essa conexão que diferencia sua abordagem de uma discussão restrita ao orçamento das Forças Armadas.

Defesa, indústria, tecnologia, comércio exterior, diplomacia, energia e recursos estratégicos aparecem como componentes de um mesmo sistema de poder nacional.

O que pode ser inferido 
Caso essas ideias tenham influência efetiva sobre um eventual governo Flávio Bolsonaro, é razoável inferir uma pressão por maior previsibilidade dos recursos destinados aos programas estratégicos, fortalecimento da BID, mecanismos de financiamento e garantias às exportações, maior exigência de transferência de tecnologia em parcerias internacionais e prioridade para áreas tecnológicas consideradas críticas.

Também seria coerente com esse pensamento uma maior integração entre Defesa e política externa, atenção especial à Amazônia e ao Atlântico Sul e aproximação estratégica com parceiros capazes de oferecer tecnologia, investimentos e acesso a mercados.

Essas são, entretanto, inferências construídas a partir de posições públicas e de uma trajetória administrativa. Não equivalem a compromissos formalmente assumidos pela candidatura.

Permanecem abertas questões decisivas: qual será o nível de recursos destinado à Defesa, quais programas terão prioridade, como serão financiados, quais tecnologias serão consideradas críticas e quais mecanismos serão usados para assegurar continuidade orçamentária.

Consistência estrutural
A principal conclusão da pesquisa é que o pensamento de Marcos Degaut apresenta forte consistência estrutural.

O apoio a programas navais quando estava na SAE, a defesa de autonomia tecnológica e fortalecimento da BID na SEPROD, a ênfase posterior em parcerias industriais e transferência de conhecimento e suas formulações atuais sobre Defesa e política externa pertencem a uma mesma arquitetura intelectual.

Mais do que saber qual cargo Degaut poderia ocupar em um eventual governo, o interesse público está em compreender essa arquitetura.

Se suas ideias efetivamente influenciarem políticas a partir de 2027, a mudança mais relevante poderá não estar em um programa isolado ou em uma aquisição específica, mas na tentativa de integrar instrumentos que o Brasil historicamente administra de maneira fragmentada: orçamento, tecnologia, indústria, Defesa, comércio exterior e diplomacia.

05 outubro, 2026

Programa e interlocutores indicam os prováveis rumos de Flávio Bolsonaro para a defesa e a BID

Drones e inteligência artificial no programa oficial somam-se à experiência de Marcos Degaut no apoio à indústria e ao acesso de Eduardo Bolsonaro ao governo Trump, enquanto orçamento, prioridades e compromissos formais permanecem em aberto 



*LRCA Defense Consulting - 05/10/2026

A cerca de três semanas do segundo turno, marcado para 25 de outubro, a disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Lula (PT) ficou acirrada: 47% a 45% dos votos válidos no primeiro turno, realizado em 4 de outubro. Para o setor de defesa, a dúvida é o que mudaria com a vitória da oposição. Como o programa de Flávio dedica poucas informações ao tema, esta matéria cruza o documento oficial com as propostas de seus interlocutores e com a campanha da Embraer nos Estados Unidos, buscando separar compromissos formais de indícios.

Novas tecnologias e poder militar
O incentivo a novas tecnologias e a defesa de um poder militar capaz de sustentar a atuação internacional do Brasil permitem identificar uma provável orientação de Flávio Bolsonaro para as Forças Armadas e a Base Industrial de Defesa (BID). O direcionamento emerge da leitura conjunta do programa da candidatura e das propostas apresentadas por Eduardo Bolsonaro, irmão do candidato radicado nos EUA, e pelo ex-secretário de Produtos de Defesa Marcos Degaut, hoje o articulador internacional da campanha. Há convergência em torno do fortalecimento das capacidades nacionais, embora os instrumentos para executá-lo ainda não estejam detalhados publicamente.

A distinção entre as fontes é essencial. Drones e inteligência artificial aparecem no programa oficial. Já a transformação mais abrangente das Forças Armadas e o fortalecimento da BID foram defendidos pelos dois interlocutores em uma entrevista de setembro, na qual anunciaram a elaboração de um projeto para um eventual governo de Flávio.

A experiência de Degaut em financiamento e promoção comercial, somada ao acesso do irmão do candidato à Casa Branca, sugere a possibilidade de uma política que combine modernização militar, sustentação industrial e diplomacia voltada a negócios. O KC-390 Millennium permite avaliar como essa combinação poderia funcionar. A Embraer já desenvolve, com a Northrop Grumman, capacidades destinadas ao mercado americano, e uma eventual articulação política brasileira poderia dar visibilidade e apoio institucional a essa campanha. 

Tecnologia e fronteiras no programa
O texto publicado no site da candidatura prevê concentrar esforços contra o crime organizado e outras ameaças à segurança e à defesa nacional. Nesse contexto, propõe estimular tecnologias, com menção explícita a drones e inteligência artificial, e afirma que os investimentos nas Forças Armadas devem corresponder à inserção internacional do Brasil.

Outra proposta é criar o Sistema Nacional de Fronteira, reunindo integrantes do Exército, da Marinha e da Força Aérea Brasileira, equipados com inteligência, tecnologia e armamentos para interceptar drogas e armas. O documento também contempla a proteção cibernética dos serviços públicos, das infraestruturas críticas e dos cidadãos.

Essas referências estabelecem prioridades gerais, mas não especificam orçamento, modelos de drones, aplicações militares de IA, quantidades, fornecedores ou prioridades de reequipamento. Tampouco permitem concluir que haverá preferência por equipamentos nacionais ou importados. Essa definição será determinante para avaliar quanto da demanda poderá se converter em desenvolvimento e produção no País.

A proposta de transformação militar
Em 7 de setembro de 2026, Eduardo Bolsonaro e Marcos Degaut participaram do programa ALive, de Claudio Dantas. Segundo a publicação do próprio programa, ambos trabalhavam em um projeto de reforma e reestruturação das Forças Armadas destinado ao senador.

Degaut defendeu atualização de missões, métodos e doutrina, recuperação da capacidade de interpretar o cenário internacional e equipamentos adequados às atribuições militares. Relacionou a transformação ao fortalecimento da liderança, da unidade de propósito e da legitimidade institucional das Forças.

A ligação com a política externa foi explícita. Para Degaut, "uma boa diplomacia, uma boa política externa, não prescinde de um poder militar forte". Eduardo associou respeito internacional e liderança regional a Forças Armadas modernas e a uma indústria de defesa desenvolvida no Brasil.

Na cobertura da entrevista, a DefesaNet registrou que Degaut situou as propostas em um planejamento estratégico de longo prazo, envolvendo defesa, comércio e investimentos. Ele afirmou que o projeto estava pronto e seguia em aperfeiçoamento, mas informou que seus detalhes não seriam integralmente divulgados naquele momento.

O conjunto dessas manifestações sugere uma ambição que ultrapassa o emprego militar nas fronteiras. A capacidade de dissuasão e a sustentação industrial aparecem como componentes da posição internacional pretendida para o País. Trata-se de uma interpretação das declarações, não de um programa de reequipamento já aprovado pelo candidato.

Degaut e a ampliação do acesso ao crédito
A defesa de uma indústria nacional fortalecida tem antecedentes na trajetória administrativa de Degaut. Um dos resultados mais concretos associados à sua passagem pela Secretaria de Produtos de Defesa (SEPROD) foi a articulação com o BNDES. Em fevereiro de 2020, o Ministério da Defesa e o banco firmaram um protocolo para estudar instrumentos de financiamento, apoio às exportações e nacionalização progressiva de produtos e tecnologias. Na ocasião, conforme registro do LRCA, Degaut vinculou a iniciativa ao planejamento estratégico da secretaria.

O desdobramento verificável veio em 2021. Segundo o Ministério da Defesa, empresas encontravam dificuldades para cadastrar seus produtos no BNDES e, por isso, não conseguiam financiá-los. A parceria levou a um regulamento específico de credenciamento de produtos de defesa, com vigência a partir de 1º de novembro daquele ano, ampliando o conjunto de bens elegíveis ao crédito, inclusive pelas linhas BNDES Exim Pré-Embarque e Pós-Embarque.

A importância dessa mudança está na remoção de um obstáculo operacional. Um produto que não consegue ingressar no sistema de financiamento perde competitividade mesmo quando atende às necessidades do comprador. O regulamento ampliou a possibilidade de acesso ao crédito; não significou aprovação automática de operações ou desembolso garantido às empresas.

Promoção comercial e resultados institucionais
O balanço oficial da SEPROD de 2019 registrou atendimento a 361 empresas, realização de 14 missões internacionais e diálogos da indústria de defesa com seis países. A secretaria também produziu estudos comerciais sobre 69 países. Os dados mostram uma atuação organizada de prospecção e apoio às empresas, além da presença em feiras.

No mesmo balanço, o Ministério informou crescimento de 21,8% no número de empresas habilitadas ao Regime Especial de Tributação para a Indústria de Defesa (RETID) e de 75% no número das que passaram a usufruir do regime, em relação a 2018. São resultados institucionais do período de sua gestão, produzidos por equipes e outros órgãos envolvidos; não realizações individuais exclusivas do secretário.

O Relatório de Gestão do Ministério da Defesa de 2021 registrou, à época, cerca de US$ 1,7 bilhão em exportações autorizadas de produtos de defesa, apresentado como recorde histórico. A expressão é importante: autorizações não devem ser confundidas com embarques efetivados ou receitas recebidas no mesmo ano. O indicador documenta a expansão das autorizações durante aquela gestão, sem permitir atribuir toda a evolução comercial a uma única autoridade.

Há ainda reconhecimentos posteriores. Em janeiro de 2023, já na nova administração federal, o então secretário Rui Chagas Mesquita enalteceu o trabalho de seus antecessores, destacando Degaut e o general Luis Antônio Duizit Brito. 

No mês seguinte, em entrevista reproduzida pelo portal LRCA em 25 de fevereiro de 2023, o próprio Degaut cobrou maior atuação do Itamaraty na promoção das exportações de defesa e defendeu recursos para pesquisa e desenvolvimento de tecnologias capazes de reduzir a dependência externa.

Esse histórico confere consistência à orientação apresentada em setembro, pois a articulação entre diplomacia, indústria e capacidade militar não surgiu apenas na discussão eleitoral. Uma eventual participação de Degaut teria potencial para aproximar a discussão estratégica dos instrumentos de execução: credenciamento, crédito e promoção externa. Sua tradução em política de governo, porém, dependerá de medidas que transformem essa visão em financiamento, apoio comercial e continuidade de projetos.

Eduardo e o acesso à Casa Branca
A capacidade de interlocução de Eduardo com o governo Trump tem evidência recente. A Reuters informou que ele acompanhou Flávio em uma reunião com o presidente americano no Salão Oval, em 26 de maio de 2026. Um representante da Casa Branca confirmou o encontro. Segundo Flávio, foram discutidos crime organizado, tarifas e minerais críticos.

Embora o relato não mencione o KC-390, há um antecedente específico de promoção do avião por Eduardo. Em entrevista à Agência de Notícias Brasil-Árabe, publicada em agosto de 2019, ele relatou que discutira a possibilidade de venda do KC-390 durante reuniões nos Emirados Árabes Unidos, quando presidia a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara. O registro documenta familiaridade com a promoção internacional do produto, sem comprovar resultado comercial ou atuação equivalente nos EUA. Sete anos depois, em maio de 2026, a Embraer fechou com os Emirados um contrato para até 20 aeronaves, a maior encomenda internacional do cargueiro por um único país e a primeira venda no Oriente Médio.

A influência possível seria, sobretudo, de acesso e articulação: facilitar a apresentação da proposta a autoridades, incentivar seu exame no diálogo bilateral e dar visibilidade aos benefícios industriais para os americanos. 

Uma campanha industrial que já está em andamento
A iniciativa da Embraer tem trajetória própria. Em comunicado de 19 de fevereiro de 2026, a empresa e a Northrop Grumman anunciaram investimentos conjuntos para desenvolver o KC-390 Multi-Mission Tanker, voltado aos Estados Unidos e a países aliados. O trabalho inclui uma lança rígida autônoma de reabastecimento, comunicações aprimoradas, opções de consciência situacional e sobrevivência e sistemas de missão adaptáveis.

Em setembro, a FlightGlobal voltou a destacar a campanha sob o conceito Multi-Mission Airlift and Tanker, apresentando o KC-390 como complemento ao KC-46. A lógica comercial é oferecer uma plataforma que reúna transporte tático e reabastecimento, ampliando as alternativas de emprego da frota.

O desenvolvimento da lança rígida é uma distinção técnica essencial. O KC-390 já dispõe de reabastecimento por mangueira e cesto, documentado pela Embraer, mas o sistema anunciado com a Northrop pretende ampliar o universo de aeronaves atendidas, embora essa nova configuração ainda não esteja pronta e qualificada.

Também há contato operacional anterior à campanha eleitoral. A própria USAF registrou a participação de um C-390 brasileiro no exercício Storm Flag, na Louisiana, em março de 2024, junto a aeronaves americanas e suecas. O exercício demonstra interação militar e familiaridade com o modelo.

O argumento americano que poderia interessar a Trump
A perspectiva de produção local oferece um argumento concreto para uma eventual articulação política. Em declaração publicada pela Defense One em fevereiro de 2026, Bosco da Costa Junior, presidente da Embraer Defesa & Segurança, afirmou que a empresa estaria disposta a investir mais de US$ 500 milhões em uma instalação dedicada ao KC-390 nos EUA, caso houvesse viabilidade de negócio. 

Em 24 de setembro, o vice-presidente de Estratégia de Mercado e Produto da Embraer, Alvadi Serpa Junior, indicou Melbourne, na Flórida, onde a empresa já monta jatos executivos, como possível sede da fábrica, condicionada a uma encomenda expressiva do governo americano.

Uma proposta desse tipo permitiria apresentar o avião também como fonte de investimento, atividade industrial e empregos nos Estados Unidos. A associação com a Northrop Grumman reforça essa dimensão. Como análise, esse seria um argumento mais consistente para mobilizar interesse em Washington do que a afinidade pessoal entre dirigentes brasileiros e americanos.

A orientação pública de Trump oferece um ponto de convergência: a ordem executiva de 9 de abril de 2025 sobre aquisições de defesa enfatiza rapidez, inovação e revitalização da base industrial americana. A proposta da Embraer poderia ser defendida à luz desses objetivos.

Para o Brasil, o valor de uma eventual montagem nos EUA dependeria da divisão industrial negociada. Seria necessário avaliar quais atividades de engenharia, componentes, propriedade intelectual e receitas permaneceriam no País. Uma venda internacional relevante pode beneficiar a BID, mas seus efeitos não são iguais em qualquer arranjo de produção.

Onde termina o acesso político e começa a decisão de compra
Uma eventual atuação de Eduardo poderia ajudar a colocar o projeto na agenda. A conversão desse acesso em aquisição dependeria de necessidade operacional reconhecida, desenvolvimento e demonstração da configuração proposta, custos de implantação e sustentação e disponibilidade de recursos. A discussão orçamentária também passa pelo Congresso americano, como mostram as audiências públicas da USAF sobre suas prioridades de modernização.

A apresentação como complemento ao KC-46 pode reduzir a percepção de confronto direto com um programa existente, mas não elimina a disputa por orçamento. Mesmo um avião com funções adicionais precisa demonstrar por que sua incorporação oferece vantagem diante de outras formas de atender à missão. 

Tarifaço e mercado interno: o teste do acesso político
O raciocínio aplicado ao KC-390 vale também para um problema mais imediato da BID: as tarifas americanas sobre produtos brasileiros. Desde 22 de julho, vigora uma sobretaxa de 25% com base na Seção 301 da lei comercial dos EUA, justificada pelo USTR com o Pix, a taxação do etanol americano e falhas no combate à corrupção e ao desmatamento. Somada ao adicional de 12,5% ligado à investigação sobre trabalho forçado, a carga chega a 37,5%, segundo a Taurus. Partes de aviões ficaram entre as exceções, o que preserva uma parcela das exportações da Embraer, mas as armas leves e aeronaves militares não.

Uma vitória de Flávio no dia 25 poderia mudar o quadro. Como as tarifas de 2025 nasceram vinculadas à situação de Jair Bolsonaro, um governo alinhado a Washington teria mais condições de negociar um acordo comercial amplo, e o acesso de Eduardo ajudaria a abrir portas. A redução, nesse caso, decorreria de um entendimento soberano entre Estados, não de afinidades pessoais com empresas, e poderia exigir concessões brasileiras concretas nos temas que fundamentam a Seção 301.

Por outro lado, para a Taurus e para as demais empresas que produzem armamento leve, um eventual governo Flávio poderia oferecer ainda uma compensação doméstica. Em agosto, o deputado Marcos Pollon (PL-MS), integrante da equipe do candidato, defendeu como "primeiro passo" a revogação dos decretos de armas editados por Lula. Em seguida viria uma nova lei para substituir o Estatuto do Desarmamento, com critérios objetivos para aquisição e porte e a recomposição das prerrogativas de caçadores, atiradores desportivos e colecionadores (CACs). A proposta não consta do programa registrado no TSE, mas indica a disposição do grupo político do candidato.

O histórico recente mostra como o mercado reage a essas regras. Segundo o Sistema Nacional de Armas (Sinarm), da Polícia Federal, os registros chegaram a 185.497 em 2021 e a 135.334 em 2022. Com as restrições adotadas a partir de 2023, caíram 80%, para 28.328, o menor número desde 2004. A receita da Taurus no Brasil recuou 70,5% no quarto trimestre de 2023, e o presidente da empresa, Salesio Nuhs, afirmou que o mercado interno "simplesmente não existiu" naquele ano. Com as exportações para os Estados Unidos encarecidas pela tarifa, a reativação da demanda interna funcionaria como alternativa parcial.

O efeito, porém, teria limites. Em 2021, o Brasil respondia por apenas 8% a 10% da produção da Taurus, de modo que o mercado interno complementaria as vendas americanas, mas não as substituiria. Regras fixadas por decreto também podem ser revertidas rapidamente, como ocorreu em 2023, e uma nova lei dependeria do Congresso e de eventuais questionamentos no Supremo.

Indícios relevantes e compromissos ainda abertos
A participação do irmão do candidato e de um ex-secretário com larga experiência no setor constitui um indício relevante para compreender a direção em discussão. Isso não equivale, entretanto, à confirmação de que todas as propostas foram incorporadas pela candidatura.

Em reportagem de 29 de setembro sobre uma possível reforma do Itamaraty, a Folha de S.Paulo registrou que a campanha declarou que nem Eduardo Bolsonaro nem Degaut falavam pelo candidato. A manifestação ocorreu no contexto da política externa e não elimina o valor analítico das declarações, mas exige atribuir aos próprios autores as ideias apresentadas e distingui-las dos compromissos oficiais de Flávio.

Também permanecem lacunas materiais. A análise dos programas publicada pelo Forças Terrestres em 11 de setembro apontou a ausência, no documento de Flávio, de meta orçamentária específica para defesa, prioridades de plataformas e uma política detalhada para a BID. A promessa de duplicar investimentos, observou o portal, refere-se à segurança pública, não ao orçamento militar.

Para a indústria, a questão decisiva será como a orientação anunciada se converterá em demanda previsível. Um compromisso com modernização ganha alcance industrial quando define recursos, prazos e condições para desenvolver, produzir e sustentar equipamentos. Sem essas escolhas, ainda não é possível projetar encomendas ou identificar empresas beneficiadas.

Direção provável: tecnologia, capacidade militar e fortalecimento da BID
Os dados conhecidos permitem, portanto, reconhecer uma direção provável: tecnologia aplicada à segurança, valorização da capacidade militar e interesse, expresso por interlocutores próximos, em fortalecer a base industrial de defesa. 

Degaut reúne experiência documentada em instrumentos de apoio à BID. Eduardo dispõe de acesso político e já participou da promoção do KC-390 no exterior; a Embraer possui uma iniciativa industrial concreta nos Estados Unidos e a Taurus, além de já estar estabelecida neste país, poderia se beneficiar tanto de uma negociação tarifária quanto da reabertura do mercado interno. 

Esses elementos sustentam a hipótese de uma diplomacia de defesa mais ativa em favor das empresas brasileiras. A confirmação dependerá da apresentação, pela própria candidatura, das prioridades e dos meios para executar essa orientação.

21 setembro, 2026

El Niño se fortalece e Brasil acelera preparação para impactos econômicos, hídricos e militares

NOAA eleva para 75% a chance de um evento de intensidade histórica, ANA mantém no Sul sua única Sala de Crise ativa e CMS amplia capacidades para enfrentar eventos extremos; antes mesmo do pico previsto, rios gaúchos voltam a atingir níveis de inundação


*LRCA Defense Consulting - 22/09/2026

O El Niño de 2026/2027 entrou em uma nova fase. O que até poucos meses atrás era tratado principalmente como uma previsão climática passou a orientar decisões concretas sobre agricultura, abastecimento, energia, recursos hídricos, infraestrutura e preparação militar. E, no Rio Grande do Sul, antes mesmo de o fenômeno alcançar a máxima intensidade projetada, novos temporais voltaram a provocar elevações significativas de rios e risco de inundações.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) considera o fenômeno firmemente estabelecido e prevê intensidade muito forte. No Brasil, os organismos responsáveis pelo Painel El Niño 2026-2027 mantêm a perspectiva de impactos particularmente distintos entre as regiões: excesso de chuva no Sul e condições mais secas e quentes em grande parte do centro-norte do País.

Desde a última reportagem da LRCA Defense Consulting sobre o assunto, publicada em 5 de setembro, surgiram elementos importantes. A NOAA aumentou a probabilidade de um evento de intensidade histórica, o CEMADEN delimitou melhor o período provável de máxima temperatura do Pacífico, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) colocou em execução um plano específico para enfrentar os impactos do El Niño até março de 2027 e, no Rio Grande do Sul, o risco hidrológico voltou a se materializar.

Ao mesmo tempo, o Comando Militar do Sul (CMS), diretamente marcado pela catástrofe de 2024, apresenta um conjunto de mudanças estruturais, logísticas e operacionais destinadas a enfrentar novos eventos climáticos extremos.

75% de possibilidade de um El Niño histórico 
O Climate Prediction Center (CPC), da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), informa que o El Niño continua se fortalecendo. Em agosto, a anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 alcançou +1,8 °C; na Niño 3, +2,5 °C; e na Niño 1+2, +3,4 °C. No Pacífico equatorial oriental, as anomalias ultrapassaram +3,0 °C.

A NOAA mantém probabilidade superior a 90% de que o fenômeno alcance intensidade muito forte durante o outono e o inverno de 2026/2027 no Hemisfério Norte. Mas a atualização de setembro acrescentou um dado especialmente relevante: para o trimestre outubro, novembro e dezembro, existe agora 75% de probabilidade de o evento alcançar RONI trimestral igual ou superior a +2,5 °C e superar em intensidade os El Niños anteriores do registro utilizado pela NOAA, iniciado em 1950.

A previsão oficial atribui ainda 100% de probabilidade de permanência do El Niño até o trimestre janeiro, fevereiro e março de 2027. Depois disso, a probabilidade cai gradualmente: 97% em fevereiro, março e abril; 82% em março, abril e maio; e 43% em abril, maio e junho.

A intensidade do fenômeno, entretanto, não determina automaticamente a magnitude de seus impactos em cada região. Outros padrões oceânicos e atmosféricos podem reforçar, deslocar ou atenuar seus efeitos. Um El Niño excepcionalmente forte aumenta a probabilidade de impactos característicos do fenômeno, mas não permite determinar antecipadamente a intensidade de cada episódio de chuva, seca ou calor.

CEMADEN projeta máxima entre novembro e janeiro 

No Brasil, o CEMADEN acrescenta outra informação importante. No início de setembro, a região Niño 1+2, mais próxima às costas do Peru e do Equador, apresentava anomalia semanal de +3,9 °C.

Embora ainda exista incerteza sobre o valor máximo que será alcançado pela temperatura da superfície do mar, todos os modelos considerados pelo órgão enquadram o episódio na categoria de El Niño muito forte, com anomalias superiores a +2,0 °C na média trimestral.

O CEMADEN situa atualmente o período de máxima temperatura entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Isso significa que o intervalo de maior preocupação avança pelo verão e reforça a necessidade de manutenção das medidas preventivas por vários meses.

Essas projeções complementam o quadro apresentado pela LRCA Defense Consulting em 5 de setembro, quando uma reconstrução publicada na revista Science mostrou que a variabilidade do El Niño desde 1984 é 36,5% maior do que no período entre os anos 1000 e 1850.

A questão, portanto, deixou de ser apenas se haverá um El Niño muito forte. Passou a ser como País, estados, empresas e Forças Armadas utilizarão a antecedência proporcionada pelos modelos climáticos para reduzir seus impactos.

O Sul já tem a única Sala de Crise ativa da ANA 
A mudança mais importante ocorrida desde a elaboração inicial desta reportagem talvez esteja na preparação dos recursos hídricos.

Em 14 de setembro, a ANA apresentou o Plano de Preparação para o Enfrentamento dos Impactos do El Niño 2026/2027 sobre os Recursos Hídricos do Brasil. O documento estabelece ações estratégicas, operativas e regulatórias para administrar riscos até março de 2027.

O Plano trabalha com três níveis de acompanhamento: Salas de Crise, destinadas às bacias onde eventos hidrológicos críticos já estão instalados; Salas de Acompanhamento, voltadas a sistemas hídricos estratégicos; e reuniões preventivas de avaliação das condições hidrometeorológicas, que podem ser transformadas em Salas de Crise se houver agravamento.

Há um dado particularmente significativo para o Rio Grande do Sul: a Sala de Crise da Região Sul é atualmente a única Sala de Crise ativa da ANA no País. Seu foco está nas cheias, inundações graduais, enxurradas e segurança de barragens diante do excesso de precipitação.

A ANA também poderá adotar condições especiais de operação de reservatórios quando houver risco de cheias ou redução expressiva dos volumes armazenados. O Plano prevê ainda briefings técnicos mensais ao Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (CENAD) e à Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC), procurando antecipar decisões de preparação, resposta e assistência humanitária.

Trata-se de uma mudança importante de abordagem: o gerenciamento do El Niño passa da observação meteorológica para uma estrutura institucional de acompanhamento e intervenção.

No Rio Grande do Sul, o risco já voltou aos rios 
Enquanto os modelos projetam a máxima intensidade do fenômeno para os próximos meses, o Rio Grande do Sul voltou a enfrentar, neste fim de semana, condições meteorológicas severas.

A Defesa Civil estadual havia advertido que os acumulados entre 19 e 21 de setembro poderiam superar pontualmente 230 milímetros na metade norte do Estado, com possibilidade de mais de 150 milímetros em apenas 12 horas em algumas áreas. Também foram previstas tempestades, granizo e rajadas superiores a 100 quilômetros por hora.

Na tarde de 21 de setembro, a situação já aparecia nos rios. A Defesa Civil informou elevações significativas de arroios e cursos d'água da Região Hidrográfica do Guaíba. O rio Caí, em Nova Palmira, e o rio Paranhana, em Igrejinha, já apresentavam limiares de inundação.

As projeções hidrológicas indicavam risco de inundação também no Jacuí, entre Dona Francisca e Cachoeira do Sul; no Taquari, a partir de Santa Tereza; no Caí; no Paranhana; e no Sinos, em Campo Bom.

Um episódio meteorológico específico não pode ser atribuído isoladamente ao El Niño. O quadro atual, porém, demonstra concretamente o tipo de pressão sobre rios, infraestrutura, energia, transportes, Defesa Civil e capacidade de resposta que torna particularmente sensível a previsão de aumento das chuvas no Sul durante um evento muito forte.

Agricultura e abastecimento passam à prevenção 
No campo, o Ministério da Agricultura e Pecuária recebeu da Embrapa 163 medidas de gestão de riscos climáticos para a safra 2026/2027. Elaborado por cerca de 50 profissionais da Embrapa, com participação do INMET, o conjunto inclui 14 medidas transversais, 139 específicas por segmento produtivo e dez ações de apoio a políticas públicas.

A proposta vai além do evento atual e procura transformar a experiência com o El Niño em capacidade permanente de adaptação agroclimática.

O governo também autorizou a Conab a empregar até R$ 500 milhões na compra, por leilões públicos, de arroz longo fino em casca da safra 2025/2026 para formação de estoques públicos. A iniciativa está entre as ações destinadas a mitigar impactos associados ao El Niño.

O movimento é especialmente significativo para o Rio Grande do Sul, principal produtor de arroz do País e, simultaneamente, uma das áreas mais expostas ao excesso de precipitação projetado para os próximos meses.

Energia: 1,8 GW adicionais antes do período crítico 
O setor elétrico também antecipou decisões. Em julho, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), seguindo recomendações do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), aprovou a antecipação do suprimento de cinco contratos de reserva de capacidade, acrescentando 1,8 GW ao Sistema Interligado Nacional a partir de 1º de setembro.

O Ministério de Minas e Energia relacionou a medida à segurança do atendimento diante do El Niño e das incertezas geopolíticas sobre os preços dos combustíveis.

Segundo o governo, o fenômeno pode reduzir a disponibilidade de energia produzida na Região Norte e elevar a carga do sistema em razão das temperaturas mais altas. O ONS acompanha continuamente precipitação, temperatura, nebulosidade e ventos, incorporando os possíveis efeitos do El Niño ao planejamento da operação.

O risco econômico vai além das fronteiras 
A dimensão internacional amplia a preocupação. Análise da S&P Global Market Intelligence trata um eventual Super El Niño como choque de oferta capaz de atuar simultaneamente por três canais: produção agrícola, estresse no setor de energia e interrupções na logística e nas operações portuárias.

A combinação pode pressionar preços, cadeias de suprimento e crescimento econômico, com efeitos diferentes conforme a exposição de cada país e setor.

Para o Brasil, isso significa que os impactos não precisam ocorrer apenas onde chover demais ou de menos. Problemas em safras estrangeiras, portos, energia ou fertilizantes podem chegar ao País por meio dos preços e do comércio internacional, enquanto danos internos a rodovias, ferrovias, linhas de transmissão e terminais portuários podem afetar exportações e abastecimento.

O El Niño passa, assim, a funcionar como multiplicador de riscos já existentes.

CMS transforma as lições de 2024 em capacidade permanente 

É nesse cenário que a preparação militar ganha importância estratégica. A enchente de 2024 mostrou que as Forças Armadas podem ser chamadas a realizar uma operação humanitária de enorme escala ao mesmo tempo em que suas próprias instalações, comunicações, acessos e sistemas são atingidos.

Informações obtidas pela LRCA Defense Consulting junto ao Comando Militar do Sul mostram que as lições daquela crise estão sendo convertidas em novas estruturas, reposicionamento de material de Engenharia, aquisição de equipamentos, exercícios de apoio à Defesa Civil, treinamento do Estado-Maior, acompanhamento sistemático dos alertas e aperfeiçoamento da capacidade de comando e controle.

Engenharia e transporte recebem novas estruturas 
Entre as medidas está a criação da 8ª Companhia de Engenharia de Combate, em São Leopoldo, ativada em 12 de março de 2026.

Segundo o CMS, a unidade deverá contar com meios de Engenharia comprovados na Operação Taquari 2, incluindo pontes móveis e passadeiras, e terá condições de realizar transposição de cursos d'água, reparos de vias e tratamento e purificação de água.

Outra mudança é a 3ª Companhia de Transporte, ativada em 15 de junho no 3º Batalhão de Suprimento, em Nova Santa Rita. A nova organização possui estrutura inicial com 47 militares e 48 viaturas, com a finalidade de garantir pronta resposta em calamidades e apoiar mais de 100 unidades militares na região.

Em uma crise que interrompa pontes e rodovias, capacidade de transporte deixa de ser apenas função logística e passa a constituir elemento central da resposta humanitária.

O CMS também informa o reposicionamento de material de Engenharia, incluindo carregadeira sobre rodas, motores de popa, trator polivalente, embarcação de assalto, coletes salva-vidas e caminhão basculante.

Paralelamente, foi elaborado edital para aquisição de 21 tipos de equipamentos voltados à atuação em ambientes adversos, entre eles botas e macacões impermeáveis, equipamentos de proteção respiratória, coletes salva-vidas, capas de chuva, escadas e material para remoção de entulho.

Treinar antes da cheia 
A preparação não se limita à aquisição de meios. A 5ª Divisão de Exército realizou, em São João Batista, Santa Catarina, exercício de apoio à Defesa Civil com aproximadamente 400 militares, cerca de 60 viaturas e um blindado Guarani, integrados a órgãos civis. As situações simuladas envolveram gerenciamento de abrigos, evacuação de escolas e resgate de feridos e pessoas ilhadas.

A 6ª Divisão de Exército, por sua vez, planejou a Operação Jacuí em Eldorado do Sul, município severamente atingido em 2024. O exercício foi concebido para ampliar a cooperação interagências, desenvolver estratégias de resposta rápida e fortalecer a atuação conjunta do Exército, Defesa Civil e autoridades municipais diante de grandes emergências.

O próprio comando precisa continuar funcionando 
Talvez a mudança mais importante esteja no nível de comando e controle. O CMS realizou, em seu Centro de Coordenação de Operações, exercício de acionamento do Estado-Maior baseado em cenário fictício de enchentes severas numa região entre as mais atingidas em 2024.

Foram testados o funcionamento completo do centro, a ativação do Centro de Coordenação Civil-Militar, a Sala de Imprensa e a estrutura de videoconferência operacional.

A iniciativa se soma às medidas já informadas anteriormente pelo CMS à LRCA: plano de evacuação do Quartel-General Integrado, possibilidade de continuidade das atividades de comando no 3º Regimento de Cavalaria de Guarda e redundância de tecnologia da informação mediante ligação com servidores de outro Comando Militar de Área.

O objetivo é evitar que a interrupção de energia ou o alagamento de uma instalação paralise o sistema de comando.

O CMS acrescenta ainda o acompanhamento mais intenso e sistemático dos canais de alerta da Defesa Civil e o aprimoramento da capacidade de comando e controle das operações. Na prática, a previsão meteorológica passa a integrar o ciclo de decisão militar antes da emergência, e não apenas depois que o desastre ocorre.

Duas missões ao mesmo tempo 
Esse ponto é decisivo. Em um evento extremo, as Forças Armadas precisam cumprir duas tarefas simultâneas: preservar sua própria capacidade operacional e empregar essa capacidade em apoio à população.

Quartéis, depósitos, sistemas de comunicações, energia, água, combustível, hospitais, aeródromos e rotas logísticas também podem ser atingidos. Se a primeira missão falhar, a segunda fica comprometida.

A preparação apresentada pelo CMS indica uma mudança de postura em relação a 2024: criar redundância, distribuir meios, aumentar capacidades de Engenharia e transporte, exercitar o comando e integrar-se antecipadamente à Defesa Civil.

Isso não significa que um novo desastre de magnitude igual ou superior ao de 2024 esteja solucionado de antemão. Significa que parte importante das vulnerabilidades conhecidas foi incorporada ao planejamento.

E há agora uma conexão institucional importante: enquanto o CMS prepara suas estruturas e tropas para enfrentar eventos extremos, a ANA mantém justamente no Sul a única Sala de Crise ativa do País. A preparação militar e a gestão federal dos recursos hídricos passam, portanto, a responder preventivamente ao mesmo cenário de risco.

Da previsão à preparação, e da preparação ao primeiro teste 
As reportagens da LRCA Defense Consulting sobre o atual ciclo do El Niño registram uma evolução clara. Em julho, a questão era a aproximação do fenômeno e a capacidade de resposta do Rio Grande do Sul. Em 5 de setembro, a reconstrução publicada na Science mostrou que a variabilidade recente do El Niño ultrapassa a observada ao longo de muitos séculos e recolocou em evidência as vulnerabilidades ainda existentes em Porto Alegre.

Agora, o cenário avançou novamente. A NOAA atribui 75% de probabilidade a um El Niño capaz de superar em intensidade os eventos de seu registro desde 1950; o CEMADEN situa a máxima temperatura entre novembro e janeiro; a ANA colocou em execução um plano nacional de preparação e mantém uma Sala de Crise especificamente para a Região Sul; agricultura, abastecimento e energia já adotaram medidas preventivas; e o CMS transformou parte das lições de 2024 em novas capacidades.

Ao mesmo tempo, antes mesmo do pico projetado, as chuvas de setembro voltam a elevar rios gaúchos a níveis de inundação e colocam diferentes bacias em situação de risco.

A vantagem de 2026 sobre 2024 é que, desta vez, existe uma janela de preparação e parte das instituições já começou a utilizá-la.

O maior risco seria confundir antecedência com garantia de segurança.

A questão que se coloca para o País já não é apenas quando e com que intensidade o El Niño chegará ao pico. É saber se infraestrutura civil, sistemas produtivos, setor energético, Defesa Civil e Forças Armadas conseguirão transformar meses de aviso em resiliência real.

No Sul, esse processo já começou. Os próximos meses mostrarão até onde ele foi suficiente.

11 julho, 2026

À espera do novo El Niño: o Rio Grande do Sul entre a ciência, a prevenção e a capacidade de resposta

Com probabilidade superior a 90% de um novo El Niño ainda em 2026, Comando Militar do Sul e Defesa Civil já simularam um novo colapso no Vale do Taquari. Governo federal, estado e municípios ajustam e reforçam seus planos de contingência; Justiça Federal mantém suspensa a retomada da mineração de areia no Guaíba


*LRCA Defense Consulting - 11/07/2026

Um novo El Niño, classificado por parte da comunidade científica como potencialmente comparável ao episódio de 2015–2016, avança sobre o Oceano Pacífico com probabilidade superior a 90% de formação ainda em 2026, segundo boletins recentes do Climate Prediction Center, órgão da National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa), e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Para o Rio Grande do Sul, o prognóstico reacende uma pergunta que ainda não tem resposta fechada: o estado, os municípios e as Forças Armadas estão preparados para uma repetição, ou algo pior, da catástrofe de maio de 2024?  

O tema ganhou um capítulo novo em maio deste ano, quando o governo gaúcho tentou destravar mais de duas décadas de embargo à mineração comercial de areia no Lago Guaíba, medida que reacendeu a discussão sobre assoreamento e risco de cheias na capital e na região metropolitana, mas que a Justiça Federal, a pedido do Ministério Público Federal, decidiu manter suspensa até a conclusão da análise pericial do MPF, quando então o zoneamento poderá, de fato, ser ou não homologado.

Um alerta que se aproxima do consenso técnico
Boletim do Climate Prediction Center, órgão da National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa), divulgado em 9 de julho de 2026, elevou de 63% para 81% a probabilidade de o fenômeno atingir intensidade classificada como muito forte entre outubro e dezembro de 2026, e apontou 97% de chance de o El Niño persistir até o início da primavera de 2027. Segundo o boletim, o evento já superou a fase fraca e se encontra em nível moderado, sem sinais de desaceleração. Cientistas ouvidos pela Associated Press, como Emily Becker, da Universidade de Miami, e Daniel Swain, da Universidade da Califórnia, avaliam que o episódio pode rivalizar com o super El Niño de 1997 e 1998, que, segundo o Banco Mundial, provocou 23 mil mortes em desastres climáticos ao redor do mundo e custou a governos até US$ 45 bilhões.

Já em maio, a Defesa Civil do Rio Grande do Sul, em comunicado do Governo do Estado, havia elevado para 83% a chance de a anomalia térmica no Pacífico ficar entre 1,5°C e 2°C acima da média, patamar equivalente ao episódio de 2015 e 2016. A pesquisadora Regina Rodrigues, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), observa que o intervalo entre eventos de grande magnitude, historicamente próximo de 15 anos, caiu para apenas dois anos desde a última grande cheia. Para o Sul do País, o padrão favorece condições semelhantes às observadas em 2024 (El Niño, bloqueio atmosférico, rios atmosféricos, aquecimento do Atlântico, mudanças climáticas), podendo resultar em chuva muito acima da média, com risco elevado sobre a bacia do Guaíba.

Durante episódios intensos de El Niño, o aquecimento anômalo das águas do Pacífico altera a circulação atmosférica sobre a América do Sul. No Sul do Brasil, isso tende a favorecer a formação e persistência de sistemas frontais e corredores de umidade, aumentando a frequência de chuvas volumosas, especialmente na primavera e no início do verão. 

Um dado técnico merece atenção: em 2024, a pior fase da enchente ocorreu em maio, quando o fenômeno já caminhava para sua fase de dissipação, e não no seu pico. Isso significa que o risco para o Rio Grande do Sul pode se estender além do auge climático do episódio atual, projetado para o fim de 2026 e início de 2027. 

O precedente de 2024: a maior operação humanitária das Forças Armadas no País
A enchente de abril e maio de 2024 atingiu 428 dos 497 municípios gaúchos, deixou mais de 180 mortos e um prejuízo estimado em R$ 88,9 bilhões, segundo relatório conjunto do Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento e da Cepal. A resposta das Forças Armadas, batizada de Operação Taquari II, escalou progressivamente: começou com 626 militares em 19 municípios, em 1º de maio, e chegou a mobilizar cerca de 19,5 mil integrantes de Exército, Marinha e Aeronáutica ao fim de dois meses de operação, em uma atuação que o então ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, chamou de "operação de guerra". Ao todo, o conjunto das três Forças somou mais de 52 mil resgates aéreos, terrestres e fluviais, cerca de 84 mil pessoas e 10,5 mil animais assistidos, 55 embarcações, 27 aeronaves e 1.710 viaturas empregadas.

Exército Brasileiro
Foi o ramo com maior efetivo empregado, superando 9 mil militares somente sob o Comando Conjunto Taquari II. Concentrou-se na desobstrução de vias, no resgate terrestre e fluvial e na montagem de infraestrutura de emergência. O 4º Grupamento de Engenharia, sediado em Porto Alegre, coordenou o lançamento de pontes de equipagem por meio do 3º Batalhão de Engenharia de Combate (Cachoeira do Sul) e do 6º Batalhão de Engenharia de Combate (São Gabriel). O caso mais emblemático foi a Ponte de Suporte Logístico (Logistic Support Bridge) erguida sobre o Arroio Grande, em Santa Maria, com vão de 60,96 metros e capacidade para veículos de até 80 toneladas, concluída em dez dias de trabalho contínuo, em temperaturas próximas de 0°C. 

O Exército também instalou dois hospitais de campanha, um em Lajeado e outro em Estrela, este com 40 leitos e mais de 20 militares de saúde, empregou viaturas de transporte de carga do tipo 5 toneladas para remoção de pacientes em situação crítica (entre eles casos de hemodiálise e pós-cirúrgicos) e recorreu a viaturas blindadas Guarani para acesso a ruas alagadas onde embarcações não podiam circular. Equipes de defesa química, biológica, radiológica e nuclear (QBRN) do Exército, em conjunto com técnicos da Fepam, também vistoriaram áreas industriais alagadas em Canoas, recolhendo cerca de 2 mil recipientes com produtos químicos.

Marinha do Brasil
Empregou cerca de 2 mil militares na Operação Abrigo pelo Mar-RS, com destaque para o navio-aeródromo multipropósito Atlântico, o maior navio de guerra da América Latina, que partiu do Rio de Janeiro para Rio Grande levando 1.350 militares, 154 toneladas de donativos, 38 viaturas, 24 embarcações de pequeno e médio porte e três helicópteros. O Atlântico dispõe do segundo maior complexo médico embarcado da Marinha, com centro cirúrgico, raio X, consultório odontológico, laboratório e UTI com dois leitos. 

A Força também enviou o navio-patrulha oceânico Amazonas e o navio-patrulha Babitonga, além da fragata Defensora, e montou um hospital de campanha em Guaíba, com mais de 2.500 atendimentos realizados pelo Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais em Apoio à Defesa Civil. Um dos ativos mais decisivos foram as duas estações móveis de tratamento de água transportadas a bordo do Atlântico, com capacidade conjunta de gerar até 20 mil litros de água potável por hora; ao longo da operação, essas unidades trataram mais de 263 mil litros de água, entregues à Corsan para distribuição em áreas com abastecimento interrompido. Fuzileiros navais também empregaram carros lagarta anfíbios em patrulhamento conjunto com a Brigada Militar nas áreas mais castigadas.

Força Aérea Brasileira
Operou a partir das bases aéreas de Santa Maria (BASM), Canoas (BACO) e Florianópolis (BAFL), com mais de 1.300 militares e chegando a reunir 26 aeronaves próprias, entre elas o KC-390 Millennium (usado tanto para lançamento aéreo de cargas quanto para transporte de módulos dos hospitais de campanha das três Forças), o C-105 Amazonas (convertido em UTI aérea para evacuações aeromédicas), os helicópteros H-60L Black Hawk e H-36 Caracal (empregados em resgates de pessoas ilhadas, inclusive noturnos, com uso de óculos de visão noturna) e o KC-30, usado, entre outras missões, para transportar cerca de 20 toneladas de ração a mais de 80 mil animais resgatados. 

A Força coordenou ainda, por meio do Comando de Operações Aeroespaciais (Comae), o tráfego de 36 aeronaves de diferentes órgãos no espaço aéreo de Canoas e Santa Maria, tendo ultrapassado 2 mil horas de voo e mais de 2.167 resgates aéreos ao longo da operação. Um dos resgates mais citados foi o salvamento noturno de 147 pessoas presas em uma igreja no município de Guaíba, com infiltração de policiais militares por meio de guincho a partir de um H-60L.

O emprego combinado desses meios (pontes de engenharia e viaturas blindadas do Exército, navios-hospital e estações de tratamento de água da Marinha, e a malha de transporte aéreo e resgate da FAB) é hoje referência doutrinária citada pelo próprio Exército como base para o adestramento de 2026, tema tratado adiante.

 
Documentário de GZH DOC (2025): "Maio 24 - Um ano da enchente do RS"

Vídeo do "Bom dia, Rio Grande" (2026): "Enchente de 2024 ainda deixa reflexos em Porto Alegre" - cidade tenta reforçar proteção, enquanto moradores convivem com incertezas

Governo libera o zoneamento, mas Justiça mantém o embargo à mineração no Guaíba
A extração comercial de areia no Lago Guaíba foi interrompida ainda em 2003, após ação judicial movida pela ONG Mar de Dentro Ambiente e Educação, que contestou a regularidade das licenças de lavra concedidas na época em que o licenciamento era municipal. Em 2013, uma ação civil pública da Associação Comunitária Amigos do Lami levou a Justiça Federal a suspender de forma ampla qualquer nova licença de mineração no lago até a conclusão de um Zoneamento Ecológico-Econômico pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), decisão mantida pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região em 2016 e reafirmada pela Justiça Federal em 2021. O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) também expediu, em 2015, recomendação formal para que a Fepam se abstivesse de licenciar qualquer atividade de pesquisa ou extração enquanto o zoneamento não fosse concluído.

O quadro mudou em 25 de maio de 2026, quando o governador Eduardo Leite assinou as portarias Fepam nº 597/2026 e nº 601/2026. A primeira aprova o zoneamento ambiental da mineração no Guaíba, liberando cerca de 2.051 hectares (aproximadamente 4% da área do lago) para eventual exploração. A segunda regulamenta o aproveitamento econômico da areia retirada durante as dragagens de manutenção das hidrovias gaúchas, sistema que soma 286 quilômetros entre os portos de Porto Alegre e Rio Grande. Antes, embora a dragagem já fosse realizada para manter a navegabilidade, o material removido era, em regra, depositado em áreas de descarte licenciadas. Com a nova norma, essa areia poderá ser comercializada, desde que cumpridas as exigências ambientais e minerárias. 

A liberação não é automática: cada empresa interessada precisa obter Licença Prévia e de Instalação individual junto à Fepam, além de autorização federal da Agência Nacional de Mineração. O presidente do Sindareia, Laércio Thadeu Silva, definiu o cenário anterior como "mais de 23 anos impossibilitados de tirar um grão de areia" do Guaíba.

As portarias estaduais, porém, não encerraram a disputa judicial. No fim de junho, o juiz federal substituto Bruno Brum Ribas, da 9ª Vara Federal de Porto Alegre, jurisdição do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), atendeu a pedido do Ministério Público Federal (MPF) e determinou que a Assessoria Nacional de Perícia em Meio Ambiente (ANPMA), vinculada ao Centro Nacional de Perícia do MPF, analise em até 60 dias os documentos e as justificativas apresentados pela Fepam para a retomada da mineração. Na decisão, o magistrado registrou que "fica mantida a proibição de concessão de licenças ambientais para a atividade de mineração no Lago Guaíba até que sobrevenha decisão judicial definitiva acerca da homologação do referido zoneamento". A Fepam já foi intimada da decisão, e o MPF também deverá se manifestar sobre o zoneamento após a perícia. 

Na prática, portanto, o embargo à mineração comercial no Guaíba segue formalmente em vigor: as portarias de maio criaram o arcabouço administrativo para uma eventual retomada, mas caberá à Justiça Federal, após a análise pericial do MPF, decidir se e quando o zoneamento poderá de fato ser homologado.

Assoreamento foi decisivo na enchente de 2024? O que dizem os técnicos
A literatura técnica sobre extração de areia reconhece que a atividade tem, entre seus poucos efeitos considerados positivos, a redução do assoreamento, já que remove sedimento que de outra forma se acumularia no leito. Nesse sentido, mais de duas décadas sem extração comercial no Guaíba são compatíveis, do ponto de vista teórico, com maior acúmulo de sedimento ao longo do tempo.

Esse não é, porém, o diagnóstico oficial sobre a causa da enchente de 2024. O Comitê Científico do Plano Rio Grande, formado após o desastre, concluiu que o assoreamento não foi fator decisivo nas cheias registradas no Guaíba, no Delta do Jacuí e no Rio Taquari, atribuindo o episódio majoritariamente ao volume pluviométrico extremo, superior a mil milímetros em poucos dias em parte da bacia. Nota técnica do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS (IPH/UFRGS) chegou a refutar explicitamente a hipótese de que o assoreamento tenha causado ou intensificado a cheia de maio de 2024 no Taquari, e a Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRHidro) classificou a dragagem em corpos hídricos do porte do Guaíba como uma solução "complexa e limitada", de custo elevado e sujeita a reassoreamento rápido. O próprio governo estadual reforçou essa leitura ao anunciar as portarias de maio de 2026, afirmando publicamente que a liberação da mineração "não tem relação com ações de prevenção a enchentes" e que a inundação de 2024 não alterou o perfil hidrológico histórico do lago.

O setor de mineração defende posição diferente. Para o Sindareia, a retomada da dragagem comercial pode contribuir para a prevenção de eventos como o de 2024, argumento reiterado por representantes do setor à imprensa gaúcha. 

O tema, portanto, segue sem consenso pleno: há base técnica para afirmar que a ausência de extração favoreceu o acúmulo de sedimento ao longo de duas décadas (em termos teóricos e em estudos sobre dinâmica sedimentar), mas não há comprovação oficial de que esse fator tenha sido determinante para a magnitude da catástrofe de 2024, que os estudos atribuem sobretudo à excepcionalidade das chuvas.

Comando Militar do Sul, em caráter preventivo, simula novo colapso no Vale do Taquari
Em 30 de abril de 2026, o Comando Militar do Sul (CMS) realizou, em seu quartel-general em Porto Alegre, um exercício de planejamento de resposta a desastres chamado de "Operação Pampa Pronto", reunindo mais de 40 militares de dez organizações do Exército, além de representantes da Brigada Militar, do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil estadual. O cenário fictício reproduziu uma nova onda de enchentes severas no Vale do Taquari, uma das regiões mais castigadas em 2024, com chuvas acima de 300 milímetros em 24 horas, rompimento de barragem, 15 municípios atingidos, pontes destruídas, hospitais isolados e torres de telefonia fora de operação.

Sob supervisão do general de brigada Renato Souza Pinto Soeiro, Chefe do Centro de Coordenação de Operações do Comando Militar do Sul (CMS), dez células funcionais atuaram simultaneamente, cobrindo inteligência, operações, logística, comunicações, planejamento, assuntos civis, jurídico e finanças. O exercício testou, entre outros dilemas, a distribuição de água potável para 100 mil pessoas sem acesso rodoviário e a coordenação de helicópteros, caminhões e equipes médicas em cenário de comunicações limitadas. Segundo o CMS, os avanços doutrinários incorporados às lições de 2024 incluem coordenação interagências desde as primeiras horas de crise, ativação antecipada de estruturas jurídicas e de comunicação social, e planejamento para continuidade de operações mesmo sem energia elétrica ou internet. O Comando informou que exercícios semelhantes seguirão ao longo de todo o ano de 2026.

A preparação também avançou em estrutura permanente. Em 15 de junho de 2026, o CMS inaugurou, em Nova Santa Rita, na Região Metropolitana de Porto Alegre, o Núcleo da 3ª Companhia de Transporte, junto ao 3º Batalhão de Suprimento (3º B Sup), unidade que concentrou boa parte da logística da Operação Taquari II em 2024. A nova companhia conta com 47 militares e 48 viaturas, entre caminhões-prancha, cavalos mecânicos e caminhões-guincho, ampliando a capacidade de resposta rápida do Exército na região que mais concentra população e infraestrutura crítica do estado.

 
Vídeo do 
exercício de planejamento de resposta a desastres do CMS 

O que está preparado e o que ainda está em aberto
O Rio Grande do Sul chega ao novo ciclo de El Niño com estrutura de governança muito mais consolidada do que em 2024: o governo estadual informa que os 497 municípios contam hoje com planos de contingência atualizados, 60 municípios prioritários já receberam diagnóstico individualizado de vulnerabilidade, dentro do programa estadual Prepara RS, lançado por decreto em 17 de junho de 2026. Em nível federal, uma Sala de Situação Interministerial, coordenada pela Casa Civil com participação do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, unifica 20 ministérios e órgãos, incluindo o planejamento do emprego das Forças Armadas.

Permanecem, contudo, três questões sem resposta definitiva: 
1. A Justiça Federal irá de fato homologar o zoneamento e liberar o licenciamento, hoje travado por decisão que aguarda perícia do MPF? 

2. Qual é a efetiva capacidade das novas regras de mineração, uma vez liberadas, de reduzir o assoreamento do Guaíba ao longo dos próximos anos?

3. E o mais importante: a combinação de obras de dragagem (R$ 731 milhões já investidos em hidrovias gaúchas desde 2024, segundo o governo estadual), medidas preventivas já realizadas, planos de contingência federal/estadual/municipais e prontidão militar serão suficientes diante de um fenômeno que a maioria dos modelos climáticos já trata como certo, restando apenas definir a intensidade?



Fontes: Noaa; Inmet; Defesa Civil do Rio Grande do Sul; Ministério da Defesa; governo do Estado do Rio Grande do Sul; Fepam; Comando Militar do Sul; jornal Correio do Povo; Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS; ABRHidro; Sindareia; Banco Mundial, BID e Cepal. 

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