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08 setembro, 2026

SIATT e Safran avançam para cooperação estratégica em defesa no Brasil

Acordo entre a SIATT, empresa do EDGE Group, e a Safran Electronics & Defense prevê explorar mísseis, munições de permanência, defesa costeira e tecnologias críticas, com destaque para a criação de capacidade brasileira de desenvolvimento e produção de motores-foguete de propelente sólido 
 


*LRCA Defense Consulting - 08/09/2026

A SIATT, empresa brasileira do EDGE Group especializada em sistemas de armas inteligentes e integração de sistemas, assinou nesta terça-feira, 8 de setembro, um Memorando de Entendimento (MoU) com a Safran Electronics & Defense para explorar uma nova frente de cooperação tecnológica e industrial no Brasil. O acordo envolve sistemas de mísseis, munições vagantes (loitering munitions), defesa costeira e tecnologias associadas, mas seu ponto de maior alcance estratégico está na intenção de estabelecer, em território brasileiro, capacidade para desenvolver e produzir motores-foguete de propelente sólido. 

Motores-foguete passam ao centro da nova parceria 
Segundo o anúncio do EDGE, a cooperação deverá avaliar a implantação dessa capacidade nas instalações da SIATT no Brasil. O entendimento também abrange tecnologias consideradas críticas para sistemas de armas modernos, entre elas unidades de medição e navegação inercial, receptores GNSS, atuadores, miras eletro-ópticas e sistemas de busca e aquisição de alvos (seekers).

A iniciativa ainda está em fase exploratória. O MoU não representa, por si só, um contrato de produção, uma joint venture já constituída ou a definição de um sistema de armas específico. O que está formalmente estabelecido é um marco para estudar projetos e formas de cooperação. Essa distinção é importante porque o comunicado não informa cronograma, investimento, modelo societário ou quais produtos serão desenvolvidos inicialmente.

O momento industrial da SIATT 
A assinatura ocorre apenas 13 dias depois de a SIATT colocar em operação a Fase 1 de sua nova unidade industrial em Caçapava, no Vale do Paraíba. A planta, com 6.200 m² de área construída nessa primeira etapa, foi concebida para desenvolver, fabricar, integrar, testar e qualificar mísseis, foguetes guiados, motores-foguete e outros sistemas propulsivos destinados aos setores de Defesa e Espaço. 

A coincidência temporal não prova que o MoU com a Safran tenha sido motivado diretamente pela nova fábrica, mas cria uma conexão industrial evidente: a SIATT passa a contar justamente com uma infraestrutura projetada para ampliar sua atuação em propulsão e, agora, anuncia uma parceria com uma das maiores empresas europeias do setor aeroespacial e de defesa para estudar a criação de uma capacidade específica de motores-foguete sólidos.

Segundo o LRCA Defense Consulting, a nova unidade de Caçapava faz parte de um processo de expansão industrial do EDGE no Brasil e foi planejada em três fases. Ao final da implantação, a previsão divulgada é de 640 empregos, sendo 160 diretos e 480 indiretos. 

Nova unidade em Caçapava (SP)

Uma lacuna histórica da indústria brasileira 
A propulsão de mísseis é uma das áreas mais sensíveis de uma cadeia de defesa. O motor-foguete não é apenas um componente de um míssil, mas um elo determinante para desempenho, alcance, aceleração, armazenamento e disponibilidade operacional do sistema. A capacidade de projetar e fabricar esse componente em escala industrial reduz dependências externas e pode facilitar a evolução de diferentes famílias de armas.

No caso brasileiro, o MANSUP é um exemplo particularmente relevante. O programa contou historicamente com a participação da AVIBRAS no desenvolvimento do motor-foguete e da integração dos protótipos, enquanto a SIATT ficou responsável pelo sistema de guiagem, navegação, controle e telemetria.

Isso significa que a nova iniciativa não deve ser interpretada como simples repetição do que a SIATT já fazia no MANSUP. O movimento anunciado agora aponta para a possibilidade de a empresa ampliar sua competência industrial em propulsão, potencialmente transformando uma capacidade vinculada a programas específicos em uma competência transversal aplicável a diferentes sistemas.

A parceria EDGE e Safran ganhou velocidade em 2026 
O acordo anunciado no Brasil é mais um capítulo de uma aproximação que ganhou força ao longo de 2026. Em fevereiro, EDGE e Safran Electronics & Defense assinaram um Memorando de Entendimento para explorar o desenvolvimento, a produção e a comercialização de sistemas avançados de armas ar-superfície, com possibilidade de evolução para sistemas superfície-ar e uma nova geração de armas inteligentes.

Em junho, durante a Eurosatory 2026, em Paris, os grupos assinaram um Acordo de Cooperação Estratégica mais amplo. No dia seguinte, anunciaram os termos para duas possíveis joint ventures, uma nos Emirados Árabes Unidos e outra na França, além de uma linha de desenvolvimento conjunto de uma arma guiada de maior alcance baseada na família Hammer. 

A extensão dessa parceria ao Brasil, por meio da SIATT, amplia geograficamente a cooperação e acrescenta uma dimensão industrial que interessa diretamente à Base Industrial de Defesa brasileira. O próprio EDGE afirmou que o acordo brasileiro leva sua rede global de parcerias para o País e associa a Safran à SIATT na construção de capacidade de motores-foguete em território nacional.

Tecnologias críticas além da propulsão 
Outro aspecto relevante do MoU é a amplitude das tecnologias mencionadas. Sistemas de medição inercial e navegação são fundamentais para determinar a posição, atitude e trajetória de um míssil ou veículo, enquanto receptores GNSS podem complementar a navegação em determinados perfis de missão. Atuadores transformam os comandos do sistema de controle em movimentos físicos, e sensores eletro-ópticos e buscadores podem fornecer informações para aquisição, acompanhamento ou guiagem do alvo.

A Safran já possui presença industrial consolidada no Brasil. A empresa informa ter mais de 750 empregados no País, distribuídos por quatro unidades, e atua em equipamentos aeronáuticos, aviônicos, optrônicos, sistemas de navegação e motores de helicópteros. O Ministério da Defesa também incluiu, em maio de 2026, diversos produtos da Safran Electronics & Defense Brazil na relação de Produtos Estratégicos de Defesa, incluindo sistemas de navegação inercial, miras panorâmicas, telêmetros e equipamentos de observação. 

Portanto, o novo entendimento reúne duas bases industriais complementares: de um lado, a Safran, com décadas de presença e conhecimento tecnológico no País; de outro, a SIATT e o EDGE, com crescente capacidade de desenvolvimento, integração, produção e internacionalização de sistemas de armas.

O que pode surgir dessa cooperação 
O comunicado não identifica quais mísseis ou munições serão desenvolvidos, nem informa se algum projeto existente será adaptado. Ainda assim, a combinação das áreas citadas permite visualizar algumas possibilidades industriais: novos mísseis de alcance ampliado, sistemas de defesa costeira, munições de permanência e armas guiadas que utilizem diferentes combinações de navegação, sensores e propulsão.

Há também uma dimensão potencialmente importante para o setor espacial. A nova unidade de Caçapava foi planejada para atuar simultaneamente em Defesa e Espaço, inclusive com motores-foguete e outros sistemas propulsivos. O compartilhamento de competências entre esses dois domínios pode ampliar a escala econômica de tecnologias de alto valor e contribuir para a retenção, no País, de conhecimento relacionado à propulsão.

Brasil ganha capacidade, mas a autonomia dependerá da execução 
Sob a ótica da Base Industrial de Defesa, o aspecto mais significativo do anúncio é menos o nome da parceria e mais a possibilidade de transformar cooperação tecnológica em capacidade industrial permanente. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços reconhece a defesa como setor estratégico para soberania, inovação, geração de empregos qualificados e reindustrialização, além de destacar a inserção competitiva do Brasil em cadeias globais de valor.

A entrada de uma empresa como a Safran pode acelerar a maturação de competências da SIATT e abrir acesso a mercados e tecnologias que seriam mais difíceis de desenvolver isoladamente. Ao mesmo tempo, o resultado para a autonomia tecnológica brasileira dependerá do grau de transferência efetiva de conhecimento, da participação de profissionais e fornecedores nacionais, da propriedade intelectual estabelecida em cada projeto e da capacidade de manter no País etapas críticas de desenvolvimento, produção, testes e qualificação.

Por enquanto, portanto, o anúncio deve ser lido como o início de uma nova frente de cooperação, e não como uma capacidade já operacional. Mas o momento em que ele ocorre é significativo: a SIATT acaba de colocar em funcionamento uma planta preparada para mísseis e motores-foguete, o EDGE está ampliando sua presença industrial brasileira e a Safran procura aprofundar sua cooperação com o grupo. Se os estudos previstos no MoU forem convertidos em projetos concretos, o Brasil poderá ganhar um novo polo de competência em propulsão e tecnologias críticas para armas guiadas.

Um movimento que reforça a posição do Vale do Paraíba 
O acordo também reforça a concentração, em São José dos Campos e no entorno, de competências brasileiras e internacionais relacionadas a defesa, aeroespacial e espaço. A região já reúne empresas, universidades, institutos de pesquisa e organizações ligadas a sistemas complexos. A expansão da SIATT, somada à crescente presença do EDGE e à histórica atuação da Safran no País, acrescenta mais um elemento a esse ecossistema.

O principal indicador a acompanhar daqui para frente será a passagem do entendimento para contratos, programas e investimentos. Se isso ocorrer, o MoU de 8 de setembro poderá ser lembrado não apenas como mais uma parceria empresarial, mas como o ponto de partida para uma capacidade industrial brasileira de motores-foguete sólidos associada a uma cadeia mais ampla de sensores, navegação, controle e sistemas de armas.

04 setembro, 2026

EDGE conclui compra da Akaer e usa participação da SIATT para preservar selo de empresa estratégica de defesa

Com fatia minoritária da SIATT na aeroespacial de São José dos Campos, grupo dos Emirados Árabes Unidos fecha a terceira aquisição na base industrial de defesa brasileira desde 2023



*LRCA Defense Consulting - 04/09/2026 

O EDGE, conglomerado estatal de defesa e tecnologia dos Emirados Árabes Unidos, anunciou nesta sexta-feira (4) a conclusão da compra da Akaer, empresa de engenharia aeroespacial de São José dos Campos (SP). O anúncio confirma o fechamento do negócio cujo acordo de compra e venda de ações, o share purchase agreement, havia sido assinado em cerimônia realizada em julho, quando as partes revelaram a intenção de transferir 100% do capital da companhia brasileira ao grupo emiradense.

Segundo comunicado da EDGE, todas as condições precedentes usuais para o fechamento da operação foram cumpridas, o que torna a Akaer, na prática, uma subsidiária integral do grupo dos Emirados. “A conclusão desta aquisição marca um importante passo para a EDGE no Brasil. Aguardamos com expectativa a contribuição contínua da Akaer para o ecossistema de defesa do País e a força que seu talento de engenharia traz às capacidades da EDGE em todo o grupo”, disse Hamad Al Marar, diretor-presidente (CEO) da EDGE.

A novidade: SIATT entra no capital da Akaer 
O ponto que distingue esta etapa da operação em relação ao que havia sido anunciado em julho é a estrutura societária adotada para viabilizar o fechamento. A EDGE informou que, como parte da transação, uma participação minoritária no capital da Akaer será mantida pela SIATT, empresa brasileira de mísseis e sistemas de alta tecnologia da qual o próprio grupo emiradense já é sócio. Segundo a EDGE, esse desenho societário reflete a estrutura corporativa acertada para a aquisição, com o objetivo de preservar o enquadramento da Akaer como Empresa Estratégica de Defesa (EED), classificação concedida pelo Ministério da Defesa a companhias responsáveis pelo desenvolvimento ou pela produção de bens e tecnologias consideradas essenciais à defesa nacional.

A fórmula chama a atenção porque, até então, o mecanismo discutido publicamente para a manutenção do status de EED da Akaer era a permanência de uma participação brasileira direta, nos moldes do que ocorre na própria SIATT, cujos sócios fundadores brasileiros mantêm o controle votante da empresa. Ao colocar a SIATT, e não um sócio brasileiro independente, como titular da fatia minoritária da Akaer, a EDGE cria uma cadeia societária em que uma empresa já parcialmente sua passa a deter parte de outra companhia do mesmo grupo em solo brasileiro. O desenho definitivo da governança e o percentual exato reservado à SIATT não foram detalhados pelas empresas.

Quem é a Akaer
Fundada em 1992 e sediada em São José dos Campos, a Akaer acumula mais de 10 milhões de horas de engenharia aeroespacial em programas civis e militares. A empresa participou do desenvolvimento do caça F‑39 Gripen, da Força Aérea Brasileira; do cargueiro multimissão KC‑390 Millennium, da Embraer; da revitalização estrutural das asas dos aviões de patrulha P‑3AM Orion; e venceu, em 2023, a licitação para modernizar o blindado EE‑9 Cascavel do Exército. A companhia também assina o Opto‑ThermoScan, sistema de medição de temperatura corporal, e foi selecionada recentemente pela alemã Deutsche Aircraft para fabricar a fuselagem dianteira do turboélice D328eco, tornando‑se a primeira fornecedora brasileira de nível 1 (Tier 1) da indústria aeroespacial global.

A companhia já trabalhava em parceria com a EDGE no desenvolvimento e na industrialização de sistemas não tripulados antes mesmo da aquisição, incluindo o programa de drone de grande porte JENIAH. Segundo o diretor financeiro (CFO) da EDGE, Rodrigo Torres, cerca de 40% da receita da Akaer já vinha de contratos com o grupo emiradense no momento do anúncio, em julho.

Como a venda chegou a esse ponto 
A negociação avançou em meio a dificuldades financeiras enfrentadas pela Akaer, que acumulou dívidas e passou a ter problemas para honrar compromissos com funcionários e fornecedores. Em julho, Torres afirmou à CNN Brasil que o Ministério da Defesa e integrantes das Forças Armadas procuraram a EDGE durante a feira LAAD para discutir alternativas que evitassem o fechamento da empresa, pedindo que se avaliasse uma parceria capaz de impedir a falência da companhia. O governo havia liberado, via Finep, R$ 41,3 milhões para a Akaer; parte da verba foi cancelada em 2025 em razão de um suposto desvio de recursos.

O atual controlador da Akaer, Cesar Silva, deixará a gestão da empresa, mas deve permanecer como consultor da EDGE por um período de um a dois anos, segundo apurado à época do anúncio. A estrutura acionária da companhia também facilitou a operação: a sueca Saab, que chegou a deter 42,21% da holding Akaer Participações S.A., teve sua fatia integralmente recomprada pela então controladora Connectus Gestão e Participações em outubro de 2023, com aprovação sem restrições do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), o que dispensou a negociação com um sócio estrangeiro na operação com a EDGE.

Terceira aquisição do grupo emiradense na defesa brasileira 
A Akaer é a terceira compra da EDGE na base industrial de defesa (BID) brasileira desde setembro de 2023. As duas anteriores foram a SIATT, cujos sócios fundadores brasileiros mantêm 50,1% do capital e 60% do capital votante, e a Condor Tecnologias Não Letais, líder mundial em armamentos não letais, na qual a EDGE detém participação majoritária. Executivos do grupo já afirmaram publicamente que o investimento acumulado da EDGE no Brasil soma cerca de R$ 3 bilhões (em torno de US$ 590 milhões). O valor pago pela Akaer não foi divulgado pelas empresas.

Com Akaer, Condor e SIATT sob o mesmo guarda-chuva, o grupo passa a reunir, dentro do País, capacidades que vão do projeto conceitual de plataformas (com a Akaer) a mísseis guiados e sistemas de navegação (com a SIATT) e armamentos não letais (com a Condor). A Akaer também aparece, segundo dossiê do International Institute for Strategic Studies (IISS) sobre sistemas não tripulados no Oriente Médio, como parceira de projeto do motor do REACH-S, UAV da ADASI, subsidiária da EDGE, e do Samoom, drone da saudita Intra Defense Technologies, ao lado da sul-africana Hensoldt e da belga ULPower Aero Engines.

Questionamentos sobre soberania 
A operação também gerou reação de entidades ligadas à ciência e à engenharia nacionais. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o Clube de Engenharia e outras entidades levaram à Presidência da República um pedido de suspensão da operação e de auditoria, argumentando que a manutenção do enquadramento como EED para uma empresa de controle integralmente estrangeiro representa um nó jurídico ainda não resolvido. Até a conclusão do negócio, o governo não havia explicitado publicamente o critério que seria adotado para validar a preservação do status da Akaer.

Analistas da BID citam como precedente a aquisição da Atmos Sistemas pela sueca Saab, em 2020, quando decisões de engenharia e propriedade intelectual passaram, no médio prazo, a migrar para fora do raio de influência nacional, o que reforça o interesse em acompanhar como a EDGE conduzirá a governança e a transferência de tecnologia na Akaer.

O que observar daqui para frente 
Falta ainda esclarecer o percentual exato da participação da SIATT no capital da Akaer e o desenho final de governança que sustentará o enquadramento como EED perante o Ministério da Defesa. Também merece atenção o ritmo de novos anúncios prometidos pela EDGE para o Brasil, inclusive em cibersegurança e produção local, que podem indicar se o padrão agora observado, de uma empresa do próprio grupo servindo de veículo para cumprir exigências societárias brasileiras, se repetirá em outras companhias da base industrial de defesa nacional.

27 agosto, 2026

SIATT liga a produção de mísseis e foguetes em Caçapava e avança na consolidação da base industrial de defesa

Primeira fase da planta, com 6.200 m² de área construída, reforça a Base Industrial de Defesa e amplia a capacidade da empresa em mísseis, foguetes guiados e motores-foguete para os setores de Defesa e Espaço



*LRCA Defense Consulting - 27/08/2026

A SIATT iniciou, nesta quarta-feira (26), a operação da Fase 1 de sua nova unidade industrial em Caçapava, no interior de São Paulo. A cerimônia reuniu autoridades civis e militares, executivos do Grupo EDGE e da própria empresa, marcando uma nova etapa da expansão que o conglomerado dos Emirados Árabes Unidos vem promovendo na Base Industrial de Defesa (BID) brasileira.

Com 6.200 m² de área construída nesta primeira fase, a nova planta amplia a capacidade da SIATT para desenvolver, fabricar, integrar, testar e qualificar sistemas de defesa considerados de alta complexidade, entre eles mísseis, foguetes guiados, motores-foguete e outros sistemas propulsivos destinados também a aplicações espaciais. Segundo a empresa, a unidade foi concebida para apoiar programas estratégicos brasileiros e para permitir ampliações sucessivas, conforme a evolução das demandas do País e do mercado internacional.

A mesa da cerimônia reuniu o Ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação, Luis Fernandes; o Vice-Governador de São Paulo, Felicio Ramuth; o Presidente do Conselho de Administração da SIATT, Azhaury Cunha Filho; o Presidente do Cluster de Mísseis e Armamentos do Grupo EDGE, Saif Al Dahbashi; o Prefeito de Caçapava, Yan Lopes de Almeida; o Comandante-Geral do Corpo de Fuzileiros Navais, Almirante de Esquadra Carlos Chagas Viana Braga; o Chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército, General Hertz Pires do Nascimento; e o Diretor-Presidente da SIATT, Rogerio Salvador.

"Um país que pretende decidir sobre o próprio futuro precisa também decidir as suas escolhas, e essa liberdade se sustenta não apenas em meios militares, mas também em ciência, engenharia e uma indústria capaz de transformar conhecimento em soluções concretas", disse o Diretor-Presidente da SIATT durante a cerimônia.

Já o Presidente do Conselho de Administração da empresa, Azhaury Cunha Filho, associou a nova planta à sede da SIATT em São José dos Campos, inaugurada no ano passado. "Existe uma diferença fundamental entre dominar uma tecnologia e possuir a capacidade industrial de produzi-la de forma recorrente, confiável e em escala. A nossa sede em São José dos Campos e esta planta de Caçapava representam justamente essa transição. Estamos transformando conhecimento acumulado durante muitos anos em uma capacidade industrial permanente", afirmou. 


Continuidade de um ciclo de investimentos
A entrada em operação da Fase 1 não é um evento isolado. A unidade de Caçapava já vinha sendo construída desde pelo menos 2025, quando a SIATT apresentou o projeto durante a LAAD, e passou a concentrar, ao longo deste ano, entregas relevantes para as Forças Armadas: em maio, a empresa entregou ao Exército Brasileiro, em Formosa (GO), o primeiro lote de produção em série do míssil MAX 1.2 AC, fabricado justamente na planta paulista, que responde tanto pela fabricação dos motores quanto pela montagem final dos sistemas.

A fábrica também está associada ao programa MANSUP, míssil antinavio de superfície da SIATT, que recebeu encomenda de US$ 350 milhões dos próprios Emirados Árabes Unidos; a demanda ajudou a viabilizar, em escala, um programa que, sem parceiro externo, teria mais dificuldade de sair do papel. A SIATT é ainda a integradora do SisGAAz, programa estratégico de vigilância e monitoramento do litoral brasileiro.

Fortalecimento da Base Industrial de Defesa 
Para a SIATT, a ampliação da planta de Caçapava se insere em um movimento mais amplo de consolidação da BID e de busca do País por maior soberania e autonomia tecnológica em setores estratégicos. Ao ampliar o domínio de tecnologias críticas e reforçar a estrutura fabril, a empresa afirma buscar reduzir dependências externas e aumentar a capacidade nacional de produzir sistemas essenciais à Defesa Nacional, além de abrir caminho para novas parcerias com empresas, instituições de ciência e tecnologia e organizações nacionais e internacionais.

O caso da SIATT também ilustra a estratégia do Grupo EDGE no Brasil desde que se tornou acionista e parceiro estratégico da empresa, em 2023. O conglomerado dos Emirados Árabes Unidos já expandiu a fábrica da Condor, em São Paulo, e assumiu papel de destaque na tentativa de solução para a crise da Akaer, movimento que partiu do próprio Ministério da Defesa. O histórico do grupo no País sugere disposição de investir em capacidade produtiva local, e não apenas de absorver tecnologia já desenvolvida no Brasil. 


Empregos e próximas fases 
A implantação da Unidade Caçapava está estruturada em diferentes fases; as Fases 2 e 3 preveem novas ampliações da infraestrutura e aumentos sucessivos da capacidade de produção. Quando concluído, o projeto deverá gerar 640 empregos, sendo 160 diretos e 480 indiretos, além de consolidar um ecossistema regional formado por empresas, universidades, centros de pesquisa e instituições de engenharia e tecnologia.

Segundo a SIATT, à medida que essas etapas avançarem, a empresa poderá atender a um número maior de programas estratégicos do Brasil e buscar novas oportunidades no mercado internacional, em alinhamento com as políticas de Estado e com as diretrizes brasileiras para a exportação de produtos e tecnologias de Defesa.

Sobre a SIATT 

A SIATT é uma EED (Empresa Estratégica de Defesa) sediada em São José dos Campos, com parque industrial que inclui a subsidiária de Caçapava. Especializada em armamentos inteligentes, a empresa fornece sistemas de Defesa baseados em mísseis e é a integradora do SisGAAz. Desde 2023, o Grupo EDGE, dos Emirados Árabes Unidos, é acionista e parceiro estratégico da empresa.

19 julho, 2026

EDGE Group monta cadeia vertical de mísseis, drones e optrônica no Brasil com terceira aquisição estratégica

Com Akaer, Condor e SIATT sob seu guarda-chuva, conglomerado estatal dos Emirados Árabes Unidos consolida presença industrial no País; especialistas veem ganhos em empregos e divisas, mas alertam para riscos à autonomia tecnológica da base industrial de defesa


*LRCA Defense Consulting - 18/07/2026

O EDGE Group, conglomerado de defesa e tecnologia dos Emirados Árabes Unidos, anunciou em 16 de julho de 2026 um acordo para adquirir 100% da Akaer Engenharia, empresa aeroespacial e de defesa sediada em São José dos Campos, no interior de São Paulo. A operação, que ainda depende de aprovação regulatória, é a terceira compra do grupo emiradense na base industrial de defesa (BID) brasileira desde setembro de 2023, depois das participações na SIATT e na Condor Tecnologias Não Letais. 

Em entrevista à CNN Brasil, o diretor financeiro (CFO) do EDGE Group, Rodrigo Torres, revelou que o Ministério da Defesa e integrantes das Forças Armadas procuraram o conglomerado durante a feira LAAD para discutir alternativas que evitassem o fechamento da Akaer, pedindo que se avaliasse não necessariamente uma aquisição, mas uma parceria capaz de impedir a falência de outra grande empresa da defesa brasileira.

As três aquisições
A primeira aproximação do EDGE Group ao Brasil ocorreu em setembro de 2023, quando o conglomerado adquiriu 50% da SIATT (Sistemas Integrados de Alto Teor Tecnológico), empresa de São José dos Campos especializada em mísseis inteligentes e cliente histórica da Marinha do Brasil. A companhia desenvolve a família de mísseis antinavio MANSUP, com alcance de até 70 quilômetros, e a versão estendida 
MANSUP-ER, de maior alcance, que deverá equipar as novas fragatas Classe Tamandaré.

Em 2024, o grupo ampliou a presença no País com a compra de 51% da Condor Tecnologias Não Letais, sediada em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, e considerada uma das líderes mundiais em tecnologias não letais como gás lacrimogêneo, munição de impacto e granadas de fumaça, com presença comercial em mais de 85 países.

A terceira peça é a Akaer, fundada em 1992 e classificada como Empresa Estratégica de Defesa (EED), que acumula mais de 32 anos de atuação nos setores aeroespacial, de defesa e de indústria 4.0, com mais de dez milhões de horas de engenharia dedicadas a sistemas e estruturas aeronáuticas. 

Segundo comunicado oficial do próprio EDGE Group, a empresa já prestou apoio de engenharia ao Gripen NG, da Saab, ao Hürjet, da Turkish Aerospace, e a diferentes programas da Embraer, entre eles Super Tucano, ERJ-E1, ERJ-E2, Legacy 450/500 e KC-390, além de contribuir com o 747-8, da Boeing, o B-250, da Calidus, e a frota de patrulha marítima P-3 Orion, da Força Aérea Brasileira. No Exército, participa da modernização dos blindados EE-9 Cascavel.

Segundo o EDGE Group, a aquisição da Akaer daria ao grupo uma base de engenharia permanente dentro do ecossistema aeroespacial brasileiro, fortalecendo sua capacidade de cumprir cronogramas de industrialização em programas de VANTs e ampliando suas capacidades em optrônica, sistemas eletro-ópticos e infravermelhos, além de tecnologias espaciais. O diretor-geral e CEO do EDGE Group, Hamad Al Marar, afirmou que a Akaer agrega profunda capacidade de engenharia ao grupo, com uma equipe altamente especializada e três décadas de experiência em programas aeroespaciais complexos, e que a prioridade é a continuidade das pessoas, dos programas e dos clientes da Akaer.

O investimento acumulado do EDGE Group no Brasil já soma cerca de R$ 3 bilhões (em torno de US$ 590 milhões), segundo executivo do próprio grupo, em declaração feita durante o IV Simpósio de Defesa e Segurança Internacional dos Fuzileiros Navais, em julho de 2026.

A ligação confirmada com o Jeniah
Diferentemente do que se sabia até a divulgação oficial da compra, o vínculo entre Akaer e EDGE Group não se limitava a um memorando de intenções. Segundo Torres, cerca de 40% da receita da Akaer já vinha de contratos com o grupo árabe, sobretudo no desenvolvimento do Jeniah, veículo de combate não tripulado a jato do EDGE, para o qual a fabricante brasileira produz a estrutura, o interior da plataforma e a integração de motores, cabos e sistemas.

Para onde aponta a sinergia
A leitura conjunta das operações sugere que o EDGE Group não está simplesmente colecionando ativos brasileiros, mas montando uma cadeia industrial complementar. A SIATT contribui com os mísseis antinavio e anticarro; a Akaer, por meio de sua subsidiária Opto Tecnologia Optrônica, agrega lentes, câmeras, sensores infravermelhos e baterias, além da estrutura (frame), do interior da plataforma e da integração de motores, cabos e sistemas do próprio Jeniah. O vínculo entre as duas empresas remonta a abril de 2023, quando, durante a LAAD, Akaer e EDGE Group assinaram memorando de entendimento, firmado por Cesar Silva, então CEO da Akaer, e Ahmed Hasan Alkhoori, vice-presidente de Programas Estratégicos do EDGE, prevendo cooperação em sistemas seeker duplos para mísseis, fusores a laser e kits de guiagem para foguetes de 70 milímetros, além de aeronaves de missão especial, segundo comunicado da própria Akaer à época.

Segundo o dossiê Uninhabited Middle East, do International Institute for Strategic Studies (IISS), publicado em 2026, a Akaer teria contribuído ainda com o design e a análise de desempenho do motor do REACH-S, VANT de média altitude e longa autonomia (MALE) da ADASI, subsidiária do EDGE Group, e também apareceria como parceira de design do Samoom, UAV da saudita Intra Defense Technologies, ao lado da sul-africana Hensoldt e da belga ULPower Aero Engines. O próprio relatório do IISS ressalva que essa informação foi apurada por meio de perfis profissionais de engenheiros da Akaer, e não por comunicado oficial das partes envolvidas, ao contrário do vínculo com o Jeniah, este confirmado pelo próprio CFO do EDGE Group.

Já a Condor cumpre um papel diferente na engrenagem: o de plataforma de distribuição comercial. O EDGE Group identificou no potencial de exportação da empresa carioca, com canais já estabelecidos em mais de 85 países, um caminho para ampliar o alcance global do próprio conglomerado. O resultado apareceu rápido: três semanas após a aquisição, em 2024, a Condor fechou um contrato de mais de US$ 10 milhões com um país africano.

O efeito mais concreto dessa engrenagem já apareceu nas exportações da SIATT: por conta da associação com o EDGE Group, a empresa fechou um acordo para exportar mísseis MANSUP aos Emirados Árabes Unidos, em contrato avaliado em US$ 299 milhões, o primeiro cliente da SIATT fora do Brasil. Segundo executivos do EDGE Group, os problemas orçamentários das Forças Armadas brasileiras não inviabilizam os projetos, desde que os produtos nacionais também sejam destinados à exportação, usando encomendas internacionais para dar escala às fábricas no País e reduzir o custo dos equipamentos para as próprias Forças Armadas.

 

Um resgate solicitado pelo próprio governo
A compra da Akaer ocorre em meio a dificuldades financeiras da empresa. Desde março de 2025, o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região denuncia atrasos recorrentes no pagamento de salários, FGTS e benefícios, quadro que se agravou em dezembro de 2025 e voltou a se repetir em fevereiro de 2026, quando cerca de 700 trabalhadores ainda não tinham recebido os vencimentos de janeiro. Segundo Torres, a empresa deixou de pagar a folha de pagamento por um período e o plano de saúde dos funcionários por quase um ano. A Akaer também viu fracassar, em fevereiro de 2026, o programa do veículo lançador de pequeno porte (VLPP), cancelado após a Finep identificar que a empresa não conseguiu comprovar a aplicação de parte dos recursos repassados ao projeto.

Foi nesse cenário que, segundo o CFO do EDGE Group, o Ministério da Defesa e integrantes das Forças Armadas procuraram o conglomerado durante a LAAD para buscar uma solução que evitasse o fechamento da companhia, tratando o caso, ao menos inicialmente, como uma possível parceria, e não como uma venda integral. Governo federal, Ministério da Defesa e Forças Armadas foram informados sobre a negociação ao longo dos meses seguintes, segundo o executivo. O atual controlador da Akaer, Cesar Silva, deixará a gestão da empresa, mas deverá permanecer como consultor do EDGE Group por um período de um a dois anos.

Um fator que teria facilitado a negociação foi a atual estrutura acionária da Akaer: a Saab, que chegou a deter 42,21% da holding Akaer Participações S.A., teve sua participação integralmente recomprada pela controladora Connectus Gestão e Participações em outubro de 2023, com aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) sem restrições, o que dispensaria a negociação com um sócio estrangeiro na operação com o EDGE Group.

Manutenção do status de Empresa Estratégica de Defesa
Apesar da compra de 100% do capital por um grupo estrangeiro, o EDGE Group afirma que a Akaer continuará credenciada como Empresa Estratégica de Defesa, enquadramento concedido pelo Ministério da Defesa a companhias responsáveis pelo desenvolvimento ou pela produção de bens e tecnologias essenciais para a defesa nacional, e que envolve requisitos societários e de governança. Segundo Torres, será mantida estrutura local de governança e participação brasileira suficiente para atender às regras do credenciamento, ainda que o desenho definitivo dependa das aprovações regulatórias.

Impactos para a base industrial de defesa
Em termos de empregos, o efeito tende a ser positivo no curto prazo: a entrada de capital estrangeiro resolveria rapidamente a crise que hoje compromete salários e benefícios de cerca de 600 a 700 trabalhadores, preservando postos de trabalho qualificados que, sem aporte externo, estariam sob risco real de extinção, quadro agravado pelo fato de a busca por uma solução ter partido do próprio Ministério da Defesa. O histórico do grupo no País, com a construção de nova unidade industrial da SIATT em Caçapava (SP) e a expansão da fábrica da Condor em São Paulo, sugere disposição de investir em capacidade produtiva local, e não apenas de absorver tecnologia já desenvolvida.

Em exportações e divisas, o efeito já é mensurável: os contratos da SIATT com os Emirados Árabes Unidos (US$ 299 milhões) e da Condor com país africano (mais de US$ 10 milhões) representam entrada de moeda estrangeira viabilizada por ativos brasileiros que, operando isoladamente, dificilmente teriam acesso à mesma rede comercial internacional do EDGE Group, hoje presente em mais de 30 países. A lógica declarada pelo próprio grupo, de usar encomendas internacionais para dar escala às fábricas brasileiras e reduzir custos para as Forças Armadas nacionais, reforça esse potencial.

O ponto que segue exigindo atenção é a autonomia tecnológica. Diferentemente das participações minoritária e majoritária mantidas na SIATT e na Condor, a aquisição integral da Akaer configura um padrão distinto, o de controle acionário total. Há precedente relevante nesse sentido, o da aquisição da Atmos Sistemas pela sueca Saab, em 2020, quando decisões de engenharia e propriedade intelectual passaram a migrar, no médio prazo, para fora do raio de influência nacional. O fato de a operação ter sido solicitada pelo próprio Ministério da Defesa, e de o EDGE Group ter se comprometido a manter estrutura local de governança e participação brasileira suficiente para preservar o status de EED, reduz parte desse risco em relação ao que se poderia esperar de uma aquisição puramente oportunista, mas não o elimina, já que o desenho definitivo dessas salvaguardas ainda depende das aprovações regulatórias.

O que observar daqui para frente
A confirmação regulatória da compra da Akaer e o desenho final das condições de governança e participação brasileira exigidas para manter o status de Empresa Estratégica de Defesa devem ser os próximos marcos a acompanhar. Também merece atenção o ritmo de novos anúncios prometidos pelo EDGE Group para 2026, incluindo áreas de cibersegurança e produção local, que podem indicar se o padrão observado no caso Akaer, de conversão de uma parceria técnica em controle acionário, se repetirá em outras empresas da BID brasileira.

16 julho, 2026

Grupo EDGE compra 100% da Akaer e amplia domínio sobre a indústria de defesa brasileira

Em entrevista à CNN, o CFO do conglomerado emiradense, Rodrigo Torres, detalha dívidas trabalhistas da fabricante brasileira, manutenção do status de Empresa Estratégica de Defesa e prioridade à modernização do blindado Cascavel 


*LRCA Defense Consulting - 16/07/2026

O Grupo EDGE, conglomerado de defesa e tecnologia avançada dos Emirados Árabes Unidos, anunciou nesta quinta-feira (16) a compra de 100% da Akaer, empresa brasileira de engenharia aeroespacial e de defesa sediada em São José dos Campos (SP). A informação foi divulgada pela CNN Brasil em entrevista com o diretor financeiro (CFO) do grupo, Rodrigo Torres. Os valores da transação não foram revelados.

Segundo Torres, a aquisição integra a estratégia do EDGE de ampliar sua presença no País e incorporar capacidades de engenharia consideradas relevantes para os projetos do conglomerado. A relação entre as duas empresas não é recente: cerca de 40% da receita da Akaer já vinha de contratos com o grupo árabe, sobretudo no desenvolvimento do JENIAH, aeronave não tripulada de grande porte do EDGE, para a qual a fabricante brasileira produz a estrutura (frame), o interior da plataforma e a integração de motores, cabos e sistemas.

Uma parceira de longa data
Fundada em 1992, a Akaer acumula mais de 10 milhões de horas de engenharia e participou de projetos como o caça Gripen, o cargueiro KC-390 e o Super Tucano, além de diferentes aeronaves comerciais da Embraer. A empresa também atua em sistemas optrônicos, tecnologias espaciais, integração de plataformas e modernização de equipamentos militares.

O vínculo entre as duas companhias remonta a abril de 2023, quando, durante a LAAD, Akaer e EDGE assinaram um memorando de entendimento para cooperação no desenvolvimento e na produção de sistemas de alta tecnologia para os setores aeroespacial e de defesa. Segundo o dossiê Uninhabited Middle East, do International Institute for Strategic Studies (IISS), publicado em 2026, a Akaer também contribuiu com o design e a análise de desempenho do motor do REACH-S, UAV de média altitude e longa autonomia da ADASI (subsidiária do EDGE), e aparece como parceira internacional do próprio JENIAH. O mesmo levantamento lista a empresa brasileira como parceira de design do Samoom, UAV da saudita Intra Defense Technologies, ao lado da sul-africana Hensoldt e da belga ULPower Aero Engines.

Dificuldades financeiras
A compra ocorre em meio a uma situação financeira delicada da Akaer. De acordo com Torres, a empresa acumulou dívidas e passou a enfrentar dificuldades para cumprir compromissos com funcionários e fornecedores, deixando de pagar a folha de pagamento por um período e o plano de saúde dos funcionários por quase um ano.

O executivo afirmou que o Ministério da Defesa e integrantes das Forças Armadas procuraram o EDGE durante a LAAD para discutir alternativas que evitassem o fechamento da companhia, pedindo ao grupo que avaliasse não necessariamente uma aquisição, mas uma parceria capaz de impedir a falência de outra grande empresa da defesa brasileira.

O atual controlador da Akaer, Cesar Silva, deixará a gestão da empresa, mas deverá permanecer como consultor do EDGE por um período de um a dois anos. Um fator que teria facilitado a negociação foi a atual estrutura acionária da companhia: a Saab, que chegou a deter 42,21% da holding Akaer Participações S.A., teve sua participação integralmente recomprada pela controladora Connectus Gestão e Participações em outubro de 2023, com aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Volta às atividades centrais
A estratégia do EDGE será concentrar a Akaer nas atividades consideradas centrais para a companhia, após um período em que a fabricante brasileira passou a atuar em áreas que não faziam parte de suas principais especialidades. Segundo Torres, o foco será a área aeroespacial, drones, espaço, modernização e integração de plataformas, óptica (lentes e câmeras) e baterias.

O grupo pretende utilizar a capacidade da Akaer desde a concepção de projetos até a industrialização dos produtos, integrando a empresa aos trabalhos do EDGE em optrônica, sistemas eletro-ópticos e infravermelhos e tecnologias espaciais. A expectativa é repetir na Akaer estratégia semelhante à adotada após os investimentos na SIATT e na Condor, com injeção de capital, expansão da produção e acesso à carteira internacional do conglomerado.

Cascavel será uma das prioridades
Um dos projetos considerados prioritários pelo novo controlador será a modernização do EE-9 Cascavel, blindado de reconhecimento utilizado pelo Exército Brasileiro. A Akaer venceu, em 2023, uma licitação para modernizar um lote inicial de nove veículos, com mudanças na motorização, na suspensão e nos sistemas eletrônicos, além da instalação de novas miras, sensores, equipamentos de comunicação e uma torre modernizada.

O programa enfrenta limitações orçamentárias e teve seu ritmo reduzido nos últimos anos. Segundo Torres, a aquisição deve dar maior segurança ao Exército quanto à continuidade dos trabalhos, já que o programa de modernização do Cascavel continuará sendo executado pela Akaer.

Status de Empresa Estratégica de Defesa é mantido
Apesar da compra de 100% do capital por um grupo estrangeiro, o EDGE afirma que a Akaer continuará credenciada como EED (Empresa Estratégica de Defesa), enquadramento concedido pelo Ministério da Defesa a companhias responsáveis pelo desenvolvimento ou pela produção de bens e tecnologias essenciais para a defesa nacional, e que envolve requisitos societários e de governança.

Segundo Torres, será mantida uma estrutura local de governança e uma participação brasileira suficiente para atender às regras do credenciamento, ainda que o desenho definitivo dependa das aprovações regulatórias. Integrantes do governo federal, do Ministério da Defesa e das Forças Armadas foram informados sobre a negociação ao longo dos últimos meses.

Expansão do EDGE no Brasil
Criado em 2019 e sediado em Abu Dhabi, o EDGE reúne mais de 35 empresas em áreas como plataformas militares, mísseis, sistemas de inteligência, segurança, tecnologias espaciais e industrialização. O grupo encerrou 2024 com receita próxima de US$ 5 bilhões e passou a tratar o Brasil, desde a abertura de um escritório em Brasília em 2023, como uma das principais bases de sua expansão na América Latina.

Além da Akaer, o conglomerado já detém 50% da SIATT, especializada em armamentos inteligentes e sistemas de alta tecnologia, e controla a Condor, fabricante de equipamentos não letais, na qual adquiriu participação de 51% em 2024. O grupo mantém ainda projetos com a Marinha, entre eles o desenvolvimento dos mísseis antinavio MANSUP e MANSUP-ER, que serão integrados às fragatas da classe Tamandaré, além de sistemas contra drones e novas plataformas não tripuladas. A Akaer poderá ser incorporada a esses programas, principalmente nas etapas de engenharia, integração e industrialização de aeronaves.

Para o EDGE, a entrada em empresas brasileiras permite combinar a engenharia nacional com a capacidade financeira e comercial do grupo. Executivos da companhia argumentam que os problemas orçamentários das Forças Armadas não inviabilizam os projetos, desde que os produtos brasileiros também sejam destinados à exportação, usando encomendas internacionais para dar escala às fábricas no País e reduzir o custo dos equipamentos para as próprias Forças Armadas brasileiras.

O boato que antecipou o anúncio
A possível venda da Akaer ao EDGE já vinha sendo especulada desde junho de 2026. O informe foi veiculado inicialmente pelo canal Base Militar Vídeo Magazine e repercutido pelo blog Brazilian Space em 22 de junho, que sustentava que a negociação já estaria concluída havia cerca de três meses, restando apenas o anúncio oficial. Até a publicação da matéria da CNN, nenhuma das partes (Akaer, EDGE ou a controladora Connectus) havia confirmado oficialmente a operação.

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