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08 setembro, 2026

Do orçamento às fronteiras: drones ganham novo peso na Defesa brasileira

Fala de José Múcio encontra respaldo em uma das maiores dotações de investimento da Força Terrestre, com R$ 520 milhões para a ação Aviação do Exército e Drones; SISFRON recebe outros R$ 467 milhões



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LRCA Defense Consulting - 09/09/2026

A declaração do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, de que o Brasil deverá investir fortemente em drones para reforçar a proteção das fronteiras encontra respaldo direto na programação orçamentária proposta para 2027. O PLOA 2027 reserva R$ 520 milhões à ação “Implantação do Sistema de Aviação do Exército e Drones” e outros R$ 467 milhões ao SISFRON, sistema destinado ao monitoramento das fronteiras terrestres.

Os valores não significam que R$ 520 milhões serão destinados exclusivamente à compra de drones. A ação 3138 reúne capacidades da Aviação do Exército e sistemas não tripulados. Ainda assim, a presença explícita de “Drones” no título da ação e sua posição entre os maiores projetos de investimento do Exército revelam uma prioridade que ganha especial significado após a manifestação do ministro. 

Múcio aponta os drones como multiplicadores de força 
Em entrevista à coluna de Matheus Leitão, publicada pelo Metrópoles em 8 de setembro, Múcio afirmou que as Forças Armadas investirão “muito” na aquisição de drones para reforçar a proteção das fronteiras. O ministro disse que o Brasil mantém atualmente cerca de 20 mil militares nessa faixa do território e considerou o contingente insuficiente diante da extensão territorial do País.

Segundo Múcio, os drones terão a função de ampliar a capacidade de vigilância sem depender exclusivamente da expansão do efetivo. Ele citou a experiência da Ucrânia e apontou China e Turquia como referências tecnológicas. O ministro também afirmou que pretende visitar fábricas de drones nesses dois países e relatou que fabricantes brasileiros já haviam apresentado equipamentos ao Ministério da Defesa. 

O orçamento já coloca os drones entre os grandes projetos do Exército 

O PLOA 2027 prevê, no âmbito do Exército, R$ 1,02 bilhão para a Implantação do Projeto Forças Blindadas, R$ 671,4 milhões para o sistema ASTROS-FOGOS, R$ 520 milhões para a Implantação do Sistema de Aviação do Exército e Drones e R$ 467 milhões para o SISFRON. A ação de Aviação do Exército e Drones, portanto, figura entre as quatro maiores iniciativas de investimento da Força Terrestre.

A proposta orçamentária não identifica fabricantes, modelos ou quantidade de drones que poderão ser adquiridos. Também não é possível atribuir toda a dotação de R$ 520 milhões a aeronaves remotamente pilotadas, pois a ação abrange outras capacidades da Aviação do Exército. O dado seguro é que o planejamento orçamentário de 2027 passa a explicitar os drones como componente próprio da ação.
 
Drones e SISFRON formam uma combinação estratégica 
A proximidade entre as duas dotações é relevante. O SISFRON foi concebido como uma arquitetura de vigilância, monitoramento, comunicações, inteligência e comando e controle para ampliar a consciência situacional ao longo da faixa de fronteira. A incorporação de SARP e outros vetores aéreos não tripulados permite levar sensores a áreas onde a presença permanente de tropas ou de infraestrutura fixa é limitada.

O PLOA 2027, nesse sentido, combina dois instrumentos complementares: uma ação de R$ 520 milhões que agora explicita os drones e uma ação de R$ 467 milhões destinada ao SISFRON. Somadas, as duas dotações alcançam R$ 987 milhões, embora constituam ações orçamentárias distintas e não possam ser tratadas como uma única verba para aquisição de drones.
 
A experiência com o Nauru 1000C coloca a XMobots em posição privilegiada 
Entre as empresas brasileiras, a XMobots apresenta o caso público mais consistente de aderência às necessidades do Exército. O Nauru 1000C foi selecionado para a Aviação do Exército como SARP Categoria 2 e passou por avaliação técnica e operacional e experimentação doutrinária. Em 2024, o sistema foi empregado em experimentação com tropa no 7º Regimento de Cavalaria Mecanizado, em Sant’Ana do Livramento, justamente em ambiente associado à missão de vigilância de fronteira.

O sistema reúne três aeronaves, estações de controle, sensores eletro-ópticos, radares e outros equipamentos de apoio. A XMobots informou recentemente ao LRCA que já acumulou cerca de 5 mil horas de voo e 5 mil operações em sua família de plataformas e que sua capacidade instalada supera duas mil unidades por ano, considerando as diferentes plataformas Nauru e o sensor XSIS 222A.

A empresa também vem ampliando a família Nauru. O Nauru 100D, de menor porte, emprega arquitetura eVTOL e foi apresentado em versões de inteligência, vigilância e reconhecimento e, posteriormente, como plataforma armada. Essa amplitude de portfólio pode permitir ao Exército trabalhar com diferentes categorias de SARP em uma arquitetura escalonada. 

Stella Tecnologia amplia a oferta nacional para sistemas de maior porte 
Outra empresa a ser acompanhada é a Stella Tecnologia, responsável pelo desenvolvimento do SARP Atobá. A plataforma foi concebida para missões de vigilância e monitoramento de grandes áreas e possui autonomia muito superior à de pequenos sistemas táticos. O LRCA registrou ainda a existência do projeto Condor, de maior porte e voltado ao monitoramento persistente de fronteiras.

A parceria da Stella com a Thales e a Omnisys acrescenta uma dimensão importante: sensores, sistemas de bordo, comunicações e integração de capacidades. Isso reforça a possibilidade de que futuros programas sejam estruturados não apenas em torno da aeronave, mas de todo o sistema de missão. 

Harpia amplia as opções da BID para vigilância de longo alcance 
Outro sistema que merece atenção nesse cenário é o Harpia, desenvolvido pela brasileira Advanced Technologies Security & Defense (AdTech SD). O SARP de asa fixa foi concebido para missões de vigilância e reconhecimento em grandes áreas e apresenta características particularmente adequadas às dimensões e às condições geográficas brasileiras.

O Harpia possui autonomia de até 12 horas, pode ser lançado por catapulta e recuperado por paraquedas e airbag, dispensando pista convencional. Seu sistema de comunicação foi certificado para operações BVLOS a até 180 quilômetros da estação de pilotagem, enquanto a aeronave pode percorrer distâncias muito superiores em sua autonomia de voo. A plataforma também pode receber diferentes cargas úteis, incluindo sensores eletro-ópticos e infravermelhos, radar de abertura sintética e equipamentos de guerra eletrônica.

A maturidade do sistema é outro fator relevante. Em abril de 2026, o Harpia recebeu a Autorização de Projeto da ANAC, permitindo sua produção em série, e posteriormente obteve o Certificado de Aeronavegabilidade Especial de RPA. A AdTech SD é reconhecida pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa, enquanto o Harpia integra a relação de Produtos Estratégicos de Defesa.

A plataforma também já apresenta experiência operacional. O Governo do Acre adquiriu o sistema para emprego integrado pelos órgãos estaduais de segurança, e o Harpia vem sendo considerado para aplicações em outras regiões de difícil acesso. Em julho de 2026, o sistema participou da Operação Furnas, da Marinha do Brasil, onde foi empregado em missões de vigilância, observação e reconhecimento em ambiente ribeirinho. A participação ocorreu em meio à avaliação do equipamento para o futuro Programa SARP-E da Marinha.

Para o Exército, o interesse potencial é evidente. As mesmas características que tornam o Harpia adequado ao monitoramento de áreas ribeirinhas, florestais e de difícil acesso também podem ser aplicadas à vigilância de extensos trechos de fronteira. Seu emprego poderia ocupar uma camada intermediária entre pequenos drones táticos e sistemas de maior porte, oferecendo autonomia elevada, mobilidade e capacidade de operar sem infraestrutura aeroportuária convencional.

Akaer, AEL Sistemas e Santos Lab também permanecem relevantes nesse ecossistema. A Akaer possui competências em engenharia aeronáutica e sistemas não tripulados; a AEL Sistemas reúne experiência em SARP, sensores, comunicações e integração de sistemas; e a Santos Lab mantém uma posição consolidada no segmento de plataformas menores, como a família Carcará. O ponto central é que a BID brasileira não depende de uma única solução: há um conjunto crescente de empresas capazes de atender diferentes camadas de uma futura arquitetura nacional de sistemas não tripulados.

Uma arquitetura em camadas pode ser mais provável do que um único drone 
A extensão das fronteiras brasileiras e a variedade de missões sugerem que uma eventual expansão não deverá depender de um único modelo. Pequenos sistemas podem apoiar unidades em missões de reconhecimento local; SARP de Categoria 2 podem proporcionar vigilância tática e operacional; plataformas de maior porte podem realizar missões persistentes sobre grandes áreas.

Nessa arquitetura, a aeronave é apenas um dos elementos. Sensores eletro-ópticos e infravermelhos, radares, enlaces de dados, estações de controle, processamento de imagens, inteligência artificial, guerra eletrônica, comunicações seguras e integração com o SISFRON são componentes igualmente importantes.

O impacto potencial para a Base Industrial de Defesa
A dimensão dos recursos previstos pode produzir efeitos que vão muito além da eventual compra de aeronaves. Um programa de expansão de SARP tende a movimentar fornecedores de sensores, aviônicos, comunicações, software, inteligência artificial, propulsão, estruturas, baterias, estações de controle, logística e manutenção.

Esse aspecto é especialmente relevante porque o Brasil já possui uma cadeia tecnológica capaz de fornecer parte considerável desses elementos. O desafio será transformar competências dispersas em uma arquitetura integrada, com produção em escala, disponibilidade operacional, atualização tecnológica e capacidade de sustentação durante todo o ciclo de vida.

A XMobots é um exemplo dessa verticalização. Segundo informações divulgadas pela própria empresa e repercutidas pelo LRCA, mais de R$ 220 milhões foram destinados desde 2022 ao desenvolvimento de soluções de Defesa e Segurança. A empresa também afirma possuir uma estrutura que integra engenharia aeronáutica, software embarcado, aviônicos, sensores, inteligência artificial, estruturas e propulsão.
 
O que ainda não está definido 
É importante evitar interpretações que o PLOA não permite sustentar. A proposta não informa quantos drones serão comprados, quais modelos serão selecionados, quais empresas participarão de futuras concorrências ou qual parcela dos R$ 520 milhões será efetivamente aplicada em sistemas não tripulados.

Além disso, o PLOA é uma proposta. O texto ainda passa pelo Congresso Nacional, pode sofrer alterações e, depois de aprovado e sancionado, sua execução dependerá da programação financeira e da disponibilidade efetiva de recursos.
 
Uma mudança de patamar 
Mesmo com essas ressalvas, há uma mudança qualitativa. O Exército já emprega SARP nacionais e vem experimentando sua utilização em diferentes ambientes. O PLOA 2027 agora explicita “Drones” no nome de uma das maiores ações de investimento da Força Terrestre, ao mesmo tempo em que mantém uma dotação robusta para o SISFRON.

A declaração de José Múcio, portanto, deve ser lida menos como uma ideia isolada e mais como uma manifestação política que converge com uma linha de planejamento já refletida na proposta orçamentária. Se os recursos forem preservados e transformados em contratos, o País poderá assistir a uma expansão significativa do emprego de sistemas não tripulados na vigilância das fronteiras.

Para a Base Industrial de Defesa, a oportunidade é ainda maior: o programa poderá representar não apenas a aquisição de aeronaves, mas a consolidação de uma cadeia nacional de sistemas autônomos, sensores e comando e controle. Nesse cenário, o desafio será fazer com que o investimento em drones se traduza em capacidade operacional permanente, autonomia tecnológica e maior presença brasileira em um dos segmentos que mais rapidamente transformam a guerra e a vigilância territorial.

05 setembro, 2026

PLOA 2027 coloca programas de mísseis 14-X e MICLA em duas frentes estratégicas da FAB

Proposta orçamentária reserva R$ 23,7 milhões para o desenvolvimento da propulsão hipersônica e para a aquisição de mísseis de longo alcance; documentos não indicam que os dois projetos sejam integrados 



*LRCA Defense Consulting - 05/09/2026

O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027 revela um dado que passou relativamente despercebido no detalhamento dos recursos destinados à Defesa: a Força Aérea Brasileira (FAB) terá, caso a proposta seja aprovada, duas dotações específicas para projetos de elevada complexidade tecnológica. Uma delas reserva R$ 12.694.107 ao Projeto de Propulsão Hipersônica 14-X, identificado no orçamento como PropHiper. A outra destina R$ 11 milhões à aquisição de mísseis de longo alcance no âmbito do Projeto MICLA.

Somadas, as duas dotações chegam a R$ 23.694.107. Os valores não são expressivos quando comparados aos grandes programas de reaparelhamento das Forças Armadas, mas chamam atenção pela especificidade das ações e pelo que representam em termos de soberania tecnológica. De um lado, o País mantém uma linha de desenvolvimento de propulsão hipersônica. De outro, preserva no orçamento uma iniciativa voltada à obtenção de mísseis de longo alcance.

O dado ganha ainda mais relevância porque aparece poucos dias depois da publicação, pelo LRCA Defense Consulting, de uma análise ampla do PLOA 2027, na qual foram identificados os principais projetos de Defesa contemplados na proposta. Naquela reportagem, o foco estava nos grandes volumes destinados a aeronaves, submarinos, fragatas, blindados, drones e sistemas de mísseis. A análise específica das ações da Aeronáutica permite agora identificar duas rubricas que merecem atenção especial. 

14-X recebe dotação específica para o PropHiper 
A ação 16CN do PLOA 2027 tem uma denominação inequívoca: “Desenvolvimento do Projeto de Propulsão Hipersônica 14-X (PropHiper)”. A dotação proposta é de R$ 12.694.107, com R$ 11.694.107 classificados como despesas correntes e R$ 1 milhão como investimento. O produto orçamentário é descrito como pesquisa ou projeto desenvolvida(o), com meta física de uma unidade.

A natureza da rubrica é importante. O PLOA não está propondo a compra de um sistema de armas denominado 14-X, nem sua incorporação operacional. O recurso está associado ao desenvolvimento tecnológico da propulsão hipersônica. Portanto, o valor não pode ser interpretado como o custo de uma futura arma hipersônica, mas como uma dotação para a continuidade de uma linha de pesquisa e desenvolvimento.

O 14-X é desenvolvido no âmbito do Projeto Estratégico de Propulsão Hipersônica da FAB e utiliza tecnologia de propulsão do tipo scramjet. Como esse tipo de motor necessita de velocidades muito elevadas para operar, o programa envolve um desafio adicional: levar o veículo às condições adequadas antes que sua própria propulsão hipersônica entre em funcionamento.

RATO-14X é o elo com a campanha de ensaios 
É nesse ponto que entra o RATO-14X, sistema de decolagem assistida por foguete desenvolvido para impulsionar o veículo hipersônico. Segundo informações divulgadas pela Agência Espacial Brasileira e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o projeto é desenvolvido pela FAB, por meio do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), em parceria com empresas e instituições de pesquisa.

A Mac Jee participa do desenvolvimento do RATO-14X e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) também firmou parceria com a empresa para atividades relacionadas a aerodinâmica, aeroelasticidade e otimização de trajetória. O sistema deverá levar o 14-X a mais de 30 quilômetros de altitude e a velocidades superiores a Mach 8, criando as condições necessárias para os ensaios do veículo hipersônico.

Em julho de 2026, o LRCA Defense Consulting informou que a Revisão Preliminar de Projeto do RATO-14X havia sido concluída e que o lançamento do 14-X estava previsto para o final de 2027, no Centro Espacial de Alcântara. Na mesma ocasião, foi destacado que o DCTA havia inaugurado o Túnel de Choque Hipersônico T5, estrutura destinada a ensaios em condições superiores a Mach 5 e relacionada ao esforço tecnológico do PropHiper.

MICLA aparece nominalmente no orçamento 
A segunda descoberta é igualmente relevante. A ação 16CQ do PLOA 2027 é denominada “Aquisição de Mísseis de Longo Alcance, Projeto MICLA” e recebe R$ 11 milhões. Aqui, a linguagem orçamentária é diferente da empregada no 14-X: não se trata de desenvolvimento de um projeto, mas de aquisição de armamento.

A proposta, entretanto, não informa quantos mísseis serão adquiridos, qual configuração será contemplada, quem será o fornecedor, qual será o cronograma de entrega ou qual parcela da dotação corresponde a eventual produção nacional. Também não é possível concluir, apenas a partir do PLOA, que os R$ 11 milhões resultarão em um lote operacional de MICLA-BR.

Ainda assim, a identificação nominal do Projeto MICLA é significativa. O projeto não é uma referência genérica a qualquer míssil de longo alcance. O orçamento vincula expressamente a ação 16CQ ao MICLA, mantendo a iniciativa dentro do planejamento da Aeronáutica para 2027.

Um projeto com história ligada à Avibras 
O MICLA-BR possui uma trajetória anterior à atual proposta orçamentária. O projeto foi desenvolvido pela FAB em parceria com a Avibras e está associado à busca brasileira por um míssil de cruzeiro de longo alcance. Em 2019, um F-5EM foi utilizado como plataforma de ensaios do sistema, em uma das evidências públicas mais importantes de que o projeto havia avançado para a fase de testes em voo.

O MICLA-BR foi descrito em fontes técnicas e documentos de planejamento como um míssil de cruzeiro destinado a lançamento a partir de plataformas aéreas, com alcance previsto na faixa de 300 quilômetros. O projeto também foi relacionado ao desenvolvimento de uma capacidade nacional de ataque de precisão de longo alcance e, historicamente, à futura integração com a família de caças Gripen.

A relação histórica com a Avibras torna a nova dotação especialmente interessante, mas exige cautela. O PLOA não identifica a empresa como destinatária dos R$ 11 milhões. Assim, não é possível afirmar que a previsão orçamentária represente uma nova encomenda à Avibras Aeroco ou mesmo que o eventual fornecimento será realizado pela empresa. O que o documento permite afirmar é que o Projeto MICLA continua nominalmente presente no planejamento orçamentário da FAB.

14-X e MICLA não são dois componentes do mesmo sistema 
A presença das duas ações no mesmo orçamento pode induzir a uma interpretação equivocada. Não há, no PLOA 2027, qualquer indicação de que o MICLA seja o sistema de lançamento do 14-X ou que os R$ 11 milhões destinados ao projeto de mísseis tenham relação direta com a campanha de ensaios hipersônicos.

O sistema associado ao lançamento experimental do 14-X é o RATO-14X. Seu objetivo é acelerar o veículo hipersônico até as condições de velocidade e altitude necessárias para o funcionamento do scramjet. O MICLA, por sua vez, é um projeto de míssil de cruzeiro de longo alcance, com finalidade militar distinta.

A relação entre os dois programas é, portanto, estratégica e não física. O 14-X representa a busca por domínio de tecnologias de propulsão e voo hipersônico. O MICLA representa a busca por uma capacidade nacional de ataque de precisão a longa distância. São iniciativas diferentes, mas ambas inseridas no esforço de ampliar o domínio tecnológico e as capacidades estratégicas da FAB. 

A grande pergunta agora é o que será comprado no âmbito do Projeto MICLA 
O aspecto mais intrigante da ação 16CQ é a palavra “aquisição”. Se o PLOA fosse destinado apenas a financiar pesquisa, desenvolvimento ou estudos, seria natural esperar uma formulação semelhante à utilizada na ação do PropHiper. A escolha do termo indica que a Aeronáutica pretende utilizar a dotação de 2027 para obter algum tipo de material relacionado ao Projeto MICLA.

O orçamento, porém, não permite saber se a aquisição será de protótipos, componentes, subsistemas, unidades para ensaios, itens destinados à integração com plataformas ou efetivamente mísseis completos. Essa informação será decisiva para avaliar o estágio real do programa e deverá ser buscada junto ao Comando da Aeronáutica, ao Ministério da Defesa e às empresas envolvidas.

Também será importante acompanhar a tramitação do PLOA no Congresso Nacional. A proposta ainda poderá sofrer alterações durante a discussão orçamentária e, depois de transformada em Lei Orçamentária Anual, a execução dependerá da programação financeira do Governo Federal.

Duas linhas de alta tecnologia no mesmo orçamento 
O dado mais relevante do PLOA 2027 não está apenas nos R$ 23,7 milhões somados. Está na decisão de manter, lado a lado, duas linhas tecnológicas que podem ter impacto significativo no futuro da Força Aérea.

No campo hipersônico, o Brasil procura dominar tecnologias de propulsão, materiais, aerodinâmica, controle e ensaios em velocidades superiores a Mach 5. No campo dos mísseis de longo alcance, busca preservar e transformar em capacidade militar um conhecimento acumulado ao longo de anos, incluindo a experiência do MICLA-BR e sua relação histórica com a indústria nacional.

O orçamento de 2027, portanto, não permite concluir que o Brasil esteja prestes a colocar em serviço uma arma hipersônica ou um novo míssil de cruzeiro. Permite, entretanto, afirmar algo mais preciso: a FAB reservou espaço orçamentário específico para continuar o desenvolvimento do 14-X e, simultaneamente, para adquirir material no âmbito do Projeto MICLA.

É uma combinação que merece acompanhamento. No caso do 14-X, porque 2027 pode ser o ano de uma campanha de ensaio em voo que representará um dos mais ambiciosos testes tecnológicos da história aeroespacial brasileira. No caso do MICLA, porque a palavra “aquisição” pode indicar uma mudança de estágio do programa, cuja natureza somente poderá ser esclarecida quando forem conhecidos os contratos, objetos de compra e fornecedores.

A partir desses dois movimentos, o PLOA 2027 passa a oferecer uma leitura adicional do esforço de modernização da FAB: além dos grandes programas já conhecidos, como Gripen e KC-390, existe uma agenda de tecnologias de alto risco e alto impacto potencial que continua recebendo recursos específicos.

02 setembro, 2026

PLOA 2027 movimenta bilhões entre fabricantes de aviões, mísseis, blindados, drones, fragatas e submarinos

Proposta orçamentária do Governo Federal destina R$ 20,4 bilhões ao programa Defesa Nacional; Embraer e os estaleiros do programa de submarinos e das fragatas Tamandaré concentram os maiores contratos já confirmados com a indústria privada, mas peça ainda depende da aprovação do Congresso Nacional



*LRCA Defense Consulting - 02/09/2026

O Governo Federal encaminhou ao Congresso Nacional, em 31 de agosto, o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027, com previsão de R$ 147,68 bilhões para o Ministério da Defesa. Desse total, R$ 20,43 bilhões estão classificados no programa orçamentário Defesa Nacional, no qual estão concentradas diversas ações de reaparelhamento, manutenção operacional e desenvolvimento tecnológico das Forças Armadas. Um levantamento produzido a partir do Volume IV do PLOA mostra que parcela relevante desses recursos está concentrada em poucas ações orçamentárias relacionadas a grandes programas de reaparelhamento, alguns deles com contratos já firmados com empresas da Base Industrial de Defesa (BID).. Por se tratar de uma proposta, o texto ainda será analisado pela Comissão Mista de Orçamento, poderá receber emendas parlamentares e só terá redação final depois da votação no Congresso, prevista para o fim do ano.

Aeronáutica concentra grandes projetos, com Gripen, KC-390, helicópteros e A-29 
O maior item individual do orçamento de Defesa é o Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro (SISCEAB), com R$ 3,31 bilhões, dos quais R$ 1,80 bilhão classificado como investimento. Logo atrás vem o projeto FX-2, responsável pela aquisição dos caças F-39 Gripen, com R$ 2,89 bilhões, praticamente todo (97%) em investimento. O caça é fabricado pela sueca Saab em parceria com a Embraer, que monta as aeronaves em Gavião Peixoto (SP) e entregou em março o primeiro exemplar produzido em solo brasileiro, um marco que coloca o País entre o pequeno grupo de nações capazes de montar aeronaves de combate supersônicas. O contrato atual prevê 36 unidades, das quais 15 devem sair da linha brasileira. Em julho, as duas empresas assinaram, em Farnborough, um acordo preliminar para viabilizar a produção, em Gavião Peixoto, de outros 20 caças Gripen. O acordo, porém, não representa uma encomenda adicional da FAB e, portanto, não permite afirmar que a frota brasileira chegará a 56 aeronaves.

A Aeronáutica também aparece no PLOA com R$ 571,8 milhões para a aquisição do cargueiro KC-390 (Embraer), R$ 413 milhões para os helicópteros leves H125 Esquilo (fabricados pela Helibras, subsidiária da Airbus Helicopters, em Itajubá, MG) e R$ 337,6 milhões para a disponibilização dos A-29 Super Tucano (também Embraer) no âmbito do programa Sisdabra.

Marinha reforça os programas de submarinos e frasgatas
O PLOA reserva R$ 1,43 bilhão para o "Desenvolvimento de Sistemas de Tecnologia Nuclear da Marinha", quase integralmente (98%) classificado como investimento. O valor está associado ao programa nuclear da Marinha e constitui um dos principais componentes tecnológicos necessários ao futuro submarino de propulsão nuclear Álvaro Alberto, desenvolvido no âmbito do Prosub, que reúne a Marinha do Brasil, a francesa Naval Group e o estaleiro Itaguaí Construções Navais (ICN). A dotação chega depois de um período de turbulência financeira: em março, a própria Marinha alertou sobre risco de paralisação parcial do Complexo Naval de Itaguaí sem um aporte extra de cerca de R$ 1 bilhão, e em julho o cronograma de lançamento do submarino foi adiado para 2038, atraso atribuído pela Marinha à falta de previsibilidade orçamentária dos anos anteriores.

O Prosub soma ainda R$ 388,8 milhões para a construção do próprio submarino nuclear, R$ 248,0 milhões para os submarinos convencionais da classe Riachuelo e R$ 215,75 milhões para a infraestrutura do estaleiro, os três praticamente 100% classificados como investimento.

Outro contrato relevante da Marinha é o das fragatas da classe Tamandaré, com R$ 900 milhões previstos para 2027. A dotação está vinculada à disponibilização de uma fragata do programa, cuja construção é realizada pela SPE Águas Azuis, formado pela alemã ThyssenKrupp Marine Systems (TKMS), pela Embraer Defesa & Segurança e pela Atech, que constroem as embarcações no estaleiro de Itajaí (SC) sob gestão da EMGEPRON.

Exército distribui recursos entre blindados, mísseis, drones e SISFRON
No Exército, o maior projeto individual é a Implantação do Projeto Forças Blindadas, com R$ 1,02 bilhão (93% investimento) e produto declarado de 126 blindados adquiridos; o PLOA não identifica fabricante nem modelo. O dado chama atenção porque a Força assinou, em 31 de agosto, um dia antes do envio do PLOA ao Congresso, o contrato do VBC Centauro II BR, dentro de um programa que prevê até 221 viaturas ao longo do tempo. Não é possível confirmar, a partir do texto orçamentário, se a dotação de 126 unidades corresponde a esse mesmo contrato.

Em seguida vem o sistema ASTROS-FOGOS, com R$ 671,4 milhões (96% investimento); a Implantação do Sistema de Aviação do Exército e Drones, com R$ 520 milhões; e o SISFRON, com R$ 467 milhões voltados a sensores, radares e integração de sistemas de monitoramento de fronteira. O PLOA não identifica fabricantes em nenhum item de aquisição do documento; o ASTROS-FOGOS, porém, é historicamente produzido pela Avibras Aeroco, única fornecedora do sistema no País.

Defesa antiaérea de média altura ainda não tem rubrica própria
Um programa que não aparece no PLOA 2027 é o de defesa antiaérea de média altura. Por diretriz aprovada pelo Exército em dezembro de 2025 e divulgada em janeiro de 2026, o Exército definiu o sistema EMADS, da europeia MBDA, equipado com o míssil CAMM-ER (o mesmo das fragatas Tamandaré), para suprir uma lacuna histórica: hoje a Força só dispõe de meios de baixa altura, como o RBS-70 NG e o blindado Gepard. Até a elaboração do PLOA, no entanto, o contrato ainda não tinha data nem valor definidos, e nenhuma rubrica do orçamento de 2027 faz referência ao sistema ou à MBDA; os itens de artilharia antiaérea do Exército somam, ao todo, pouco mais de R$ 39 milhões, valor incompatível com uma aquisição desse porte. É um programa a acompanhar nos próximos créditos suplementares ou na LOA definitiva.

Dotações das estatais são majoritariamente destinadas a pessoal e custeio 

Entre as empresas estatais vinculadas ao Ministério da Defesa, a AMAZUL recebe a maior dotação (R$ 664,9 milhões) e a IMBEL, a segunda maior (R$ 543,2 milhões), mas a composição de ambas é dominada por pessoal e custeio administrativo; a AMAZUL destina apenas R$ 275 mil a investimento, e a IMBEL, R$ 67,5 milhões. Isso indica que, apesar dos valores absolutos, o potencial de movimentação da cadeia produtiva privada por meio dessas duas estatais é limitado em comparação aos grandes projetos de aquisição das Forças. Assim, os valores totais destinados às duas empresas não podem ser interpretados, isoladamente, como volume de novos contratos de fornecimento à indústria.

O quadro traçado pelo PLOA 2027 confirma uma tendência observada em orçamentos recentes: aeronaves de combate e tecnologia naval de propulsão nuclear concentram os maiores volumes de recursos, à frente de programas terrestres como o ASTROS-FOGOS e o SISFRON. Como projeto de lei, porém, o texto está sujeito a emendas parlamentares e alterações durante a tramitação no Congresso. Depois de aprovado e sancionado, a execução dos valores dependerá ainda da programação financeira e da eventual ocorrência de bloqueios ou contingenciamentos.

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