Pesquisar este portal

02 setembro, 2026

PLOA 2027 movimenta bilhões entre fabricantes de aviões, mísseis, blindados, drones, fragatas e submarinos

Proposta orçamentária do Governo Federal destina R$ 20,4 bilhões ao programa Defesa Nacional; Embraer e os estaleiros do programa de submarinos e das fragatas Tamandaré concentram os maiores contratos já confirmados com a indústria privada, mas peça ainda depende da aprovação do Congresso Nacional



*LRCA Defense Consulting - 02/09/2026

O Governo Federal encaminhou ao Congresso Nacional, em 31 de agosto, o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027, com previsão de R$ 147,68 bilhões para o Ministério da Defesa. Desse total, R$ 20,43 bilhões estão classificados no programa orçamentário Defesa Nacional, no qual estão concentradas diversas ações de reaparelhamento, manutenção operacional e desenvolvimento tecnológico das Forças Armadas. Um levantamento produzido a partir do Volume IV do PLOA mostra que parcela relevante desses recursos está concentrada em poucas ações orçamentárias relacionadas a grandes programas de reaparelhamento, alguns deles com contratos já firmados com empresas da Base Industrial de Defesa (BID).. Por se tratar de uma proposta, o texto ainda será analisado pela Comissão Mista de Orçamento, poderá receber emendas parlamentares e só terá redação final depois da votação no Congresso, prevista para o fim do ano.

Aeronáutica concentra grandes projetos, com Gripen, KC-390, helicópteros e A-29 
O maior item individual do orçamento de Defesa é o Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro (SISCEAB), com R$ 3,31 bilhões, dos quais R$ 1,80 bilhão classificado como investimento. Logo atrás vem o projeto FX-2, responsável pela aquisição dos caças F-39 Gripen, com R$ 2,89 bilhões, praticamente todo (97%) em investimento. O caça é fabricado pela sueca Saab em parceria com a Embraer, que monta as aeronaves em Gavião Peixoto (SP) e entregou em março o primeiro exemplar produzido em solo brasileiro, um marco que coloca o País entre o pequeno grupo de nações capazes de montar aeronaves de combate supersônicas. O contrato atual prevê 36 unidades, das quais 15 devem sair da linha brasileira. Em julho, as duas empresas assinaram, em Farnborough, um acordo preliminar para viabilizar a produção, em Gavião Peixoto, de outros 20 caças Gripen. O acordo, porém, não representa uma encomenda adicional da FAB e, portanto, não permite afirmar que a frota brasileira chegará a 56 aeronaves.

A Aeronáutica também aparece no PLOA com R$ 571,8 milhões para a aquisição do cargueiro KC-390 (Embraer), R$ 413 milhões para os helicópteros leves H125 Esquilo (fabricados pela Helibras, subsidiária da Airbus Helicopters, em Itajubá, MG) e R$ 337,6 milhões para a disponibilização dos A-29 Super Tucano (também Embraer) no âmbito do programa Sisdabra.

Marinha reforça os programas de submarinos e frasgatas
O PLOA reserva R$ 1,43 bilhão para o "Desenvolvimento de Sistemas de Tecnologia Nuclear da Marinha", quase integralmente (98%) classificado como investimento. O valor está associado ao programa nuclear da Marinha e constitui um dos principais componentes tecnológicos necessários ao futuro submarino de propulsão nuclear Álvaro Alberto, desenvolvido no âmbito do Prosub, que reúne a Marinha do Brasil, a francesa Naval Group e o estaleiro Itaguaí Construções Navais (ICN). A dotação chega depois de um período de turbulência financeira: em março, a própria Marinha alertou sobre risco de paralisação parcial do Complexo Naval de Itaguaí sem um aporte extra de cerca de R$ 1 bilhão, e em julho o cronograma de lançamento do submarino foi adiado para 2038, atraso atribuído pela Marinha à falta de previsibilidade orçamentária dos anos anteriores.

O Prosub soma ainda R$ 388,8 milhões para a construção do próprio submarino nuclear, R$ 248,0 milhões para os submarinos convencionais da classe Riachuelo e R$ 215,75 milhões para a infraestrutura do estaleiro, os três praticamente 100% classificados como investimento.

Outro contrato relevante da Marinha é o das fragatas da classe Tamandaré, com R$ 900 milhões previstos para 2027. A dotação está vinculada à disponibilização de uma fragata do programa, cuja construção é realizada pela SPE Águas Azuis, formado pela alemã ThyssenKrupp Marine Systems (TKMS), pela Embraer Defesa & Segurança e pela Atech, que constroem as embarcações no estaleiro de Itajaí (SC) sob gestão da EMGEPRON.

Exército distribui recursos entre blindados, mísseis, drones e SISFRON
No Exército, o maior projeto individual é a Implantação do Projeto Forças Blindadas, com R$ 1,02 bilhão (93% investimento) e produto declarado de 126 blindados adquiridos; o PLOA não identifica fabricante nem modelo. O dado chama atenção porque a Força assinou, em 31 de agosto, um dia antes do envio do PLOA ao Congresso, o contrato do VBC Centauro II BR, dentro de um programa que prevê até 221 viaturas ao longo do tempo. Não é possível confirmar, a partir do texto orçamentário, se a dotação de 126 unidades corresponde a esse mesmo contrato.

Em seguida vem o sistema ASTROS-FOGOS, com R$ 671,4 milhões (96% investimento); a Implantação do Sistema de Aviação do Exército e Drones, com R$ 520 milhões; e o SISFRON, com R$ 467 milhões voltados a sensores, radares e integração de sistemas de monitoramento de fronteira. O PLOA não identifica fabricantes em nenhum item de aquisição do documento; o ASTROS-FOGOS, porém, é historicamente produzido pela Avibras Aeroco, única fornecedora do sistema no País.

Defesa antiaérea de média altura ainda não tem rubrica própria
Um programa que não aparece no PLOA 2027 é o de defesa antiaérea de média altura. Por diretriz aprovada pelo Exército em dezembro de 2025 e divulgada em janeiro de 2026, o Exército definiu o sistema EMADS, da europeia MBDA, equipado com o míssil CAMM-ER (o mesmo das fragatas Tamandaré), para suprir uma lacuna histórica: hoje a Força só dispõe de meios de baixa altura, como o RBS-70 NG e o blindado Gepard. Até a elaboração do PLOA, no entanto, o contrato ainda não tinha data nem valor definidos, e nenhuma rubrica do orçamento de 2027 faz referência ao sistema ou à MBDA; os itens de artilharia antiaérea do Exército somam, ao todo, pouco mais de R$ 39 milhões, valor incompatível com uma aquisição desse porte. É um programa a acompanhar nos próximos créditos suplementares ou na LOA definitiva.

Dotações das estatais são majoritariamente destinadas a pessoal e custeio 

Entre as empresas estatais vinculadas ao Ministério da Defesa, a AMAZUL recebe a maior dotação (R$ 664,9 milhões) e a IMBEL, a segunda maior (R$ 543,2 milhões), mas a composição de ambas é dominada por pessoal e custeio administrativo; a AMAZUL destina apenas R$ 275 mil a investimento, e a IMBEL, R$ 67,5 milhões. Isso indica que, apesar dos valores absolutos, o potencial de movimentação da cadeia produtiva privada por meio dessas duas estatais é limitado em comparação aos grandes projetos de aquisição das Forças. Assim, os valores totais destinados às duas empresas não podem ser interpretados, isoladamente, como volume de novos contratos de fornecimento à indústria.

O quadro traçado pelo PLOA 2027 confirma uma tendência observada em orçamentos recentes: aeronaves de combate e tecnologia naval de propulsão nuclear concentram os maiores volumes de recursos, à frente de programas terrestres como o ASTROS-FOGOS e o SISFRON. Como projeto de lei, porém, o texto está sujeito a emendas parlamentares e alterações durante a tramitação no Congresso. Depois de aprovado e sancionado, a execução dos valores dependerá ainda da programação financeira e da eventual ocorrência de bloqueios ou contingenciamentos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário será submetido ao Administrador. Não serão publicados comentários ofensivos ou que visem desabonar a imagem das empresas (críticas destrutivas).

Postagem em destaque