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03 julho, 2026

Embraer abre julho com dois palcos estratégicos: do Golfo da Guiné a Farnborough, uma janela para fechar contratos

De Accra a Londres em alguns dias: ASEC, Farnborough 2026 e uma carteira de negócios em aberto para o Super Tucano e o KC-390 Millennium 


*LRCA Defense Consulting - 03/07/2026

A Embraer entra em julho com uma sequência rara de oportunidades comerciais. Entre os dias 7 e 9, a empresa marca presença no 13º Simpósio de Segurança da África (ASEC), realizado em Accra, capital de Gana, com o A-29 Super Tucano e o KC-390 Millennium no portfólio. Pouco depois, entre 20 e 24 de julho, o Farnborough International Airshow 2026 reúne em Londres a nata da indústria aeroespacial mundial. O calendário forma uma janela de alguns dias que a fabricante dificilmente desperdiçará, especialmente diante de uma carteira de negócios em diferentes estágios de maturação na África, Europa e América do Sul.

Accra como palco: o ASEC e a décima tentativa ganesa
A presença da Embraer no ASEC não é casual. O simpósio, reconhecido por promover parcerias regionais e impulsionar a inovação em segurança no continente, reúne tomadores de decisão de forças armadas da África Ocidental e Central, exatamente o público a que o A-29 Super Tucano mais interessa no momento. E o contexto local não poderia ser mais favorável: Gana avalia a compra da aeronave há mais de dez anos, sem que nenhum contrato tenha sido efetivado até agora.

O interesse remonta a 2015, quando a Embraer anunciou um contrato condicionado para cinco unidades que não se materializou. Em fevereiro de 2024, a empresa levou um A-29 à Base Aérea de Accra para uma demonstração formal diante do então ministro da Defesa Dominic Nitiwul e do então chefe do Estado-Maior da Aeronáutica, vice-marechal do ar Frederick Asare Kwasi Bekoe. O ministro, ao fim do evento, declarou que a força aérea ganesa havia "se apaixonado" pela aeronave e que as negociações "começariam para valer". O custo estimado para cinco unidades seria de cerca de US$ 52,8 milhões, segundo a consultoria GlobalData.

Em junho de 2026, Marcio Monteiro, diretor de marketing da Embraer Defesa & Segurança, reiterou durante visita de imprensa à fábrica de São José dos Campos que a empresa permanece pronta para apoiar qualquer ordem de Gana e lembrou que contratos de defesa demandam tempo. Ele citou o caso dos Emirados Árabes Unidos, que levou mais de uma década para formalizar a compra do KC-390 Millennium.

A deterioração da segurança no Sahel e a expansão do grupo jihadista Jama'at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) em direção ao litoral do Golfo da Guiné pressionam os países da sub-região a reforçar suas capacidades de ataque leve e patrulha de fronteiras. Vizinhos como Togo, que deverá receber ainda em 2026 quatro Super Tucanos em um contrato de cerca de US$ 82 milhões, e a Nigéria, que já acumula mais de 10 mil horas de voo com seus 12 A-29 adquiridos em 2021, tornaram-se referências práticas do papel da aeronave nesse ambiente. O ASEC de Accra coloca Gana diretamente diante da proposta brasileira, no momento em que o seu orçamento de defesa está em trajetória de crescimento: segundo a GlobalData, os gastos devem atingir US$ 509,6 milhões até 2029, com taxa de crescimento anual de 11,3%.

Farnborough: o palco preferido para anúncios
O Farnborough International Airshow, que ocorre entre 20 e 24 de julho, é historicamente um dos eventos preferidos pela Embraer para anunciar contratos de suas divisões de defesa e aviação comercial. A visibilidade é máxima e a repercussão imediata na imprensa especializada global funciona como amplificador de credibilidade junto a outros potenciais clientes. Em edições anteriores, a empresa aproveitou o evento para divulgar vendas do Super Tucano e do KC-390.

A sequência ASEC-Farnborough comprime em alguns dias duas janelas de altíssima exposição: uma dirigida especificamente à África Ocidental, outra com alcance global. Se Gana estiver próxima de assinar, ou se Marrocos e Chile convergirem para um contrato do KC-390, o Farnborough é o palco natural para o anúncio.

Imagem renderizada por IA

KC-390 Millennium: uma carteira de negócios em diferentes estágios
Enquanto o Super Tucano espera o desfecho ganês, o KC-390 Millennium alimenta um pipeline de vendas em múltiplas geografias, com negociações em estágios bastante distintos de maturidade.

- Marrocos: o candidato mais maduro
O Marrocos é hoje o cliente potencial mais avançado entre os que ainda não assinaram. A Força Aérea Real Marroquina (FAR) opera uma frota envelhecida de C-130H e KC-130H e busca uma plataforma que una transporte tático e reabastecimento em voo em uma única aeronave, exatamente o perfil do KC-390. A negociação, que inclui cinco unidades avaliadas em mais de US$ 600 milhões, ganhou nova dimensão em junho de 2026, quando o portal Africa Intelligence revelou que a Embraer ampliou a proposta para incluir um centro de comando e controle C4I desenvolvido pela sua subsidiária Atech, sistema que integraria operações terrestres, aéreas e navais em tempo real. O pacote reposiciona a oferta brasileira de uma venda de aeronave para uma solução de defesa integrada. 

Em outubro de 2024, um slide interno da Embraer apresentado durante conferência de usuários do C-390 já havia listado Marrocos entre os próximos clientes do programa, ao lado dos Emirados Árabes Unidos e do Chile. Os EAU assinaram em 4 de maio de 2026 o maior contrato internacional já celebrado para a aeronave: dez pedidos firmes e dez opções. Marrocos é o próximo da lista.

- Polônia: a aposta europeia com lastro industrial
Na Europa, a Polônia tem sido cortejada com uma estratégia centrada em participação industrial. A Embraer assinou memorando de acordo com a Wojskowe Zakłady Lotnicze Nr 2 (WZL-2), empresa polonesa com quase oito décadas de experiência em manutenção de aeronaves militares, incluindo o F-16 e o C-130 Hercules. O acordo abrange manutenção, conversão, pintura e integração de sistemas. 

Antes disso, ao final de 2025, a empresa já havia firmado memorandos de entendimento com diversas empresas do grupo estatal Polska Grupa Zbrojeniowa (PGZ). A Polônia vive um ciclo de rearmamento acelerado no contexto da guerra na Ucrânia, e a Embraer monta um argumento de capacitação industrial local para tornar o KC-390 competitivo diante de rivais como o Airbus A400M.

- Chile e Colômbia: América do Sul no radar
Na América do Sul, Chile e Colômbia representam os movimentos mais recentes. Em abril de 2026, durante a FIDAE em Santiago, o presidente chileno José Antonio Kast posou ao lado da maquete do KC-390 com o comandante da Força Aérea Brasileira e o CEO da Embraer Defesa & Segurança, em gesto de sinalização política difícil de ignorar. O ministro da Defesa chileno chegou a segurar um quadro com os emblemas da Força Aérea do Chile (FACh) ao lado da aeronave. O país é apontado como candidato a seis unidades. 

A Colômbia, por sua vez, avançou ainda mais: o presidente Gustavo Petro ordenou formalmente, em 30 de março de 2026, a aquisição de dois KC-390 para substituir C-130H fora de serviço. A Embraer tem raízes profundas nos dois países, com o Chile já operando A-29 Super Tucanos.

Uma máquina de vendas em ritmo de cruzeiro
O portfólio de defesa da Embraer nunca esteve tão internacionalizado. O Super Tucano acumula mais de 300 encomendas de 22 forças aéreas, com 39 aeronaves adicionadas à carteira nos últimos dois anos, e a empresa projeta vender cerca de 500 unidades nas próximas duas décadas, com a África respondendo por 28% da demanda. O KC-390, por sua vez, soma mais de 60 encomendas e compromissos de 11 países, com clientes na Europa (Portugal, Países Baixos, República Tcheca, Eslováquia, Hungria, Suécia, Áustria, Lituânia), no Oriente Médio (Emirados Árabes Unidos) e na América do Sul (Brasil).

A janela que se abre agora, de Accra a Farnborough, é mais do que calendário: é o momento em que negociações que duram anos costumam ganhar nome, valor e data de entrega.

05 maio, 2026

Embraer C-390 Millennium: o slide que previu o futuro

Em outubro de 2024, um documento interno da Embraer listou três países que ainda não eram clientes do C-390: Marrocos, Emirados Árabes Unidos e Chile. Ontem, os EAU acabaram de assinar o maior contrato internacional da aeronave. Restam dois países...

 

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LRCA Defense Consulting - 05/05/2026

Em outubro de 2024, durante a Conferência de Usuários do C-390 Millennium realizada em São José dos Campos (SP), um slide institucional da Embraer circulou em uma rede social, publicado por um participante do evento. Ao lado dos operadores confirmados, três países figuravam inesperadamente: Marrocos, Emirados Árabes Unidos e Chile. A LRCA Defense Consulting foi pioneira na publicação da revelação. Hoje, um desses três países converteu o interesse em um grande contrato.

Em 4 de maio de 2026, a história do C-390 Millennium ganhou mais um capítulo decisivo. Os Emirados Árabes Unidos assinaram, no evento "Make It in the Emirates 2026", em Abu Dhabi, o maior contrato internacional já celebrado para a aeronave de transporte militar da Embraer: dez pedidos firmes e dez opções, totalizando potencialmente 20 aeronaves. O ato se deu na presença do Vice-Presidente dos EAU, Sheik Mansour bin Zayed Al Nahyan, e do CEO da Embraer Defense & Security, Bosco da Costa Junior.

Para quem acompanhava os movimentos do mercado desde outubro de 2024, o desfecho não era surpresa. Ele estava, literalmente, escrito num slide.

O maior contrato da história do programa
O acordo com os Emirados Árabes Unidos representa não apenas uma conquista geográfica, a primeira venda do C-390 para o Oriente Médio, mas também um recorde quantitativo. Se o país exercer todas as opções, terá uma frota de C-390 superior à do próprio Brasil, que possui 18 aeronaves encomendadas (dado da Embraer, embora o contrato, em seu 
9º Termo Aditivo, seja para 19 unidades). É o tipo de validação que, na indústria de defesa, ecoa por anos nas salas de decisão de ministérios ao redor do mundo.

O processo que antecedeu o contrato foi rigoroso. Os Emirados realizaram uma campanha de avaliação técnica e operacional que incluiu testes do avião nas condições ambientais e geográficas locais. O resultado confirmou o que os operadores europeus já haviam verificado: taxas de prontidão operacional acima de 93% e de conclusão de missão superiores a 99%.

Paralelamente ao contrato de aquisição, a Embraer firmou um acordo exclusivo de parceria estratégica com a empresa emiradense Generation 5 Holding para o desenvolvimento de capacidades locais de Manutenção, Reparo e Revisão (MRO). O modelo industrial que combina compra e desenvolvimento de capacidade local é o mesmo que tem funcionado como argumento diferenciador da Embraer frente ao C-130J da Lockheed Martin em diversas disputas ao redor do mundo.

Imagem meramente ilustrativa

Marrocos: negociação avançada e urgência crescente
Com os EAU confirmados, restam dois dos três nomes do slide de outubro de 2024: Marrocos e Chile. E os sinais emanados de Rabat são cada vez mais concretos.

Em agosto de 2025, fontes especializadas já apontavam que as negociações entre Marrocos e a Embraer haviam atingido estágio avançado para a aquisição de quatro a cinco KC-390, em um contrato avaliado em torno de US$ 600 milhões. O país, além disso, já recebeu uma aeronave em regime de empréstimo para fins de avaliação e testes operacionais, o tipo de comprometimento logístico que, na gramática da indústria de defesa, raramente precede uma decisão negativa.

Cronologia Marrocos × C-390

  • Out/2024: bandeira marroquina aparece no slide da Conferência de Usuários do C-390.

  • Out/2024: Marrocos e Embraer assinam Memorando de Entendimento no Marrakech Air Show, incluindo plano de centro aeronáutico com investimento de US$ 1 bilhão.

  • Ago/2025: negociações são reportadas em estágio avançado; aeronave enviada para testes no país.

  • Abr/2025: delegação da Embraer visita Marrocos para avaliar cadeia de fornecimento aeroespacial.

  • Abr/2026: Min. Múcio anuncia missão internacional em junho para "fechar novas vendas", com Marrocos citado como uma das mais prováveis opções.

O contexto estratégico marroquino favorece a decisão. O país opera uma frota envelhecida de C-130H Hercules da Lockheed Martin, aeronaves cuja idade média e custo de manutenção crescentes pesam sobre o orçamento de defesa. A Embraer oferece um pacote completo de parceria industrial como contraproposta a uma oferta concorrente que prevê apenas a atualização de motores e aviônicos dos Hercules existentes, uma diferença qualitativa considerável para um país que busca modernização e autonomia industrial.

Há ainda a variável geopolítica. O C-390 é hoje operado por sete membros da OTAN e selecionado por 11 nações, incluindo países do Golfo Pérsico a partir de hoje. Essa constelação de operadores cria pressão de interoperabilidade e legitimidade que facilita decisões políticas internas em países que ainda hesitam.

Chile: sinais de Estado, não apenas de mercado
O caso chileno é igualmente revelador, embora num registro diferente. Enquanto Marrocos avança em negociação formal, o Chile articula sua decisão no plano político mais alto, e os gestos têm sido eloquentes.

Na primeira jornada da FIDAE 2026, realizada em abril em Santiago, o presidente José Antonio Kast posou junto à maquete do KC-390 ao lado do Comandante da Aeronáutica Brasileira, Tenente-Brigadeiro Marcelo Kanitz Damasceno, e do CEO da Embraer Defense & Security, Bosco da Costa Junior. No mesmo momento, o Ministro da Defesa Fernando Barros segurou um quadro representando o KC-390 com os emblemas da Força Aérea do Chile (FACh) e a inscrição: "KC-390, expressão de uma Aliança Estratégica orientada ao fortalecimento da cooperação e ao apoio à sociedade chilena."

A relação entre Chile e Embraer tem raízes profundas. Ainda em 2010, os ministros da Defesa do Brasil e do Chile assinaram uma declaração de intenções sobre eventual participação chilena no próprio programa de desenvolvimento do KC-390. Em 2024, Embraer e a estatal ENAER assinaram acordo de cooperação industrial estratégica. Em 2026, o país recebeu a aeronave de demonstração pela primeira vez com a nova pintura institucional. A escalada é evidente.

Analistas apontam razões objetivas para a compra: o Chile enfrenta um ambiente operacional desafiador, com frequentes desastres naturais, geografia acidentada e bases na Antártica que demandam alta confiabilidade logística. A frota de C-130H, incluindo ao menos uma aeronave que sofreu acidente, não atende mais às necessidades crescentes da FACh. A Colômbia, por sua vez, já deu um passo à frente: o presidente Gustavo Petro ordenou formalmente, em 30 de março de 2026, a compra de dois C-390 para substituir seus C-130H fora de serviço. O precedente vizinho é um argumento adicional.

Imagem meramente ilustrativa

Cronologia dos fatos

  • Set 2024: slide da Conferência de Usuários do C-390 lista Marrocos, EAU e Chile como próximos clientes. LRCA publica a revelação.

  • Out 2024: Marrocos e Embraer assinam MOU no Marrakech Air Show. CEO da Embraer confirma interesse dos três países, nega contratos firmados.

  • Ago 2025: negociações com Marrocos reportadas em estágio avançado para 4–5 aeronaves (≈US$ 600 mi). Aeronave enviada para testes in loco.

  • Abr 2026: FIDAE 2026: Presidente Kast e Min. Defesa do Chile posam com KC-390, sinalizando interesse de Estado.

  • Abr 2026: Min. Múcio anuncia missão internacional em junho para fechar contratos do C-390.

  • 4 Mai 2026: EAU assinam maior contrato internacional do C-390: 10 firmes + 10 opções. Primeira venda ao Oriente Médio.

A missão de junho e a janela de decisão
O ministro da Defesa brasileiro José Múcio Monteiro anunciou que realizará, em junho de 2026, uma missão internacional com o objetivo declarado de "fechar novas vendas" do C-390. O timing não é aleatório: junho marca o período pré-recessão do verão europeu, fase historicamente crítica para formalização de contratos de defesa. Mas Marrocos, destino africano e fora do calendário europeu, pode figurar na agenda pela lógica própria: a negociação está madura.

Panorama completo: candidatos ativos ao C-390 em 2026

  • Marrocos: negociação avançada. Aeronave em testes. Contrato estimado em US$ 600 mi. Inclui parceria industrial.

  • Chile: sinalização política de alto nível na FIDAE 2026. Cooperação com ENAER em vigor. Novo governo assume com força para decidir.

  • Grécia: decisão iminente para três aeronaves. C-390 favorito sobre o C-130J.

  • Polônia: Embraer propôs 20 aeronaves com produção localizada e transferência de tecnologia.

  • Colômbia: processo de compra formalmente iniciado por ordem presidencial em março de 2026.

  • Turquia: MOU assinado com Turkish Aerospace; negociações incluem coprodução.

Para a Embraer, o universo de candidatos simultâneos nunca foi tão amplo. O CEO Francisco Gomes Neto reconhece negociar com "5 a 10 países" ao mesmo tempo. A empresa projeta faturamento de US$ 10 bilhões até 2030, e o C-390 é o principal vetor dessa expansão. Com os Emirados convertidos, a pressão por mais fechamentos antes do verão europeu é real, e o governo brasileiro, ao assumir papel de facilitador diplomático, eleva a aposta.

O slide tinha razão...
Em outubro de 2024, quando o slide da Conferência de Usuários circulou pela imprensa especializada, a Embraer negou acordos firmados com Marrocos, Emirados Árabes Unidos e Chile, e tecnicamente, tinha razão. Nenhum contrato estava assinado. Mas a presença dos três países no documento não era especulação de mercado: era um posicionamento comercial oficial diante de clientes e parceiros, revelado antes do tempo.

Hoje, dezessete meses depois, um desses três assinou o maior contrato internacional do programa. Os outros dois avançam, cada um em seu ritmo e estratégia. 

O slide, afinal, não era uma previsão. Era quase um "relatório de situação".

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