Pesquisar este portal

Mostrando postagens com marcador França. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador França. Mostrar todas as postagens

26 junho, 2026

Imbel e KNDS assinam memorando para produzir munições de artilharia e de blindados no Brasil

Acordo foi firmado durante a Eurosatory 2026 e está ligado ao offset do Centauro II; Imbel também renovou parceria com a Safran, enquanto a KNDS vive reestruturação acionária que aproxima Alemanha e França

Registro da assinatura do memorando de entendimento entre Imbel e KNDS, durante a Eurosatory 2026
 
*LRCA Defense Consulting - 26/06/2026

A Indústria de Material Bélico do Brasil (Imbel) e o grupo franco-alemão KNDS assinaram, em 18 de junho, durante a Eurosatory 2026, um memorando de entendimento (MoU) para cooperação no setor de munições de artilharia e de blindados. O documento prevê o estudo das condições para a transferência ao Brasil de capacidades de produção de munições de 105mm, 155mm e 120mm, com apoio da Direction Générale de l’Armement (DGA), agência francesa de aquisições de defesa. No mesmo evento, a Imbel também renovou parceria com a Safran Eletrônica & Defesa Brasil para sistemas de controle e direção de tiro de artilharia. As duas assinaturas ocorrem em paralelo a uma reestruturação acionária da própria KNDS, que prepara a entrada do governo alemão em seu capital e uma futura oferta pública inicial (IPO) nas bolsas de Frankfurt e Paris.

Dois memorandos em uma mesma feira
Os dois memorandos foram assinados em dias consecutivos da feira. Segundo nota publicada pela própria Imbel, a renovação do acordo com a Safran ocorreu na quarta-feira, 17 de junho. Já a assinatura do MoU com a KNDS, na quinta-feira, 18 de junho, foi confirmada pela Adidância de Defesa da França no Brasil, que descreveu a iniciativa como parte da relação estratégica de defesa entre os dois países. Essa mesma formulação foi posteriormente replicada em publicações institucionais da própria KNDS e da conta diplomática francesa no Brasil, o que indica um texto padronizado, acordado entre as partes, para a divulgação pública do acordo.

O documento com a KNDS foi assinado pelo diretor-presidente da Imbel, general de divisão R1 Ricardo Rodrigues Canhaci. Segundo a Imbel, a parceria busca fortalecer a cooperação industrial entre as empresas e os dois países, e estudar as condições para a transferência de capacidades de produção de munições para o Brasil.

Já a renovação com a Safran Eletrônica & Defesa Brasil, voltada à integração de sistemas de controle e direção de tiro para a Arma de Artilharia, com foco em apoio à promoção comercial e em ampliação de oportunidades no mercado internacional, foi firmada pelo CEO da Safran Eletrônica & Defesa Brasil, David Montmasson, e pelo mesmo general Canhaci. Segundo a Imbel, a cerimônia contou ainda com a presença dos diretores Comercial, de Inovação e Industrial da empresa brasileira, e do Sr. Benjamin Faget, vice-presidente de Sistemas Optrônicos da Safran Electronics & Defense.

Munições de 105mm, 155mm e 120mm
Para a Imbel, a parceria garantiria a transferência de tecnologia para a produção de munições de artilharia de 105mm e 155mm, em padrão Otan e com alcance estendido, além de munição de 120mm para carros de combate. Uma das capacidades pretendidas é a produção local, em padrão Nato/Otan, de munições dotadas da tecnologia base bleed, recurso que amplia em pelo menos um terço o alcance total do tiro.

Já para a KNDS, o acordo facilita a importação de componentes e matérias-primas do Brasil, com potencial, no longo prazo, para que munições com a marca da própria KNDS sejam fabricadas e exportadas a partir do território brasileiro. Entre os produtos do portfólio da empresa citados como referência estão a munição de 155mm de alcance estendido LU 211 BB e a nova munição cinética de 120mm SHARD.

O acordo visa tanto o mercado interno (Exército Brasileiro e Corpo de Fuzileiros Navais) quanto os mercados de exportação, que atualmente registram forte demanda por munições de artilharia modernas. Um dos antecedentes que pavimentaram a assinatura foi a inauguração, em 10 de julho de 2025, na unidade de Juiz de Fora (MG), de uma nova planta de carregamento de munições pesadas com maquinário atualizado, uma das cinco fábricas que compõem a estrutura da Imbel. A data precisa da inauguração é confirmada pelo próprio site institucional da Imbel; reportagens de terceiros chegaram a situar o episódio em setembro de 2025.

O nexo com o offset do Centauro II
A munição de 120mm para uso no blindado Centauro II é resultado do offset (compensação industrial) acordado após a aquisição da viatura blindada de combate de cavalaria média sobre rodas (VBC Cav) 8x8. Em um primeiro momento, devem ser incluídas munições de treinamento dos tipos HEAT-T e HESH-T, respectivamente, alto explosivo de carga oca e alto explosivo de carga moldada, ambas traçantes.

Chama atenção a cronologia do processo: o Exército Brasileiro ainda não assinou o contrato de aquisição do primeiro lote de blindados 8x8, estimado em sete exemplares, mas já trabalha para receber o offset da munição de 120mm. Atualmente, a Força opera apenas as duas unidades do lote de avaliação, entregues entre agosto e setembro de 2024. A previsão é de uma aquisição total de até 98 exemplares, com entregas planejadas entre 2028 e 2033.

Uma parceria renovada, outra inédita
Diferentemente do memorando com a KNDS, descrito pelas partes como uma nova etapa de cooperação, o MoU entre Imbel e Safran é a renovação de uma parceria de longa data. Há registro de memorandos anteriores entre as duas empresas firmados em 2017 e em dezembro de 2020, este último também assinado por David Montmasson, então diretor-geral da Safran Eletrônica & Defesa Brasil.

A relação foi novamente renovada em dezembro de 2024, durante a 8ª Mostra BID Brasil, com a assinatura dos mesmos representantes que voltaram a firmar o acordo na Eurosatory 2026: Montmasson e o general Canhaci. Entre os resultados já colhidos dessa cooperação está a integração do sistema Gênesis de artilharia, da Imbel, a sensores e equipamentos óticos e inerciais da Safran, usada inclusive em viaturas blindadas Guarani e Cascavel.

IMBEL e Safran

Confirmações institucionais convergentes
A assinatura do MoU com a KNDS foi confirmada, com o mesmo texto padronizado, em pelo menos três canais distintos: a conta institucional da Adidância de Defesa da França no Brasil no Instagram, a página da KNDS France no LinkedIn e a cobertura jornalística especializada. Em sua publicação, a KNDS descreveu o acordo como mais uma ilustração de seu compromisso em construir parcerias de longo prazo com aliados e parceiros estratégicos, enquadrando a cooperação brasileira dentro de uma estratégia global da companhia.

Até a conclusão desta reportagem, o site institucional da Imbel havia publicado nota própria e detalhada sobre a renovação com a Safran, mas nenhuma nota equivalente sobre o conteúdo técnico do MoU com a KNDS. A própria KNDS também não havia detalhado o acordo em seus canais corporativos além da publicação padronizada no LinkedIn, o que reforça o caráter ainda preliminar do memorando, que tem natureza de intenção, não de contrato vinculante.

O pano de fundo: a reestruturação acionária da KNDS
O MoU com a Imbel foi assinado num momento de transformação societária da própria KNDS. Em 22 de junho, os governos da Alemanha e da França anunciaram acordo para que Berlim adquira uma participação de 40% na empresa, hoje detida em 50% pelo Estado francês e em 50% pela família alemã controladora da antiga Krauss-Maffei Wegmann (KMW), cuja saída planejada abriu espaço para a entrada do governo alemão.

Segundo apurou a agência Reuters, a operação avalia a KNDS entre 15 bilhões e 18 bilhões de euros, e a Alemanha também busca obter uma “ação de ouro” na unidade alemã da empresa, o que lhe daria influência ampliada sobre decisões de pessoal e estratégicas, garantindo equilíbrio de poder entre Paris e Berlim. O acordo abre caminho para uma oferta pública inicial (IPO) nas bolsas de Frankfurt e Paris, na qual, segundo o CEO da KNDS, Jean-Paul Alary, os acionistas privados venderão 20% do capital, enquanto os Estados francês e alemão deterão 40% cada um.

A movimentação ocorre poucos dias depois de Berlim e Paris cancelarem oficialmente o programa conjunto do caça de nova geração FCAS, por divergências sobre divisão de trabalho e propriedade intelectual entre as empresas dos dois países. O contraste é relevante: enquanto um programa bilateral de defesa colapsa, a cooperação industrial entre os dois países se reorganiza por outra via, a da própria estrutura acionária da KNDS, que se posiciona como uma das principais referências globais do setor de defesa terrestre.

Notas da editoria
O memorando de entendimento entre Imbel e KNDS é, por definição, um instrumento não vinculante. As próprias partes descrevem o objetivo como “estudar as condições” para a transferência de capacidades de produção, não como o início efetivo dessa transferência. Esta editoria tratará eventuais avanços contratuais, prazos e valores como fatos novos, a serem apurados separadamente.

A reestruturação acionária da KNDS é um processo institucional em andamento, sem relação contratual direta com o MoU brasileiro; sua menção tem caráter de contexto, para situar o momento em que a cooperação com o Brasil foi firmada.

09 abril, 2022

Sanções à Rússia colocam China e UE em disputa pelo mercado de armas na África

Foto do tanque leve chinês supostamente transportado a base no sul da China - Sputnik Brasil, 1920, 09.04.2022
© China Commentary


*Sputnik Brasil - 09/04/2022

A Rússia fornece mais da metade de todas as armas vendidas na África, que é mais que o dobro do segundo maior fornecedor, a França, seguida pelos Estados Unidos e China, segundo levantamento do South China Morning Post.

Embora a participação chinesa no mercado de armas africano seja pequena, Pequim tem laços estreitos com muitos países do continente. Por essa razão, larga na frente da União Europeia para substituir a Rússia em alguns mercados.

As restrições financeiras e outras sanções introduzidas pelos Estados Unidos e muitos países europeus prejudicaram as cadeias de suprimentos e a produção de equipamentos de defesa russos.

Esse fenômeno, inclusive, teve repercussões, segundo a imprensa brasileira, no Ministério da Defesa do Brasil. A FAB (Força Aérea Brasileira) precisou repensar a sua estratégia para a compra de helicópteros russos em razão das dificuldades em fazer reparos nas aeronaves em meio às sanções.

Pequim, inclusive, tendo em vista esse fator, estaria de olho em grandes clientes russos na África, como Nigéria e Etiópia, para a venda de veículos blindados e lançadores de foguetes.

A China é um participante comparativamente pequeno no mercado africano de vendas de armas. De acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), entre 2000 e 2018, a China respondeu por apenas 7,5% do mercado total.

John Calabrese, chefe do Projeto Oriente Médio-Ásia da American University, em Washington, disse que nos últimos cinco anos a concorrência de vendas de armas na África se intensificou com grandes compradores, como o Egito, buscando diversificar suas fontes.

"É possível que a China tente capitalizar com a expulsão da Rússia desses mercados quando as sanções e restrições financeiras começarem a afetar", disse o especialista. No entanto, Calabrese disse que um fator a ser considerado "é se a China poderia fornecer um substituto pronto para o equipamento russo".

Outros fornecedores estrangeiros, como os franceses, também podem procurar preencher a lacuna, principalmente no Egito, e um terceiro fator é se a China pode oferecer condições de pagamento e descontos favoráveis.

Moses B. Khanyile, diretor do Centro de Estudos Militares da Universidade Stellenbosch na África do Sul, partilha a opinião que, dada a alta presença de equipamentos militares russos na África, as sanções tornariam mais difícil manter, reparar e revisar equipamentos.

Ele disse que a China provavelmente será uma grande beneficiária desse "vazio", acrescentando que seus acordos de armas existentes podem ser apoiados por outras relações comerciais e diplomáticas que a China já tem com países africanos.

Postagem em destaque