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22 julho, 2025

Possibilidade de bloqueio do GPS pelos EUA gera preocupação no Brasil. Entenda a questão


*LRCA Defense Consulting - 22/07/2025

Nas últimas semanas, intensificaram-se especulações sobre possíveis retaliações dos Estados Unidos ao Brasil — entre elas, o bloqueio do acesso ao sistema GPS (Global Positioning System), controlado pelos EUA. A medida tem sido ventilada como parte de um pacote de sanções emergentes, alinhado a propostas de aumentos tarifários e ações diplomáticas envolvendo até a OTAN. 

Apesar disso, nenhuma declaração oficial de membros do governo americano confirmou esse tipo de intenção. Analistas apontam que se trata, em grande parte, de especulação conduzida via redes sociais e veículos sensacionalistas.

Como o GPS, operado pelos EUA, é amplamente utilizado em setores como agricultura, transporte, defesa e pesquisa, a possibilidade de sua interrupção levanta questões sobre os impactos no Brasil e a capacidade do país de mitigar essa perda. 

O que é o GPS e por que ele é importante?
O GPS é um sistema de navegação por satélite que fornece dados de posicionamento, navegação e tempo (PNT) para usuários civis e militares em todo o mundo. Com cerca de 31 satélites em órbita, o GPS é a espinha dorsal de aplicações que vão desde a navegação de smartphones até a agricultura de precisão e operações militares. 

No Brasil, ele é essencial para o agronegócio, que utiliza o posicionamento para o plantio e monitoramento de culturas, além de setores como aviação, logística e geodésia. Recentemente, tensões geopolíticas têm alimentado rumores de que os EUA poderiam restringir o acesso ao GPS como parte de sanções contra o Brasil, em resposta a divergências comerciais ou políticas. Embora tal medida seja considerada extrema, ela não é impossível, já que os EUA controlam o sistema e já aplicaram restrições seletivas no passado, como durante conflitos internacionais.

Há risco real de bloqueio seletivo do GPS?
Segundo especialistas ouvidos em análises técnicas e verificações de boatos, a interrupção do sinal somente para o Brasil é considerada tecnicamente inviável. O acesso civil ao GPS é aberto, gratuito e global — uma mudança seletiva exigiria alteração da arquitetura técnica do serviço e afetaria inclusive empresas americanas operando em solo brasileiro. Boatos que sugerem que “Trump ameaçou cortar o GPS do Brasil” não têm qualquer respaldo oficial ou registro confiável.

O que mudaria se o sinal fosse bloqueado?
Apesar da baixa viabilidade técnica, muitos especialistas analisam os impactos hipotéticos de uma interrupção do GPS no País:

- Agronegócio: o agronegócio, pilar da economia brasileira, depende do GPS para o mapeamento de terras e a operação de máquinas automatizadas. A ausência do GPS poderia causar interrupções temporárias, mas equipamentos modernos já são compatíveis com GLONASS, Galileo e BeiDou. Fazendeiros com dispositivos mais antigos, no entanto, poderiam enfrentar dificuldades até a substituição ou atualização dos equipamentos.

- Logística e transportes: rastreamento de cargas, gestão de frotas, aplicativos de entrega e mobilidade urbana seriam atingidos, causando caos nos sistemas urbanos e comerciais. A navegação aérea, marítima e terrestre seria impactada, especialmente em sistemas que dependem exclusivamente do GPS. A transição para outras constelações exigiria ajustes em softwares e hardwares, o que poderia gerar atrasos e custos significativos adicionais.

- Sistemas financeiros e telecomunicações: serviços dependem do tempo preciso transmitido via GPS para sincronização; sua ausência poderia comprometer a segurança de transações e redes. 

- Defesa e segurança: a maioria dos sistemas militares baseados em posicionamento depende da infraestrutura americana para operações confiáveis e enfrentaria desafios significativos. O Brasil precisaria negociar acordos com outros países, como a Rússia ou a China, para acessar sinais seguros de suas constelações, uma solução que poderia ser politica e estrategicamente sensível.

- Pesquisa e Geodésia: a RBMC garante que atividades científicas e de mapeamento continuem funcionando com alta precisão, já que a rede já utiliza múltiplos sistemas GNSS. O impacto nesse setor seria mínimo, mas ajustes em modelos de correção poderiam ser necessários.

Estimativas indicam que a adaptação total a sistemas alternativos poderia levar de 1 a 2 anos para setores críticos, ou até 2 a 5 anos para recuperação integral da infraestrutura tecnológica 

Quais seriam as alternativas?
Caso o sinal GPS fosse cortado, o Brasil ainda poderia recorrer a outros GNSS (Global Navigation Satellite Systems):

- Galileo (União Europeia), com 30 satélites (24 operacionais) em três planos orbitais a aproximadamente 23.200 km de altitude.

- GLONASS (Rússia), com 26 satélites (24 operacionais) em três planos orbitais a cerca de 19.100 km de altitude.

- BeiDou (China), com 35 satélites (24 operacionais) com uma combinação de satélites geoestacionários e não geoestacionários, a cerca de 21.150 km de altitude.

A maioria dos dispositivos modernos já é compatível com múltiplos sistemas, o que permitiria alguma continuidade operacional. No entanto, setores críticos necessitariam readequação técnica e regulatória, além de treinamentos específicos e recalibração de equipamentos.

RBMC: o escudo brasileiro contra a dependência do GPS
O Brasil, no entanto, não está de mãos atadas. A Rede Brasileira de Monitoramento Contínuo (RBMC), operada pelo IBGE, é uma infraestrutura robusta composta por cerca de 140 estações base equipadas com receptores GNSS (Sistemas Globais de Navegação por Satélite). Diferentemente do GPS, que é apenas um dos sistemas GNSS, a RBMC rastreia sinais de múltiplas constelações, incluindo o GLONASS (Rússia), Galileo (Europa) e BeiDou (China). Isso significa que, mesmo sem o GPS, o Brasil pode continuar a realizar posicionamento de alta precisão.

A RBMC, por si só, não substitui o GPS ou qualquer outro sistema GNSS, mas pode ajudar a mitigar parcialmente os efeitos da perda de acesso ao sinal GPS dos EUA, se usada em combinação com outras tecnologias e estratégias. Se o sinal do GPS fosse negado, a RBMC poderia:

- Ajudar na transição para outros GNSS (GLONASS, Galileo, BeiDou), pois recebe sinais de múltiplos sistemas GNSS. Isso permite fornecer correções diferenciais para melhorar a precisão de sinais não americanos.

- Fornecer dados para posicionamento preciso por métodos alternativos, pois mesmo sem o sinal GPS, é possível fazer posicionamento pós-processado usando os dados da RBMC combinados com GLONASS/Galileo. A RBMC permite técnicas como o Posicionamento por Ponto Preciso (PPP) e o Real-Time Kinematic (RTK), que garantem precisão centimétrica. Essa infraestrutura é capaz de integrar sinais de diferentes sistemas GNSS, reduzindo a vulnerabilidade a uma eventual suspensão do GPS.

- Servir como base para um sistema regional alternativo, tornando-se uma infraestrutura de apoio para um sistema GNSS regional, como o projeto argentino-brasileiro SAC-E, ou um sistema terrestre tipo eLORAN. Também poderia integrar redes internacionais para ampliar a resiliência nacional. 

Estações terrestres da Rede Brasileira de Monitoramento Contínuo (RBMC)

Capacidade de resposta do Brasil
A RBMC é um trunfo importante, mas o Brasil ainda depende - e muito - de constelações de satélites estrangeiras, já que não possui um sistema GNSS próprio. A perda do GPS, hipotética ou não, poderia, portanto, ser um catalisador para nortear investimentos visando uma maior autonomia tecnológica, como as seguintes medidas de longo prazo:

- Expansão da RBMC: aumento do número de estações base para cobrir áreas remotas, como a Amazônia, onde a visibilidade de satélites pode ser limitada.

- Incentivo a receptores multissistema: promoção à adoção de dispositivos compatíveis com GLONASS, Galileo e BeiDou em todos os setores.

- Parcerias internacionais: fortalecimento de acordos com a União Europeia (Galileo) ou países do BRICS (como a China, com o BeiDou) para garantir acesso a sinais alternativos.

- Tecnologias complementares: investimento em sistemas de posicionamento baseados em redes terrestres, como uma versão modernizada do LORAN (LOng RAnge Navigation), para reduzir a dependência de satélites. O eLORAN é a evolução digital e aprimorada do antigo sistema LORAN-C, desenvolvido originalmente durante a Segunda Guerra Mundial. Ele usa sinais de rádio de baixa frequência (LF) emitidos por torres terrestres para fornecer Posicionamento (latitude/longitude), Navegação (em tempo real) e Temporização (com precisão compatível com aplicações críticas). Embora demande infraestrutura física (torres transmissoras) e não tenha tanta aplicabilidade, é mais barato que lançar e manter satélites, mais seguro, possui resiliência estratégica e oferece redundância crítica.

Sistema próprio?
E por que o Brasil não pensa em um sistema próprio, garantindo autonomia estratégica, resiliência cibernética e redução da dependência de potências estrangeiras, especialmente em tempos de conflito ou sanções?
Embora construir um sistema brasileiro de navegação por satélite global seja tecnicamente viável, trata-se de um projeto multibilionário, de décadas. No curto e no médio prazo, o mais prudente seria investir em redundância tecnológica, cooperação internacional e sistemas regionais de apoio, que garantam autonomia operacional mesmo diante de negações do GPS.

Um alerta geopolítico
A possibilidade de os EUA bloquearem o GPS para o Brasil está ainda no campo das especulações e não possui base técnica nem confirmação oficial até o momento. Mesmo que a medida fosse considerada, sua execução seletiva seria tecnicamente muito difícil de ser executada (mas não impossível), e os efeitos diplomáticos seriam severos. No entanto, em um até agora hipotético cenário extremo, haveria impacto rápido e significativo em setores estratégicos como agronegócio, transportes, aviação, telecomunicações e defesa, mas não só nestes. 

A mera possibilidade de sanções envolvendo o GPS destaca a vulnerabilidade do Brasil à dependência de tecnologias estrangeiras. Nenhum país está imune a pressões geopolíticas quando se trata de sistemas como o GNSS, e o Brasil precisa diversificar suas parcerias e investir em resiliência tecnológica para proteger seus interesses.

Embora a RBMC ofereça uma base para mitigar, mesmo que parcialmente, a perda do GPS, a transição exigiria tempo, recursos vultuosos e coordenação entre governo, indústria e academia, além de grandes ajustes operacionais em todas as áreas. 

Assim, a ameaça de sanções, mesmo que permaneça no campo hipotético, serve como um lembrete da importância de se preparar para cenários extremos, garantindo que o Brasil possa continuar a navegar – literal e figurativamente – mesmo em tempos de incerteza. 

09 abril, 2022

Sanções à Rússia colocam China e UE em disputa pelo mercado de armas na África

Foto do tanque leve chinês supostamente transportado a base no sul da China - Sputnik Brasil, 1920, 09.04.2022
© China Commentary


*Sputnik Brasil - 09/04/2022

A Rússia fornece mais da metade de todas as armas vendidas na África, que é mais que o dobro do segundo maior fornecedor, a França, seguida pelos Estados Unidos e China, segundo levantamento do South China Morning Post.

Embora a participação chinesa no mercado de armas africano seja pequena, Pequim tem laços estreitos com muitos países do continente. Por essa razão, larga na frente da União Europeia para substituir a Rússia em alguns mercados.

As restrições financeiras e outras sanções introduzidas pelos Estados Unidos e muitos países europeus prejudicaram as cadeias de suprimentos e a produção de equipamentos de defesa russos.

Esse fenômeno, inclusive, teve repercussões, segundo a imprensa brasileira, no Ministério da Defesa do Brasil. A FAB (Força Aérea Brasileira) precisou repensar a sua estratégia para a compra de helicópteros russos em razão das dificuldades em fazer reparos nas aeronaves em meio às sanções.

Pequim, inclusive, tendo em vista esse fator, estaria de olho em grandes clientes russos na África, como Nigéria e Etiópia, para a venda de veículos blindados e lançadores de foguetes.

A China é um participante comparativamente pequeno no mercado africano de vendas de armas. De acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), entre 2000 e 2018, a China respondeu por apenas 7,5% do mercado total.

John Calabrese, chefe do Projeto Oriente Médio-Ásia da American University, em Washington, disse que nos últimos cinco anos a concorrência de vendas de armas na África se intensificou com grandes compradores, como o Egito, buscando diversificar suas fontes.

"É possível que a China tente capitalizar com a expulsão da Rússia desses mercados quando as sanções e restrições financeiras começarem a afetar", disse o especialista. No entanto, Calabrese disse que um fator a ser considerado "é se a China poderia fornecer um substituto pronto para o equipamento russo".

Outros fornecedores estrangeiros, como os franceses, também podem procurar preencher a lacuna, principalmente no Egito, e um terceiro fator é se a China pode oferecer condições de pagamento e descontos favoráveis.

Moses B. Khanyile, diretor do Centro de Estudos Militares da Universidade Stellenbosch na África do Sul, partilha a opinião que, dada a alta presença de equipamentos militares russos na África, as sanções tornariam mais difícil manter, reparar e revisar equipamentos.

Ele disse que a China provavelmente será uma grande beneficiária desse "vazio", acrescentando que seus acordos de armas existentes podem ser apoiados por outras relações comerciais e diplomáticas que a China já tem com países africanos.

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