De metralhadoras pesadas e drones a mísseis e caças, blindados, motores turbojato e aviões de transporte, as indústrias dos dois países já convergem em pelo menos cinco frentes; um acordo governo a governo tende a transformar negociações em curso em contratos fechados
*LRCA Defense Consulting - 25/08/2026
O telefonema entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, em 24 de agosto, e o consequente acordo para a criação de um Conselho Estratégico em nível de vice-presidentes, não nasce de uma relação incipiente. Nasce de um relacionamento que já amadureceu, item por item, ao longo de mais de vinte anos, e que nos últimos dois se acelerou de forma expressiva. Antes de se perguntar o que um acordo mais amplo entre os dois países pode gerar, vale medir o que já existe: e o que já existe é consideravelmente mais denso do que a maior parte da cobertura sobre o telefonema deixou entrever.
Um ponto de partida antigo
A presença turca no mercado brasileiro de defesa não começou em 2026, nem em 2022. Já em 2021, a CBC lançava no Brasil, sob a marca CBC by ATA, os rifles de ferrolho Turqua, fabricados pela turca ATA Arms, um sinal discreto, mas precoce, de que a indústria turca de armas leves já enxergava o mercado brasileiro como destino natural. O que hoje se apresenta como novidade, drones, blindados, mísseis, é na verdade a maturação de um relacionamento comercial que já tinha raízes.
O Acordo de Cooperação na Indústria de Defesa entre os dois países foi assinado simultaneamente em Ancara e Brasília em 25 de março de 2022. Levou quatro anos para virar lei: o Senado brasileiro aprovou o texto (PDL 262/2024) em setembro de 2025, e a Comissão de Relações Exteriores da Grande Assembleia Nacional da Turquia (TBMM) fez o mesmo em abril de 2026, na mesma semana em que seu vice-ministro das Relações Exteriores, Mehmet Kemal Bozay, declarou perante a comissão que a parceria já "ultrapassou o estágio de intenções". Em novembro de 2024, o Ministério da Defesa já havia promovido, por meio do Departamento de Produtos de Defesa (Seprod), um Diálogo da Indústria de Defesa (DID) Brasil-Turquia que reuniu 14 empresas turcas e 13 brasileiras, uma iniciativa que remonta a conversas iniciadas em 2019.
Ou seja: quando os dois presidentes conversaram por telefone em agosto de 2026, eles não estavam abrindo uma porta. Estavam formalizando, no mais alto nível político, uma aproximação que a indústria e as Forças Armadas dos dois países já vinham construindo havia anos, quase sempre longe dos holofotes.
Cinco frentes já em movimento
Aeronáutica
A Embraer e a Turkish Aerospace (TUSAŞ) assinaram, na LAAD de abril de 2025, um Memorando de Entendimento para avaliar a produção sob licença, na Turquia, dos jatos comerciais E190-E2 e E195-E2, com o vice-presidente Geraldo Alckmin presente à cerimônia. Meses depois, a paulista Akaer, parceira estrutural da TUSAŞ desde 2021 no caça-treinador HÜRJET (responsável pela fuselagem traseira e empenagens), recebeu em sua sede, em São José dos Campos, o vice-presidente executivo e o consultor de operações internacionais da TUSAŞ, além de manter, desde 2025, um memorando com a Aselsan para sistemas de defesa.
O telefonema entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, em 24 de agosto, e o consequente acordo para a criação de um Conselho Estratégico em nível de vice-presidentes, não nasce de uma relação incipiente. Nasce de um relacionamento que já amadureceu, item por item, ao longo de mais de vinte anos, e que nos últimos dois se acelerou de forma expressiva. Antes de se perguntar o que um acordo mais amplo entre os dois países pode gerar, vale medir o que já existe: e o que já existe é consideravelmente mais denso do que a maior parte da cobertura sobre o telefonema deixou entrever.
Um ponto de partida antigo
A presença turca no mercado brasileiro de defesa não começou em 2026, nem em 2022. Já em 2021, a CBC lançava no Brasil, sob a marca CBC by ATA, os rifles de ferrolho Turqua, fabricados pela turca ATA Arms, um sinal discreto, mas precoce, de que a indústria turca de armas leves já enxergava o mercado brasileiro como destino natural. O que hoje se apresenta como novidade, drones, blindados, mísseis, é na verdade a maturação de um relacionamento comercial que já tinha raízes.
O Acordo de Cooperação na Indústria de Defesa entre os dois países foi assinado simultaneamente em Ancara e Brasília em 25 de março de 2022. Levou quatro anos para virar lei: o Senado brasileiro aprovou o texto (PDL 262/2024) em setembro de 2025, e a Comissão de Relações Exteriores da Grande Assembleia Nacional da Turquia (TBMM) fez o mesmo em abril de 2026, na mesma semana em que seu vice-ministro das Relações Exteriores, Mehmet Kemal Bozay, declarou perante a comissão que a parceria já "ultrapassou o estágio de intenções". Em novembro de 2024, o Ministério da Defesa já havia promovido, por meio do Departamento de Produtos de Defesa (Seprod), um Diálogo da Indústria de Defesa (DID) Brasil-Turquia que reuniu 14 empresas turcas e 13 brasileiras, uma iniciativa que remonta a conversas iniciadas em 2019.
Ou seja: quando os dois presidentes conversaram por telefone em agosto de 2026, eles não estavam abrindo uma porta. Estavam formalizando, no mais alto nível político, uma aproximação que a indústria e as Forças Armadas dos dois países já vinham construindo havia anos, quase sempre longe dos holofotes.
Cinco frentes já em movimento
Aeronáutica
A Embraer e a Turkish Aerospace (TUSAŞ) assinaram, na LAAD de abril de 2025, um Memorando de Entendimento para avaliar a produção sob licença, na Turquia, dos jatos comerciais E190-E2 e E195-E2, com o vice-presidente Geraldo Alckmin presente à cerimônia. Meses depois, a paulista Akaer, parceira estrutural da TUSAŞ desde 2021 no caça-treinador HÜRJET (responsável pela fuselagem traseira e empenagens), recebeu em sua sede, em São José dos Campos, o vice-presidente executivo e o consultor de operações internacionais da TUSAŞ, além de manter, desde 2025, um memorando com a Aselsan para sistemas de defesa.
Do lado dos aviões de transporte, o interesse é recíproco e crescente: o comandante da Força Aérea da Turquia visitou pessoalmente o KC-390 em operação em Portugal, em maio de 2026, num momento em que a frota turca de C-130 sofre pressão após a perda de uma aeronave, com toda a tripulação, na Geórgia, em novembro de 2025, e que a Grécia (rival e vizinha) sinaliza a compra do C-390.

Blindados
O programa "Nova Família de Veículos Blindados sobre Lagartas", que prevê 65 carros de combate e 78 veículos de combate de infantaria, afunilou-se a quatro finalistas, entre eles o Tulpar, da turca Otokar. Em outubro de 2025, o comandante do Exército Brasileiro, general Tomás Paiva, visitou a fábrica da Otokar em Sakarya; em abril de 2026, foi a vez do chefe do Estado-Maior, general Montenegro Junior, repetir a visita durante a LAAD 2026. A Otokar já sinalizou abertura para transferência de tecnologia e produção local, e a comunalidade entre a torre HITFACT MkII do Tulpar e a do Centauro II, já em uso no Brasil, é um argumento técnico a favor do blindado turco.

Armas leves e coletivas
A Taurus negocia, desde a LAAD de abril de 2025, a aquisição do controle acionário da turca Mertsav Savunma Sistemleri, fabricante de metralhadoras leves e pesadas. Mesmo antes de a operação ser formalizada, a Taurus já venceu, via Estados Unidos, uma licitação para fornecer 300 metralhadoras Mertsav MMG762 ao Exército Brasileiro, e a Marinha assinou, em fevereiro de 2026, um protocolo com a Taurus para o desenvolvimento de sistemas de armas coletivas baseados justamente nos modelos turcos. Em abril de 2026, armas da Mertsav já eram apresentadas ao lado de produtos Taurus, sob o mesmo rótulo comercial, em evento institucional para as Forças Armadas.

Mísseis
O míssil antinavio MANSUP-ER, da brasileira SIATT, ganhou alcance superior a 200 km (ante 70 km da versão original) graças ao motor turbojato KTJ-3200, da turca Kale Jet Engines, primeira exportação desse motor para fora da Turquia. O arranjo é trilateral, com o Grupo EDGE, dos Emirados Árabes Unidos, financiando e trazendo a Repkon, também turca, para a fabricação do corpo estrutural do míssil.

Drones e defesa antiaérea
O drone Bayraktar TB2, da Baykar, é elegível ao edital brasileiro de VANTs armados, e o comandante do Exército já visitou a fábrica da empresa em 2025. O modelo mais recente, o TB3, é um dos itens hoje discutidos para eventual produção local destinada ao Sisfron, o sistema de monitoramento de fronteiras.
O que muda com um acordo mais amplo
Se essa é a fotografia do presente, a pergunta relevante é o que um Conselho Estratégico em nível de vice-presidentes, com mandato para elaborar um roteiro bilateral, pode destravar em cada uma dessas frentes nos próximos anos.
No caso dos blindados, o efeito mais provável é político, não técnico. A decisão sobre o Tulpar já deveria seguir critérios de desempenho, custo e transferência de tecnologia; um guarda-chuva governo a governo tende a funcionar como acelerador de cronograma e como garantia de continuidade caso o programa avance por mais de um ciclo eleitoral, hipótese nada trivial em um contrato bilionário que atravessa gestões.
No caso da Mertsav, o acordo mais amplo dificilmente muda a lógica comercial da operação, que é da Taurus, mas pode acelerar aprovações regulatórias dos dois lados, sobretudo as que dependem de autorizações de exportação de tecnologia sensível de armas coletivas. Uma Taurus Turquia operando como quarta unidade produtiva do grupo, ao lado de Brasil, Estados Unidos e Índia, é um desfecho que já está desenhado; o que falta é o ritmo burocrático acompanhar o ritmo comercial.
O item mais promissor, e também o mais urgente do ponto de vista turco, é o aeronáutico. A Turquia precisa substituir uma frota de C-130 envelhecida e agora sob suspeita, depois do acidente fatal de novembro de 2025; comprou, como solução-ponte, C-130J usados da Royal Air Force, mas essa é uma resposta de curto prazo. O KC-390 já conquistou doze países, incluindo, em maio de 2026, os Emirados Árabes Unidos, sua estreia no Oriente Médio; um pedido turco, ainda que modesto no primeiro lote, teria peso simbólico desproporcional ao tamanho do contrato, pois colocaria o cargueiro brasileiro operando ao lado de aliados da OTAN na fronteira do Mediterrâneo Oriental, região de alta tensão geopolítica. Um acordo governo a governo, no molde do que já se pratica com a exportação de armas Mertsav, tende a ser o instrumento mais rápido para viabilizar essa venda, já que reduz a exposição de ambos os lados a processos de licitação aberta.

Há ainda uma camada mais especulativa, mas que a imprensa turca já verbaliza havia meses: uma eventual participação brasileira, via Embraer ou Akaer, no desenvolvimento do caça de quinta geração KAAN, cujo primeiro protótipo voou em 2026. Nenhuma das duas empresas confirmou esse desdobramento, e é prudente tratá-lo como hipótese, não como fato; mas a lógica industrial da parceria, com a Akaer já dentro da estrutura do HÜRJET e da relação com a Aselsan, aponta nessa direção, e um Conselho Estratégico é exatamente o tipo de mecanismo político que costuma anteceder decisões desse porte.
No campo dos mísseis, o modelo trilateral do MANSUP-ER (Brasil integrando, Emirados financiando, Turquia fornecendo propulsão e componentes estruturais) já demonstrou funcionar. É razoável esperar que esse arranjo sirva de referência para outros programas, sobretudo em defesa antiaérea de curto alcance e sistemas contra drones, área em que a experiência turca, testada nos conflitos do Cáucaso e do Oriente Médio, é reconhecida internacionalmente.
Uma complementaridade, não uma dependência
O argumento que sustenta essa aproximação não é apenas comercial. A Turquia lidera em drones, motores a jato e caças leves; o Brasil se destaca em aeronaves de transporte, jatos regionais e engenharia aeroespacial. Nenhum dos dois países está entregando ao outro uma dependência estratégica; ambos preenchem lacunas específicas nas cadeias industriais um do outro, o que é uma condição bem mais saudável, do ponto de vista de soberania, do que a relação clássica entre fornecedor único e comprador cativo.
Para o Brasil, gastando algo como US$ 25 bilhões anuais em defesa, a Turquia representa uma fonte de tecnologia livre de restrições ITAR e BAFTA, o que facilita exportações futuras de produtos que incorporem componentes turcos. Para a Turquia, cujo setor de defesa busca mercados além da OTAN, o País é um cliente de peso e uma porta de entrada para toda a América Latina, região onde a Otokar já negocia com a Colômbia e o KC-390 desperta interesse além das fronteiras brasileiras.
O risco a monitorar é o inverso do entusiasmo: acordos governo a governo tendem a acelerar processos que já estão tecnicamente maduros, mas raramente resolvem, por si só, gargalos orçamentários. O programa de blindados do Exército convive com restrições fiscais conhecidas, e a decisão sobre o Tulpar deverá refletir isso independentemente do que for costurado entre os vice-presidentes.
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