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05 agosto, 2026

Antes do primeiro voo comercial do Eve 100: como o Brasil regulamenta seus futuros vertiportos

ANAC, PAX Aeroportos, UrbanV, Eve Air Mobility e outros parceiros avançam em projeto regulatório de 24 meses que testa infraestrutura de eVTOLs em dois aeroportos urbanos, enquanto a certificação da aeronave da Eve progride em paralelo
 
 
*LRCA Defense Consulting - 05/08/2026

O Brasil consolida, ao longo de 2025 e 2026, um dos processos regulatórios mais adiantados da América Latina para a mobilidade aérea avançada (AAM), a categoria de transporte que engloba as aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical, os eVTOLs. O eixo desse processo é um sandbox regulatório conduzido pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) nos aeroportos Campo de Marte, em São Paulo, e Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, ambos operados pela PAX Aeroportos. O projeto avança em paralelo à certificação de tipo do Eve 100, o eVTOL da Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer, e ganhou novo capítulo em agosto, quando a ANAC anunciou que o Campo de Marte também passará a operar por instrumentos (IFR) a partir de 15 de setembro.
O sandbox regulatório e seus participantes
O sandbox teve início formal em fevereiro de 2025, quando a Eve Air Mobility anunciou sua colaboração com a PRS Aeroportos, consórcio formado pela PAX Aeroportos, concessionária do Campo de Marte, e pela UrbanV SpA, operadora italiana de vertiportos, além da VertiMob Infrastructure, startup brasileira dedicada ao desenvolvimento de infraestrutura para esse tipo de aeronave. O projeto, com duração prevista de 24 meses, foi desenhado para desenvolver soluções em áreas ainda sem regulamentação específica no país, como capacidade da infraestrutura física, sistemas de combate a incêndio, requisitos de ruído das aeronaves, medidas de controle de acesso, layouts de pouso e decolagem, rotas de aproximação e instalações de manutenção.
A UrbanV, parceira de infraestrutura, pertence a um consórcio de operadores aeroportuários europeus formado pela Aeroporti di Roma, pela Aéroports de la Côte d'Azur, pelo grupo SAVE e pelo aeroporto Bologna Guglielmo Marconi. A empresa planeja lançar sua primeira rota comercial de mobilidade aérea avançada em Roma nos próximos anos, o que insere o Campo de Marte numa rede internacional de referências para o setor.
Expansão da parceria e chegada de novos participantes
Em 13 de janeiro de 2026, a PAX Aeroportos e a UrbanV formalizaram uma parceria estratégica que ampliou o escopo original do sandbox. O acordo estende o projeto ao aeroporto de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, que passaria a funcionar como ponto de acesso à zona oeste carioca, com potencial de conexão futura à zona sul e a Niterói. Já o Campo de Marte segue projetado como hub da região metropolitana de São Paulo.
Foram apontados dois novos nomes no sandbox: a companhia aérea GOL e a Saipher ATC, empresa especializada em soluções de controle de tráfego aéreo. Essa informação não foi localizada em nenhuma outra fonte consultada nesta apuração, nacional ou internacional, razão pela qual deve ser tratada como dado a confirmar junto às próprias empresas ou à ANAC antes de ser reproduzida sem ressalva em coberturas futuras.
Para Ivan Bassato, chairman da UrbanV, o Brasil é "um dos mercados mais estratégicos para a mobilidade aérea avançada", e o acordo com a PAX permitiria "construir as bases para as futuras redes de mobilidade aérea no Brasil". Já Rogério Augusto Prado, CEO da PAX Aeroportos, descreveu a AAM como uma "evolução natural da aviação na cidade". A PAX Aeroportos, controlada pela XP Asset Management, opera Campo de Marte e Jacarepaguá desde 2023, sob concessão de 30 anos obtida em leilão promovido pela ANAC.
A certificação do Eve 100 avança em paralelo
Enquanto o sandbox trata da infraestrutura em solo, a certificação da aeronave da Eve segue seu próprio cronograma junto à ANAC. Em outubro de 2024, a agência publicou os critérios de aeronavegabilidade para o então chamado EVE-10. Ao longo de 2026, o processo avançou para etapas mais específicas: a ANAC propôs parâmetros para avaliar o impacto sonoro do eVTOL, uma das primeiras normas do país voltadas exclusivamente a esse tipo de aeronave, e abriu consulta setorial revisando os critérios de aeronavegabilidade já publicados.
Em paralelo, a Eve protocolou junto à Agência Europeia para a Segurança da Aviação (EASA) o pedido para iniciar a validação do certificado de tipo na Europa, movimento que se soma às tratativas já em curso com a Federal Aviation Administration (FAA) dos Estados Unidos. Segundo o CEO da Eve, Johann Bordais, a publicação da proposta de critérios de ruído representa "um marco importante no desenvolvimento e na certificação do Eve 100".
No campo dos testes físicos, o protótipo em escala real do Eve 100 já acumulava, até abril de 2026, cerca de 50 voos de teste realizados em Gavião Peixoto, no interior paulista, incluindo ensaios de voo pairado e de baixa velocidade, etapas consideradas relevantes para a validação operacional da aeronave. A previsão da empresa, condicionada à obtenção do certificado de tipo pela ANAC, pela FAA e pela EASA, é iniciar operações comerciais em 2027. O eVTOL comporta cinco ocupantes (um piloto e quatro passageiros), tem autonomia de aproximadamente 100 quilômetros e, segundo a Eve, poderia reduzir um trajeto como o da zona sul de São Paulo até Guarulhos de 150 para 15 minutos. A empresa contabiliza cerca de 2.800 pedidos globais para o modelo.
O anúncio do IFR e o momento da LABACE 2026
O terceiro capítulo dessa sequência veio da própria ANAC. Durante a abertura da LABACE 2026, feira de aviação executiva realizada de 4 a 6 de agosto no Campo de Marte, o presidente da agência, Tiago Faierstein, anunciou que o aeroporto passará a operar por instrumentos (IFR) a partir de 15 de setembro. A medida cumpre determinação prevista no contrato de concessão da PAX Aeroportos e foi coordenada pela ANAC, pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) e pelos governos federal, estadual e municipal.
Sem operação por instrumentos, o Campo de Marte ficava limitado a condições visuais, o que o tornava impraticável em cenários de neblina, muitas nuvens ou chuva intensa. Embora o IFR trate da navegação de aeronaves convencionais e helicópteros, e não seja um requisito direto para a operação de eVTOLs, o anúncio se soma a um pacote mais amplo de modernização do aeroporto: em março de 2026, a PAX Aeroportos já havia inaugurado a Fase 1B de obras no Campo de Marte, com investimento de aproximadamente R$ 120 milhões em nova pista, sistema PAPI e iluminação, dentro de um plano que projeta a integração entre aviação tradicional e mobilidade aérea avançada no mesmo terminal.
Arcabouço regulatório mais amplo
O sandbox do Campo de Marte é parte de um movimento regulatório mais amplo em curso na ANAC ao longo de 2026, que inclui proposta de licença de piloto de eVTOL, consulta pública sobre o impacto da mobilidade aérea avançada no espaço aéreo, estudos do DECEA para integração de eVTOLs na área de controle terminal (TMA) de São Paulo, além de projeto de lei em tramitação para regulamentação de eVTOLs e drones no país. Esse conjunto de iniciativas é o que sustenta a expectativa de que o Brasil figure entre os primeiros países do mundo a ter uma rede comercial de vertiportos operacional, ao lado de mercados como Estados Unidos e países europeus.

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