*Luiz Alberto Cureau Jr. - 01/08/2026
Os grandes conflitos sempre transformaram a economia mundial. Desta vez, porém, há uma diferença importante, além dos campos de batalha, a guerra está redefinindo cadeias industriais, prioridades orçamentárias e a geopolítica da produção militar. O que hoje parece uma resposta emergencial tende a se tornar permanente.
A Europa compreendeu que sua segurança depende de uma Base Industrial de Defesa forte e capaz de sustentar conflitos prolongados, para não depender dos outros. Mesmo enfrentando desafios fiscais, continua ampliando investimentos, expandindo fábricas, financiando inovação e fortalecendo sua autonomia estratégica.
Independentemente do desfecho da guerra, dificilmente esse movimento será revertido. Quem investiu bilhões em tecnologia, capacidade produtiva e mão de obra especializada buscará novos mercados, consolidará sua liderança tecnológica e ampliará sua influência política e econômica.
Enquanto isso, o Brasil ainda discute se investir em defesa é gasto ou investimento.
Essa é uma visão perigosa para um país que reúne algumas das maiores riquezas estratégicas do planeta. Amazônia, Amazônia Azul, minerais críticos, água doce, produção de alimentos e uma matriz energética diversificada colocam o Brasil em posição de crescente relevância em um mundo cada vez mais competitivo por recursos.
A história demonstra que riquezas atraem interesses. E interesses sem capacidade de dissuasão transformam vulnerabilidades em oportunidades para terceiros.
O fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira deixou de ser apenas uma agenda militar. Tornou-se uma agenda de desenvolvimento nacional. Uma indústria forte gera empregos qualificados, impulsiona inovação, desenvolve tecnologias de uso dual e reduz a dependência de fornecedores externos justamente quando eles priorizam suas próprias necessidades.
O risco de permanecer inerte é evidente. Europa, Estados Unidos, China, Coreia do Sul, Turquia e Israel ampliam rapidamente seus complexos industriais de defesa. Quanto maior essa capacidade, maior será sua competitividade, sua influência diplomática e seu domínio tecnológico. Se o Brasil não acelerar seus investimentos, correrá o risco de tornar-se apenas consumidor de soluções produzidas por outros, perdendo autonomia sobre sua própria segurança.
As Forças Armadas têm papel central nesse processo. São elas que induzem inovação, estimulam a indústria nacional e garantem a continuidade de projetos estratégicos. Mas isso exige previsibilidade orçamentária, planejamento de longo prazo e uma política de Estado, coisa que não temos.
O mundo já iniciou uma nova corrida industrial. A questão não é se o Brasil pode investir mais em sua Base Industrial de Defesa.
A pergunta é outra, quando as grandes potências disputarem influência, mercados e recursos estratégicos, estaremos preparados para defender nossos interesses ou dependeremos da capacidade industrial daqueles que já decidiram acelerar?
*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 (Veterano) do Exército
Brasileiro, Doutor em Ciências Militares e Bacharel em Educação Física
pela Escola de Educação Física
do Exército. Foi comandante do 19º Batalhão de Infantaria Motorizado, comandante do Centro de Capacitação Física do Exército,
comandante da 6ª Brigada de Infantaria Blindada e, atualmente, é consultor de Defesa e Clima na Segura.

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