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19 maio, 2026

Taurus encerra 1T26 no vermelho, mas trimestre é um divisor de águas

Combinação de tarifa de 50%, acordo judicial não recorrente e câmbio desfavorável gerou prejuízo de R$ 36,6 milhões, mas a empresa encerrou o período com carteira de pedidos próxima a US$ 100 milhões, margem bruta superior à de concorrentes americanos e perspectiva de receber US$ 18 milhões em restituições tarifárias ainda no 2T26. 

 

*LRCA Defense Consulting - 19/05/2026

A Taurus Armas S.A. (B3: TASA3; TASA4) registrou prejuízo líquido de R$ 36,6 milhões no primeiro trimestre de 2026 (1T26), revertendo o lucro de R$ 18,6 milhões apurado no mesmo período do ano anterior. O resultado, publicado na última sexta-feira (15), foi debatido nesta segunda-feira (18) em live com analistas e investidores, conduzida pelo canal do analista Marco Saravalle com a presença do CEO global Salesio Nuhs e do CFO Sergio Sgrillo.

O trimestre concentrou uma série de fatores adversos que a gestão classifica como não recorrentes ou já superados: dois meses de incidência da sobretarifa de 50% sobre exportações para os Estados Unidos (vigente até 24 de fevereiro), o reconhecimento integral de um acordo jurídico firmado nos EUA no início de abril, e a valorização do real frente ao dólar, cuja cotação média (PTAX) recuou 10,1% em relação ao 1T25.

"O nosso trimestre foi um trimestre especial, extraordinário", disse Nuhs na live. "Ele limpou os problemas que nós tínhamos com relação às tarifas." O executivo resumiu os 18 meses anteriores como um "kit de maldades" que reuniu ao mesmo tempo restrições regulatórias no Brasil, a sobretarifa americana e o impacto cambial. "O kit de maldades acabou", concluiu.

Receita e margens: resiliência acima dos pares
A receita operacional líquida consolidada alcançou R$ 354,9 milhões no 1T26, crescimento de 1,7% frente ao 1T25, desempenho considerado expressivo dado o ambiente tarifário que vigorou na maior parte do trimestre. O mercado interno avançou 14,8% na mesma comparação, reflexo da aceleração no processamento de documentos para caçadores, colecionadores e atiradores (CACs) com a migração do controle para a Polícia Federal, que neste mês de maio anuncia um novo sistema de gestão.

O lucro bruto somou R$ 100,1 milhões, com margem bruta de 28,2%. O indicador ficou 4,1 pontos percentuais abaixo do 1T25, mas superou os concorrentes americanos: a Ruger registrou margem bruta de 19,9% e a Smith & Wesson (S&W), 26,2% no trimestre encerrado em janeiro de 2026. "A gente mantém a nossa tradição de empresa de capital aberto que tem a maior margem bruta", disse Nuhs, destacando que o desempenho foi alcançado mesmo com o peso das tarifas.

As despesas operacionais somaram R$ 135,5 milhões, alta de 15,4% sobre o 1T25, fortemente influenciadas pelo acordo judicial reconhecido no período. O Ebitda ficou negativo em R$ 20,1 milhões, ante resultado positivo de R$ 7,0 milhões no 1T25. Excluídos os efeitos não recorrentes, a companhia avalia que o 1T26 teria sido "um dos melhores primeiros trimestres dos últimos anos", nas palavras de Nuhs.

Tarifa derrubada e restituição em curso
A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, em 24 de fevereiro de 2026, que declarou ilegal a política tarifária de 50%, abriu caminho para a devolução de aproximadamente US$ 18 milhões pagos pela Taurus ao longo de cerca de oito meses. O release de sexta-feira informava o recebimento de uma primeira parcela de US$ 2,4 milhões, depositada em 13 de maio no caixa da subsidiária americana.

Na live desta segunda, Nuhs e Sgrillo atualizaram o dado: até a sexta-feira anterior (16/5), o total já recebido havia chegado a cerca de US$ 6 milhões, com o governo americano processando os pagamentos em tranches diárias. A expectativa é receber o valor integral até o final de junho, dentro do prazo máximo de 90 dias estabelecido pelas autoridades americanas. "Está sendo processado mais rápido do que a gente esperava", disse Sgrillo.

Há ainda um valor residual de aproximadamente US$ 700 mil a US$ 1.000.000 que a empresa ainda estuda se recupera por via administrativa ou judicial. Quando recebidos, os recursos serão lançados como "outras receitas operacionais", impactando positivamente o Ebitda e o resultado líquido do 2T26. Sgrillo confirmou que os valores entrarão diretamente no caixa da operação americana para abater dívida.

A tarifa atualmente vigente é de 10%, patamar ao qual a Taurus já operou anteriormente. "A partir do segundo trimestre, a gente começa a ter uma vida normal, como a que tinha antes da tarifação", disse o CFO, sinalizando que o 2T26 deve se assemelhar ao 2T25 em termos de condições operacionais, com melhora gradual esperada ao longo do ano.

Produção: pela primeira vez, EUA superam o Brasil
No 1T26, a produção nos Estados Unidos superou pela primeira vez o volume fabricado no Brasil, respondendo por aproximadamente 52% das 157 mil armas produzidas no trimestre. O movimento refletiu a estratégia de internalização adotada durante a vigência da sobretarifa, com a montagem de pistolas e revólveres transferida temporariamente para a planta de Bainbridge, na Geórgia.

Com o fim da tarifa, a empresa já reverteu o movimento. "Revólver a gente já trouxe 100% pro Brasil. A partir de abril, a gente também está produzindo as pistolas da família G no Brasil", informou Nuhs na live. A produção americana passou a se concentrar na família TX e nos produtos Heritage, mantendo a lógica de atender o mercado local com fabricação local. Em janeiro, a unidade brasileira concedeu 15 dias de férias coletivas, o que também contribuiu para reduzir o volume nacional no trimestre.

A flexibilidade de produção entre os dois países é apontada pela gestão como um diferencial competitivo estrutural. O retorno da produção ao Brasil, onde os custos são menores, deve contribuir para a recuperação de margem nos próximos trimestres. "A gente continua tendo os melhores custos no Brasil", afirmou Nuhs.

Portfólio em renovação: TX9, RPC e a aposta no mercado militar
O 1T26 marcou o início da vigência comercial de dois novos produtos estratégicos: a pistola TX9 e a RPC (Raging Pistol Carbine). A TX9 foi lançada globalmente em janeiro de 2026, fabricada nos EUA sob protocolos militares da OTAN, e já foi adotada pioneiramente pela Guarda Municipal de Esteio (RS) entre as forças de segurança brasileiras. A plataforma modular, com quatro tamanhos de pistola e sistema de segurança Tetralock, é posicionada acima de US$ 400 no mercado americano, rompendo com a faixa de entrada de consumo onde a Taurus historicamente concentrava suas vendas.

A RPC, lançada no NRAAM (National Rifle Association Annual Meeting) em Houston no dia 14 de abril, é uma PDW (arma de defesa pessoal) em calibre 9x19mm com ação retardada por roletes, categorizada nos EUA como pistola por ser comercializada sem a coronha. A recepção no mercado americano foi imediata e muito positiva, com o produto figurando entre os mais lidos no American Rifleman, publicação oficial da NRA, e gerando interesse de portais como Guns.com e Rifle Configurator. O preço em torno de US$ 700 a posiciona como a alternativa mais acessível no segmento de ação retardada por roletes, à frente da HK SP5 e da Springfield Armory Kuna.

Nuhs ressaltou na live que o portfólio está sendo racionado. "A gente tinha 240 SKUs de pistola num distribuidor. É humanamente impossível gerenciar isso", disse. A TX9 passa a ser a plataforma central, com versões para os mercados civil, policial, militar e esportivo. Uma versão Competition voltada para IPSC deve ser apresentada no SHOT Show de julho. A TX22, arma mais vendida nos EUA no portfólio Taurus, conta atualmente com carteira de 175 mil unidades, impulsionada pelo custo da munição calibre .22, mais barata em um cenário de inflação elevada nos Estados Unidos.

Índia e mercados internacionais: contratos crescem
A joint venture JD Taurus, na Índia, registrou avanço expressivo no período. Segundo dados consolidados, apenas em 2026 a JD Taurus já ganhou mais de 15 mil armas em licitações: 5.368 pistolas TS9 para as Forças Armadas Policiais Centrais (CAPF) em janeiro e 6.136 unidades para a Força-Tarefa Especial de Uttar Pradesh em março, além de contratos adicionais que completam o total divulgado no release. As vendas civis cresceram mais de 60% em 2025.

"A gente ganhou esse ano 15.000 armas em licitações só na Índia, mas estamos participando de mais de 25.000 em licitações para os próximos meses", informou Nuhs. A receita da JD Taurus não é consolidada nas demonstrações financeiras, sendo reconhecida via equivalência patrimonial. Para os próximos períodos, a empresa prevê o desenvolvimento de fornecedores locais para a TX9 e a expansão do portfólio civil no país.

Nos demais mercados internacionais, as vendas totalizaram 13 mil armas no 1T26, com destaque para Filipinas, África do Sul e Guatemala. A Taurus recebeu no trimestre o Notice to Proceed referente à licitação de 10.402 fuzis, vencida anteriormente, com entregas previstas ao longo de 2026. No Brasil, a empresa venceu licitação da Polícia Militar do Distrito Federal para fornecer mais de 1.800 submetralhadoras calibre 9 mm, no valor aproximado de R$ 12 milhões, aguardando a finalização do processo.

Mertsav: aquisição avança para os 'finalmentes'
Em 2 de abril de 2026, a Taurus divulgou fato relevante sobre proposta não vinculante para aquisição do controle acionário da turca Mertsav Savunma Sistemleri A.Ş., especializada em sistemas de armas de médio calibre, incluindo metralhadoras nos calibres 5,56, 7,62 e .50. Na live, Nuhs informou que a due diligence está "bastante avançada", com a auditoria dos resultados até o 1T26 em fase de conclusão.

"A gente tá indo pros finalmentes na auditoria dos resultados. Acho que até o final do ano a gente tem a decisão tomada, com certeza absoluta", afirmou o CEO. A estratégia é manter a operação na Turquia para exportações internacionais, dado o ambiente regulatório mais favorável do que o brasileiro para produtos de defesa, e trazer a tecnologia para São Leopoldo para atender às Forças Armadas brasileiras.

A Mertsav representa para a Taurus o elo que falta em seu portfólio para cobrir a faixa entre pistolas e calibres maiores. "A Taurus será a única empresa fabricante de armas do mundo que vai ter um portfólio do calibre .22 ao calibre .50", disse Nuhs. O mercado global de armamentos de médio e grande calibre movimentou cerca de US$ 45,8 bilhões em 2025, com projeção de atingir US$ 74 bilhões até 2032, crescimento anual médio superior a 7%.

Como grande novidade, a empresa informa que está desenvolvendo, paralelamente, um portfólio de veículos não tripulados, aéreos e terrestres, que serão equipados com as armas do segmento médio e pesado quando a tecnologia estiver disponível. O drone TAS (Tactical Air Soldier), apresentado no World Defense Show 2026 em Riade, já integra o portfólio Taurus Military Products.

Endividamento recua; alavancagem deve cair no 2T26
A dívida líquida encerrou o 1T26 em R$ 541,1 milhões, redução de 5,4% frente ao encerramento de 2025. Sgrillo destacou que a companhia adotou, nos últimos cinco a seis meses, política ativa de desestocagem nos EUA, liberando cerca de R$ 100 milhões de produto acabado para gerar caixa sem aumentar o endividamento, mesmo em um ano de resultados menores.

O custo médio da dívida é de 7,04% ao ano, considerado competitivo. Parcela relevante dos financiamentos é proveniente de linhas com a Finep e o Plano Brasil Soberano, com custo médio de 5,32% ao ano. "A gente imagina que num período de um ano volta a ter uma alavancagem de duas a duas vezes e meia, que é super sadia", disse o CFO.

Com a entrada dos US$ 18 milhões de restituição tarifária, a dívida líquida deve recuar de forma relevante já no 2T26. Em setembro, a companhia prevê inaugurar o CITE (Centro Integrado de Tecnologia e Engenharia) em São Leopoldo, que concentrará os esforços de pesquisa e desenvolvimento de produtos, aliviando a fábrica das interrupções causadas pelos tryouts de novos modelos.

Perspectivas: 2026 como ano de virada
A gestão da Taurus projeta recuperação substancial dos resultados a partir do 2T26. Os principais vetores apontados são: recebimento dos US$ 18 milhões de restituição tarifária (com impacto direto no Ebitda, resultado líquido e redução de dívida); operação sem sobretarifa de 50% pelo primeiro trimestre completo; carteira de pedidos nos EUA próxima a US$ 100 milhões, com faturamento previsto até junho/julho; retomada da produção no Brasil, com custos menores; e aceleração dos registros de CACs no mercado interno com o novo sistema da Polícia Federal.

O ano eleitoral no Brasil também é apontado como fator positivo para o setor. "2026 é um ano de eleição aqui no Brasil, que traz uma expectativa pro segmento", disse Nuhs. O CEO adicionou que o mercado americano, apesar das dificuldades econômicas (com o custo de combustível elevado sendo citado como preocupação dos funcionários da Taurus USA na Geórgia), segue em trajetória de lenta recuperação, com o Adjusted NICS registrando crescimento pelo terceiro mês consecutivo em abril.

"Olhando o nosso relatório e os resultados, a gente pode parecer que não é a realidade", concluiu Nuhs. "Mas nós estamos muito satisfeitos. Os resultados foram muito bons. Agora 2026 a gente tem boas perspectivas. É um ano menos tumultuado para nós, e a companhia está pronta para essa expansão internacional".

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