*Luiz Alberto Cureau Jr. - 01/06/2026
Vivemos uma época em que a velocidade parece valer mais do que a tradição. Em muitos ambientes, ritos e formalidades são vistos como excessos do passado ou protocolos sem utilidade prática. Poucas visões poderiam estar mais equivocadas.
As grandes instituições da humanidade sempre foram construídas sobre símbolos, valores e ritos. Não por acaso, as organizações mais longevas do mundo, militares, religiosas ou de Estado preservam seus processos cerimoniais. Elas sabem que os ritos não existem para enfeitar. Existem para sustentar.
Na carreira militar isso se torna evidente desde o primeiro dia.
Quando um jovem ingressa em uma escola de formação, não recebe apenas instrução técnica. Inicia uma jornada de transformação. Aprende a prestar continência, a ter uma excelente apresentação individual, a ordem unida, o respeito aos superiores, pares e subordinados. Aprende a ocupar seu lugar dentro de algo maior que ele próprio.
Pouco a pouco, os ritos moldam comportamentos, criam identidade e fortalecem valores. A Guarda do Quartel não é apenas um serviço. A formatura não é apenas uma apresentação de tropas. A troca da guarda, o juramento à Bandeira, as promoções, as passagens de comando, as homenagens aos mortos e a forma correta de se apresentar carregam significados profundos.
Cada rito transmite uma mensagem silenciosa, ensinam disciplina sem discursos e reforçam a hierarquia. Criam espírito de corpo sem que seja preciso explicar diariamente o conceito.
O militar aprende que sua vontade individual tem importância, mas que existe algo acima dela, o coletivo a missão, a unidade e a instituição.
Essa talvez seja a maior contribuição dos ritos. Eles lembram constantemente que ninguém é maior que a organização que representa.
Quando uma passagem de comando ocorre, por exemplo, não estamos apenas trocando pessoas. Estamos demonstrando a continuidade institucional. O comandante passa, a organização permanece. O mesmo ocorre nas promoções. Mais do que premiar um indivíduo, elas reforçam o compromisso com uma trajetória construída ao longo dos anos.
As Forças Armadas compreenderam isso há séculos e devem manter. A disciplina não nasce apenas de regulamentos. Ela nasce da repetição de comportamentos, da preservação de tradições e da valorização de símbolos.
Quando os ritos desaparecem, algo maior começa a se perder. A identidade enfraquece. O pertencimento diminui. A memória institucional se deteriora. E, pouco a pouco, a coletividade dá lugar ao individualismo.
Por isso, preservar os ritos não é resistir ao futuro. É garantir que o futuro continue conectado aos valores que permitiram às instituições chegar até aqui.
Modernizar é necessário. Evoluir é indispensável. Mas nenhuma organização se fortalece abandonando suas raízes.
Os ritos são a linguagem silenciosa que transmite cultura, disciplina, identidade e pertencimento entre gerações.
Talvez seja por isso que as instituições fortes nunca abrem mão deles.
*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 do Exército Brasileiro, Doutor em Ciências Militares e Bacharel em Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército. Foi comandante do Centro de Capacitação Física do Exército, comandante da 6ª Bda Infantaria Blindada e, atualmente, é consultor de Defesa e Clima na Segura.

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