Acordo firmado no Farnborough Airshow prevê o lançamento paletizado de mísseis de cruzeiro a partir da aeronave brasileira, ampliando o C-390 para além do transporte tático e tranformando-o em uma plataforma de projeção de poder
*LRCA Defense Consulting - 21/07/2026
A Embraer e a Anduril, empresa americana de tecnologia de defesa, assinaram nesta terça-feira, 21 de julho de 2026, um memorando de entendimento (MoU) durante o Farnborough International Airshow, no Reino Unido. O acordo estabelece a intenção conjunta de integrar o míssil de cruzeiro Barracuda-500M (B-500M), lançado a partir de paletes, ao C-390 Millennium, aeronave de transporte tático multimissão fabricada pela companhia brasileira.
Segundo comunicado das duas empresas, o objetivo é expandir o alcance operacional do C-390, permitindo que a aeronave gere efeitos ofensivos de longo alcance sem abrir mão de suas capacidades essenciais de mobilidade aérea. Na prática, isso significa transformar um avião de carga em plataforma capaz de lançar, em massa, munições de precisão, usando sistemas de missão roll-on/roll-off e procedimentos convencionais de entrega aérea, que dispensam modificações estruturais permanentes na aeronave.
O que é o
Barracuda-500M
O Barracuda-500M
integra a família Barracuda, de veículos aéreos autônomos (Autonomous
Air Vehicles, ou AAV) da Anduril, apresentada em setembro de 2024 e
composta pelas variantes -100, -250 e -500, nomeadas conforme a classe de peso
em libras. A versão M, com ogiva explosiva, corresponde ao míssil de cruzeiro
propriamente dito. Em setembro de 2025, a Força Aérea dos Estados Unidos
atribuiu ao Barracuda-500M a designação oficial AGM-189A.
De acordo com dados públicos, o Barracuda-500M tem alcance superior a 500 milhas náuticas (cerca de 926 quilômetros) e velocidade entre 190 e 500 nós (aproximadamente 350 a 926 km/h), a depender do tipo e do peso da carga útil. A propulsão é feita por uma turbina única de pequeno porte. O custo unitário estimado gira em torno de US$ 200 mil a US$ 216 mil, valor que a Anduril apresenta como uma fração do preço de mísseis de cruzeiro tradicionais, como o Tomahawk ou o JASSM-ER.
A Anduril já realizou dezenas de testes de voo do B-500M lançado por palete desde o primeiro ensaio bem-sucedido, em setembro de 2024, incluindo voos com autonomia colaborativa em rede e validação de engajamento em terminais. O sistema é também candidato ao programa Enterprise Test Vehicle (ETV) e ao Franklin Affordable Mass Missile (FAMM) da Força Aérea americana.
Contexto:
produção em escala e parcerias industriais
O memorando com a
Embraer se soma a um conjunto de iniciativas recentes da Anduril voltadas à
produção em massa da família Barracuda. Em maio de 2026, a empresa firmou
acordo com o Departamento de Guerra dos Estados Unidos para fornecer ao
Exército americano um mínimo de 3.000 mísseis Barracuda-500M lançados de
superfície (SLB-500M), com entregas a partir de 2027 e meta de produção de mil
unidades por ano. Mais recentemente, a Anduril também anunciou uma parceria com
a estatal polonesa PGZ para produção local de componentes da família Barracuda.
Essa lógica de escala é central ao projeto da Anduril: segundo a empresa, as variantes -100, -250 e -500 compartilham mais de 90% dos componentes, o que permite fabricá-las nas mesmas linhas de produção, com os mesmos técnicos, sem necessidade de estruturas fabris separadas para cada porte de míssil.
Declarações
Bosco Da Costa
Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, classificou a
colaboração como mais um passo na evolução do C-390 Millennium, afirmando que a
exploração de capacidades de lançamento à distância, para efeitos paletizados,
cinéticos e não cinéticos, amplia a flexibilidade da aeronave diante das
necessidades das forças aéreas modernas.
Greg Kausner, vice-presidente sênior de Defesa Global da Anduril, disse que a integração do Barracuda-500M ao C-390 oferece às forças armadas aliadas uma nova forma de gerar efeitos massivos e de longo alcance a partir de uma plataforma de transporte aéreo já consolidada, e destacou a proposta da família Barracuda de produção rápida como resposta à demanda crescente por munições acessíveis e escaláveis.
O C-390 e o
cenário do Farnborough Airshow
O C-390
Millennium é hoje operado ou encomendado por doze países: Brasil, Portugal,
Hungria, Coreia do Sul, Países Baixos, Áustria, República Checa, Uzbequistão,
Suécia, Emirados Árabes Unidos, Eslováquia e Lituânia. A aeronave, com
capacidade de carga de 26 toneladas e velocidade de cruzeiro de 470 nós, também
é usada em missões de evacuação médica, busca e salvamento, combate a
incêndios, reabastecimento em voo e transporte humanitário.
O anúncio ocorre em meio à participação robusta da Embraer no Farnborough International Airshow 2026, que reúne, entre os dias 20 e 24 de julho, o E195-E2 e o KC-390 Millennium na exposição estática, além de um modelo em tamanho real do eVTOL da Eve Air Mobility, subsidiária da fabricante brasileira. No primeiro semestre de 2026, a Embraer entregou 109 aeronaves, cerca de 20% a mais que no mesmo período do ano anterior.
Por que isso
importa: C-390 como plataforma de projeção de poder
Se avançar para
um contrato firme, a integração do Barracuda-500M ao C-390 posicionaria a
aeronave brasileira como plataforma de projeção de poder, e não apenas de
mobilidade tática, aproximando-a de um conceito já em discussão em outras
forças aéreas: o de transportes militares convertidos em lançadores de munições
em massa a baixo custo. Para a base industrial de defesa do País, o episódio
reforça ainda a tendência de que sistemas de armamento de precisão e baixo
custo, como os da família Barracuda, tornem-se um vetor relevante nas
discussões sobre saturação e emprego de massa, tema já presente em análises
sobre a guerra na Ucrânia.
O memorando, por ora, estabelece apenas a intenção de buscar conjuntamente a integração técnica, sem detalhar cronograma, valores ou eventuais contratos de fornecimento.

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