MTC Bloco II amplia a capacidade planejada para o sistema ASTROS-FOGOS, mas ainda não há indicação pública de início do desenvolvimento ou definição do alcance
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| Imagem meramente ilustrativa renderizada por IA |
*LRCA Defense Consulting - 02/09/2026
O Exército Brasileiro prevê uma evolução do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), atualmente em fase avançada de certificação, para uma futura versão denominada MTC Bloco II. A proposta contempla maior alcance, novas cabeças de guerra e a incorporação de guiamento terminal, ampliando o espectro de alvos que o sistema poderá enfrentar.
A previsão integra a atualização das diretrizes do Programa Estratégico ASTROS-FOGOS e confirma que a evolução do MTC não se limita ao aumento da distância de emprego. O objetivo é acrescentar capacidades que permitam maior flexibilidade operacional, inclusive diante de alvos móveis.
O MTC-300 atualmente em certificação tem alcance declarado de até 300 quilômetros. Em 26 de agosto de 2026, a Avibras Aeroco e o Exército Brasileiro realizaram com sucesso novo ensaio de tiro no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), na Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro. Segundo a empresa, os objetivos previstos para aquela etapa foram integralmente alcançados.
Uma evolução que já estava prevista
A concepção do MTC Bloco II, entretanto, não surgiu apenas com a atualização de 2026. Documentos de planejamento da Defesa já previam uma evolução do sistema em razão de novas necessidades operacionais, especialmente para a defesa do litoral e o emprego contra alvos móveis. Entre os requisitos apontados estavam justamente o guiamento terminal, novas cabeças de guerra e alcance superior ao MTC então existente.
O Plano Estratégico do Exército também já havia associado o Bloco II à necessidade de desenvolver um Míssil Tático de Cruzeiro com guiamento terminal contra alvos móveis. Isso mostra que a nova diretriz representa a continuidade de uma linha de planejamento, e não a criação repentina de um novo projeto.
Mais do que simplesmente aumentar o alcance
A principal mudança qualitativa do Bloco II poderá estar no guiamento terminal. O MTC-300 foi concebido para ataques de precisão contra alvos previamente definidos, enquanto a capacidade de buscar ou discriminar o alvo na fase final do voo abre a possibilidade de emprego contra alvos móveis, incluindo, em determinados cenários, meios navais em movimento.
Essa característica tem relevância especial para a defesa do litoral. Estudos produzidos no âmbito do próprio Exército já apontaram que um míssil de cruzeiro destinado a engajar vetores navais em manobra necessita de uma solução de guiamento terminal, complementar aos sistemas de navegação inercial e por satélite.
O alcance do Bloco II ainda não foi definido publicamente
Embora o planejamento estabeleça que o Bloco II deverá superar os 300 quilômetros associados ao MTC-300, não há, nas informações públicas consultadas, um número oficial para o alcance da futura versão.
Estimativas muito superiores, frequentemente atribuídas ao futuro míssil em discussões públicas, não devem ser confundidas com requisitos oficialmente divulgados ou capacidades demonstradas. Até o momento, a referência segura é a de que o Bloco II deverá ter alcance superior ao atual, sem especificação pública de quantos quilômetros serão alcançados.
Projeto ainda não equivale a desenvolvimento iniciado
Outro ponto importante é a diferença entre uma capacidade prevista no planejamento estratégico e um projeto efetivamente em desenvolvimento. A documentação disponível indica que o Bloco II permanece no campo da evolução planejada. Não há evidência pública suficiente para afirmar que uma campanha de desenvolvimento já tenha sido iniciada.
Essa distinção é particularmente relevante porque o MTC-300 e o MTC Bloco II encontram-se em situações diferentes. Enquanto o primeiro vem passando por ensaios destinados à certificação, o segundo continua associado a uma capacidade futura, cujos requisitos e soluções tecnológicas ainda podem sofrer alterações.
A questão da propulsão permanece em aberto
Também não há definição pública consolidada sobre a turbina que equipará o Bloco II. Referências anteriores do setor associaram diferentes soluções de propulsão à evolução da família MTC, mas os documentos públicos mais recentes consultados não permitem afirmar que o TF-1200, o TJ-1000B ou qualquer outro modelo tenha sido oficialmente selecionado para a futura versão.
A ausência de uma definição pública, portanto, não significa que determinadas alternativas tenham sido descartadas. Significa apenas que não há informação oficial suficiente para atribuir ao Bloco II uma configuração de propulsão específica.
O novo contexto do ASTROS-FOGOS
A evolução do MTC ocorre em um momento de reorganização do portfólio estratégico do Exército. Em março de 2026, a Força estruturou o ASTROS-FOGOS como um de seus programas prioritários, concentrando sob uma mesma arquitetura iniciativas relacionadas à artilharia, mísseis e foguetes e defesa antiaérea.
Nesse contexto, o MTC Bloco II passa a integrar uma visão mais ampla de capacidades de fogos de longo alcance. O desenvolvimento de munições mais precisas, com maior alcance e capacidade de enfrentar diferentes tipos de alvos, é coerente com a busca do Exército por maior capacidade de dissuasão e projeção de efeitos sem a necessidade de empregar meios aéreos tripulados.
MTC-300 avança enquanto o Bloco II permanece no horizonte
O contraste entre os dois projetos é importante. O ensaio realizado em 26 de agosto reforçou o avanço do MTC-300 no processo de certificação. A atividade reuniu equipes do Exército e da Avibras Aeroco e contou ainda com representantes do Escritório de Projetos do Exército, da Diretoria de Fabricação, do Instituto Militar de Engenharia e do Centro Tecnológico do Exército.
Já o Bloco II representa uma etapa posterior. Sua importância está menos em uma capacidade já disponível e mais na direção tecnológica que o Exército pretende seguir: maior alcance, novas opções de carga militar e capacidade de guiamento terminal. Caso o projeto avance para a fase de desenvolvimento, essas características poderão transformar o MTC em uma arma significativamente mais versátil do que a versão atualmente em certificação.
O que deve ser observado
Os próximos documentos de planejamento e eventuais decisões de contratação serão importantes para verificar se o MTC Bloco II deixará o estágio de previsão e passará a uma fase formal de desenvolvimento. Também será relevante acompanhar eventual definição dos requisitos de alcance, do sistema de guiamento terminal, das cabeças de guerra e da propulsão.
Por enquanto, o quadro que emerge da documentação pública é claro: o Brasil trabalha para consolidar o MTC-300 de até 300 quilômetros e, paralelamente, mantém planejada uma evolução capaz de ampliar substancialmente suas possibilidades de emprego. O Bloco II, porém, ainda deve ser tratado como uma capacidade futura, e não como um míssil já em desenvolvimento ou com características técnicas definitivamente estabelecidas.

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