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06 outubro, 2026

Atech, da Embraer, mira nova onda global de modernização do tráfego aéreo com plataforma ATFM modular

Solução apresentada em Montreal chega enquanto a ICAO prepara novas regras que deverão tornar o gerenciamento de fluxo uma necessidade operacional para Estados e provedores de navegação aérea a partir de 2030



*LRCA Defense Consulting - 06/10/2026

A Atech, empresa de tecnologia do Grupo Embraer, apresentou na ICAO Air Navigation World 2026, em Montreal, uma nova plataforma modular de Gestão de Fluxo de Tráfego Aéreo (ATFM, na sigla em inglês), movimento que vai além do lançamento de mais um produto em um segmento no qual a companhia brasileira atua há décadas. A solução chega em um momento no qual a Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO) prepara uma mudança relevante nas regras globais de navegação aérea, com novas disposições de ATFM previstas para se tornarem aplicáveis em novembro de 2030.

A plataforma foi concebida para permitir que provedores de serviços de navegação aérea (ANSPs) implantem capacidades de ATFM de maneira incremental, conforme a maturidade operacional, as necessidades locais e a disponibilidade de investimentos. Segundo a Atech, a arquitetura é modular, escalável e admite diferentes formas de implantação.

Na prática, o sistema procura equilibrar a demanda de voos com a capacidade disponível de aeroportos e setores do espaço aéreo. Para isso, oferece funções de planejamento estratégico, pré-tático e tático, permitindo antecipar congestionamentos e ajustar fluxos em função de condições meteorológicas, restrições operacionais ou alterações na demanda.

O momento escolhido pela Atech 
A escolha da ICAO Air Navigation World para apresentar a plataforma é particularmente significativa. A edição de 2026 do evento, realizada de 5 a 9 de outubro na sede da ICAO, é dedicada ao ATFM e à preparação do setor para as novas disposições internacionais previstas para 2030.

Documentos da ICAO indicam uma mudança de patamar regulatório. O ATFM deverá deixar de ser tratado como uma medida condicional para assumir a condição de serviço de apoio ao tráfego aéreo que os Estados deverão estabelecer para o espaço aéreo controlado e aeródromos designados, individualmente ou em cooperação com outros países.

As novas disposições abrangem, entre outros pontos, unidades responsáveis pelo gerenciamento de fluxo, determinação e declaração formal da capacidade do controle de tráfego aéreo, coordenação entre unidades ATFM e operações estruturadas nas fases estratégica, pré-tática, tática e pós-operação. Também está prevista uma integração progressiva com conceitos como FF-ICE, voltado ao intercâmbio colaborativo de informações de voo e fluxo, e SWIM, destinado ao compartilhamento de informações em todo o sistema.

Para os países que ainda não possuem estruturas avançadas de ATFM, a transição exigirá planejamento regulatório, organização, sistemas, processos para determinação de capacidade, procedimentos operacionais, treinamento e coordenação entre os diferentes participantes da aviação. É justamente nesse universo que a modularidade apresentada pela Atech pode adquirir importância comercial.

Novidade está na evolução da oferta 
O lançamento, entretanto, deve ser colocado em perspectiva. A Gestão de Fluxo de Tráfego Aéreo não é uma nova área de atuação da Atech, e algumas das capacidades apresentadas em Montreal já faziam parte de soluções anteriores da companhia.

No Brasil, a empresa acumula mais de três décadas de experiência em sistemas utilizados na gestão do espaço aéreo. No mercado internacional, desenvolveu o SKYFLOW, solução ATFM que já foi levada à Índia. Em 2020, a Atech apresentou o SKYFLOW Cloud, concebido para reduzir infraestrutura, custos de manutenção e prazos de implantação, ampliando a possibilidade de adoção da tecnologia por outros países.

Também não são inéditas, isoladamente, as funções de planejamento estratégico, pré-tático e tático ou o conceito de modularidade. A mudança relevante está na forma como a Atech passa a reunir e oferecer essas capacidades em uma plataforma ATFM de nova geração, com implantação progressiva e escalabilidade direcionadas a ANSPs que se encontram em diferentes níveis de maturidade.

Esse modelo pode reduzir a barreira de entrada para países que precisam implantar ou modernizar o gerenciamento de fluxo, mas não dispõem, de início, de recursos ou necessidade operacional para adotar uma arquitetura completa. A própria Atech aponta América Latina, África e Ásia como mercados em crescimento nos quais essa característica pode ser particularmente relevante.

África do Sul funciona como referência internacional 
A estratégia encontra respaldo em um contrato internacional recente. Em 2025, a Atech foi selecionada pela Air Traffic and Navigation Services (ATNS), estatal responsável pelos serviços de navegação aérea da África do Sul, para modernizar o sistema de ATFM do país.

O projeto inclui recursos de gerenciamento de slots aeroportuários, monitoramento operacional por painéis em tempo real, indicadores para análise pós-operação e coordenação de medidas ATFM entre regiões de informação de voo. O escopo também contempla sistema integrado de planos de voo, gerenciamento e coordenação do uso flexível do espaço aéreo e funções relacionadas ao tráfego de aeronaves não tripuladas. A conclusão está prevista para 2027.

Em setembro, o LRCA Defense Consulting revelou ainda que o contrato sul-africano abriu uma nova frente para a Atech em Gestão da Informação Aeronáutica (AIM). O CEO Rodrigo Persico confirmou ao portal que o desenvolvimento faz parte do pacote contratado pela ATNS e permitiu à companhia avançar em uma capacidade AIM de ponta.

Embora ATFM e AIM desempenhem funções diferentes, a aproximação entre gerenciamento de fluxo, planos de voo, dados aeronáuticos e ferramentas de decisão mostra a ampliação gradual do portfólio digital da empresa.

Uma arquitetura que vem sendo ampliada 
Outros movimentos recentes ajudam a compreender a direção adotada pela Atech. No Airspace World 2026, realizado em maio, em Lisboa, a companhia apresentou a SingleATM Platform e o IFPFMS (Integrated Flight Plan and Flow Management System).

A SingleATM utiliza arquitetura aberta baseada em serviços e microsserviços para hospedar sistemas críticos ATM e UTM, buscando aumentar interoperabilidade, resiliência e segurança cibernética e reduzir custos de integração e manutenção. Já o IFPFMS reúne validação de planos de voo, autorizações de informação aeronáutica e apoio às decisões de ATFM, estando alinhado ao FF-ICE/R1.

Em outra frente, a Atech e a Unidade Embrapii do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC/USP) desenvolvem algoritmos de inteligência artificial destinados a prever trajetórias de aeronaves em quatro dimensões, considerando latitude, longitude, altitude e tempo. O projeto prevê aplicação futura dessa capacidade ao gerenciamento de tráfego aéreo.

Não há, até o momento, confirmação pública de que a inteligência artificial desenvolvida com o ICMC/USP já esteja incorporada à plataforma apresentada em Montreal. A iniciativa, contudo, indica uma das possíveis direções tecnológicas para a evolução do ecossistema ATFM da companhia.

Eficiência também significa menos combustível 
O gerenciamento de fluxo não tem impacto apenas na capacidade do espaço aéreo. Ao antecipar situações em que a demanda ultrapassará a capacidade disponível, os sistemas ATFM permitem que parte dos ajustes seja realizada antes da decolagem ou durante o planejamento da operação, reduzindo a necessidade de aeronaves permanecerem em esperas próximas ao destino.

Menos tempo em espera representa menor consumo de combustível, redução de emissões de dióxido de carbono e menor custo para as empresas aéreas, além de contribuir para diminuir atrasos. Essa combinação de capacidade, eficiência e sustentabilidade explica por que o ATFM ocupa posição crescente na modernização mundial do gerenciamento de tráfego aéreo.

Mercado internacional tende a crescer 
A mudança regulatória preparada pela ICAO cria uma janela importante para fornecedores capazes de oferecer soluções adaptáveis a realidades nacionais muito diferentes. Os Estados deverão elaborar planos nacionais ou regionais de implementação e desenvolver estruturas técnicas e operacionais compatíveis com as novas exigências.

Nesse cenário, a Atech chega a Montreal com uma vantagem acumulada: pode apresentar experiência operacional no complexo espaço aéreo brasileiro, referências internacionais e uma arquitetura concebida para crescer por etapas.

Mais do que inaugurar a presença da empresa no ATFM, portanto, o lançamento representa uma tentativa de reposicionar e ampliar comercialmente uma competência desenvolvida ao longo de décadas. Se a implementação das novas disposições da ICAO avançar no cronograma previsto, o desafio para a Atech será converter essa experiência em novos contratos justamente entre os países que precisarão construir ou modernizar suas estruturas de gerenciamento de fluxo até o final da década.

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