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25 outubro, 2026

SHAMAL envia carga útil à Índia para missão ShakthiSAT e avança em estratégia espacial privada

Quatro módulos SmartINS, desenvolvidos pela SHAMAL AEROSPACE & DEFENSE e parceiros, começam a ser integrados ao CubeSat indiano em 26 de outubro; lançamento deve ficar para o primeiro trimestre de 2027



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LRCA Defense Consulting - 25/10/2026 - 07h26

A carga útil brasileira do projeto CAFE (CubeSat for Avionics and Flight Experimentation) chegou à Índia. Segundo o CEO da SHAMAL AEROSPACE & DEFENSE, Gilberto Damasceno Jr., os equipamentos foram recebidos em 22 de outubro em Chennai, capital do estado de Tamil Nadu, e a integração ao satélite da missão ShakthiSAT deve começar na segunda-feira, 26. Os quatro módulos experimentais de navegação inercial SmartINS foram despachados por serviço de courier entre 16 e 17 de outubro e passaram pelas aduanas brasileira e indiana em menos de uma semana. O principal entrave foi burocrático: para emitir a nota fiscal de exportação, foi necessário alterar o CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas) no contrato social de uma das empresas do grupo, em Minas Gerais, processo que consumiu cerca de três semanas.

A carga útil resulta da colaboração entre a SHAMAL AEROSPACE & DEFENSE, a 3AD Dynamics, a Curie Edge Research Alliance e a USIPED USat, no âmbito do SHAMAL HUB. A missão é conduzida pela SKI STAR Foundation, ligada à Space Kidz India, organização sediada em Chennai e dirigida por Srimathy Kesan, e integra uma iniciativa voltada à formação de cerca de 12 mil meninas de 108 países em tecnologia espacial. O ShakthiSAT, um CubeSat que chegou a ser ampliado para 12U com a adesão de novos parceiros, está atualmente configurado com 8U; a carga brasileira ocupa uma unidade. O satélite reunirá experimentos de participantes do Brasil, Estados Unidos, Austrália, Egito, Índia, Portugal, Letônia e Filipinas.

Pelo planejamento original, a carga útil deveria ter seguido para a Índia em agosto com Elisângela de Macêdo Brito, CEO da Curie Edge. Ela permaneceu no país de 21 a 30 de agosto, com viagem custeada pessoalmente por Damasceno e hospedagem paga pela organização da missão, e ajudou a integrar as cargas úteis de outros países. O projeto brasileiro, porém, só foi concluído em meados de setembro.


Lançamento adiado para 2027 
O lançamento estava marcado para 11 de outubro, no SSLV (Small Satellite Launch Vehicle) da ISRO, a agência espacial indiana, mas não ocorreu porque o foguete não estava pronto. A data passou para novembro e, agora, deverá ficar para o primeiro trimestre de 2027. Segundo Damasceno, o adiamento acompanha a estratégia da ISRO de realizar o voo a partir do novo complexo de lançamento de Kulasekarapattinam, também em Tamil Nadu, destinado a missões comerciais com o SSLV. O cronograma é compatível com o anunciado pelo governo indiano, que prevê para 2027 o primeiro lançamento do SSLV a partir da nova base. A organizadora tenta ainda uma carona em lançamento russo, possibilidade que, segundo Damasceno, depende de gestões políticas na Índia e não foi confirmada. Em órbita, a missão deverá durar dois anos, a cerca de 550 quilômetros de altitude.

O que será testado em órbita 
A carga útil reúne quatro sistemas inerciais experimentais derivados do SmartINS, produto da 3AD Dynamics, com variações de configuração. O SmartINS utiliza fusão de dados de sensores com algoritmos de inteligência artificial, combinando giroscópio MEMS, acelerômetro, magnetômetro, barômetro e termômetro. A proposta é avaliar, em condições orbitais, a resistência e o funcionamento de componentes comerciais de prateleira (COTS, de commercial off-the-shelf), livres das restrições do regulamento norte-americano ITAR (International Traffic in Arms Regulations) e originalmente destinados a aplicações como drones e robótica.

A primeira verificação será se cada módulo resistiu ao lançamento e à chegada à órbita operacional. Em seguida, os responsáveis procurarão determinar se os sistemas continuam processando e transmitindo informações e por quanto tempo, de minutos a meses. Segundo a SHAMAL, embora tenham sido incorporadas soluções para ampliar a sobrevivência, os componentes não foram concebidos para suportar exposição prolongada ao vácuo, a variações térmicas intensas e à radiação ionizante. Os dados obtidos deverão orientar o aperfeiçoamento de sistemas de navegação para drones, robótica e outras aplicações civis e de defesa.


A contribuição do CubeLab
Damasceno esclareceu ao LRCA que o CubeLab não embarcará como laboratório funcional. O projeto CAFE aproveita subsistemas de seu desenho, de autoria da 3AD Dynamics, para acomodar os quatro SmartINS e integrá-los física e eletronicamente aos sistemas de alimentação e comunicação do satélite. A partir desse projeto, a USIPED USat fabricou as peças de alumínio usinado que recobrem componentes específicos das placas e fazem sua blindagem eletromagnética. A Ju Lab prestou suporte ao diagnóstico durante os testes da carga útil em laboratório.  

Uma estratégia de produtos e clientes 
Para a SHAMAL, a experiência orbital tem finalidade tecnológica e comercial. A empresa pretende obter dados de voo para aperfeiçoar o SmartINS e fortalecer sua oferta a clientes nacionais e internacionais. O desenvolvimento do produto começou em fevereiro de 2026, com foco em dimensões reduzidas, custo competitivo, menor prazo de fornecimento e aplicações avançadas em drones e robótica. O convite ocorreu em abril. Segundo Damasceno, a organização indiana buscava uma carga útil de cada continente e ofereceu à SHAMAL o espaço de uma unidade no satélite; a empresa, única representante da América Latina na missão, cedeu sem custo os quatro módulos. Não houve, portanto, venda, e a SHAMAL tampouco paga pelo lançamento. A participação, segundo a empresa, é custeada com recursos próprios, sem aportes de fundos de investimento públicos ou privados.

Para dimensionar o valor do espaço cedido, Damasceno lembra que colocar em órbita um satélite de 1U em lançamento compartilhado pode custar US$ 50 mil ou mais, com a integração contratada e paga cerca de seis meses antes.

A SHAMAL apresenta como objetivo alcançar o nível máximo de prontidão tecnológica, o TRL 9 (Technology Readiness Level), e reivindica o pioneirismo de ser a primeira empresa privada brasileira a ceder carga útil a uma organização privada estrangeira. Ambas são afirmações da empresa. A alegação de primazia requer verificação histórica independente, e o TRL 9 não decorre automaticamente do lançamento ou da sobrevivência em órbita: sua atribuição depende da demonstração do sistema em condições operacionais pertinentes e da comprovação dos requisitos aplicáveis.


ELOSat: novo projeto com o Chile 
Entre as novidades comunicadas por Damasceno está o início de um projeto conjunto entre a SHAMAL e a Curie Edge, no Brasil, e a Spacely, no Chile, para desenvolver o picossatélite ELOSat. A proposta é oferecer conectividade para a Internet das Coisas (IoT, de Internet of Things) e, futuramente, constituir uma constelação comercial de nove a dez picossatélites, inicialmente voltada ao mercado chileno, com possibilidade de expansão ao Brasil e a outras regiões. O projeto está em fase inicial, sem lançamento ou implantação comercial confirmados.

A iniciativa sucede o LEPTONSat, picossatélite experimental de conectividade IoT desenvolvido entre março e agosto de 2025. Segundo a empresa, o equipamento passou por teste funcional e validação ambiental parcial durante um voo de aproximadamente quatro horas acima de 20 quilômetros de altitude, realizado no interior de São Paulo em novembro daquele ano. Esse ensaio de grande altitude não deve ser confundido com uma missão orbital.

Outras frentes de desenvolvimento 
Segundo a SHAMAL, a empresa e parceiros do SHAMAL HUB iniciaram trabalhos em sensores IoT sem bateria (XSens), colares para rastreamento de animais de criação (Gamaltrack), laboratório de experimentos em microgravidade (CubeLab) e revestimentos voltados à absorção de sinais de radar (WaveFade) e de pulsos laser de alta potência (LEAR). Não foram divulgados resultados de validação, cronogramas de comercialização ou contratos para essas soluções.

O SHAMAL HUB, que reúne empresas com capacidade de produção e de solução de problemas tecnológicos, procura investidores privados, brasileiros e estrangeiros, interessados em acesso à propriedade intelectual e a direitos relacionados às tecnologias em desenvolvimento. A diversidade dos projetos indica uma estratégia de expansão, cujos resultados ainda dependerão de investimentos, testes e validações. 


Próximas etapas 

Com a carga útil já em Chennai, a próxima etapa é a integração física e eletrônica ao ShakthiSAT, prevista para começar em 26 de outubro. O lançamento deve ocorrer no primeiro trimestre de 2027, ainda sem data definida. Somente após o voo e a análise dos dados será possível avaliar a contribuição efetiva do experimento para a maturidade tecnológica do SmartINS. A chegada à Índia, porém, já marca uma etapa concreta da participação brasileira na missão internacional.

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