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13 maio, 2026

De 2023 à guerra de hoje: o recado do Exército ao mercado de defesa

Post do COTER sobre o UGV THeMIS chega quando a Força acaba de aprovar política que coloca sistemas não tripulados no centro de sua transformação

UGV THeMIS integrado ao sistema de armas de controle remoto REMAX 4
 

*LRCA Defense Consulting - 13/05/2026

O Comando de Operações Terrestres (COTER) publicou nas redes sociais, nesta semana, imagens sobre a demonstração do veículo terrestre não tripulado THeMIS, realizada em abril de 2023 no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), na Marambaia (RJ). O evento, promovido pela Milrem Robotics e pelo EDGE Group, apresentou o veículo integrado ao sistema de armas de controle remoto REMAX 4, de tecnologia nacional.

Veículos Terrestres Não Tripulados (UGVs), ou "drones terrestres", são robôs operados remotamente ou autônomos que atuam em solo, essenciais em cenários perigosos. Amplamente usados em 2025 e 2026 para logística, desminagem e evacuação, especialmente na Ucrânia, eles oferecem baixo perfil e riscos reduzidos aos soldados. Podem integrar drones aéreos presos (tethered) para inteligência 360°. 

À primeira vista, a publicaçãodo COTER poderia parecer apenas um registro histórico ou um exercício de ufanismo institucional, do tipo “o Exército viu antes de todo mundo”. Mas o contexto em que o post aparece sugere algo mais calculado.

Da prospecção à política formal
Em 9 de abril de 2026, menos de cinco semanas antes da publicação do COTER, o general Tomás Paiva assinou a Portaria nº 2.662, que aprova a Política de Transformação do Exército Brasileiro (EB10-P-01.031). O documento representa a mais profunda reformulação doutrinária da Força Terrestre nas últimas quatro décadas, segundo analistas especializados.

Entre os pilares centrais da nova política está, precisamente, a “integração de sistemas não tripulados (drones) em diversos escalões”, com emprego previsto em plataformas aéreas, terrestres e marítimas. O documento determina ainda a incorporação acelerada de tecnologias emergentes, o fortalecimento da Base Industrial de Defesa nacional e a atualização doutrinária para operações multidomínio, os mesmos três eixos que o COTER destacou ao descrever a demonstração de 2023.

Em outras palavras: o que em 2023 era prospecção tecnológica virou, em 2026, orientação estratégica formal.

O intervalo entre a demonstração e o post
O THeMIS já era conhecido do Exército desde pelo menos a LAAD 2023, feira de defesa realizada no Rio de Janeiro em abril daquele ano, quando a Milrem Robotics o apresentou pela primeira vez na América Latina. A demonstração no CAEx ocorreu dias depois, com a presença do general Alexandre Martins Castilho, então chefe do Centro Tecnológico do Exército (CTEx). O evento foi noticiado na época por portais especializados como o Tecnodefesa.

O THeMIS é um veículo de lagartas com motorização híbrida diesel/elétrica, peso de 1.650 kg e capacidade de carga de até 1.200 kg. Sua arquitetura modular permite configurações para transporte logístico, evacuação de feridos, reconhecimento, desativação de explosivos e apoio de fogo remoto. O sistema está em uso em 16 países, incluindo oito membros da OTAN.

Entre 2023 e agora, o interesse do Exército pelos sistemas não tripulados terrestres não ficou estacionado. Em dezembro de 2025, a Diretoria de Fabricação abriu consultas públicas para identificar fornecedores de drones de ataque, tanto os do tipo kamikaze (Sistemas de Munições Remotamente Pilotadas, ou SMRP) quanto os reutilizáveis com capacidade de lançar munições (SARP). O movimento, noticiado no fim do ano passado, ocorreu em paralelo a uma solicitação semelhante da Comissão do Exército Brasileiro em Washington.

Recentemente, surgiram informes de que conhecidas empresas brasileiras de defesa já estão se movimentando para desenvolver modelos de UGVs, inclusive armados, o que pode significar que perceberam a nova tendêcia das Forças Armadas e estão se agilizando, ou receberam um input delas para tanto.

 

Por que publicar agora
A publicação do COTER tem uma leitura institucional bastante clara: ao resgatar a demonstração de 2023, a Força sinaliza continuidade e coerência. Mostra que a nova política de transformação não surgiu do nada, mas é o desdobramento de um processo de prospecção que vinha sendo conduzido há pelo menos dois anos. É, em resumo, a narrativa do “não nos pegaram de surpresa”.

O contexto geopolítico reforça a urgência do recado. A guerra na Ucrânia tornou os sistemas não tripulados terrestres parte incontornável do debate militar mundial. O próprio documento da Política de Transformação cita a “proliferação de sensores, sistemas não tripulados e fogos de precisão” como uma das lições fundamentais dos conflitos recentes, e aponta que o Exército não estará preparado para esse cenário se não acelerar a transformação.

Há também uma dimensão de Base Industrial de Defesa. Ao destacar a integração do THeMIS com o REMAX 4, sistema de armas nacional, o Exército sinaliza ao mercado que a demanda por tecnologia estrangeira passa necessariamente por parcerias com a indústria brasileira. Não por acaso, a nova política estabelece que os investimentos em modernização devem beneficiar empresas nacionais.

R$ 400 bilhões e o desafio do financiamento
A nova política estima que serão necessários R$ 400 bilhões até 2040 para viabilizar a modernização completa da Força Terrestre. As primeiras mudanças já estão sendo incorporadas ao Plano Estratégico do Exército 2024-2027, com consolidação prevista para o ciclo 2028-2031. Analistas, porém, alertam que, sem financiamento adequado, parte das transformações pode avançar mais devagar do que o planejado.

O que o post do COTER faz, nesse quadro, é simples mas eficaz: ancora no passado recente uma transformação que começa agora. O THeMIS visto em 2023 no Campo de Provas da Marambaia pode nunca ser comprado pelo Exército Brasileiro, mas o fato de ele ter sido avaliado serve, hoje, como prova de que a instituição estava atenta quando o futuro ainda era tendência.

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