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02 maio, 2026

O Gripen sobrevoa Lisboa: como a Suécia corteja Portugal numa das maiores decisões de defesa da sua história recente

De Linköping a Alverca, passando por Brasília e Lisboa, uma teia de interesses industriais, geopolíticos e tecnológicos está sendo tecida em torno de uma única questão: que caça irá substituir os F-16 da Força Aérea Portuguesa?

Imagem meramente ilustrativa
 

*LRCA Defense Consulting - 02/05/2026

Céu azul sobre Linköping. Na cidade que é considerada o berço da Força Aérea sueca, o Gripen-E sobe a pique, mergulha, regressa, manobra com uma agilidade quase irritante para quem olha de baixo. A demonstração, realizada no final de abril para a imprensa portuguesa no aeroporto local, foi calculada. A Saab sabe que Portugal está ouvindo e quer que Portugal veja.

Dois anos depois de a Suécia ter aderido à NATO, e num contexto de aumento dos gastos em Defesa, a sueca Saab quer voar mais alto e estar à altura de outros fornecedores de caças que ambicionam fechar negócio com Portugal para a substituição da esquadra dos F-16, como os Estados Unidos da América, com os F-35, ou o consórcio europeu que inclui a Airbus e os seus Eurofighters.

A questão não é nova, mas ganhou uma urgência inesperada. Durante décadas, a Força Aérea Portuguesa sonhou com o F-35. Em 2019, a sua liderança reiterou publicamente esse desejo. O avião de quinta geração, com a sua furtividade característica e sensores integrados de última geração, era o horizonte natural para substituir os 28 F-16AM e BM que compõem a frota atual, aeronaves que se aproximam velozmente do fim da vida útil.

Mas o mundo mudou.

A virada de março de 2025
Em março de 2025, o ministro da Defesa, Nuno Melo, anunciou o cancelamento da aquisição dos F-35, citando preocupações com custos, imprevisibilidade das relações com Washington e a necessidade de privilegiar alternativas europeias. A mudança de posição ocorreu num contexto de tensões crescentes entre a Europa e os EUA, com o governo Trump a pressionar aliados através de tarifas comerciais e a tornar os parceiros europeus menos confortáveis com uma dependência excessiva de equipamento militar americano.

Foi neste vácuo que a Saab entrou com passo firme, argumentos preparados e uma proposta que vai muito além da venda de um avião.

O argumento técnico central da empresa sueca não é a furtividade, pois admite que o Gripen perde nesse parâmetro face ao F-35. O que contesta é a relevância crescente dessa característica no campo de batalha moderno. Executivos e engenheiros da empresa argumentam que os avanços tecnológicos em aviônica tornaram a furtividade menos decisiva do que era. A eficácia de uma aeronave, segundo esta visão, mede-se cada vez menos pela velocidade ou agilidade e cada vez mais pela capacidade de usar poder computacional para superar o adversário.

No centro desta filosofia está a arquitetura de software do Gripen E, aquilo que a própria Saab compara a um iPhone: um dispositivo cujo hardware permanece estável enquanto o software evolui continuamente. O sistema DIMA (Distributed Integrated Modular Avionics) permite que todos os componentes da aeronave funcionem como um único sistema integrado, com interfaces de software abertas que tornam possível introduzir novas funcionalidades de forma ágil, sem necessidade de reverificar o sistema inteiro.

Inteligência artificial a bordo
Se há um argumento da Saab que captura a imaginação e a atenção dos analistas militares, é o da inteligência artificial integrada em combate real.

Em junho de 2025, a Saab e a empresa alemã de IA Helsing anunciaram a conclusão bem-sucedida dos primeiros três voos integrando o agente de inteligência artificial "Centaur" num Gripen E real, sobre o Mar Báltico. Nestes voos, o agente assumiu o controlo de manobras de combate além do alcance visual, sugerindo disparos de mísseis contra um Gripen de treino adversário e evitando trajetórias desfavoráveis, enquanto o piloto humano permanecia a bordo como comandante final.

O que impressionou os analistas não foi apenas a capacidade técnica da IA, mas a velocidade de integração: o trabalho pré-voo do agente Centaur começou apenas seis meses antes dos primeiros testes, com o sistema inicialmente treinado em simuladores do Gripen. Isto só foi possível graças à arquitetura aberta do avião, que separa o software crítico de voo do software tático, permitindo inserir o agente de IA sem tocar nos sistemas de segurança.

Não é ficção científica. É o argumento mais concreto que a Saab tem para dizer que o Gripen não é um caça do passado, mas sim uma plataforma em permanente evolução.

A isto soma-se uma parceria tecnológica com a Critical Software, empresa portuguesa de Coimbra. A Saab está a alargar as suas parcerias com entidades portuguesas através da assinatura de vários memorandos de entendimento, nomeadamente com a Critical Software, com quem está a desenvolver um programa baseado em Inteligência Artificial que permite o treino de pilotos destes caças através de uma espécie de "jogo virtual".

O trunfo industrial: a OGMA e a Embraer
Mas a proposta da Saab a Portugal vai muito além da tecnologia. O argumento mais sedutor e mais politicamente relevante é o industrial.

A Saab não propõe apenas a venda destes caças a Portugal, mas quer inserir o país na cadeia de produção, numa lógica de cooperação mútua. Daniel Boestad, vice-presidente e diretor da área de negócio Gripen, deixou claro que existe "potencial" para uma parte do processo de montagem de componentes e estrutura destes caças poder ser feita em Portugal, nomeadamente na OGMA, localizada em Alverca.

O responsável acrescentou ainda que existe a possibilidade de ir mais além, admitindo a montagem final em território português, ou operações de manutenção e reparação, hipótese que depende dos contornos de um eventual negócio para a aquisição de caças pelo Estado português.

No centro desta equação está um nome inesperado para quem não conhece a história recente da aviação lusófona: a Embraer.

A fabricante brasileira controla 65% do capital da OGMA desde 2005. A empresa de Alverca tornou-se, ao longo de duas décadas, uma referência europeia em manutenção, reparação e revisão aeronáutica, e é precisamente esse histórico que a posiciona hoje como um elo estratégico entre a Suécia e Portugal.

Este não é um pé-na-porta diplomático. É uma relação industrial já testada e consolidada. A Embraer e a Saab trabalham como parceiras desde 2014, quando o governo brasileiro assinou o contrato para fornecer à Força Aérea Brasileira 36 aeronaves Gripen, que incluíam não apenas a aeronave, mas também apoio logístico, sistemas de apoio, simuladores, treinamento e desenvolvimento. Por meio de um memorando de entendimento assinado em 2023, ambas as empresas reafirmaram a sua colaboração.

Os sinais diplomáticos desta aproximação vinham já de 2024. Em julho desse ano, a OGMA recebeu a visita da Embaixadora da Suécia em Portugal, Elisabeth Eklund, acompanhada por Rickard Strandberg, Encarregado de Assuntos Políticos da Embaixada. Os visitantes foram recebidos pelo CEO da OGMA, Paulo Monginho, e visitaram as instalações da empresa, nomeadamente as áreas de manutenção de aeronaves e motores e aeroestruturas.

Sede da OGMA

O modelo brasileiro: uma referência para Portugal
O programa Gripen no Brasil tornou-se a referência que a Saab mais gosta de citar quando fala com Lisboa. E com razão: os números são impressionantes.

Um dos pilares centrais do programa foi o compromisso da Saab em oferecer acesso irrestrito aos códigos-fonte do caça, algo que os concorrentes Boeing F/A-18 Super Hornet e Dassault Rafale não conseguiram igualar de forma tão abrangente. Este ponto ganhou especial relevância quando, em 2025, tornou-se público que a francesa Dassault rejeitou firmemente o pedido da Índia de acesso aos códigos-fonte dos 62 caças Rafale que adquiriu, citando a importância estratégica e a sensibilidade dos códigos à segurança.

Para Portugal, a lição é clara: escolher um caça é também escolher o grau de autonomia tecnológica que o país terá nas próximas décadas.

O programa de transferência de tecnologia (ToT) associado ao Gripen no Brasil é descrito como o maior da história da Suécia e o mais extenso em curso naquele país. Ele envolve mais de 600 mil horas de treinamento e 62 projetos, abrangendo áreas como sistemas de comunicação, integração de armamentos, ensaios em voo, aviônicos, aerodinâmica e produção de componentes estruturais.

A linha de produção do Gripen E em Gavião Peixoto (SP), inaugurada em 2023, é a única fora da Suécia. Das 36 aeronaves contratadas, 15 estão sendo produzidas no Brasil, com a primeira já em fase de montagem final.

A proposta da Saab para Portugal vai além da aeronave em si, enfatizando benefícios industriais e econômicos que poderiam repercutir em Lisboa. A empresa tem um histórico de oferecer transferência de tecnologia e acordos de produção local, como demonstrado em seu acordo de 5,4 mil milhões de dólares com o Brasil em 2014, que incluiu a instalação de uma linha de produção do Gripen E em Gavião Peixoto.

Setembro de 2025: os acordos de Lisboa
Em setembro de 2025, durante uma visita a Lisboa do ministro da Defesa sueco, a diplomacia industrial deu um salto qualitativo.

A Saab assinou dois acordos com as empresas OGMA e Critical Software. Com a OGMA, controlada maioritariamente pela Embraer, a colaboração volta-se principalmente para áreas de produção, manutenção, reparação e revisão de aeronaves militares. No caso da Critical Software, os projetos articulados concentram-se em software para aviação e sistemas críticos de missão.

Daniel Boestad, vice-presidente de Desenvolvimento de Negócios Gripen na Saab, foi claro: "A OGMA e a Critical são excelentes parceiros independentemente do que aconteça." Os acordos não estão condicionados à compra dos Gripen por Portugal; são, segundo a empresa, uma resposta ao aumento global de procura que a Saab enfrenta.

Em dezembro do mesmo ano, foi a vez de um novo acordo com o AED Cluster Portugal, a associação que reúne mais de 160 entidades do setor aeronáutico, espacial e de defesa nacional.

"Portugal tem de estar no ciclo produtivo"
Do lado português, o ministro da Defesa Nuno Melo tem sido explícito quanto às condições que Portugal impõe a qualquer aquisição de caças: o retorno industrial é inegociável.

"Temos de produzir mais na Europa e comprar mais na Europa. As opções têm de ser as europeias e Portugal tem de estar no ciclo produtivo. Não quer dizer que esteja de A a Z, mas na produção de componentes ou manutenção", declarou o ministro.

O ministro acrescentou: "Cerca de 80% das aquisições da UE vêm de fora da UE, portanto há uma margem brutal. E têm de ser nossas também."

O ministro deu ainda o exemplo do KC-390, o avião de transporte da Embraer que Portugal opera e em cujas vendas tem participação financeira direta: "Cada KC que é vendido significam 10 milhões que entram nos cofres do Estado."

A ideia para o Gripen pode passar por um modelo de negócio semelhante ao que a Saab já desenvolve com a Força Aérea brasileira: através da Embraer, parte do caça Gripen é produzido no Brasil. Este modelo é semelhante ao que une Portugal e a Embraer na produção das aeronaves KC-390, que a cada venda gera lucro para o Estado português.

Imagem meramente ilustrativa

Portugal já está dentro do Gripen
Há um dado que a Saab gosta de sublinhar e que poucos conhecem: Portugal já participa, ainda que de forma limitada, na cadeia de produção do Gripen.

Daniel Boestad adiantou que Portugal "já é parte da construção do Gripen", através do fornecimento de material, mencionando empresas como a Vangest (localizada na Marinha Grande), a metalúrgica Ristaltek, ou a Thyssenkrupp em território português.

Para o vice-presidente da Saab, "Portugal é muito interessante e tem muito potencial. Não tem a maior indústria de Defesa, mas a que tem é brilhante."

As sombras no horizonte
A proposta sueca não é isenta de fragilidades, e seria desonesto ignorá-las.

Uma das principais é a dependência do Gripen E de componentes fabricados nos EUA, em particular o motor F414G da GE Aviation, que exige licenças de exportação e suporte de manutenção de empresas americanas, o que complica a narrativa de "autonomia total" face a Washington.

Para atenuar esse problema, a Saab enfatizou a arquitetura aberta do jato, que permite aos clientes desenvolver o seu próprio software e integrar sistemas não americanos. Para Portugal, essa flexibilidade poderia permitir a colaboração com empresas de defesa europeias, reduzindo a dependência das cadeias de suprimentos americanas ao longo do tempo.

Do lado português, o processo foi também perturbado por instabilidade política interna: em 2025, o primeiro-ministro Luís Montenegro apresentou a demissão na sequência de uma moção de censura, e as eleições subsequentes foram fator de atraso nas decisões estratégicas de defesa. A concorrência inclui ainda o Eurofighter Typhoon e o Dassault Rafale.

Portugal ainda não deu início ao processo formal de substituição dos F-16, de acordo com o ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, que afirmou que a escolha terá por base critérios técnicos, sem manifestar preferência. O general João Cartaxo Alves, agora Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), nunca escondeu a sua preferência por um caça de quinta geração, ou seja, os americanos F-35, quando ainda liderava a Força Aérea.

O Gripen como aposta estratégica
O que se passa hoje em Portugal é sintomático de uma transformação mais ampla. A Europa questiona a dependência de sistemas de armas americanos. Os conflitos em curso, sobretudo na Ucrânia e no Oriente Médio, onde a capacidade de atualização rápida de software e a guerra eletrônica provaram ser tão decisivas quanto o hardware, mudaram os termos do debate estratégico.

O custo é outro elemento central. Comparado aos seus concorrentes, o Gripen E/F oferece vantagens distintas para uma nação como Portugal. O F-35A, embora incomparável em furtividade e fusão de sensores, tem um custo unitário superior a 80 milhões de dólares e despesas anuais de manutenção que podem sobrecarregar orçamentos menores de defesa.

Sem detalhar valores, o responsável da Saab estimou que a aquisição deste tipo de programa, totalizando todo o seu ciclo de vida, ronda "um terço" do custo comparativamente às empresas concorrentes no mercado.

Há ainda uma lógica de complementaridade operacional que a Saab não cansa de sublinhar: o Gripen E pode ser reabastecido em voo, e Portugal está a preparar-se para adquirir os kits de reabastecimento para os seus KC-390 da Embraer. A combinação das duas aeronaves, utilizadas tanto pela Suécia como pelo Brasil, é apresentada pela Saab como o exemplo perfeito de uma parceria de sucesso que Portugal poderia replicar.

Uma decisão que vai além dos aviões
A Saab afirma estar "pronta para apoiar Portugal na aquisição da futura plataforma para a Força Aérea Portuguesa" e apresenta o Gripen E como "uma solução verdadeiramente europeia, combinando velocidade de inovação, adaptabilidade e eficiência de custos". Se Portugal escolher o Gripen, não comprará apenas um avião. Comprará um modelo de soberania industrial, um acesso à cadeia de valor global de um programa aeronáutico em expansão e, através da OGMA e da Embraer, uma posição singular na encruzilhada entre a Europa e o Brasil num dos setores de maior valor tecnológico do século XXI.

A decisão final pertence a Lisboa. Mas o debate técnico, estratégico, industrial e geopolítico já está em pleno andamento. E Johan Segertoft, o vice-presidente da Saab que desembarcou em Lisboa para dizer que o Gripen é "o caça mais avançado do mundo", voltou para Estocolmo com a certeza de que Portugal está, de fato, a ouvir.

O que vai fazer com o que ouviu é outra história. Essa ainda se escreve... 

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