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30 maio, 2026

Mac Jee e MBDA formalizam cooperação em tecnologias avançadas de defesa e propulsão

Acordo de intenções marca novo patamar no relacionamento entre a empresa brasileira de São José dos Campos e o maior grupo europeu de mísseis; visita técnica em 28 de abril consolidou intercâmbios industriais iniciados no Paris Air Show de 2023


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LRCA Defense Consulting - 30/05/2026

A Mac Jee anunciou, em 29 de maio de 2026, a assinatura de um Memorando de Entendimento (MoU) com o Grupo MBDA, maior fabricante europeu de mísseis. O instrumento formaliza o diálogo estratégico em curso entre as duas empresas e abre caminho para a exploração de oportunidades de cooperação em atividades avançadas de defesa e propulsão.

A assinatura foi precedida por uma visita técnica realizada em 28 de abril de 2026, quando representantes da MBDA estiveram nas instalações da Mac Jee para intercâmbios sobre processos industriais, capacidades produtivas, engenharia e perspectivas de desenvolvimento. O encontro deu continuidade a um relacionamento que já vinha sendo construído há pelo menos três anos: em junho de 2023, durante o 54º Paris Air Show, a Mac Jee anunciou a intensificação das trocas estratégicas com a MBDA, mencionando reuniões anteriores no Brasil e uma visita às linhas de produção em Paraibuna (SP). Àquela ocasião, a própria empresa descreveu a cooperação como um horizonte capaz de unir sua expertise em munições aéreas à liderança mundial do grupo europeu em mísseis e sistemas de mísseis.

Quem é a Mac Jee
Fundada em 2007, com sede em São José dos Campos e fábricas também em Paraibuna (SP), a Mac Jee iniciou suas atividades na distribuição de componentes militares importados, como conectores especiais, eletrônica embarcada e monitores. Com capital 100% nacional, o grupo se expandiu ao longo dos anos até se constituir em um conglomerado formado pelas empresas Mac Jee Defesa, Mac Jee Tecnologia e Equipaer, com escritório comercial em Paris.

O portfólio atual é amplo: munições aéreas das séries MK e BLU, o kit de guiagem de precisão Dagger, o sistema lançador de foguetes Armadillo, espoletas eletrônicas HiRel, o drone suicida Anshar e linhas de produção de materiais energéticos como TNT, RDX, HMX e propelentes sólidos compósitos para foguetes. A empresa também detém a propriedade intelectual dos mísseis MAR-1 (antirradiação) e MAA-1B (ar-ar de curto alcance), adquirida em novembro de 2025 da extinta Mectron em parceria com a Força Aérea Brasileira (FAB). O MAR-1 havia sido exportado ao Paquistão e integrado a caças Mirage ROSE e ao JF-17; o MAA-1B foi lançado por caças F-5M em testes operacionais.

Em paralelo, a Mac Jee é parceira da FAB no programa hipersônico PROPHIPER 14-X, para o qual desenvolve o foguete acelerador RATO-14X, em colaboração com o Instituto de Estudos Avançados (IEAv), o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). O lançamento está previsto para o final de 2027, no Centro Espacial de Alcântara. A empresa acumula ainda um contrato internacional de cerca de US$ 60 milhões para fornecimento de munições de tecnologia avançada, firmado em julho de 2025, além da implantação da primeira fábrica própria de explosivos militares da Arábia Saudita, em parceria com a Saudi Chemical Company, com capacidade inicial de 2 mil toneladas de TNT e 120 toneladas de RDX.

A CEO da empresa é Alessandra Stefani; o presidente do Conselho de Administração é Simon Jeannot, fundador do grupo, que deixou a gestão executiva para concentrar-se em decisões estratégicas e na expansão global.

Quem é a MBDA
A MBDA é o maior grupo europeu de mísseis e sistemas de mísseis, de propriedade conjunta da Airbus (37,5%), da BAE Systems (37,5%) e da Leonardo (25%). É o único grupo de defesa europeu capaz de projetar e produzir mísseis correspondentes a toda a gama de necessidades operacionais das forças terrestre, naval e aérea. Seu portfólio inclui sistemas como o Meteor (míssil ar-ar de médio alcance com propulsão ramjet e alcance de até 200 km), o SCALP-EG/Storm Shadow (míssil de cruzeiro), o Exocet (antinavio), a família Aster (defesa aérea de alta performance), o Mistral (defesa aérea de curto alcance), o MICA e o CAMM/CAMM-ER (defesa aérea multimissão e lançamento vertical), o Brimstone (ar-superfície) e o ASRAAM, entre outros.

Em 2025, a MBDA reportou receita de € 5,8 bilhões e carteira de pedidos de € 44 bilhões. Para 2026, projeta ampliar a produção total em 40%, com destaque para a duplicação da produção dos mísseis Aster. O plano de investimentos para o período 2026–2030 foi dobrado em relação ao ciclo anterior, chegando a € 5 bilhões em solo europeu, e a empresa prevê contratar 2.800 novos funcionários só em 2026. O crescimento reflete a demanda europeia e internacional por sistemas de defesa aérea diante dos conflitos no Leste Europeu e no Oriente Médio.

No Brasil, o histórico da MBDA é extenso e cobre as três Forças. A Marinha opera mísseis Mistral, três versões do Exocet e os sistemas de defesa aérea Sea Ceptor para as fragatas classe Tamandaré. Em maio de 2022, a empresa firmou MoU com a XMobots para integrar o míssil Enforcer a um drone nacional. Seu vice-presidente para a América Latina, Patrick de La Revelière, sinalizou à época o compromisso com parcerias de longo prazo com a indústria brasileira, citando projetos anteriores de transferência de tecnologia bem-sucedidos no país.

A relação mais densa da MBDA com a indústria nacional, porém, foi construída com a Avibras ao longo de mais de uma década. Na LAAD 2013, a Avibras apresentou um conceito antiaéreo baseado no míssil MICA VL da MBDA, associado ao caça Rafale, então concorrente do programa FX-2 da FAB. Com a não seleção do Rafale, o foco da parceria migrou para o CAMM (Common Anti-Air Modular Missile). Em novembro de 2014, as duas empresas apresentaram ao Exército Brasileiro, em Brasília, um conceito conjunto de defesa antiaérea de média altitude denominado AV-MMA (Míssil Modular Antiaéreo), baseado no CAMM e projetado para aproveitar as plataformas e a logística do Sistema ASTROS 2020, com cerca de 70% de conteúdo nacional.

O projeto AV-MMA não chegou a ser contratado, e o colapso financeiro da Avibras em 2022 interrompeu o ciclo no momento em que o Exército acelerava a obtenção de um sistema antiaéreo de média altitude. Em dezembro de 2025, por meio da Portaria EME/C Ex nº 1.086, o Exército formalizou a escolha do sistema EMADS (Enhanced Modular Air Defence Solutions) da MBDA, adquirido via acordo Governo a Governo (G2G) com a Itália, com previsão de investimento de até R$ 5 bilhões. A configuração prevista inclui quatro viaturas radar Kronos Land (Leonardo) e seis viaturas lançadoras de oito mísseis cada, compostas pelo CAMM-ER (versão de alcance estendido, superior a 45 km), o mesmo míssil que equipa as fragatas Tamandaré, o que assegura interoperabilidade logística entre o Exército e a Marinha.

A Avibras Aeroco, reestruturada em 2026 com aporte de R$ 300 milhões do grupo J&F, mantém ativo em seu portfólio um sistema de defesa antiaérea de média altitude com parceiro não identificado nominalmente, mas que a linguagem do site corporativo descreve como projeto em andamento, não concluído. Analistas do setor identificam a MBDA como o interlocutor natural dessa continuidade, dado o histórico documentado da parceria desde 2013. O ministro da Defesa sinalizou que a aquisição do EMADS poderá abrir caminho para a fabricação de mísseis no Brasil mediante transferência de tecnologia, o que tornaria a Avibras Aeroco uma candidata relevante para sediar essa produção, considerando que nenhuma outra empresa nacional acumula experiência equivalente em integração de sistemas de mísseis superfície-ar nessa faixa de altitude. 

Essa perspectiva adiciona uma nova camada de significado ao MoU Mac Jee–MBDA: além das complementaridades em propulsão e materiais energéticos, o grupo europeu aprofunda sua presença na Base Industrial de Defesa brasileira por múltiplos vetores simultâneos.

 

Áreas de interesse comum
O MoU não especifica projetos concretos, mas o histórico de ambas as empresas sugere sobreposições relevantes em pelo menos quatro domínios.

- Materiais energéticos e propulsão sólida
A Mac Jee domina a produção de materiais energéticos como TNT, RDX, HMX e propelentes sólidos compósitos, tecnologias que sustentam o funcionamento de praticamente qualquer sistema de mísseis. A MBDA, em fase de aceleração de produção, tem demanda crescente por esses insumos. O conhecimento da Mac Jee em propulsão sólida para foguetes, evidenciado pelo RATO-14X, é diretamente aplicável a programas de mísseis táticos e de defesa aérea.

- Munições aéreas e integração de ogivas
A Mac Jee apresentou no AUSA Global Force Symposium 2026, em Huntsville, Alabama, suas competências em materiais energéticos, integração de ogivas e tecnologias de grande calibre. Essas capacidades são complementares ao portfólio de sistemas de mísseis da MBDA, que necessita de fornecedores qualificados para componentes de ogivas e cargas de guerra.

- Propulsão hipersônica
A parceria da Mac Jee com o IEAv no projeto 14-X coloca a empresa no segmento hipersônico, exatamente onde a MBDA também investe por meio do projeto HYDIS (Hypersonic Defence Interceptor System), desenvolvido no âmbito do Fundo Europeu de Defesa. O intercâmbio técnico em propulsão avançada é um ponto natural de convergência.

- Sistemas de defesa aérea e contra-drones
A Mac Jee desenvolve capacidades multicamada envolvendo foguetes de 70 mm guiados, como demonstrado no MoU com a MSI Defense Solutions para integração do Armadillo ao sistema EAGLS, voltado ao combate a drones. A MBDA, por sua vez, opera o sistema Sky Warden de defesa contra UAS e o VL MICA NG para defesa aérea de curto alcance. Essa sobreposição de interesses em defesas multicamada e contramedidas a drones representa um eixo promissor.

 

Contexto estratégico
O MoU Mac Jee–MBDA se insere em um momento de reconfiguração acelerada da indústria de defesa global. A demanda por sistemas de mísseis e munições precisas cresceu de forma expressiva desde 2022, levando os principais fabricantes europeus a buscar parcerias com fornecedores de materiais energéticos e componentes de propulsão em países com bases industriais confiáveis, como o Brasil.

Para a Mac Jee, o acordo consolida a estratégia de posicionamento como parceira industrial de referência para grandes primes internacionais, uma trajetória que já inclui MoUs com a MSI Defense Solutions e projetos com a FAB e o DCTA. Para a MBDA, representa a formalização de um interesse que vem sendo cultivado desde, pelo menos, o Paris Air Show de 2023, quando as duas empresas expuseram publicamente a intensidade do diálogo em curso.

O relacionamento com o Brasil é parte de uma política deliberada da MBDA de aprofundar parcerias com a indústria nacional, conforme declarado pelo vice-presidente da empresa para a América Latina, Patrick de La Revelière, em 2022, quando afirmou que a empresa buscava criar tecnologias de primeira classe para as Forças Armadas Brasileiras por meio da cooperação industrial.

O MoU não estabelece compromissos de fornecimento ou transferência de tecnologia, mas assinala que as duas empresas identificaram suficiente complementaridade de capacidades para formalizar um quadro de exploração conjunta. Nos próximos meses, o conteúdo real da parceria deverá se revelar nos projetos concretos que emergirão desse diálogo.


MAC JEE & MBDA: PARCERIA EM NÚMEROS

Mac Jee — sede

São José dos Campos (SP)

Mac Jee — contrato internacional (2025)

US$ 60 milhões (munições avançadas)

MBDA — receita (2025)

€ 5,8 bilhões

MBDA — carteira de pedidos

€ 44 bilhões

MBDA — plano de investimento 2026–2030

€ 5 bilhões (solo europeu)

MBDA — crescimento de produção previsto (2026)

+40% (mísseis Aster: +100%)

Histórico do relacionamento Mac Jee–MBDA

Trocas estratégicas desde o Paris Air Show 2023; visita técnica a Paraibuna (2023); MoU assinado em 2026

Visita técnica da MBDA à Mac Jee

28 de abril de 2026


O Brasil e o drone de duplo uso: o que a lição polonesa revela para a indústria nacional de defesa

Imagem representativa de um drone tipo Shahed-136 voando sobre São José dos Campos, cidade mais estratégica do Brasil para a indústria de defesa

*LRCA Defense Consulting - 25/05/2026

A guerra na Ucrânia consolidou o Shahed-136 como o símbolo mais perturbador da nova era bélica: um drone de asa delta com 3,50 metros de comprimento, 2,50 metros de envergadura e cerca de 200 kg de peso total, propulsionado por um motor a pistão de quatro cilindros derivado de componentes civis de aeromodelismo, com velocidade de cruzeiro de 185 km/h e alcance superior a 2.000 quilômetros. Seu custo de produção, estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil por unidade, permite que dezenas deles sejam disparados simultaneamente, potencialmente sobrecarregando defesas aéreas que dependem de mísseis superfície-ar caros, criando uma assimetria financeira estrutural entre atacantes e defensores.

Na Europa Central, nas fronteiras da guerra, a resposta polonesa ao problema não foi apenas defensiva. De acordo com análises abertas sobre o programa PLargonia, a Polônia desenvolveu um drone do tipo Shahed projetado para ser, simultaneamente, alvo de treinamento realista e arma de ataque unidirecional de baixo custo. Os americanos também aprenderam a lição: o Comando Central dos EUA anunciou a formação da Força-Tarefa Scorpion Strike e o debut operacional do LUCAS (Low-cost Unmanned Combat Attack System), munições de uso único projetadas para voo autônomo e implantação em massa, a um custo de aproximadamente US$ 35 mil por unidade, fração ínfima dos US$ 30 milhões de um MQ-9 Reaper.

A pergunta que se coloca é direta: o Brasil poderia, e deveria, percorrer caminho semelhante?

O que o Brasil já tem
O ponto de partida é mais sólido do que se imagina. O país dispõe de um ecossistema aeroespacial único no hemisfério sul, construído ao longo de décadas a partir da Embraer, do ITA e do DCTA. Em outubro de 2025, empresas como Mac Jee e Aero.ID demonstraram o drone lançador de munições MQ-18 Arqus no Arsenal de Guerra do Rio para representantes do Exército, enquanto Stella Tecnologia, Hyperlift, AEL, XMobots, SIATT e Modirum/Gespi participaram de workshops militares anteriores, indicando um ecossistema robusto e inovador. O setor registrou exportações de US$ 3,1 bilhões em 2025, aumento de 74% em relação ao ano anterior.

A Stella Tecnologia, agora parceira estratégica do Grupo Thales, tornou-se referência técnica ao desenvolver o Atobá, considerado o maior drone já produzido na América Latina, com capacidade de voo de 35 horas e envergadura 40% maior que a do israelense Hermes 900. Em janeiro de 2026, o Albatroz Vortex completou com sucesso seu primeiro voo de teste na Base Aérea de Santa Cruz equipado com uma turbina a jato também desenvolvida no país, pela AERO Concepts, tornando o Brasil membro de um grupo seleto de nações com essa capacidade.

A XMobots, por sua vez, apresentou na LAAD Security Milipol Brazil 2026 uma versão armada do Nauru 100D configurada como UCAV, com capacidade de retornar à base após a missão, diferencial ainda pouco explorado por fabricantes sul-americanos. A empresa também revelou o conceito Swarm, com lançamento simultâneo de até 30 aeronaves a partir de um contêiner de 20 pés e capacidade produtiva declarada de 360 unidades por mês.

No plano institucional, o Exército Brasileiro lançou em dezembro de 2025 uma Requisição de Informações (RFI) para aquisição de drones de ataque das categorias 0 e 1, buscando soberania tecnológica em sistemas de vigilância, inteligência e ataque preciso. A Marinha inaugurou o primeiro esquadrão de drones militares do país no mesmo período e avança, em 2026, com a criação de uma escola para formação de fuzileiros no uso dessas aeronaves.

O conceito SACI-722
Para ilustrar como um drone nacional desse tipo poderia se materializar, é possível esboçar um conceito hipotético batizado de SACI-722, sigla de "Sistema Autônomo de Combate e Interdição", com o nome "SACI" se referindo a uma figura mitológica brasileira e o número "722" remetendo à data da independência do Brasil, ambos de fácil pronúncia e memorização. A denominação já comunica o posicionamento estratégico do sistema: não um simples clone do Shahed-136, mas uma plataforma de concepção nacional que absorve a lógica de projeto do original iraniano e incorpora o aprendizado acumulado tanto na Ucrânia quanto no recente conflito entre EUA e Irã.

As especificações hipotéticas replicam a faixa de tamanho e massa que representa o equilíbrio ótimo entre carga útil transportável, alcance e custo de fabricação. A propulsão seria por motor a pistão de dois tempos, solução mais simples e barata do que a turbina a jato e compatível com a capacidade industrial atual do polo aeroespacial de São José dos Campos. O alcance de 1.500 km seria bem acima do necessário para qualquer cenário operacional no contexto sul-americano, e a navegação combinaria sistema inercial (INS) com GNSS, com guiagem autônoma por missão pré-programada. A assinatura radar reduzida completaria o perfil, dificultando a detecção e aumentando a taxa de penetração em cenários de saturação de defesas. 

SACI-722 — ESPECIFICAÇÕES HIPOTÉTICAS

Comprimento

3,50 m

Envergadura

2,50 m

Peso máximo

200 kg

Carga explosiva

40–50 kg

Propulsão

Motor a pistão, 2 tempos

Alcance

1.500+ km

Navegação

INS / GNSS

Guiagem

Autônoma (missão pré-programada)

Lançamento

Plataforma móvel (caminhão / reboque)

Operação

Autônoma ou em enxame

Missões

Ataque de precisão, interdição de área, alvo de treinamento

O perfil de missões abrangeria três funções: ataque de precisão contra alvos estratégicos, interdição de área (operações militares destinadas a desviar, desorganizar, retardar ou destruir o potencial militar e as linhas de suprimento do inimigo antes que ele possa utilizá-las efetivamente contra forças amigas) e, de forma igualmente relevante, alvo de treinamento para os sistemas de defesa aérea das próprias Forças Armadas. Essa última função é exatamente o que a Polônia reconheceu com o PLargonia: um drone que ensina os defensores hoje pode ameaçar um adversário amanhã. O mesmo airframe serviria a ambos os propósitos, ampliando o mercado interno e justificando o investimento em linha de produção.

O conceito não é ficção científica. Cada um de seus subsistemas já tem correspondência em projetos reais em andamento no Brasil: o airframe de asa delta encontra paralelo, embora limitado, nas experiências da Stella Tecnologia, da Mac Jee e da XMobots; a propulsão a pistão é menos exigente do que a turbina já testada pela AERO Concepts, portanto factível em prazo mais curto; e a navegação INS/GNSS é dominada por institutos de pesquisa e empresas privadas há mais de uma década. O que falta não é tecnologia, é integração deliberada sob um programa estruturante.

Drone conceitual hipotético SACI-722 (Sistema Autônomo de Combate e Interdição)

Vantagens para a indústria de defesa
Um programa nacional desse tipo geraria efeitos em toda a cadeia produtiva: estruturas aeronáuticas em compósitos e alumínio, propulsão, eletrônica embarcada, navegação inercial, ogivas e sistemas de lançamento. Empresas como XMobots, Stella, SIATT, Mac Jee, AERO Concepts, 
AEL Sistemas, FT Sistemas, Advanced Technologies, SkyDrones, Speedbird Aero, Moya Aero e outras já orbitam esse ecossistema e poderiam se beneficiar de um programa estruturante, à semelhança do que o Super Tucano representou para o segmento de aeronaves de ataque leve.

A nova fase da Avibras Aeroco, com domínio de tecnologias críticas de propulsão e integração de sistemas complexos, a posiciona como ativo estratégico para esse tipo de programa, desde que superados os graves problemas financeiros que a empresa ainda enfrenta. A reestruturação poderia ser acelerada com a perspectiva de contratos de série nesse segmento. 

O modelo de produção descentralizada, em pequenas fábricas, seria compatível com a estrutura industrial brasileira, que conta com dezenas de fabricantes de pequeno porte em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul com capacidade ociosa em usinagem de precisão, eletrônica e compósitos.

Vantagens para o país
Do ponto de vista estratégico nacional, as vantagens são múltiplas. A primeira é a soberania tecnológica: o Brasil busca ativamente VANTs de combate isentos de restrições ITAR, as regulações norte-americanas que limitam a transferência de tecnologia bélica. Um drone nacional não teria essas restrições por definição e poderia ser exportado para países da América Latina, África e Oriente Médio sem depender de autorizações de terceiros.

A segunda é a defesa do território. Com 17 mil quilômetros de fronteiras terrestres e 8,5 mil km de litoral, o Brasil enfrenta desafios estruturais de monitoramento e defesa, principalmente da Amazônia Legal e da Amazônia Azul. É importante distinguir, porém, os nichos de cada plataforma: o Atobá e sistemas similares são drones reutilizáveis de longa permanência, projetados para missões ISR de vigilância persistente, com autonomia de até 35 horas e capacidade de pousar e retornar ao serviço. O "SACI-722", como qualquer drone do tipo Shahed, é descartável por natureza: nos exercícios de defesa aérea é deliberadamente abatido pelos sistemas em treinamento; em combate, destrói-se no impacto com o alvo. Trata-se, portanto, de nichos complementares e não concorrentes. O SACI-722 preencheria uma lacuna que o Atobá não foi concebido para preencher: a de munição de emprego único para ataque e para exercícios realistas de interceptação, categorias hoje inexistentes no arsenal brasileiro.

A terceira é a assimetria de custo como dissuação. O Shahed demonstrou que mesmo potências militares de primeira linha enfrentam dificuldades diante de enxames de drones baratos: cada míssil Patriot usado para derrubá-los custa US$ 4 milhões, contra US$ 20 mil a 50 mil do drone atacante. Para o Brasil, essa capacidade funcionaria principalmente como dissuação e como ativo de barganha diplomática, além de servir ao treinamento das próprias defesas aéreas nacionais, hoje precárias em termos de exercícios com ameaças assimétricas realistas.

A quarta é o potencial de exportação. O mercado global de munições vagantes e drones de ataque de baixo custo está em forte expansão, e países de médio porte da América do Sul, África e Sudeste Asiático buscam soluções sem as amarras políticas das potências ocidentais. O Brasil, com sua tradição de política externa independente e sua condição de aliado não-Otan dos EUA, poderia ocupar esse espaço com relativa facilidade, como fez com o Super Tucano e o KC-390.

Obstáculos reais
Seria ingênuo ignorar as dificuldades. Os principais desafios do setor incluem escalar a produção, treinar e reter pessoal qualificado, padronizar sistemas entre as três forças e consolidar uma doutrina de emprego compatível com a velocidade da mudança tecnológica. O financiamento público para projetos de defesa no Brasil é historicamente intermitente, e o BNDES e a Finep, embora presentes, raramente sustentam programas de longo prazo sem interrupções orçamentárias.

Há também o dilema geopolítico. A proximidade com os EUA implica pressões para não desenvolver certas capacidades, especialmente munições autônomas de ataque. A exportação para países sob sanções americanas poderia criar atritos diplomáticos. O Brasil precisaria definir com clareza para quem exportaria e sob quais condições antes de dar início ao programa.

A corrida global pelo Shahed e o contexto para o Brasil
O caso brasileiro não ocorre no vácuo. A guerra entre Irã e países do Golfo Pérsico, iniciada em fevereiro de 2026, acelerou em escala global a corrida para desenvolver drones do tipo Shahed, e o Oriente Médio tornou-se o epicentro mais recente desse movimento. Uma joint venture entre a startup americana Vector Defense e a saudita SR2 Defense Systems, batizada de SR2Vector, está construindo uma fábrica nos arredores de Riad para produzir o SKYWASP, drone de ataque unidirecional com alcance de 1.500 quilômetros, distância que cobre aproximadamente o trajeto do litoral nordeste da Arábia Saudita até Teerã. A Arábia Saudita, que possui um dos maiores orçamentos de defesa do mundo mas importa quase todo o seu equipamento militar, fixou a meta de localizar 50% desse gasto até 2030. 

O quadro mais amplo é igualmente revelador. Em dezembro de 2025, os EUA anunciaram o desenvolvimento do LUCAS, drone derivado da engenharia reversa do Shahed-136, e implantaram um esquadrão no Oriente Médio. A Polônia avança com o PLargonia. A Ucrânia desenvolveu seus próprios análogos para ataques de longo alcance. Em síntese, o Shahed deixou de ser uma ameaça iraniana para se tornar um padrão industrial que nações de diferentes perfis estratégicos e orçamentários estão correndo para replicar. 

Para o Brasil, esse contexto reforça, e não enfraquece, o argumento em favor de uma plataforma nacional. O mercado de exportação para países de médio porte que buscam essa capacidade sem as restrições políticas das grandes potências tende a se expandir rapidamente nos próximos anos, e o espaço para um fornecedor com a credibilidade industrial e a tradição de neutralidade do Brasil é real. A janela, porém, não ficará aberta indefinidamente. 

Uma questão de prioridade estruturante
A lição polonesa é que a linha entre alvo de treinamento e arma de ataque já foi apagada. Um drone que pode ser produzido em massa, lançado de um caminhão e convertido em instrumento de ataque deixou de ser uma capacidade de nicho para se tornar o núcleo da nova guerra industrial. O Brasil tem o ecossistema industrial, a tradição aeronáutica, as instituições técnicas e as empresas para desenvolver essa capacidade. O que ainda falta é a decisão política de tratar drones de baixo custo e duplo uso como prioridade estruturante da Base Industrial de Defesa, com financiamento contínuo, contratos de série e doutrina de emprego definida pelas três forças. Sem isso, o país continuará admirando a transformação de longe enquanto outros a protagonizam.

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