Uma transformação tecnológica silenciosa está redefinindo o
equilíbrio global de poder. O Coronel Eduardo Migon, pesquisador pós-doutor e oficial de
Cavalaria do Exército Brasileiro, alerta para uma revolução que o Brasil não
pode ignorar.
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| Imagem: Eduardo Migon em artigo no LinkedIn |
*LRCA Defense Consulting - 07/01/2026
O fim da invisibilidade submarina
Durante décadas, a corrida tecnológica naval concentrou-se em tornar
submarinos progressivamente mais silenciosos. Revestimentos especiais, sistemas
de propulsão ultra-quietos e designs hidrodinâmicos transformaram essas
embarcações em fantasmas dos oceanos. Mas a física impõe um limite que nenhuma
engenharia pode superar: toda grande massa metálica em movimento perturba o
campo magnético natural da Terra.
É exatamente essa perturbação inevitável que os sensores
quânticos conseguem detectar.
"A detecção submarina sempre enfrentou um limite físico
claro", explica o Coronel Migon em sua análise sobre o tema.
"Sensores quânticos mudam essa equação ao explorar algo inevitável: a
física."
Magnetômetros quânticos baseados em hardware atômico operam
próximos aos limites fundamentais de sensibilidade da matéria. Eles conseguem
medir variações magnéticas tão sutis que sensores convencionais simplesmente
não conseguem detectar. E fazem isso de forma completamente passiva, sem
emitir sinais, sem "pings" acústicos, sem revelar a posição do
observador.
A inteligência artificial como multiplicador de
capacidade
A verdadeira disrupção, porém, acontece quando esses sensores quânticos
encontram a Inteligência Artificial. Sozinhos, os sensores geram volumes
imensos de dados ruidosos. A IA permite filtrar esse ruído, reconhecer padrões
magnéticos específicos e correlacionar informações ao longo do tempo e do
espaço.
Sistemas modernos já conseguem mapear tanto ambientes
terrestres quanto submarinos com precisão sem precedentes. Tecnologias
integradas, desde gravimetria até arqueologia e detecção de erosão, criam um
retrato tridimensional do ambiente, incluindo o subsolo e o subaquático.
O mapeamento do fundo oceânico através da Mid-Atlantic
Ridge, entre Halifax (Canadá) e Southport (Reino Unido), demonstra a dimensão
prática: com repetidores posicionados estrategicamente ao longo de milhares de
quilômetros, é possível criar redes de vigilância distribuída e persistente.
"Em um oceano vasto como o Atlântico Sul, isso
significa vigilância distribuída e persistente", pontua Migon. "Não
se trata de 'ver tudo', mas de tornar movimentos relevantes progressivamente
mais detectáveis e interpretáveis."
PNT: Quando navegação vira questão geoestratégica
Mas a revolução quântica não para na detecção. Ela atinge outra área
crítica: Positioning, Navigation and Timing (PNT) — posicionamento, navegação e
temporização.
Durante décadas, o GPS e outros sistemas de navegação por
satélite (GNSS) tornaram-se infraestrutura invisível e essencial. Praticamente
todas as operações militares e civis modernas dependem desses sinais espaciais.
O problema é que toda infraestrutura crítica excessivamente centralizada se
torna vulnerável.
Guerra eletrônica, spoofing (falsificação de sinais),
jamming (interferência) e ameaças anti-satélite já fazem parte do arsenal
estratégico contemporâneo. Em um conflito de alta intensidade, os primeiros
alvos seriam justamente esses sistemas de navegação.
"É nesse cenário que sensores quânticos ganham
relevância estratégica", destaca o Coronel Migon. Acelerômetros e
giroscópios quânticos, combinados com navegação magnética, permitem sustentar
PNT sem depender de sinais externos. Não é apenas resiliência técnica, é
autonomia operacional, redução de vulnerabilidades sistêmicas e ampliação da
liberdade de ação estratégica.
Essa tecnologia permite navegação precisa mesmo em ambientes
subterrâneos (túneis, minas) e submarinos, com aplicações que vão desde
operações militares urbanas até a navegação de submarinos sob o gelo polar.
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| Imagem: Eduardo Migon em artigo no LinkedIn |
Uma nova arquitetura de poder
O que emerge desse cenário tecnológico é uma nova arquitetura de poder, menos dependente de infraestrutura espacial, mais distribuída, mais robusta e,
sobretudo, mais soberana.
Países que dominarem essas tecnologias terão vantagens
estratégicas significativas:
- Detecção
passiva de submarinos adversários sem revelar sua própria posição;
- Navegação
autônoma mesmo com satélites negados ou comprometidos;
- Vigilância
oceânica persistente em águas estratégicas;
- Operações
em ambientes negados (subterrâneos, urbanos densos, polares).
Para nações com extensas áreas marítimas, como o Brasil - que possui a chamada "Amazônia Azul", com 4,5 milhões de km² de Zona
Econômica Exclusiva - essa tecnologia não é opcional. É estratégica.
O desafio brasileiro
"Para o Brasil, o desafio é conceitual e estratégico", alerta
Migon. "Sensores quânticos não podem ser tratados apenas como pesquisa de
fronteira, mas como ativos estruturantes de Defesa, soberania e inovação
dual."
O pesquisador questiona se o país está pronto para
incorporar sensores quânticos e PNT resiliente à sua doutrina e estratégia
tecnológica, ou se continuará dependente de infraestruturas críticas que não
controla.
A questão é particularmente relevante considerando que o
Brasil possui:
- Uma
das maiores extensões costeiras do mundo (mais de 7.400 km):
- Reservas
estratégicas de petróleo em águas profundas (Pré-Sal);
- Rotas
marítimas críticas para seu comércio exterior (95% passa pelo mar);
- Vulnerabilidade
tecnológica em sistemas de defesa e navegação.
Aplicações além do uso militar
Embora as implicações militares sejam evidentes, a tecnologia de sensores
quânticos tem aplicações duais significativas:
- Exploração
de recursos naturais: detecção precisa de depósitos minerais e
reservas de hidrocarbonetos;
- Monitoramento
ambiental: rastreamento de mudanças no subsolo e no leito oceânico;
- Infraestrutura
crítica: inspeção de túneis, pontes e estruturas subterrâneas;
- Arqueologia:
descoberta de sítios históricos enterrados ou submersos;
- Agricultura:
análise da umidade e compactação do solo em larga escala.
A janela de oportunidade
A tecnologia quântica ainda está em fase de transição do laboratório para
aplicações práticas em larga escala. Isso significa que existe uma janela de
oportunidade, limitada, para que países em desenvolvimento invistam, dominem
e integrem essas capacidades.
Esperar que a tecnologia amadureça completamente antes de
agir significa aceitar uma posição de dependência tecnológica permanente.
Significa comprar sistemas prontos, sem domínio da tecnologia de base, sem
capacidade de adaptação e sem soberania estratégica.
O invisível que define o futuro
A revolução quântica é, por natureza, silenciosa. Não há demonstrações
espetaculares, não há explosões visíveis, não há manchetes dramáticas. Há
apenas a mudança progressiva e inexorável da relação entre ocultação e
detecção, entre dependência e autonomia, entre vulnerabilidade e resiliência.
Como conclui o Coronel Eduardo Migon em sua reflexão:
"O impacto não é apenas técnico. Trata-se de uma mudança estrutural na
relação entre furtividade, vigilância e controle do espaço marítimo."
A pergunta que fica não é se essa mudança vai acontecer - ela já está acontecendo. A pergunta é: o Brasil estará entre os que controlam
essa tecnologia ou entre os que apenas sofrem suas consequências?