Mac Jee, de São José dos Campos, transfere tecnologia de produção de TNT, RDX e HMX ao reino saudita em parceria com a Saudi Chemical Company
*LRCA Defense Consulting - 01/05/2026
Uma empresa brasileira de defesa está no centro de um dos contratos mais estratégicos e mais discretos da indústria bélica nacional: a Mac Jee, sediada em São José dos Campos (SP), projetou e colocou em operação a primeira fábrica própria de explosivos militares da Arábia Saudita, dentro das instalações da Saudi Chemical Company Limited (SCCL), a maior companhia de energia civil e militar daquele país.
A estrutura, com cerca de 500 mil metros quadrados, o equivalente a aproximadamente 70 campos de futebol, produz TNT e RDX, compostos utilizados em diferentes tipos de bombas e munições. Em 2022, foi anunciado que a capacidade de produção seria de 2 mil toneladas de TNT e 120 toneladas de RDX, com tecnologia para adaptar a capacidade de fabricação de acordo com a necessidade de cada cliente.
O objetivo declarado pelo lado saudita é atingir a autossuficiência, ou seja, suprir toda a demanda militar do reino por explosivos e espoletas de detonação de bombas até 2030, alinhando-se às metas da Visão 2030, o ambicioso programa de diversificação econômica e industrial do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman.
Acordo sigiloso, aprovação em três ministérios
A autorização para a exportação de equipamentos e tecnologia ao regime
saudita foi concedida ainda no segundo semestre de 2018. As etapas mais relevantes da implantação da fábrica,
porém, ocorreram entre 2019 e 2022, período em que as autorizações para exportação de tecnologia militar à Arábia
Saudita aumentaram de forma expressiva.
Por lei, negócios da indústria privada de defesa com governos estrangeiros dependem do aval de três ministérios: Defesa, Ciência e Tecnologia, e Relações Exteriores (Itamaraty). Todos foram acionados. Procurados pela imprensa na época, os três pastas informaram que não poderiam comentar motivações ou condições do acordo firmado com a Mac Jee. O valor do contrato também permanece desconhecido.
Entre 2019 e 2021, a Arábia Saudita apresentou 21 solicitações de compra de armas, blindados, bombas e serviços ao governo brasileiro. Desses pedidos, 17 foram aprovados. No biênio anterior, foram 10 pedidos, com 8 autorizados, uma aceleração significativa no ritmo das relações bilaterais de defesa.
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| Em 2022, a Mac Jee firmou parceria com o Ministério de Investimento da Arábia Saudita |
Quem é a Mac Jee
O Grupo Mac Jee faz parte da Base Industrial de Defesa (BID) do Brasil e é
composto pelas empresas Mac Jee Defense, Mac Jee Technology e Equipaer. Com
sede e fábricas em São José dos Campos e Paraibuna (SP), além de escritório
comercial em Paris, a empresa tem mais de 15 anos de mercado e exporta a maior
parte de seus produtos para o Oriente Médio.
O portfólio é extenso: munições aéreas das séries MK e BLU, o kit de guiagem de precisão Dagger, o sistema lançador de foguetes Armadillo, espoletas eletrônicas HiRel, o drone suicida Anshar e linhas de produção de materiais energéticos como TNT, RDX, HMX (High Melting eXplosive, também chamado de octogen, um poderoso e relativamente insensível alto explosivo, quimicamente relacionado ao RDX) e propelentes sólidos compósitos para foguetes.
Com atuação crescente no setor de defesa, a Mac Jee direciona seus esforços também para o desenvolvimento e a produção de soluções avançadas em mísseis (ar-ar, antirradiação, de cruzeiro, balísticos e hipersônicos), apoiada em uma base industrial robusta, engenharia especializada, parceria com a Força Aérea Brasileira e com institutos avançados de engenharia, e investimentos contínuos em tecnologias de propulsão, guiagem e integração de sistemas
A empresa foi, por anos, comandada pelo francês radicado no Brasil Simon Jeannot, que costumava dizer que seus negócios dependiam, antes de tudo, de diplomacia. "A venda de sistemas de defesa é, antes de tudo, diplomacia. Antes de ser técnica, antes de ser financeira, é diplomacia", afirmou em entrevista em 2020.
Em 2020, ocorreu uma transição de liderança na Mac Jee, ao fim da qual, Alessandra Stefani assumiu o cargo de CEO, sucedendo Simon Jeannot à frente da gestão executiva da empresa, enquanto ele passou a presidir o Conselho de Administração, atuando com foco na direção estratégica do grupo e na consolidação de sua expansão no setor de defesa e aeroespacial.
A relação com os sauditas transformou a Mac Jee. Fontes ligadas ao projeto confirmaram à imprensa que a empresa "subiu de patamar no mercado" após ser contratada para o serviço. A mudança foi visível inclusive internamente: a Mac Jee passou a instalar salas de oração em suas dependências para atender clientes muçulmanos. Hoje, a companhia mantém equipes de engenharia baseadas em Riade, contribuindo diretamente para a operação das plantas industriais.
A parceria com a Saudi Chemical Company
O parceiro saudita da Mac Jee é a Saudi Chemical Company - SCCL (companhia privada de capital aberto), descrita
pela própria empresa brasileira como "parceiro regional de
confiança". A SCCL é a maior companhia de produção de energia civil e
militar da Arábia Saudita e abrigou fisicamente toda a estrutura da nova
fábrica de explosivos.
Em comunicado recente, a Mac Jee destacou que suas capacidades na região do Golfo cobrem a produção de TNT militar, RDX Tipo I e II, HMX e propelentes sólidos compósitos para propulsão de foguetes, um conjunto de materiais energéticos que posiciona a Arábia Saudita em patamar inédito de autossuficiência industrial no setor bélico regional.
Presença crescente: do World Defense Show a Riade
A relação com a Arábia Saudita vai além da fábrica. A Mac Jee marcou
presença em todas as edições do World Defense Show (WDS) em Riade, um dos
maiores eventos de defesa do mundo, onde apresentou seus principais produtos
a compradores do Oriente Médio e travou contato com as mais altas patentes
militares sauditas.
No WDS 2024, o presidente do Conselho da Mac Jee, Simon Jeannot, recebeu em seu estande o Major General Fayyadh bin Hamed Al-Ruwaili, Chefe do Estado-Maior Geral do Reino da Arábia Saudita. Em fevereiro de 2026, a empresa voltou ao WDS com novidades, incluindo planos de localização de produção no país e expansão para sistemas de mísseis em cooperação com a Força Aérea Brasileira.
Controvérsia
Especialistas estrangeiros levantaram preocupações
sobre o uso dual dos materiais produzidos na fábrica: em teoria, o RDX
fabricado nas instalações construídas pela Mac Jee poderia ser utilizado em
ogivas de mísseis balísticos, cujo programa saudita, desenvolvido com apoio
chinês, foi revelado pela CNN Internacional em 2021.
No entanto, técnicos ligados ao
projeto brasileiro afirmaram que a tecnologia nacional não seria destinada à
fabricação de mísseis balísticos, em respeito aos compromissos do Brasil com o Regime
de Controle de Tecnologia de Mísseis (MTCR), ao qual o país aderiu em 1995.
A Visão 2030 e a nova indústria bélica saudita
O projeto da Mac Jee se insere num movimento estrutural da Arábia Saudita.
O príncipe Mohammed bin Salman determinou que o Ministério da Defesa só
fecharia contratos com fornecedores estrangeiros se esses acordos estivessem
vinculados ao desenvolvimento da indústria local. A Autoridade Geral para
Indústrias Militares (GAMI) anunciou investimentos superiores a US$ 20 bilhões
na indústria de defesa doméstica ao longo de dez anos, com a meta de que 50% do
orçamento militar seja gasto localmente até 2030, gerando, segundo o próprio
governo saudita, 100 mil empregos.
Durante a participação na World Defense Show 2022, a Mac Jee anunciou a assinatura de um acordo de parceria com o Ministério de Investimento da Arabia Saudita, passando a integrar um seleto grupo de empresas brasileiras aptas a cooperar no fomento das tecnologias de fabricação e desenvolvimento de sistemas, transferência de tecnologia, entre outras colaborações importantes para indústria de defesa.
A Mac Jee é, nesse contexto, uma das peças centrais da estratégia saudita de soberania industrial na área de explosivos e materiais energéticos, tecnologias que o Brasil domina e que, até então, eram praticamente inexistentes nesse país.
"No setor de defesa, eles veem o país como amigo e grande parceiro. A indústria de defesa precisa aproveitar esse momento, e a gente está surfando essa onda", disse Alessandra Stefani, presidente e CEO da Mac Jee, em agosto de 2022.







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