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16 fevereiro, 2026

Fragata Tamandaré recebe certificação da DNV e marca estreia operacional da “Embraer naval”

Primeiro navio da Classe Tamandaré obtém aval da DNV e está pronto para operação, consolidando o maior projeto de construção naval de defesa já desenvolvido no país


*LRCA Defense Consulting - 16/02/2026 

Em um marco histórico para a indústria de defesa brasileira, a Fragata "Tamandaré" (F200), primeira unidade da Classe Tamandaré da Marinha do Brasil, recebeu nesta semana a certificação estatutária emitida pela Det Norske Veritas (DNV), uma das mais respeitadas sociedades classificadoras do mundo. A certificação oficializa a mudança de status da embarcação de "em construção" para "em operação", abrindo caminho para sua plena integração à Esquadra Brasileira.

A certificação representa muito mais do que um passo burocrático no processo de aceitação do navio. Trata-se do reconhecimento internacional de que o Brasil conseguiu conceber, construir e colocar em serviço uma escolta de última geração, cumprindo rigorosos padrões de segurança, desempenho e proteção ambiental estabelecidos por convenções como SOLAS (Convenção Internacional para a Salvaguarda da Vida Humana no Mar) e MARPOL (Convenção Internacional para a Prevenção da Poluição por Navios).

"A certificação da DNV é um reconhecimento objetivo da maturidade técnica da Fragata Tamandaré e do trabalho rigoroso realizado ao longo de todo o processo de construção e comissionamento", afirmou Fernando Queiroz, CEO do Consórcio Águas Azuis, em comunicado oficial. "Esse avanço posiciona o navio em um novo patamar operacional, dentro dos mais altos referenciais internacionais".

A "Embraer dos mares": tecnologia aeronáutica navega para o oceano
Mais do que um avanço para a Esquadra, a Fragata Tamandaré consolida-se como vitrine tecnológica da indústria de defesa brasileira, em especial da Embraer Defesa & Segurança e da Atech. A fragata representa, literalmente, a expressão naval da capacidade tecnológica desenvolvida pela Embraer ao longo de mais de cinco décadas de experiência em sistemas aeronáuticos complexos.

Integrante do Consórcio Águas Azuis, ao lado da alemã thyssenkrupp Marine Systems (TKMS), a Embraer leva para o mar sua expertise acumulada em integração de plataformas complexas, sistemas embarcados e engenharia de missão. Se nas alturas a empresa consolidou o Brasil como potência aeronáutica regional, agora transporta essa mesma filosofia de integração de sistemas e inovação tecnológica para as águas da chamada "Amazônia Azul".

A Atech, subsidiária do Grupo Embraer especializada em engenharia e integração de sistemas, desempenha papel ainda mais central no projeto. A empresa é responsável pelo desenvolvimento e fornecimento de dois dos sistemas mais críticos da fragata: o Sistema de Gerenciamento de Combate (CMS – Combat Management System) e o Sistema Integrado de Gerenciamento da Plataforma (IPMS – Integrated Platform Management System).

O CMS, derivado do Atlas ANCS e desenvolvido em parceria com a Atlas Elektronik (subsidiária da TKMS), é o "cérebro" que integra sensores, armamentos e sistemas de comunicação do navio, permitindo que a tripulação processe informações táticas e tome decisões de combate em frações de segundo. Já o IPMS, baseado no sistema da L3Harris e desenvolvido em cooperação com a empresa canadense, monitora e controla 68 sistemas integrados da plataforma, incluindo propulsão, geração e distribuição de energia, sistemas auxiliares e controle de avarias.

Para viabilizar esse trabalho, a Atech inaugurou em outubro de 2021 um escritório de 3 mil metros quadrados no Rio de Janeiro, equipado com laboratórios de integração e testes (LIT), instalações para simulação de sistemas (LBTF – Land Based Test Facility) e ambientes de treinamento com ferramentas do tipo Computer Based Training System (CBTS). Nesses laboratórios, os sistemas da fragata foram testados exaustivamente antes de serem embarcados, em um processo que envolveu estreita colaboração entre equipes da Atech, da Marinha e dos demais parceiros do consórcio.

 

O Consórcio Águas Azuis: parceria estratégica para soberania tecnológica
O Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT) é executado pela Sociedade de Propósito Específico (SPE) Águas Azuis, formada por três players com papéis complementares:

thyssenkrupp Marine Systems (TKMS): líder do consórcio, fornece a tecnologia naval da comprovada plataforma MEKO, já utilizada em mais de 80 embarcações em operação em marinhas de 15 países, incluindo Portugal, Grécia, Austrália, Argentina e Argélia. A TKMS adaptou o design MEKO A-100 para as necessidades específicas da Marinha brasileira e gerencia a construção no estaleiro TKMS Brasil Sul, em Itajaí (SC).

Embraer Defesa & Segurança: responsável pela integração de sensores e armamentos ao sistema de combate, trazendo ao programa seus mais de 55 anos de experiência em soluções de tecnologia de sistemas e suporte em serviço. A empresa aplica à plataforma naval a mesma metodologia de integração de sistemas complexos que a tornou referência mundial na aviação.

Atech: desenvolve e fornece os sistemas CMS e IPMS, além de realizar as atividades de integração e testes dos sistemas de combate e da plataforma. A empresa consolida sua posição como fornecedora estratégica de sistemas críticos para a Defesa Nacional.

O contrato, assinado em março de 2020, tem valor de R$ 9,1 bilhões (posteriormente atualizado para aproximadamente R$ 13,8 bilhões com a incorporação de sistemas e equipamentos adicionais) e prevê não apenas a construção das quatro fragatas, mas também robusta transferência de tecnologia em engenharia naval para fabricação de navios militares e sistemas de gerenciamento de combate e plataforma, além de apoio logístico durante o ciclo de vida das embarcações.

Um navio para proteger a "Amazônia Azul"
A Fragata Tamandaré é um navio de escolta multimissão de aproximadamente 3.500 toneladas, com 107,2 metros de comprimento, 15,95 metros de boca e capacidade de atingir 25 nós (cerca de 47 km/h). Projetada para operar em todos os ambientes de guerra – superfície, aéreo e submarino – a embarcação incorpora armamentos e sensores de última geração.

Entre seus sistemas de combate, destacam-se mísseis de defesa aérea Sea Ceptor com lançamento vertical, mísseis antinavio MANSUP, torpedos antissubmarinos, canhão principal OTO Melara de 76mm e sistema de armas de proximidade (CIWS) SeaSnake de 30mm. Para detecção e rastreamento, o navio conta com radar AESA (Active Electronically Scanned Array) Hensoldt TRS-4D, sonares e sistemas eletrônicos de última geração.

A fragata possui ainda convoo e hangar para operação de helicóptero embarcado, ampliando significativamente seu raio de ação e capacidade de detecção. Sua autonomia de 5.500 milhas náuticas permite operações prolongadas sem necessidade de reabastecimento.

A missão principal das Fragatas Classe Tamandaré é proteger os 5,7 milhões de quilômetros quadrados da "Amazônia Azul", nome dado à área marítima sob jurisdição brasileira, que inclui águas territoriais, zona econômica exclusiva e plataforma continental. Além da defesa territorial, os navios realizarão operações de busca e salvamento, combate à pirataria e pesca ilegal, monitoramento de poluição e participação em missões de paz e ajuda humanitária internacionais.

Impactos econômicos e estratégicos
O PFCT foi incluído no Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC) no eixo de inovação para a indústria, e também integra a Missão nº 6 "Tecnologias de Interesse para a Soberania e Defesa Nacional" da iniciativa Nova Indústria Brasil (NIB), refletindo seu caráter estratégico para o desenvolvimento nacional.

A construção das fragatas mobiliza cerca de 2.000 profissionais diretamente nas obras, com reflexo de aproximadamente 6.000 postos de trabalho indiretos e cerca de 15.000 empregos induzidos, totalizando 23.000 oportunidades geradas. O programa envolve uma extensa cadeia de fornecedores nacionais, com aproximadamente 2.000 empresas brasileiras participando do processo produtivo, contribuindo para o fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID) do país.

Lançada ao mar em agosto de 2024, a Fragata Tamandaré passou por rigorosos testes de aceitação no mar ao longo de 2025. Durante as navegações pela costa catarinense, foram avaliados sistemas de propulsão, geração de energia, automação, quadros elétricos e sistemas de alarme e segurança sob diversas condições de carga, mar e vento. A tripulação de 112 militares vem sendo capacitada para operar a embarcação desde o início do programa.

 

O futuro da Esquadra Brasileira
Com a certificação da F200, o foco agora se desloca para a plena incorporação operacional da primeira unidade, com a aceitação militar completa prevista para os próximos meses, e a continuidade das obras das demais fragatas da classe:

  • Jerônimo de Albuquerque (F201): segunda fragata, lançada em agosto de 2025, já com estrutura montada e em fase de equipagem. Previsão de entrega em 2027.

  • Cunha Moreira (F202): terceira unidade, em estágio intermediário de construção.

  • Mariz e Barros (F203): quarta fragata, em fase inicial de montagem. Entrega prevista para 2029.

As entregas graduais entre 2025 e 2029 permitirão à Marinha substituir progressivamente as antigas fragatas da Classe Niterói, adquiridas do Reino Unido na década de 1970 e que já passaram por múltiplos processos de modernização, mas que estão tecnologicamente superadas e próximas ao fim de sua vida útil operacional.

Projeção internacional e soberania tecnológica
Simbolicamente, a chegada da Tamandaré ao status de navio "em operação" sinaliza ao mercado internacional e aos parceiros estratégicos que o Brasil consolidou capacidade de conceber, construir e operar escoltas de última geração, integrando tecnologia nacional em sistemas críticos de missão e combate.

Para a Embraer e a Atech, a fragata funciona como vitrine tecnológica em potenciais futuras exportações e cooperações internacionais na área naval. "Essa parceria valida os esforços para expandir nosso portfólio de defesa e segurança além do segmento aeronáutico", destacou Jackson Schneider, então CEO da Embraer Defesa & Segurança, quando da assinatura do contrato em 2020.

Para a Marinha do Brasil, a Fragata Tamandaré representa o início concreto de uma nova geração de escoltas, mais capazes, flexíveis e alinhadas às demandas de um ambiente marítimo cada vez mais complexo e contestado. Para o país, é a materialização de décadas de investimento em capacitação tecnológica e industrial, provando que o Brasil pode ser protagonista não apenas como usuário, mas como desenvolvedor e potencial exportador de tecnologias de defesa de alta complexidade.

A "Embraer naval" acaba de fazer sua estreia nos mares brasileiros. E o oceano, assim como o céu, agora tem sotaque brasileiro.


Sobre o Programa Fragatas Classe Tamandaré:

  • Valor: R$ 13,8 bilhões
  • Quatro fragatas previstas (F200 a F203)
  • Construção: TKMS Estaleiro Brasil Sul, Itajaí (SC)
  • Gestão: EMGEPRON (Empresa Gerencial de Projetos Navais)
  • Execução: Consórcio Águas Azuis (TKMS + Embraer + Atech)
  • Entregas: 2025 a 2029
  • Empregos gerados: 23.000 (diretos, indiretos e induzidos)
  • Fornecedores nacionais: aproximadamente 2.000 empresas

 


VSNT: o drone naval que coloca o Brasil na vanguarda da defesa marítima autônoma

Desenvolvido pela Marinha do Brasil e pela empresa brasileira DGS Defense com tecnologia 100% nacional, o Veículo de Superfície Não Tripulado representa um salto tecnológico nas operações de guerra de minas e vigilância marítima



*LRCA Defense Consulting - 16/02/2026 

Nas águas da Baía de Todos-os-Santos, em Salvador, uma pequena embarcação navega em alta velocidade, realizando manobras precisas sem qualquer tripulante a bordo. Equipada com sonares de última geração, câmeras infravermelhas e sistemas de navegação autônoma, ela representa o futuro da defesa naval brasileira: o Veículo de Superfície Não Tripulado, conhecido pela sigla VSNT.

Desde 2021, a Marinha do Brasil desenvolve um dos projetos mais inovadores da defesa nacional. Sob a coordenação do Centro de Análises de Sistemas Navais (CASNAV), o VSNT nasceu de forma modesta, a partir da conversão experimental de uma embarcação de casco semirrígido de sete metros, mas rapidamente se transformou em uma plataforma tecnológica capaz de competir com sistemas desenvolvidos por marinhas de nações de primeiro mundo.

"O desenvolvimento do VSNT é mais do que um marco tecnológico. É um reflexo do compromisso da Marinha com a inovação e a Defesa Nacional", destaca o Capitão de Mar e Guerra Fabio Kenji Arakaki, ex-Diretor do CASNAV.


Do laboratório ao campo de batalha
O programa VSNT atualmente conta com duas embarcações operacionais distintas, cada uma com sua missão específica. O VSNT-Lab funciona como uma "bancada flutuante", uma plataforma laboratorial financiada pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) que serve de base para dezenas de trabalhos acadêmicos desenvolvidos em parceria com universidades como a UFRJ. É nesta plataforma que algoritmos são testados, sensores são integrados e novos conceitos operacionais são validados antes de serem implementados nas versões operacionais.

Já o VSNT-CMM (Contramedidas de Minagem) representa o estado da arte da tecnologia autônoma aplicada ao ambiente marítimo brasileiro. Com velocidade máxima estimada entre 30 e 35 nós (aproximadamente 55 a 65 km/h), esta embarcação opera tipicamente entre 6 e 8 nós durante missões de varredura, garantindo a qualidade dos dados coletados pelos sonares.

A arquitetura modular do VSNT permite três modos distintos de operação: no modo remoto, o operador comanda diretamente o leme e a aceleração; no modo semiautônomo, o sistema digital embarcado mantém automaticamente o rumo definido; e no modo autônomo, a embarcação navega entre pontos pré-programados, exigindo apenas supervisão humana para evitar colisões e garantir a segurança da navegação.


Tecnologia nacional em destaque
Um dos aspectos mais notáveis do projeto VSNT é o desenvolvimento do casco pela empresa brasileira DGS Defense. Apresentado durante a feira LAAD 2023, o casco é 100% não-magnético, construído com materiais compostos que oferecem alta capacidade de absorção de energia, características essenciais para operações de contramedidas de minagem, onde o risco de detonação acidental é uma preocupação constante.

"O casco oferece maior resistência e durabilidade que os tipos em alumínio, fibra de vidro ou infláveis, proporcionando maior probabilidade de sobrevida em relação aos cascos convencionais", explica a DGS Defense, empresa que detém as patentes das tecnologias ETRH® e X-HULL®, utilizadas na fabricação das embarcações.

O ecossistema de desenvolvimento do VSNT envolve uma articulação única entre instituições militares, acadêmicas e industriais. A Marinha do Brasil define os requisitos operacionais e desenvolve o sistema digital de comando e controle. O Instituto de Pesquisas da Marinha (IPqM) atua na integração com veículos submarinos autônomos. O Laboratório de Tecnologia Oceânica (LabOceano) da UFRJ oferece suporte em hidrodinâmica, controle e navegação. E a DGS Defense cuida do projeto e fabricação dos cascos.

Com um investimento inicial modesto de apenas R$ 23 mil em 2021, o programa expandiu-se rapidamente. Até o final de 2026, o CASNAV planeja receber uma terceira embarcação convertida em VSNT. Em 2025, estão previstos investimentos na aquisição de novos sensores e atuadores para iniciar os testes de operação em "enxame", a operação coordenada e cooperativa de dois ou mais veículos autônomos.
 
Batismo de fogo na guerra de minas
As operações MINEX (Mine Exercise) realizadas em Salvador em 2023 e 2024 marcaram o batismo operacional do VSNT. Durante a MINEX-24, realizada entre 7 e 11 de outubro, o sistema demonstrou uma capacidade operacional que impressionou até observadores estrangeiros.

A missão funcionou em três fases integradas: primeiro, o VSNT-CMM realizou a varredura inicial da área com sonar sidescan, identificando posições suspeitas de minas navais. Em seguida, as coordenadas foram transmitidas para o LAUV (Veículo Submarino Autônomo Leve), operado pelo IPqM, que confirmou a presença das minas utilizando seu próprio sonar e câmera. Por fim, as coordenadas confirmadas foram repassadas ao Destacamento de Mergulhadores de Combate, que conduziu a etapa de neutralização simulada.

"O emprego desse veículo representa um marco no desenvolvimento de capacidades autônomas de defesa submarina para a Marinha. Além de ser a primeira vez que o veículo foi utilizado no País nesse tipo de missão. O sucesso do exercício MINEX-24 demonstra o potencial de operações futuras com sistemas marítimos não tripulados em missões de alta complexidade", afirmou o Capitão de Corveta Engenheiro Naval Emerson Coelho Mendonça, do IPqM.

Durante a MINEX-24, o CASNAV também apresentou o Console de Imagens Táticas em Realidade Aumentada (CITRA), instalando câmeras de alta resolução em pontos estratégicos da área marítima e no próprio VSNT. "Com a integração do CITRA-VSNT, demonstramos uma capacidade de monitorar espaços marítimos de interesse, trazendo os dados de AIS nas imagens das câmeras do CITRA, aumentando a consciência situacional marítima e agilizando a tomada de decisão", destacou o Diretor do CASNAV na ocasião.


Integração com a Esquadra

A versatilidade do VSNT foi demonstrada durante a comissão ADEREX, quando pela primeira vez o sistema foi operado de forma plena e integrada a partir do Centro de Operações de Combate (COC) do Navio-Aeródromo Multipropósito (NAM) Atlântico, uma das principais plataformas da Marinha.

Utilizando a infraestrutura de rede em fibra ótica embarcada, o VSNT operou com controle remoto e tráfego bidirecional de vídeo, comandos, telemetria e dados de sensores. Foram realizados exercícios de navegação noturna com câmera infravermelha, testes de alcance de comunicações por rádio, avaliação da assinatura térmica noturna do VSNT e, de forma surpreendente, corridas de interceptação simulando uma ameaça assimétrica de superfície.

O sistema também foi operado com sucesso a partir de corvetas da classe Barroso, demonstrando capacidade de integração com diferentes plataformas navais. Esta flexibilidade operacional é fundamental para o conceito de emprego do VSNT, que pode ser lançado e recuperado por navios de escolta, corvetas e até mesmo pelo NAM Atlântico.

ARAMUSS 2025: o Brasil na rota mundial da inovação naval
Em novembro de 2025, Salvador sediou a primeira edição do ARAMUSS (Aratu Maritime Unmanned Systems Simulation), um evento pioneiro que posicionou o Brasil na rota mundial de inovação em defesa. Inspirado no exercício REPMUS conduzido em Portugal, o ARAMUSS reuniu 24 expositores, incluindo instituições acadêmicas e empresas do Brasil e do exterior, com mais de 2 mil participantes.

O VSNT do CASNAV foi um dos protagonistas do evento, participando de demonstrações práticas ao lado de outros sistemas como o Suppressor (TideWise/EMGEPRON), o LAUV Triton (Ocean Scan/IPqM), o FlatFish (SENAI Cimatec) e o NAURU (XMobots). Todos os veículos foram operados de forma autônoma ou a partir de centros de comando instalados a bordo da Corveta Caboclo, do Navio-Balizador Tenente Boanerges e de outras embarcações da Marinha.

"Hoje é a parte mais importante da ARAMUSS, porque estamos fazendo os nossos testes e simulações embarcados nos navios da Marinha do Brasil. Temos aqui, na Baía de Todos os Santos, os nossos navios e também vários sistemas não tripulados de superfície, submarinos e aéreos. Isso tudo em prol de observarmos a operacionalidade e a conjunção de esforços, no nosso caso em benefício da guerra de minas", declarou o Vice-Almirante Gustavo Calero Garriga Pires, Comandante do 2º Distrito Naval.

O evento contou ainda com a participação da Marinha Portuguesa, representada pelo Capitão-de-fragata Marco Guimarães, Diretor da Célula de Inovação e Experimentação Operacional de Veículos não Tripulados (CEOV), demonstrando o interesse internacional nas capacidades desenvolvidas pelo Brasil.


A ameaça real das minas marítimas

O desenvolvimento de capacidades autônomas para contramedidas de minagem não é um luxo tecnológico, mas uma necessidade estratégica. As minas marítimas são armas conhecidas por seu baixo custo e alta capacidade destrutiva, capazes de não apenas causar danos físicos, mas também gerar um impacto psicológico significativo, restringindo o uso de áreas marítimas estratégicas por navios militares e comerciais.

Marinhas de diversos países têm intensificado investimentos em operações autônomas de contramedidas de minagem para mitigar os riscos representados por esses dispositivos explosivos. O emprego de veículos não tripulados reduz drasticamente a exposição de vidas humanas aos perigos inerentes às operações de varredura, além de diminuir custos operacionais e complexidade logística.

Perspectivas futuras e múltiplas aplicações
O roadmap oficial do VSNT prevê a expansão do programa para além dos dois cascos já em serviço. Além da terceira embarcação prevista para 2026, há planos para ao menos mais dois cascos adicionais. A meta é alcançar 95% de êxito nas missões realizadas com VSNT até 2026, reduzir em 20% o tempo necessário para conversão de novas embarcações até 2027, e aumentar em 15% a participação de empresas nacionais no fornecimento de componentes até 2028.

"Estamos investindo em tecnologias que elevam o Brasil a um novo patamar no domínio de veículos de superfície não tripulados, com benefícios para o Poder Naval e para toda a sociedade", afirma o Capitão de Fragata Rodrigo da Silva Vieira, gerente do projeto VSNT.

A Marinha já explora usos além das contramedidas de minagem. O VSNT tem potencial para operações de inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR), proteção de portos e terminais, escolta de áreas sensíveis, monitoramento de áreas offshore e aplicações dual-use, ou seja, tanto militares quanto civis.

Entre as aplicações civis discutidas estão o monitoramento ambiental e a proteção de infraestruturas críticas, como plataformas de petróleo. A versatilidade da plataforma, combinada com sua arquitetura modular, permite reconfigurar rapidamente os sensores e equipamentos embarcados conforme a missão específica.

Em análises independentes, especialistas já discutem a possibilidade de derivar, a partir da base tecnológica do VSNT, versões otimizadas para diferentes perfis de emprego, incluindo sistemas de ataque assimétrico para negação de área e defesa costeira de baixo custo, uma capacidade que tem ganhado destaque em conflitos recentes ao redor do mundo.


Soberania tecnológica e Base Industrial de Defesa
O projeto VSNT representa muito mais do que o desenvolvimento de uma plataforma autônoma. Trata-se de um esforço consciente de construção de soberania tecnológica na área de sistemas não tripulados, um dos campos mais estratégicos da defesa moderna.

Ao desenvolver internamente desde o sistema digital de comando e controle até a integração de sensores, passando pelo projeto e fabricação dos cascos, a Marinha do Brasil consolida o domínio do ciclo completo da tecnologia de veículos de superfície não tripulados. Este conhecimento não apenas garante independência tecnológica, mas também cria oportunidades para a Base Industrial de Defesa brasileira.

O Encarregado da Divisão de Controle de Projetos de Ciência, Tecnologia e Inovação, Capitão de Fragata (T) Márcio Aurélio de Lima Rocha, explica que essas iniciativas refletem as diretrizes da Estratégia de Defesa Marítima e a busca por soluções tecnológicas que garantam a soberania e a defesa do Brasil em cenários cada vez mais desafiadores.

A parceria com universidades como a UFRJ também garante que o conhecimento gerado não fique restrito ao ambiente militar, mas transborde para a formação de recursos humanos especializados e para o desenvolvimento de pesquisas acadêmicas que poderão ter aplicações civis no futuro.
 
Rumo à Marinha do futuro
Com seu desempenho comprovado em exercícios sucessivos, integração bem-sucedida com plataformas navais de diferentes portes e reconhecimento internacional expresso pela participação em eventos como o ARAMUSS, o VSNT consolida-se como um dos projetos mais bem-sucedidos da defesa brasileira recente.

"Com autonomia, precisão e inteligência, o LAUV Triton simboliza a evolução da guerra de minas e o compromisso da Marinha com a inovação tecnológica. A Marinha do futuro começa aqui", declarou o Capitão de Corveta Emerson Coelho Mendonça durante o ARAMUSS 2025. A mesma afirmação poderia ser feita sobre o VSNT.

De um investimento inicial modesto de R$ 23 mil a uma plataforma operacional capaz de realizar missões complexas de forma autônoma, o VSNT demonstra que inovação não depende necessariamente de orçamentos astronômicos, mas de visão estratégica, competência técnica e perseverança.

Enquanto o programa avança rumo à operação em enxame e à expansão de sua família de plataformas, o VSNT já cumpriu uma missão fundamental: provar que o Brasil tem capacidade técnica e científica para desenvolver sistemas autônomos de defesa no mais alto nível internacional, protegendo a Amazônia Azul, os 4,5 milhões de quilômetros quadrados de área marítima sob jurisdição brasileira, com tecnologia genuinamente nacional.

A revolução silenciosa da guerra naval já começou. E, ao contrário do que muitos poderiam imaginar, ela fala português.

15 fevereiro, 2026

F-39 Gripen atinge marco histórico com primeiro lançamento de bombas por piloto brasileiro

Operação Thor valida capacidade ar-solo da aeronave sueca e coloca Brasil como pioneiro em testes com armamentos específicos 


*LRCA Defense Consulting - 15/02/2026

A Base Aérea de Natal (BANT), no Rio Grande do Norte, foi palco de um marco histórico para a aviação militar brasileira. Durante a Operação Thor, finalizada no dia 06 de fevereiro, o Major Aviador Thiago Camargo, do Instituto de Pesquisas e Ensaios em Voo (IPEV), tornou-se o primeiro piloto brasileiro a lançar bombas com o caça F-39 Gripen, consolidando uma etapa crucial no desenvolvimento operacional da aeronave mais avançada da Força Aérea Brasileira (FAB).

Testes intensivos em solo potiguar
Ao longo de duas semanas, a aeronave de matrícula 4100, alocada no Gripen Flight Test Center em Gavião Peixoto (SP), foi submetida a ensaios rigorosos para validação da separação segura de armamentos. O objetivo principal foi garantir um desprendimento previsível, estável e sem comprometer a integridade estrutural do caça durante missões ar-solo.

"A separação acontece no instante em que o piloto aciona o botão de liberação de armamento, considerado um momento sensível da missão", explica o Coronel Aviador Alisson Henrique Vieira, coordenador geral da Operação Thor. "Por vezes, podem ocorrer fenômenos aerodinâmicos que interferem neste processo e geram situações de insegurança ou até mesmo danos à aeronave".

Pioneirismo brasileiro em escala global
Os testes realizados em Natal colocaram o Brasil em posição de destaque no cenário internacional. Segundo Mikael Olsson, chefe de Ensaios em Voos da Saab, o país tornou-se a primeira nação a realizar a separação das bombas Mk84 e Lizard 500 guiadas a laser a partir do Gripen.

"Os dados obtidos reforçam como a aeronave amplia de forma significativa a capacidade da Força Aérea Brasileira", afirmou Olsson, destacando o sucesso da campanha e o papel pioneiro do Brasil no desenvolvimento operacional do caça sueco.

Monitoramento em tempo real
Cada lançamento foi acompanhado por equipes técnicas altamente especializadas. No estande de tiro de Maxaranguape, ao norte de Natal, militares prepararam alvos, coordenaram as operações com a aeronave e registraram imagens para verificação precisa dos pontos de impacto.

O Coronel Alisson ressalta que, embora os voos sejam curtos, exigem intensa interação entre piloto e máquina. "Envolve ajustes e configurações não tão usuais na rotina. Por isso, recebemos uma carga de treinamento específico", esclarece.

Rumo à capacidade operacional plena
Considerado o estado da arte em aeronaves de caça, o F-39 Gripen integra tecnologias de ponta, sistemas avançados de sensores e armamentos projetados para operar em ambientes hostis e cenários de combate complexos. Com os dados coletados durante a Operação Thor, a aeronave avança para se tornar plenamente operacional em missões de defesa aérea, ataque ao solo e reconhecimento.

A validação bem-sucedida representa mais do que um avanço técnico; trata-se de um passo estratégico para ampliar a capacidade de dissuasão e defesa nacional. Em breve, o Gripen estará apto a cumprir todo o espectro de missões previsto, combinando eficiência operacional, elevada disponibilidade e custos reduzidos de manutenção, características essenciais para a modernização das forças armadas brasileiras.

Em muito breve, também, a Embraer apresentará o primeiro F-39 Gripen E totalmente produzido no Brasil. 

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