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17 setembro, 2026

A-29 Super Tucano antidrone: Embraer avança para demonstração com alvos reais

Demonstração conduzida com um país não divulgado busca validar o conceito operacional e aperfeiçoar a interface homem-máquina de uma solução que combina sensores, inteligência artificial e armamentos já integrados ao Super Tucano 


*LRCA Defense Consulting - 17/09/2026

A Embraer avançou para uma etapa decisiva do projeto destinado a adaptar o A-29 Super Tucano às missões de combate a sistemas aéreos não tripulados. A empresa está trabalhando com um país cujo nome não foi divulgado em uma demonstração de prova de conceito com aeronaves A-29 e drones reais empregados como alvos. O objetivo é refinar o conceito operacional e otimizar a interface homem-máquina de uma solução altamente integrada.

A informação, divulgada pelo portal norte-americano Breaking Defense em 16 de setembro, acrescenta um elemento novo aos anúncios feitos desde novembro de 2025. Até agora, a comunicação pública havia se concentrado na definição do conceito contra drones e, posteriormente, na integração do sistema de inteligência artificial Gunslinger, da Valkyrie Aero. O emprego de aeronaves e alvos reais mostra que o programa começa a sair do plano da arquitetura proposta para enfrentar condições representativas de uma missão.

O passo mais importante até agora 
Uma prova de conceito não equivale à conclusão do desenvolvimento, à certificação da configuração ou à declaração de capacidade operacional. Ainda assim, representa um salto qualitativo. É nessa fase que sensores, processamento, comunicações, armamentos, procedimentos e carga de trabalho da tripulação são avaliados como partes de uma única cadeia de engajamento.

O teste com drones reais permite verificar se o A-29 consegue receber ou gerar a indicação de alvo, localizá-lo, identificá-lo, acompanhá-lo e apresentar ao piloto uma solução de interceptação com rapidez suficiente. Também possibilita medir limitações difíceis de reproduzir apenas em simulação, como reduzida assinatura visual e térmica do alvo, manobras, interferências ambientais, geometria de aproximação e pouco tempo disponível para a decisão.

O cuidado com a interface homem-máquina é particularmente relevante. Caçar um drone pequeno, lento e de baixa assinatura não é apenas um problema de alcance de sensores ou de precisão do armamento. O sistema precisa transformar diversos dados em indicações claras, reduzir tarefas manuais e ajudar o piloto a priorizar ameaças sem retirar dele a decisão sobre o emprego da força. Uma apresentação inadequada pode aumentar a carga de trabalho justamente na fase mais crítica da interceptação.

Uma evolução construída em etapas 

A Embraer apresentou o conceito operacional do A-29 para missões contra drones em novembro de 2025. A proposta aproveita recursos existentes ou já integráveis à aeronave, entre eles sensores eletro-ópticos e infravermelhos, enlace de dados, metralhadoras calibre .50 e foguetes guiados a laser. A lógica é oferecer uma resposta de menor custo contra determinados drones, preservando caças de alto desempenho e mísseis antiaéreos mais caros para ameaças que realmente exijam esses meios.

Em março de 2026, a fabricante anunciou uma parceria com a norte-americana Valkyrie Aero para integrar ao A-29 o Gunslinger, conjunto baseado em inteligência artificial destinado a processar dados dos sensores da aeronave, detectar e acompanhar múltiplos alvos e apoiar rapidamente o ciclo de decisão. A tecnologia não transforma o Super Tucano em uma plataforma autônoma de combate. Sua função é aumentar a consciência situacional e reduzir o tempo entre a detecção, a identificação e a autorização de um engajamento pelo piloto.

A demonstração agora revelada parece unir essas duas linhas de trabalho: a plataforma e seus meios de detecção e ataque, de um lado, e a automação da análise e da apresentação das informações, de outro. Embora a Embraer não tenha identificado o país participante, a presença de um operador estrangeiro sugere que o esforço está sendo orientado por uma necessidade concreta e não apenas por uma iniciativa promocional.

Uma lacuna entre a defesa terrestre e os caças 
O crescimento do emprego de drones de ataque e munições vagantes criou uma lacuna na defesa aérea. Sistemas terrestres de curto alcance são essenciais para proteger bases, tropas e infraestruturas, mas sua cobertura é localizada. Caças supersônicos e mísseis de alto valor podem interceptar essas ameaças, porém o custo por engajamento e a disponibilidade limitada tornam essa solução difícil de sustentar diante de ataques numerosos e repetidos.

O A-29 busca ocupar uma camada intermediária. Sua autonomia, velocidade relativamente baixa, capacidade de permanecer na área, sensores, armamento interno e pontos externos permitem patrulhar corredores prováveis de aproximação e ampliar a área defendida. O avião também pode receber informações de radares e centros de comando, deslocar-se rapidamente entre setores e atuar antes que o drone alcance o objetivo protegido.

Essa solução, contudo, não substitui uma defesa antiaérea em camadas. O Super Tucano depende de alerta antecipado, identificação confiável, coordenação do espaço aéreo e regras de engajamento rigorosas. Também deverá operar em ambientes nos quais a ameaça inimiga permita o emprego seguro de uma aeronave tripulada. Seu valor está em complementar radares, guerra eletrônica, canhões, mísseis e drones interceptadores, acrescentando mobilidade e persistência ao conjunto.

Interesse comercial para operadores atuais e futuros 
A Embraer informa que o Super Tucano foi selecionado por mais de 20 forças aéreas e acumulou extensa experiência em missões de ataque leve, vigilância, patrulha e treinamento avançado. A adaptação contra drones amplia a utilidade de uma frota já existente e pode ser oferecida tanto a operadores atuais quanto a novos clientes, especialmente países que precisam proteger fronteiras, bases aéreas, instalações estratégicas e grandes extensões territoriais sem manter caças de primeira linha permanentemente em alerta.

A divulgação do tema em diferentes portais internacionais também indica uma ação de posicionamento de mercado. A Embraer procura apresentar o A-29 não apenas como uma aeronave de contrainsurgência e ataque leve, mas como uma plataforma capaz de responder a uma das demandas mais urgentes da defesa aérea contemporânea. O argumento comercial ganha força quando deixa de se apoiar somente em uma configuração planejada e passa a incorporar uma demonstração com usuário potencial e alvos reais.

O que ainda precisa ser demonstrado
Os dados divulgados não esclarecem qual país participa da prova, que tipos de drones são empregados, quais sensores externos integram a cadeia de detecção, quais armamentos serão efetivamente disparados nem o cronograma para conclusão dos ensaios. Também não há indicação pública de contrato de aquisição associado à demonstração.

Essas reservas são importantes, mas não reduzem o significado do avanço. O combate a drones exige que uma boa ideia seja transformada em uma sequência confiável e repetível: detectar, classificar, identificar, decidir e neutralizar. Ao colocar o A-29 diante de drones reais e de um usuário não divulgado, a Embraer começa a buscar a evidência operacional necessária para provar que o Super Tucano pode cumprir essa sequência com eficiência.

Se os resultados confirmarem o conceito, o A-29 poderá ganhar uma nova função em seu já amplo portfólio de missões e oferecer aos operadores uma alternativa móvel, persistente e potencialmente mais econômica para parte do desafio contra drones. Mais do que uma atualização isolada, trata-se de reposicionar uma aeronave brasileira consolidada diante de uma transformação que já redefine a defesa aérea em diferentes regiões do mundo.

Colt CZ Group dobra o EBITDA no primeiro semestre e reforça o valor da participação da CBC

Com receita de CZK 15,9 bilhões (+44,2%) e EBITDA ajustado de CZK 4,6 bilhões (+95,1%) no primeiro semestre de 2026, o grupo tcheco-americano eleva o guidance anual e confirma que a estratégia de integração vertical, da nitrocelulose à arma acabada, está produzindo resultados sem precedentes. Para a CBC, segunda maior acionista com 19,52% do capital, cada ponto percentual de margem conquistado pelo grupo é um evento financeiro direto.



*LRCA Defense Consulting - 17/09/2026

Um semestre histórico
O Colt CZ Group divulgou, em 17 de setembro de 2026, seus resultados consolidados não auditados referentes ao primeiro semestre encerrado em 30 de junho. Os números confirmam uma aceleração estrutural, não conjuntural, do grupo: a receita total atingiu CZK 15,9 bilhões, crescimento de 44,2% sobre o mesmo período de 2025, enquanto o EBITDA ajustado chegou a CZK 4,6 bilhões, praticamente o dobro (+95,1%) do registrado na primeira metade do ano anterior. O lucro líquido avançou 72,7%, para CZK 1,6 bilhão.

A performance justificou a revisão do guidance para o ano inteiro. O grupo agora projeta receitas de CZK 31,0 a 33,0 bilhões e EBITDA ajustado entre CZK 8,0 e 8,5 bilhões, o teto superior cresceu em relação à orientação anterior. Na avaliação do CEO Radek Musil, o resultado valida a estratégia de longo prazo de construir um grupo verticalmente integrado e geograficamente diversificado. "Todos os nossos segmentos tiveram bom desempenho", afirmou Musil ao apresentar os números. "Entramos no segundo semestre com um alto nível de receitas esperadas já cobertas por pedidos confirmados."

O que chama atenção não é apenas o volume de crescimento, mas a qualidade dele: a margem de EBITDA ajustado passou de 33,0% no primeiro semestre de 2025 para 28,9% no primeiro semestre de 2026, aparente contração, mas decorrente da diluição natural causada pelo peso da receita de armas de fogo no mix, segmento de margens inferiores às de munição e energéticos. Isolados, os dois segmentos de maior valor agregado entregaram margens de 33,2% e 54,5%, respectivamente, ambas superiores às do período anterior.

Resultados consolidados: H1 2025 vs H1 2026

Colt CZ Group SE: demonstração de resultados resumida

Indicador

H1 2025

H1 2026

Variação

Receita total

CZK 11,0 bi

CZK 15,9 bi

+44,2%

EBITDA ajustado

CZK 2,4 bi

CZK 4,6 bi

+95,1%

Lucro líquido

CZK 0,95 bi

CZK 1,6 bi

+72,7%

Segmento armas de fogo — receita

CZK 5,8 bi

CZK 8,0 bi

+37,4%

Segmento munição — receita

CZK 5,2 bi

CZK 4,9 bi

-5,0%

Segmento munição — margem EBITDA aj.

26,5%

33,2%

+6,7 p.p.

Segmento energéticos — receita

CZK 2,6 bi*

CZK 3,0 bi

+14,3%*

Segmento energéticos — margem EBITDA aj.

54,5%

*Base proforma. Fonte: Colt CZ Group SE, comunicado de 17/09/2026

Os três motores do crescimento
O resultado do primeiro semestre é sustentado por três vetores distintos, cada um com dinâmica própria.

Armas de fogo: o segmento cresceu 37,4% em receita, para CZK 8,0 bilhões, apesar do avanço modesto de 0,6% no número de unidades vendidas (291.724 armas). O que explica a discrepância é o mix: mais contratos militares e de segurança pública (M&LE), que pagam preços superiores aos do mercado comercial. Colt Canada foi o protagonista do período, com contratos de fornecimento de rifles C7/C8 para as Forças Armadas canadenses (30.000 unidades entre 2026 e 2029) e entregas ao Ministério da Defesa dinamarquês. O crescimento da receita canadense foi de 271% na comparação anual. A Colt também assegurou novo contrato de rifles M4 para clientes estrangeiros por meio do programa de Vendas Militares Estrangeiras (FMS) dos Estados Unidos.

Munição: a receita caiu 5,0%, para CZK 4,9 bilhões, em razão da redução das entregas no âmbito da iniciativa tcheca de munições para a Ucrânia e do impacto das tarifas norte-americanas sobre as importações, que deslocou parte das entregas para o mercado europeu. Esse dado, isolado, poderia sugerir fraqueza. Mas a margem de EBITDA ajustado saltou de 26,5% para 33,2%, sinal de que o segmento está vendendo menos volume e faturando mais por unidade, priorizando contratos de maior valor agregado. A Sellier & Bellot conquistou novos pedidos na Espanha, Polônia, Romênia, Croácia e Estônia, além de fornecimentos pela NSPA (NATO Support and Procurement Agency).

Energéticos: o segmento mais novo e mais lucrativo do grupo entregou CZK 3,0 bilhões em receita e margem de EBITDA ajustado de 54,5%, a mais alta do grupo pelo segundo trimestre consecutivo. A Synthesia Nitrocellulose, adquirida em janeiro de 2026, é um dos maiores fabricantes de nitrocelulose energética da Europa e da América do Norte, matéria-prima essencial para propelentes de munição de todos os calibres. O grupo projeta que o segmento de energéticos representará cerca de 16% da receita total e aproximadamente um terço do EBITDA ajustado ao longo de 2026.

O único vetor negativo foi o mercado comercial norte-americano: a receita dos Estados Unidos caiu 12,7%, para CZK 3,5 bilhões, combinando a fraqueza da demanda civil com o impacto das tarifas de importação. O grupo adota como estratégia de mitigação o controle de custos e o lançamento de novos produtos, incluindo a nova divisão Colt Optics, além da reorientação de parte do volume para o mercado europeu.

O que os números significam para a CBC
A CBC Europe S.à r.l. detém, desde 6 de janeiro de 2026, 19,52% do capital registrado e 19,60% dos direitos de voto do Colt CZ Group, posição que a mantém como segunda maior acionista e confere ao grupo brasileiro assento no conselho de supervisão. Cada ponto percentual de crescimento do grupo tcheco-americano tem, portanto, implicação financeira direta e mensurável para a CBC.

O mecanismo é duplo. O primeiro é a valorização patrimonial da participação: à medida que o Colt CZ Group eleva receitas, margens e lucros, o valor de mercado do grupo tende a se apreciar, e a fatia da CBC acompanha esse movimento. O segundo é o fluxo de dividendos: o conselho do grupo propôs, para o exercício de 2026, dividendo de CZK 30 por ação, sujeito à aprovação em assembleia. Com 12.227.843 ações em carteira, a CBC receberá, se aprovado, cerca de CZK 366,8 milhões apenas a título de dividendos, sem considerar eventuais ajustes derivados do desempenho do segundo semestre.

O resultado do primeiro semestre sugere que o desempenho anual pode superar o teto do guidance revisado. O grupo declarou operar com "alto nível de receitas esperadas já cobertas por pedidos confirmados" ao entrar no segundo semestre, linguagem que, no vocabulário de relações com investidores, sinaliza confiança acima da média na entrega dos números projetados. Se o guidance de CZK 8,0 a 8,5 bilhões de EBITDA ajustado se materializar, o segundo semestre precisará entregar entre CZK 3,4 e 3,9 bilhões, meta plausível dado que o segundo semestre costuma ser mais forte em contratos M&LE.

Para a CBC, há ainda um terceiro vetor de impacto, ainda latente, mas em maturação: o fornecimento de componentes e insumos ao Colt CZ Group por empresas do próprio ecossistema brasileiro. A Taurus Armas, controlada indiretamente pela CBC Global Ammunition, possui tecnologia de metal injection molding (MIM) exclusiva no Hemisfério Sul, e cada arma produzida pelo grupo tcheco pode conter até 14 peças fabricadas por esse processo. Negociações avançadas entre a Česká zbrojovka e a Taurus foram sinalizadas pela visita de executivos tchecos a São Leopoldo em maio de 2025. Se um contrato formal de fornecimento se concretizar, a CBC passará a capturar valor não apenas como acionista do grupo, mas como integrante de sua cadeia produtiva.

Impacto financeiro estimado da participação da CBC no Colt CZ Group (2026)

CBC Europe S.à r.l. - participação de 19,52% no Colt CZ Group

Item

Base de cálculo

Estimativa para a CBC

Participação no capital

19,52% de 62.637.242 ações

12.227.843 ações

Dividendo proposto (CZK 30/ação)

12.227.843 × CZK 30

~CZK 366,8 milhões

Guidance EBITDA 2026 (teto)

CZK 8,5 bi × 19,52%

~CZK 1,66 bilhão (proporcional)

Guidance receita 2026 (teto)

CZK 33,0 bi × 19,52%

~CZK 6,44 bilhões (proporcional)

Nota: os valores proporcionais não representam receita da CBC, mas a parcela do resultado consolidado do Colt CZ Group atribuível à sua participação acionária. Fonte: elaboração LRCA com base nos dados do Colt CZ Group SE.

O MoU com a Frankenburg e a camada adicional de crescimento
Os resultados do primeiro semestre foram divulgados no mesmo dia em que este veículo reportava o Memorando de Entendimento assinado pelo Colt CZ Group com a Frankenburg Technologies, empresa estoniana desenvolvedora do Mark I, míssil interceptador de drones com custo estimado em menos de um décimo do preço de um Stinger convencional. O MoU insere o Colt CZ Group, pela primeira vez, no segmento de sistemas de armas guiadas.

A combinação dos dois eventos é relevante para a leitura do que está se construindo. O resultado do H1 2026 demonstra que a base industrial do grupo, especialmente o segmento de energéticos, está operando com margens elevadas e capacidade de absorver novos negócios sem deteriorar a estrutura de custos. O Mark I, propulsionado por motor foguete de combustível sólido, é exatamente o tipo de produto que pode utilizar a nitrocelulose energética da Synthesia como insumo. Se a cadeia produtiva do míssil for integrada ao grupo, o segmento de energéticos, já o mais rentável, teria uma nova fonte de receita de alta margem, em mercado com demanda estruturalmente crescente na Europa.

Para a CBC, o encadeamento é direto: melhores margens no segmento de energéticos elevam o EBITDA consolidado do Colt CZ Group; EBITDA maior amplia a base de distribuição de dividendos e valoriza a participação acionária. O MoU com a Frankenburg não é, portanto, apenas uma notícia de expansão de portfólio do grupo tcheco. É mais uma peça na construção de valor que, ao final da cadeia, chega ao balanço da CBC.

Síntese
O primeiro semestre de 2026 entrega, com clareza matemática, a tese que sustentou a decisão da CBC de trocar a Sellier & Bellot por participação acionária no Colt CZ Group em maio de 2024: um grupo verticalmente integrado, em ciclo de rearmamento global, com três segmentos complementares e margens crescentes vale mais, e distribui mais, do que uma subsidiária isolada, por mais sólida que fosse. Com 19,52% do capital e assento no conselho de supervisão, a CBC não é espectadora desse crescimento. É co-proprietária dele.

O guidance revisado para CZK 31,0 a 33,0 bilhões de receita e CZK 8,0 a 8,5 bilhões de EBITDA ajustado em 2026, lastreado em pedidos confirmados, coloca o Colt CZ Group em trajetória de tornar-se, em valor de EBITDA, um dos maiores grupos de defesa da Europa Central. Para a CBC, isso significa que a decisão de 2024, por vezes questionada nos mercados brasileiros à época, estava muito bem calibrada.

16 setembro, 2026

C-390 com mísseis Barracuda amplia o alcance comercial e estratégico da Embraer

Integração paletizada poderá transformar o cargueiro em vetor de ataque de longo alcance e reforçar propostas à Índia, à Polônia e a operadores atuais, mas o projeto ainda está na fase de desenvolvimento 

Imagm renderizada apenas para ilustração


*LRCA Defense Consulting - 16/09/2026

O C-390 Millennium poderá ganhar uma capacidade que altera substancialmente seu valor militar e comercial. A Embraer e a norte-americana Anduril assinaram, em 21 de julho de 2026, durante o Farnborough International Airshow, um memorando de entendimento para buscar a integração do míssil de cruzeiro Barracuda-500M em um sistema paletizado lançado pela rampa traseira da aeronave.

A proposta não transforma permanentemente o cargueiro em bombardeiro. O conceito emprega módulos de missão removíveis, procedimentos convencionais de lançamento aéreo e uma arquitetura de instalação e retirada rápidas. Assim, a mesma aeronave poderá continuar executando transporte de tropas e cargas, reabastecimento em voo, evacuação aeromédica, busca e salvamento e ajuda humanitária e, quando necessário, receber um conjunto capaz de produzir ataques de precisão a longa distância.

Essa combinação interessa especialmente a países que necessitam de mobilidade estratégica, mas também procuram ampliar seus estoques e vetores de ataque sem adquirir uma frota dedicada de bombardeiros. Índia e Polônia aparecem como oportunidades particularmente coerentes. A primeira conduz um programa para uma nova aeronave de transporte médio e negocia ampla produção local. A segunda é alvo de uma campanha industrial do C-390 e, simultaneamente, firmou parceria para fabricar o próprio Barracuda-500M em território polonês.

Uma capacidade além do transporte aéreo 
Segundo a Embraer, a solução paletizada permitirá ao C-390 lançar dezenas de munições simultaneamente. A formulação deve ser interpretada como objetivo do conceito, porque as empresas ainda não divulgaram a configuração final, o número exato de armas por aeronave, o cronograma de ensaios nem a data em que a capacidade poderá estar disponível aos clientes.

A Anduril informa que o Barracuda-500M possui alcance superior a 500 milhas náuticas, aproximadamente 926 quilômetros, e capacidade de carga útil acima de 100 libras, cerca de 45 quilogramas. A empresa apresenta a família Barracuda como uma resposta à necessidade de recompor rapidamente estoques de munições de precisão: o projeto teria 50% menos componentes, exigiria 95% menos ferramentas e consumiria metade do tempo de fabricação de sistemas comparáveis.

O ganho operacional decorre da combinação entre alcance, quantidade e dispersão. Um C-390 poderia decolar de uma base afastada, aproximar-se apenas até uma área segura de lançamento e liberar as armas fora do alcance imediato de parte das defesas inimigas. A aeronave não teria de penetrar o espaço aéreo mais contestado. Depois da missão, o equipamento paletizado poderia ser retirado e o cargueiro retornaria às tarefas logísticas.

O modelo acompanha a tendência, já explorada pelo programa norte-americano Rapid Dragon, de usar aeronaves de transporte como plataformas de lançamento. A diferença comercial é relevante: em vez de vincular o ataque de longo alcance apenas a caças e bombardeiros caros e disponíveis em pequena quantidade, a força aérea passa a utilizar parte de sua frota logística para gerar massa em momentos críticos.

Índia combina grande necessidade e ambição industrial 
A Índia é provavelmente o mercado no qual a nova capacidade produz o maior impacto potencial. Embraer e Mahindra Group mantêm uma aliança para oferecer o C-390 ao programa Medium Transport Aircraft da Força Aérea Indiana. As empresas pretendem, caso a aeronave seja selecionada, estabelecer produção, montagem, cadeia de suprimentos e manutenção, reparo e revisão no País, com a ambição de transformar a Índia em centro regional do programa.

O Barracuda acrescenta à proposta uma função que vai além da substituição de cargueiros. Para uma força aérea que precisa operar em grandes distâncias e diante de ambientes estratégicos distintos, um conjunto removível de mísseis permitiria preservar a frota para transporte na rotina e convertê-la para ataque de longo alcance em uma crise. A capacidade poderia complementar, e não substituir, os vetores dedicados já existentes ou futuros.

Também haveria espaço para uma oferta industrial ampliada, envolvendo montagem do avião, manutenção e eventual participação indiana em equipamentos de missão. Isso dependeria, porém, de negociações específicas entre governos e empresas, de autorizações de exportação norte-americanas e das exigências indianas de conteúdo local. Até agora, a Índia não selecionou o C-390 nem anunciou a aquisição do Barracuda para emprego aéreo. A reportagem publicada pelo portal indiano IDRW identifica uma oportunidade plausível, mas não registra uma decisão oficial da Força Aérea Indiana.

Polônia reúne as duas pontas da proposta 
Na Polônia, a convergência é ainda mais direta. A Embraer promove o KC-390 como futura aeronave de transporte e reabastecimento do país e assinou memorandos com empresas polonesas. Em março de 2026, apresentou a aeronave à Wojskowe Zakłady Lotnicze Nr 2, em Bydgoszcz, como parte da cooperação para manutenção, reparo e revisão. A fabricante brasileira também já avaliou a possibilidade de montagem final na Polônia.

Paralelamente, a Polska Grupa Zbrojeniowa e a Anduril anunciaram, em julho, um acordo para produzir em Bydgoszcz a versão terrestre Surface-Launched Barracuda-500M. A parceria prevê fabricação local e integração industrial. Embora a variante terrestre não seja idêntica ao sistema paletizado destinado ao C-390, a presença do fabricante, da cadeia produtiva e da tecnologia no mesmo país reduz barreiras de cooperação e cria uma combinação comercial particularmente atraente.

Para Varsóvia, uma frota de C-390 poderia cumprir transporte, reabastecimento em voo, apoio a forças dispersas e lançamento de munições a longa distância. Para a Embraer, a oferta uniria aeronave, capacidade militar adicional e participação da indústria local. Isso não significa que a Polônia tenha decidido adquirir o cargueiro ou integrar nele o Barracuda. Significa que duas campanhas antes separadas passaram a formar um possível ecossistema comum.

Operadores atuais também entram no horizonte 
A possibilidade não se limita a Índia e Polônia. Em julho de 2026, a Embraer relacionava Brasil, Portugal, Hungria, República da Coreia, Países Baixos, Áustria, República Tcheca, Uzbequistão, Suécia, Emirados Árabes Unidos, Eslováquia e Lituânia entre os países que haviam selecionado o C-390. Em agosto, a Colômbia tornou-se o 13º país a escolher a plataforma.

Nem todos terão interesse político, doutrinário ou financeiro em adquirir mísseis de cruzeiro. Para alguns operadores, o valor principal do C-390 continuará sendo a mobilidade aérea, o apoio humanitário ou o reabastecimento em voo. Outros, especialmente membros da OTAN preocupados com a disponibilidade de munições e com operações dispersas, poderão considerar o módulo paletizado uma forma de ampliar a capacidade de ataque sem alterar permanentemente suas aeronaves.

A modularidade cria ainda uma vantagem de ciclo de vida. Um cliente poderia adquirir inicialmente o avião para transporte e, mais tarde, incorporar o conjunto de missão, desde que a integração seja certificada e autorizada. A Embraer passaria a oferecer não apenas uma aeronave multimissão, mas uma plataforma capaz de receber novas funções por meio de equipamentos removíveis.

Oportunidade relevante, com obstáculos técnicos e políticos 
A integração exigirá mais do que acomodar paletes no compartimento de carga. Será necessário demonstrar separação segura pela rampa, comportamento aerodinâmico, comunicação com as munições, planejamento de missão, interfaces de comando, compatibilidade eletromagnética, segurança de armamento e procedimentos de certificação. Ensaios em solo e em voo deverão validar o emprego em diferentes velocidades, altitudes e condições operacionais.

Há também questões de soberania e controle de exportações. O Barracuda é um sistema norte-americano, e cada venda dependerá das autorizações aplicáveis. Países interessados poderão exigir acesso a interfaces, integração com seus próprios sistemas de comando e controle, autonomia sobre dados de missão e participação industrial. A atratividade do conceito será medida não apenas pelo alcance do míssil, mas pelo preço, pela escala de produção e pela liberdade real de emprego concedida ao operador.

Para o Brasil, a iniciativa abre uma discussão adicional. O C-390 é a principal plataforma militar de exportação da indústria aeronáutica nacional, mas a arma proposta é estrangeira. A parceria amplia a competitividade internacional do avião e pode gerar engenharia, integração e serviços para a Embraer. Ao mesmo tempo, evidencia a importância de o País desenvolver munições de longo alcance e arquiteturas próprias que, no futuro, também possam ser integradas à aeronave, como o MARSUP, que em desenvolvimento pela SIATT e pela FAB, por exemplo.

C-390 passa a disputar uma categoria mais ampla 
O memorando com a Anduril deve ser visto como o início de um caminho tecnológico e comercial, não como capacidade já entregue. Ainda assim, ele modifica a percepção do produto. O C-390 deixa de ser apresentado somente como substituto moderno de cargueiros táticos e passa a disputar espaço como plataforma modular para produzir efeitos operacionais a longa distância.

Na Índia, isso reforça uma proposta associada à produção local e à autonomia industrial. Na Polônia, conecta o avião brasileiro a um míssil que poderá ser fabricado no próprio país. Entre operadores atuais, oferece uma rota de crescimento da capacidade sem a compra imediata de uma nova classe de aeronaves. Se a integração cumprir o que promete, a Embraer terá acrescentado ao C-390 um argumento que combina logística, dissuasão e poder de ataque em uma única frota.

BermudAir passa a operar o E190F e leva o E-Freighter da Embraer às Américas pela primeira vez

Aeronave arrendada da Regional One entra na frota da companhia bermudense e amplia a atuação do programa de cargueiros da fabricante brasileira para o continente americano



*
LRCA Defense Consulting - 16/09/2026

A BermudAir tornou-se, nesta terça-feira, a segunda operadora mundial do E-Freighter, programa de cargueiros da Embraer (NYSE: EMBJ; B3: EMBJ3). A companhia aérea sediada nas Bermudas passará a operar um E190F arrendado da Regional One, marcando a primeira presença do modelo nas Américas desde o início do programa. O anúncio foi feito em conjunto pelas duas empresas.

A operação soma-se à frota atual da BermudAir, formada por dois E175 e dois E190, com a qual a companhia atende dez destinos entre o Caribe, os Estados Unidos e o Canadá. Com a chegada do E190F cargueiro, a empresa passa a oferecer também transporte de carga expressa na mesma rede em que já opera voos de passageiros.

“O transporte de carga é um próximo passo natural para nós”, disse Adam Scott, fundador e CEO da BermudAir. Segundo ele, a companhia construiu “uma operação confiável e dimensionada corretamente”, conectando Bermuda e o Caribe à América do Norte, e o E190F permitirá usar essa mesma rede para atender empresas locais, o comércio eletrônico e o frete urgente entre as ilhas atendidas pela companhia.

Pela Regional One, o diretor de investimentos George Mamangakis afirmou que a empresa está “muito feliz” em ter a BermudAir como segunda operadora do E190F e primeira do E-Freighter nas Américas, classificando a bermudense como uma parceira que ajudará a demonstrar a versatilidade da plataforma. Ele acrescentou que o marco representa mais um passo no crescimento do programa E190 P2F (passenger-to-freighter, ou de passageiro para cargueiro), com a expectativa de expandir a base global de operadoras do modelo.

Já Arjan Meijer, presidente e CEO da Embraer Aviação Comercial, destacou que a escolha do E190F pela BermudAir representa a entrada em serviço do modelo na América do Norte e no Caribe pela primeira vez. Para o executivo, a companhia bermudense, uma das que mais crescem na região, está expandindo suas operações para além do transporte de passageiros ao explorar o mercado de carga aérea, o que reforça, segundo ele, a proposta de valor do E-Freighter.

O programa e a aeronave 

O E-Freighter foi lançado pela Embraer em maio de 2022 e converte aeronaves da família E-Jets, de passageiros para cargueiros dedicados, no âmbito do programa passenger-to-freighter (P2F). O E190F, construído sobre a plataforma dos E-Jets, combina os porões inferior e superior para oferecer mais de 100 m³ de volume de carga e até 13,5 toneladas de carga útil.

Segundo a Embraer, o modelo foi projetado para preencher a lacuna entre os turboélices de carga e as aeronaves maiores de fuselagem estreita, com custos operacionais até 30% menores do que os das aeronaves clássicas de fuselagem estreita, volume de carga 35% superior e alcance mais de três vezes maior do que o dos turboélices de carga de grande porte. A fabricante brasileira também classifica o E190F como o jato cargueiro mais silencioso e ecológico de sua categoria.

O programa recebeu certificação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) em julho de 2024, seguida pela aprovação da Federal Aviation Administration (FAA), dos Estados Unidos, e da European Union Aviation Safety Agency (Easa), da União Europeia, o que autorizou operações globais do modelo. Antes da BermudAir, a operadora de lançamento do E190F foi a Bridges Air Cargo, de Malta, que iniciou os voos comerciais em março de 2026 entre Colônia, na Alemanha, e Larnaca, no Chipre.

Frota da Regional One 
A Regional One, com sede no sul da Flórida, é especializada no mercado de aviação regional e mantém desde o lançamento do E-Freighter cinco encomendas firmes do E190F, das quais duas aeronaves convertidas já foram entregues e estão em operação. A empresa integra o grupo que também controla a Bridges Air Cargo e vem ampliando gradualmente seus pedidos ao longo do programa, iniciados com duas conversões em 2022.

A Embraer estima um mercado potencial de cerca de 700 aeronaves no segmento de cargueiros regionais ao longo de vinte anos, somando a substituição de modelos antigos e o crescimento da demanda por logística ligada ao comércio eletrônico. Até o momento, o E190F segue sem concorrente direto certificado no segmento de conversão de jatos regionais em cargueiros.

Contexto da BermudAir 
Fundada em 2023, a BermudAir opera a partir do Aeroporto Internacional L. F. Wade, nas Bermudas, e vem ampliando seu leque de destinos no continente americano ao longo de 2026, com a entrada em novos pontos no Caribe e na América Central. A entrada do E190F cargueiro na frota, ainda que operada de forma independente das rotas de passageiros, se soma a esse movimento de expansão e diversificação de negócios da companhia.

Para o setor aeroespacial brasileiro, a operação do E-Freighter pela BermudAir amplia a presença internacional do portfólio da Embraer para além dos segmentos executivo, regional de passageiros e militar, consolidando o programa de cargueiros como nova frente comercial da fabricante.

Título soberano pode destravar venda de três C-390 da Embraer para Angola

Governo brasileiro avalia mecanismo financeiro para reduzir os riscos da operação, que poderá transformar Angola no primeiro operador africano do cargueiro multimissão 



*LRCA Defense Consulting - 16/09/2026

O governo brasileiro avalia aceitar um título soberano de Angola como parte da estrutura financeira destinada a viabilizar a aquisição de três C-390 Millennium da Embraer. A alternativa, revelada pelo jornal Valor Econômico, acrescenta um elemento concreto às conversações mantidas há pelo menos três anos e procura resolver o principal obstáculo da operação: garantir recursos para uma compra de elevado valor sem transferir integralmente o risco ao crédito público brasileiro.

A possibilidade ainda não representa contrato assinado. Embraer, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e governo angolano não anunciaram a aprovação definitiva do financiamento, o valor do negócio, a configuração das aeronaves nem o cronograma de entregas. A discussão do instrumento soberano, entretanto, indica que a negociação avançou da manifestação política de interesse para a busca de uma solução financeira estruturada.

Interesse angolano atravessa três anos de negociações 
O interesse de Angola pelo cargueiro brasileiro tornou-se público em agosto de 2023, durante visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Luanda. Na ocasião, foi mencionada a possível aquisição de quatro aeronaves. Em maio de 2025, durante encontro com o presidente João Lourenço em Brasília, Lula atualizou o número para três unidades e informou que faria gestões junto à Embraer e ao BNDES para financiar a venda.

Na mesma oportunidade, o presidente brasileiro afirmou que a Embraer poderia participar da recuperação da frota angolana de A-29 Super Tucano e fornecer aeronaves adicionais. Angola já opera produtos da fabricante brasileira, o que reduz parte das dificuldades relacionadas ao relacionamento industrial, à formação de pessoal e ao apoio logístico.

As conversações ganharam novos sinais em 2026. Em janeiro, o ministro da Defesa de Angola visitou a Base Aérea de Beja, em Portugal, onde conheceu a operação do KC-390 pela Força Aérea Portuguesa. Em 17 de agosto, João Lourenço recebeu em Luanda Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, para tratar da modernização da aviação militar angolana.

Na mesma semana, durante o Encontro Empresarial Angola-Brasil 2026, um representante do BNDES afirmou que a instituição mantinha contatos com os ministérios angolanos das Finanças e da Defesa e esperava anunciar uma operação de números expressivos. O objeto permaneceu sob sigilo, mas o contexto reforçou a percepção de que a compra dos cargueiros se encontrava entre os projetos examinados pelos dois governos.

Título soberano procura distribuir o risco 
Um título soberano é uma obrigação financeira emitida por um governo. No caso em estudo, Angola reconheceria formalmente uma dívida, com valor, prazo, juros, moeda e condições de pagamento definidos. O papel poderia servir como garantia da operação, ser adquirido por uma instituição financeira ou integrar uma estrutura combinada com recursos do BNDES e cobertura do Seguro de Crédito à Exportação.

O mecanismo não elimina o risco, mas permite identificá-lo e distribuí-lo com maior clareza. A segurança da operação dependerá da moeda em que o título for emitido, de sua liquidez, do prazo de vencimento e da capacidade angolana de cumprir os pagamentos. Um título denominado em kwanzas carregaria risco cambial elevado. Uma emissão em dólares ou euros seria mais atraente ao financiador, mas criaria para Angola uma obrigação em moeda forte.

A questão cambial já havia sido mencionada pelo BNDES como um dos desafios para retomar operações de crédito na África. Aeronaves são negociadas internacionalmente em dólares, enquanto Brasil e Angola trabalham predominantemente com suas moedas nacionais. A construção de garantias adequadas será, portanto, tão importante quanto a decisão política de realizar a compra.

O debate ocorre enquanto Angola procura ampliar suas fontes de financiamento. Em setembro, a ministra das Finanças, Vera Daves de Sousa, informou à Reuters que o país mantinha conversações com o JPMorgan sobre a possível inclusão de títulos públicos angolanos em um índice de dívida de mercados de fronteira. Ao final de 2025, Angola possuía cerca de US$ 18,6 bilhões em dívida pública interna e avaliava retornar aos mercados internacionais em 2027, conforme as condições financeiras.

C-390 atenderia à renovação do transporte militar 
A aquisição possui justificativa operacional. Angola tem território de aproximadamente 1,25 milhão de quilômetros quadrados, longa costa atlântica e necessidades permanentes de transporte militar, apoio logístico, evacuação aeromédica, ajuda humanitária e mobilidade entre regiões distantes. Sua aviação de transporte ainda depende de aeronaves soviéticas e russas das famílias Antonov e Ilyushin, algumas delas de concepção antiga e com crescente dificuldade de sustentação.

O C-390 pode transportar tropas, veículos, cargas paletizadas e equipamentos de grande volume, realizar lançamentos aéreos, evacuação aeromédica, busca e salvamento e combate a incêndios. Na configuração KC-390, também executa reabastecimento em voo. A plataforma complementaria os C-295 adquiridos por Angola, destinados a missões de menor porte, sem reproduzir exatamente suas funções.

A adoção do cargueiro também aproximaria Angola de uma comunidade internacional de operadores em expansão. O compartilhamento de experiências, treinamento, doutrina e soluções logísticas tende a reduzir custos e facilitar a incorporação de capacidades ao longo da vida útil da aeronave.

Primeiro operador africano teria valor estratégico 
Se confirmada, a encomenda poderá tornar Angola o primeiro operador africano do C-390. A venda forneceria à Embraer uma referência operacional no continente e fortaleceria campanhas em outros mercados, como África do Sul, Marrocos e Egito. Para o Brasil, significaria combinar política externa, financiamento à exportação e expansão da Base Industrial de Defesa.

A operação também reforçaria a presença brasileira em um país de língua portuguesa com o qual o Brasil mantém relações históricas de defesa e cooperação técnica. O apoio estatal a uma exportação dessa natureza não é incomum no mercado aeronáutico, no qual grandes contratos dependem frequentemente de crédito, garantias e participação diplomática dos países fabricantes.

A cautela, contudo, permanece necessária. O interesse angolano está demonstrado, a aeronave foi apresentada às autoridades do país e os governos procuram um mecanismo de financiamento, mas nenhum contrato foi anunciado. O avanço decisivo ocorrerá somente com a aprovação das garantias, a definição da estrutura de pagamento e a formalização da encomenda pela Embraer.

A novidade trazida pelo estudo de um título soberano não encerra a negociação, mas mostra que ela entrou em uma etapa mais concreta. Se a engenharia financeira conseguir proteger os recursos brasileiros e oferecer a Angola condições compatíveis com sua capacidade de pagamento, os três C-390 poderão abrir uma nova frente para a Embraer e para a indústria de defesa do País no continente africano.

15 setembro, 2026

Do Mar Negro à Amazônia Azul: a revolução dos drones navais

Experiência da TideWise com o Tupan e o Programa SUPPRESSOR mostra que o Brasil já domina elementos importantes de uma transformação que está alterando o combate no mar, com plataformas não tripuladas assumindo missões de vigilância, guerra de minas, ataque, defesa antiaérea e operação em rede 



*LRCA Defense Consulting - 16/09/2026

Uma embarcação sem tripulação navega no mar, executa uma missão complexa e permanece sob supervisão de um centro de operações situado a centenas de quilômetros. No setor civil, a imagem já deixou o campo das projeções. No Brasil, a TideWise vem empregando seus USVs Tupan em operações offshore e demonstrando que autonomia, sensoriamento e comando remoto podem ser combinados em missões reais.

Uma reportagem publicada pelo Olhar Digital em agosto chamou atenção para essa capacidade ao relatar uma operação do Tupan supervisionada a mais de 300 quilômetros de distância. O dado, observado isoladamente, já é relevante para a indústria marítima. Quando colocado ao lado da evolução dos sistemas não tripulados na Ucrânia e no Oriente Médio, entretanto, assume outra dimensão: tecnologias semelhantes estão contribuindo para uma transformação da guerra naval.

A questão para o Brasil, portanto, não é apenas se embarcações autônomas podem reduzir custos ou retirar pessoas de atividades perigosas. É saber como a capacidade tecnológica que já existe no País poderá ser integrada a uma arquitetura militar distribuída, na qual navios tripulados, USVs, veículos submarinos, aeronaves não tripuladas, sensores e centros de comando atuem como componentes de uma mesma rede.


O Tupan demonstra a tecnologia no mundo real 
A TideWise, fundada em 2019, desenvolveu o Tupan, primeira embarcação não tripulada registrada na Marinha do Brasil, em 2020. Desde então, a plataforma avançou de demonstrações para operações comerciais. Em dezembro de 2025, por exemplo, o Tupan II realizou para a Petrobras um levantamento hidrográfico pós-dragagem no Porto de Imbetiba, em Macaé, percorrendo 27 milhas náuticas de linhas de sondagem em operação 100% remota. Segundo a empresa, a missão reduziu o tempo no mar em 33%, otimizou o processamento de dados em 57%, eliminou a exposição de pessoal a bordo e reduziu a pegada de carbono em 75%.

Em abril de 2026, TideWise, Petrobras e UFES iniciaram outra prova de conceito, desta vez para levantamento hidrográfico e geofísico na área piloto do futuro Parque Eólico Offshore RJ-02-Aracatu e ao longo do traçado de seu cabo submarino, próximo ao Porto do Açu. O Tupan foi empregado com batimetria multifeixe, sonar de varredura lateral e perfilador de subfundo.

O próprio LRCA registrou outra missão particularmente significativa: o Tupan II realizou coleta autônoma de DNA ambiental a mais de 200 quilômetros da costa, permanecendo cerca de 143 horas em navegação ininterrupta e operando nas proximidades de uma plataforma de produção. Essas experiências ajudam a demonstrar persistência, navegação autônoma, integração de sensores e operação remota em condições reais, atributos diretamente relevantes para aplicações militares.

Do uso dual ao Programa SUPPRESSOR 
A passagem da tecnologia civil para a defesa já está em curso. Em parceria com a EMGEPRON, a TideWise desenvolve o Programa SUPPRESSOR, voltado a embarcações não tripuladas para guerra de minas, guerra antissubmarino e patrulha naval.

O SUPPRESSOR-X, demonstrador tecnológico da família, participou em novembro de 2025 do exercício ARAMUSS e da MINEX-2025. Durante o ARAMUSS, realizou lançamento e recolhimento automáticos de um ROV da BRS Robótica Submarina e completou, em 45 minutos, as etapas de busca, classificação e identificação de uma mina de exercício. Poucos dias depois, na Base Naval de Aratu, repetiu a capacidade com identificação positiva de minas navais inertes.

Na mesma ocasião, a EMGEPRON e a Marinha do Brasil assinaram protocolo de intenções para possível aquisição de quatro unidades do SUPPRESSOR 7. O programa também teve sua mobilidade estratégica testada: SUPPRESSOR 7, SUPPRESSOR 11 e a Base Operacional Móvel foram avaliados quanto à compatibilidade com o KC-390 Millennium, permitindo conceber o deslocamento rápido do sistema para diferentes pontos do litoral.

Esse conjunto é importante porque mostra que o Brasil não parte do zero. Já existem plataforma, software, integração com sensores e veículos submarinos, experiência operacional e uma arquitetura logística em desenvolvimento. 


A Ucrânia transformou o drone naval em arma de negação do mar 
A guerra na Ucrânia oferece a referência mais contundente sobre o efeito militar dessas tecnologias. Sem dispor de uma esquadra de superfície comparável à russa, a Ucrânia combinou mísseis antinavio, ataques de longo alcance, inteligência e embarcações não tripuladas para impor severas restrições à Frota do Mar Negro. O RUSI observa que essa combinação contribuiu para afastar parte importante da força naval russa de Sevastopol e criar uma ameaça de negação de área em águas relativamente confinadas.

O efeito estratégico não decorre apenas do número de navios destruídos. Uma plataforma barata e difícil de detectar pode obrigar o adversário a instalar barreiras, reforçar vigilância, deslocar helicópteros e aeronaves para defesa, manter sistemas de armas permanentemente alertas e retirar unidades de bases consideradas vulneráveis. Em outras palavras, o USV pode produzir efeitos muito superiores ao seu próprio valor financeiro.

De embarcação explosiva a plataforma multimissão 
A evolução ucraniana também desmontou a ideia de que o drone naval seria apenas um 'barco-bomba'. A família Magura passou por sucessivas adaptações. Em maio de 2025, a inteligência militar ucraniana afirmou que plataformas Magura V7 armadas com mísseis AIM-9 destruíram dois caças russos Su-30 sobre o Mar Negro. Pouco depois, foram apresentados publicamente Magura V5, V6P e V7 em configurações destinadas a ataque naval, emprego multifuncional, defesa antiaérea e uso de módulo de metralhadora.

A evolução continuou. Na parada ucraniana de sistemas não tripulados de agosto de 2026, foram exibidos Magura V7 com sistema de mísseis Sea Dragon, o maior Magura MV11 configurado como transportador de drones interceptadores e variantes Sargan capazes de levar quadricópteros de ataque, foguetes de 122 mm, sistemas de guerra eletrônica e defesa antiaérea.

O significado tático é profundo: o USV deixa de ser uma arma com finalidade única e passa a ser uma plataforma modular. Dependendo da carga útil, pode observar, retransmitir comunicações, transportar outros drones, realizar guerra eletrônica, lançar armas ou atuar como sensor avançado de uma força naval.

O Oriente Médio mostra a força da ameaça assimétrica 
No Mar Vermelho, os houthis demonstraram outra vertente do problema. O U.S. Central Command registrou repetidamente o emprego ou preparação de USVs contra navios militares e mercantes. Em 12 de junho de 2024, um USV atingiu o cargueiro M/V Tutor, provocando graves danos e inundação na praça de máquinas.

A experiência do Mar Vermelho reforça uma lição distinta da ucraniana. Mesmo quando sistemas não tripulados não conseguem atingir grandes combatentes de superfície, eles podem ameaçar navios mercantes, meios logísticos e infraestrutura marítima, obrigando forças muito mais sofisticadas a dedicar sensores, aeronaves, munições e horas de operação à sua neutralização.

O RUSI chama atenção exatamente para essa assimetria: navios de guerra bem defendidos demonstraram elevada capacidade de sobrevivência, mas unidades menos protegidas, embarcações auxiliares e o tráfego comercial permanecem muito mais expostos. A guerra de minas, por sua vez, torna-se um campo especialmente atraente para sistemas não tripulados, pois permite afastar tripulações da zona de maior risco.

O próximo passo: um USV transportando outros robôs 

Talvez uma das implicações mais importantes seja a transformação do USV em plataforma para outros sistemas não tripulados. A experiência ucraniana já aponta nessa direção. Um veículo de superfície pode transportar UAVs de reconhecimento ou ataque, drones interceptadores, ROVs, sonares, sensores de inteligência eletrônica e repetidores de comunicações.

O conceito encontra paralelo direto no que o SUPPRESSOR-X já demonstrou ao lançar e recolher automaticamente um ROV. Em vez de pensar o veículo apenas como uma embarcação, passa a ser possível imaginá-lo como um nó móvel capaz de levar sensores e outros robôs até uma área de interesse, operar durante longos períodos e transmitir informações para centros de comando muito distantes.

Para a Marinha do Brasil, isso abre possibilidades particularmente relevantes na guerra de minas, vigilância de áreas marítimas, proteção de infraestrutura crítica, guerra antissubmarino e inteligência, vigilância e reconhecimento. 

Da plataforma isolada para a frota híbrida 
O movimento não está restrito aos países envolvidos diretamente nos conflitos. Em relatório publicado em junho de 2026, o Government Accountability Office dos Estados Unidos afirmou que as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio demonstram que sistemas robóticos e autônomos estão perturbando a guerra naval e desafiando formas tradicionais de superioridade marítima.

Segundo o GAO, a U.S. Navy pretende avançar para uma frota híbrida, na qual capacidades menores, mais numerosas e distribuídas complementem navios, submarinos e aeronaves convencionais de alto valor. A lógica não elimina as grandes plataformas. Ao contrário, procura ampliar sua consciência situacional, alcance e capacidade de sobrevivência por meio de uma camada de sistemas distribuídos e, em alguns casos, sacrificáveis.

Essa distinção é essencial. Fragatas, submarinos e navios-aeródromos não se tornam obsoletos porque existem drones navais. O que muda é a composição do sistema de combate: uma parcela crescente das missões de maior risco, persistência ou repetitividade poderá ser transferida para plataformas sem tripulação. 


A IA muda a escala da operação 

Há, entretanto, uma diferença entre teleoperar uma embarcação e construir uma verdadeira força autônoma. Se cada USV exigir um operador dedicado durante toda a missão, parte do ganho de escala desaparece. A mudança decisiva ocorre quando a automação permite que um operador supervisione diversos veículos, intervindo principalmente diante de situações anormais ou decisões de comando.

Nesse modelo, algoritmos podem assumir tarefas como manutenção de rota, prevenção de colisões, controle de formação, gerenciamento de sensores e resposta a contingências previamente estabelecidas. O ser humano permanece no ciclo decisório, especialmente quando há emprego de força, mas deixa de executar manualmente cada movimento da plataforma.

É aí que inteligência artificial e autonomia deixam de representar apenas conveniência tecnológica e passam a produzir massa operacional. Um centro remoto poderia supervisionar diversos USVs e estes, por sua vez, poderiam controlar ou lançar outros sistemas, criando uma rede de sensores e efetores espalhada por extensa área marítima.

A Amazônia Azul oferece um cenário natural para essa transformação

Para o Brasil, a discussão possui uma dimensão geográfica evidente. A Marinha precisa acompanhar uma extensa área marítima e proteger portos, terminais, plataformas de petróleo e gás, cabos submarinos, rotas comerciais e outros ativos estratégicos. Manter meios tripulados permanentemente próximos a todos esses pontos é operacional e economicamente difícil.

Sistemas não tripulados persistentes podem ampliar a presença sem exigir proporcional aumento do número de grandes navios e tripulações. USVs poderiam funcionar como piquetes de sensores, patrulhar áreas predefinidas, investigar contatos, apoiar operações de guerra de minas, transportar ROVs e UAVs ou fornecer dados para unidades tripuladas que permanecessem fora das zonas de maior risco.

A mobilidade estratégica demonstrada pelo Programa SUPPRESSOR acrescenta outra possibilidade. Sistemas transportáveis por KC-390 e apoiados por bases móveis poderiam ser deslocados rapidamente entre diferentes regiões do litoral, reforçando temporariamente áreas consideradas críticas. 


Autonomia também cria vulnerabilidades
A experiência de combate também recomenda cautela. USVs dependem de navegação, comunicações, sensores, processamento embarcado e software. Todos esses elementos podem ser atacados. Interferência ou falsificação de sinais GNSS, bloqueio de enlaces, guerra eletrônica, ataques cibernéticos e captura física da plataforma tornam-se parte da disputa.

Quanto maior a distância entre o centro de controle e o veículo, maior a importância da resiliência das comunicações e da capacidade de continuar a missão durante períodos de perda de enlace. Isso conduz inevitavelmente a graus maiores de autonomia embarcada, mas também amplia os desafios de segurança, certificação, regras de engajamento e controle humano.

Há ainda uma questão industrial. Para que uma capacidade militar desse tipo seja verdadeiramente soberana, não basta fabricar o casco no Brasil. Processadores, sistemas de navegação, comunicações criptografadas, enlaces satelitais, sensores, software de autonomia, inteligência artificial e componentes eletrônicos críticos tornam-se parte da mesma equação estratégica.

Uma oportunidade para a Base Industrial de Defesa 
Nesse aspecto, a trajetória da TideWise merece atenção além da própria empresa. O desenvolvimento do Tupan e do SUPPRESSOR mostra a possibilidade de uma tecnologia de uso dual criar escala no mercado civil e, simultaneamente, gerar capacidades militares. Clientes comerciais, operações offshore e expansão internacional podem contribuir para sustentar competências industriais que seriam difíceis de manter exclusivamente com encomendas de defesa.

O Brasil dispõe ainda de outros projetos de sistemas não tripulados de superfície, submarinos e aéreos. O ARAMUSS 2025 reuniu, ao lado do SUPPRESSOR, o VSNT do CASNAV, o LAUV Triton, o FlatFish e o NAURU, mostrando que já existe um ecossistema nacional que pode ser explorado de forma integrada.

O desafio passa a ser transformar projetos e demonstrações em doutrina, escala, interoperabilidade e capacidade operacional permanente.

A pergunta já mudou 
A experiência da Ucrânia mostra que uma força naval inferior pode usar sistemas não tripulados para impor custos e restringir a liberdade de ação de uma potência naval superior. O Mar Vermelho demonstra que plataformas relativamente simples podem ameaçar o tráfego comercial e obrigar forças avançadas a gastar recursos consideráveis para proteger linhas marítimas. Os Estados Unidos, por sua vez, já tratam sistemas robóticos como componentes de uma futura frota híbrida.

No Brasil, o Tupan demonstra que embarcações autônomas podem realizar missões reais no ambiente offshore, enquanto o Programa SUPPRESSOR leva essa competência para problemas militares concretos, como guerra de minas, patrulha e guerra antissubmarino.

Por isso, talvez a pergunta relevante já não seja se a Marinha do Brasil precisará incorporar embarcações autônomas em maior escala.

A questão passa a ser quantas serão necessárias, quais missões deverão cumprir, qual grau de autonomia terão e, principalmente, como serão integradas aos navios, submarinos, aeronaves, satélites, centros de comando e demais sistemas que defendem a Amazônia Azul.

A guerra naval não tripulada deixou de ser uma hipótese. Ela já está sendo testada diariamente em combate. Para o Brasil, a oportunidade está em transformar a capacidade tecnológica que já possui em vantagem operacional antes que essa transformação deixe de ser oportunidade e passe a ser requisito.

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