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04 abril, 2026

"Não deixamos ninguém para trás": o ethos militar que fortalece exércitos em combate

Uma reportagem sobre o princípio que transforma soldados em irmãos...


*LRCA Defense Consulting - 04/04/2026

"Como ex-piloto de helicóptero de combate que voou por dois anos em território hostil em zonas de combate, posso dizer que é muito reconfortante saber que, se você fosse abatido... tínhamos uma fé inabalável de que o exército dos EUA pararia tudo e que a nova missão em toda a área de responsabilidade seria seu resgate. Sou incrivelmente grata pela coragem do CSAR. Eles vão conseguir o segundo piloto."
— Amber S., ex-piloto de helicóptero de combate (LinkedIn) 

O presente e o passado se encontram sobre o Irã
Nas últimas horas, o mundo acompanha em tempo real uma operação de busca e resgate de combate (CSAR) em território inimigo profundo. Um F-15E da Força Aérea dos EUA foi abatido sobre o sudoeste do Irã, e equipes de resgate foram imediatamente mobilizadas. Pelo menos um helicóptero envolvido na operação foi atingido por fogo iraniano, mas conseguiu pousar com segurança. O presidente Trump está sendo informado pessoalmente sobre a perda do caça e sobre o andamento das buscas. Fontes ocidentais confirmaram que um dos tripulantes foi resgatado com sucesso.

O testemunho da ex-piloto de helicóptero de combate Amber S., citado na abertura desta reportagem, ganha assim um contexto dramático e atual: equipes CSAR especializadas são mantidas em alerta constante e acionadas rapidamente quando uma aeronave é perdida. "Esses pessoal do CSAR come, respira e dorme essa missão", disse o especialista Buckley. "Nenhum homem para trás. Nenhuma mulher para trás. Vamos buscá-los."

Uma promessa não escrita, mas gravada na alma
Embora amplamente conhecida e repetida nas Forças Armadas dos EUA, a expressão "leave no man behind" ("não deixe ninguém para trás") não está registrada em nenhuma doutrina militar oficial. É uma cultura das forças armadas e, por isso mesmo, carrega um peso ainda maior.

Esse ethos está gravado inclusive nos juramentos individuais: o juramento do Aviador diz "jamais deixarei um aviador para trás"; o juramento do Soldado afirma "jamais deixarei um camarada caído". As equipes CSAR desempenham papel central nesse compromisso, especialmente no resgate de pilotos abatidos em território inimigo. Se um piloto não for resgatado em menos de uma hora, sua chance de sobrevivência cai para cerca de 50% e despenca rapidamente.

Segundo pesquisa publicada no Journal of Military Ethics, a frase cria um compromisso individual profundo entre os combatentes que, por sua vez, fortalece o espírito de luta e o moral da unidade, ao mesmo tempo em que garante às famílias que seus parentes não serão abandonados, vivos ou mortos.

O impacto no moral: por que isso muda tudo
O impacto devastador no moral de uma unidade cujos soldados se sentem abandonados é bem documentado: a dúvida se instala, a confiança se corrói, e a própria base da camaradagem desmorona.

O inverso também é verdadeiro e tem consequências táticas concretas. As Forças Armadas britânicas, durante a Primeira Guerra Mundial, perceberam o valor estratégico do resgate para o moral: pilotos se mostravam muito mais dispostos a voar em situações perigosas quando sabiam que seriam resgatados se fossem abatidos.

Isso não é apenas sentimento. Isaac Ben-Israel, chefe de estudos de segurança da Universidade de Tel Aviv, articula a dimensão prática: "Pessoas que sabem que não serão abandonadas lutam melhor."

Casos históricos que definiram o princípio

- Capitão Roger Locher, Vietnã, 1972: o capitão Roger Locher foi abatido sobre território norte-vietnamita e conseguiu evitar a captura por 23 dias em território inimigo. O general John Vogt ordenou que todas as unidades sob seu comando paralisassem as operações, incluindo grandes campanhas de bombardeio sobre Hanói, e se concentrassem no esforço de resgate. Aproximadamente 150 aeronaves americanas foram redirecionadas para localizar e resgatar um único piloto. Locher foi recuperado com sucesso.

- A Batalha de Mogadíscio, Somália, 1993: a queda de um helicóptero durante a Batalha de Mogadíscio e os esforços subsequentes de recuperação resultaram na morte de 18 soldados americanos e 73 feridos. As consequências foram enormes, levaram a uma mudança de política pelo governo Clinton e à retirada das forças dos EUA da Somália. O preço pago para honrar o princípio pode ser alto, mas o abandono cobra um preço ainda maior.

- Matt Maupin, Iraque, 2004–2008: o especialista Matt Maupin foi capturado em 2004 perto do Aeroporto de Bagdá. Por anos, as unidades na área onde ele foi capturado continuaram investigando qualquer pista, por menor que fosse. Em março de 2008, seus restos mortais foram finalmente encontrados, numa operação batizada de Operation Trojan Honor (Operação Honra Troiana). Quatro anos de busca por um único soldado.

- Jessica Lynch, Iraque, 2003: durante a missão de resgate de Jessica Lynch, soldados do 75º Regimento de Rangers se recusaram a partir até que os restos mortais de todos os outros soldados mortos na emboscada fossem recuperados, mesmo tendo que cavar corpos em decomposição e transportá-los de volta aos helicópteros. "Isso deve dar uma ideia de quão seriamente o Exército dos EUA leva a crença de não abandonar um camarada caído."

Imagem meramente representativa

O caso israelense: quando a devoção encontra o dilema
Israel é talvez o exemplo mais extremo dessa devoção e de suas contradições.

Para Israel, a política é clara: "Sempre deixamos nenhum para trás. Soldados mortos também, mesmo valor", disse a porta-voz do Exército israelense Noa Meir à Newsweek. O país chegou a trocar mais de mil prisioneiros palestinos para resgatar o soldado Gilad Shalit, mantido em cativeiro por cinco anos.

Mas Israel também desenvolveu o lado mais sombrio dessa obsessão: a Diretriz Hannibal.

Criada em 1986 após uma série de sequestros de soldados israelenses no Líbano e as polêmicas trocas de prisioneiros que se seguiram, a diretriz autorizava o uso de força máxima para impedir a captura de soldados israelenses, mesmo que isso significasse colocar em risco a vida dos próprios cativos.

Segundo Asa Kasher, que escreveu o código de ética do Exército israelense, a doutrina equivalia à máxima: "Um soldado morto é melhor do que um soldado sequestrado."

A diretriz foi formalmente revogada em 2016, mas investigações do jornal Haaretz revelaram que a ordem foi invocada em 7 de outubro de 2023 em três instalações militares infiltradas pelo Hamas, potencialmente colocando em risco civis além dos militares.

O paradoxo israelense revela a tensão máxima do princípio: o mesmo amor feroz pelo combatente pode, nas circunstâncias erradas, voltar-se contra ele.

As equipes CSAR: a promessa em carne e osso
O resgate em combate é uma corrida contra o tempo e contra o inimigo. Assim que um piloto é dado como desaparecido, a coleta de inteligência começa em escala total: "Tudo, desde inteligência humana até imagens de satélite, drones e sinais eletrônicos, tudo é usado para localizar o piloto", explicou Scott Fales, ex-sargento-mor e paraquedista de resgate veterano da Batalha de Mogadíscio.

A operação CSAR nunca é simples. Requer caças para defesa aérea, aeronaves de supressão de defesas inimigas, helicópteros de resgate, aviões-tanque para reabastecimento em voo, drones de reconhecimento e muito mais, tudo coordenado enquanto o inimigo já está alerta e à procura dos tripulantes.

O lema oficial dos paraquedistas de resgate da Força Aérea americana diz tudo: "These Things We Do, That Others May Live" (Fazemos essas coisas para que outros vivam).

Por que isso importa, mesmo quando custa caro
Há críticos que argumentam que o princípio pode ser perigosamente caro. O comprometimento pode entrar em um ciclo vicioso: ao tentar resgatar um soldado, perdem-se outros e esses também "não podem ser abandonados".

Mas a maioria dos analistas militares e veteranos converge para uma conclusão: o custo de não honrar o princípio é ainda maior.

Quando uma nação percebe que suas Forças Armadas falharam em honrar esse compromisso, a confiança pública se estilhaça, enviando uma mensagem gélida que mina os valores pelos quais o exército existe para defender.

E há uma dimensão muito humana nisso. O testemunho da piloto Amber S. com o qual abrimos esta reportagem não é retórica: é a diferença entre um piloto que mergulha em território inimigo confiante em seus camaradas, e um que hesita. Entre uma tripulação que dá tudo de si e uma que guarda algo em reserva, por precaução.

Hoje, sobre o sul do Irã, essa promessa está sendo testada mais uma vez, em tempo real e sob fogo inimigo, com recompensas em dinheiro sendo oferecidas pelo governo iraniano para capturar os tripulantes americanos vivos. E mesmo assim, as equipes CSAR estão lá.

Porque é isso que fazem... Que outros possam viver!

Brasil aposta na SIATT para romper dependência estrangeira em mísseis e consolidar soberania naval

Seleção da empresa para revalidar o Penguin Mk2 marca virada estratégica: do reparo de armamento norueguês à produção de mísseis 100% nacionais 

Imagem meramente ilustrativa

*LRCA Defense Consulting - 04/04/2026

Em um movimento que vai muito além da manutenção rotineira de armamentos, a Marinha do Brasil escolheu a SIATT, empresa brasileira especializada em sistemas guiados, para conduzir a revalidação e extensão de vida útil do míssil ar-superfície Penguin Mk2 Mod 7, equipado nos helicópteros AH-11B Super Lynx da Força Naval. A decisão, materializada a partir de um Pedido de Informação (RFI) lançado pela Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha (DSAM) em 11 de dezembro de 2025, inaugura um novo capítulo da indústria de defesa nacional: o Brasil começa a dominar tecnologias críticas que antes dependiam integralmente de fornecedores estrangeiros.

O RFI abriu uma janela de cerca de um mês, de 15 de dezembro de 2025 a 16 de janeiro de 2026, para que empresas manifestassem interesse em inspecionar, requalificar e ampliar a vida operacional dos mísseis noruegueses Penguin, fabricados originalmente pela Kongsberg Defence & Aerospace. A escolha da SIATT para o processo representa a aposta da Marinha na capacidade nacional de lidar com tecnologias estrangeiras sensíveis, transferindo para o país o conhecimento em guiagem infravermelha passiva e em extensão de vida de sistemas de armas complexos.

Uma empresa em ascensão acelerada
A SIATT não é uma novidade no ecossistema de defesa brasileiro, mas vive hoje seu momento de maior protagonismo. Fundada em 2015 e especializada no desenvolvimento e integração de sistemas de defesa e segurança, incluindo mísseis e armamentos, a empresa inaugurou em setembro de 2025 sua nova sede e unidade de produção em São José dos Campos, com 6.000 metros quadrados de instalações. A nova planta abriga laboratórios de pesquisa e desenvolvimento de última geração, além de linhas de produção modernas, infraestrutura que coloca a SIATT em patamar comparável a congêneres de países com tradição armamentista consolidada.

A nova unidade gerará 200 empregos diretos e mais 600 oportunidades indiretas. Parte dessa expansão foi viabilizada por uma parceria estratégica com o conglomerado dos Emirados Árabes Unidos: o EDGE Group comprou 50% da SIATT em 2023. O investimento já soma R$ 3 bilhões e deve gerar cerca de 800 empregos diretos e indiretos, consolidando São José dos Campos como polo da indústria de defesa.

Na inauguração da nova sede, o CEO do EDGE Group, Hamad Al Marar, deixou clara a ambição do projeto: "Esta foi a nossa primeira aposta no Brasil, em 2023, e desde então avançamos de uma planta de pesquisa e desenvolvimento para uma instalação industrial robusta. Isso reflete o compromisso da SIATT em reforçar a autonomia tecnológica do Brasil e gerar valor de longo prazo para sua base de defesa."

Do Penguin ao MARSUP: a lógica do aprendizado acumulado
A escolha da SIATT para trabalhar no Penguin Mk2 insere-se em uma estratégia deliberada da Marinha: usar a manutenção de sistemas estrangeiros como trampolim para o desenvolvimento de capacidade nacional equivalente. O know-how absorvido no processo de requalificação do míssil norueguês alimenta diretamente o programa MARSUP, o futuro míssil ar-superfície antinavio 100% brasileiro.

A SIATT e a Marinha do Brasil assinaram, em 23 de fevereiro de 2026, um Protocolo de Intenções para estudos e intercâmbio de informações voltados ao desenvolvimento conjunto de dois grupos de mísseis ar-superfície antinavio denominados MARSUP. O documento foi assinado pelo Vice-Almirante Carlos Henrique Zampieri, Diretor da DSAM, e por Rogério Salvador, presidente da SIATT, na sede da Diretoria, no Rio de Janeiro.

O foco dos estudos é avaliar a adaptação da tecnologia já consolidada no projeto do MANSUP para equipar aeronaves subordinadas ao Comando da Força Aeronaval da Marinha, com o objetivo de validar tecnicamente a evolução desta capacidade. Em outras palavras, o que voa sobre o oceano disparando mísseis a partir de fragatas poderá, em breve, ser lançado também por helicópteros navais, com tecnologia inteiramente concebida no Brasil.

Para o presidente da SIATT, o acordo com a Marinha tem dimensão histórica. "Este protocolo marca um avanço concreto na evolução de uma capacidade construída ao longo de anos pela indústria nacional. Ele demonstra a maturidade tecnológica alcançada pela SIATT e, sobretudo, o talento da nossa equipe, que tem sido protagonista na condução de projetos estratégicos e na entrega de soluções críticas para a Defesa do Brasil", declarou Rogério Salvador.

O MANSUP como espinha dorsal de uma família de mísseis
No centro da estratégia de autonomia da Marinha está o MANSUP  (Míssil Antinavio de Superfície), desenvolvido sob liderança da Força Naval com participação determinante da SIATT. O MANSUP é considerado um dos principais projetos estratégicos da Marinha e foi projetado para equipar navios da Força, incluindo as fragatas da Classe Tamandaré.

Em 2025, a Marinha e a SIATT assinaram um acordo de compartilhamento de propriedade intelectual para o desenvolvimento e a produção do míssil. O contrato define regras de uso, modificações, produção e exploração comercial dos mísseis no Brasil e no exterior, com pagamento de royalties à Marinha. Na prática, os sistemas poderão ser utilizados pelas Forças Armadas brasileiras e também exportados.

O alcance estratégico dessa família de mísseis vai além das fronteiras nacionais. A versão de longo alcance, o MANSUP-ER, já é vista como produto exportável de alto valor. "A ideia é ter essa produção local de mísseis, para podermos exportar para o mundo todo, principalmente para Ásia e África", disse o CFO do EDGE Group, Rodrigo Torres.

Amazônia Azul: dissuasão enquanto a indústria amadurece
A manutenção dos Super Lynx operacionais com o Penguin, enquanto o MARSUP ainda está em desenvolvimento, não é um detalhe logístico. É um elemento central da doutrina de negação do mar que a Marinha adota para proteger a chamada Amazônia Azul, a vasta área de jurisdição marítima brasileira com cerca de 4,5 milhões de quilômetros quadrados.

O lançamento aéreo de um míssil ar-superfície amplia o envelope de engajamento, viabiliza múltiplos vetores e maiores distâncias, reforçando a doutrina de negação do mar e elevando o poder dissuasório nacional. Integrado a meios navais e aeronavais, o sistema favorece operações combinadas, reduz janelas de reação e melhora a sobrevivência das plataformas.

A estratégia alinha-se à Política Nacional de Produção para Defesa e às diretrizes da Lei 14.133/2021, que prioriza aquisições locais e reduz a exposição do país a riscos de embargo tecnológico. Ao depender menos da Kongsberg e de outros fornecedores estrangeiros, o Brasil ganha não apenas em economia, mas em resiliência operacional.

Brasil na vanguarda regional
Analistas do setor veem na trajetória da SIATT os contornos de uma liderança regional em mísseis que o Brasil ainda não havia alcançado. O acordo com a SIATT, reconhecida como Empresa Estratégica de Defesa, fortalece a Base Industrial de Defesa ao impulsionar inovação, empregos qualificados e consolidação de conhecimento tecnológico. A expansão de uma família de mísseis nacionais cria um ciclo virtuoso, no qual demandas operacionais da Marinha estimulam soluções locais e sustentáveis para defesa.

Da revalidação de um míssil norueguês dos anos 1970 à produção de armas inteiramente nacionais com potencial de exportação para dezenas de países, esse é o arco estratégico que a Marinha do Brasil e a SIATT estão percorrendo juntas. A cada contrato assinado, a cada lançamento bem-sucedido do MANSUP, o Brasil se aproxima de um lugar até recentemente reservado a poucas nações: o de país capaz não apenas de usar, mas de projetar, fabricar e vender mísseis de combate ao mundo.

Saiba mais:
"Easter Egg" pode ter revelado o novo míssil de longo alcance da SIATT  

03 abril, 2026

Indústria Brasileira de Defesa: uma alternativa estratégica para o Golfo Pérsico

Com o conflito Irã–EUA abalando as cadeias de fornecimento ocidentais, a Indústria Brasileira de Defesa emerge como alternativa estratégica no mercado do Golfo Pérsico 

Imagem meramente ilustrativa

*LRCA Defense Consulting - 03/04/2026

Enquanto os bombardeiros americanos ainda deixavam rastros de fumaça sobre o Estreito de Hormuz e os países do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) contabilizavam os prejuízos econômicos dos ataques iranianos, analistas e executivos do setor de defesa já começavam a fazer as contas de um mercado que pode valer centenas de bilhões de dólares nos próximos anos. Para a indústria brasileira de defesa, o momento pode ser um divisor de águas: poucas vezes o país esteve tão bem posicionado para competir em um mercado historicamente dominado pelos EUA, Europa e Israel. 

Por que o Golfo precisa de novos parceiros
Em artigo publicado nesta quinta-feira pelo conceituado portal Breaking Defense, o analista Aleksandar Jovovic, vice-diretor do Centro para a Base Industrial (CIB) do Center for Strategic and International Studies (CSIS), em Washington, traçou um mapa preciso das implicações do conflito com o Irã para o mercado de defesa do Golfo. A conclusão central é inequívoca: os países da região precisarão reconstruir e modernizar suas capacidades militares em ritmo acelerado, e as cadeias de suprimento americanas, já sobrecarregadas com encomendas domésticas e o backlog de exportações pré-conflito, não serão capazes de atender a toda a demanda.

O cenário identificado por Jovovic é de urgência múltipla: reposição de interceptores de defesa aérea gastos aos milhares; reequilíbrio de arsenais com soluções de menor custo para combate a drones; expansão de plataformas aéreas de alerta antecipado; novos investimentos navais para lidar com a ameaça de embarcações de ataque rápido do Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos; e modernização de sistemas de sensoriamento, comando, controle e inteligência artificial. 

"As empresas americanas não podem descansar sobre os louros, e outros players no mercado global de defesa estão prontos para entrar." — Aleksandar Jovovic, CSIS / Breaking Defense

É precisamente nessa brecha que a Base Industrial de Defesa (BID) brasileira, que em 2025 registrou exportações de US$ 3,1 bilhões, um salto de 74% em relação ao ano anterior, enxerga sua maior oportunidade histórica no Oriente Médio. 

Embraer: a ponta de lança brasileira


- O Super Tucano como caçador de drones
O nome que primeiro vem à mente quando se fala em presença brasileira no mercado do Golfo é o da Embraer. E não por acaso: a companhia de São José dos Campos já havia marcado presença na IDEX 2025 em Abu Dhabi, a maior feira de defesa do Oriente Médio, com um portfólio centrado no cargueiro multimissão KC-390 Millennium e no avião de ataque leve A-29 Super Tucano. Caetano Spuladro Neto, vice-presidente de vendas e desenvolvimento de negócios para o Oriente Médio e África na Embraer, disse na ocasião ver "fortes oportunidades" na região para ambas as plataformas.

O conflito com o Irã veio confirmar e ampliar essa avaliação. O Super Tucano, já selecionado por 22 forças aéreas em todo o mundo e com mais de 600 mil horas de voo acumulado, acaba de receber uma atualização estratégica decisiva: a capacidade formal de combate a drones. Em abril de 2025, a Embraer anunciou modificações específicas para tornar a aeronave mais efetiva no combate a sistemas aéreos não tripulados (UAS) de médio e grande porte, exatamente o tipo de ameaça que as forças iranianas empregaram em larga escala durante o conflito.

A lógica é cirúrgica: o A-29 opera a custos muito inferiores aos de caças de quarta geração, é mais manobrável e mais lento que jatos, pode decolar de pistas não pavimentadas e ambientes austeros, e agora carrega mísseis ar-ar e sistemas de IA para identificação e interdição de drones. Ainda antes do conflito no Golfo, especialistas ucranianos já haviam recomendado o Super Tucano para missões similares contra os drones russos, um endosso operacional de peso que ressoa nos centros de decisão de compras militares do GCC.

O timing é favorável em outra dimensão: o A-29 acaba de ser homologado pelo Comitê de Catalogação da OTAN e incluído em lista de "projetos de relevância" da aliança. Na prática, isso facilita a troca de informações técnicas com países-membros e também com os países do Golfo que operam sistemas integrados com o padrão OTAN. A versão A-29N, adaptada especificamente aos padrões da aliança, já foi adquirida por Portugal, o primeiro país europeu a operar o tipo.

- KC-390: transporte estratégico e ISR
Complementando a oferta no segmento aéreo, o KC-390 Millennium posiciona-se como alternativa ao C-130 Hercules americano para missões de transporte militar, reabastecimento aéreo e, crescentemente, Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (ISR). Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar estão entre os países que vêm considerando opções de modernização de suas capacidades de transporte militar, e o KC-390, com seu custo operacional competitivo e tecnologia de ponta, é candidato natural. Em demonstração estratégica de alcance, um KC-390 da Força Aérea Brasileira já transportou um sistema ASTROS II com mísseis MANSUP durante a Operação Joana d'Arc, sinalizando a versatilidade da plataforma como vetor logístico de sistemas de armas nacionais. 

Em outubro de 2024, durante a Conferência de Usuários do C-390 Millennium realizada em São José dos Campos (SP), um material institucional interno da Embraer passou a circular na mídia especializada internacional, após ter sido publicado em uma mídia social por um dos participantes do evento. Ao lado de Brasil, Portugal, Hungria, Holanda, Áustria, Coreia do Sul e República Tcheca, operadores confirmados do C-390, o slide listava mais três países: Marrocos, Chile e Emirados Árabes Unidos (imagem abaixo).

 

SIATT e o MANSUP: o míssil que chegou ao golfo antes da guerra
A história mais surpreendente da indústria de defesa brasileira no Oriente Médio foi escrita antes mesmo do conflito estourar e começa com uma decisão estratégica do Grupo EDGE, o conglomerado de defesa dos Emirados Árabes Unidos, de adquirir 49,9% da empresa brasileira SIATT (Sistemas Integrados de Alto Teor Tecnológico) em 2023.

A SIATT é a desenvolvedora do MANSUP (Míssil Antinavio Nacional de Superfície), sistema de armas que representa o maior salto em soberania tecnológica da Marinha do Brasil em décadas. Com alcance de 70 km na versão padrão e de até 200 km na versão MANSUP-ER (Extended Range), o míssil possui guiagem inercial, busca por radar ativo e perfil de voo rasante, de difícil interceptação. O sistema coloca-se em um patamar comparável a mísseis antinavio consagrados, como o Exocet francês e o RBS-15 sueco.

A parceria com o EDGE foi além de um simples investimento: em 2025, durante a LAAD Defence & Security no Rio de Janeiro, foi assinado um acordo de licença para transferência de propriedade intelectual do MANSUP-ER, com direitos de produção, comercialização e exportação global. O contrato com as Forças Armadas dos Emirados Árabes Unidos para fornecimento do MANSUP e MANSUP-ER foi avaliado em até US$ 463 milhões, com projeções de que as exportações do sistema possam alcançar US$ 500 milhões até 2030.

A relevância estratégica para o novo cenário pós-conflito é direta: o Golfo Pérsico é exatamente o teatro onde ameaças navais assimétricas, como as embarcações de ataque rápido do IRGC mencionadas no artigo do CSIS, demandam sistemas antinavio de resposta rápida, custo acessível e capacidade de integração com múltiplas plataformas. O MANSUP pode ser lançado de navios, de plataformas terrestres costeiras e, no futuro, de aeronaves. O EDGE, com sede estabelecida em Brasília, a primeira fora dos Emirados, já negocia com múltiplos clientes potenciais na região.

Soma-se a isso o desenvolvimento de versões ar-superfície (MARSUP) e superfície-ar (SAM) do sistema, além de uma futura variante de ataque terrestre baseada nas tecnologias do MANSUP, consolidando uma família de armas inteligentes de origem brasileira em parceria com o grupo emiradense EDGE.

Projeções da SIATT indicam que as exportações do MANSUP podem gerar até US$ 500 milhões até 2030, com o EDGE Group já em negociações com múltiplos clientes no Oriente Médio, África e Ásia. 

Imagem meramente ilustrativa

Taurus e CBC: armas e munições para a reposição dos estoques
Se a reposição de interceptores de defesa aérea é o item mais visível da lista de compras urgentes do Golfo, a reposição de estoques de munição e armamentos leves vem logo atrás. É aqui que a Taurus Armas e a CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos) entram com força.

A Taurus, maior vendedora de armas leves do mundo, tem no Oriente Médio um foco estratégico crescente. Em 2023, a empresa celebrou um Memorando de Entendimentos com a SCOPA Military Industries para o estudo de viabilidade de uma joint venture na Arábia Saudita, com objetivo de fabricar localmente pistolas 9mm e fuzis 5,56mm e .300 BLK para comercialização em todo o GCC, alinhando-se com o programa Saudi Vision 2030 de industrialização nacional da defesa. Posteriormente, a iniciativa foi colocada em stand by mas ainda pode ser reativada, especialmente nesse novo cenário.

A empresa também avança em calibres maiores, visando o mercado militar: metralhadoras 7,62mm e .50 BMG, além de drones armados, estão no roadmap de produto, e a Taurus criou uma nova diretoria específica para o segmento militar global, chefiada por um executivo com 20 anos de experiência em Israel. Com exportações para mais de 100 países e cerca de 90% da produção destinada ao mercado externo, a empresa tem a escala e a capilaridade necessárias para atender demandas de grande volume.

Já a CBC, controladora da Taurus desde 2015, é uma das maiores fabricantes mundiais de munição e fornecedora certificada para países da OTAN, com produtos validados em mais de 130 países. Sua capacidade de produção em larga escala, com padrões MIL STD e NATO, posiciona a empresa como fornecedora natural para a reposição dos estoques de munição do Golfo. Na IDEX 2025, Taurus e CBC mantiveram estandes próprios, uma demonstração do peso que a empresa atribui ao mercado emiradense e do Golfo. 

O ecossistema: drones, eletrônica e sistemas integrados

- Stella Tecnologia e XMobots: o gigante e o versátil
O conflito com o Irã confirmou o que a guerra na Ucrânia já havia ensinado: drones são o elemento que mais rapidamente transforma o campo de batalha moderno. E o Brasil, surpreendentemente, tem respostas competitivas para esse mercado.

A Stella Tecnologia desenvolveu o Atobá, considerado o maior drone já produzido na América Latina, com impressionante capacidade de voo contínuo de 35 horas, 40% maior que o israelense Hermes 900, referência global da categoria. O sistema é voltado para missões de Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (IVR), e a empresa, após ter estabelecido parceria com o Grupo Thales, firmou em setembro de 2025 um Memorando de Entendimento com a Força Aérea Brasileira para o desenvolvimento conjunto de tecnologias-chave em aeronaves não tripuladas. Plataformas dessa categoria são exatamente as que o CSIS aponta como prioridade para monitoramento de possíveis ataques iranianos no Golfo.

A XMobots, por sua vez, posiciona-se no segmento de drones táticos de menor porte, com soluções versáteis para vigilância, reconhecimento e, em breve, ataque. Junto com a Mac Jee, a Modirum/Gespi e a AEL Sistemas, integra um ecossistema brasileiro de UAS que participou de workshops do Exército e que, diante da demanda do Golfo, pode abrir caminho para o mercado de exportação.

- Mac Jee e Akaer: sistemas de combate e blindados
A Mac Jee é uma das empresas brasileiras com presença mais consistente no Oriente Médio: participou da IDEX 2023, da IDEX 2025 e de múltiplas edições da Eurosatory europeia. A empresa atua nos segmentos de defesa e aeroespacial com foco em sistemas energéticos e de combate, como munição 155mm, o lançador de foguetes Armadillo, 
o drone kamikase ANSHAR, o DAGGER - um sistema inteligente de guiagem de munições aéreas, as munições aéreas BGB (MK) e a munição anti-bunker BPB 2000 (BLU 109) 

Já a Akaer, sediada em São José dos Campos - empresa brasileira de engenharia avançada para os setores de defesa e aeroespacial - é parceira-chave do programa Hürjet, treinador avançado e caça leve turco, e possui escritórios comerciais na Turquia e Portugal. 

A empresa foi contratada para desenvolver segmentos da fuselagem do Gripen já em 2009 e, desde então, acumulou mais de 500 mil horas de trabalho dedicadas ao programa. A relação com a Saab é estreita o suficiente para que a empresa sueca detenha uma participação acionária na Akaer, atualmente em 28%.

A Akaer também detém 10% da Saab Aeronáutica Montagens (SAM), compondo uma estrutura de governança compartilhada que funde os interesses brasileiros e suecos na produção das aeroestruturas. No programa Gripen, a empresa atua em engenharia de estruturas, desenvolvendo seções de fuselagem e asas, e representa um elo fundamental entre o projeto e a manufatura.

O Grupo EDGE já firmou acordos com a empresa, reforçando a ponte tecnológica com o Golfo. Em 2025, a Akaer e a turca ASELSAN, referência global em sistemas de alta tecnologia, assinaram um Memorando de Entendimento (MoU) para o desenvolvimento conjunto de soluções em defesa. Além disso, a Akaer lidera o consórcio Força Terrestre para a modernização do blindado Cascavel. 

Armadillo foi avaliado na Arábia Saudita

- AEL Sistemas e Atech: aviônica e C2
A AEL Sistemas, subsidiária do grupo israelense Elbit Systems no Brasil, desenvolve e integra sistemas aviônicos para plataformas militares. Sua participação decisiva nos programas Gripen, Super Tucano e KC-390, posiciona-a como elo natural em eventuais negociações de venda dessas aeronaves para o Golfo.

Já a Atech, empresa do Grupo Embraer especializada em sistemas críticos e tecnologias de apoio à tomada de decisão, tem participado de múltiplas edições da IDEX e é reconhecida como a 'System House' da Defesa Brasileira. Em um mercado que o CSIS identifica como prioritário para a modernização de Comando, Controle, Comunicações, Computadores e Inteligência (C4I), a Atech tem portfólio diretamente endereçado às necessidades do Golfo. 

A Atech é responsável pelo desenvolvimento e fornecimento de dois dos sistemas mais críticos do Programa Fragatas Tamandaré: o Sistema de Gerenciamento de Combate (CMS – Combat Management System) e o Sistema Integrado de Gerenciamento da Plataforma (IPMS – Integrated Platform Management System).

 

Fragata Tamandaré: um navio de guerra made in Brazil para o Golfo?
Entre os ativos menos óbvios, mas potencialmente mais transformadores, está o Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT), pérola da indústria de defesa naval brasileira. Construídas no Estaleiro Brasil Sul da TKMS em Itajaí, Santa Catarina, as fragatas representam um salto qualitativo sem precedentes na capacidade de construção naval militar do país: quatro navios de 3.380 toneladas, 107 metros de comprimento, arquitetura stealth, e um sistema de combate integrado compatível com padrões da OTAN, desenvolvido pela Atech (Grupo Embraer). A primeira delas, a F200 Tamandaré, foi incorporada à Marinha do Brasil no início de 2026; a quarta está sendo construída simultaneamente no mesmo estaleiro.
A pergunta que analistas e executivos do setor começam a fazer em voz alta é: haveria espaço para a plataforma, ou para uma versão dela, no Golfo Pérsico? A resposta curta é: sim, e o terreno já foi preparado.

- O elo TKMS: a ponte entre Brasil e o Golfo
O elemento central dessa equação não é apenas a fragata em si, mas quem a constrói: a Thyssenkrupp Marine Systems (TKMS), fabricante alemã e líder mundial em sistemas navais de combate. Em novembro de 2025, a Arábia Saudita foi reportada em conversações exploratórias com a própria TKMS sobre a possível aquisição de fragatas MEKO A-200, a família de navios mais avançada da empresa, da qual a Tamandaré é uma variante (MEKO A-100). O interesse saudita é parte de um esforço mais amplo das Forças Navais Reais Sauditas para modernizar sua frota e ampliar a capacidade industrial local, alinhado com o programa Visão 2030.

Isso cria uma janela estratégica única: o Brasil, ao construir as Tamandarés em território nacional com crescente índice de conteúdo local, tornou-se o primeiro polo de construção naval de combate da TKMS na América Latina, e um polo com capacidade comprovada, já operando quatro navios simultaneamente. Quando a TKMS negocia com o Golfo, o estaleiro de Itajaí está na mesa como referência operacional viva.

- O pacote brasileiro: muito além do casco
O que tornaria a oferta brasileira diferenciada no contexto do Golfo não é apenas o navio em si, mas o ecossistema que o rodeia e que já existe, integrado e testado. As fragatas Tamandaré saem com o Sistema de Gerenciamento de Combate (CMS) e o Sistema Integrado de Gerenciamento da Plataforma (IPMS) desenvolvidos pela Atech, empresa do Grupo Embraer. O sistema de mísseis antiaéreos é o Sea Ceptor (CAMM), com 12 células na configuração atual, com discussões em andamento sobre ampliar para 24 e integrar o CAMM-ER. O armamento antinavio é o MANSUP, exatamente o míssil que a SIATT e o Grupo EDGE dos Emirados já têm acordos de produção e exportação assinados. O segundo lote de fragatas, confirmado em fevereiro de 2026, já prevê integração nativa com MANSUP e MANSUP-ER, aumento do conteúdo nacional de 32% para 42%, e novas versões dos sistemas de guerra eletrônica.

Em outras palavras: uma fragata Tamandaré exportada para o Golfo chegaria com armamento que o próprio Grupo EDGE emiradense já co-detém a propriedade intelectual. A sinergia entre o consórcio Águas Azuis (TKMS + Embraer) e a parceria SIATT-EDGE cria um arranjo de fornecimento integrado que nenhum outro player pode oferecer na região: tecnologia alemã, sistemas de combate e aviônica brasileiros, e mísseis antinavio desenvolvidos em parceria com os Emirados.

- A demanda existe: o Golfo precisa de navios
O artigo do CSIS é explícito: o Golfo Pérsico historicamente dependeu da Marinha dos EUA para patrulhar e garantir a liberdade de navegação. O conflito com o Irã expôs essa dependência como um risco estratégico inaceitável. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Kuwait já vinham ampliando investimentos navais e o conflito acelerou essa agenda. Para as frotas orientais do GCC, que operam no próprio Golfo Pérsico e enfrentam a ameaça das Embarcações de Ataque Rápido (FIAC) do IRGC, bem como operações de minagem e drones navais iranianos, um navio de combate de 3.500 toneladas com capacidades integradas de guerra de superfície, antiaérea e antissubmarino representa exatamente o perfil requerido.

A TKMS confirmou, ao adquirir o Estaleiro Oceana em Itajaí em 2021, que o objetivo ia além das fragatas brasileiras: a empresa buscava construir 'futuras vendas para outras marinhas da região'. O estaleiro brasileiro, com capacidade de construção simultânea de quatro navios e crescente domínio tecnológico local, inclusive com o desenvolvimento de software de sistema de combate no Brasil, é hoje um hub de exportação naval em potencial.

Uma fragata Tamandaré exportada para o Golfo chegaria com mísseis MANSUP/MANSUP-ER cuja tecnologia o próprio Grupo EDGE dos Emirados co-detém, uma sinergia de fornecimento que nenhum outro competidor pode replicar.

- Os obstáculos reais
A oportunidade é real, mas os obstáculos são significativos. O PFCT foi dimensionado para a Marinha do Brasil, e expandir a capacidade produtiva do estaleiro para atender clientes externos exigiria investimentos adicionais e planejamento cuidadoso, especialmente num momento em que o segundo lote de quatro fragatas brasileiras já está sendo negociado. Há também o fator custo: cada fragata Tamandaré custa em torno de US$ 500–550 milhões no pacote completo, um valor competitivo para o padrão europeu, mas que precisa ser comparado com alternativas como as corvetas espanholas Avante 2200 da Navantia, com as quais a Arábia Saudita já firmou contratos.

Acresce que navios de combate são negócios de Estado, não apenas comerciais: exigem acordos governo a governo, garantias de suporte de longo prazo, transferência de tecnologia e manutenção in loco. O Brasil ainda está construindo essa estrutura institucional para exportação naval. A EMGEPRON, empresa estatal que gerencia o PFCT, já firmou MoUs com a SIATT e com o EDGE, sinalizando disposição para esse modelo, mas a estrutura precisa ser formalizada e testada em escala.

Ainda assim, o progresso é inegável. O Brasil deixou de ser apenas comprador de tecnologia naval para tornar-se um produtor com credencial operacional real. E no Golfo pós-conflito, onde países com orçamentos de defesa superiores ao PIB de nações inteiras buscam diversificar fornecedores e construir capacidade industrial própria, um parceiro que oferece construção local, transferência de tecnologia e sistemas integrados com DNA regional, via EDGE, pode surpreender os céticos.

O ativo oculto: a neutralidade brasileira
Há um trunfo brasileiro que nenhum catálogo de produto consegue capturar com precisão: a posição diplomática do Brasil. Em um cenário onde os países do Golfo sentiram-se mal informados pelos EUA antes e durante o conflito, como relatos de fontes do GCC citados no artigo do Breaking Defense confirmam, a percepção de que Washington priorizou seus próprios objetivos estratégicos cria um apetite genuíno por diversificação de parcerias.

O Brasil, que historicamente mantém relações com todos os atores da região sem alinhamentos exclusivos, e que é o único país do hemisfério sul com assento permanente nas maiores feiras de defesa do Oriente Médio, tem credenciais únicas de interlocutor neutro. Essa posição é reforçada pela parceria com o EDGE Group dos Emirados, que funciona como uma ponte de legitimidade regional para os produtos brasileiros, especialmente em negociações com Arábia Saudita e outros membros do GCC.

Além disso, o Brasil oferece algo que potências ocidentais raramente concedem com facilidade: transferência de tecnologia. A Taurus estuda joint venture na Arábia Saudita com produção local. O EDGE detém direitos de produção e exportação do MANSUP-ER. A Embraer cogita uma linha de montagem do Super Tucano em Portugal, um modelo que pode ser replicado na região. Isso alinha-se perfeitamente com as crescentes iniciativas de localização industrial do GCC, aceleradas pelo conflito e pela consciência da fragilidade das cadeias de suprimento globais.

O Brasil é o único país do hemisfério sul com presença consistente nas principais feiras de defesa do Oriente Médio, e sua neutralidade diplomática é um diferencial competitivo em um mercado que busca diversificar parcerias. 

Imagem meramente ilustrativa

Desafios e ressalvas
O caminho, porém, não é livre de obstáculos. O Brasil enfrenta restrições históricas em sua política de exportação de defesa: autorizações pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo Ministério da Defesa são obrigatórias, e a posição diplomática do governo Lula, que mantém canais abertos inclusive com Teerã, pode complicar negociações com países do Golfo que veem o Irã como ameaça existencial.

Há também o desafio da escala de produção. Enquanto a Embraer tem capacidade industrial para grandes encomendas, empresas menores como XMobots, Mac Jee e Stella Tecnologia precisarão expandir significativamente sua capacidade produtiva para atender à demanda de forças armadas de países ricos como os do GCC. O investimento do governo brasileiro de R$ 113 bilhões em defesa até 2026 pode ajudar a fortalecer essa cadeia produtiva, mas os efeitos plenos levam anos para se materializar.

A concorrência também será intensa. Além dos tradicionais fornecedores americanos e europeus, a Turquia, que já participa do programa MANSUP-ER via fornecimento do motor a jato KTJ-3200 pela Kale Jet Engines, tem ambições crescentes no mercado do Golfo. China e Coreia do Sul também disputarão fatias do mercado. E os próprios países do Golfo intensificam suas iniciativas de indústria de defesa própria.

Por fim, há a questão do timing: o Brasil chega a esse mercado com crescente consistência, mas ainda sem os laços históricos que definem os relacionamentos de décadas entre Washington e Riade, ou Londres e Abu Dhabi. Construir a confiança necessária para contratos bilionários exige presença sustentada, não apenas participação em feiras. 

Uma janela que não ficará aberta para sempre
O conflito com o Irã abriu uma janela de oportunidade para novos players no mercado de defesa do Golfo. Como bem observou o analista do CSIS, as cadeias de suprimento americanas estarão sobrecarregadas, os países do GCC buscam diversificação, e as iniciativas de localização industrial criam demanda por parceiros dispostos a transferir tecnologia. O Brasil, com seu portfólio diversificado que vai de aviões de ataque a mísseis antinavio, de munição certificada pela OTAN a drones de longa endurance, reúne condições únicas para aproveitar esse momento.

A parceria SIATT-EDGE já provou que o caminho é viável e lucrativo. A presença da Embraer, da Taurus e da CBC no IDEX demonstra que há estratégia e consistência por trás das ações. O ecossistema de empresas menores, como Stella, XMobots, Mac Jee, Akaer e Atech, está maduro o suficiente para dar o salto de exportação com os apoios corretos. As fragatas Tamandaré são uma opção real para os países do Golfo.

O que falta, talvez, seja a decisão política de transformar essa capacidade latente em política de Estado com a mesma determinação que o Programa Nuclear e o programa KC-390 foram sustentados ao longo de governos. A janela do Golfo está aberta. O Brasil tem as chaves. A questão é se as usará antes que outros o façam. 

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