Embraer estuda versão híbrida do eVTOL para ampliar
alcance; a aeronave já é objeto de uma parceria de defesa com a BAE Systems, de
um acordo com a Marinha do Brasil para emprego embarcado e de um modelo
trilateral de financiamento, com participação da Petrobras, para operações em
plataformas de petróleo no pré-sal
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| Imagem representativa produzida com IA pela LRCA Defense Consulting |
*LRCA Defense Consulting - 14/06/2026
Quando o CEO
da Eve Air Mobility, Johann Bordais, confirmou na sexta-feira (12/6) que a
empresa estuda uma versão híbrida do eVTOL, combinando propulsão elétrica com
motor a combustão para ampliar o alcance da aeronave além dos atuais 100 km, a
declaração chegou à imprensa como uma nota de mobilidade urbana. Para quem
acompanha o setor de defesa e a indústria de petróleo e gás, porém, a notícia
tem endereços bem definidos: as fronteiras terrestres brasileiras, o Oceano
Atlântico Sul e as plataformas do pré-sal.
O eVTOL da
Eve está simultaneamente no centro de três conversas estratégicas que poucas
pessoas têm acompanhado em conjunto. A primeira, iniciada em dezembro de 2021
com a empresa britânica BAE Systems, explora uma variante de defesa para
missões terrestres e táticas. A segunda, formalizada com a Marinha do Brasil em
novembro de 2025, investiga o emprego da aeronave a bordo de navios de guerra e
em apoio à Esquadra. A terceira aponta para o setor energético: em janeiro de
2026, a mesma Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM), que conduz o acordo
com a Embraer, firmou com a Xmobots e a Petrobras um acordo de R$ 50 milhões
para drones em plataformas offshore, estabelecendo um modelo de
financiamento trilateral que é diretamente replicável para o eVTOL. A
perspectiva do híbrido, ao resolver de uma vez o problema de alcance, conecta
essas três agendas.
A parceria de defesa: BAE Systems e quatro anos de
trabalho conjunto
Em dezembro
de 2021, a BAE Systems e a Embraer Defesa & Segurança anunciaram um estudo
conjunto para avaliar o emprego do eVTOL no mercado de defesa e segurança.
Engenheiros do setor Air da BAE Systems, em Lancashire (Reino Unido),
passaram a trabalhar com a equipe da Embraer em São José dos Campos para
explorar como uma variante de defesa poderia ser empregada em transporte de
pessoal, vigilância e reconhecimento, resposta a desastres e missões
humanitárias.
O relacionamento foi formalizado em julho de 2022, no Farnborough
International Airshow: BAE Systems e Embraer assinaram um Memorando de
Entendimento (MoU) para a potencial formação de uma joint venture
destinada a desenvolver conjuntamente uma variante de defesa da plataforma Eve,
acompanhado de uma Carta de Intenções (LOI) para a eventual aquisição de até
150 aeronaves. "As equipes da BAE Systems e da Embraer continuarão
trabalhando juntas para explorar como a aeronave, projetada para o mercado de
mobilidade urbana, pode oferecer capacidade adaptável e econômica como variante
de defesa", afirmou Jackson Schneider, então presidente e CEO da Embraer
Defesa & Segurança.
Desde 2023, a
BAE Systems também integra a cadeia de fornecimento do programa civil como
responsável pelo sistema avançado de armazenamento de energia (baterias) da
aeronave. Essa dupla presença, como potencial parceira militar e como
fornecedora do programa civil, mantém a empresa britânica com acesso
privilegiado à evolução tecnológica da plataforma e com interesse direto em seu
sucesso comercial.
O que a variante de defesa faria: missões e contexto
operacional
O estudo
conjunto Eve-BAE Systems identificou quatro grandes categorias de missão. Para
as Forças Armadas brasileiras, cada uma tem relevância específica:
Transporte
de pessoal: substituição de helicópteros leves em missões de inserção e
extração em áreas de difícil acesso. O eVTOL não requer pista, possui
manutenção significativamente mais simples que um helicóptero convencional e
tem custo operacional estimado muito menor. Para o Exército Brasileiro, que
opera rotineiramente em áreas remotas da Amazônia e na faixa de fronteira com
dez países, essa combinação de atributos é especialmente atraente.
Vigilância
e reconhecimento (ISR): configurado com sensores eletro-ópticos ou radar de
abertura sintética (SAR), operando de forma autônoma ou com piloto remoto. A
fuselagem atual acomoda até quatro passageiros, o que, em configuração de carga, equivale a um volume significativo de sensores ou equipamentos de missão.
Logística
avançada: reabastecimento de munição, medicamentos e equipamentos em
posições avançadas sem exposição de tripulações e sem necessidade de pista de
pouso. Para a doutrina de atuação da Força Terrestre em ambiente de selva e nas
operações de garantia da lei e da ordem na faixa de fronteira, a
disponibilidade de plataformas de logística de baixo custo operacional e alta
mobilidade vertical é um multiplicador de força relevante.
Resposta a
desastres: apoio a operações de defesa civil em inundações (como as do Rio
Grande do Sul em 2024), incêndios florestais e eventos climáticos extremos. A
FAB e o Exército já atuam rotineiramente nessas missões, e a disponibilidade de
aeronaves de baixo custo operacional ampliaria de forma significativa a
capacidade de resposta.
O próprio CEO
da Eve sinalizou, ao comentar o estudo do híbrido, que o motor a combustão não
seria indicado para grandes centros urbanos pelo ruído. Esse atributo, que
representa uma restrição no mercado civil, é irrelevante ou até secundário nos
contextos militares acima descritos. Em missões de logística de combate em área
remota, resgate sob fogo ou vigilância em zonas de conflito, o perfil acústico
não é o fator determinante.
O acordo com a Marinha: do convés ao Navio Aeródromo
Multifunção
O acordo
firmado em novembro de 2025 entre a DAerM e a Embraer estabelece dois eixos de
trabalho simultâneos: a avaliação do eVTOL EVE como aeronave tripulada
embarcada, e o desenvolvimento de drones navais nas categorias 3, 4 e 5 (CAT 3,
CAT 4, CAT 5), configurados em dois perfis operacionais. O primeiro é o VTOL
embarcado, com módulos de motores elétricos ascensionais instalados nas asas; o
segundo é a configuração de asa fixa convencional (CTOL), para operação a
partir de bases em terra ou do Navio-Aeródromo Multipropósito (NAM) Atlântico ou de outro navio dotado de um ponto de arregem compatível.
O escopo
operacional do eVTOL embarcado inclui ligação entre terra e navios, transporte
de cargas leves, operações especiais com infiltração e exfiltração de frações
de forças especiais, ISR, transferência de pessoal entre navios, MEDEVAC e
CASEVAC. O acordo também contempla estudos para uma versão navalizada do A-29
Super Tucano, para operações prolongadas de vigilância da Zona Econômica
Exclusiva (ZEE) e busca e salvamento. O vínculo entre Embraer e Marinha já
vinha sendo construído: em abril de 2024, as duas organizações haviam assinado
um acordo de parceria em tecnologia para o desenvolvimento de radares de busca
de superfície embarcados, integrando o Radar Gaivota X com os sistemas SisC2Geo
e SCUA.
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Imagem representativa produzida com IA pela LRCA Defense Consulting mostrando o EVTOL da Eve pousado no NAM Atlântico |
O gargalo do alcance e o que o híbrido resolve
Para o
emprego naval e offshore, o alcance atual de 100 km é o obstáculo
central. Os campos do pré-sal na Bacia de Santos situam-se entre 200 km e 300
km da costa. As plataformas da Bacia de Campos operam entre 80 km e 130 km, já
no limite superior. A margem equatorial, nova fronteira da exploração de
petróleo no Brasil, situa-se ainda mais longe da infraestrutura em terra.
Uma versão
híbrida, ao reduzir o volume de baterias e introduzir um motor a combustão no
mesmo envelope da fuselagem, poderia dobrar ou triplicar esse alcance. Bordais
descreveu o desafio com precisão: não se trata de adicionar um motor, mas de
redistribuir peso e volume interno, preservando a fuselagem e os sistemas já
certificados. A vantagem é que a Embraer poderia solicitar à Anac uma
certificação suplementar apenas para o novo sistema de propulsão, sem refazer
os testes já concluídos.
Há um
argumento logístico adicional que favorece o híbrido no ambiente naval:
plataformas de produção e navios de guerra dispõem de infraestrutura de
combustível consolidada, mas raramente possuem capacidade de recarga elétrica
de alta potência. Um eVTOL totalmente elétrico dependeria de sistemas de
recarga inexistentes no ambiente embarcado atual. O híbrido elimina essa
dependência e torna a aeronave compatível com a logística já presente a bordo,
sem investimento adicional em infraestrutura.
O modelo trilateral: Petrobras como financiadora do
ecossistema
O precedente
mais concreto para o financiamento de uma versão naval e offshore do
eVTOL já existe. Em janeiro de 2026, a Xmobots (que detém expressiva participação da Embraer) firmou com a DAerM e com a
Petrobras um acordo de R$ 50 milhões para o desenvolvimento e a certificação de
drones da família Nauru em navios e plataformas offshore. O programa
MMRE prevê testes na Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia (RJ) e em
embarcações da Marinha, com foco em monitoramento ambiental, vigilância
marítima, detecção de manchas de óleo e resposta a emergências.
A estrutura
do acordo é reveladora: a Petrobras entra como financiadora parcial porque tem
interesse direto nos resultados, a Marinha entra com a infraestrutura de testes
e o requisito operacional, e a empresa de tecnologia entra com a plataforma.
Esse modelo distribui custos e riscos entre três atores com motivações
complementares e é diretamente replicável para o eVTOL Eve.
A Petrobras
opera cerca de 100 plataformas de produção, a maioria em águas profundas. A
rotatividade de pessoal embarcado é feita quase inteiramente por helicópteros,
com custos operacionais elevados e dependência de condições meteorológicas. O
custo por passageiro-quilômetro de um helicóptero offshore é ordens de
grandeza superior ao que um eVTOL híbrido operaria. A empresa tem, portanto,
razões econômicas e operacionais para ser a terceira perna de um acordo que
também envolve a Embraer e a Marinha.
O programa civil como sustentação: certificação,
backlog e escala
A Eve
concluiu em maio de 2026 a etapa de voos pairados e de baixa velocidade com o
protótipo de engenharia, acumulando 59 voos e 2h27min de tempo de voo. Nos
próximos dois meses, a empresa iniciará a fase de transição, na qual a aeronave
passa do voo vertical para o horizontal, sustentada pela asa e pelo propulsor
traseiro. A certificação de tipo está prevista para 2028, e a fábrica de
produção será instalada em Taubaté (SP), dentro das instalações existentes da
Embraer.
A carteira de
pedidos e pré-pedidos ultrapassa 2.700 aeronaves, a maior entre os fabricantes
de eVTOLs do mundo, com valor estimado próximo de US$ 13,5 bilhões. Quanto
maior o volume de aeronaves civis produzidas, menor o custo unitário de
qualquer variante derivada da mesma plataforma. No plano financeiro, a Eve
ainda opera no negativo: o prejuízo líquido no primeiro trimestre de 2026 foi
de US$ 68,8 milhões, ampliação de 41% sobre o período anterior.
Assim, a expansão para
aplicações militares e offshore não é apenas diversificação de mercado:
é uma estratégia de sustentabilidade financeira que pode antecipar receitas
antes que o mercado civil de mobilidade urbana amadureça.
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Eve eVTOL:
dados, parcerias e cronologia
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Alcance atual (versão civil)
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~100 km
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Alcance potencial (versão híbrida)
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200–300 km (estimativa)
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Velocidade de cruzeiro
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~200 km/h
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Capacidade
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Piloto + 4 passageiros (6
em modo autônomo)
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Voos acumulados (protótipo)
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59 voos / 2h27min (até maio
de 2026)
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Certificação prevista
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2028 (Anac/EASA)
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Carteira de pedidos/pré-pedidos
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Mais de 2.700 aeronaves
(~US$ 13,5 bi)
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Parceria de defesa (BAE Systems)
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MoU jul/2022 (joint
venture); LOI até 150 aeronaves; fornecedora de baterias (2023)
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Missões de defesa terrestre
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Transporte de pessoal, ISR,
logística avançada, resposta a desastres
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Acordo DAerM-Embraer
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Nov/2025: eVTOL embarcado +
drones navais CAT 3/4/5 + Super Tucano navalizado
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Acordo Xmobots-DAerM-Petrobras
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Jan/2026: R$ 50 mi - precedente do modelo trilateral
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Missões navais previstas (eVTOL)
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Ligação terra-mar, carga
leve, op. especiais, ISR, MEDEVAC/CASEVAC
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Distância do pré-sal (Bacia de Santos)
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200–300 km: além do
alcance atual
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