General Tales Villela, Diretor de Fabricação do EB, fala
em relevância estratégica da empresa e confirma evolução da recuperação,
enquanto Avibras reativa negociações internacionais
*LRCA Defense Consulting - 29/01/2026
Em um movimento que sinaliza forte
apoio institucional à recuperação da Avibras Indústria Aeroespacial, o Exército
Brasileiro realizou nesta terça-feira (28) uma visita oficial à empresa
paralisada há mais de três anos. A comitiva foi liderada pelo General de
Divisão Tales Eduardo Areco Villela, Diretor de Fabricação, órgão responsável
pela interface entre o desenvolvimento e o uso de materiais de emprego militar
na Força Terrestre.
A visita ocorre em momento crítico: na mesma semana, representantes da Avibras, incluindo o ex-presidente Sami Youssef
Hassuani, estiveram na Indonésia para reuniões com o Exército local, principal
cliente internacional da empresa. Os dois eventos, separados por milhares de quilômetros,
mas unidos em propósito, revelam uma estratégia coordenada de reativação da
fabricante brasileira de sistemas de defesa.
Relevância estratégica para a soberania nacional
Em postagem publicada em seu
perfil no LinkedIn, o General Villela não economizou elogios à capacidade
instalada da Avibras. A empresa apresenta potencial instalado, com
infraestrutura produtiva, capacidades tecnológicas e ativos industriais, que
lhe confere relevância estratégica na Base Industrial de Defesa, declarou o
general.
Ainda segundo Villela, a Avibras possui
potencial contribuição significativa para a soberania nacional, para o
fortalecimento das capacidades operacionais da Força Terrestre e para a
autonomia tecnológica do Brasil no setor de Defesa. As palavras são
especialmente significativas vindas do oficial responsável por toda a cadeia de
fabricação e modernização de equipamentos militares terrestres.
A comitiva que acompanhou o General Villela incluiu o General de Brigada R1 Paixão, gerente do Programa Estratégico ASTROS, e o Coronel Alexandre Horstmann, além de engenheiros militares da CACTTAV (Comissão de Acompanhamento e Controle de Testes, Avaliação e Validação), Tenente-Coronel Eduardo Guerra e o Capitão Eduardo Henrique dos Santos. A presença do gerente do Programa ASTROS é particularmente relevante, dado que este é o principal contrato entre a Avibras e o Exército Brasileiro.
Programa ASTROS: coração do relacionamento
O Programa Estratégico ASTROS 2020 é um dos
projetos mais ambiciosos do Exército Brasileiro nas últimas décadas. Iniciado
em 2012 com previsão original de conclusão em 2023 (posteriormente estendida
para 2031), o programa contempla o desenvolvimento e fornecimento de míssil
tático de cruzeiro, foguete guiado e novas viaturas de combate.
Com investimentos que já superaram R$ 1
bilhão, o ASTROS 2020 visa dotar a Força Terrestre de capacidade de apoio de
fogo de longo alcance (até 300 km com o míssil de cruzeiro) com elevada
precisão e letalidade. O sistema é considerado estratégico para a chamada dissuasão
extrarregional, a capacidade de desencorajar ameaças mesmo antes que se
materializem.
Atualmente, o Exército Brasileiro opera 83
viaturas do sistema ASTROS, sendo 44 lançadoras múltiplas universais (LMU). A
versão mais moderna, o ASTROS II Mk6, incorpora sistema de comando e controle
digitalizado (C4I), com GPS, rádios criptografados e navegação digital, tecnologias que colocam o sistema brasileiro entre os mais avançados do mundo
em sua categoria.
A paralisação da Avibras em setembro de
2022 interrompeu brutalmente a continuidade do programa. Entregas de novos
equipamentos foram suspensas, o desenvolvimento do míssil tático de cruzeiro e
do foguete guiado ficou congelado, e a manutenção dos sistemas já entregues
passou a depender de estoques limitados de peças.
Evolução da recuperação: sinais concretos
O que torna a visita do General Villela
particularmente significativa é sua afirmação categórica: “Na ocasião, foi
possível acompanhar a evolução da recuperação da Avibras e a retomada gradual
de suas atividades”. Esta é a primeira vez que uma autoridade militar de alto
escalão reconhece publicamente progressos concretos no processo de
reestruturação da empresa.
O objetivo declarado da visita foi tratar
dos Projetos Estratégicos de Defesa desenvolvidos em parceria com a empresa,
bem como do andamento do reinício de suas operações. A menção explícita ao reinício
de operações sugere que há um cronograma estabelecido e que o Exército está
ativamente acompanhando sua implementação.
Documentos da nova administração, liderada
por Fábio Guimarães Leite desde agosto de 2025, já haviam indicado que a
empresa estava em processo de reestruturação, com diligências, auditorias e
manutenção das instalações industriais em andamento. A visita do Exército, no
entanto, eleva significativamente o nível de credibilidade dessas informações.
Missão Indonésia: preservando mercados críticos
Na mesma semana da visita do General Villela,
representantes da Avibras estiveram na Indonésia para reuniões com o Centro de
Armamento de Artilharia de Campanha do Exército Indonésio (Pussenarmed). A
delegação incluiu Sami Youssef Hassuani, ex-presidente e atual assessor da
empresa, e representantes da PT Poris Duta Sarana, empresa indonésia que atua
como intermediária local.
A Indonésia é cliente estratégico da
Avibras, operando 63 unidades do ASTROS II Mk6 adquiridas em contratos que
somaram entre US$ 350 milhões e US$ 400 milhões. Com a empresa paralisada há
mais de três anos, surgem questões críticas sobre manutenção, peças de
reposição, treinamento de operadores e, crucialmente, novos contratos.
A escolha de Hassuani para liderar a missão
não foi casual. Engenheiro com vasta experiência na indústria de defesa, ele
foi presidente da Avibras e conhece profundamente o mercado indonésio, tendo
participado das negociações originais. Sua presença demonstra que a empresa
está mobilizando seus melhores ativos humanos para preservar relações
comerciais vitais.
A sincronização entre a missão Indonésia e
a visita do Exército Brasileiro sugere coordenação estratégica. Ao demonstrar
que tem o apoio das Forças Armadas brasileiras, a Avibras fortalece sua posição
nas negociações internacionais. E ao manter clientes internacionais ativos, a
empresa demonstra ao Exército que continua relevante no mercado global.
O papel do General Villela: arquiteto da modernização
Para entender a importância da visita, é
crucial compreender quem é o General Tales Villela e o que representa a
Diretoria de Fabricação no Exército Brasileiro. Como Diretor de Fabricação,
Villela é responsável por planejar e coordenar todas as atividades relativas à
produção, revitalização, modernização e nacionalização de sistemas e materiais
de emprego militar.
A Diretoria de Fabricação é o elo entre o
desenvolvimento de produtos de defesa e seu uso pela tropa, gerenciando
contratos com a Base Industrial de Defesa e supervisionando os Arsenais de
Guerra. Villela está à frente de projetos estratégicos como a modernização do
blindado EE-9 Cascavel, o desenvolvimento do Guarani, negociações com a BAE
Systems para produção licenciada do obuseiro L119 Light Gun, e, crucialmente, o
Programa ASTROS 2020, além de outros projetos e programas importantes.
Em entrevistas anteriores, Villela
enfatizou repetidamente a importância de uma Base Industrial de Defesa nacional
forte e autônoma. Sua visão é de que empresas como a Avibras não são apenas
fornecedoras, mas parceiras estratégicas no desenvolvimento de capacidades
nacionais. A empresa fabrica não apenas o ASTROS, mas também domina tecnologias
críticas de propulsão, integração de sistemas e fabricação de veículos
blindados.
Sua declaração pública de apoio à Avibras,
portanto, não é protocolar. É um posicionamento estratégico que reflete a visão
do Alto Comando sobre a importância da empresa para a autonomia tecnológica
brasileira no setor de defesa.
Declaração exclusiva do General Villela
Em declaração exclusiva a esta editoria, o General Tales Villela foi ainda mais enfático sobre o comprometimento institucional com a recuperação da empresa:
“O EB, em especial EPEx/EME e DF, tem envidado todos os esforços para tornar a recuperação da empresa uma realidade. Temos tido reuniões sistemáticas há algum tempo. E, dessa última, assevero ter saído bastante satisfeito. Ainda há desafios, mas creio que com trabalho, dedicação, vontade política e força mental, superaremos. Prossigamos!”.
A menção ao Estado-Maior do Exército (EME) e ao Escritório de Projetos do Exército (EPEx) revela que o apoio à Avibras não é uma iniciativa isolada da Diretoria de Fabricação, mas uma política institucional coordenada pelos mais altos escalões da Força Terrestre. A referência a "reuniões sistemáticas há algum tempo" confirma que existe um processo estruturado de acompanhamento da recuperação, e não apenas visitas esporádicas.
A expressão "bastante satisfeito" usada pelo General é particularmente significativa. Em linguagem militar institucional, onde comedimento é a norma, tal manifestação de satisfação indica que a evolução da recuperação superou expectativas. O reconhecimento de que "ainda há desafios", seguido imediatamente pela afirmação de que serão superados com "trabalho, dedicação, vontade política e força mental", transmite confiança equilibrada com realismo, exatamente o tipo de posicionamento que mercados e credores valorizam.
Contexto da crise: três anos de agonia
Para compreender a magnitude do apoio do
Exército, é necessário relembrar a profundidade da crise da Avibras. A empresa
entrou em sua terceira recuperação judicial em março de 2022, acumulando
dívidas estimadas em R$ 1,5 bilhão, incluindo cerca de R$ 200 milhões com o
governo federal.
Aproximadamente 900 trabalhadores estão em
greve desde setembro de 2022, com 28 meses de salários atrasados. A fábrica em
Jacareí (SP) está paralisada, com instalações e equipamentos em risco de
obsolescência. Múltiplas tentativas de venda falharam: a australiana DefendTex
em 2024, a chinesa Norinco, e conversas mais recentes com a saudita Black Storm
Military Industries permanecem inconclusivas.
Em agosto de 2025, houve uma mudança de
controle: Fábio Guimarães Leite, através da Vita Gestão e Investimentos,
tornou-se acionista majoritário com 99% das ações. Um plano alternativo de
recuperação judicial foi aprovado pelos credores em maio de 2025, mas sua
homologação ainda enfrenta recursos do Banco Fibra e da União.
Em março de 2025, a Procuradoria-Geral da
Fazenda Nacional chegou a pedir a conversão da recuperação judicial em
falência, devido ao não cumprimento de parcelas de refinanciamento de dívidas
tributárias. A situação permanece tecnicamente crítica.
No entanto, no dia 28 último, a Avibras informou ao Sindicato dos Metalúrgicos de SJC que pretende retomar atividades da fábrica em 16 de março, desde que seja fechado o acordo de pagamento das dívidas trabalhistas e resolvida a pendência da recuperação judicial no TJ-SP.
Sinais de viabilidade: o que mudou?
A visita do General Villela e suas
declarações públicas sugerem que algo fundamental mudou na percepção do
Exército sobre a viabilidade da recuperação da Avibras. Vários fatores podem
estar contribuindo para essa mudança de perspectiva:
1. Nova liderança comprometida: Fábio
Guimarães Leite assumiu não apenas como administrador judicial, mas como
acionista majoritário com capital próprio comprometido. Diferentemente de
tentativas anteriores de venda para grupos estrangeiros, há agora um brasileiro
com interesse financeiro direto no sucesso da empresa.
2. Preservação de ativos: apesar da
paralisação, a infraestrutura produtiva foi mantida. O reconhecimento do
General Villela sobre infraestrutura produtiva, capacidades tecnológicas e
ativos industriais sugere que os danos da paralisação podem ter sido menos
graves do que se temia.
3. Manutenção de capacidades técnicas: a
empresa ainda detém conhecimento técnico crítico. A participação de Sami Youssef Hassuani nas negociações indonésias demonstra que há continuidade de expertise,
mesmo após a crise.
4. Necessidade estratégica: o
Exército tem contratos em andamento e necessidades operacionais urgentes. A
manutenção dos sistemas ASTROS existentes, o desenvolvimento do míssil tático de
cruzeiro e do foguete guiado não podem esperar indefinidamente. A retomada da
Avibras pode ser mais viável e rápida do que desenvolver alternativas.
5. Interesse geopolítico: em um
contexto global de rearmamento e tensões geopolíticas crescentes, a autonomia
tecnológica em sistemas de defesa tornou-se ainda mais crítica. A falência da
Avibras forçaria o Brasil a depender de fornecedores estrangeiros para
capacidades estratégicas.
Possíveis novos contratos?
A declaração do General Villela de que a
Diretoria de Fabricação reitera seu compromisso com o fortalecimento da BID, de
modo a viabilizar o desenvolvimento e a manutenção de capacidades tecnológicas
estratégicas pode sinalizar apoio a novos contratos.
O Programa ASTROS 2020, com previsão de
conclusão em 2031, ainda tem entregas pendentes. Além disso, o Exército vem
modernizando diversos outros sistemas (obuseiros, blindados, sistemas
antiaéreos), muitos dos quais poderiam, em tese, ser fabricados ou modernizados
pela Avibras uma vez que a empresa retome operações.
Novos contratos não apenas trariam recursos
financeiros para a recuperação judicial, mas também demonstrariam confiança
institucional na viabilidade da empresa, um fator crucial para atrair
investidores, renegociar dívidas e convencer trabalhadores a retornar.
No entanto, qualquer novo contrato
dependeria de várias condições: regularização mínima da situação trabalhista,
demonstração de capacidade operacional efetiva, homologação do plano de
recuperação judicial e, crucialmente, aprovação pela Controladoria-Geral da
União e pelos órgãos fiscalizadores.
Implicações mais amplas
A visita do General Villela transcende o
caso específico da Avibras. Ela representa um posicionamento sobre o modelo de
Base Industrial de Defesa que o Brasil pretende construir. O Exército está,
essencialmente, sinalizando que prefere investir na recuperação de capacidades
nacionais existentes do que depender integralmente de fornecedores
estrangeiros.
Esta é uma decisão estratégica com
implicações de longo prazo. Empresas de defesa não se criam da noite para o dia,
levam décadas para desenvolver conhecimento técnico, certificações,
infraestrutura e credibilidade. A Avibras representa 60 anos de desenvolvimento
tecnológico acumulado. Sua falência significaria não apenas a perda de empregos
e capacidade produtiva, mas a destruição de conhecimento que seria extremamente
difícil de reconstruir.
Por outro lado, essa estratégia tem riscos.
Se a recuperação falhar após o Exército ter sinalizado apoio público, isso
gerará embaraços políticos e operacionais. Recursos públicos investidos
poderiam ser perdidos. E o tempo gasto tentando salvar a Avibras é tempo não
gasto desenvolvendo planos B.
Reações e próximos passos
A visita do General Villela foi amplamente
divulgada nas redes sociais do próprio general e rapidamente repercutiu em
círculos especializados em defesa. Analistas veem o movimento como extremamente
positivo para a Avibras, mas alertam que declarações precisam ser seguidas de
ações concretas.
Trabalhadores, através do Sindicato dos
Metalúrgicos de São José dos Campos, reagiram com cautela. Apesar do otimismo
com o apoio do Exército, continuam exigindo pagamento dos salários atrasados
como pré-condição para qualquer retorno ao trabalho. “Palavras são importantes,
mas precisamos ver o dinheiro dos salários”, resumiu um representante sindical
em declaração não oficial.
Credores também observam atentamente. O
fundo Brasil Crédito, principal credor, tem interesse em ver a empresa
recuperada para maximizar o valor de seus créditos. Mas outros credores, mais
céticos, podem interpretar o apoio do Exército como oportunidade para
pressionar por melhores condições de pagamento.
Os próximos passos críticos incluem:
• Homologação definitiva do plano de
recuperação judicial, ainda pendente devido a recursos legais;
• Negociação com trabalhadores para retorno
gradual das atividades;
• Regularização mínima das dívidas
tributárias e trabalhistas;
• Demonstração de capacidade operacional
com entregas concretas;
• Conclusão das negociações com a Indonésia
e, idealmente, assinatura de novos contratos;
• Possível anúncio de novos contratos ou
aditivos com o Exército Brasileiro.
Um ponto de inflexão?
A visita do General Tales Villela à
Avibras, acompanhada de declarações públicas inequívocas de apoio, representa
potencialmente um ponto de inflexão na saga de recuperação da empresa. Pela
primeira vez em três anos, há um sinal claro de que as Forças Armadas
brasileiras, o principal cliente da Avibras, acreditam na viabilidade da
retomada.
A sincronia com a missão Indonésia não é
coincidência. É evidência de uma estratégia coordenada: demonstrar viabilidade
interna para fortalecer negociações externas, e vice-versa. A Avibras está
tentando criar um círculo virtuoso de credibilidade.
No entanto, seria prematuro declarar
vitória. A empresa ainda enfrenta desafios monumentais: dívidas bilionárias,
trabalhadores sem salário há mais de dois anos, instalações paradas, credores
impacientes e um ambiente jurídico complexo. O apoio do Exército é necessário,
mas não suficiente.
O que a visita do General Villela fez foi
mudar a narrativa. De uma empresa moribunda esperando o que parecia inevitável, a Avibras
passa a ser vista como uma empresa com relevância estratégica em processo de
recuperação com apoio institucional. Esta mudança de percepção, por si só, tem
valor.
A questão agora é: essa mudança de
percepção será seguida de ações concretas? Haverá novos contratos? Os
trabalhadores receberão seus salários? A produção efetivamente retornará? As
próximas semanas e meses darão a resposta.
O que está claro é que o Exército
Brasileiro fez sua escolha: apostou na recuperação da Avibras como elemento
essencial da autonomia estratégica brasileira. Agora, cabe à empresa e a seus
diversos stakeholders honrar essa confiança.
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