Acordo formalizado em 11 de fevereiro prevê colaboração em aerodinâmica, aeroelasticidade e otimização de trajetória do RATO-14X, foguete acelerador que deverá transportar o veículo hipersônico 14-X a mais de Mach 8 até a estratosfera, com lançamento previsto para o final de 2027 no Centro Espacial de Alcântara
*LRCA Defense Consulting - 25/02/2026
No dia 11 de fevereiro de 2026, o gabinete da Reitoria do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, foi palco de um acontecimento que pode marcar um ponto de inflexão na história aeroespacial brasileira. A empresa Mac Jee e o ITA assinaram um Acordo de Parceria voltado ao desenvolvimento do RATO-14X (Rocket Assisted Take-Off), o foguete acelerador que deverá ser o impulso inicial do veículo hipersônico 14-X rumo à estratosfera.
A cerimônia reuniu a CEO da Mac Jee, Alessandra Stefani, o corpo diretivo da empresa, o Magnífico Reitor Prof. Dr. Antonio Guilherme de Arruda Lorenzi, e os professores Gil Annes, Vinicius Malatesta e Ronaldo Cruz. O acordo concentra os esforços conjuntos nas áreas de aerodinâmica, aeroelasticidade e otimização de trajetória, disciplinas críticas para que o foguete cumpra sua missão com precisão e segurança.
![]() |
| Concepção artística do 14-X em órbita |
O que é o RATO-14X e por que ele é tão importante
O veículo hipersônico 14-X, desenvolvido no âmbito do
Projeto PropHiper pelo Instituto de Estudos Avançados (IEAv), utiliza um motor
do tipo scramjet, propulsor que necessita de velocidades extremamente altas
para ser acionado. O grande desafio técnico é justamente levar o veículo a
essas condições antes de soltá-lo em voo autônomo.
O RATO-14X foi concebido como a solução para esse problema. O foguete deverá transportar o 14-X a uma altitude entre 30 e 40 quilômetros, atingindo velocidades em torno de Mach 8, aproximadamente 8.500 km/h. Nesse ponto, o scramjet é acionado e o veículo hipersônico segue sua trajetória de forma autônoma. A versão anterior do projeto utilizava o foguete VSB-30, que foi suficiente para os testes de 2021, mas não suporta a configuração atual, mais pesada, do 14-X SP.
Em dezembro de 2021, o demonstrador 14-X S atingiu velocidade próxima a Mach 6 durante a Operação Cruzeiro, realizada no Centro Espacial de Alcântara, validando pela primeira vez as condições de partida e combustão do motor em ambiente real de voo. Com isso, o Brasil ingressou no seleto grupo de países capazes de testar tecnologia hipersônica aspirada em condições operacionais.
Uma parceria construída ao longo de anos
O acordo assinado em fevereiro de 2026 não surgiu do nada. É
o resultado de uma aproximação progressiva entre a Mac Jee e as instituições de
pesquisa vinculadas ao Comando da Aeronáutica. Em outubro de 2024, o
Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) realizou o evento de
lançamento oficial do Projeto RATO-14X, com a participação do IEAv, do
Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e do próprio ITA. O então Diretor-Geral
do DCTA, Tenente-Brigadeiro do Ar Maurício Augusto Silveira de Medeiros, destacou
na ocasião a importância do modelo de Tríplice Hélice (governo, indústria e
academia) para o avanço tecnológico.
Em dezembro de 2025, um novo passo foi dado com a formalização de parceria estratégica entre o IEAv e a Mac Jee, publicada no Diário Oficial da União. Com vigência de 36 meses, esse acordo prevê a atuação conjunta de cerca de 40 engenheiros e cientistas focados nas simulações e análises aerotermodinâmicas mais complexas do projeto, aproveitando a infraestrutura laboratorial de referência regional do IEAv.
A colaboração com o ITA, agora formalizada, complementa esse ecossistema ao trazer o rigor científico e a excelência acadêmica da instituição para temas específicos que demandam pesquisa de ponta: como o veículo se comporta aerodinamicamente em voo hipersônico, quais as implicações estruturais das forças aeroelásticas sobre a estrutura do foguete e como otimizar sua trajetória para garantir o desempenho máximo.
Academia e indústria: formando a próxima geração
A integração entre o ITA e a Mac Jee vai além dos
laboratórios. Em abril de 2025, as duas instituições, em conjunto com o CNPq,
lançaram cinco bolsas de pesquisa — duas de doutorado e três de mestrado —
vinculadas ao Programa MAI/DAI (Mestrado e Doutorado Acadêmico para Inovação).
As bolsas contemplam temas diretamente relacionados ao RATO-14X, como
caracterização de efeitos aeroelásticos, otimização de trajetória, estratégias
de separação de veículos hipersônicos e guiamento autônomo sem uso de GNSS.
Os estudantes selecionados são alocados no ITA, com visitas periódicas à Mac Jee e participação ativa nos projetos da empresa, uma ponte direta entre a formação acadêmica e os desafios reais de engenharia aeroespacial de fronteira. A iniciativa também inclui pesquisas ligadas ao Projeto Dagger, outro veículo em desenvolvimento pela empresa.
Vídeo da assinatura da parceria ITA e Mac Jee
Mac Jee: de distribuidora a protagonista hipersônica
Fundada em 2007, a Mac Jee começou suas operações
distribuindo componentes militares importados. Ao longo de quase duas décadas,
transformou-se em uma das principais empresas da Base Industrial de Defesa
brasileira. Nos últimos quatro anos, investiu R$ 120 milhões na construção de
duas fábricas, em São José dos Campos e Paraibuna, tornando-se a empresa com
maior capacidade de produção e armazenamento de materiais energéticos do
Hemisfério.
O RATO-14X foi conquistado por meio de edital da FINEP, com apoio do DCTA/FAB e do FNDCT. O projeto é também financiado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Mais de 500 profissionais estarão envolvidos em suas diversas fases, desde a engenharia de sistemas até o lançamento do foguete, previsto para o final de 2027 em Alcântara, no Maranhão.
Soberania tecnológica em pauta
O contexto geopolítico confere urgência ao projeto.
Tecnologias hipersônicas (sistemas capazes de superar Mach 5 com trajetórias
manobráveis) já estão em operação em larga escala nos Estados Unidos, China e
Rússia. O Ministério da Defesa brasileiro definiu propulsão hipersônica como
uma das 24 áreas críticas para a autonomia nacional.
Além das aplicações militares, o domínio do scramjet abre portas para o desenvolvimento de lançadores espaciais mais eficientes e econômicos, colocando o Brasil na vanguarda do acesso comercial ao espaço. O projeto prevê quatro fases, culminando no 14-XWP: um veículo hipersônico autônomo, totalmente controlável, com propulsão hipersônica ativa. Se bem-sucedido, o Brasil se juntará a Estados Unidos, China, Rússia, França, Japão e Austrália no grupo de nações com domínio pleno sobre essa tecnologia estratégica.
A parceria recém-assinada entre o ITA e a Mac Jee representa, portanto, muito mais do que um acordo acadêmico. É um elo numa cadeia cuidadosamente construída de colaborações entre governo, universidade e indústria, a chamada Tríplice Hélice, com o objetivo de garantir ao Brasil um lugar de protagonismo na era hipersônica que já chegou.









