*LRCA Defense Consulting - 27/04/2026
O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, indicou que
realizará, em junho, uma missão internacional com o objetivo de "fechar
novas vendas" do C-390 Millennium, principal plataforma de transporte
militar desenvolvida pela Embraer. A declaração foi divulgada hoje pela Reuters e coincide com um momento de forte expansão comercial da
aeronave no mercado global.
Atuação governamental e dinâmica competitiva
A iniciativa do Ministério da Defesa reforça o papel crescente do governo brasileiro como facilitador direto das exportações de defesa, prática já consolidada entre
os grandes players globais.
Essa atuação se torna particularmente relevante diante de um ambiente competitivo no qual fatores como financiamento, garantias soberanas e articulação diplomática desempenham papel decisivo na conclusão de contratos.
Europa como eixo central das negociações
Na LAAD 2025, Múcio já havia destacado o otimismo do governo brasileiro em relação à expansão das
vendas do cargueiro tático, anunciando negociações em curso com a Polônia, a
Finlândia e a Turquia.
Polônia - desponta como o principal candidato à
formalização de contrato. Em setembro de 2025, a Embraer ofereceu o KC-390 à
Força Aérea Polonesa para suprir suas necessidades de transporte e
reabastecimento, sugerindo a venda de 20 aeronaves com produção localizada
incluída na oferta. A estimativa é que uma linha de montagem na Polônia gere
cerca de US$ 1 bilhão em valor e crie aproximadamente 600 empregos,
fortalecendo a indústria aeronáutica polonesa e promovendo transferência de
tecnologia.
Turquia - representa um vetor distinto, com potencial
para acordos de natureza industrial. Com sua indústria aeroespacial em
expansão, o país assinou recentemente um Memorando de Entendimento com a
Embraer por meio da estatal Turkish Aerospace. As negociações tendem a envolver
não apenas a aquisição da aeronave, mas também mecanismos de coprodução, em
linha com a política de autonomia estratégica de Ancara.
Finlândia - demonstrou interesse no C-390
em abril de 2025 para complementar suas aeronaves de transporte tático
existentes.
Grécia: a decisão mais iminente
O caso grego merece atenção especial pelo horizonte de curto prazo. A Força
Aérea Helênica está na reta final de seu processo de aquisição de três
aeronaves C-390 Millennium, e uma decisão para abertura de procedimentos
formais de contratação pode ocorrer já em maio.
A decisão é impulsionada por quedas mensuráveis na prontidão
operacional e aumento dos custos de manutenção. Da frota original de cerca de
20 C-130H, apenas quatro a sete aeronaves estavam operacionais durante o
período 2025–2026.
O C-390 Millennium emergiu como favorito na avaliação do
Comando Aéreo grego, superando o C-130J Super Hercules norte-americano não
apenas no custo de aquisição, mas também em eficiência de manutenção,
disponibilidade operacional e flexibilidade multimissão. Uma eventual escolha
pelo KC-390 teria efeito demonstrativo significativo dentro da OTAN, onde a
aeronave já vem acumulando adotantes.
Marrocos: negociação avançada
No continente africano, o Marrocos figura como um dos casos mais concretos.
Em agosto de 2025, a Embraer informou que Marrocos estava próximo de finalizar
um acordo para a compra de quatro a cinco KC-390 Millennium, em um contrato
avaliado em torno de US$ 600 milhões. O país já recebeu uma aeronave para fins
de avaliação e testes.
O panorama atual de operadores e de outros candidatos
O KC-390 saiu da condição de promessa para a de referência no segmento. A
aeronave já foi selecionada por 11 nações, incluindo 8 países europeus e 7
membros da OTAN.
Portugal, pioneiro europeu no programa, não apenas expandiu
seu pedido para seis aeronaves, mas também viabilizou dez opções de compra
adicionais para potenciais aquisições por nações parceiras europeias ou da
OTAN, utilizando o contrato português como veículo. O mecanismo é inovador:
permite que outros países acessem o KC-390 por uma rota já negociada, sem
precisar iniciar um processo de aquisição do zero.
Entre as experiências recentes, a Lituânia sinaliza a
complexidade do processo de expansão. O país báltico anunciou sua intenção de
adquirir três KC-390 durante o Paris Air Show de junho de 2025, mas em janeiro
de 2026 adiou a compra para depois de 2030, redirecionando recursos para defesa
antiaérea, infraestrutura militar e apoio de longo prazo à Ucrânia.
Na América Latina, um avanço concreto recente veio da
Colômbia. Em 30 de março de 2026, o presidente colombiano Gustavo Petro ordenou
a compra de duas aeronaves C-390, para substituir dois C-130H fora de operação. O Chile também demonstra crescente interesse na aeronave brasileira.
No continente africano, além do Marrocos, a África do Sul apresenta demanda consistente por renovação de sua frota de transporte, com ênfase em soluções de maior eficiência operacional, com vivo interesse no C-390.
No Golfo, os Emirados Árabes Unidos permanecem como mercado de alto valor, com histórico de aquisições sofisticadas e interesse em diversificação de fornecedores, já tendo participado de uma reunião técnica no Brasil com outros operadores do C-390.
Desempenho operacional como argumento de venda
O KC-390 é movido por dois turbofans Pratt & Whitney/IAE V2500, com
velocidade máxima de cruzeiro de Mach 0,8 a 36.000 pés, percorrendo distâncias
mais rapidamente que o C-130 com consumo de combustível equivalente. "Uma
missão de seis horas do C-130 na Amazônia levou quatro horas e 20 minutos no
KC-390", explicou Pete Castor, executivo da Embraer. "Essa velocidade
significa que as tripulações não precisam pernoitar, a aeronave retorna mais
rápido, e você pode mandá-la de volta imediatamente."
As taxas de prontidão de missão ficam acima de 93% e as
taxas de conclusão de missão acima de 99%. São indicadores que ressoam com
comandantes que avaliam o custo real de manter frotas envelhecidas em operação.
Perspectivas e o alcance da missão de junho
O CEO da Embraer, Francisco Gomes Neto, afirmou que a empresa negocia com
"5, 10" países simultaneamente. A empresa projeta atingir um
faturamento anual de US$ 10 bilhões até 2030, impulsionada por suas divisões de
defesa, aviação comercial e executiva.
O timing da missão de Múcio, prevista para junho,
coincide com o ciclo decisório europeu anterior ao recesso de verão, período
historicamente crítico para formalização de aquisições militares.
Com a Grécia
prestes a decidir, Polônia avaliando uma
compra potencialmente bilionária, Marrocos em negociação avançada e a Colômbia já comprometida com as primeiras
unidades, além dos demais países citados, a janela de conversão é concreta.
Mais do que uma iniciativa pontual, a viagem sinaliza a
consolidação de uma estratégia de Estado voltada à projeção internacional da
indústria de defesa, com o KC-390 como seu principal vetor.