Em uma importante iniciativa para reforçar as capacidades de vigilância aérea da Índia, a Força Aérea Indiana (IAF) e o Ministério da Defesa (MoD) estão se preparando para emitir uma Solicitação de Propostas (RFP) formal à empresa aeroespacial brasileira Embraer nos próximos meses.
Essa iniciativa segue as recentes aprovações do Comitê de Segurança do Gabinete (CCS) e do Conselho de Aquisições de Defesa (DAC), que abriram caminho para a aquisição de seis aeronaves Embraer ERJ-145 adicionais.
Esses jatos servirão como base para o programa de Alerta Aéreo Antecipado e Controle (AEW&C) Netra Mk-1A, de fabricação nacional.
A próxima aquisição expandirá significativamente a frota de alerta aéreo antecipado (AEW&C) da Força Aérea Indiana (IAF).
As seis novas aeronaves adquiridas passarão por modificações abrangentes no Centro de Sistemas Aerotransportados (CABS) da Organização de Pesquisa e Desenvolvimento de Defesa (DRDO).
Após a conclusão, essas plataformas avançadas se juntarão às três aeronaves Netra Mk-1 originais atualmente em serviço ativo, que já comprovaram seu valor estratégico em operações como os ataques aéreos de Balakot em 2019.
Essa expansão elevará a frota total de aeronaves AEW&C baseadas em Embraer para nove, fornecendo vigilância aérea crítica 24 horas por dia, 7 dias por semana.
Embora o exterior do ERJ-145 pareça familiar, os sistemas internos do Mk-1A apresentarão um salto tecnológico geracional.
A pedra angular dessa atualização é a integração de componentes de estado sólido de nitreto de gálio (GaN) no radar de varredura eletrônica ativa (AESA) da aeronave.
Em transição da antiga tecnologia de arseneto de gálio (GaAs), os novos módulos de nitreto de gálio (GaN) proporcionarão geração de energia superior, gerenciamento térmico aprimorado e maior vida útil operacional.
Consequentemente, o sistema de radar modernizado deverá ampliar seu alcance de detecção para aproximadamente 450 quilômetros, uma melhoria significativa em relação ao alcance de 250 a 300 quilômetros das atuais plataformas Mk-1.
Para complementar o novo e poderoso radar, o CABS está desenvolvendo softwares de missão sofisticados e algoritmos de fusão de sensores.
Essa arquitetura digital modernizada é especificamente projetada para identificar e rastrear ameaças complexas e de baixa assinatura, incluindo caças furtivos de quinta geração e veículos aéreos não tripulados.
Além disso, o poder de processamento aprimorado facilitará a detecção precoce de alvos ultrarrápidos, como armas hipersônicas, garantindo que a Força Aérea Indiana (IAF) mantenha uma vantagem tática crucial em um espaço aéreo altamente disputado.
Como a Embraer interrompeu a produção comercial do jato regional ERJ-145 há anos, a empresa está facilitando a venda de fuselagens civis usadas que já passaram por rigorosas inspeções realizadas por equipes da Força Aérea Indiana (IAF).
Após a finalização do contrato, esses jatos serão completamente despojados de seus interiores comerciais para dar lugar a aviônica militar de fabricação nacional, links de dados de comunicação seguros, sistemas de guerra eletrônica e radares de última geração.
A recente criação de uma subsidiária dedicada da Embraer na Índia, prevista para meados de 2025, juntamente com sua colaboração com parceiros do setor privado local, como a Adani Defence and Aerospace, deverá simplificar essa complexa integração e apoiar os objetivos mais amplos da Índia em relação à fabricação de equipamentos de defesa, como o programa "Aatmanirbhar Bharat" (Índia Autossuficiente).
Autoridades da área de defesa preveem um progresso constante para o programa Netra Mk-1A. A solicitação formal de propostas (RFP) e a subsequente assinatura do contrato estão previstas para meados de 2026.
A entrega inicial de uma fuselagem modificada e sem equipamentos para a Índia poderá ocorrer já em 2027. Após isso, a DRDO iniciará o complexo processo de integração de sistemas e testes de voo, que se estenderá até o final de 2027 ou 2028.
Se o cronograma atual for mantido, a Força Aérea Indiana (IAF) receberá seu primeiro Netra Mk-1A totalmente operacional até o final de 2028 ou início de 2029, com as cinco aeronaves restantes sendo entregues em intervalos escalonados de oito a dez meses.
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22 março, 2026
Força Aérea Indiana (IAF) e o MoD se preparam para emitir uma solicitação de propostas (RFP) para seis jatos Embraer ERJ-145
A guerra de drones no Golfo: como os novos ataques estão redefinindo a defesa aérea e a segurança regional no Oriente Médio
*Marco K. - 09/03/2026, via LinkedIn
A mais recente onda de ataques com mísseis e drones iranianos contra o Bahrein, a Arábia Saudita, o Catar, o Kuwait e os Emirados Árabes Unidos marca uma importante virada no conflito regional. Esta não é mais uma guerra que possa ser enquadrada estritamente como uma campanha EUA-Israel contra o Irã, seguida de retaliação iraniana apenas contra Israel. O Irã agora ampliou o campo de batalha para o próprio Golfo, pressionando diretamente os estados árabes que abrigam forças americanas, ancoram os mercados globais de energia e estão no centro dos mais importantes pontos de estrangulamento marítimo do mundo.
A Al Jazeera noticiou em 9 de março que a empresa estatal de energia do Bahrein, Bapco, declarou força maior após ataques iranianos terem como alvo instalações de energia, enquanto autoridades sauditas relataram drones se aproximando do campo de petróleo de Shaybah e autoridades em Fujairah confirmaram um incêndio na zona da indústria petrolífera causado por destroços após uma interceptação. Reportagens da Reuters e da AP em 9 de março reforçaram ainda mais o quadro de uma guerra em expansão, cujo centro de gravidade agora inclui a infraestrutura do Golfo, a confiança regional e a estabilidade dos fluxos globais de energia.
O Irã está usando drones da maneira como as potências
revisionistas modernas querem usá-los
O que torna esta fase especialmente perigosa é que o Irã
está empregando drones não apenas como recursos de ataque tático, mas como
ferramentas operacionais de coerção estratégica. A lógica é brutalmente eficaz.
Drones de baixo custo e escaláveis, juntamente com salvas mistas de mísseis e
drones, podem impor uma pressão desproporcional sobre os defensores,
forçando-os a gastar com interceptores caros, manter-se em estado de alerta
constante, proteger instalações civis e militares amplamente distribuídas e absorver
o impacto político de qualquer sistema que consiga penetrar suas defesas.
O Washington Institute observou que o Irã depende de drones e mísseis relativamente baratos para criar um desequilíbrio de custos a longo prazo contra os defensores do Golfo, enquanto a Critical Threats relatou que o Irã tem dependido cada vez mais de drones contra os estados do Golfo, mesmo utilizando mais mísseis balísticos contra Israel. Essa divisão de trabalho é importante. Ela sugere que Teerã vê o Golfo como um teatro de operações onde o assédio aéreo persistente e acessível pode criar mais atrito estratégico do que um único ataque espetacular. É exatamente por isso que os drones se tornaram essenciais para a guerra coercitiva moderna.
Os números já mostram por que a defesa aérea do Golfo
está sob pressão
Os dados que emergem do conflito ressaltam a magnitude do
fardo. A Critical Threats relatou que, até 2 de março, somente os Emirados
Árabes Unidos afirmaram que o Irã havia lançado 174 mísseis balísticos e 689
drones contra seu território desde 28 de fevereiro, com uma parte deles
penetrando as defesas e atingindo áreas internas do país. Em 5 de março, a
mesma publicação citou dados dos Emirados Árabes Unidos mostrando 131 drones
detectados em uma única onda, com 125 interceptados, enquanto outros estados do
Golfo relataram interceptações adicionais na Arábia Saudita, Catar, Bahrein e
Kuwait.
A Reuters informou que a guerra em geral criou grandes gargalos logísticos nas redes regionais de energia e transporte marítimo, enquanto uma análise do Washington Institute avaliou que os estados do Golfo já estão preocupados com a sustentabilidade e o reabastecimento dos interceptores. Esta é a principal lição da guerra com drones em 2026. O sucesso na interceptação tática não elimina a tensão estratégica. Um defensor pode abater a maioria das ameaças e ainda assim perder tempo, dinheiro, confiança e flexibilidade operacional.
A infraestrutura energética agora faz parte do campo de
batalha
A estratégia do Irã também deixa claro que a infraestrutura
energética regional não é mais uma preocupação secundária. Ela se tornou o
campo de batalha. A declaração de força maior pela Bapco, do Bahrein, é
estrategicamente significativa porque demonstra que mesmo um Estado do Golfo
relativamente pequeno pode se tornar um ponto de pressão para os mercados
globais se sua capacidade de refino ou exportação for interrompida. A Reuters
noticiou que a Saudi Aramco reduziu a produção em dois campos de petróleo em
meio à crise regional, enquanto a AP detalhou a vulnerabilidade de oleodutos,
terminais, refinarias e nós de exportação marítima em todo o Golfo.
O CSIS também alertou que a pressão da guerra sobre os mercados de energia não é apenas uma questão de preços, mas sim estrutural, ligada a gargalos, dependência das exportações e à dificuldade de substituir rapidamente os fluxos interrompidos. Quando drones e mísseis ameaçam instalações ligadas ao refino, carregamento, armazenamento e transporte, eles criam uma alavanca que vai muito além do equilíbrio militar. O Irã não precisa paralisar completamente o Golfo para gerar um efeito estratégico. Basta que demonstre ser capaz de manter uma área suficiente da região sob ameaça para aumentar os custos, desestabilizar os mercados e enfraquecer a confiança na proteção de segurança que ampara o comércio do Golfo.
As reações políticas no Golfo mostram que o Irã pode
estar exagerando em suas ações
A reação política do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) é
tão importante quanto os próprios ataques. A reunião ministerial extraordinária
do CCG, em 1º de março, condenou os ataques iranianos com mísseis e drones
contra Bahrein, Arábia Saudita, Catar, Kuwait, Omã e Emirados Árabes Unidos,
enfatizando que a segurança do CCG é indivisível e reafirmando o direito de
autodefesa dos Estados-membros. Os Estados Unidos, o Reino Unido, a França, a
Alemanha e a Itália também emitiram uma declaração conjunta condenando os
ataques contra território soberano e infraestrutura civil.
A declaração do Reino Unido ao Conselho de Governadores da AIEA, também em março, expressou solidariedade aos parceiros regionais e condenou os ataques iranianos nos termos mais veementes. Isso é importante porque o Irã frequentemente tenta separar os governos árabes de Washington e Jerusalém, apresentando-se como resistindo seletivamente à pressão ocidental. Mas, uma vez que mísseis e drones iranianos comecem a atingir diretamente o território do Golfo, Teerã corre o risco de colapsar esse espaço de manobra diplomática. Os governos do Golfo podem até desejar a desescalada, mas o Irã está dificultando a preservação da neutralidade quando sua própria soberania e infraestrutura estão sob ataque.
Este conflito está expondo a economia da defesa aérea em
tempo real
Para profissionais militares e startups de defesa, uma das
lições mais claras desta guerra é econômica. A campanha de drones do Irã está
expondo, em tempo real, a brutal matemática da defesa aérea moderna. Um drone
de ataque unidirecional e de baixo custo pode obrigar o defensor a gastar muito
mais com cobertura de radar, mísseis interceptores, prontidão da tripulação,
medidas de dispersão, infraestrutura reforçada e planejamento de contingência
do que o atacante gastou para lançá-lo. Análises do Washington Institute
destacaram explicitamente essa assimetria de custos, enquanto a Critical
Threats mostrou como ondas diárias repetidas de drones podem desgastar as
defesas em vários países simultaneamente.
A Reuters também noticiou os crescentes esforços dos EUA para ressegurar perdas marítimas no Golfo e apoiar a continuidade do fluxo de navios, o que representa outra forma de custo imposto por um ambiente de ameaça aérea persistente. É por isso que a vantagem no campo de batalha futuro não pertencerá apenas às forças armadas com a melhor bateria de mísseis. Ela pertencerá ao ecossistema capaz de detectar, classificar, interferir, interceptar, fabricar e substituir a capacidade defensiva em escala e a um custo sustentável. É aí que a base industrial de defesa, a inovação em contra-drones e o desenvolvimento de interceptores de baixo custo se tornam estrategicamente decisivos.
A mensagem estratégica mais ampla é inequívoca
A mensagem estratégica mais ampla de Teerã agora é
impossível de ignorar. O Irã está sinalizando que, mesmo que não consiga
dominar convencionalmente, ainda pode regionalizar o risco. Pode transformar
bases no Golfo, instalações petrolíferas, aeroportos, portos e a confiança da
população civil em moeda de troca. O CSIS argumentou que as repercussões
regionais dos ataques ao Irã sempre incluíram uma disputa mais ampla em todo o
Oriente Médio, enquanto o Washington Institute avaliou que a resposta de Teerã
se concentrou em bombardeios menores contra um conjunto muito mais amplo de
alvos.
A AIEA alertou para a grave situação regional e os perigos criados por ataques militares dentro e ao redor do Irã, e a Reuters documentou como a guerra já está afetando os negócios transfronteiriços, o risco marítimo, os fluxos de ativos e as decisões de produção. Em termos estratégicos, o Irã aposta que a resistência, a imposição de custos e a interrupção do fornecimento de energia podem superar o poder de fogo superior do Ocidente e de seus aliados. A reportagem da Reuters de 10 de março explicita essa lógica: Teerã aposta na resistência e na interrupção do fornecimento de energia para superar os Estados Unidos e Israel.
Análise final
Para quem leva a sério a guerra com drones, a defesa aérea e
o futuro da segurança no Oriente Médio, esta é a verdadeira lição. A crescente
campanha de mísseis e drones do Irã contra o Golfo não é uma história
secundária. É a história principal. Ela demonstra como a guerra moderna é cada
vez mais moldada por uma pressão aérea escalável, acessível e repetível, capaz
de ameaçar infraestruturas críticas, esgotar estoques de defesa, expandir
geograficamente o conflito e gerar consequências políticas, mesmo quando muitos
projéteis são interceptados.
Isso também reforça um ponto que líderes da área
de defesa, investidores e fundadores de startups devem acompanhar de perto: a
próxima vantagem decisiva em conflitos virá da construção de uma arquitetura
antidrone em camadas que seja não apenas eficaz, mas também acessível,
sustentável e fabricável rapidamente. O Golfo está agora vivenciando a mesma
lição brutal que a Ucrânia, o Mar Vermelho e outros campos de batalha modernos
já revelaram. Na era dos drones, a sobrevivência pertence ao lado que consegue
sustentar a defesa, e não apenas demonstrá-la uma única vez.
*Marco K. é veterano de combate, oficial de artilharia de campanha, experiente em guerra contra drones e sistemas aéreos não tripulados (C-UAS), operador de UAS, possui Certificação FAA Parte 107, veterano da Operação Inherent Resolve.
21 março, 2026
Até quando trataremos um ativo estratégico como Despesa?
*Luiz Alberto Cureau Jr. - 21/03/2026
Tenho escrito em vários artigos sobre um ponto que o Brasil insiste em adiar, a necessidade de previsibilidade orçamentária para a defesa e o entendimento de que defesa não é gasto, mas um ativo estratégico do Estado.
Infelizmente, ao longo dos últimos anos, diferentes governos de turno passaram a tratar defesa quase como um passivo administrativo, algo que pode ser comprimido no orçamento sempre que necessário. Essa visão ignora um princípio básico da geopolítica, países que não investem de forma consistente em sua defesa acabam pagando mais caro no futuro, seja em autonomia, capacidade de decisão ou soberania.
Outro efeito preocupante já começa a aparecer. O interesse pela carreira militar tem diminuído, e tudo que se relaciona ao tema defesa passou a enfrentar uma resistência crescente no debate público. Isso não ocorre porque a profissão perdeu relevância, mas porque o país deixou de tratar defesa como política de Estado e passou a tratá-la como tema circunstancial de governo.
Sem previsibilidade orçamentária, sem planejamento de longo prazo e sem valorização institucional, torna-se impossível sustentar uma indústria de defesa forte, manter capacidades tecnológicas críticas e formar lideranças militares altamente qualificadas. Defesa exige continuidade, visão estratégica e estabilidade, exatamente o oposto do improviso orçamentário que frequentemente vemos.
O risco de seguir nesse caminho é claro. Em um ambiente internacional cada vez mais duro, vácuos de capacidade acabam sendo preenchidos por outros atores. Quando um país demonstra incapacidade de enfrentar desafios internos complexos, como o crime organizado transnacional, abre-se espaço para pressões externas sob diferentes justificativas, inclusive a de combater ameaças à estabilidade regional.
Nesse cenário, o precedente é perigoso. Uma vez que se aceite a ideia de que atores externos precisam intervir para resolver problemas internos, a discussão deixa de ser apenas sobre segurança pública e passa a tocar diretamente a soberania nacional.
Defesa nacional não pode depender da vontade ou da visão de cada governo de turno. Ela precisa ser tratada como política permanente de Estado, com orçamento previsível, valorização institucional e planejamento estratégico de longo prazo.
Países que entendem isso preservam sua autonomia.
Os que ignoram essa realidade acabam descobrindo, tarde demais, que soberania não se improvisa. Até quando vamos viver na terra de Oz ou em Nárnia ?
Nosso país é um grande ativo e não podemos achar que tudo se resolve abrindo uma cervejinha em uma mesa de bar, como alguns governantes acreditam.
*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 do Exército Brasileiro, Doutor em Ciências Militares e Bacharel em Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército. Foi comandante do Centro de Capacitação Física do Exército, comandante da 6ª Bda Infantaria Blindada e, atualmente, é consultor em meio ambiente e projetos de crédito de carbono no Instituto Climático VBH em Brasília.
20 março, 2026
Sistema OTAN de Catalogação: credencial estratégica que pode impulsionar as exportações da Base Industrial de Defesa
Evento promovido pela FIESC apresenta o caminho para empresas da Base Industrial de Defesa conquistarem compradores em dezenas de países
*LRCA Defense Consulting - 20/03/2026
Num momento em que o mundo debate rearmamento e soberania tecnológica, empresas brasileiras do setor de defesa passam a ter à disposição uma via concreta de acesso ao mercado internacional: a inclusão de seus produtos e serviços no Sistema OTAN de Catalogação (SOC), o padrão global adotado pelas forças armadas de dezenas de países para identificação, classificação e gestão de itens militares.
O passo a passo para integrar esse portfólio foi apresentado a indústrias catarinenses em evento promovido pelo Conselho de Desenvolvimento da Indústria de Defesa (Condefesa), da Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC), em Florianópolis, no dia 18 de março.
Um passaporte para o mercado global
O SOC é administrado pelo Comitê Aliado AC/135, formado pelo Grupo de
Diretores Nacionais de Catalogação dos 65 países integrantes do sistema,
subordinado à Conferência de Diretores Nacionais de Armamentos da OTAN. Estar
nesse catálogo equivale a ter um "passaporte" reconhecido
internacionalmente: o produto catalogado recebe um código padronizado, o
Número de Estoque OTAN (NSN), que facilita sua identificação, rastreamento e
aquisição por qualquer força armada integrante do sistema.
A participação no SOC beneficia a interoperabilidade entre países e atribui visibilidade internacional de comercialização às empresas e a seus produtos. Para as empresas, isso significa acesso a compradores institucionais de alto valor, ou seja: governos, ministérios da defesa e forças armadas, em mercados antes praticamente inacessíveis.
O Brasil no sistema: de 2002 até hoje
O Brasil tornou-se membro TIER 2 do SOC em 2002 e, desde então, tem
catalogado os itens de suprimento produzidos pela Base Industrial de Defesa
nacional, permitindo a projeção internacional dos produtos de defesa fabricados
no País. O órgão responsável por representar o Ministério da Defesa junto ao
sistema é o Centro de Apoio a Sistemas Logísticos de Defesa (CASLODE).
Nos últimos anos, iniciativas concretas têm aprofundado esse caminho. Em dezembro de 2024, o CASLODE realizou a primeira Catalogação por Produto Classificado na Base Industrial de Defesa, proveniente da Unidade de Catalogação CATProBr, em apoio à Associação Brasileira de Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ). A nova modalidade, estabelecida pela Orientação Técnica nº 012/2024, permite que produtos classificados como Estratégicos de Defesa (PED) ou Produtos de Defesa (PRODE), mas não gerenciados logisticamente pelas Forças, sejam catalogados no SOC por meio de uma Unidade de Catalogação privada.
KC-390 e Super Tucano: os casos de sucesso
O maior exemplo do potencial dessa estratégia é o KC-390 Millennium,
avião de transporte e reabastecimento da Embraer. A aeronave já foi adquirida ou selecionada pelas forças aéreas de 11 países: Brasil, Portugal, Hungria, República da
Coreia, Holanda, Áustria, República Tcheca, Suécia, Uzbequistão, Eslováquia e
Lituânia.
Mais recentemente, outro ícone da indústria aeroespacial brasileira seguiu o mesmo caminho. O A-29 Super Tucano foi reconhecido pelo NATO Allied Committee 135 (AC/135) e passou a usar o código SOC para identificação e catalogação do projeto, além de possibilitar a troca de informações e a interoperabilidade logística com outros membros da OTAN.
Para o Contra-Almirante Marcello Nogueira Canuto, diretor do CASLODE, esses exemplos revelam uma capacidade que muitas vezes é subestimada: "O Brasil não é um desconhecido no mercado internacional de defesa. Temos empresas indutoras que consolidaram produtos reconhecidos e adquiridos por membros da OTAN e países aliados."
O que muda para a indústria catarinense
Santa Catarina ocupa posição estratégica nesse cenário. O estado já é sede
de projetos estruturantes da defesa nacional, entre eles, o Programa
Fragatas Classe Tamandaré, executado em Itajaí. Das 114 empresas
estratégicas de defesa que o Brasil possui, 14 estão em Santa Catarina.
Para o diretor de Inovação e Desenvolvimento Industrial da FIESC, José Eduardo Fiates, a catalogação no SOC representa uma mudança qualitativa para as empresas que almejam o mercado global: "Incorporar tecnologia ao que produzimos é uma mudança de patamar. Países que exportam tecnologia constroem reputação, abrem mercados e ocupam posições estratégicas na economia global." Ele ressalta, porém, que o Brasil ainda precisa superar uma cultura historicamente voltada à exportação de commodities.
No evento, a CEO da Connectree, Elaine Rodrigues, apresentou os serviços da empresa, que atua como Unidade de Catalogação (UniCAT) habilitada para apoiar empresas interessadas em integrar o sistema. A presença de uma UniCAT privada no processo é justamente o que viabiliza a participação de indústrias de médio porte que antes dependiam exclusivamente das Forças Armadas para ter seus produtos catalogados.
Os benefícios concretos da catalogação
Além do acesso ao mercado, entre os principais benefícios da catalogação
estão o rastreamento preciso das fontes de aquisição, a interoperabilidade
internacional entre forças armadas, a redução de estoques por meio de uma
gestão mais eficiente de itens, o desenvolvimento da indústria nacional com
maior inserção em cadeias produtivas globais e a identificação de itens
recicláveis, contribuindo para práticas mais sustentáveis na gestão de
materiais de defesa.
Do ponto de vista estratégico, o país também investe na formação de pessoal especializado. Entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026, um sargento do Exército Brasileiro concluiu o Curso de Identificadores de Catalogación na Espanha, com o objetivo de estruturar futuramente um curso nacional sobre o SOC.
Contexto global favorável
O movimento acontece num momento de forte expansão dos gastos militares
globais. Com o aumento do interesse de países europeus e asiáticos em
diversificar seus fornecedores de defesa, reduzindo dependência de potências
tradicionais, o Brasil e sua base industrial têm uma janela de oportunidade
rara. Estar catalogado no SOC é o primeiro passo para que uma empresa seja considerada em processos licitatórios internacionais.
A mensagem deixada pelo evento em Florianópolis é clara: a indústria catarinense tem produtos, capacidade técnica e agora orientação para dar esse passo. O catálogo da OTAN não é apenas uma lista, mas uma credencial de confiança num mercado que movimenta bilhões e seleciona seus fornecedores com rigor.




