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04 junho, 2026

Rússia pinta caminhões para enganar a IA

Forças russas aplicam camuflagem de padrão disruptivo em veículos de transporte como resposta ao avanço dos drones ucranianos equipados com visão computacional e reconhecimento automático de alvos


*LRCA Defense Consulting - 04/06/2026

Imagens circuladas em redes sociais e analisadas pela publicação especializada The War Zone no início de junho de 2026 mostram caminhões militares russos dos modelos Ural e KAMAZ com uma pintura inusitada: listras preto-e-brancas cobrindo painéis laterais, rodas e pneus em padrões que lembram a pelagem de uma zebra ou folhas entrelaçadas. Não se trata de um experimento estético. É uma resposta tática ao avanço dos drones ucranianos com capacidade de reconhecimento automático de alvos por inteligência artificial (IA).

Dois padrões distintos foram documentados até agora. O primeiro usa linhas predominantemente retas em estilo zebra; o segundo adota um desenho mais orgânico, com formas foliáceas e espirais. Em ambos os casos, a tinta branca é aplicada sobre a cor base verde-escura padrão dos veículos, cobrindo praticamente todas as superfícies externas. A origem do programa, seu alcance e as unidades envolvidas não foram divulgados.

Um princípio de 1917 para um campo de batalha de 2026
A técnica remonta à chamada dazzle camouflage (camuflagem de padrão disruptivo ou camuflagem fragmentadora) naval, desenvolvida em 1917 pelo artista britânico Norman Wilkinson para a Marinha Real do Reino Unido. Diferentemente da camuflagem convencional, que busca a invisibilidade, a técnica usava padrões geométricos em preto e branco para fragmentar a silhueta do navio e dificultar ao comandante de submarino a estimativa de velocidade, rumo e distância ao mirar pelo periscópio. A técnica foi usada novamente na Segunda Guerra Mundial e em exercícios navais contemporâneos, como o da fragata canadense HMCS Regina em 2020. 

Sua reaplicação em veículos terrestres em 2026 indica que lógica agora é a mesma, mas com uma diferença fundamental, pois representa a primeira vez que o princípio é empregado explicitamente contra sistemas de visão computacional, e não contra a percepção humana, ou seja, o "olho" a ser enganado não é mais humano. É um algoritmo.

Câmeras eletro-ópticas embarcadas em drones ucranianos alimentam modelos de IA treinados para identificar e classificar veículos militares em tempo real. Esses sistemas podem reconhecer um caminhão Ural, por exemplo, a partir de sua forma, proporções e padrões visuais, sem necessidade de controle contínuo por operador humano. Se o perfil visual do veículo for suficientemente distorcido, o modelo pode falhar na classificação ou não atingir o limiar de confiança necessário para acionar um ataque.

Concepção artística da visão do periscópio de um comandante de submarino sobre um navio mercante com camuflagem disruptiva (esquerda) e o mesmo navio sem camuflagem (direita), Encyclopædia Britannica, 1922. As marcas visíveis obscurecem a direção do navio.
Aviadores e marinheiros aclamam o Rei George V a bordo do porta-aviões 'Argus' durante sua visita à frota em Rosyth em 1918, no estuário do rio Forth. O porta-aviões está pintado com camuflagem "dazzle".

Não invisibilidade, mas degradação
O objetivo da nova pintura não é tornar os veículos invisíveis. É atrasar a detecção, degradar a classificação e quebrar a confiança do sistema de rastreamento, forçando o drone a devolver a decisão a um operador humano ou simplesmente a ignorar o alvo. Cada segundo de incerteza gerado no algoritmo adversário representa uma janela de sobrevivência para o veículo.

O precedente mais direto foi documentado em agosto de 2023, quando imagens de satélite revelaram bombardeiros estratégicos russos Tu-95MS cobertos com pneus usados nas asas e fuselagem nos aeroportos de Engels-2. O The War Zone foi o primeiro veículo a postular que o recurso visava confundir os buscadores (seekers) de mísseis de cruzeiro e drones ucranianos equipados com capacidade de correspondência de imagem (image matching). A hipótese foi confirmada em setembro de 2024 por Schuyler Moore, então primeiro Chief Technology Officer do Comando Central dos EUA, que explicou que ao colocar pneus sobre as asas de uma aeronave, muitos modelos de visão computacional passam a ter dificuldade de identificar que aquilo é um avião.

 

Um ecossistema mais amplo de camuflagem
A dazzle paint (pintura fragmentada) é apenas a camada mais recente de uma série de adaptações russas para reduzir assinaturas detectáveis. Em 2023, a Rússia iniciou a produção em série do sistema Nakidka, desenvolvido pelo NII Stali de Moscou: um material absorvente de radar (radar-absorbing material, RAM) voltado para reduzir significativamente as assinaturas térmica e de radar de veículos blindados, incluindo o tanque T-90M. Em janeiro de 2026, a mídia ucraniana reportou a implantação de mantas de camuflagem com materiais que simulam rochas, detritos e superfícies texturizadas, voltadas para reduzir a detecção por imageamento aéreo e infravermelho.

As tentativas anteriores de proteção contra ameaças cinéticas incluíram as chamadas cope cages (gaiolas metálicas sobre a torre dos tanques), os turtle tanks (veículos cobertos com estruturas metálicas que impedem ataques de cima) e caminhões improvisados com troncos de madeira como blindagem reativa. A progressão ilustra uma corrida de adaptação que se acelera à medida que os drones se tornam mais capazes.

 

Limitações e riscos do recurso
Analistas apontam limites importantes. O infravermelho de onda longa, cada vez mais comum em drones de reconhecimento e ataque, é largamente insensível a esquemas de pintura: detecta assinaturas térmicas, não visuais. A pintura listrada tampouco engana radares.

Há ainda um risco estratégico: os padrões zebra são altamente conspícuos em terreno aberto, sendo muito mais visíveis do que a pintura padrão verde-escura. Nenhum outro veículo no campo de batalha tem essa aparência, o que significa que um operador humano ucraniano, ou um sistema de IA treinado especificamente para esses padrões, poderia identificar os caminhões por default como hostis. Modelos de IA podem ser retreinados com relativa rapidez para incorporar novos padrões visuais coletados em campo.

O uso dessas pinturas, portanto, faz mais sentido em áreas de retaguarda profunda, longe de olhos humanos, onde o risco vem predominantemente de drones autônomos em modo de busca.

 

A nova fronteira da camuflagem
A guerra de drones na Ucrânia está redesenhando os conceitos da sobrevivência logística. Veículos de transporte que antes operavam com relativa segurança na retaguarda tornaram-se alvos visíveis e vulneráveis. A iniciativa ucraniana Logistic Lockdown, anunciada pelo ministro da Defesa Mykhailo Fedorov, concentra justamente drones de médio alcance contra rotas de suprimento, depósitos de munição e corredores de transporte em territórios ocupados.

A resposta russa com a dazzle paint pode parecer primitiva frente a sistemas de IA sofisticados, mas reflete uma lógica adaptativa que a guerra tem demonstrado repetidamente: medidas de baixo custo e execução rápida, mesmo imperfeitas, têm valor tático real enquanto soluções mais robustas não chegam. A questão, como em todo ciclo de ação e reação tecnológica, é por quanto tempo o truque funciona antes de o adversário aprender a reconhecê-lo.

03 junho, 2026

Visita do CEO da MBDA ao Brasil sinaliza aprofundamento estratégico na BID nacional

Eric Béranger se reuniu com líderes das três Forças em 1º e 2 de junho; encontro ocorre na esteira do MoU com a Mac Jee e do retorno da Avibras Aeroco ao mercado


*LRCA Defense Consulting - 03/06/2026

Eric Béranger, CEO da MBDA, concluiu nos dias 1º e 2 de junho uma visita oficial ao Brasil que reuniu os altos comandos das três Forças Armadas e representantes diplomáticos de três países europeus. A agenda, incomum pela abrangência, ocorre em um momento em que o maior grupo europeu de mísseis acumula, em rápida sucessão, novas amarras com a Base Industrial de Defesa brasileira: a Mac Jee assinou um Memorando de Entendimento (MoU) com a empresa em 29 de maio, e a Avibras Aeroco, parceira histórica da MBDA desde 2013, retomou atividades após aporte de R$ 300 milhões do grupo J&F. Para analistas do setor, a coincidência de datas dificilmente é fortuita.

Agenda de alto nível
A delegação da MBDA incluiu Florent Duleux, vice-presidente sênior de vendas para exportação; Ricardo Mantovani, vice-presidente de vendas para as Américas; e Pierre Marquis, diretor-geral da subsidiária brasileira, com sede no Rio de Janeiro desde 2024. No lado brasileiro, as reuniões institucionais alcançaram o Almirante Marcos Sampaio Olsen, Comandante da Marinha; o Tenente-Brigadeiro do Ar Walcyr Josué de Castilho Araújo, Chefe do Estado-Maior da Aeronáutica (EMAER); e o General Eduardo Tavares Martins, Subchefe do Estado-Maior do Exército (EME).

O caráter triservice da visita é digno de nota. A MBDA fornece sistemas para as três Forças: o míssil Meteor ao caça F-39E Gripen da Força Aérea Brasileira; o sistema Sea Ceptor (com o míssil CAMM) e três versões do Exocet às fragatas Classe Tamandaré e a outras plataformas da Marinha; o Exocet SM39 aos submarinos Scorpène BR; o Exocet AM39 aos helicópteros H225M; e, desde dezembro de 2025, o sistema EMADS ao Exército, adquirido por acordo Governo a Governo (G2G) com a Itália, com investimento previsto de até R$ 5 bilhões.

A agenda diplomática não foi menos expressiva: os embaixadores da Itália (Alessandro Cortese) e da França (Emmanuel Lenain) e o vice-embaixador do Reino Unido (Tony Kay) participaram de encontros com a delegação. O trio de países corresponde exatamente à estrutura acionária da MBDA: Airbus (37,5%), BAE Systems (37,5%) e Leonardo (25%).

Operação BVR-X e o Meteor no Gripen brasileiro
Ao ser questionado sobre a Operação BVR-X, evento em que a Força Aérea Brasileira realizou, pela primeira vez, lançamentos do míssil Meteor integrado ao Gripen, Béranger classificou o resultado como um avanço extremamente significativo para as capacidades tecnológicas brasileiras. Segundo ele, os dois lançamentos realizados demonstraram tanto o desempenho do míssil quanto a eficiência da cooperação entre as equipes da MBDA e os profissionais brasileiros envolvidos.

O Meteor é um míssil ar-ar de médio alcance propulsionado por motor ramjet e alcance de até 200 km. Além do Gripen, está em processo de integração aos caças KF-21 e F-35 e já equipa o Rafale e o Eurofighter.

Expansão produtiva e investimentos
A visita acontece em um momento de expansão acelerada da MBDA. Em 2025, a empresa registrou receita de € 5,8 bilhões, recebeu € 13,2 bilhões em novos pedidos e encerrou o ano com carteira de encomendas de € 44,4 bilhões. Entre 2023 e o final de 2025, a produção de mísseis dobrou; para 2026, a previsão é de crescimento adicional de 40%, com destaque para a duplicação da produção dos mísseis Aster. O plano de investimentos para 2026–2030 soma € 5 bilhões em solo europeu, e a empresa planeja contratar 2.800 novos funcionários apenas em 2026.

Esse contexto de crescimento robusto explica, em parte, o interesse da MBDA em diversificar e aprofundar sua cadeia de suprimentos em parceiros industriais confiáveis fora da Europa, e o Brasil emerge como um candidato natural, com capacidade instalada em materiais energéticos, propulsão sólida e integração de sistemas.

Mac Jee, Avibras e a teia de parcerias na BID
O MoU assinado com a Mac Jee em 29 de maio formaliza um diálogo que remonta ao Paris Air Show de 2023, quando as duas empresas tornaram públicas a intensidade de seus intercâmbios. Em 28 de abril de 2026, representantes da MBDA visitaram as instalações da Mac Jee em São José dos Campos e Paraibuna, discutindo processos industriais e perspectivas de cooperação em propulsão e materiais energéticos.

A Mac Jee, fundada em 2007 e com capital 100% nacional, possui um portfólio que inclui munições aéreas das séries MK e BLU, o kit de guiagem de precisão Dagger, o lançador de foguetes Armadillo, o drone suicida Anshar e linhas de produção de TNT, RDX, HMX e propelentes sólidos compósitos. Em novembro de 2025, adquiriu da extinta Mectron, em parceria com a FAB, a propriedade intelectual dos mísseis MAR-1 e MAA-1B. A empresa participa ainda do programa hipersônico PROPHIPER 14-X, desenvolvendo o foguete acelerador RATO-14X em colaboração com o IEAv, o IAE e o ITA.

Já a Avibras Aeroco, reestruturada com aporte do grupo J&F, mantém em seu portfólio um sistema de defesa antiaérea de média altitude com parceiro não identificado nominalmente, mas que analistas do setor apontam como a própria MBDA, em razão do histórico documentado de cooperação. As duas empresas trabalharam juntas por mais de uma década no conceito AV-MMA, baseado no míssil CAMM, chegando a apresentá-lo conjuntamente ao Exército em 2014. O colapso financeiro da Avibras em 2022 interrompeu esse processo no exato momento em que a demanda por defesa antiaérea de média altitude se acelerava.

Com a formalização do EMADS e a perspectiva de transferência de tecnologia para fabricação de mísseis no Brasil, sinalizada pelo Ministério da Defesa, a Avibras Aeroco reaparece como candidata natural a sediar essa produção. Nenhuma outra empresa nacional acumula experiência equivalente na integração de sistemas superfície-ar nessa faixa de altitude.

Sistema de defesa antiaérea de média altitude no ASTROS MK6 (renderização Avibras Aeroco)

Supplier's Day e o fortalecimento da cadeia local
A visita de Béranger também serviu para reafirmar iniciativas recentes voltadas à integração da indústria brasileira à cadeia global de fornecimento da MBDA. Em maio, a empresa realizou no Rio de Janeiro o primeiro Supplier's Day da MBDA no Brasil, reunindo 16 empresas nacionais com equipes globais de compras do grupo. O evento contou com apoio do Ministério da Defesa, por meio da Secretaria de Produtos de Defesa (SEPROD), da ABIMDE e da Finep.

"Apoiar as três Forças Armadas demonstra que a MBDA está em uma trajetória sólida de consolidação e crescimento no Brasil", afirmou Béranger ao ser questionado sobre o potencial estratégico do país. O CEO destacou ainda que um dos pilares da subsidiária brasileira é aprofundar a cooperação industrial, "um dos fundamentos do nosso DNA".

Quadro consolidado da visita

Aspecto

Detalhe

Período da visita

1º e 2 de junho de 2026

Liderança MBDA presente

Eric Béranger (CEO); Florent Duleux (VP Sênior de Vendas para Exportação); Ricardo Mantovani (VP de Vendas para as Américas); Pierre Marquis (Diretor-Geral no Brasil)

Autoridades militares brasileiras

Almirante Marcos Sampaio Olsen (Comandante da Marinha); Tenente-Brigadeiro Walcyr Josué de Castilho Araújo (Chefe do EMAER); General Eduardo Tavares Martins (Subchefe do EME)

Autoridades diplomáticas

Embaixadores da Itália, França e Vice-Embaixador do Reino Unido

Programas ativos com as FA brasileiras

Gripen (Meteor), Tamandaré (Sea Ceptor/CAMM e Exocet), Scorpène BR (Exocet SM39), H225M (Exocet AM39), EMADS (Exército)

MBDA — receita (2025)

€ 5,8 bilhões

MBDA — carteira de pedidos

€ 44,4 bilhões

MBDA — plano de investimento 2026–2030

€ 5 bilhões (Europa)

Crescimento de produção previsto (2026)

+40% total; mísseis Aster: +100%

Parceiros industriais nacionais (recentes)

Mac Jee (MoU, mai./2026); Avibras Aeroco (relacionamento histórico, retomado)

Perspectiva
A visita de Béranger ao Brasil, pela sua abrangência institucional e pelo momento em que ocorre, consolida a percepção de que o país ocupa um papel crescente na estratégia global da MBDA. O encontro simultâneo com os altos comandos das três Forças, aliado ao recente MoU com a Mac Jee e ao retorno da Avibras Aeroco ao mercado, sugere que a MBDA trabalha para construir no Brasil um ecossistema industrial integrado, combinando plataformas operacionais já em serviço, programas de aquisição em curso, transferência de tecnologia e desenvolvimento de fornecedores locais.

O conteúdo concreto dessas parcerias, porém, ainda precisa se materializar em contratos e projetos. Por ora, a teia de acordos de intenção e visitas de alto nível sinaliza direção, mas o ritmo de execução dependerá de fatores que vão além da vontade das partes: orçamento de defesa, prioridades das Forças e dinâmica política. A janela, no entanto, parece aberta.

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