O gigante de gelo que move potências globais e se tornou o epicentro da
disputa geopolítica do século XXI
* LRCA Defense Consulting - 08/02/2026
Quando o viking Erik, o Vermelho, batizou a imensa ilha
gelada de "Grœnland" (Terra Verde) no século X, numa tentativa de
atrair colonos, ele não poderia imaginar que, mais de mil anos depois, aquela
vastidão coberta 80% por gelo se transformaria em uma das áreas mais cobiçadas
do planeta. A Groenlândia, com seus 2,16 milhões de km² e apenas 56 mil
habitantes, emergiu como peça central de uma nova corrida global por recursos,
rotas marítimas e supremacia militar no Ártico.
A descrição como "o maior porta-aviões do mundo"
não é exagero retórico. Trata-se de uma avaliação estratégica precisa que
reflete a importância singular da ilha na arquitetura de segurança global. Esta
reportagem desvenda os múltiplos interesses que fazem da Groenlândia um
território-chave na geopolítica contemporânea.
A fortaleza do Atlântico Norte
A localização geográfica da Groenlândia é sua primeira e mais evidente
vantagem estratégica. Situada entre o Oceano Ártico e o Atlântico Norte, a ilha
ocupa posição privilegiada no chamado GIUK Gap (Greenland-Iceland-UK), um
corredor marítimo e aéreo crucial para o controle do Atlântico Norte.
Durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Dinamarca foi
ocupada pela Alemanha nazista, os Estados Unidos assumiram o controle da
Groenlândia. Como explicou a historiadora Astrid Andersen, do Instituto
Dinamarquês de Estudos Internacionais, "os Estados Unidos assumiram o
controle da Groenlândia e, de certa forma, nunca foram embora".
A Base Espacial de Pituffik, anteriormente conhecida como
Base Aérea de Thule, no norte da ilha, é hoje a instalação militar mais
setentrional dos Estados Unidos. Localizada a cerca de 1.200 km do Polo Norte,
a base opera desde a Guerra Fria e desempenha papel essencial na defesa
antimísseis, alerta antecipado, vigilância espacial e comunicações
estratégicas. Operada pela Força Espacial e pela Força Aérea dos EUA, Pituffik
integra o sistema de defesa continental norte-americano (NORAD).
Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos chegaram a manter
17 instalações na Groenlândia e um contingente de 10 mil soldados. Atualmente,
mantêm apenas a Base de Pituffik, com cerca de 650 pessoas 200 militares
americanos e o restante composto por civis canadenses, dinamarqueses e
groenlandeses.
O derretimento que abre rotas e revela riquezas
As mudanças climáticas transformaram radicalmente a equação estratégica do
Ártico. O aquecimento global está acelerando o derretimento das calotas
polares, um processo que tem duplo impacto geopolítico: a abertura de novas
rotas marítimas e o acesso facilitado a recursos minerais antes inacessíveis.
Observações de satélite da NASA apontam que o gelo marinho
está caindo 13% por década. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças
Climáticas (IPCC) estima que o Ártico pode ficar sem gelo entre 2050 e 2070.
Este cenário está abrindo gradualmente a Passagem do Noroeste (ao longo da
costa norte da América do Norte) e a Rota do Mar do Norte (através do Oceano
Ártico russo).
Estas novas rotas podem reduzir em até 40% o tempo de
transporte entre a Europa e a Ásia em comparação com as tradicionais rotas do
Canal de Suez ou do Panamá. Para se ter uma ideia, a rota ártica pode encurtar
viagens entre mercados asiáticos, europeus e norte-americanos em milhares de
quilômetros, com impacto direto nos custos de frete marítimo, que representam
80% do comércio global.
A Groenlândia está estrategicamente posicionada entre essas
rotas emergentes, com potencial para se tornar um centro logístico e comercial
de grande importância. Como observou o cientista político Ali Ramos,
especialista em estudos asiáticos, "a Rússia tem mais que o dobro de bases
da OTAN no Ártico e a China recentemente emitiu um documento se considerando um
país do entorno do Ártico".
O tesouro mineral sob o gelo
Além da posição geográfica, a Groenlândia abriga vastas riquezas minerais
que despertam a cobiça de potências globais. O território possui 39 dos 50
minerais considerados críticos para a segurança e a economia dos Estados
Unidos, incluindo terras raras essenciais para tecnologias modernas.
Os solos groenlandeses estão extremamente bem cartografados.
A União Europeia identificou 25 dos 34 minerais de sua lista oficial de
matérias-primas essenciais na ilha, incluindo as terras raras, elementos
fundamentais para a produção de baterias, celulares, veículos elétricos,
equipamentos militares e outras tecnologias de ponta.
Atualmente, a China domina o processamento e fornecimento
global desses materiais, o que explica o forte interesse de Washington em
diversificar o acesso a minerais estratégicos. A Groenlândia emerge como
alternativa para reduzir esta dependência chinesa.
Apesar do imenso potencial, apenas duas minas estão
atualmente em operação na ilha: a Amaroq explora ouro e prevê desenvolver a
mina de terras raras Black Angel, que pode entrar em funcionamento entre 2027 e
2028, extraindo zinco, chumbo, prata e elementos críticos como germânio, gálio
e cádmio. Na costa oeste, a Lumina Sustainable Materials explora desde 2019 um
depósito de anortosita, um metal que contém titânio.
Estudos também apontam para potenciais reservas de petróleo
e gás sob o gelo e ao largo da costa groenlandesa. O US Geological Survey
estima que o Ártico abriga cerca de 13% do petróleo e 30% do gás natural ainda
não descobertos no mundo. No entanto, o governo groenlandês abandonou
formalmente suas ambições petrolíferas em 2021, citando riscos ambientais e
falta de viabilidade comercial, além de ter proibido a mineração de urânio no
mesmo ano, decisões que poderiam ser revertidas em caso de mudança de soberania.
A disputa entre gigantes: EUA, China e Rússia
A importância geoestratégica da Groenlândia transformou o Ártico em um novo
tabuleiro de xadrez geopolítico, onde Estados Unidos, China e Rússia disputam
influência, bases e exploração de recursos.
- Estados Unidos: para Washington, ampliar o controle
sobre a Groenlândia significa reduzir vulnerabilidades no flanco norte e
antecipar movimentos de adversários no Ártico. Em documento publicado em 2024,
o Departamento de Defesa dos EUA expressou que "grandes mudanças
geopolíticas estão impulsionando a necessidade desta nova abordagem estratégica
para o Ártico", citando a invasão russa da Ucrânia, a adesão da Finlândia
e Suécia à OTAN e a crescente colaboração entre China e Rússia.
O major-general português Agostinho Costa, especialista em
segurança e geopolítica, explica: "Os EUA controlam o Pacífico e o
Atlântico, agora falta controlar o Ártico. Eles vivem mal com a ideia de, em um
oceano tão importante como é o Ártico, ter uma presença residual".
- China: Pequim se autodeclara um "Estado próximo
ao Ártico" ou "Estado quase-ártico" desde 2018, apesar de estar
a milhares de quilômetros do Círculo Polar. A China tem intensificado
investimentos na Groenlândia, buscando acesso às terras raras essenciais para
sua indústria tecnológica e para participar das novas rotas marítimas árticas.
Em 2023, um consórcio chinês tentou adquirir participação em
uma mineradora groenlandesa, mas o movimento foi bloqueado pelo governo
dinamarquês em cooperação com os EUA, citando preocupações de segurança
nacional. O degelo ártico também deve ampliar a atuação de submarinos chineses
no Atlântico Norte, algo que Washington considera uma preocupação emergente.
- Rússia: Moscou continua a militarizar o Ártico, com
bases militares renovadas e exercícios navais frequentes. A Rússia desenvolveu
uma poderosa frota ártica, incluindo quebra-gelos nucleares, e investiu
maciçamente em infraestrutura em sua costa norte, buscando transformar a Rota
do Mar do Norte em uma alternativa comercial viável. Qualquer nó logístico
intermediário, como a Groenlândia, pode influenciar os fluxos comerciais do
Ártico e seus interesses estratégicos.
A controvérsia Trump e a crise na OTAN
O interesse declarado do presidente Donald Trump em anexar a Groenlândia
aos Estados Unidos transformou uma questão geopolítica de longo prazo em crise
diplomática aguda. Trump já havia proposto comprar a ilha em 2019, durante seu
primeiro mandato, provocando reação negativa da Dinamarca. Mas em 2026, suas
declarações se tornaram mais contundentes.
"Precisamos da Groenlândia do ponto de vista da
segurança nacional", afirmou Trump, admitindo que "utilizar as forças
militares dos EUA é sempre uma opção à disposição do comandante-chefe". A
justificativa oficial é que, sem uma presença americana robusta, China e Rússia
acabarão explorando a vulnerabilidade da ilha.
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, reagiu
pedindo que Trump "pare com as ameaças" de anexação e advertiu que
uma eventual tomada da Groenlândia pelos EUA "poderia significar o fim da
OTAN". O primeiro-ministro groenlandês, Jens-Frederik Nielsen, foi direto:
se tivesse de escolher, a ilha permaneceria ligada à Dinamarca, não aos Estados
Unidos. Pesquisas mostram que cerca de 85% da população groenlandesa se opõe à
ideia de anexação americana.
A situação criou uma crise sem precedentes na OTAN. Desde
sua fundação em 1949, a aliança baseia-se no princípio da defesa coletiva: um
ataque contra um membro é considerado um ataque contra todos. A possibilidade
de os Estados Unidos, o maior contribuinte da aliança, ameaçarem anexar
território de um país aliado coloca a organização em dilema histórico.
Em resposta às ameaças, a Dinamarca anunciou o envio de
tropas adicionais à Groenlândia. Países europeus como França, Alemanha,
Noruega, Suécia, Finlândia, Países Baixos e Reino Unido manifestaram disposição
para enviar militares à ilha em exercícios conjuntos como sinal político de
apoio à soberania dinamarquesa.
Em janeiro de 2026, à margem do Fórum Econômico Mundial em
Davos, Trump e o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, negociaram um pré-acordo
envolvendo a Groenlândia. Segundo jornais europeus, o acordo incluiria a
renegociação do tratado de defesa de 1951 para incluir o sistema de defesa
antimísseis "Golden Dome" (Cúpula Dourada) e controle americano sobre
investimentos no território. Crucialmente, o acordo não discute mudança de
soberania, que permanece com a Dinamarca e a Groenlândia.
A autonomia groenlandesa e o sonho de independência
A Groenlândia é um território autônomo do Reino da Dinamarca desde 1979. Em
2009, os groenlandeses conquistaram o direito de realizar referendos sobre
independência e passaram a ter poder decisório sobre o uso de suas
matérias-primas. O parlamento local administra áreas como saúde, educação,
recursos naturais e parte da política interna.
No entanto, a Dinamarca continua respondendo por defesa,
política externa, cidadania e moeda, além de transferir subsídios anuais que
representam cerca de um quinto do PIB groenlandês, aproximadamente 700 milhões
de dólares por ano. Esta dependência financeira é o principal obstáculo à
independência total.
Do ponto de vista econômico, a principal fonte de receita do
governo local é a pesca. Muitas esperanças de autonomia econômica estão
depositadas no desenvolvimento da mineração e na abertura, em novembro de 2025,
de um aeroporto internacional em Nuuk, a capital, que deve contribuir para o
desenvolvimento do turismo.
Existe um debate interno sobre independência futura. Alguns
grupos defendem que, com o desenvolvimento da economia baseada em mineração,
pesca e talvez turismo e rotas árticas, seria possível reduzir a dependência
financeira de Copenhague. Outros apontam preocupações com impactos ambientais,
culturais e sociais de um crescimento rápido e altamente dependente de capital
estrangeiro.
A população groenlandesa, majoritariamente inuíte, demonstra
ressentimento histórico em relação tanto à Dinamarca quanto aos Estados Unidos.
Durante a construção da Base de Pituffik nos anos 1950, cerca de 150 indígenas
foram desalojados de suas terras ancestrais e forçados a se mudar para áreas
onde a caça, base do modo de vida tradicional, era muito mais difícil.
Demorou décadas para que a Justiça dinamarquesa reconhecesse o direito a
indenizações financeiras.
O paradoxo climático
A Groenlândia representa um dos paradoxos mais evidentes da crise climática
global. O aquecimento que derrete suas geleiras é, simultaneamente, uma
catástrofe ambiental planetária e uma oportunidade econômica regional. A ilha
abriga a segunda maior camada de gelo do mundo, depois da Antártida, e seu
derretimento contribui significativamente para a elevação do nível dos oceanos.
Pesquisadores usam a Groenlândia como laboratório
fundamental para estudos sobre mudanças climáticas. Paradoxalmente, o mesmo
degelo que ameaça cidades costeiras globalmente torna acessíveis recursos antes
inacessíveis e abre rotas marítimas que podem alterar padrões de comércio
estabelecidos há séculos.
O governo groenlandês tem tentado equilibrar desenvolvimento
econômico com preservação ambiental. A proibição da mineração de urânio em 2021
e o abandono formal de ambições petrolíferas no mesmo ano refletem preocupações
locais com impactos ambientais. No entanto, estas políticas poderiam mudar caso
o território ganhe independência ou mude de soberania.
Precedentes históricos: a tradição expansionista
americana
A proposta de Trump de adquirir a Groenlândia não é novidade na história
americana. O interesse dos EUA pela ilha remonta ao século XIX. Em 1867, após a
compra do Alasca da Rússia, políticos americanos já consideravam a aquisição da
Groenlândia. Em 1946, o presidente Harry Truman ofereceu 100 milhões de dólares
em ouro à Dinamarca pela ilha, oferta que foi rejeitada.
Os Estados Unidos têm longa tradição de expansão territorial
por meio de compras. Mais da metade do atual território americano foi adquirido
de outros países: a Louisiana foi comprada da França em 1803, a Flórida da
Espanha em 1819, o Alasca da Rússia em 1867, e as Ilhas Virgens da própria
Dinamarca em 1917. No entanto, a última aquisição aconteceu há mais de um
século.
Trump chegou a descrever a possível aquisição da Groenlândia
como "essencialmente um grande negócio imobiliário" em 2019,
acrescentando que "muitas coisas podem ser feitas. Está prejudicando
gravemente a Dinamarca, porque está perdendo quase 700 milhões de dólares por
ano com isso".
O futuro da Groenlândia: entre pressões e possibilidades
A Groenlândia encontra-se hoje em uma encruzilhada histórica. O território
passou do isolamento ao centro das atenções globais em questão de décadas,
impulsionado por uma combinação de fatores estratégicos, econômicos e
ambientais.
A ilha desperta interesse global, mas precisa administrar
investidas de potências maiores enquanto preserva sua língua, cultura e
identidade inuíte. O desafio é monumental: como um território de 56 mil
habitantes pode navegar entre os interesses de superpotências nucleares sem
perder sua autodeterminação?
Especialistas apontam que nem Dinamarca, EUA ou União
Europeia isoladamente reúnem condições logísticas, tecnológicas e financeiras
para explorar plenamente os recursos da Groenlândia. O que fatalmente ocorrerá
será um consórcio multinacional com participação de grandes empresas de
tecnologia e financiamento, negócios bilionários que envolverão desde extração
e processamento até manufatura de novos produtos.
Para os Estados Unidos, a questão é de segurança nacional.
Para a China, é acesso a recursos críticos e rotas comerciais. Para a Rússia, é
manutenção de influência no Ártico. Para a Europa, é soberania territorial e
integridade da OTAN. E para os 56 mil groenlandeses, é sobre autodeterminação,
identidade cultural e futuro econômico.
Mais que uma ilha, um símbolo
A Groenlândia transcendeu sua condição geográfica de maior ilha do mundo
para se tornar símbolo das transformações do século XXI. Concentra em seu
território gelado as principais tensões contemporâneas: mudanças climáticas,
competição por recursos escassos, rivalidade entre potências, choque entre
soberania nacional e pressão internacional.
A descrição como "maior porta-aviões do mundo"
reflete uma realidade estratégica inegável. Sua posição controla o acesso ao
Ártico, monitora o Atlântico Norte, vigia rotas marítimas emergentes e abriga
recursos minerais essenciais para a economia tecnológica moderna. A base de
Pituffik permanece como olhos e ouvidos dos Estados Unidos no topo do mundo,
integrada ao sistema de defesa antimísseis que protege a América do Norte.
Mais do que uma disputa territorial, a questão groenlandesa
representa uma complexa interação de interesses geopolíticos, econômicos,
ambientais e culturais. O Ártico deixou de ser periferia gelada para ocupar o
centro da geopolítica global. E no coração desta transformação está a
Groenlândia, gigante de gelo que move potências, desafia alianças e redefine o
equilíbrio de poder mundial.
O futuro da ilha será definido pelo equilíbrio entre
exploração econômica, preservação ambiental e, sobretudo, pelas decisões de seu
próprio povo. Porque, no final, a questão não é apenas de quem controla a
Groenlândia, mas se alguém, além dos próprios groenlandeses, tem o direito de
controlá-la.