Pesquisar este portal

09 maio, 2026

Brasil consolida nova camada de governança espacial: empresas alcançam nível Ouro e Selo PEB no Catálogo da AEB

Iniciativa da Agência Espacial Brasileira reconhece formalmente as empresas mais engajadas com o Programa Espacial Brasileiro e sinaliza maturidade crescente do setor



*LRCA Defense Consulting - 09/05/2026

A indústria espacial brasileira vive um momento de estruturação sem precedentes. A Agência Espacial Brasileira (AEB) consolidou, por meio de seu Catálogo da Indústria Espacial Brasileira, plataforma online disponível em spaceindustry.aeb.gov.br, um sistema de reconhecimento em três níveis que hierarquiza, de forma transparente e exigente, as empresas que integram o ecossistema espacial nacional. No topo dessa hierarquia está a Categoria Ouro, distinção reservada às companhias que demonstram o mais alto grau de envolvimento, documentação e comprometimento com o setor.

O que é o nível de governança Ouro
Para alcançar a Categoria Ouro, as empresas precisam cumprir um conjunto rigoroso de requisitos: completar todos os campos do perfil da empresa na plataforma, realizar uma apresentação, presencial ou online, à equipe da CEN (Coordenação de Engenharia e Negócios da AEB) detalhando seus projetos e atividades, e fornecer documentos comprobatórios dos produtos e serviços informados. Em contrapartida, as empresas Ouro passam a ter acesso a benefícios exclusivos, como participação como convidadas na delegação da AEB em eventos nacionais e internacionais, acesso gratuito a eventos da Agência, convites para reuniões e discussões temáticas, e possibilidade de apoio institucional para participação em feiras e conferências.

Trata-se, portanto, de muito mais do que um cadastro: é um vínculo ativo e verificado entre a empresa e o Programa Espacial Brasileiro (PEB). Enquanto o nível Bronze exige apenas a inclusão na lista de e-mails da AEB e o envio de banner e logotipo, e o nível Prata demanda o preenchimento de campos obrigatórios do perfil, o Ouro representa uma auditoria informal, com apresentação de evidências concretas de atuação no setor.

O Selo PEB: compromisso com a missão nacional
Além dos três níveis de categoria, o catálogo prevê uma distinção adicional e ainda mais seletiva: o Selo do Programa Espacial Brasileiro (Selo PEB). Esse reconhecimento é concedido às empresas que tenham prestado serviços ou produtos de relevância para o Programa Espacial Brasileiro ou que possuam acordos e parcerias com instituições públicas do governo federal. Para solicitá-lo, a empresa deve enviar documentação ao presidente da AEB, que analisa o pedido pessoalmente.

O Selo PEB é, portanto, um atestado de participação efetiva na construção do programa espacial do País, não apenas de presença no mercado.

As empresas confirmadas com Categoria Ouro
Com base na consulta direta ao catálogo oficial da AEB em maio de 2026, as seguintes empresas têm a Categoria Ouro confirmada:

Com Categoria Ouro e Selo PEB - mais alto nível de reconhecimento combinado:

  • AMS Kepler Espaço, Defesa e Sistemas (Rio de Janeiro/RJ): atua em observação da Terra e consciência situacional espacial;
  • CLC – Castro Leite Consultoria (São José dos Campos/SP): telecomunicações e aplicações integradas de segurança;
  • Concert Technologies S.A. (São Paulo/SP): observação da Terra e aplicações integradas;
  • CRON Sistemas e Tecnologias Ltda (São José dos Campos/SP): observação da Terra e navegação por satélite;
  • HorusEye Tech (São José dos Campos/SP): navegação, guiamento e controle no segmento NewSpace;
  • Legado Usinagem Ltda (São José dos Campos/SP): materiais, estruturas e mecanismos;
  • Mac Jee (São José dos Campos/SP): OEM de defesa e aeroespacial;
  • Visiona Tecnologia Espacial (São José dos Campos/SP): integradora de sistemas espaciais, atuando em observação da Terra e telecomunicações.

Com Categoria Ouro:

  • Bioflore (Belo Horizonte/MG): observação da Terra;
  • Bizu Tecnologias Aeroespaciais e Serviços Ltda (São José dos Campos/SP): materiais, transporte espacial e serviços de lançamento;
  • CShark (São Paulo/SP): filial latino-americana de empresa europeia especializada em miniaturização, integração e operação de pequenos satélites, incluindo plataformas para CubeSats e PocketQubes;
  • Hyperlift Aerospace & Defense Ltda (São Paulo/SP): desenvolvimento de soluções em propulsão supersônica e hipersônica, controle de atitude, propulsão híbrida e materiais aeroespaciais avançados;
  • Novaterra Soluções em Geoinformação (Rio de Janeiro/RJ): soluções baseadas em geotecnologias para meio ambiente, infraestrutura, cidades e agronegócio;
  • Outer Space Ltda (Joinville/SC): pesquisa e desenvolvimento em propulsão espacial e integração de sistemas para pequenos veículos lançadores;
  • Quasar Space (São Paulo/SP): serviços de monitoramento, previsão e planejamento estratégico com dados espaciais;
  • Safe on Orbit (Brasília/DF): consciência situacional espacial e prevenção de colisões em órbita;
  • Solved – Soluções em Geoinformação (Belém/PA): criação de software e soluções geoespaciais com sede na Amazônia brasileira;
  • Terraforma – Engenharia e Geotecnologia (Londrina/PR): GIS, sensoriamento remoto, cartografia digital e consultoria geoespacial, sediada no Parque Tecnológico da UTFPR.

 

Por que isso importa para o setor aeroespacial brasileiro
O Catálogo da Indústria Espacial da AEB foi criado para mapear, divulgar e conectar as empresas que atuam no setor espacial brasileiro, permitindo que as companhias do setor ganhem visibilidade nacional e internacional, atraiam novas oportunidades de negócio e façam parte de uma rede integrada que fortalece todo o ecossistema espacial do Brasil.

Nesse contexto, a existência de um grupo de empresas que conquistou a Categoria Ouro e, dentro desse grupo, aquelas que também detêm o Selo PEB, representa um avanço qualitativo importante. Pela primeira vez, o Brasil conta com um mapa verificado, público e continuamente atualizado de quem são seus atores industriais espaciais mais comprometidos.

A 2ª edição impressa do Catálogo da Indústria Espacial Brasileira, publicada em inglês e em português, já catalogou 65 empresas com concentração geográfica na região Centro-Sul do Brasil, mas a versão online, mais abrangente e dinâmica, vai além desse número e permite atualizações em tempo real.

A concentração das empresas Ouro em São José dos Campos, o Vale do Silício aeroespacial brasileiro, e em centros como São Paulo e Rio de Janeiro, revela onde está a espinha dorsal tecnológica do setor. O conjunto que combina Ouro e Selo PEB é ainda mais revelador: são empresas que não apenas operam no mercado espacial, mas que têm contratos, acordos e entregas concretas para o Estado brasileiro, fornecedoras reais do Programa Espacial Brasileiro.

O objetivo declarado da AEB com a plataforma é fortalecer a competitividade do setor espacial brasileiro, promovendo e apoiando a cadeia industrial espacial nacional, com atenção especial às micro, pequenas e médias empresas, tornando o catálogo um instrumento dinâmico para a promoção no exterior da indústria espacial brasileira.

Em um momento em que o Brasil celebra seus primeiros lançamentos comerciais em Alcântara e avança em programas como a Constelação Catarina, o reconhecimento formal das empresas que constroem esse ecossistema por dentro, com documentação, com histórico e com parceria institucional é mais do que simbólico. É a arquitetura de um setor que começa a se ver com clareza.

08 maio, 2026

Exército avança em mísseis táticos e sistema de rastreio

Campo de Provas da Marambaia sediou reunião de trabalho sobre o Míssil Tático Balístico, o Míssil Tático de Cruzeiro e o sistema de rastreio de engenhos em voo, no âmbito do Programa ASTROS-FOGOS 


*LRCA Defense Consulting - 08/05/2026

Em um sinal concreto do avanço do Brasil no desenvolvimento soberano de armamentos de precisão, o Centro de Avaliações do Exército (CAEx), instalado no histórico Campo de Provas da Marambaia desde 1948, sediou no último dia 6 de maio uma importante reunião de trabalho voltada aos projetos de mísseis táticos nacionais.

O encontro reuniu o Gerente do Programa Estratégico do Exército ASTROS-FOGOS, General de Brigada Veterano Marcelo Gurgel do Amaral Silva, o Gerente do Subprograma de Artilharia de Campanha (SAC), General de Brigada Veterano Moises da Paixão Junior, e representantes de empresas da Base Industrial de Defesa e Segurança (BIDS). Os visitantes foram recebidos pelo Subchefe do CAEx, Coronel Letivan Gonçalves de Mendonça Filho, e os trabalhos foram conduzidos pelo Chefe da Subseção de Rastreio, Eletrônica e Comunicações, Tenente Coronel Carlos Cypriano Vallim Junior.

Projetos em pauta: balístico, cruzeiro e rastreio
A reunião tratou dos Projetos Míssil Tático Balístico (MTB) e Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), além do Sistema Transportável para Rastreio de Engenhos em Voo (STREV). Entre as empresas presentes, destacaram-se a Avibras Aeroco e a Omnisys Engenharia Ltda, nomes centrais da cadeia produtiva de defesa brasileira.

O objetivo principal do STREV é apoiar a pesquisa, o desenvolvimento e a avaliação do míssil tático de cruzeiro MTC-300, dotando o Exército Brasileiro com uma capacidade inédita de acompanhamento em voo de engenhos militares. O sistema possibilita a coleta e a análise de informações em tempo real de engenhos em voo, com o objetivo de contribuir com a avaliação, a pesquisa e o desenvolvimento de materiais de emprego militar ou civil lançados no espaço aéreo até o nível suborbital, trazendo benefícios ao Exército, às demais Forças Armadas e à Base Industrial de Defesa.

O STREV é composto por um radar de banda C, um sistema de rastreio ótico, um radar Doppler e meios de comando e controle disponíveis em infraestrutura própria e com possibilidade de desdobramento em todo o País. O sistema é uma solução móvel para campos de ensaios, desenvolvido pela empresa brasileira Omnisys.

O "Matador" e o novo balístico nacional
O Míssil Tático de Cruzeiro em desenvolvimento, apelidado informalmente de "Matador", é considerado um dos projetos mais ambiciosos da defesa brasileira. O AV-TM 300 voa a velocidades subsônicas de cerca de 1.000 km/h, mantendo um perfil de voo baixo e furtivo, na faixa de 800 metros de altitude, acompanhando o relevo do terreno, o que reduz significativamente a chance de ser detectado por sistemas antiaéreos. Com alcance de até 300 quilômetros (para exportação, pois o real pode superar 1.000 quilômetros) e uma precisão de até 30 metros, o armamento poderá ultrapassar os limites do território nacional e atingir alvos estratégicos muito além da capacidade dos foguetes hoje em uso no Brasil.

Paralelamente, o Míssil Tático Balístico S+100 representa a próxima fronteira da capacidade ofensiva terrestre brasileira. A diferença entre os dois armamentos é estratégica: enquanto o míssil de cruzeiro voa em trajetória rasante, guiado por GPS e navegação inercial para atingir alvos fixos com alta precisão, um míssil balístico segue uma trajetória parabólica de alta altitude, atingindo velocidades muito maiores na fase terminal, o que dificulta sua interceptação.

O programa ASTROS-FOGOS: um guarda-chuva estratégico
A reunião no CAEx insere-se num momento de intensa reorganização do programa de artilharia de longo alcance do Exército. O programa ASTROS será ampliado e rebatizado de "Fogos", passando a ter três verticais debaixo de um único guarda-chuva: o antigo sistema de foguetes ASTROS, sistemas de artilharia de campanha e uma nova defesa antiaérea. Uma encomenda no valor de até R$ 3,4 bilhões deve ser fechada ainda em 2026 para um novo sistema de defesa antiaérea que permitirá à Força Terrestre incorporar tecnologia inédita na América Latina para a interceptação de drones e mísseis de cruzeiro.

A modernização é apoiada por uma lei complementar aprovada em 2025, que permite investimentos de até R$ 30 bilhões fora do marco fiscal. O orçamento anual do Exército praticamente dobrou, chegando a cerca de R$ 3 bilhões por ano entre 2026 e 2031.

A Avibras Aeroco: recuperada e estratégica
A presença da Avibras Aeroco na reunião do CAEx ganha peso adicional diante de sua recente reestruturação. A empresa é o maior fabricante e exportador de armamento e sistemas de defesa do Brasil, e a única integradora dos sistemas de propulsão de foguetes e mísseis fabricados no país. O Exército Brasileiro acompanha de perto o processo de retomada, ciente de que a Avibras concentra competências sensíveis que reduzem a dependência externa do país em áreas críticas de soberania.

Segundo dados do Escritório de Projetos do Exército (EPEx), cerca de 90% do desenvolvimento do míssil de cruzeiro AV-MTC já estava concluído, faltando apenas a fase final de testes e disparos experimentais, trabalhos que a crise financeira da empresa havia interrompido. A retomada das atividades da Avibras abre caminho para que essa fase conclusiva finalmente avance.

 

Integração institucional como diferencial
Os trabalhos realizados no CAEx neste 6 de maio evidenciam a crescente sinergia entre os atores do ecossistema de defesa nacional. A parceria com a Avibras Aeroco reforça a manutenção e o desenvolvimento da Base Industrial de Defesa brasileira, gerando conhecimento tecnológico, empregos qualificados e autonomia em áreas sensíveis.

Especialistas em defesa avaliam que iniciativas como essa consolidam o Brasil como um dos poucos países da América Latina com capacidade autônoma de desenvolvimento de mísseis táticos, fortalecendo sua posição regional e internacional no setor.

O resultado dos trabalhos conduzidos no histórico Campo de Provas da Marambaia deverá contribuir diretamente para o aumento do poder de combate da Força Terrestre e, em perspectiva mais ampla, para o projeto de soberania tecnológica e industrial do Brasil na área de defesa.

Postagem em destaque