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25 março, 2026

O Brasil supersônico: como uma rede de empresas nacionais tornou possível o primeiro Gripen fabricado no país

De Gavião Peixoto a São Bernardo do Campo, de Porto Alegre a São José dos Campos: o F-39E Gripen apresentado hoje ao presidente brasileiro é produto de uma cadeia industrial brasileira que levou mais de uma década para ser construída, e que agora aponta para o mundo


*LRCA Defense Consulting - 25/03/2026

A cerimônia durou pouco mais de uma hora. O presidente brasileiro chegou ao complexo industrial da Embraer em Gavião Peixoto (SP) em meio a uma manhã ensolarada de outono, batizou com champanhe o casco cinza-metálico do F-39E Gripen de número FAB 4100 e, diante de autoridades brasileiras e suecas, confirmou com um gesto simbólico o que anos de engenharia já haviam tornado irreversível: o Brasil é, a partir de hoje, um país fabricante de caças supersônicos.

Mas o verdadeiro protagonista da cerimônia não cabia numa única empresa nem numa única cidade. O Gripen brasileiro é, na essência, um produto coletivo, resultado de um modelo de parceria industrial que distribui responsabilidades, conhecimento e empregos por diferentes regiões do país, envolvendo ao menos cinco grandes atores nacionais além da sueca Saab.

Entender o que está por trás daquele caça é entender uma das apostas mais ambiciosas já feitas pelo Brasil na construção de sua Base Industrial de Defesa.

O palco: Gavião Peixoto e a Embraer
A cidade de Gavião Peixoto, com pouco mais de 8 mil habitantes no interior paulista, abriga uma das instalações aeronáuticas mais sofisticadas do Hemisfério Sul. Foi ali que a Embraer instalou, a partir de 2023, a única linha de montagem final do Gripen existente fora da Suécia, e foi ali que o F-39E apresentado hoje ganhou sua forma definitiva.

A Embraer é responsável pela montagem final de 15 aeronaves previstas no contrato atual com a FAB, oito monoposto Gripen E e sete biposto Gripen F. O caça apresentado hoje é a primeira dessas 15 unidades, e outros 14 seguirão o mesmo modelo de produção. A aeronave passará ainda por testes funcionais e voos de ensaio antes de ser formalmente incorporada ao Primeiro Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), na Base Aérea de Anápolis (GO), onde já operam as dez unidades entregues anteriormente.

Francisco Gomes Neto, presidente e CEO da Embraer, deixou claro que os planos vão além do contrato em vigor. "Estamos fortemente engajados no sucesso do programa em futuras exportações, incluindo oportunidades na Colômbia e em outros mercados", afirmou, sinalizando que a linha de Gavião Peixoto foi projetada para atender clientes além da FAB.

A espinha dorsal: a Saab Aeronáutica Montagens em São Bernardo do Campo
Para que um caça seja montado em Gavião Peixoto, ele precisa primeiro ter suas estruturas fabricadas. Essa responsabilidade recai sobre a Saab Aeronáutica Montagens (SAM), unidade instalada em São Bernardo do Campo (SP) desde 2018, a primeira fábrica de aeroestruturas da Saab fora da Suécia.

Em uma área de 5 mil m², a SAM opera com os mesmos ferramentais, softwares e tecnologias utilizados em Linköping, na Suécia, incluindo o processo de Model-Based Definition (MBD), que usa modelos 3D como fonte única de informação para fabricação e inspeção. Atualmente, a unidade produz cones de cauda, freios aerodinâmicos e fuselagens dianteira e traseira do Gripen E/F.

Em setembro de 2025, a SAM deu um passo significativo: inaugurou uma segunda linha de produção da fuselagem traseira, elevando sua capacidade anual de oito para 16 unidades. "A instalação da segunda linha de produção da fuselagem traseira é a prova da excelência alcançada no Brasil", declarou Peter Dölling, diretor-geral da Saab Brasil. A fuselagem traseira é considerada um dos componentes mais complexos do caça, pois abriga o motor. A planta também conta com um laboratório especializado na manutenção do radar AESA e dos sensores de guerra eletrônica do Gripen, capacidade que já foi ampliada para cobrir outros sistemas militares e civis.

A parceira estrutural: Akaer
A Akaer, empresa de engenharia aeroestrutura sediada em São José dos Campos (SP), é presença constante no programa Gripen desde antes da própria seleção da Saab. A empresa foi contratada para desenvolver segmentos da fuselagem do Gripen já em 2009 e, desde então, acumulou mais de 500 mil horas de trabalho dedicadas ao programa. A relação com a Saab é estreita o suficiente para que a empresa sueca detenha uma participação acionária na Akaer, atualmente em 28%.

A Akaer também detém 10% da própria SAM, compondo uma estrutura de governança compartilhada que funde os interesses brasileiros e suecos na produção das aeroestruturas. No programa Gripen, a empresa atua em engenharia de estruturas, desenvolvendo seções de fuselagem e asas, e representa um elo fundamental entre o projeto e a manufatura.

A inteligência embarcada: AEL Sistemas
Se a Embraer dá forma ao caça e a SAM fabrica seus ossos, é a AEL Sistemas, empresa gaúcha sediada em Porto Alegre, que equipa seus olhos e sua mente. A companhia é responsável por três dos sistemas aviônicos mais críticos do cockpit do F-39E: o Wide Area Display (WAD), o Head-Up Display (HUD) e o Capacete Targo com Helmet Mounted Display (HMD).

 

WAD — Wide Area Display

Tela panorâmica de alta resolução compatível com operação por manete (HOTAS) ou touchscreen. Funde dados de múltiplos sensores em uma única interface, ampliando a consciência situacional do piloto e simplificando a tomada de decisão em situações de combate.

 

 

HUD — Head-Up Display

Projeta informações de voo — navegação, pilotagem e pontaria — diretamente no campo de visão do piloto, sem que ele precise desviar os olhos para o painel de instrumentos. Aumenta a segurança e a consciência situacional, especialmente em manobras de alta performance.

 

 

HMD Targo — Helmet Mounted Display

Visor integrado ao capacete que permite apontar sensores e armamentos apenas movendo a cabeça, sem necessidade de alinhar a aeronave com o alvo. Suporta operações noturnas e amplia dramaticamente a capacidade de engajamento em combates de curto alcance.

Juntos, esses três sistemas foram desenvolvidos ao longo de mais de 500 mil horas de engenharia. Eles não equipam apenas o Gripen brasileiro: foram integrados também às aeronaves suecas da versão E, tornando a tecnologia desenvolvida em Porto Alegre presente nos céus europeus.

A AEL Sistemas também é responsável pelo Link-BR2, sistema tático de enlace de dados desenvolvido em parceria com a FAB com mais de 550 mil horas de engenharia dedicadas. Com criptografia avançada e operação em múltiplas faixas de frequência, o sistema suporta comunicação de voz e dados em ambientes de combate exigentes, e é exclusivo da versão brasileira do Gripen, representando uma capacidade soberana da FAB.

 

A plataforma de missão: Atech
A Atech, empresa de tecnologia de defesa com sede em São Paulo, fecha o quinteto de grandes parceiros nacionais do programa. Sua contribuição está nas estações de planejamento de missão e nos simuladores de voo, sistemas que permitem ao piloto treinar em terra com fidelidade próxima ao ambiente real e planejar com precisão cada sortida antes de decolar.

Esses sistemas são invisíveis ao público mas fundamentais para a eficácia operacional do Gripen. É neles que a tripulação do 1º GDA em Anápolis planeja os voos de Alerta de Defesa Aérea que desde fevereiro deste ano protegem o espaço aéreo sobre o Distrito Federal.

 

O escopo do programa: dez anos de construção
O contrato firmado em outubro de 2014 entre o governo brasileiro e a Saab, então sob a gestão da presidente Dilma Rousseff, previa a aquisição de 36 aeronaves (28 Gripen E monoposto e 8 Gripen F biposto), estimadas em cerca de US$ 4 bilhões com financiamento em 25 anos. Mais do que um contrato de compra, ele estabeleceu 63 projetos de offset, compensações industriais que traduzem em empregos, capacitação e transferência de tecnologia o valor pago pelo Brasil.

O balanço, uma década depois, é expressivo: mais de 350 profissionais brasileiros treinados na Suécia; mais de 2.000 empregos diretos e 10.000 indiretos gerados; aproximadamente 70% dos créditos de compensação já reconhecidos. Ao todo, os contratos geraram uma teia de desenvolvimento industrial que vai da engenharia estrutural em São José dos Campos até os sistemas eletrônicos produzidos em Porto Alegre.

Segundo o Major-Brigadeiro do Ar Mauro Bellintani, presidente da COPAC (Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate), o F-X2 vai muito além da aquisição de caças. "A produção local de uma aeronave de combate de última geração coloca o Brasil em um patamar de destaque no cenário da aviação militar mundial, insere a indústria nacional em uma cadeia de valor extremamente sofisticada e gera empregos qualificados. É um passo fundamental para consolidar o Brasil como um polo de alta tecnologia no setor aeronáutico de defesa", afirmou.

O horizonte: exportação e liderança regional
Com a linha de produção consolidada e a cadeia de suprimentos estruturada, o Brasil começa a mirar além de suas fronteiras. A Colômbia assinou contrato com a Saab em 2024 para a aquisição de 17 aeronaves Gripen E/F, num negócio avaliado em 3,1 bilhões de euros, com entregas previstas entre 2026 e 2032. A Saab já sinalizou que a estrutura industrial estabelecida no Brasil, e especialmente a linha de Gavião Peixoto, tem papel relevante para atender pedidos futuros.

Micael Johansson, presidente e CEO da Saab, foi categórico na cerimônia de hoje: "A Saab permanece totalmente comprometida em ampliar e aprofundar sua presença no Brasil, fortalecendo o país industrialmente e tecnologicamente, além de consolidá-lo como um polo exportador para o mundo". Não se trata de retórica: a própria arquitetura do programa, com uma fábrica de aeroestruturas preparada para fornecer componentes a outras frotas mundiais de Gripen, sustenta a afirmação.

Para a AEL Sistemas, o cenário exportador já é realidade: os sistemas WAD, HUD e Targo produzidos em Porto Alegre equipam Gripens de outros países, fazendo com que a tecnologia desenvolvida no Rio Grande do Sul sobrevoe céus europeus e potencialmente latino-americanos nas próximas décadas.

 

DNA brasileiro na produção do Gripen

Embraer (Gavião Peixoto, SP)

Montagem final das 15 aeronaves produzidas no Brasil; única linha do Gripen fora da Suécia

 

Saab Brasil / SAM (São Bernardo do Campo, SP)

Fabricação de cones de cauda, freios aerodinâmicos, fuselagens dianteira e traseira; lab. de manutenção de radar e sensores

 

Akaer (São José dos Campos, SP)

Engenharia de estruturas; desenvolvimento de seções de fuselagem e asas; sócia da SAM (10%)

 

AEL Sistemas (Porto Alegre, RS)

WAD, HUD e HMD Targo (sistemas de cockpit); Link-BR2 (enlace de dados tático exclusivo da FAB)

 

Atech (São Paulo, SP)

Estações de planejamento de missão e simuladores de voo

Taurus vence o tarifaço de Trump, encerra 2025 com lucro e margem superior à de seus rivais americanos, e afirma: 2026 será um novo normal

Com lucro de R$ 17,7 milhões e margem bruta de 34,3%, quase o dobro da americana Smith & Wesson, a fabricante gaúcha se posiciona para um 2026 muito mais favorável: tarifas derrubadas pela Suprema Corte americana, retomada das armas longas e aquisição estratégica na Turquia prestes a se concretizar

 

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LRCA Defense Consulting - 25/03/2026

Um ano que já é história
O CEO Global da Taurus Armas, Salesio Nuhs, foi direto ao ponto na live para investidores realizada nesta quarta-feira, um dia após a divulgação do balanço do quarto trimestre e do exercício de 2025: "A guerra acabou. O que estamos comentando já não é mais a realidade.". A afirmação resume bem o espírito do relatório divulgado pela companhia sediada em São Leopoldo (RS): os números de 2025 foram pressionados por um conjunto de fatores excepcionais que, em sua maioria, deixaram de existir, e os investidores precisam ler o balanço com essa lente.

O principal vilão do exercício foi o tarifaço imposto pela administração Trump sobre produtos brasileiros. Em abril de 2025, o governo norte-americano adicionou uma tarifa de 10% sobre as importações da Taurus; em agosto, veio mais uma tarifa de 40%, totalizando 50%, equivalente, nas palavras do próprio CEO, a um "quase embargo comercial". O impacto estimado foi de aproximadamente US$ 16 milhões no resultado do ano, sem contar os custos extraordinários para enfrentar a batalha tarifária.

"A gente discutia o que fazer para não entregar prejuízo em 2025. E fechamos com margem bruta superior à dos nossos concorrentes americanos, que sequer sofreram o impacto das tarifas." — Salesio Nuhs, CEO Global da Taurus

O desfecho veio no final de fevereiro de 2026, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos declarou ilegal a estrutura tarifária de 50%. O governo norte-americano estabeleceu então uma tarifa uniforme de 10% para todos os países, em vigor desde 24 de fevereiro. Para a Taurus, a decisão elimina a principal distorção competitiva do ano passado e ainda abre a perspectiva de recuperação de aproximadamente US$ 18 milhões em tarifas adicionais pagas durante a vigência da medida ilegal.

Resiliência operacional: melhor que os rivais mesmo com 50% de tarifa
O dado que mais se destaca no balanço é a margem bruta de 34,3%, queda de apenas 0,5 ponto percentual em relação a 2024, apesar de toda a turbulência. Para ter a medida exata do feito, basta comparar com os concorrentes diretos no mercado americano: a Ruger encerrou 2025 com margem bruta de 14,9%, e a Smith & Wesson registrou 26,4% nos doze meses encerrados em janeiro de 2026. Ou seja, a Taurus, fabricante brasileira, pagando 50% de tarifa sobre seus produtos nos EUA, operou com margem quase 20 pontos percentuais acima da Ruger.

Essa eficiência tem explicação estrutural. A companhia é líder mundial em revólveres e detém cerca de 60% do mercado de entrada (entry-level) nos Estados Unidos. O volume de produção elevado dilui custos fixos e confere uma vantagem de custo praticamente impossível de replicar no curto prazo por concorrentes norte-americanos. Mesmo com a produção anual caindo 15,6%, de 922 mil para 778 mil unidades, para adequar-se à demanda, a estrutura de custos da Taurus permaneceu competitiva.

As medidas adotadas ao longo de 2025 para contornar o tarifaço foram rápidas e diversificadas: reforço preventivo de estoques nos EUA antes da segunda rodada tarifária; redução de preços de transferência entre a matriz brasileira e a subsidiária americana; transferência de linhas de montagem das pistolas da família G e de outros modelos para a fábrica norte-americana; e alteração na logística de exportação, passando a enviar kits de peças em vez de armas montadas. No pico, a unidade americana respondeu por 46,5% de toda a produção da companhia no 4T25.

O que pesou no 4T25 e não vai se repetir
O quarto trimestre concentrou boa parte dos impactos negativos do ano. O resultado líquido do período foi negativo em R$ 65,6 milhões, uma reversão expressiva frente ao lucro de R$ 40,5 milhões registrado no mesmo trimestre de 2024. Três fatores extraordinários explicam a piora:

O primeiro foi uma despesa de cerca de R$ 30 milhões associada ao enfrentamento do tarifaço com honorários de advogados, contratação de lobistas e consultorias nos Estados Unidos, além de provisões jurídicas. Trata-se de gasto pontual que não se repetirá em 2026. O segundo foi o aumento no imposto de renda e contribuição social: R$ 27,8 milhões no ano, ante apenas R$ 2,4 milhões em 2024, reflexo do melhor resultado tributável. O terceiro foi o impacto da queda de 7,6% na cotação média do dólar no 4T25 ante o 4T24, que reduziu a conversão para reais das receitas em moeda estrangeira.

Além disso, a perda de receita com armas longas pesou durante todo o segundo semestre de 2025. A Taurus exporta carabinas e rifles para os EUA, sendo que esses produtos são produzidos por terceiros (CBC), o que impediu a adoção das mesmas medidas de mitigação usadas nas armas curtas. Com as tarifas de 50%, tornou-se economicamente inviável exportar armas longas para os EUA, e a companhia operou apenas com os estoques que havia acumulado anteriormente. A perda de receita estimada por esse canal foi de US$ 18 a 20 milhões. Em 2026, a normalidade foi retomada: a Taurus já tem um pedido de 18 mil armas longas em fase de embarque para os Estados Unidos.

2026: a virada já começou
Com o fim das tarifas punitivas, o cenário que se abre para 2026 é substancialmente diferente. A carteira de pedidos para o mercado norte-americano estava em aproximadamente US$ 85 milhões ao final de fevereiro, todos com entrega prevista para o primeiro semestre, o que Nuhs chamou de "a primeira carteira de futuro desde a pandemia". O sinal é relevante: distribuidores e grandes redes varejistas voltaram a fazer previsões de demanda, algo que havia desaparecido com a saturação de estoques do pós-pandemia.

O impacto positivo do fim do tarifaço sobre o resultado de 2026 pode ser resumido em três componentes: a potencial devolução de US$ 18 milhões em tarifas pagas indevidamente (que entrará no resultado quando reconhecida juridicamente); a retomada de cerca de US$ 20 milhões em receita com armas longas; e a eliminação de gastos extraordinários com a batalha jurídica e regulatória, estimados em cerca de R$ 30 milhões. Some-se a isso a ausência das despesas de duplicação de linhas de montagem e a aplicação de R$ 120 milhões do Plano Brasil Soberano, captados a cerca de 5% ao ano, em investimentos financeiros que rendem aproximadamente 14,58% ao ano, gerando um spread positivo relevante.

"Nós temos 16 milhões de dólares das taxas do ano passado mais dois desse ano que voltam para o resultado, mais os 20% de receita de armas longas que estavam represados — outros 20 milhões de dólares. E uma empresa muito mais eficiente." — Salesio Nuhs

O primeiro trimestre de 2026 ainda carregará parte dos efeitos negativos, já que as tarifas de 50% vigoraram até meados de fevereiro. A partir do segundo trimestre, porém, a companhia deverá operar em um ambiente substancialmente mais favorável.

Internamente, a Taurus implementou mudanças estruturais no modelo de distribuição brasileiro que também tendem a persistir: a companhia passou a atender diretamente as maiores lojas do país, responsáveis por cerca de 60% do volume do mercado, eliminando uma camada de distribuição e melhorando margens. No acumulado do ano, a receita no mercado interno cresceu cerca de 10%, com alta de 43,8% no 4T25. A empresa também anunciou reajuste médio de 5% nos preços no mercado civil brasileiro a partir de março de 2026.

Diversificação global: militares, Índia e novos contratos
Uma das transformações mais relevantes da Taurus em 2025 foi a aceleração da diversificação geográfica de receitas. A participação dos Estados Unidos na receita de armas e acessórios recuou de 82,5% em 2024 para 76% em 2025, enquanto outros mercados internacionais passaram de 7,9% para 11,9%, crescimento de 32% em volume.

Os destaques foram as exportações militares. No 4T25, a Taurus venceu uma licitação para fornecimento de 7,5 mil fuzis, uma das maiores dos últimos anos, e já tem em carteira um contrato de 10 mil fuzis para entrega a um país asiático em 2026. No mercado indiano, onde opera por meio da joint venture JD Taurus, as vendas civis cresceram mais de 60% no ano, e a operação já contribui positivamente para o resultado via equivalência patrimonial. No início de 2026, a companhia venceu dois contratos militares no país para entrega de 12 mil pistolas TS9 9mm para forças policiais. A Taurus monitora ainda licitações em andamento que podem envolver cerca de 70 mil armas na Índia, com valor estimado de US$ 30 milhões.

Outros destinos relevantes incluem licitações ganhas na África, Filipinas, Chile e Colômbia (onde a Taurus auxilia a fábrica local INDUMIL), somando mais de 60 mil armas já encaminhadas globalmente. A companhia também venceu uma licitação para fornecer carabinas à Polícia Militar do Distrito Federal, reforçando sua penetração no segmento institucional brasileiro

A carta na manga: a aquisição da MERTSAV
O movimento estratégico de maior potencial transformador para a Taurus em 2026, porém, ainda está em negociação: a aquisição da MERTSAV, fabricante turca de armas militares. O CEO foi contundente na live: a companhia está "muito, muito próxima" de uma proposta oficial, e as tratativas se encontram em estágio avançado.

A relevância da operação vai muito além do tamanho financeiro. A Taurus é hoje reconhecida pelo portfólio de armas leves, pistolas e revólveres. A MERTSAV fabrica metralhadoras leves e pesadas, lançadores de granadas e outros sistemas de armas que a brasileira simplesmente não tem no portfólio. A eventual aquisição abriria à Taurus as portas do mercado global de armas médias e pesadas para forças armadas, um segmento com tickets unitários muito maiores e ciclos de compra mais longos e previsíveis do que o varejo civil.

Mais do que uma promessa futura, a parceria já está gerando resultados concretos. Enquanto as negociações de aquisição avançam, a Taurus atua como representante comercial da MERTSAV e já venceu uma licitação, via Taurus USA, para fornecimento de 300 metralhadoras calibre 7,62mm ao Exército Brasileiro, a US$ 11 mil cada unidade. O contrato, embora pequeno em volume, valida o preço competitivo do produto no mercado e demonstra que a Taurus já sabe vender esses sistemas de armas.

"A aquisição da Mertsav será um ponto de virada para a Taurus. Teremos acesso ao mercado militar de metralhadoras leves e pesadas, lançadores de granada e outras armas que hoje não estão em nosso portfólio." — Salesio Nuhs, CEO da Taurus

O Memorando de Entendimentos (MoU) entre as duas empresas foi prorrogado até 30 de abril de 2026, com renovação automática por mais três meses, o que dará tempo para a conclusão dos estudos técnicos sobre os resultados da MERTSAV em 2025 e o avanço das negociações finais.

 

Endividamento: cresceu, mas em condições favoráveis
O aumento do endividamento líquido, de R$ 457,7 milhões para R$ 572 milhões, e a elevação da alavancagem para 5,4 vezes o EBITDA chamam atenção em uma primeira leitura, mas merecem contextualização. Grande parte da expansão da dívida decorre da captação de R$ 150 milhões no âmbito do Plano Brasil Soberano, programa federal de apoio a exportadores afetados pelas tarifas americanas. As condições obtidas pela Taurus são extraordinariamente favoráveis: 3,5% ao ano mais fiança para a parcela do BNDES e 8,2% ao ano para a operação com o Banco ABC, enquanto o CDI gira em torno de 14,75%.

O resultado é um spread positivo relevante: a companhia está aplicando parte dos R$ 120 milhões que permanecem em caixa a cerca de 14,58% ao ano, um dinheiro tomado a aproximadamente 5%. Além disso, a maior parte dos saques cambiais (ACC) que compõem a dívida de curto prazo, R$ 427 milhões, podem ser renovados automaticamente, o que na prática confere a essas operações um perfil de longo prazo.

Perspectiva: 2025 foi a exceção, 2026 é o novo normal
A mensagem central da administração da Taurus é que os números de 2025 não devem ser tomados como referência para o futuro. O lucro de R$ 17,7 milhões foi obtido a despeito de: tarifas de até 50% sobre os produtos exportados ao maior mercado da empresa; perda de uma linha inteira de receita (armas longas nos EUA); gastos extraordinários de cerca de R$ 30 milhões para enfrentar o tarifaço; e demanda mais fraca tanto nos EUA quanto no Brasil. Remova esses fatores, adicione a retomada das armas longas, os créditos fiscais esperados e a dinâmica comercial mais favorável, e o potencial de geração de resultado da companhia em 2026 é consideravelmente superior ao observado no ano passado.

O portfólio mais diversificado geograficamente, o novo modelo de distribuição no Brasil, o pipeline militar em expansão, a eventual aquisição da MERTSAV e a normalização do ambiente tarifário norte-americano compõem um quadro que justifica a confiança demonstrada pela diretoria da companhia na live desta quarta-feira. 

Como sintetizou o CEO Salesio Nuhs: toda a energia gasta em 2025 para se proteger das tarifas será direcionada, a partir de agora, para novos negócios e novas receitas.

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