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17 maio, 2026

Avibras Aeroco desenvolve o ASTROS II MK7 com capacidade para lançar míssil balístico tático

Imagem meramente ilustrativa
 

*LRCA Defense Consulting - 17/05/2026

De acordo com informações inéditas reveladas ao perfil @Defence360 na rede social X pelo CEO da empresa, a Avibras Aeroco está desenvolvendo uma nova versão do seu sistema de artilharia de saturação ASTROS II, designada MK7, com uma viatura lançadora 6x6 capaz de disparar o míssil tático balístico AV-SS 120 e que contará com maior autonomia operacional em relação às versões anteriores.

O que é o ASTROS II e a família MK
O ASTROS II (Artillery SaTuration ROcket System) é um sistema autopropulsado de lançamento múltiplo de foguetes e mísseis produzido no Brasil pela Avibras desde 1983. Concebido para a saturação de área com fogos de artilharia, distingue-se da concorrência por um lançador universal e modular capaz de disparar munições de diferentes calibres, de 127 mm a 450 mm, a partir da mesma plataforma, sem necessidade de substituição do veículo.

Ao longo das décadas, o sistema evoluiu por sucessivas variantes. O MK3 correspondeu à configuração inicial adotada pelo Exército Brasileiro, seguida do MK3M modernizado. O MK6, também denominado ASTROS 2020, introduziu o chassis 6x6 Tatra T815, comunicações digitais, novo radar de controlo de fogos e compatibilidade com o míssil tático de cruzeiro AV-TM 300, conhecido como "Matador", de alcance de 300 quilômetros na versão de exportação. Esta variante é operada pelas Forças Armadas brasileiras e foi exportada para a Indonésia, Malásia, Arábia Saudita e Qatar, entre outros.

O MK7 e o míssil balístico AV-SS 120
A nova variante MK7, caso seja concretizada, representa um salto qualitativo na família ASTROS II ao incorporar, pela primeira vez, a capacidade de lançar um míssil tático balístico, o AV-SS 120. Trata-se de um desenvolvimento de grande relevância estratégica: nenhum país da América Latina dispõe atualmente de um sistema de artilharia de foguetes com um míssil balístico tático orgânico.

A designação "AV-SS 120" insere-se na nomenclatura tradicional da Avibras para os seus foguetes, em que "SS" indica superfície-superfície. O número sugere um alcance na ordem dos 120 quilômetros, embora os dados técnicos completos não tenham sido divulgados publicamente. A integração deste míssil no ASTROS II MK7 posicionaria o sistema num patamar comparável ao do M270 MLRS norte-americano equipado com ATACMS, ou ao russo Iskander, em termos de gama de alvos alcançáveis.

Além do novo míssil balístico, o MK7 deverá contar com maior autonomia operacional. Esta característica, referida pelo CEO da Avibras Aeroco ao @Defence360, aponta para melhorias nos sistemas de propulsão, alcance de deslocamento ou capacidade energética da viatura lançadora, embora os detalhes técnicos precisos não tenham ainda sido confirmados.

Contexto: a retomada da Avibras Aeroco
O anúncio surge num momento de recuperação para a empresa. A Avibras entrou em processo de recuperação judicial em março de 2022, acumulando dívidas de 394 milhões de reais, na sequência de anos de redução nas encomendas militares. Durante 2024 e 2025, grupos estrangeiros, incluindo a chinesa Norinco, a australiana DefendTex e a saudita Black Storm Military Industries, manifestaram interesse na aquisição da empresa, cenário que gerou forte resistência nas Forças Armadas brasileiras.

A reestruturação foi viabilizada em 2025 e início de 2026, com a captação de 300 milhões de reais junto de investidores privados, liderada pelo Fundo Brasil Crédito, e a entrada do empresário Joesley Batista como financiador. Em março de 2026, o Tribunal de Justiça de São Paulo confirmou o plano de recuperação judicial por unanimidade e uma greve histórica de 1.281 dias foi encerrada após a homologação de um acordo de pagamento das dívidas laborais. A empresa passou a operar sob o nome Avibras Aeroco, com Sami Hassuani como diretor-presidente.

Programa ASTROS-FOGOS e o míssil tático balístico
Em março de 2026, o Exército Brasileiro transformou o Programa Estratégico ASTROS numa plataforma mais abrangente, designada ASTROS-FOGOS, que integra artilharia de foguetes, mísseis de cruzeiro e um sistema de defesa antiaérea contra drones e mísseis, com um investimento previsto de 3,4 mil milhões de reais para o período 2026-2031.

No âmbito deste programa, em 5 de maio de 2026, o Centro Tecnológico do Exército (CTEx) recebeu uma reunião de coordenação estratégica com a Avibras Aeroco, centrada no Projeto Míssil Tático Balístico (MTB), também referido como S+100, com alcance superior a 100 quilômetros. O MTB é desenvolvido sob a supervisão do Escritório de Projetos do Exército (EPEx) e da Diretoria de Fabricação (DF), com o requisito de interoperabilidade com os lançadores ASTROS existentes. Paralelamente, o Míssil Tático de Cruzeiro MTC-300 "Matador" encontra-se com cerca de 90% do desenvolvimento concluído, aguardando apenas a campanha final de disparos experimentais.

Significado estratégico
O ASTROS II é o sistema de foguetes de artilharia mais bem-sucedido já produzido na América Latina, com mais de 270 unidades fabricadas e operadores em pelo menos oito países. A introdução do MK7 com capacidade balística representa a resposta da Avibras às lições aprendidas em conflitos recentes, nomeadamente na Ucrânia, onde sistemas de foguetes de artilharia com munições guiadas de longo alcance se revelaram determinantes no combate moderno.

A combinação, num único sistema modular, de foguetes não guiados, foguetes guiados, mísseis de cruzeiro e agora mísseis balísticos táticos, diferencia o ASTROS dos seus concorrentes diretos, como o norte-americano HIMARS, que opera com um único tipo de contentor de munições de cada vez. Para os atuais operadores do ASTROS MK6, o MK7 poderá ser oferecido como uma atualização que amplifica significativamente o leque de opções táticas disponíveis, sem necessidade de adquirir uma plataforma inteiramente nova.

General turco examina KC-390 em Portugal e avião brasileiro ganha espaço no leste do Mediterrâneo

Visita do comandante da Força Aérea da Turquia à Base de Beja ocorre enquanto Ankara busca renovar frota envelhecida de C-130 e a vizinha Atenas avalia compra do cargueiro da Embraer 


*LRCA Defense Consulting - 17/05/2026

A Base Aérea de Beja, em Portugal, voltou a ser palco de um encontro com alto peso simbólico para o programa KC-390. O general Ziya Cemal Kadıoğlu, comandante da Força Aérea da Turquia, visitou a instalação durante missão oficial a Lisboa e examinou de perto o cargueiro fabricado pela Embraer, que equipa a Esquadra 506 da Força Aérea Portuguesa. A visita, realizada a convite do general Sérgio Roberto Leite da Costa Pereira, comandante da Força Aérea Portuguesa, incluiu ainda passagens pela Embaixada turca em Lisboa, pelo Centro de Operações Conjuntas das Forças Armadas Portuguesas e pelo quartel-general do STRIKFORNATO.

A informação foi divulgada por Tolga Özbek, analista de defesa, em perfil no LinkedIn, e rapidamente circulou entre entusiastas e especialistas da área. O texto destaca que a visita "contribui para o fortalecimento da cooperação de defesa entre Turquia e Portugal" e que plataformas como o KC-390 podem representar "uma área potencial de interesse" para a força aérea turca.

Uma frota sob pressão
O interesse turco no KC-390 surge em um momento de particular sensibilidade para a aviação de transporte de Ankara. A Força Aérea da Turquia opera há décadas aeronaves da família C-130 Hercules, nas variantes B e E, adquiridas em diferentes momentos: os primeiros exemplares chegaram nos anos 1960, seis unidades C-130B foram incorporadas no início da década de 1990 e outros seis C-130E foram comprados da Arábia Saudita em 2011. Em novembro de 2025, um desses aviões, com matrícula 68-01609, caiu na região de Sighnaghi, na Geórgia, logo após decolar de Ganja, no Azerbaijão, matando todos os 20 militares a bordo. Foi a pior perda militar turca desde fevereiro de 2020.

O acidente levou o Ministério da Defesa turco a suspender temporariamente os voos da frota de C-130 para inspeções técnicas detalhadas, determinando que somente as aeronaves aprovadas nas verificações poderiam retomar as operações. O episódio expôs a vulnerabilidade de uma frota envelhecida e reacendeu debates sobre a urgência de sua renovação.

Para tentar preencher a lacuna no curto prazo, a Turquia fechou, em outubro de 2025, um acordo para adquirir 12 aeronaves C-130J-30 Super Hercules desativadas pela Royal Air Force (RAF) britânica. As aeronaves foram entregues a uma empresa de manutenção no Reino Unido, onde passam por revisão e modernização, incluindo substituição de caixas centrais de asa, atualização de aviônicos e adaptações aos requisitos turcos. A empresa Marshall Aerospace, em Cambridge, é responsável por parte do programa, estimado em mais de 200 milhões de libras ao longo de quatro anos. As entregas à força aérea turca devem começar após 2026.

A par dos C-130, a Turquia também conta com aeronaves A400M adquiridas da Airbus, mas os Hércules seguem sendo o pilar do transporte tático. A compra dos exemplares britânicos descartados foi vista por parte da imprensa especializada como uma solução intermediária para uma frota que, no longo prazo, precisará ser substituída. É nesse contexto que a visita de Kadıoğlu ao KC-390 em Beja ganha contornos estratégicos.

 

Beja, a vitrine europeia do KC-390
Portugal é o primeiro país europeu e o primeiro membro da OTAN a operar o KC-390. O contrato original, assinado em 2019, previa cinco aeronaves; em setembro de 2025, foi aditado para incluir uma sexta unidade e dez novas opções de compra que podem ser transferidas a nações parceiras, mecanismo que facilita aquisições futuras por outros membros da aliança sem a necessidade de contratos diretos com a Embraer.

A Base Aérea n.º 11, em Beja, concentra toda a frota portuguesa, incluindo o simulador de voo completo, e forma pilotos de outros países. O quarto KC-390 entregue a Portugal, em janeiro de 2026, trouxe uma novidade relevante: foi o primeiro exemplar da frota portuguesa equipado com kit de reabastecimento aéreo, com tanques instalados na fuselagem e pods sob as asas, tornando-o capaz de atuar como tanqueiro.

A infraestrutura montada em Beja funciona como referência operacional concreta para visitantes militares de todo o mundo. Além do general turco, o ministro da Defesa da Eslováquia visitou a base em março de 2026 para avaliar o KC-390, e o ministro da Defesa da Grécia, Nikos Dendias, fez o mesmo em maio de 2026.

A Grécia na reta final
A visita grega é talvez a de maior impacto imediato para a Embraer. Dendias foi a Portugal a convite do ministro da Defesa português, Nuno Melo, e após o encontro declarou publicamente que a Grécia tem interesse na compra do C-390 Millennium. A Força Aérea Helênica opera hoje C-130 nas variantes B e H, com disponibilidade limitada e frota considerada obsoleta para os padrões atuais da Otan, além de C-27J Spartan de menor porte.

O modelo em avaliação prevê uma aquisição em duas fases: três aeronaves inicialmente, com possibilidade de expansão para mais três unidades. A cooperação com Portugal é apontada como fator decisivo, pois permite à Grécia apoiar-se em um quadro já estabelecido de exploração operacional, suporte e transferência de conhecimento, e eventualmente adquirir as aeronaves via governo a governo por meio das opções contratadas por Lisboa.

Na avaliação do Estado-Maior da Aeronáutica grego, o KC-390 apresenta vantagem em relação ao C-130J não apenas no custo de aquisição, mas também em vantagens operacionais e técnico-econômicas relacionadas a manutenção, suporte e disponibilidade. O KC-390 é mais veloz (870 km/h contra 660 km/h do C-130J) e carrega mais carga (26 toneladas contra 21 toneladas). Os motores turbofan IAE V2500, amplamente empregados na aviação comercial, tornam sua manutenção mais simples e barata.

A Força Aérea Helênica também especificou requisitos que transformam a aeronave em multiplicador de poder: o KC-390 deverá ser adquirido com sistema de autodefesa, capacidade de reabastecimento aéreo de aeronaves de combate e equipamento de evacuação médica. Para a Grécia, com centenas de ilhas habitadas, essa capacidade tem dimensão tanto militar quanto humanitária.

O governo grego sinalizou investimentos da ordem de 28 bilhões de euros em defesa até 2036, após longo período de restrições orçamentárias decorrente da crise financeira de 2009 a 2018. A decisão sobre o KC-390 é esperada para os próximos meses.

 

Um clube que cresce
O KC-390 foi selecionado por 12 países até maio de 2026. Entre os usuários e clientes confirmados estão Brasil (19 unidades), Portugal (6), Hungria, Áustria, República Tcheca, Suécia, Países Baixos, Lituânia, Eslováquia, Coreia do Sul, Uzbequistão e Emirados Árabes Unidos. O pedido dos Emirados, anunciado em maio de 2026, totalizou 20 aeronaves (10 firmes e 10 opções) e marcou a estreia do KC-390 no Oriente Médio.

A expansão europeia do programa é notável. Desde a entrada em serviço com a Força Aérea Portuguesa, em 2023, e com a Força Aérea Húngara, em 2024, o KC-390 acumulou mais de 14.000 horas de voo na frota brasileira, com taxa de disponibilidade superior a 99%. Esses números são citados com frequência pelos representantes da Embraer em apresentações a potenciais clientes.

A visita do general Kadıoğlu em Beja não resultou, até o momento, em qualquer declaração oficial de interesse por parte da Turquia. Mas o simples fato de que o comandante da força aérea de um país que acaba de comprar C-130 usados do Reino Unido tenha se dado ao trabalho de examinar pessoalmente o KC-390 em operação diz algo sobre o horizonte de modernização que Ankara projeta para a próxima década. No leste do Mediterrâneo, o cargueiro brasileiro começa a figurar como uma opção real em planos militares que ainda levam algum tempo para se concretizar.

16 maio, 2026

Alto escalão da Marinha visita XMobots e reforça parceria estratégica em drones nacionais

Almirante de esquadra e contra-almirante estiveram em São Carlos para conhecer os sistemas Nauru 100D, 500C e 1000C; relação entre a força naval e a empresa já inclui contrato vigente, testes operacionais com fuzileiros navais e acordo de R$ 40 milhões firmado com a Petrobras. 


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LRCA Defense Consulting - 16/05/2026

A XMobots, maior fabricante de drones da América Latina e empresa 100% nacional que conta com participação minoritária da Embraer, recebeu esta semana uma das visitas institucionais de maior peso já realizadas por representantes das Forças Armadas brasileiras a uma empresa privada de defesa. Segundo divulgação da própria companhia no LinkedIn, uma comitiva da Marinha do Brasil formada pelo Almirante de Esquadra Edgar Luiz Siqueira Barbosa, Diretor-Geral do Material da Marinha (DGMM); pelo Contra-Almirante Alexandre Veras Vasconcelos, Diretor da Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM); e pelo Capitão de Corveta Leonardo Rabetim de Oliveira, assistente do DGMM, visitou a sede da empresa em São Carlos (SP) para conhecer suas capacidades fabris, operacionais e de engenharia.

As fotos divulgadas mostram os oficiais sendo apresentados aos três modelos da família Nauru voltados à defesa: o Nauru 100D, drone tático de 9 kg projetado para missões de inteligência, vigilância, aquisição de alvos e reconhecimento (ISTAR); o Nauru 500C ISR, primeiro VTOL híbrido certificado pela Anac para voos além da linha de visada (BVLOS); e o Nauru 1000C ISTAR, plataforma de 150 kg já em uso pelo Exército Brasileiro e pela própria Marinha para missões de vigilância e reconhecimento de fronteiras e de áreas marítimas.

No comunicado, a XMobots descreveu o encontro como uma oportunidade de "aproximar as parcerias já existentes em projetos estratégicos", indicação de que a visita não representou uma aproximação inicial, mas o aprofundamento de uma relação institucional já consolidada.

Uma parceria construída em etapas
O interesse da Marinha pelos sistemas da XMobots tem raízes anteriores à visita desta semana. Em outubro de 2024, a força naval recebeu formalmente o drone Nauru 500C, rebatizado internamente como RQ-2, fruto de um acordo com Shell Brasil, CLS Brasil e XMobots para desenvolvimento de sistemas de busca e salvamento marítimo. O equipamento foi incorporado ao 1º Esquadrão de Aeronaves Remotamente Pilotadas (EsqdQE-1), vinculado ao Corpo de Fuzileiros Navais.

Em dezembro do mesmo ano, a Marinha ativou o Esquadrão de Drones Táticos de Esclarecimento e Ataque do Corpo de Fuzileiros Navais, demonstrando o compromisso institucional da força com a incorporação de sistemas não tripulados ao seu arsenal. E em janeiro de 2026, XMobots, Marinha do Brasil e Petrobras assinaram acordo de cooperação técnica no âmbito do projeto MMRE (Monitoramento Marítimo com Recursos Embarcados), com investimento total de R$ 40 milhões. O objetivo é adaptar os drones da família Nauru para operar a partir de navios em movimento, além de apoiar o monitoramento ambiental da Amazônia Azul e o combate ao tráfico no mar territorial brasileiro.

O projeto prevê adaptações significativas nos sistemas dos drones para suportar as condições severas do ambiente marítimo - salinidade elevada, umidade extrema, ventos fortes - além do desenvolvimento de algoritmos que permitam pousos e decolagens a partir de embarcações em movimento, como fragatas e navios-patrulha. Os testes de validação estão sendo realizados na Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia (RJ) e a bordo de embarcações da própria Marinha.

 

Fuzileiros navais testam o Nauru 100D na Marambaia
Paralelamente ao projeto MMRE, o drone tático Nauru 100D passou por avaliação operacional conduzida pelo Corpo de Fuzileiros Navais no Centro de Avaliação da Ilha da Marambaia (CADIM), na Baía de Sepetiba (RJ). Segundo relato da própria XMobots, o sistema foi submetido a voos diurnos e noturnos com rastreamento de embarcações, identificação de alvos com câmeras térmicas e eletro-ópticas, além de testes de facilidade de montagem e transporte.

A comitiva de avaliação reunia representantes do Batalhão de Combate Aéreo do Corpo de Fuzileiros Navais (BtlCmbAe) e do EsqdQE-1, além de pessoal das áreas de compras e materiais da força. O evento foi coordenado pelo Capitão de Mar e Guerra (FN) Carlos Alexandre Tunala da Silva, gerente de drones do Comando do Material de Fuzileiros Navais, que em fevereiro de 2026 já havia visitado a sede da XMobots em São Carlos para uma avaliação institucional prévia. Os resultados dos testes na Marambaia foram descritos internamente como "muito positivos".

O interesse dos fuzileiros navais pelo Nauru 100D tem explicação operacional direta. Em missões anfíbias, o sistema pode ser lançado a partir de embarcações para mapear praias de desembarque, identificar posições inimigas e transmitir imagens ao comandante da operação antes mesmo do primeiro fuzileiro pisar em terra. Com peso de 9 kg, montagem em menos de três minutos e operação por dois soldados, o drone oferece consciência situacional em tempo real sem expor pessoal a riscos desnecessários. Sua tecnologia de decolagem e pouso vertical (eVTOL) elimina a necessidade de pistas ou catapultas, o que é especialmente relevante para operações em ambientes costeiros, fluviais e insulares.

 

Tecnologia 100% nacional em um contexto geopolítico de urgência
O aprofundamento da relação entre a Marinha e a XMobots ocorre num momento em que os conflitos contemporâneos, sobretudo o da Ucrânia, reescreveram as doutrinas militares globais sobre o uso de drones. O que antes era tratado como recurso auxiliar passou a ser reconhecido como elemento central do campo de batalha moderno. Enxames de aeronaves não tripuladas saturaram sistemas de defesa antiaérea, drones FPV de baixo custo destruíram blindados avaliados em milhões de dólares, e sistemas de reconhecimento definiram batalhas ao fornecer coordenadas precisas para artilharia.

Nesse contexto, a escolha por tecnologia 100% nacional tem valor estratégico que vai além do custo. Um sistema cujos componentes dependem de fornecedores estrangeiros pode ter seu suprimento interrompido por sanções econômicas, embargos ou decisões comerciais de outros governos. A XMobots é hoje a única empresa brasileira com domínio vertical completo da cadeia de desenvolvimento de drones: hardware, software, sensores e inteligência artificial são todos produzidos internamente, com taxa de nacionalização próxima a 90% dos componentes.

Fundada em 2007 em São Carlos (SP) com foco inicial no agronegócio, a empresa acumula hoje mais de 700 colaboradores, entre os quais cerca de 60 engenheiros de pesquisa e desenvolvimento. É classificada como a 6ª maior fabricante de drones do mundo e a maior da América Latina, segundo a plataforma Drone Industry Insights. Desde 2022, conta com participação minoritária da Embraer em seu capital. Em paralelo, firmou acordo com a europeia MBDA para desenvolver uma versão armada do Nauru 1000C equipada com mísseis Enforcer, o que seria o primeiro sistema de arma aéreo não tripulado genuinamente brasileiro.

Do reconhecimento ao combate: o horizonte que a Marinha também avalia
Embora as parcerias formais firmadas até agora com a Marinha estejam centradas em vigilância, reconhecimento e monitoramento ambiental, a XMobots já tornou públicos dois conceitos que ampliam o escopo operacional da plataforma Nauru 100D. O primeiro é a versão UCAV (Unmanned Combat Aerial Vehicle), que prevê capacidade de ataque de precisão com munição de alto explosivo (HE) e carga antitanque (HEAT), correção de trajetória em tempo real e, sobretudo, retorno à base para rearmamento e novas missões, diferenciando o sistema das chamadas munições vagantes (drones kamikazes), descartadas no impacto.

O segundo conceito, chamado de Swarm (enxame), prevê o lançamento simultâneo de até 30 aeronaves a partir de um contêiner de 20 pés instalado em um caminhão ou navio. Três delas seriam destinadas ao reconhecimento e identificação de alvos por inteligência artificial; as outras 27, ao ataque coordenado e autônomo. O alcance do sistema variaria entre 120 km e 340 km, dependendo da versão. Ambos os conceitos estão em fase de desenvolvimento e validação, e a empresa declarou ter iniciado a fabricação de um lote-teste de 20 sistemas, com pedidos iniciais já recebidos.

Para a Marinha, o potencial dessas versões avançadas é considerável. Um enxame lançado de um navio poderia saturar defesas inimigas em operações de projeção de poder ou em cenários de defesa do litoral, enquanto as unidades de reconhecimento forneceriam inteligência em tempo real ao comandante da operação, uma doutrina que, até poucos anos, era exclusividade de potências como Estados Unidos e Israel.

 

O significado da visita atual
A presença do Diretor-Geral do Material da Marinha - um almirante de esquadra, o posto mais alto da hierarquia operacional abaixo do Comandante da Marinha - em uma visita técnica a um fabricante privado é um evento fora do comum. O DGMM é o responsável máximo pela cadeia logística e de material de toda a força naval, incluindo a aprovação de sistemas e equipamentos a serem incorporados ao inventário da Marinha. Sua presença em São Carlos, ao lado do Diretor da Aeronáutica da Marinha, sinaliza que as conversações entre a força e a XMobots alcançaram um nível institucional que vai além de projetos pontuais.

A Amazônia Azul, com os cerca de 5,7 milhões de km² de águas jurisdicionais sobre as quais o Brasil reivindica direitos soberanos, permanece como o principal vetor desta aproximação. Monitorar uma área desse porte com meios exclusivamente tripulados é operacionalmente inviável e economicamente insustentável. Drones com autonomia de até 10 horas, alcance de 60 km e capacidade de operar a partir de navios em movimento representam um multiplicador de força concreto para uma marinha que precisa vigiar fronteiras líquidas de dimensões continentais.

A decisão de incorporar novas plataformas da XMobots ao inventário da Marinha ainda depende de processos formais de aquisição, aprovação orçamentária e prioridades estratégicas. Mas a sequência de eventos dos últimos meses: contrato vigente, testes operacionais bem-sucedidos, acordo de R$ 40 milhões assinado e agora uma visita de alto escalão, sugere que o caminho entre interesse e aquisição nunca esteve tão curto.

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