Startup manauara AeroRiver testa em breve o barco voador que corta o trajeto Manaus-Parintins de dez para três horas, com ambições que vão da saúde à fronteira
*LRCA Defense Consulting - 12/08/2026
Origem: de um desafio universitário a uma startup incubada no ITA
A ideia nasceu da amizade entre os engenheiros Lucas Guimarães e Felipe Bortolete, que se conheceram na equipe de Aerodesign da Escola Superior de Tecnologia da Universidade do Estado do Amazonas (EST/UEA). Após um mestrado em Engenharia Aeronáutica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a dupla foi convidada pelo engenheiro eletricista Túlio Duarte, amigo de longa data de Guimarães, a desenvolver uma solução para o problema logístico da região amazônica. Em outubro de 2020, durante a pandemia, os três fundaram a AeroRiver.
A empresa avaliou primeiro um conceito de carro voador, descartado pela baixa autonomia diante das distâncias amazônicas, até chegar ao modelo de efeito solo, inspirado nos antigos ecranoplanos soviéticos. O apoio do programa Inova Amazônia, do Sebrae, foi decisivo para transformar o projeto técnico em plano de negócios, segundo relato de Felipe Bortolete, em fevereiro de 2023. A startup já foi premiada no Prêmio Finep de Inovação e teve destaque no Web Summit Lisboa.
Como funciona: sustentação pelo colchão de ar
Diferentemente dos aviões convencionais, que voam pela baixa pressão gerada sobre as asas, os ecranoplanos usam o efeito solo: uma sobrepressão sob asas de formato específico que cria um colchão de ar e sustenta o veículo em voo rasante, entre 2 e 5 metros acima da superfície da água. O termo deriva da palavra russa que designa o fenômeno, ecranniy effect. O Voadeiro é oficialmente regulamentado como embarcação, com casco de lancha na parte inferior para decolagem e pouso na água, e estrutura superior semelhante à de uma pequena aeronave, com cabine fechada, asas e duas hélices. A motorização é híbrida: motor a combustão auxiliado por motores elétricos na decolagem, com consumo estimado entre 7 e 8 quilômetros por litro, próximo ao de um automóvel.
Com envergadura de 18 metros na versão de maior porte, o veículo alcança velocidade de cruzeiro de até 150 km/h, transportando até 10 passageiros ou 1 tonelada de carga.
Os números da mobilidade civil
O caso de uso mais avançado da AeroRiver é o transporte fluvial de passageiros e cargas. No trajeto entre Manaus e Parintins, a empresa estima 3 horas de viagem contra 10 horas de lancha convencional e 1h10 de avião, com emissão média de 36 kg de CO2 por passageiro, contra 42 kg da lancha e quase 60 kg do avião. O custo estimado da viagem também seria menor: R$ 25,57 por passageiro no Voadeiro, contra R$ 28,57 na lancha e R$ 40,98 no avião.
Em trechos mais longos, o ganho relativo cresce. No trajeto entre Manaus e São Gabriel da Cachoeira, de 852 km por via fluvial, uma lancha leva 24 horas; o Volitan levaria cerca de 6 horas, segundo estimativa do cofundador Felipe Bortolete.
Um diferencial de custo estrutural é a dispensa de aeroportos: por decolar e pousar diretamente nos rios, o veículo pode operar a partir da infraestrutura portuária já existente na região, o que reduz o investimento necessário para viabilizar rotas em áreas remotas, mesmo durante períodos de seca severa que restringem a navegação convencional.
Cronograma: construção dividida entre Manaus e São José dos Campos
O primeiro protótipo tripulado do Voadeiro está em fase avançada de construção, com parte da estrutura produzida em Manaus e parte em São José dos Campos, no interior de São Paulo, e montagem final na capital amazonense. Segundo o cofundador Túlio Duarte, o objetivo é ter o primeiro veículo tripulado pronto até o fim de 2026, com testes nos rios da Amazônia previstos para o período entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027. A primeira versão comercial, com capacidade para 2 a 4 pessoas, deve custar entre R$ 1 milhão e R$ 1,3 milhão; uma versão maior, para 10 passageiros, está estimada em R$ 3 milhões.
O olhar para uso militar e de segurança pública
Embora o modelo de negócio da AeroRiver seja hoje voltado ao transporte civil de passageiros, cargas, turistas e produtores locais, a empresa já sinaliza publicamente outras frentes de aplicação. Segundo reportagem do portal Startupi, de agosto de 2026, a companhia também mira o uso do Voadeiro por equipes médicas e por forças de segurança pública em áreas de difícil acesso, funções que se somam ao transporte convencional de passageiros e cargas.
A vocação para esse tipo de emprego não é uma peculiaridade do projeto brasileiro. Internacionalmente, o mesmo princípio físico do efeito solo é hoje objeto de investimento militar direto em pelo menos três potências. A Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa dos Estados Unidos, a Darpa, desenvolve com a empresa Aurora Flight Sciences o programa Liberty Lifter, um ecranoplano de transporte militar com capacidade de carga comparável à do C-17 Globemaster, com voo demonstrativo previsto para o fim de 2027 ou o início de 2028. Já a empresa REGENT desenvolve o Squire, ecranoplano não tripulado e elétrico pensado para missões de transporte, reconhecimento e evacuação, com baixo perfil de detecção por operar em baixa altitude. A China, por sua vez, já expôs publicamente um ecranoplano de grande porte com propulsão a jato, segundo compilações internacionais especializadas em veículos de efeito solo.
A própria União Soviética, matriz histórica da tecnologia, chegou a empregar operacionalmente o ecranoplano da classe Lun como navio de guerra na Frota do Cáspio entre 1987 e o fim dos anos 1990, além de desenvolver o projeto Spasatel, retomado pela Rússia em 2018 para operações de busca e salvamento no Ártico e no Pacífico, com capacidade projetada para transportar até 550 militares a bases remotas.
No caso brasileiro, o encaixe operacional é evidente, ainda que não confirmado por nenhuma força de segurança. O Comando Militar da Amazônia responde por mais de 9 mil quilômetros de fronteira, e operações de garantia da lei e da ordem, como a Ágata e a Catrimani, dependem hoje de deslocamento fluvial e aéreo caro e lento entre pelotões especiais de fronteira que, em alguns casos, ficam a mais de 360 quilômetros da sede do batalhão responsável. Um veículo capaz de cobrir esse tipo de distância a 150 km/h, operando diretamente sobre o rio e sem exigir pista de pouso, endereça diretamente esse gargalo logístico, hoje um dos principais entraves à presença contínua do Estado na fronteira amazônica.
Ressalvas
Até o fechamento desta matéria, não há declaração de interesse formal por parte do Exército Brasileiro, da Marinha, da Força Aérea Brasileira ou de forças estaduais de segurança pública pelo Voadeiro/Volitan. A menção a usos em segurança pública e em apoio a equipes médicas é, por ora, uma aspiração comercial da própria AeroRiver, não um programa em andamento.








