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09 agosto, 2026

Nova tecnologia do IME pode reforçar a capacidade de contrabateria da artilharia brasileira

Tecnologia desenvolvida inicialmente para localizar atiradores de elite é agora aplicada a um desafio mais complexo: identificar e localizar disparos de morteiros, obuses e lançadores de mísseis e foguetes
 
Sensores acústicos do protótipo do Sistema de Localização de Alvos de Artilharia pelo Som 
que está sendo desenvolvido pelo IME

 
*LRCA Defense Consulting - 09/08/2026

O Instituto Militar de Engenharia (IME) está desenvolvendo um sistema destinado a localizar alvos de artilharia a partir do som produzido pelos disparos. A iniciativa ganhou uma dimensão prática durante o exercício Coxilha, realizado pela 3ª Artilharia Divisionária (AD/3), no Centro de Instrução Barão de São Borja (CIBSB), em Saicã, no Rio Grande do Sul. Integrantes do Instituto participaram da atividade para registrar o som de disparos reais de obuseiros de diferentes calibres e características, construindo uma base de dados que será utilizada no desenvolvimento e na validação dos algoritmos do sistema.
A escolha do exercício para essa etapa do projeto é particularmente significativa. O Coxilha reúne organizações de artilharia de campanha subordinadas diretamente à AD/3 e à 3ª Divisão de Exército (3ª DE) e representa uma etapa de adestramento da tropa. Para os pesquisadores, o ambiente ofereceu aquilo que um laboratório dificilmente consegue reproduzir integralmente: a assinatura acústica de sistemas de armas reais, empregados em condições reais de campo.
De uma pesquisa sobre atiradores de elite para a artilharia
Segundo o próprio IME, o projeto surgiu da capacidade científica e tecnológica acumulada pelo Instituto no Projeto Caçador, voltado à localização de atiradores de elite por meio da detecção e do processamento de ondas sonoras. A experiência adquirida nesse trabalho está sendo agora aplicada a um problema muito mais complexo: localizar disparos de morteiros, obuses e lançadores de mísseis e foguetes.
A diferença de complexidade é relevante. No Projeto Caçador, o sistema precisava reconhecer e localizar a assinatura acústica de um disparo de arma de fogo. Na aplicação de artilharia, será necessário lidar com diferentes calibres, tipos de armamento, características de munição, distâncias, condições meteorológicas, relevo, ruídos ambientais e, potencialmente, múltiplos disparos em sequência ou simultâneos. O próprio IME destaca que a complexidade do novo sistema é significativamente maior.

Gravador de dados do protótipo do Sistema de Localização de Alvos de Artilharia pelo Som 
que está sendo desenvolvido pelo IME
O campo de tiro como laboratório
A primeira etapa anunciada pelo Instituto é a obtenção de uma base de dados de sons de artilharia. Durante o Coxilha, uma equipe formada pelo Coronel Veterano PTTC Caetano, pelo SC Bomfim e pelos alunos do Curso de Formação Tenentes Chinelatto e Judá, da Seção de Ensino em Engenharia Elétrica, realizou a gravação dos disparos.
Os dados coletados terão três funções principais: permitir a detecção dos disparos, possibilitar sua classificação e fornecer informações para estimar a direção da origem do fogo. A etapa é fundamental porque um sistema baseado em processamento de sinais precisa ser treinado e validado com assinaturas acústicas representativas do ambiente em que será empregado.
A participação do IME também demonstra que o desenvolvimento já ultrapassou a esfera exclusivamente laboratorial. O sistema foi levado a um exercício de artilharia e apresentado às autoridades militares presentes, entre elas o comandante da 3ª DE, General de Divisão Marcus Alexandre Fernandes de Araujo, o comandante da AD/3, General de Brigada Alexsander Aquiles da Conceição, e outros oficiais-generais.
Uma demanda associada ao ASTROS-FOGOS
O IME informa que o projeto também surgiu dos desafios apresentados pelo Programa Estratégico ASTROS-FOGOS. A relação é importante porque o Exército reorganizou em 2026 sua arquitetura de programas estratégicos ligados aos fogos, reunindo sob o ASTROS-FOGOS diferentes capacidades de artilharia, mísseis e foguetes e defesa antiaérea.
Em maio de 2026, esta Consultoria registrou a nova configuração do programa e destacou a integração entre iniciativas de fogos de longo alcance e a modernização da artilharia de campanha. A própria estrutura do ASTROS-FOGOS passa a funcionar como um guarda-chuva para capacidades distintas, mas complementares, relacionadas à produção e ao emprego de efeitos de fogo.
Nesse contexto, localizar rapidamente a origem de um disparo é parte essencial da capacidade de busca de alvos. Quanto menor o intervalo entre a detecção de um fogo inimigo e a determinação de sua posição, maior a possibilidade de responder antes que a unidade adversária se desloque ou execute novos disparos.

Gravador de dados do protótipo do Sistema de Localização de Alvos de Artilharia pelo Som 
que está sendo desenvolvido pelo IME
A artilharia brasileira entra em uma nova fase digital
O desenvolvimento do sistema acústico ocorre paralelamente à digitalização da Artilharia de Campanha. Em junho de 2026, o Exército informou o início da implantação do Sistema Digitalizado da Artilharia de Campanha (SISDAC) no 3º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado, Regimento Mallet. Segundo a Força, o sistema busca integrar sensores, comunicações, navegação e direção de tiro, reduzindo o tempo entre a identificação de um alvo e a execução do fogo.
O sistema acústico pode ser entendido como mais uma fonte de informação dentro dessa arquitetura. Em vez de produzir uma solução isolada, seu maior potencial está na possibilidade de fornecer dados para uma rede de busca de alvos que também utilize radares, SARP, observadores e outros sensores.
Uma capacidade passiva de localização
A localização acústica apresenta uma característica particularmente atraente no campo de batalha: é passiva. O sensor não precisa emitir energia eletromagnética para detectar o disparo, ficando assim "invisível" para os sensores inimigos. Ele simplesmente capta e processa o som produzido pela arma.
Essa característica pode complementar os radares de contrabateria. Enquanto o radar utiliza ondas eletromagnéticas para detectar e acompanhar projéteis, o sistema acústico trabalha com a assinatura sonora. Em uma arquitetura multissensor, os dois meios podem produzir informações diferentes sobre o mesmo evento e aumentar a robustez da busca de alvos.
Como o sistema pode localizar a origem do disparo
O princípio básico é a diferença de tempo com que o som chega aos diversos sensores de um arranjo. Como uma frente de onda sonora atinge primeiro os sensores mais próximos da direção de onde veio o disparo, a comparação entre os sinais permite estimar a direção de chegada, conhecida como DoA, Direction of Arrival.
A comparação das diferenças de tempo de chegada, ou TDoA, Time Difference of Arrival, pode então ser utilizada para calcular uma direção. Com informações de mais de um ponto de recepção, as direções podem ser cruzadas para estimar a posição da fonte. Outra possibilidade é combinar azimute e elevação com informações topográficas para obter uma provável coordenada de origem.
O IME possui experiência anterior com esse tipo de processamento. Pesquisas acadêmicas do Instituto trataram da localização acústica de disparos, da determinação da direção de tiro e da utilização de arranjos de microfones para processar sinais de armas de fogo. O projeto atual representa uma evolução dessa competência para um cenário de artilharia.
Uma capacidade já prevista pela doutrina
A localização pelo som não é uma capacidade estranha à doutrina do Exército Brasileiro. O Manual de Campanha EB70-MC-10.378, Bateria de Busca de Alvos, prevê o emprego de equipamentos acústicos para localizar armas inimigas de tiro indireto. O documento ressalta justamente o caráter passivo desse tipo de sensor.
O manual estabelece, como referência doutrinária, a detecção de morteiros de 120 mm ou maiores a até 12 quilômetros e de obuses de 105 mm ou maiores a até 16 quilômetros. Também prevê requisitos relativos à autonomia, ao posicionamento e ao tempo de entrada em operação. Esses números, entretanto, não devem ser confundidos com o desempenho do protótipo do IME, que ainda não teve seus resultados de alcance e precisão divulgados publicamente.

Equipe e equipamentos do protótipo do Sistema de Localização de Alvos de Artilharia pelo Som
que está sendo desenvolvido pelo IME
O interesse cresce com a experiência dos conflitos atuais
A guerra contemporânea reforçou a importância da busca de alvos e da sobrevivência das unidades de artilharia. A experiência da guerra russo-ucraniana, analisada em estudos do próprio Exército, mostra o crescente emprego de sensores e a necessidade de modernizar as baterias de busca de alvos para detectar peças de artilharia cada vez mais próximas do limite anterior da área de defesa.
Nesse ambiente, a rapidez para localizar quem atirou pode ser decisiva. Artilharia e lançadores precisam combinar mobilidade, dispersão, camuflagem e rapidez para evitar a resposta inimiga. Um sensor acústico passivo, distribuído e integrado a outros meios pode contribuir justamente para reduzir o tempo entre o disparo inimigo e a produção de uma informação útil para o comando.
Um projeto que ainda precisa vencer etapas
A apresentação do sistema pelo IME não significa que já exista uma solução operacional pronta. A fase de coleta de dados realizada no Coxilha é uma etapa fundamental do desenvolvimento, mas ainda será necessário validar os algoritmos, medir a precisão, avaliar o comportamento em diferentes condições ambientais e determinar o alcance efetivo do sistema.
Também não estão disponíveis publicamente informações suficientes para afirmar a arquitetura definitiva do protótipo mostrado nas imagens, o número e o tipo exato dos sensores, a forma como a posição será calculada ou se o sistema já está integrado a uma rede de comando e controle.
Essas informações serão decisivas para determinar se o projeto permanecerá como demonstrador tecnológico ou avançará para uma capacidade operacional passível de ser incorporada às unidades de busca de alvos do Exército e, eventualmente, industrializada pela Base Industrial de Defesa.
Da assinatura do tiro à resposta de fogo
O que o IME apresentou no exercício Coxilha é, portanto, mais do que um equipamento experimental. É uma tentativa de transformar uma assinatura física simples, o som produzido por um disparo, em informação militar útil: qual arma disparou, que tipo de disparo foi realizado e, principalmente, de onde veio o fogo.
A tecnologia parte de uma competência científica construída ao longo de anos, encontra uma demanda diretamente relacionada ao ASTROS-FOGOS e passa agora por uma etapa decisiva, a construção de uma base de dados obtida no próprio campo de tiro. Se os próximos testes demonstrarem precisão e alcance compatíveis com as necessidades operacionais, o Brasil poderá acrescentar uma nova camada nacional à sua arquitetura de busca de alvos: um sensor acústico passivo, potencialmente de menor custo e capaz de complementar radares e outros meios.
O que falta saber
O próximo passo para avaliar a maturidade do projeto será conhecer os resultados colhidos no exercício Coxilha. Entre as informações mais relevantes estão o alcance efetivamente obtido, a precisão da localização, o tempo necessário para gerar uma posição, a capacidade de distinguir diferentes tipos de armas e a possibilidade de operação em ambientes com vento e condições meteorológicas adversas, relevo irregular e múltiplos disparos.
Também será importante saber se o Exército já definiu requisitos específicos para a transformação do protótipo em sistema operacional e se existe previsão de participação da Base Industrial de Defesa na etapa seguinte.

08 agosto, 2026

Letônia avalia incorporar o A-29 Super Tucano à defesa aérea

Comandante da Força Aérea letã revela contatos com fabricantes para empregar o turboélice brasileiro no combate a drones e alvos lentos


*LRCA Defense Consulting - 08/08/2026

O comandante da Força Aérea da Letônia, coronel Viesturs Masulis, revelou que a instituição avalia a possível aquisição do A-29 Super Tucano, turboélice de ataque leve fabricado pela brasileira Embraer, como parte do reforço da defesa aérea do país báltico. A informação foi divulgada nesta semana pelo portal Sargs.lv, em episódio do podcast Droši ir zināt ("É bom saber", em tradução livre), publicado em 7 de agosto de 2026.

Segundo o coronel Masulis, o contato com a indústria ocorreu em meados de julho, durante a conferência Global Air & Space Chiefs', realizada em Londres, na qual se reuniu com representantes da indústria militar para discutir alternativas de aeronaves leves de combate e treinamento. O A-29 Super Tucano é uma das plataformas também avaliadas por outros países-membros da OTAN.

O que é o A-29 Super Tucano
O A-29 Super Tucano é uma aeronave turboélice originalmente concebida para missões de ataque leve, reconhecimento e treinamento avançado de pilotos, sendo uma plataforma testada em combate e considerada intermediária entre helicópteros de ataque e caças a jato. Entre suas principais vantagens estão o custo reduzido de manutenção e de hora de voo em comparação com jatos de combate, a autonomia de patrulha superior a seis horas, a capacidade de pousar e decolar em pistas curtas e não preparadas, além da compatibilidade com munição guiada de precisão, mísseis ar-ar, metralhadoras embarcadas e sensores eletro-ópticos e infravermelhos.

Papel na defesa aérea da Letônia
Para o coronel Masulis, a aquisição do turboélice brasileiro é uma opção real, embora qualquer solução na área da aviação exija recursos financeiros expressivos. Segundo ele, os primeiros passos já foram dados: os fabricantes já foram contatados, e o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas Nacionais da Letônia (NBS) determinou a busca pelas soluções mais eficientes.

"Ao passar o bastão ao próximo comandante da Força Aérea, coronel Edmunds Svenčs, certamente o incentivarei a focar nessas aeronaves, não como aviões clássicos, mas como defesa aérea baseada no ar, especialmente na luta contra alvos lentos e drones", afirmou Masulis, segundo o Sargs.lv.

O governo letão já destinou mais de um bilhão de euros ao fortalecimento da defesa aérea do país, e uma das possíveis componentes desse sistema seria justamente uma solução baseada em aeronaves. De acordo com o comandante, assim que os fabricantes apresentarem estimativas concretas de custos e prazos de fornecimento, será elaborada uma análise detalhada e um plano de ação.

Indústria local e comparação regional
Questionado sobre o potencial da indústria letã para produzir localmente uma aeronave semelhante, Masulis reconheceu que os fabricantes nacionais têm grande potencial, mas destacou que a aviação militar exige décadas de experiência acumulada. Ele citou o caso do Tarragon, aeronave leve produzida pela empresa letã Pelegrin, entregue à Força Aérea em 2022 para treinamento de pilotos, como um exemplo bem-sucedido, mas insuficiente para suprir uma necessidade de aviação de combate mais robusta. "Nossos fabricantes locais ainda precisam crescer. Se olharmos para uma aviação de combate mais séria, hoje é preciso dar preferência a soluções comprovadas e reconhecidas internacionalmente", concluiu o comandante, de acordo com o Sargs.lv.

O caso letão se soma a um movimento mais amplo dentro da OTAN em torno do A-29 Super Tucano. Portugal foi o primeiro país da aliança a operar a variante A-29N, configurada segundo os padrões da OTAN, com entregas iniciadas em dezembro de 2025 e integração dos primeiros aviões à Esquadra 101 "Roncos", da Base Aérea de Beja, no início de 2026. A versão A-29N incorpora datalink tático, cockpit compatível com visão noturna e capacidade declarada para missões de luta antidrone em cenários de baixa ameaça.

O processo de avaliação de novas capacidades pela Força Aérea letã está em estágio inicial, e seus próximos desdobramentos dependerão da análise detalhada a ser conduzida pela nova gestão e da disponibilidade orçamentária para a aquisição.

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