Pesquisar este portal

17 maio, 2026

O fim da profundidade estratégica: o drone chega à capital e traz uma nova revolução na guerra aérea

 
 
*LRCA Defense Consulting - 17/05/2026

Em 13 e 14 de maio de 2026, a Rússia lançou contra a Ucrânia o maior ataque combinado de drones e mísseis desde o início da invasão em larga escala. Foram 1.567 drones de ataque e 56 mísseis disparados ao longo de 36 horas ininterruptas. A defesa aérea ucraniana abateu 1.362 drones, 29 mísseis de cruzeiro Kh-101 e 12 mísseis balísticos. Três mísseis hipersônicos Kinzhal chegaram aos alvos sem ser interceptados. Três dias depois, em 17 de maio, a Ucrânia respondeu com um dos maiores ataques de drones já lançados contra o território russo: centenas de VANTs atingiram Moscou e a região ao redor da capital, forçando o fechamento do espaço aéreo próximo ao aeroporto Sheremetyevo, causando ao menos quatro mortos e uma dezena de feridos. O ciclo atacar-ser atacado-atacar de volta, medido em centenas de drones por noite, descreve com precisão o caráter da guerra contemporânea.

O episódio não foi isolado. Ao longo de todo o mês de abril de 2026, a Rússia havia lançado um recorde de 6.663 drones contra o território ucraniano, média de 222 por noite, segundo a Força Aérea da Ucrânia. A escala e a cadência desses ataques tornaram obsoletos os modelos tradicionais de defesa antiaérea, baseados em mísseis caros e infraestrutura fixa, e aceleraram o surgimento de respostas radicalmente diferentes em ambos os lados do conflito.

O ataque russo de 13 e 14 de maio: saturação como estratégia
O ataque de dois dias foi concebido não apenas para atingir alvos específicos, mas para esgotar a defesa ucraniana por acumulação. A fase diurna de 13 de maio, que durou das 8h às 18h30, envolveu 753 drones dos tipos Shahed, Gerber, Italmas e Parody (este último, um chamariz), incluindo variantes a jato. Somados à onda noturna anterior de 139 drones, os lançamentos nas primeiras 24 horas superaram 892 armas não tripuladas. A defesa aérea ucraniana abateu ou suprimiu 710 desses drones até o fim da fase diurna, mas 27 chegaram a seus alvos.

A fase noturna começou imediatamente após o encerramento da onda diurna, sem pausa. A Rússia lançou então 675 drones de ataque adicionais, dois drones Banderol, chamarizes Parody, 35 mísseis de cruzeiro Kh-101 e 18 mísseis balísticos Iskander-M e S-400. A cidade de Kyiv foi o alvo principal. Os três Kinzhal foram disparados da região de Lipetsk a partir de aeronaves MiG-31K: capazes de velocidades superiores a Mach 10 na fase terminal, esses mísseis aerobalísticos representam um desafio de interceptação que poucos sistemas ocidentais de defesa aérea estão certificados para enfrentar. Nenhum dos três foi abatido.

O sequenciamento deliberado de ondas quase contínuas ao longo de 36 horas reflete um objetivo de planejamento russo que vai além de destruir alvos pontuais: manter operações de defesa aérea sem pausa exaure as tripulações, esgota estoques de interceptadores e degrada a capacidade decisória de comandantes que alocam recursos finitos contra uma ameaça contínua. A Ucrânia respondeu. Mas a resposta custou algo: mísseis disparados, tripulações privadas de sono, sistemas levados ao limite.

A resposta imediata: o STING e o recorde de 120 abatidas
Ainda durante o ataque russo de 13 e 14 de maio, a empresa ucraniana Wild Hornets anunciou que seu drone interceptador STING havia derrubado mais de 300 alvos em um único período de dia e noite, com três unidades respondendo por mais de 200 dessas abatidas. O número mais expressivo foi o de uma única tripulação: 120 interceptações em um período operacional, quebrando o recorde individual de tripulação duas vezes durante o mesmo intervalo.

Para contextualizar: 120 interceptações representam, aproximadamente, o volume de um ataque russo de tamanho médio concentrado contra uma única unidade defensora. O STING é um drone construído com armação impressa em 3D, propulsão quadrirrotora, capaz de atingir até 343 km/h e operar a altitudes de até 3.000 metros. Seu custo é uma fração de qualquer míssil superfície-ar; pode ser operado por uma equipe pequena e não requer a infraestrutura fixa de uma bateria antiaérea convencional. O fabricante reporta taxa de sucesso de cerca de 95% nas missões, mesmo em temperaturas de menos 30 graus Celsius.

O conceito é simples na formulação, mas revolucionário na prática: em vez de usar um míssil de dezenas de milhares de dólares para abater um Shahed que custa alguns milhares, emprega-se um drone interceptador ainda mais barato para destruí-lo no ar. Desde abril de 2025, o sistema acumulou mais de 3.900 destruições confirmadas de drones Shahed e Geran até fevereiro de 2026. Em dezembro de 2025, tornou-se o primeiro interceptador a abater o Geran-3, variante a jato do Shahed. Em abril de 2026, era responsável por 70% dos Shahed a jato interceptados. A produção mensal superou 10.000 unidades em março de 2026.

A resposta estratégica: o ataque ucraniano a Moscou
Em 17 de maio de 2026, três dias após o fim do maior ataque russo da guerra, a Ucrânia executou o que o Washington Post descreveu como o maior e mais letal ataque de drones ucranianos contra a região da capital russa desde o início da invasão em larga escala. Centenas de VANTs foram lançados contra Moscou e regiões vizinhas, atravessando mais de 500 quilômetros de território russo protegido por densa cobertura de defesa aérea, segundo declaração do presidente Volodymyr Zelenskyy. As autoridades russas afirmaram ter interceptado centenas de drones, mas confirmaram mortos, casas danificadas, infraestrutura afetada e destroços próximos ao aeroporto Sheremetyevo. Reuters e Associated Press reportaram ao menos quatro mortos, três na região de Moscou e um em Belgorod, além de mais de uma dezena de feridos.

Zelenskyy defendeu os ataques como "inteiramente justificados" após os recentes bombardeios russos em larga escala contra Kyiv. A declaração evidencia a lógica de reciprocidade que passou a estruturar o uso de drones de longo alcance no conflito: cada ataque russo de saturação contra cidades ucranianas tende a ser seguido por operações ucranianas de penetração profunda no território russo. O drone deixou de ser apenas um instrumento tático. Tornou-se o vetor principal de pressão estratégica e política.

A significância do ataque vai além do dano físico causado. Moscou representa o centro do poder estatal russo, a sede do governo de Vladimir Putin e um local que os líderes russos historicamente procuraram manter isolado das consequências cotidianas da guerra. Quando drones ucranianos alcançam a região da capital, questionam a narrativa do Kremlin de controle e segurança. Mesmo que a defesa aérea russa intercepte muitos dos drones, o fato de que Moscou precisa se defender repetidamente de ataques de longo alcance ucranianos cria uma mensagem política de peso: a guerra pode chegar à capital.

Há também um efeito de segunda ordem que Mark Kahanding, veterano de combate, oficial de artilharia de campo da Guarda Nacional do Exército da Califórnia e fundador da Cobalt Academy, destacou em análise publicada no LinkedIn em 17 de maio: cada sistema de defesa aérea designado para proteger a região de Moscou é um sistema indisponível em outro lugar. Cada radar, interceptador, unidade de guerra eletrônica e equipe de reparo mantido em torno da capital cria tensão adicional sobre o esforço de guerra russo como um todo. O efeito do drone de longo alcance não é apenas a destruição imediata: é forçar o inimigo a gastar atenção, mão de obra e recursos defendendo áreas que antes considerava relativamente seguras.

Da plataforma ao ecossistema: a dimensão doutrinária
Tim De Zitter, gerente de ciclo de vida de mísseis anticarro, sistemas VSHORAD, C-UAS e munições de patrulha na Defesa Belga e analista independente de OSINT, publicou no LinkedIn, também em 17 de maio, uma análise que capta a dimensão sistêmica do que a Ucrânia está construindo como resposta ao padrão ofensivo russo: não um único interceptador, mas um ecossistema completo de defesa aérea.

Segundo De Zitter, o CEO do programa Brave1, Andrii Hrytseniuk, descreveu um ecossistema de drones interceptadores que vai muito além de um único design anti-Shahed, com mais de 150 empresas trabalhando em soluções de interceptação dentro de um cluster de tecnologia de defesa que hoje inclui milhares de firmas. O sinal mais importante, na avaliação do analista belga, é a diversidade arquitetônica: a Ucrânia não está apostando tudo em uma única plataforma, um único fornecedor ou uma única resposta técnica. Está construindo uma família em camadas de pequenos interceptadores derivados de FPV, projetos de asa fixa, sistemas maiores de patrulha, híbridos X-wing, variantes de alta velocidade, plataformas de longa resistência e sistemas especializados para diferentes conjuntos de alvos, desde VANTs de reconhecimento e chamarizes até drones de ataque pesados tipo Shahed.

Isso importa porque a guerra de drones é agora uma disputa de curvas de custo. Um Shahed não deve exigir sempre um míssil caro, e um chamariz não deve consumir sempre um interceptador premium. A resposta ucraniana é construir muitas camadas mais baratas que possam corresponder à ameaça de forma mais inteligente, preservar os escassos mísseis de defesa aérea e transformar velocidade industrial em profundidade defensiva.

O debate sobre autonomia é igualmente relevante. Hrytseniuk apontou para um modelo human-on-the-loop, no qual um ser humano retém a autoridade de cancelar ou bloquear uma ação, mas não necessariamente aprova cada interceptação em tempo real. Trata-se de uma mudança significativa, impulsionada pela velocidade de reação necessária contra ataques massivos de drones, mas que levanta a questão central que todos os militares terão de enfrentar: quanta autonomia é aceitável quando segundos decidem se uma cidade, uma usina ou uma base aérea será atingida?

A guerra do custo assimétrico e suas implicações globais
O argumento econômico é inescapável em ambas as direções do conflito. Quando a Rússia lança 222 drones por noite em média, uma defesa baseada exclusivamente em mísseis superfície-ar se torna insustentável. Quando a Ucrânia ataca Moscou com centenas de drones de baixo custo, força a Rússia a consumir interceptadores caros para defender sua capital. A assimetria favorece, por uma vez, quem ataca com volume e quem defende com inteligência de camadas.

Quatro sistemas ucranianos dominam a frota de caçadores de Shahed: o P1-SUN da SkyFall, o STING da Wild Hornets, o Octopus (ucraniano-britânico) e o Bullet da General Cherry. A produção total de interceptadores nos quatro primeiros meses de 2026 já superou a produção de todo o ano de 2025, segundo o ministro da Defesa Mykhailo Fedorov. A inovação vai além do hardware: em abril de 2026, tripulações ucranianas realizaram pela primeira vez a interceptação de um Shahed lançado a partir de um veículo de superfície não tripulado, e um piloto destruiu dois Shahed operando de um ponto de controle a 500 quilômetros de distância.

Para Kahanding, o ataque ucraniano a Moscou deve ser estudado muito além da Rússia e da Ucrânia, porque a mesma lógica pode se aplicar a outros teatros. Se a Ucrânia consegue pressionar a região da capital russa com drones de longo alcance enquanto enfrenta uma potência muito maior, outros Estados e atores não estatais vão estudar o modelo. Irã, Hezbollah, houthis, Coreia do Norte e China já demonstraram interesse em drones, munições de patrulha e capacidades de ataque assimétricas. A lição que podem extrair é simples: um país não precisa igualar os Estados Unidos, a Otan ou outra força militar avançada plataforma por plataforma. Pode usar sistemas mais baratos para criar problemas caros.

Implicações para a guerra contemporânea
O que se consolida no conflito ucraniano é uma nova gramática da guerra aérea. A profundidade estratégica está perdendo seu antigo significado: uma capital a centenas de quilômetros da zona de combate não é mais imune aos efeitos da guerra. A defesa aérea deixou de ser apenas uma questão de radares, lançadores e mísseis, tornando-se uma teia de abatidas definida por software, manufaturada em massa e continuamente atualizada, onde startups, soldados, voluntários e plataformas estatais iteram juntos sob fogo.

A lógica da saturação, explorada pela Rússia, encontrou uma resposta na escala e no custo: não um míssil perfeito para cada ameaça, mas camadas de interceptadores baratos e drones de longo alcance que alteram simultaneamente a defesa e o ataque. O recorde de 120 abatidas por uma única tripulação ucraniana e o ataque de drones a Moscou ocorreram com três dias de diferença, na mesma semana. Juntos, ilustram o novo ciclo da guerra contemporânea: velocidade de iteração industrial, custo assimétrico e alcance geográfico ilimitado.

Quem adaptar seus sistemas mais depressa do que o adversário adapta os próprios começa a mudar a economia do espaço aéreo. E, a julgar pelos eventos de maio de 2026, essa corrida já está em pleno curso.

Avibras Aeroco desenvolve o ASTROS II MK7 com capacidade para lançar míssil balístico tático

Imagem meramente ilustrativa
 

*LRCA Defense Consulting - 17/05/2026

De acordo com informações inéditas reveladas ao perfil @Defence360 na rede social X pelo CEO da empresa, a Avibras Aeroco está desenvolvendo uma nova versão do seu sistema de artilharia de saturação ASTROS II, designada MK7, com uma viatura lançadora 6x6 capaz de disparar o míssil tático balístico AV-SS 120 e que contará com maior autonomia operacional em relação às versões anteriores.

O que é o ASTROS II e a família MK
O ASTROS II (Artillery SaTuration ROcket System) é um sistema autopropulsado de lançamento múltiplo de foguetes e mísseis produzido no Brasil pela Avibras desde 1983. Concebido para a saturação de área com fogos de artilharia, distingue-se da concorrência por um lançador universal e modular capaz de disparar munições de diferentes calibres, de 127 mm a 450 mm, a partir da mesma plataforma, sem necessidade de substituição do veículo.

Ao longo das décadas, o sistema evoluiu por sucessivas variantes. O MK3 correspondeu à configuração inicial adotada pelo Exército Brasileiro, seguida do MK3M modernizado. O MK6, também denominado ASTROS 2020, introduziu o chassis 6x6 Tatra T815, comunicações digitais, novo radar de controlo de fogos e compatibilidade com o míssil tático de cruzeiro AV-TM 300, conhecido como "Matador", de alcance de 300 quilômetros na versão de exportação. Esta variante é operada pelas Forças Armadas brasileiras e foi exportada para a Indonésia, Malásia, Arábia Saudita e Qatar, entre outros.

O MK7 e o míssil balístico AV-SS 120
A nova variante MK7, caso seja concretizada, representa um salto qualitativo na família ASTROS II ao incorporar, pela primeira vez, a capacidade de lançar um míssil tático balístico, o AV-SS 120. Trata-se de um desenvolvimento de grande relevância estratégica: nenhum país da América Latina dispõe atualmente de um sistema de artilharia de foguetes com um míssil balístico tático orgânico.

A designação "AV-SS 120" insere-se na nomenclatura tradicional da Avibras para os seus foguetes, em que "SS" indica superfície-superfície. O número sugere um alcance na ordem dos 120 quilômetros, embora os dados técnicos completos não tenham sido divulgados publicamente. A integração deste míssil no ASTROS II MK7 posicionaria o sistema num patamar comparável ao do M270 MLRS norte-americano equipado com ATACMS, ou ao russo Iskander, em termos de gama de alvos alcançáveis.

Além do novo míssil balístico, o MK7 deverá contar com maior autonomia operacional. Esta característica, referida pelo CEO da Avibras Aeroco ao @Defence360, aponta para melhorias nos sistemas de propulsão, alcance de deslocamento ou capacidade energética da viatura lançadora, embora os detalhes técnicos precisos não tenham ainda sido confirmados.

Contexto: a retomada da Avibras Aeroco
O anúncio surge num momento de recuperação para a empresa. A Avibras entrou em processo de recuperação judicial em março de 2022, acumulando dívidas de 394 milhões de reais, na sequência de anos de redução nas encomendas militares. Durante 2024 e 2025, grupos estrangeiros, incluindo a chinesa Norinco, a australiana DefendTex e a saudita Black Storm Military Industries, manifestaram interesse na aquisição da empresa, cenário que gerou forte resistência nas Forças Armadas brasileiras.

A reestruturação foi viabilizada em 2025 e início de 2026, com a captação de 300 milhões de reais junto de investidores privados, liderada pelo Fundo Brasil Crédito, e a entrada do empresário Joesley Batista como financiador. Em março de 2026, o Tribunal de Justiça de São Paulo confirmou o plano de recuperação judicial por unanimidade e uma greve histórica de 1.281 dias foi encerrada após a homologação de um acordo de pagamento das dívidas laborais. A empresa passou a operar sob o nome Avibras Aeroco, com Sami Hassuani como diretor-presidente.

Programa ASTROS-FOGOS e o míssil tático balístico
Em março de 2026, o Exército Brasileiro transformou o Programa Estratégico ASTROS numa plataforma mais abrangente, designada ASTROS-FOGOS, que integra artilharia de foguetes, mísseis de cruzeiro e um sistema de defesa antiaérea contra drones e mísseis, com um investimento previsto de 3,4 mil milhões de reais para o período 2026-2031.

No âmbito deste programa, em 5 de maio de 2026, o Centro Tecnológico do Exército (CTEx) recebeu uma reunião de coordenação estratégica com a Avibras Aeroco, centrada no Projeto Míssil Tático Balístico (MTB), também referido como S+100, com alcance superior a 100 quilômetros. O MTB é desenvolvido sob a supervisão do Escritório de Projetos do Exército (EPEx) e da Diretoria de Fabricação (DF), com o requisito de interoperabilidade com os lançadores ASTROS existentes. Paralelamente, o Míssil Tático de Cruzeiro MTC-300 "Matador" encontra-se com cerca de 90% do desenvolvimento concluído, aguardando apenas a campanha final de disparos experimentais.

Significado estratégico
O ASTROS II é o sistema de foguetes de artilharia mais bem-sucedido já produzido na América Latina, com mais de 270 unidades fabricadas e operadores em pelo menos oito países. A introdução do MK7 com capacidade balística representa a resposta da Avibras às lições aprendidas em conflitos recentes, nomeadamente na Ucrânia, onde sistemas de foguetes de artilharia com munições guiadas de longo alcance se revelaram determinantes no combate moderno.

A combinação, num único sistema modular, de foguetes não guiados, foguetes guiados, mísseis de cruzeiro e agora mísseis balísticos táticos, diferencia o ASTROS dos seus concorrentes diretos, como o norte-americano HIMARS, que opera com um único tipo de contentor de munições de cada vez. Para os atuais operadores do ASTROS MK6, o MK7 poderá ser oferecido como uma atualização que amplifica significativamente o leque de opções táticas disponíveis, sem necessidade de adquirir uma plataforma inteiramente nova.

General turco examina KC-390 em Portugal e avião brasileiro ganha espaço no leste do Mediterrâneo

Visita do comandante da Força Aérea da Turquia à Base de Beja ocorre enquanto Ankara busca renovar frota envelhecida de C-130 e a vizinha Atenas avalia compra do cargueiro da Embraer 


*LRCA Defense Consulting - 17/05/2026

A Base Aérea de Beja, em Portugal, voltou a ser palco de um encontro com alto peso simbólico para o programa KC-390. O general Ziya Cemal Kadıoğlu, comandante da Força Aérea da Turquia, visitou a instalação durante missão oficial a Lisboa e examinou de perto o cargueiro fabricado pela Embraer, que equipa a Esquadra 506 da Força Aérea Portuguesa. A visita, realizada a convite do general Sérgio Roberto Leite da Costa Pereira, comandante da Força Aérea Portuguesa, incluiu ainda passagens pela Embaixada turca em Lisboa, pelo Centro de Operações Conjuntas das Forças Armadas Portuguesas e pelo quartel-general do STRIKFORNATO.

A informação foi divulgada por Tolga Özbek, analista de defesa, em perfil no LinkedIn, e rapidamente circulou entre entusiastas e especialistas da área. O texto destaca que a visita "contribui para o fortalecimento da cooperação de defesa entre Turquia e Portugal" e que plataformas como o KC-390 podem representar "uma área potencial de interesse" para a força aérea turca.

Uma frota sob pressão
O interesse turco no KC-390 surge em um momento de particular sensibilidade para a aviação de transporte de Ankara. A Força Aérea da Turquia opera há décadas aeronaves da família C-130 Hercules, nas variantes B e E, adquiridas em diferentes momentos: os primeiros exemplares chegaram nos anos 1960, seis unidades C-130B foram incorporadas no início da década de 1990 e outros seis C-130E foram comprados da Arábia Saudita em 2011. Em novembro de 2025, um desses aviões, com matrícula 68-01609, caiu na região de Sighnaghi, na Geórgia, logo após decolar de Ganja, no Azerbaijão, matando todos os 20 militares a bordo. Foi a pior perda militar turca desde fevereiro de 2020.

O acidente levou o Ministério da Defesa turco a suspender temporariamente os voos da frota de C-130 para inspeções técnicas detalhadas, determinando que somente as aeronaves aprovadas nas verificações poderiam retomar as operações. O episódio expôs a vulnerabilidade de uma frota envelhecida e reacendeu debates sobre a urgência de sua renovação.

Para tentar preencher a lacuna no curto prazo, a Turquia fechou, em outubro de 2025, um acordo para adquirir 12 aeronaves C-130J-30 Super Hercules desativadas pela Royal Air Force (RAF) britânica. As aeronaves foram entregues a uma empresa de manutenção no Reino Unido, onde passam por revisão e modernização, incluindo substituição de caixas centrais de asa, atualização de aviônicos e adaptações aos requisitos turcos. A empresa Marshall Aerospace, em Cambridge, é responsável por parte do programa, estimado em mais de 200 milhões de libras ao longo de quatro anos. As entregas à força aérea turca devem começar após 2026.

A par dos C-130, a Turquia também conta com aeronaves A400M adquiridas da Airbus, mas os Hércules seguem sendo o pilar do transporte tático. A compra dos exemplares britânicos descartados foi vista por parte da imprensa especializada como uma solução intermediária para uma frota que, no longo prazo, precisará ser substituída. É nesse contexto que a visita de Kadıoğlu ao KC-390 em Beja ganha contornos estratégicos.

 

Beja, a vitrine europeia do KC-390
Portugal é o primeiro país europeu e o primeiro membro da OTAN a operar o KC-390. O contrato original, assinado em 2019, previa cinco aeronaves; em setembro de 2025, foi aditado para incluir uma sexta unidade e dez novas opções de compra que podem ser transferidas a nações parceiras, mecanismo que facilita aquisições futuras por outros membros da aliança sem a necessidade de contratos diretos com a Embraer.

A Base Aérea n.º 11, em Beja, concentra toda a frota portuguesa, incluindo o simulador de voo completo, e forma pilotos de outros países. O quarto KC-390 entregue a Portugal, em janeiro de 2026, trouxe uma novidade relevante: foi o primeiro exemplar da frota portuguesa equipado com kit de reabastecimento aéreo, com tanques instalados na fuselagem e pods sob as asas, tornando-o capaz de atuar como tanqueiro.

A infraestrutura montada em Beja funciona como referência operacional concreta para visitantes militares de todo o mundo. Além do general turco, o ministro da Defesa da Eslováquia visitou a base em março de 2026 para avaliar o KC-390, e o ministro da Defesa da Grécia, Nikos Dendias, fez o mesmo em maio de 2026.

A Grécia na reta final
A visita grega é talvez a de maior impacto imediato para a Embraer. Dendias foi a Portugal a convite do ministro da Defesa português, Nuno Melo, e após o encontro declarou publicamente que a Grécia tem interesse na compra do C-390 Millennium. A Força Aérea Helênica opera hoje C-130 nas variantes B e H, com disponibilidade limitada e frota considerada obsoleta para os padrões atuais da Otan, além de C-27J Spartan de menor porte.

O modelo em avaliação prevê uma aquisição em duas fases: três aeronaves inicialmente, com possibilidade de expansão para mais três unidades. A cooperação com Portugal é apontada como fator decisivo, pois permite à Grécia apoiar-se em um quadro já estabelecido de exploração operacional, suporte e transferência de conhecimento, e eventualmente adquirir as aeronaves via governo a governo por meio das opções contratadas por Lisboa.

Na avaliação do Estado-Maior da Aeronáutica grego, o KC-390 apresenta vantagem em relação ao C-130J não apenas no custo de aquisição, mas também em vantagens operacionais e técnico-econômicas relacionadas a manutenção, suporte e disponibilidade. O KC-390 é mais veloz (870 km/h contra 660 km/h do C-130J) e carrega mais carga (26 toneladas contra 21 toneladas). Os motores turbofan IAE V2500, amplamente empregados na aviação comercial, tornam sua manutenção mais simples e barata.

A Força Aérea Helênica também especificou requisitos que transformam a aeronave em multiplicador de poder: o KC-390 deverá ser adquirido com sistema de autodefesa, capacidade de reabastecimento aéreo de aeronaves de combate e equipamento de evacuação médica. Para a Grécia, com centenas de ilhas habitadas, essa capacidade tem dimensão tanto militar quanto humanitária.

O governo grego sinalizou investimentos da ordem de 28 bilhões de euros em defesa até 2036, após longo período de restrições orçamentárias decorrente da crise financeira de 2009 a 2018. A decisão sobre o KC-390 é esperada para os próximos meses.

 

Um clube que cresce
O KC-390 foi selecionado por 12 países até maio de 2026. Entre os usuários e clientes confirmados estão Brasil (19 unidades), Portugal (6), Hungria, Áustria, República Tcheca, Suécia, Países Baixos, Lituânia, Eslováquia, Coreia do Sul, Uzbequistão e Emirados Árabes Unidos. O pedido dos Emirados, anunciado em maio de 2026, totalizou 20 aeronaves (10 firmes e 10 opções) e marcou a estreia do KC-390 no Oriente Médio.

A expansão europeia do programa é notável. Desde a entrada em serviço com a Força Aérea Portuguesa, em 2023, e com a Força Aérea Húngara, em 2024, o KC-390 acumulou mais de 14.000 horas de voo na frota brasileira, com taxa de disponibilidade superior a 99%. Esses números são citados com frequência pelos representantes da Embraer em apresentações a potenciais clientes.

A visita do general Kadıoğlu em Beja não resultou, até o momento, em qualquer declaração oficial de interesse por parte da Turquia. Mas o simples fato de que o comandante da força aérea de um país que acaba de comprar C-130 usados do Reino Unido tenha se dado ao trabalho de examinar pessoalmente o KC-390 em operação diz algo sobre o horizonte de modernização que Ankara projeta para a próxima década. No leste do Mediterrâneo, o cargueiro brasileiro começa a figurar como uma opção real em planos militares que ainda levam algum tempo para se concretizar.

Postagem em destaque