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02 junho, 2026

Saab apresenta o primeiro Gripen F do mundo com participação de autoridades brasileiras

Cerimônia em Linköping reúne ministro da Defesa e comandante da Aeronáutica; versão biplace nasce de demanda específica da FAB e consolida o Brasil como polo de produção e desenvolvimento de caças supersônicos


*LRCA Defense Consulting - 02/06/2026

A Saab realizou nesta terça-feira (02/06) o roll out do primeiro Gripen F do mundo em suas instalações em Linköping, Suécia. A aeronave, designada F-39F na Força Aérea Brasileira (FAB), é a versão biplace do caça Gripen E e representa mais um marco na parceria estratégica entre o Brasil e a empresa sueca, iniciada com a assinatura do contrato em 2014.

A cerimônia contou com a presença do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, e do Comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro do Ar Marcelo Kanitz Damasceno. Do lado sueco, o evento foi conduzido pelo presidente e CEO da Saab, Micael Johansson, e por Lars Tossman, chefe da área de negócios Aeronautics da empresa.

A demonstração aérea realizada no hangar da Saab junto ao aeroporto local utilizou um Gripen D versão biplace anterior, uma vez que o F-39F ainda precisa cumprir uma campanha de ensaios em voo no Centro de Testes de Voo da Saab antes de ser entregue à FAB. Após os testes, a aeronave de matrícula FAB 4200 deverá chegar ao Brasil em 2027.

Desenvolvido a pedido do Brasil
O Gripen F não existia nos planos originais da Saab. A Suécia utilizava versões biplace mais antigas (Gripen D) para treinamento avançado e não pretendia desenvolver um biplace do Gripen E. Foi a FAB que demandou a criação da versão, tornando-se assim o cliente de lançamento, condição que confere ao Brasil papel ativo no desenvolvimento, royalties por cada unidade vendida a outros países e influência sobre as especificações da aeronave.

Segundo o press release oficial da Saab, o Gripen F "foi desenvolvido para atender aos requisitos de treinamento e operação de forças aéreas modernas, combinando treinamento de conversão e capacidade de combate na mesma plataforma". O segundo ocupante pode atuar como instrutor em missões de treinamento avançado ou como Weapons System Officer (WSO, Oficial de Sistemas de Armas) em missões de maior complexidade.

A aeronave é cerca de 70 cm mais longa que o Gripen E e não carrega o canhão interno de 27 mm presente no monolugar, adaptação estrutural necessária para acomodar o segundo cockpit totalmente independente.

"O roll out do Gripen F representa uma conquista compartilhada entre a Saab, a indústria brasileira e a Força Aérea Brasileira, refletindo a profunda confiança que construímos ao longo de muitos anos", afirmou Lars Tossman, em nota oficial. "Desenvolver esta aeronave juntos demonstra a maturidade dessa colaboração."

Comandante da Força Aérea Brasileira, Brigadeiro Marcelo Kanitz Damasceno ( à esquerda ), com o Gripen F e o Presidente da Saab Aeronautics, Lars Tossman

A cadeia industrial brasileira
O programa Gripen transformou o Brasil em um polo de desenvolvimento e produção aeroespacial de alta tecnologia. A participação nacional vai muito além da montagem final e engloba três eixos principais.

O primeiro eixo é a Embraer, que opera a linha de montagem de Gavião Peixoto (SP), onde serão produzidas 15 das 36 aeronaves encomendadas pela FAB. A 11ª célula do programa. a primeira montada integralmente no Brasil, deve realizar seu voo inaugural em breve a partir da mesma planta. A montagem utiliza aerostruturas fabricadas no Brasil e na Suécia, em cadeia de suprimentos integrada.

O segundo eixo é a Saab Brasil, com fábrica em São Bernardo do Campo (SP), que produz a fuselagem dianteira do Gripen E, a fuselagem traseira, o cone de cauda e o freio aerodinâmico, componentes que servem tanto ao Gripen E quanto ao Gripen F e integram a cadeia global de suprimentos do programa. Em coletiva realizada em Linköping no dia 1º de junho, Mikael Franzén, vice-presidente e CMO da Saab, afirmou que a unidade tem capacidade de expansão para atender à demanda mundial e que os engenheiros brasileiros já estão aptos a treinar novos técnicos.

O terceiro eixo é a AEL Sistemas, empresa de Porto Alegre (RS). A companhia, subsidiária da israelense Elbit Systems e com participação da Embraer, produz os principais aviônicos do Gripen: o Wide Area Display (WAD), o Head-Up Display (HUD) e o Helmet Mounted Display (HMD). Esses sistemas são fornecidos para todos os Gripens do Brasil, da Tailândia e da Colômbia, além de futuros clientes.

O programa mobilizou ainda a engenharia da Akaer, empresa de São José dos Campos (SP), que participou do desenvolvimento estrutural das aeronaves. Ao todo, mais de 350 engenheiros brasileiros foram treinados na Suécia, a maioria vinculada à Embraer, e o ecossistema gerado responde por mais de 12 mil empregos, sendo dois mil diretos e dez mil indiretos, segundo dados do Ministério da Defesa.

Possível centro de pesquisa em São José dos Campos
A cerimônia de 02 de junho trouxe um desdobramento além do esperado. Em coletiva após o roll out, o CEO Micael Johansson confirmou estar discutindo com o ministro José Múcio a assinatura de um memorando de entendimento para a criação de um centro de pesquisa próximo ao Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA), em São José dos Campos. Os planos ainda estão em fase inicial, mas a intenção foi confirmada publicamente pelo executivo.

"A parceria Saab-Brasil proporciona uma rara transferência de tecnologia de ponta a ponta, permitindo capacidades soberanas de projeto, desenvolvimento, produção, manutenção e testes de voo no Brasil", disse Johansson. "Um modelo de produção com dois polos está sendo implementado, com expansão da capacidade tanto em Linköping quanto no Brasil para atender à crescente demanda global impulsionada por tensões geopolíticas."

Expansão produtiva e a variável ucraniana
O programa Gripen vive um momento de forte expansão comercial. Além do Brasil, que encomendou 36 aeronaves, a Colômbia assinou contrato em 2025 para 17 unidades (15 Gripen E e 2 Gripen F), no valor de 3,1 bilhões de euros, com entregas previstas entre 2026 e 2032. A Tailândia contratou quatro Gripen E/F em agosto de 2025 com opção de ampliar a frota a 12 unidades. Os primeiros Gripens colombianos serão do modelo E, com entrega prevista para o final de 2028.

Franzén confirmou que alguns exemplares destinados a clientes internacionais poderão sair da linha de produção do Brasil, evidência concreta do papel exportador que a planta de Gavião Peixoto está assumindo.

O principal fator de pressão sobre a capacidade produtiva global, porém, é a Ucrânia. O premier sueco Ulf Kristersson e o presidente Volodmir Zelenski anunciaram na semana passada a intenção de Kiev de adquirir um lote inicial de até 20 Gripen E e F, com potencial de chegar a 150 unidades ao longo de uma década. O contrato ainda não foi assinado. Franzén declarou ao Estadão, em entrevista concedida na véspera da cerimônia, que a Saab já analisa os investimentos necessários para ampliar a produção.

"Podemos produzir 20 aviões por ano e estamos procurando passar essa capacidade para 30 aviões por ano. Mas, dependendo do cenário, poderemos ampliar ainda mais", disse o executivo à Tecnologia & Defesa.

Como o Gripen F é produzido apenas na Suécia, ao contrário do Gripen E, cujo monolugar é montado também no Brasil, o eventual contrato ucraniano envolveria majoritariamente a linha de Linköping. Mas o aumento de demanda pelo Gripen E, que pode integrar o pedido ucraniano, pressiona diretamente a capacidade de Gavião Peixoto.

O Gripen como produto geopolítico
O alcance estratégico do programa vai além de Brasil e Ucrânia. O Canadá analisa a substituição de parte de seus 88 F-35A previstos por cerca de 60 Gripen E, mantendo apenas 30 caças de quinta geração para operações OTAN e NORAD. A decisão emergiu no contexto da deterioração das relações entre Ottawa e Washington após a imposição de tarifas norte-americanas sobre produtos canadenses, incluindo ameaça de sobretaxa de 50% sobre aeronaves. O anúncio formal é esperado após as eleições de meio de mandato nos EUA, em novembro de 2026.

Durante a feira CANSEC, a Saab chegou a propor que instalações canadenses pudessem fabricar Gripens não apenas para a Real Força Aérea Canadense, mas também para servir como fonte primária de futuras entregas à Ucrânia. O modelo de referência explícita da proposta canadense é a parceria com o Brasil.

A Saab também reconheceu estar em estágio inicial de conversas com o México, que avalia a substituição de seus caças Northrop F-5 envelhecidos, embora nenhuma proposta formal tenha sido apresentada até o momento.

Dois marcos em três meses
O roll out do F-39F em Linköping é o segundo grande marco do programa Gripen no Brasil em menos de três meses. Em 25 de março de 2026, Saab e Embraer apresentaram o primeiro caça supersônico produzido na América Latina, em cerimônia em Gavião Peixoto que reuniu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin, o ministro da Defesa e o Comandante da Aeronáutica.

Atualmente, nove F-39E estão em serviço no 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), na Base Aérea de Anápolis (GO). O Esquadrão Jaguar, unidade operacional do grupo, é a primeira unidade do mundo a operar o Saab Gripen E. Uma aeronave adicional está dedicada a ensaios em voo. As primeiras missões de Alerta de Reação Rápida (QRA) para defesa do espaço aéreo sobre o Distrito Federal tiveram início em fevereiro de 2026.

O contrato prevê a entrega de todas as 36 aeronaves até 2032 — cinco anos além da previsão original, em razão de restrições orçamentárias ao longo do programa. Das 36 unidades, 11 já foram entregues.

 

Programa Gripen no Brasil — dados consolidados

Programa

FX-2 / Projeto Gripen (contrato 2014)

Contrato FAB

36 aeronaves: 28 Gripen E (F-39E) + 8 Gripen F (F-39F)

Valor original

Cerca de R$ 13 bilhões (sujeito a reajustes contratuais)

Entregas realizadas

11 aeronaves entregues até 02/06/2026

Produção no Brasil

15 das 36 aeronaves montadas em Gavião Peixoto (SP) pela Embraer

Produção Saab Brasil (SBC)

Fuselagem dianteira, fuselagem traseira, cone de cauda e freio aerodinâmico (Gripen E e F)

Aviônicos brasileiros

AEL Sistemas (RS): WAD, HUD e HMD — para Brasil, Tailândia, Colômbia e futuros clientes

Prazo de entrega

Todas as 36 aeronaves previstas até 2032

Status operacional

9 F-39E no 1º GDA (BAAN, Anápolis) — Esquadrão Jaguar, 1ª unidade Gripen E do mundo; 1 F-39E dedicado a ensaios de voo

F-39F (FAB 4200)

Primeiro Gripen F do mundo; campanha de ensaios em Linköping antes da entrega ao Brasil (previsão: 2027)

Capacidade de produção Saab

Atual: 20 Gripens/ano; meta de curto prazo: 30/ano; expansão adicional em análise

Clientes internacionais

Brasil, Suécia, Colômbia (17), Tailândia (4 + opção de 8); Ucrânia (intenção: até 20 inicialmente, até 150 no total)


Com drones armados, Taurus protagoniza simpósio do Exército e impressiona alto escalão

Em demonstração histórica no QGEx, empresa realizou tiros reais com fuzil e lançador de granadas embarcados no TAS, além de lançamento de granada de morteiro

Taurus TAS com lança-granadas de 40mm de repetição

*LRCA Defense Consulting - 02/06/2026

A Taurus Armas foi a grande protagonista do 1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre 2026 (SSNTFT), realizado entre 25 e 27 de maio de 2026 nas dependências do Quartel-General do Exército (QGEx), em Brasília. No último dia do evento, dedicado às demonstrações práticas no Estande de Tiro General Darcy Lázaro, a empresa realizou uma sequência de apresentações que exibiu ao Alto Comando do Exército capacidades táticas inéditas no Brasil: um drone armado, de fabricação nacional, realizando tiros reais de fuzil e de lançador de granadas, além do lançamento de uma granada de morteiro de 120 mm.

O evento foi supervisionado pelo general de exército Hertz Pires do Nascimento, chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT), instância responsável por orientar a incorporação de tecnologias emergentes pela Força Terrestre. A presença do comandante do Exército, general de exército Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, e do Alto Comando conferiu ao simpósio um peso institucional que ultrapassa o de uma simples mostra tecnológica: trata-se de etapa do processo decisório sobre aquisição e desenvolvimento de sistemas não tripulados pelas Forças Armadas brasileiras.

O SSNTFT reuniu ao todo mais de uma dezena de empresas da Base Industrial de Defesa. Entre as participantes: Ares, PlasmaHub, Modirum Gespi, AeroID, XMobots, RADeCO, Condor Tecnologias Não Letais, Advanced Technologies Security & Defense (ADTech), BR Vant e Ambipar Robotics, além da própria Taurus, que se destacou pela abrangência e pelo êxito das demonstrações realizadas.

O pano de fundo: um país sem defesa e um ministro em desabafo
Horas antes das demonstrações, na manhã do dia 27, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, reuniu-se com cerca de 30 executivos da BID no B Hotel, no setor hoteleiro norte de Brasília, num evento fechado à imprensa. O diagnóstico que apresentou foi contundente: "A defesa brasileira é incompatível com o tamanho e as potencialidades do Brasil. Nós não temos defesa. Eu digo que a sociedade precisa saber. Muita gente pensa que nós temos como nos defender; nós não temos."

Múcio relatou os resultados da Operação Atlas, o maior exercício militar realizado pelas Forças Armadas em 2025, concebido como ensaio para a defesa do território no Norte diante da ameaça venezuelana ao Essequibo. A constatação foi alarmante: a Marinha demoraria 20 dias para chegar ao Norte; os blindados do Exército, baseados no Rio Grande do Sul e no Mato Grosso do Sul, levariam 55 dias. "Se houvesse um conflito real, quando nós chegássemos lá, o povo já estaria instalado", disse o ministro.

Parte dos executivos presentes ao desabafo de Múcio seguiria, após o almoço, para o Estande de Tiro General Darcy Lázaro, onde todo o Alto Comando do Exército chegou por volta das 15 horas para assistir à demonstração de drones e robôs. O argumento econômico estava no ar: uma munição vagante custa US$ 3,5 mil; um carro de combate moderno como o Leopard 2A8 sai por US$ 34 milhões. A assimetria de custo, somada às lições da Ucrânia e do Oriente Médio, tornava o SSNTFT mais do que um evento técnico.


Vídeo com a demonstração do Taurus TAS e com as palavras do Gen Ex Hertz e Gen Ex Tomás

O TAS em ação: três configurações, três demonstrações reais
O sistema demonstrado pela Taurus foi o TAS (Tactical Air Soldier), quadricóptero de emprego tático apresentado inicialmente na LAAD Defence & Security 2025, no Rio de Janeiro. No simpósio do QGEx, o TAS foi exibido em três configurações distintas, todas com resultado positivo. A apresentação organizada pelo DCT durou uma hora.

Na primeira configuração, o drone operou armado com o fuzil T4, em calibre 5,56 mm, arma também de fabricação Taurus. O TAS executou disparos em modo semiautomático (tiro a tiro) e em rajada, comprovando o funcionamento do sistema de controle de fogo integrado à plataforma. A estabilidade durante os disparos e a precisão observada geraram reação imediata entre os militares presentes.

Na segunda configuração, o TAS foi integrado a um lançador de granadas de repetição de 40 mm da fabricante turca Mertsav Savunma Sistemleri, empresa cujas negociações de aquisição pela Taurus estão em curso. O lançamento de granadas reais a partir do drone, com impacto confirmado no solo, representou um marco nas demonstrações do evento. A sinergia entre a plataforma aérea e o lançador referenda, na prática, a lógica que orienta a estratégia de expansão da Taurus no segmento de armas coletivas.

Na terceira demonstração, o TAS foi equipado com uma granada de morteiro de 120 mm em versão inerte, lançada por gravidade. Ainda que sem carga explosiva real, a demonstração evidenciou a capacidade da plataforma de transportar e empregar munições de maior porte, uma perspectiva relevante para o conceito de apoio de fogo embarcado em plataformas não tripuladas.

Taurus TAS com fuzil Taurus T4 5,56mm. Acima, pronto para abrir fogo; abaixo, atingindo os alvos com precisão


Taurus TAS com granada de morteiro 120mm

Repercussão e impacto estratégico
A reação do Alto Comando às demonstrações da Taurus foi notavelmente positiva. O desempenho do TAS nas três modalidades, especialmente os tiros reais com o T4 e com o lançador de granadas, provocou reações de genuína surpresa e interesse entre os generais presentes. O evento sinalizou que uma empresa brasileira alcançou, por esforço próprio, um patamar tecnológico até então restrito a poucas indústrias de defesa no mundo.

O simpósio tinha como objetivo declarado nivelar o conhecimento estratégico do Alto Comando sobre sistemas não tripulados e subsidiar decisões de aquisição e desenvolvimento. Nesse contexto, a demonstração da Taurus se inseriu como a referência mais concreta de capacidade disponível na BID nacional, com potencial de encurtar o caminho entre a necessidade operacional identificada pelas Forças Armadas e a contratação efetiva.

Ao percorrer os estandes das empresas participantes, o general Tomás Paiva reforçou o comprometimento institucional do Exército com o desenvolvimento tecnológico nacional. Em declaração pública, o comandante avaliou positivamente o desempenho da BID: "Fiquei satisfeito com o que vi, principalmente em ver a base industrial de defesa correndo atrás e com soluções interessantes e muito diferentes. A progressão foi muito rápida." Paiva afirmou ainda que o Brasil tem hoje "percepção de ameaça na América do Sul", emprestando sentido estratégico imediato ao investimento em sistemas como o TAS.

Além das demonstrações de voo, o estande da Taurus exibiu duas outras plataformas. A mais chamativa foi o mockup de um drone VTOL (Vertical Take-Off and Landing) de configuração aerodinâmica agressiva, plataforma distinta do TAS, projetada para atuar como munição vagante (loitering munition), capaz de operar sozinha ou em enxame. A segunda plataforma, de menor porte e estrutura aberta no estilo FPV, é dedicada à interceptação de drones adversários (C-UAS).

A composição do estande, com um drone de ataque armado (TAS), uma munição vagante VTOL e um interceptador C-UAS, indica que a Taurus está estruturando uma linha completa de sistemas aéreos não tripulados para fins militares, complementar ao seu portfólio tradicional de armas. Tudo indica que a empresa avança na construção de uma nova divisão voltada à robótica, tanto em plataformas aéreas quanto terrestres, com foco no mercado de defesa.

Em primeiro plano, drone interceptador (C-UAS), seguido de drone VTOL (laranja) para munição vagante e enxame; ambos ainda em mockup.

O crime organizado como catalisador da urgência
O SSNTFT ocorreu num contexto interno que confere urgência adicional ao tema. Investigações da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro revelaram que o Comando Vermelho passou a utilizar drones agrícolas de grande porte para transportar armas e drogas entre comunidades. As aeronaves têm capacidade para transportar até 80 quilos (equivalente a cerca de 20 fuzis FAL ou AR-15) e autonomia de até 12 quilômetros sem pouso. Segundo as investigações, integrantes da facção teriam sido enviados à guerra na Ucrânia para adquirir treinamento específico no uso de drones de grande porte.

Em outubro de 2025, durante a Operação Contenção nos complexos da Penha e do Alemão, drones menores foram usados pelos traficantes para monitorar movimentações policiais em tempo real. Como resposta, em maio de 2026, o Governo do Rio formalizou pedido ao Ministério da Justiça para a compra de fuzis antidrone e a Polícia Civil criou a Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (COANT), estrutura dedicada ao uso institucional de drones em operações policiais, investigações e ações de inteligência em todo o estado.

O quadro expõe uma assimetria preocupante: o crime organizado brasileiro já operava drones com doutrina importada de conflitos internacionais, enquanto as forças de segurança corriam para estruturar sua resposta. O SSNTFT e as capacidades demonstradas pela Taurus inserem-se precisamente nessa janela de urgência: não apenas como modernização das Forças Armadas, mas como necessidade de segurança pública com implicações imediatas.

 

A convergência entre armamento e robótica
A Política de Transformação da Força Terrestre (Força 40), formalizada em abril de 2026, estabelece os sistemas não tripulados como vetor central de modernização do Exército Brasileiro, com ênfase em inteligência, vigilância, reconhecimento e fogos embarcados em plataformas autônomas. O simpósio do QGEx foi, em essência, o primeiro passo estruturado para que o Alto Comando avalie quais empresas e sistemas estão aptos a atender essa demanda, num horizonte que se estende até 2039.

O general Tomás Paiva detalhou o plano de aquisição: drones das categorias 0, 1 e 2 serão alocados prioritariamente ao Batalhão de Precursores, à Brigada Aeromóvel e à 11ª Brigada de Infantaria Mecanizada. As munições vagantes ficarão com as tropas especiais. Para os drones das categorias 3 e 4, de maior alcance e autonomia, serão criados dois batalhões especializados, um em Taubaté (SP) e outro no Rio de Janeiro (RJ). Os drones que exigem tecnologia ainda não disponível na BID nacional serão buscados no exterior via mecanismo governo a governo (G2G), com perspectiva de incorporação por empresas brasileiras.

As diretrizes para aquisição devem ser preparadas a partir de junho de 2026, quando uma nova reunião do Alto Comando está prevista. A Taurus reúne condições únicas para se posicionar nesse processo: com o TAS operacional em tiros reais, o portfólio de armas em expansão e a aquisição da Mertsav em andamento (empresa turca com expertise em lançadores de granadas e fuzis integráveis a drones), a empresa oferece uma proposta integrada de plataforma, armamento e munição sob o mesmo guarda-chuva industrial.

O horizonte, porém, não é isento de turbulência. No dia 29 de maio, dois dias após o SSNTFT, o governo federal contingenciou R$ 4,4 bilhões do orçamento do Ministério da Defesa. O corte chega num momento em que o Exército reconhece publicamente suas deficiências, planeja aquisições urgentes e enfrenta ameaças crescentes no entorno estratégico. Resta aos militares fazer planos e torcer para que o inimigo não chegue antes do dinheiro necessário para a transformação da Força sair do papel.
 

TAURUS NO SSNTFT 2026 — DADOS PRINCIPAIS

Evento

1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre 2026 (SSNTFT)

Data

25 a 27 de maio de 2026 (demonstrações práticas: dia 27)

Local

QGEx / Estande de Tiro Gen Darcy Lázaro — Brasília (DF)

Empresa

Taurus Armas S.A.

Sistema central

TAS (Tactical Air Soldier) — quadricóptero armado

Armamentos testados

Fuzil T4 5,56 mm (tiro a tiro e rajada); lançador de granadas de repetição Mertsav 40 mm (tiro real); granada de morteiro inerte 120 mm (lançamento por gravidade)

Outros itens expostos

Mockup de drone VTOL de ataque; drone interceptador C-UAS de menor porte

Responsável pela exposição

Gen Ex Hertz Pires do Nascimento, chefe do DCT

Autoridades presentes

Gen Ex Tomás Paiva (Cmt do Exército) e Alto Comando do EB

Próximos passos (EB)

Diretrizes para aquisição a partir de junho/2026; nova reunião do Alto Comando prevista; batalhões de drones em Taubaté (SP) e Rio de Janeiro (RJ)

Participantes (SSNTFT)

Ares, PlasmaHub, Taurus, Modirum Gespi, AeroID, XMobots, RADeCO, Condor Tecnologias Não Letais, ADTech, BR Vant, Ambipar Robotics e outras


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