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16 maio, 2026

Alto escalão da Marinha visita XMobots e reforça parceria estratégica em drones nacionais

Almirante de esquadra e contra-almirante estiveram em São Carlos para conhecer os sistemas Nauru 100D, 500C e 1000C; relação entre a força naval e a empresa já inclui contrato vigente, testes operacionais com fuzileiros navais e acordo de R$ 40 milhões firmado com a Petrobras. 


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LRCA Defense Consulting - 16/05/2026

A XMobots, maior fabricante de drones da América Latina e empresa 100% nacional que conta com participação minoritária da Embraer, recebeu esta semana uma das visitas institucionais de maior peso já realizadas por representantes das Forças Armadas brasileiras a uma empresa privada de defesa. Segundo divulgação da própria companhia no LinkedIn, uma comitiva da Marinha do Brasil formada pelo Almirante de Esquadra Edgar Luiz Siqueira Barbosa, Diretor-Geral do Material da Marinha (DGMM); pelo Contra-Almirante Alexandre Veras Vasconcelos, Diretor da Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM); e pelo Capitão de Corveta Leonardo Rabetim de Oliveira, assistente do DGMM, visitou a sede da empresa em São Carlos (SP) para conhecer suas capacidades fabris, operacionais e de engenharia.

As fotos divulgadas mostram os oficiais sendo apresentados aos três modelos da família Nauru voltados à defesa: o Nauru 100D, drone tático de 9 kg projetado para missões de inteligência, vigilância, aquisição de alvos e reconhecimento (ISTAR); o Nauru 500C ISR, primeiro VTOL híbrido certificado pela Anac para voos além da linha de visada (BVLOS); e o Nauru 1000C ISTAR, plataforma de 150 kg já em uso pelo Exército Brasileiro e pela própria Marinha para missões de vigilância e reconhecimento de fronteiras e de áreas marítimas.

No comunicado, a XMobots descreveu o encontro como uma oportunidade de "aproximar as parcerias já existentes em projetos estratégicos", indicação de que a visita não representou uma aproximação inicial, mas o aprofundamento de uma relação institucional já consolidada.

Uma parceria construída em etapas
O interesse da Marinha pelos sistemas da XMobots tem raízes anteriores à visita desta semana. Em outubro de 2024, a força naval recebeu formalmente o drone Nauru 500C, rebatizado internamente como RQ-2, fruto de um acordo com Shell Brasil, CLS Brasil e XMobots para desenvolvimento de sistemas de busca e salvamento marítimo. O equipamento foi incorporado ao 1º Esquadrão de Aeronaves Remotamente Pilotadas (EsqdQE-1), vinculado ao Corpo de Fuzileiros Navais.

Em dezembro do mesmo ano, a Marinha ativou o Esquadrão de Drones Táticos de Esclarecimento e Ataque do Corpo de Fuzileiros Navais, demonstrando o compromisso institucional da força com a incorporação de sistemas não tripulados ao seu arsenal. E em janeiro de 2026, XMobots, Marinha do Brasil e Petrobras assinaram acordo de cooperação técnica no âmbito do projeto MMRE (Monitoramento Marítimo com Recursos Embarcados), com investimento total de R$ 40 milhões. O objetivo é adaptar os drones da família Nauru para operar a partir de navios em movimento, além de apoiar o monitoramento ambiental da Amazônia Azul e o combate ao tráfico no mar territorial brasileiro.

O projeto prevê adaptações significativas nos sistemas dos drones para suportar as condições severas do ambiente marítimo - salinidade elevada, umidade extrema, ventos fortes - além do desenvolvimento de algoritmos que permitam pousos e decolagens a partir de embarcações em movimento, como fragatas e navios-patrulha. Os testes de validação estão sendo realizados na Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia (RJ) e a bordo de embarcações da própria Marinha.

 

Fuzileiros navais testam o Nauru 100D na Marambaia
Paralelamente ao projeto MMRE, o drone tático Nauru 100D passou por avaliação operacional conduzida pelo Corpo de Fuzileiros Navais no Centro de Avaliação da Ilha da Marambaia (CADIM), na Baía de Sepetiba (RJ). Segundo relato da própria XMobots, o sistema foi submetido a voos diurnos e noturnos com rastreamento de embarcações, identificação de alvos com câmeras térmicas e eletro-ópticas, além de testes de facilidade de montagem e transporte.

A comitiva de avaliação reunia representantes do Batalhão de Combate Aéreo do Corpo de Fuzileiros Navais (BtlCmbAe) e do EsqdQE-1, além de pessoal das áreas de compras e materiais da força. O evento foi coordenado pelo Capitão de Mar e Guerra (FN) Carlos Alexandre Tunala da Silva, gerente de drones do Comando do Material de Fuzileiros Navais, que em fevereiro de 2026 já havia visitado a sede da XMobots em São Carlos para uma avaliação institucional prévia. Os resultados dos testes na Marambaia foram descritos internamente como "muito positivos".

O interesse dos fuzileiros navais pelo Nauru 100D tem explicação operacional direta. Em missões anfíbias, o sistema pode ser lançado a partir de embarcações para mapear praias de desembarque, identificar posições inimigas e transmitir imagens ao comandante da operação antes mesmo do primeiro fuzileiro pisar em terra. Com peso de 9 kg, montagem em menos de três minutos e operação por dois soldados, o drone oferece consciência situacional em tempo real sem expor pessoal a riscos desnecessários. Sua tecnologia de decolagem e pouso vertical (eVTOL) elimina a necessidade de pistas ou catapultas, o que é especialmente relevante para operações em ambientes costeiros, fluviais e insulares.

 

Tecnologia 100% nacional em um contexto geopolítico de urgência
O aprofundamento da relação entre a Marinha e a XMobots ocorre num momento em que os conflitos contemporâneos, sobretudo o da Ucrânia, reescreveram as doutrinas militares globais sobre o uso de drones. O que antes era tratado como recurso auxiliar passou a ser reconhecido como elemento central do campo de batalha moderno. Enxames de aeronaves não tripuladas saturaram sistemas de defesa antiaérea, drones FPV de baixo custo destruíram blindados avaliados em milhões de dólares, e sistemas de reconhecimento definiram batalhas ao fornecer coordenadas precisas para artilharia.

Nesse contexto, a escolha por tecnologia 100% nacional tem valor estratégico que vai além do custo. Um sistema cujos componentes dependem de fornecedores estrangeiros pode ter seu suprimento interrompido por sanções econômicas, embargos ou decisões comerciais de outros governos. A XMobots é hoje a única empresa brasileira com domínio vertical completo da cadeia de desenvolvimento de drones: hardware, software, sensores e inteligência artificial são todos produzidos internamente, com taxa de nacionalização próxima a 90% dos componentes.

Fundada em 2007 em São Carlos (SP) com foco inicial no agronegócio, a empresa acumula hoje mais de 700 colaboradores, entre os quais cerca de 60 engenheiros de pesquisa e desenvolvimento. É classificada como a 6ª maior fabricante de drones do mundo e a maior da América Latina, segundo a plataforma Drone Industry Insights. Desde 2022, conta com participação minoritária da Embraer em seu capital. Em paralelo, firmou acordo com a europeia MBDA para desenvolver uma versão armada do Nauru 1000C equipada com mísseis Enforcer, o que seria o primeiro sistema de arma aéreo não tripulado genuinamente brasileiro.

Do reconhecimento ao combate: o horizonte que a Marinha também avalia
Embora as parcerias formais firmadas até agora com a Marinha estejam centradas em vigilância, reconhecimento e monitoramento ambiental, a XMobots já tornou públicos dois conceitos que ampliam o escopo operacional da plataforma Nauru 100D. O primeiro é a versão UCAV (Unmanned Combat Aerial Vehicle), que prevê capacidade de ataque de precisão com munição de alto explosivo (HE) e carga antitanque (HEAT), correção de trajetória em tempo real e, sobretudo, retorno à base para rearmamento e novas missões, diferenciando o sistema das chamadas munições vagantes (drones kamikazes), descartadas no impacto.

O segundo conceito, chamado de Swarm (enxame), prevê o lançamento simultâneo de até 30 aeronaves a partir de um contêiner de 20 pés instalado em um caminhão ou navio. Três delas seriam destinadas ao reconhecimento e identificação de alvos por inteligência artificial; as outras 27, ao ataque coordenado e autônomo. O alcance do sistema variaria entre 120 km e 340 km, dependendo da versão. Ambos os conceitos estão em fase de desenvolvimento e validação, e a empresa declarou ter iniciado a fabricação de um lote-teste de 20 sistemas, com pedidos iniciais já recebidos.

Para a Marinha, o potencial dessas versões avançadas é considerável. Um enxame lançado de um navio poderia saturar defesas inimigas em operações de projeção de poder ou em cenários de defesa do litoral, enquanto as unidades de reconhecimento forneceriam inteligência em tempo real ao comandante da operação, uma doutrina que, até poucos anos, era exclusividade de potências como Estados Unidos e Israel.

 

O significado da visita atual
A presença do Diretor-Geral do Material da Marinha - um almirante de esquadra, o posto mais alto da hierarquia operacional abaixo do Comandante da Marinha - em uma visita técnica a um fabricante privado é um evento fora do comum. O DGMM é o responsável máximo pela cadeia logística e de material de toda a força naval, incluindo a aprovação de sistemas e equipamentos a serem incorporados ao inventário da Marinha. Sua presença em São Carlos, ao lado do Diretor da Aeronáutica da Marinha, sinaliza que as conversações entre a força e a XMobots alcançaram um nível institucional que vai além de projetos pontuais.

A Amazônia Azul, com os cerca de 5,7 milhões de km² de águas jurisdicionais sobre as quais o Brasil reivindica direitos soberanos, permanece como o principal vetor desta aproximação. Monitorar uma área desse porte com meios exclusivamente tripulados é operacionalmente inviável e economicamente insustentável. Drones com autonomia de até 10 horas, alcance de 60 km e capacidade de operar a partir de navios em movimento representam um multiplicador de força concreto para uma marinha que precisa vigiar fronteiras líquidas de dimensões continentais.

A decisão de incorporar novas plataformas da XMobots ao inventário da Marinha ainda depende de processos formais de aquisição, aprovação orçamentária e prioridades estratégicas. Mas a sequência de eventos dos últimos meses: contrato vigente, testes operacionais bem-sucedidos, acordo de R$ 40 milhões assinado e agora uma visita de alto escalão, sugere que o caminho entre interesse e aquisição nunca esteve tão curto.

15 maio, 2026

Satélite brasileiro passa em teste crítico e avança rumo à soberania espacial do país

SatVHR supera simulação de lançamento no LIT do INPE e consolida o maior projeto de subvenção da história da Finep, em momento em que o Brasil debate sua dependência de satélites estrangeiros 

 

*LRCA Defense Consulting - 15/05/2026

O Satélite de Pequeno Porte de Altíssima Resolução, batizado de SatVHR, passou com folga por um dos testes mais rigorosos de seu desenvolvimento: a simulação das vibrações extremas que ocorrem durante o lançamento de um foguete. A notícia, divulgada pela Visiona Tecnologia Espacial na última terça-feira, representa um passo decisivo para que o Brasil coloque, pela primeira vez, em órbita um satélite óptico de observação da Terra de altíssima resolução integralmente projetado em solo nacional.

O que é o SatVHR e por que o teste importa
O SatVHR foi concebido para capturar imagens detalhadas de grandes áreas do território com resolução sub-métrica de 0,75 metro. Em linguagem prática, isso significa que, a partir do espaço, o satélite conseguirá distinguir objetos com menos de um metro de tamanho na superfície terrestre. Essa capacidade abre portas para aplicações que vão da defesa e da vigilância de fronteiras ao monitoramento ambiental da Amazônia, passando pelo ordenamento territorial, a proteção de terras indígenas e o suporte ao agronegócio.

O teste superado agora, chamado de teste de vibração, submete o modelo estrutural e térmico do satélite a cargas mecânicas ainda mais severas do que as previstas no lançamento real. O procedimento foi realizado no Laboratório de Integração e Testes (LIT) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em São José dos Campos, considerado o principal laboratório espacial da América Latina.

"O objetivo aqui é simples: ter certeza de que o satélite vai resistir ao momento mais crítico da missão, a decolagem, sem sofrer danos ou deformações que comprometam seu funcionamento. É um teste muito duro em que submetemos o satélite a cargas ainda mais severas do que as que ele enfrentará no lançamento", afirmou Himilcon Carvalho, diretor de Tecnologia Espacial da Visiona.

A preocupação tem razão de ser: mesmo pequenas deformações estruturais podem desalinhar sensores de orientação e o sistema óptico da câmera, comprometendo de forma irreversível a missão. Com o teste concluído com sucesso e boa margem de segurança, a equipe ganhou a confiança necessária para avançar às próximas etapas do projeto.

"O satélite SatVHR requer extrema precisão para funcionar. O sucesso neste teste tão crítico nos dá confiança de que estamos na direção certa", disse João Paulo Rodrigues Campos, presidente e CEO da Visiona.

Um projeto de envergadura nacional
O SatVHR é muito mais do que um produto de uma única empresa. O projeto é liderado pela Visiona, joint-venture entre a Embraer Defesa & Segurança e a Telebras, criada em 2012 para atender aos objetivos do Programa Espacial Brasileiro. O desenvolvimento reúne um consórcio amplo: as empresas Equatorial Sistemas, Fibraforte, Kryptus, OPTO Space & Defense e Orbital Engenharia participam como coexecutoras, ao lado de instituições de pesquisa como o próprio INPE, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), o Instituto SENAI de Inovação, a AEL Sistemas e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O contrato foi assinado em maio de 2023 com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e prevê investimento total de R$ 219 milhões em subvenção econômica do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). Trata-se do maior projeto de subvenção econômica já concedido pela Finep em sua história. O resultado esperado é também inédito: o SatVHR deverá ser o satélite com maior índice de conteúdo nacional já desenvolvido no país.

O reconhecimento externo já veio. Em março de 2026, a Visiona recebeu, no Palácio do Itamaraty, em Brasília, o Prêmio Finep de Inovação 2025, na categoria Tecnologias de Interesse para a Soberania e a Defesa Nacionais. A cerimônia contou com a presença da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, e do presidente da Finep, Luiz Antônio Elias.

Uma trajetória de aprendizado acumulado
O SatVHR não nasce do zero. Ele é o ponto de chegada de uma trajetória de acúmulo tecnológico que a Visiona vem construindo nos últimos anos. Em 2017, a empresa foi responsável pelo Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC-1), voltado a comunicações militares e banda larga. Em abril de 2023, lançou o VCUB1, o primeiro nanossatélite de observação da Terra e coleta de dados desenvolvido por uma empresa privada brasileira.

O VCUB1 operou por quase dois anos em órbita e encerrou sua missão em fevereiro de 2025, ao reentrar na atmosfera conforme planejado. O satélite serviu como banco de testes para tecnologias de navegação, gestão de bordo e comunicação que não podiam ser verificadas integralmente em laboratório. Segundo o diretor de Tecnologia da Visiona, Himilcon Carvalho, essas soluções agora migrarão para o SatVHR.

O Brasil espacial: potencial imenso, investimento modesto, dependência externa
A importância do SatVHR precisa ser lida em um contexto mais amplo: o Brasil é uma das maiores economias do planeta, ocupa posição singular na geopolítica por seu tamanho continental, sua biodiversidade e seus recursos naturais, mas permanece entre os países do G20 que menos investem no setor espacial.

Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou que, em 2023, o Brasil destinou apenas US$ 47 milhões em recursos públicos ao setor espacial, o equivalente a 0,002% do PIB. O valor coloca o país à frente apenas do México entre as 20 maiores economias do mundo e é cerca de 30 vezes menor do que a média do grupo. Para comparação, os Estados Unidos investiram US$ 73,2 bilhões (0,264% do PIB) no mesmo ano; a China, entre US$ 14 e 18 bilhões; Índia e Rússia, entre US$ 1,5 e 2,5 bilhões.

Atualmente o Brasil opera apenas 24 satélites entre os mais de 13 mil em órbita ao redor da Terra. A dependência de infraestrutura estrangeira é concreta: um levantamento do Programa Espacial Brasileiro (PEB) aponta que só o Poder Executivo federal demanda, anualmente, R$ 860 milhões em serviços espaciais contratados de terceiros. Entre 2013 e 2023, o orçamento da Agência Espacial Brasileira (AEB) foi reduzido em 68%.

"A indústria espacial brasileira pode ser protagonista global, assim como a respeitada indústria aeronáutica. Atualmente dependemos de satélites estrangeiros para atender a necessidades básicas da sociedade brasileira. Temos que mitigar essa vulnerabilidade que ameaça nossa soberania", alerta Julio Shidara, presidente da Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (AIAB).

Soberania como prioridade de Estado
Diante desse diagnóstico, iniciativas como o SatVHR ganham significado estratégico que vai além da engenharia. Dominar a produção de satélites de observação em alta resolução significa, na prática, reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros para dados sobre o próprio território nacional, em áreas sensíveis que incluem defesa, monitoramento ambiental, controle de fronteiras e gestão de recursos naturais.

Analistas do setor apontam que a experiência acumulada em projetos nacionais como o SatVHR cria um ecossistema industrial e científico que transcende o equipamento em si. Ela forma engenheiros especializados, fortalece fornecedores locais, gera propriedade intelectual e cria base para projetos futuros, inclusive comerciais.

O governo federal, por sua vez, incluiu o setor aeroespacial na Nova Indústria Brasil (NIB), política industrial lançada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI). A missão 6 da NIB prevê aportes de cerca de R$ 113 bilhões para ampliar o domínio brasileiro em radares, satélites e foguetes, com meta de alcançar até 55% de domínio das tecnologias críticas de defesa até 2026 e 75% até 2033.

Em paralelo, o Microlançador Brasileiro (MLBR) está em desenvolvimento com investimento de R$ 189 milhões do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, em parceria com a Agência Espacial Brasileira (AEB). Com cerca de 12 metros de altura e capacidade para transportar satélites de até 40 quilos, o foguete visa dar ao Brasil autonomia de lançamento orbital a partir de Alcântara (MA), cuja localização próxima à linha do Equador representa vantagem competitiva rara no mercado espacial global. Os primeiros lançamentos estão previstos para 2027.

Próximos passos do SatVHR
Com o teste de vibração concluído, o SatVHR avança para as etapas subsequentes de qualificação. O modelo estrutural e térmico, que foi o objeto dos testes atuais, dará lugar ao modelo de voo, que incorporará todos os sistemas funcionais do satélite. O projeto foi contratado para entrega até o fim de 2026, o que coloca o lançamento como possibilidade concreta ainda dentro do calendário original.

Para o Brasil, colocar em órbita um satélite de altíssima resolução de concepção inteiramente nacional representaria um marco comparável, guardadas as proporções, ao que significou a aviação regional para a Embraer nas décadas de 1980 e 1990. Seria a prova de que o país tem capacidade de desenvolver tecnologia espacial de ponta, não apenas de operar e consumir o que outros produzem.

O teste concluído no LIT do INPE, por menor que pareça ao grande público, é um tijolo nessa construção. E cada tijolo conta.

Atech inaugura simulador tático e centro de suporte do sistema de combate das Fragatas Classe Tamandaré

Cerimônia realizada na Base Naval do Rio de Janeiro marca novo patamar na capacitação de tripulações da Marinha do Brasil 

 
 
*LRCA Defense Consulting - 15/05/2026

A Atech, empresa do Grupo Embraer especializada em sistemas de missão crítica, inaugurou nesta terça-feira o Simulador Tático e o Centro de Suporte do Sistema de Combate (CSSC) das Fragatas Classe Tamandaré, em cerimônia realizada na Base Naval do Rio de Janeiro. O evento reuniu autoridades da Marinha do Brasil e da indústria de defesa e representa um passo decisivo na preparação operacional das tripulações que vão operar a nova geração de navios de guerra da Esquadra brasileira.

Simulação de alta fidelidade para o sistema de combate
O Simulador Tático desenvolvido pela Atech oferece um ambiente de imersão de alta fidelidade voltado ao treinamento das equipes no Sistema de Gerenciamento de Combate (CMS) das fragatas. O CMS é o núcleo operacional dos novos navios, responsável por integrar sensores, armamentos e sistemas de comando em um único ambiente, processando dados em tempo real para apoiar o processo decisório a bordo. Por meio de algoritmos avançados, o sistema identifica e classifica ameaças e aponta a melhor resposta tática disponível.

Com o simulador, as tripulações podem treinar em cenários complexos que reproduzem as condições reais de combate antes mesmo de embarcarem. A iniciativa reduz riscos operacionais e acelera a curva de aprendizado das equipes, tornando o processo de certificação mais robusto e seguro.

O papel estratégico do CSSC
O Centro de Suporte do Sistema de Combate (CSSC) cumpre um papel estratégico no planejamento das missões das fragatas. Instalado no Centro de Apoio a Sistemas Operativos (CASOP), a estrutura passou por adequações físicas e por uma fase de capacitação de pessoal conduzida pela Atech, integrando o ciclo de formação previsto pelo Programa Fragatas Classe Tamandaré. O centro permitirá configurar o sistema de combate, validar atualizações de software e simular cenários táticos antes do emprego dos navios no mar.

A existência de uma estrutura dedicada de suporte também garante maior autonomia à Marinha do Brasil na operação e manutenção dos sistemas ao longo do ciclo de vida das embarcações, reduzindo a dependência de fornecedores estrangeiros. O modelo é escalável e poderá beneficiar outros meios navais no futuro.

Cerimônia com altas patentes da Marinha
A cerimônia de inauguração contou com a presença da Diretora de Programas da Atech, Andrea Hemerly, e com a participação de altas patentes da Marinha do Brasil: o Vice-Almirante Antonio Carlos Cambra, o Vice-Almirante Marcelo da Silva Gomes e o Vice-Almirante (Rm1) Antonio Reginaldo Pontes Lima Junior, além de outras autoridades.

Contexto: o Programa Fragatas Classe Tamandaré
O Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT), contratado em 2020 com o consórcio Águas Azuis (formado por TKMS, Embraer Defesa & Segurança e Atech), prevê a construção de quatro fragatas de alta complexidade tecnológica no estaleiro TKMS Estaleiro Brasil Sul, em Itajaí (SC). O investimento total do primeiro lote é de R$ 12 bilhões. A primeira fragata, a F200 "Tamandaré", foi incorporada oficialmente à Marinha em 24 de abril de 2026, após testes de mar realizados ao longo de 2025. A segunda, "Jerônimo de Albuquerque" (F201), foi lançada ao mar em agosto de 2025, e as demais têm entrega prevista até 2029.

As fragatas são embarcações multipropósito com cerca de 3.500 toneladas, equipadas com radar de busca volumétrica, sistemas de guerra eletrônica, mísseis antiaéreos de lançamento vertical, torpedos e canhão naval de 76 mm, além de hangar e convoo para helicóptero embarcado. O CMS, desenvolvido em parceria pela Atech e pela alemã Atlas Elektronik, conecta toda essa suíte de sensores e armamentos, atuando como o "cérebro" integrado do navio.

O programa está inserido no Novo PAC do governo federal, no eixo de inovação para a indústria de defesa, e gera cerca de 23 mil empregos ao longo da construção das quatro embarcações. Mais recentemente, em abril de 2026, a Atech e a Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha (DSAM) assinaram um Protocolo de Intenções para a evolução contínua do CMS, consolidando a empresa como uma "Casa de Sistemas" estratégica para a defesa nacional.

 

Soberania tecnológica e indústria nacional
A inauguração do Simulador Tático e do CSSC é mais um capítulo da estratégia brasileira de fortalecer a base industrial de defesa com tecnologia nacional. O CMS e o Sistema Integrado de Gerenciamento da Plataforma (IPMS) das fragatas são desenvolvidos por empresas brasileiras (Atech e Embraer), com índice de conteúdo local de pelo menos 40%, o que garante maior autonomia para manutenção e atualizações futuras sem depender exclusivamente de fornecedores europeus.

Para a Marinha do Brasil, que patrulha mais de 5,7 milhões de km² da chamada Amazônia Azul, a modernização da esquadra com sistemas nacionais tem valor estratégico. Com as Fragatas Classe Tamandaré, o país opera pela primeira vez um sistema de defesa antiaérea de médio alcance em fragatas construídas em território nacional, suprindo uma lacuna que outros países da região fecharam décadas atrás.

A entrega do simulador e do centro de suporte, portanto, vai além do treinamento imediato das tripulações: sinaliza a maturidade de um ecossistema tecnológico nacional capaz de sustentar, evoluir e operar de forma soberana alguns dos sistemas de combate mais avançados já implantados na história da Força Naval brasileira.

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