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07 março, 2026

Embraer teria posicionado o C-390 como plataforma "nave-mãe" multimissão para a Índia, com enxame de drones e capacidade Rapid Dragon

Portal indiano detalha proposta da fabricante brasileira de transformar o C-390 Millennium em uma plataforma aérea capaz de lançar enxames de drones e empregar o conceito Rapid Dragon, tema que esta Consultoria vem acompanhando desde o final de 2024. 

Imagem meramente ilustrativa

*LRCA Defense Consulting - 06/03/2026

"A Embraer está posicionando o C-390 não meramente como um transportador tático, mas como uma plataforma modular multimissão capaz de evoluir para uma avançada 'nave-mãe' aérea."— IDRW, março de 2026

O conceituado portal indiano de defesa Indian Defence Research Wing (IDRW) publicou nesta quinta-feira, 5 de março de 2026, uma análise detalhada sobre o posicionamento estratégico da Embraer junto à Força Aérea Indiana (IAF): o C-390 Millennium não como um simples transportador tático, mas como uma plataforma aérea modular de alto espectro, capaz de se transformar em uma verdadeira "nave-mãe" de drones e de empregar capacidades avançadas de arsenal aéreo, incluindo o conceito norte-americano Rapid Dragon.

Segundo o IDRW, a proposta da fabricante brasileira vai muito além do transporte convencional de tropas e cargas. A Embraer traçou para a IAF um roteiro de codesenvolvimento de variantes especializadas, abrangendo missões de Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (IVR), inteligência de sinais (SIGINT) e conceitos avançados de emprego de sistemas não tripulados — inspirados na doutrina de aeronave-arsenal que vem ganhando corpo nas principais forças aéreas do mundo.

O que é o conceito de "nave-mãe" proposto pela Embraer
No coração da proposta está a ideia de que um transportador moderno pode funcionar como um carregador aéreo de sistemas flexível. A grande rampa traseira do C-390 e sua arquitetura de carga paletizada permitem que kits de missão sejam trocados rapidamente, convertendo a aeronave de um veículo logístico em uma plataforma de lançamento de sistemas não tripulados. Essa característica modular é central: qualquer aeronave C-390 poderia receber os kits necessários e estar pronta para missões especiais em poucas horas, sem modificações estruturais permanentes.

A Embraer também explorou junto à IAF conceitos de recuperação aérea de drones comparáveis aos experimentos de captura em voo realizados em outros programas de ponta da aviação mundial. Nessa configuração, o porão de carga do C-390 poderia abrigar um sistema de captura baseado em guincho para recolher drones em retorno ao interior da aeronave, possibilitando reutilização e reimplantação rápida. Tal capacidade transformaria efetivamente o transportador em um nó de comando de drones reutilizável, estendendo a resistência operacional sem exigir bases avançadas em território hostil.

Outra dimensão do conceito de nave-mãe envolve o transporte externo sob as asas. Os hardpoints alares do C-390, originalmente previstos para pods de reabastecimento aéreo, podem suportar plataformas não tripuladas de maior porte, inviáveis de serem lançadas pela rampa traseira. Esses drones transportados externamente poderiam ser liberados em voo para atuar como repetidores de sensores, batedores de reconhecimento ou ativos de apoio eletrônico, coordenados pelos sistemas de missão embarcados.

O conceito Rapid Dragon e o enxame de drones
O IDRW destaca ainda que a Embraer apresentou à IAF a possibilidade de implementar o conceito Rapid Dragon, desenvolvido originalmente pelos Estados Unidos. Nessa configuração, paletes de carga padrão são adaptados para comportar mísseis de cruzeiro ou munições planadas de longo alcance, que são lançadas pela rampa traseira durante o voo, transformando qualquer C-390 em uma plataforma de ataque stand-off sem modificações permanentes na aeronave. O conceito já foi testado com sucesso nos EUA a partir de aeronaves C-130 e C-17, e sua adaptação ao C-390 representaria um salto qualitativo considerável para a IAF.

Paralelamente, a proposta de emprego de enxames de drones lançados a partir da rampa traseira alinha o C-390 com as tendências mais modernas de guerra aérea. A saturação de defesas adversárias por múltiplos sistemas autônomos coordenados é uma das lições mais contundentes extraídas dos conflitos recentes na Ucrânia e em Nagorno-Karabakh, e a IAF demonstra crescente interesse em incorporar essa doutrina à sua força.

C-390 Millennium: dados técnicos relevantes

  • Motorização: dois turbofans IAE V2500-E5
  • Peso máximo de decolagem: 81.500 kg
  • Carga transportável: até 26 toneladas métricas
  • Capacidade de tropas: até 80 soldados equipados
  • Alcance com carga plena: 5.056 km (2.730 NM)
  • Velocidade de cruzeiro: ~850 km/h (Mach 0,80)
  • Hardpoints alares: originalmente para pods REVO; adaptáveis para armamento e drones
  • Parceiros na Índia: Mahindra Defence Systems (produção local e MRO)

Multimissão: a vantagem comparativa do C-390 na licitação MTA
A licitação MTA (Medium Transport Aircraft) da IAF prevê a aquisição de 60 aeronaves para substituir a frota de Antonov An-32 e operar ao lado dos C-17 Globemaster III, C-130J Super Hercules e dos recém-adquiridos Airbus C295. Trata-se de uma das maiores aquisições militares de transporte aéreo do mundo na última década, estimada em cerca de cem mil crores de rúpias (aproximadamente 12 bilhões de dólares). A concorrência é acirrada, com o Lockheed Martin C-130J Super Hercules como principal rival.

Ao apresentar o C-390 como uma plataforma que vai muito além do transporte convencional, a Embraer aposta em uma vantagem decisiva: enquanto concorrentes entregam primordialmente capacidade logística, o C-390 multimissão oferece, em um único chassi, transporte de tropas e cargas, reabastecimento aéreo (REVO), evacuação aeromédica (EVAM), lançamento de paraquedistas, combate a incêndios florestais (MAFFS), operação em pistas curtas e não pavimentadas, patrulha marítima armada (MPA), Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (IVR) e, potencialmente, lançamento e recuperação de drones e emprego do conceito Rapid Dragon.

A parceria com a Mahindra Defence Systems, formalizada por Memorando de Entendimento em fevereiro de 2024 e ampliada para um acordo estratégico de produção local em outubro de 2025, reforça o alinhamento com a política Atmanirbhar Bharat (India Autossuficiente), um critério fundamental para a IAF. Em fevereiro de 2026, Embraer e Mahindra anunciaram ainda um acordo para o estabelecimento de uma instalação de manutenção, reparo e revisão (MRO) no país, caso o C-390 vença a licitação. A linha de montagem final prevista na Índia permitiria ao país tornar-se hub regional de produção, MRO e treinamento para toda a Ásia-Pacífica.

Imagem meramente ilustrativa

O contexto geopolítico: China, modernização e a urgência indiana
Vale registrar que o tema não é exatamente novo. Esta Consultoria vem acompanhando os desdobramentos da proposta da Embraer para a IAF desde dezembro de 2024, quando o IDRW noticiou pela primeira vez a oferta de uma variante armada do C-390M com hardpoints alares. Desde então, análises subsequentes sobre as variantes de Patrulha Marítima Armada, IVR e nave-mãe de drones foram publicadas aqui, à medida que o quadro ia se tornando mais nítido. A matéria de ontem do IDRW agrega novos elementos — em especial o conceito Rapid Dragon e a recuperação aérea de drones, e consolida, com autoridade, um cenário de múltiplas camadas que vai bem além do transporte convencional.

A proposta da Embraer ganha contornos ainda mais relevantes no contexto geopolítico regional. A China, que mantém longas disputas fronteiriças com a Índia, avança aceleradamente no desenvolvimento de plataformas de guerra baseada em drones. O drone-porta-aviões Jiu Tian, revelado no Zhuhai Air Show de novembro de 2024, é capaz de transportar e lançar até 100 drones kamikaze a partir de altitudes de 15.000 metros, com raio de ação de 7.000 km. Trata-se de uma ameaça assimétrica de nova geração que não passa despercebida pelos planejadores estratégicos de Nova Délhi.

Nesse quadro, a possibilidade de que a própria frota de transportadores da IAF, caso o C-390 seja selecionado, possa desempenhar papel análogo, com vantagens operacionais consideráveis por ser tripulada, representa um argumento de peso. A solução modular do C-390 permite que a mesma aeronave alterne entre missões logísticas rotineiras e funções de combate avançado sem necessidade de aeronaves dedicadas adicionais, com impacto positivo nos custos do ciclo de vida.

O DRDO (Organização de Pesquisa e Desenvolvimento de Defesa da Índia) também se move nessa direção: em colaboração com o setor privado, a organização desenvolve enxames de drones com cargas úteis integradas, projetados especificamente para serem lançados a partir de transportadores da IAF. A convergência entre essa demanda doméstica e a oferta da Embraer é, no mínimo, estrategicamente conveniente.

Índia: o maior operador mundial do C-390?
 A materialização dessas propostas em contrato dependerá de múltiplos fatores: a avaliação técnica e financeira pela IAF, o ritmo das negociações sobre transferência de tecnologia (ToT), os resultados dos estudos colaborativos em andamento entre Embraer, FAB e FAP, e as decisões políticas do governo Modi no âmbito do Atmanirbhar Bharat. O que está claro, entretanto, é que a Embraer construiu, ao longo dos últimos anos, uma proposta de valor excepcionalmente robusta para o mercado indiano, e que o C-390 Millennium está muito bem posicionado para se tornar a espinha dorsal da aviação de transporte tático da IAF nas próximas décadas.

Se confirmada a seleção, a Índia se tornará o maior operador mundial do C-390, superando a soma de todos os clientes existentes, incluindo a própria Força Aérea Brasileira. Um fato que, por si só, diz muito sobre o alcance e a relevância estratégica desta aeronave e sobre a capacidade da Embraer de transformar um projeto 100% brasileiro em vetor global de poder aéreo.

04 março, 2026

Embraer C-390 Millennium entra de fato na disputa pelo maior contrato de transporte militar da Índia

Conselho de Defesa indiano aprova avanço na aquisição de 60 aeronaves de transporte médio; aviação brasileira compete com Airbus e Lockheed Martin pela renovação da frota da Força Aérea Indiana


*LRCA Defense Consulting - 04/03/2026

O processo de renovação da frota de transporte da Força Aérea Indiana (FAI) ganhou impulso decisivo nesta terça-feira. O Conselho de Aquisições de Defesa (Defence Procurement Board – DPB) do Ministério da Defesa da Índia recomendou o avanço da proposta de aquisição de 60 aeronaves de transporte médio (MTA, na sigla em inglês) para a FAI. Com o aval do órgão, o C-390 Millennium, da brasileira Embraer, se aproxima de uma das maiores disputas de procurement militar da Ásia.

O programa agora aguarda aprovação do Conselho de Aquisição de Defesa (DAC) e do Comitê de Gabinete de Segurança (CCS). Após a finalização do contrato, 12 aeronaves serão adquiridas prontas para voo, enquanto as outras 48 serão fabricadas domesticamente, em linha com a política "Make in India" do governo Modi.

A disputa
Três gigantes da aviação militar estão na corrida. A FAI emitiu uma Solicitação de Informações (RFI) em dezembro de 2022 para até 80 aeronaves MTA. As respostas vieram da Airbus, com o A-400M; da Lockheed Martin, com o C-130J; e da Embraer, com o C-390 Millennium.

Na categoria de capacidade de carga entre 18 e 30 toneladas, a MTA tem por objetivo substituir tanto as antigas aeronaves russo-soviéticas AN-32 quanto os IL-76 da frota da FAI. Trata-se de um programa avaliado em mais de US$ 2,5 bilhões.

O trunfo brasileiro
O C-390 Millennium desponta como um dos favoritos após anos de avaliações. O C-390 emergiu como o principal candidato em testes realizados em 2024, superando rivais em capacidade de carga e desempenho em pistas não pavimentadas.

Ao contrário do C-130J, movido a turboélice, o KC-390 é propulsionado por motores a jato, oferece capacidade de carga de 26 toneladas contra as 20 toneladas do C-130J, e cruza a 470 nós, permitindo operações de 25 a 30% mais rápidas, mesmo em pistas curtas ou não pavimentadas.

A Embraer reitera que a frota em serviço do C-390 apresenta uma taxa de conclusão de missões acima de 99%. O presidente e CEO da fabricante, Francisco Gomes Neto, foi pessoalmente a Nova Délhi como parte da delegação do presidente Lula para reforçar a oferta brasileira. Neto afirmou que, se vencer o contrato indiano, a empresa transformará a Índia em seu principal polo de produção para atender ao mercado da região Ásia-Pacífico.

O C-390 Millennium foi selecionado pelas forças aéreas do Brasil, Portugal, Hungria, Holanda, Áustria, Coreia do Sul, Uzbequistão, República Tcheca, Suécia, Eslováquia e Lituânia.

Parceria estratégica com a Mahindra
Para consolidar a candidatura, a Embraer apostou em uma aliança industrial de peso. Em outubro de 2025, a Embraer Defense & Security e o Mahindra Group assinaram um Acordo de Cooperação Estratégica para promover o C-390 Millennium no programa MTA da FAI, com planos para produção local, abrangendo montagem, integração na cadeia de suprimentos e potencial para exportações.

Em fevereiro de 2026, as duas empresas foram ainda mais longe. A Embraer anunciou planos para estabelecer um centro de Manutenção, Reparo e Revisão (MRO) na Índia, em colaboração com o Mahindra Group, caso o C-390 seja selecionado no programa MTA da FAI. A instalação prevê serviços de manutenção de base e pesada, inspeções estruturais, reparo de componentes, suporte de aviônicos e treinamento.

A Embraer também avalia a possibilidade de a Índia funcionar como um hub regional de MRO, prestando serviços a outros operadores do C-390 Millennium no futuro. 

Presença histórica e visão de longo prazo
A relação entre a Embraer e a Índia não começa agora. A plataforma ERJ 145 da Embraer serve de base para o sistema de alerta precoce aerotransportado (AEW&C) 'Netra' da FAI, enquanto aeronaves Legacy 600 são utilizadas para transporte VIP pela Força Aérea e pela Força de Segurança de Fronteira. A Embraer tem presença estabelecida na Índia, com quase 50 aeronaves de 11 tipos diferentes em operação no país em funções de aviação comercial, de defesa e executiva.

A decisão final sobre o vencedor do programa MTA é aguardada para o segundo semestre de 2026. Para a Embraer, uma vitória na Índia não representaria apenas um contrato bilionário; significaria firmar a posição do C-390 Millennium como o novo padrão global de transporte tático militar do século XXI.

13 fevereiro, 2026

Com visita presidencial, acordo Embraer-Adani ganha palco em Nova Délhi e prepara terreno para ofensiva do C‑390

Anúncios sobre linha de montagem de jatos regionais devem ser detalhados durante encontro bilateral de 21 de fevereiro, reforçando ofensiva da Embraer no mercado indiano 
 
 
 
*LRCA Defense Consulting - 13/02/2026

O acordo entre a Adani Defence & Aerospace e a Embraer para criação de um ecossistema de aviação regional na Índia deve ganhar novo patamar de visibilidade política durante a visita do presidente brasileiro ao país asiático, prevista para 18 a 22 de fevereiro. Com anúncios focados na agenda civil, a parceria também reforça, em paralelo, a ofensiva da fabricante brasileira no dossiê de defesa indiano, especialmente no programa Medium Transport Aircraft (MTA) com o C-390 Millennium.
Visita do presidente brasileiro: palco para a agenda industrial
O Ministério das Relações Exteriores da Índia confirmou oficialmente, nesta quinta-feira (12), que o presidente brasileiro estará no país entre 18 e 22 de fevereiro, com reuniões bilaterais com o primeiro-ministro Narendra Modi programadas para o dia 21. O presidente será acompanhado por 14 ministros e um expressivo grupo de CEOs, refletindo o forte viés econômico e estratégico da visita.
Além das reuniões bilaterais, o presidente participará da 2ª Cúpula de Impacto da IA (AI Impact Summit), que ocorrerá entre 19 e 20 de fevereiro em Nova Délhi, com a presença de nove primeiros-ministros, sete presidentes e dois vice-presidentes de diversos países. A agenda oficial destaca comércio, investimentos, tecnologia e defesa, em linha com o esforço de Brasil e Índia para aprofundar a cooperação Sul-Sul e reduzir dependência de Estados Unidos e China.
Segundo reportagem do portal indiano Business Today, publicada nesta quinta-feira (12), a visita deve servir de vitrine para anúncios "maiores" sobre o acordo Adani-Embraer, com foco em detalhar investimentos, cronograma e contornos industriais da parceria. O ministro da Aviação Civil da Índia, K. Ram Mohan Naidu, já antecipou que, na presença do presidente brasileiro e do PM indiano, haverá decisão sobre "como e quando isso vai se desenrolar", sugerindo a apresentação de um roteiro mais concreto do projeto.
O que já se sabe sobre o acordo Adani–Embraer
Em 27 de janeiro, Embraer e Adani Defence & Aerospace assinaram um memorando de entendimento (MoU) para criar um "ecossistema integrado de aeronaves de transporte regional" na Índia. O acordo prevê uma linha de montagem final (FAL) de jatos regionais, além de estrutura de cadeia de suprimentos, serviços pós-venda e treinamento, inserindo o projeto diretamente nas políticas Make in India e Aatmanirbhar Bharat (Índia Autossuficiente).
Até agora, não foram divulgados oficialmente o modelo exato a ser produzido (a imprensa cita recorrentemente a família E-Jets E2), o local da fábrica ou o volume total de investimentos. Jeet Adani, diretor da Adani Defence & Aerospace, afirmou que múltiplos locais estão sendo avaliados para abrigar a linha de montagem, incluindo Gujarat e Andhra Pradesh, com expectativa de que todos os detalhes sejam finalizados "nos próximos meses".
Fontes indianas e internacionais descrevem a iniciativa como a primeira FAL de aeronaves comerciais de maior porte no país, com ambição declarada de atender tanto o mercado doméstico quanto exportações regionais. Na avaliação de analistas de mercado, o projeto mira um potencial de pelo menos 500 jatos regionais em 20 anos, combinando a demanda interna indiana com a de países vizinhos.
Arjan Meijer, presidente e CEO da Embraer Commercial Aviation, enfatizou que "a Índia é um mercado fundamental para a Embraer, e esta parceria combina nossa expertise aeroespacial com as fortes capacidades industriais da Adani". Ele acrescentou que juntos avaliarão "as soluções mais viáveis, avançadas e eficientes para apoiar as ambições da Índia em aeronaves de transporte regional".
Nesse contexto, a visita do presidente brasileiro oferece a oportunidade de "politizar positivamente" o anúncio, isto é, dar selo de alto nível a um projeto industrial que ainda está em fase de arquitetura, reforçando o compromisso bilateral entre Brasil e Índia.
O elo com o dossiê de defesa: C-390 e MTA
Paralelamente à agenda civil com a Adani, a Embraer vem aprofundando sua presença no setor de defesa indiano, especialmente com o C-390 Millennium ofertado ao programa Medium Transport Aircraft (MTA) da Força Aérea Indiana (IAF). A empresa mantém uma cooperação estruturada com o grupo Mahindra, por meio de um acordo estratégico assinado em fevereiro de 2024 e aprofundado em outubro de 2025 para promover o C-390 no MTA.
A proposta inclui linha de montagem, MRO (Manutenção, Reparo e Revisão) e centro de treinamento na Índia, posicionando o país como hub regional da plataforma. Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defense & Security, afirmou que "este acordo é mais do que um negócio aeroespacial; reflete nosso compromisso com a Aatmanirbhar Bharat e a crescente amizade entre Brasil e Índia".
Informações de comunicados oficiais e reportagens especializadas indicam que a Embraer oferece à Índia algo que vai além de 60-80 aeronaves: um ecossistema de produção e suporte que transformaria o país no maior operador global do C-390 e polo exportador para Ásia-Pacífico. Essa visão se encaixa na narrativa de Atmanirbhar Bharat e na trajetória já traçada com o C-295 da Airbus, reforçando a expectativa de que o MTA também venha com forte exigência de conteúdo local e transferência de tecnologia.
O C-390 já foi selecionado pelas forças aéreas do Brasil, Portugal, Hungria, Holanda, Áustria, Coreia do Sul, República Tcheca, Suécia, Eslováquia, Lituânia e um cliente não divulgado. O programa MTA da Índia visa substituir as antigas aeronaves Antonov An-32 e possivelmente os Ilyushin Il-76, com a IAF avaliando aeronaves na faixa de capacidade de carga de 18-30 toneladas.
Como as agendas civil e militar se alimentam
A narrativa que se desenha em Nova Délhi e Brasília é a de um "pacote Embraer Índia", em que o anúncio civil com a Adani funciona como prova de conceito de manufatura e integração de alto valor agregado no país. Para o governo indiano, uma FAL de jatos regionais ajuda a demonstrar, para o público doméstico, que Make in India não se limita à montagem de aeronaves de transporte militar, mas abrange também o segmento comercial, sempre com o mote de empregos, exportações e transferência de tecnologia.
Embora o MoU com a Adani seja, formalmente, voltado à aviação regional civil, o fato central é que a Embraer passa a ter, ao mesmo tempo, um parceiro industrial indiano robusto no civil (Adani) e um parceiro consolidado no militar (Mahindra). Na prática, isso cria uma constelação de cooperação Brasil-Índia em torno da Embraer, com capacidade de combinar cadeias de suprimentos, engenharia e capacidade política para sustentar projetos de longo prazo em ambos os domínios.
Essa base industrial pode ser mobilizada politicamente como argumento adicional em favor de decisões futuras no campo da defesa, incluindo o MTA. Se a Embraer conseguir mostrar, ao lado da Adani, resultados tangíveis na cadeia de fornecedores e na geração de conteúdo local em aviação regional, reforça a percepção de que a empresa é capaz de replicar esse modelo em plataformas como o C-390.
Do lado brasileiro, o encadeamento também é evidente: consolidar uma FAL de jatos regionais em um mercado em expansão garante escala, dilui custos e aumenta a resiliência da cadeia de suprimentos, um ativo importante para qualquer eventual contrato militar de grande porte que envolva módulos, componentes ou submontagens produzidos na Índia.
 
Expectativas para anúncios durante a visita
Até o momento, as fontes abertas apontam mais para detalhamento do projeto Adani-Embraer do que para a assinatura de contratos fechados. É plausível esperar, durante a visita, anúncios como:
• Indicação de localização (ou lista restrita) para a FAL;
• Definição de fases do projeto (cronograma de instalação, início de produção, metas de conteúdo local);
• Eventuais instrumentos adicionais de cooperação governamental (MoUs intergovernamentais, facilitação regulatória, linhas de crédito ou apoio de bancos de desenvolvimento).
O ministro Ram Mohan Naidu afirmou em janeiro que o cronograma para a colaboração Embraer-Adani Aerospace será decidido durante a visita do presidente brasileiro, quando ele se reunir com o primeiro-ministro Modi, expressando expectativa de "bom progresso no campo de manufatura nos próximos dois anos".
No dossiê de defesa, a tendência é que a visita reforce o discurso político sobre cooperação industrial, mas sem, necessariamente, decisões imediatas sobre o MTA. Ainda assim, cada passo na consolidação da presença industrial da Embraer na Índia - seja com Adani no civil, seja com Mahindra no C-390 - aumenta o peso da fabricante brasileira na mesa quando o RFP (Request for Proposal) do MTA estiver efetivamente na rua e as propostas forem avaliadas sob a ótica de conteúdo local e parceria estratégica.
Contexto bilateral e momentum político
As relações Brasil-Índia vêm ganhando momentum nos últimos meses. Em outubro de 2025, o vice-presidente brasileiro Geraldo Alckmin, que também comanda a pasta de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, visitou a Índia junto com o ministro da Defesa, José Mucio Monteiro. Durante essa visita, foram realizadas conversas com o ministro da Defesa indiano, Rajnath Singh, sobre cooperação em defesa e questões de soberania, além de discussões sobre a possível expansão do Acordo de Comércio Preferencial Mercosul-Índia, em vigor desde 2009.
O engajamento político se intensificou ainda mais em 2026. Em 23 de janeiro, o presidente brasileiro e o primeiro-ministro Modi realizaram uma ligação telefônica na qual ambos os líderes reiteraram seu apoio a reformas abrangentes das Nações Unidas, incluindo mudanças no Conselho de Segurança, uma questão há muito defendida por ambos os países.
A Índia emergiu como o décimo maior destino de exportação do Brasil no ano passado, com exportações totalizando US$ 6,9 bilhões, e ficou em sexto lugar entre as fontes de importação, com US$ 8,4 bilhões. Embora isso tenha resultado em um déficit comercial de US$ 1,5 bilhão para o Brasil, os volumes de comércio bilateral registraram forte crescimento, com as exportações subindo 30,2% e as importações aumentando 21,9% em 2025.
Esta será a sexta visita do presidente brasileiro à Índia. Ele visitou pela primeira vez em 2004 como Convidado de Honra para as celebrações do Dia da República e esteve por último no país para a Cúpula do G20 em setembro de 2023. O primeiro-ministro Modi, por sua vez, esteve em Brasília em uma Visita de Estado em julho de 2025, marcando a primeira visita de Estado de um primeiro-ministro indiano em 57 anos. Ambos os líderes também se encontraram em Joanesburgo durante o G20 em novembro de 2025.
Presença da Embraer na Índia
A Embraer já tem uma presença significativa na Índia, com aproximadamente 50 aeronaves em operação em 11 modelos diferentes nos segmentos de aviação comercial, defesa e aviação executiva:
Força Aérea Indiana: opera aeronaves Embraer como o Legacy 600 e a plataforma 'Netra' AEW&C baseada no ERJ-145;
Star Air: companhia aérea regional com sede em Kolhapur opera uma frota de 13 aeronaves E175 e ERJ-145 para serviços comerciais;
Governo indiano: cinco jatos VIP Embraer em operação.
Em outubro de 2025, a Embraer inaugurou seu escritório nacional em Aerocity, Nova Délhi, consolidando sua estratégia de expansão no mercado indiano que abrange defesa, aviação civil e tecnologias emergentes.
Perspectivas
O que se desenha é uma estratégia de longo prazo da Embraer para a Índia, que vai além de contratos pontuais. A combinação de parceiros industriais robustos (Adani no civil, Mahindra no militar), presença institucional consolidada (escritório em Nova Délhi) e alinhamento com as políticas governamentais indianas (Make in India, Aatmanirbhar Bharat) cria as condições para que a empresa brasileira se torne um player relevante no ecossistema aeroespacial indiano.
A visita do presidente brasileiro funciona como catalisador político desse processo, conferindo legitimidade de alto nível às iniciativas em andamento e sinalizando o compromisso dos governos brasileiro e indiano com a parceria estratégica no setor aeroespacial. Ao mesmo tempo, o fortalecimento do vetor C-390 no MTA, se bem-sucedido, alimenta a imagem de competência tecnológica e confiabilidade da Embraer, retroalimentando as chances da família E-Jets E2 na concorrência comercial com Airbus e Boeing em mercados emergentes.
Os próximos dias, especialmente as reuniões bilaterais de 21 de fevereiro, serão decisivos para entender até que ponto essa visão compartilhada entre Brasil e Índia se traduzirá em compromissos concretos, sejam eles cronogramas, investimentos ou marcos regulatórios que pavimentem o caminho para a consolidação da Embraer como parceiro industrial estratégico da Índia nas próximas décadas.

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