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11 setembro, 2026

Gepard, Tunguska e Bofors: para enfrentar drones, os velhos canhões voltam à guerra

Da Ucrânia ao Vietnã, sistemas de várias gerações voltam a enfrentar drones de baixa altura. Para o Brasil, a experiência reforça a necessidade de modernizar o Gepard enquanto se constrói uma solução nacional de nova geração.



*LRCA Defense Consulting - 11/09/2026

O canhão antiaéreo voltou à guerra 

A guerra dos drones está produzindo uma transformação que parecia improvável há poucos anos: o retorno dos canhões automáticos de médio calibre ao centro da defesa antiaérea de baixa altura.

A razão é econômica e operacional. Drones pequenos, lentos, de baixa assinatura e empregados em grande quantidade impõem um desafio que nem sempre pode ser resolvido de maneira racional por mísseis de alto custo. A resposta vem sendo construída com uma combinação de sensores, radares, sistemas eletro-ópticos, controle de tiro, redes de comando e munições mais eficientes.

Mas existe outra característica dessa transformação: armas consideradas ultrapassadas estão recebendo uma segunda vida.

Na Ucrânia, Bofors L70, Gepard e o soviético 2S6 Tunguska continuam sendo empregados. A Suécia mantém o conceito de canhão automático de 40 mm em veículos blindados modernos. No Vietnã, antigos sistemas de 37 mm vêm recebendo novos sensores e recursos de automação.

O fenômeno tem uma consequência importante para o Brasil. O País não precisa simplesmente decidir entre conservar armas antigas ou comprar sistemas novos. Pode aproveitar plataformas existentes enquanto desenvolve uma capacidade de nova geração.

O Bofors brasileiro e a lição de 2023 
Em março de 2023, o Estado-Maior do Exército determinou, pela Portaria EME/C Ex nº 994, a desativação do Sistema de Defesa Antiaérea Bofors-FILA 40 mm. Os equipamentos haviam chegado ao fim de seu ciclo de vida operacional, com problemas de manutenção, integração e emprego.

A decisão de retirar de serviço uma plataforma obsoleta era compreensível. A questão que a guerra dos drones trouxe posteriormente é outra: a obsolescência daquela configuração não significava que o conceito do canhão antiaéreo de médio calibre tivesse perdido sua utilidade.

O mesmo Bofors L70, que havia sido retirado de serviço por países europeus, voltou ao campo de batalha ucraniano. A Lituânia transferiu 36 unidades do sistema para a Ucrânia em 2023, e os L70 passaram a integrar a defesa contra ameaças aéreas de baixa altitude.

O ensinamento não é que o Brasil deveria ter mantido indefinidamente seus Bofors. É que não se deve confundir a obsolescência de uma plataforma específica com a obsolescência da missão que ela desempenhava. 


O velho Tunguska também voltou à caça 
O exemplo mais recente e talvez mais surpreendente vem da própria Ucrânia.

Em 3 de setembro de 2026, o Defense Express informou que as Forças Armadas ucranianas divulgaram imagens de um sistema 2S6 Tunguska em operação. O vídeo foi publicado pelo 1020º Regimento de Mísseis Antiaéreos e mostra o sistema empregando seus canhões de 30 mm contra um alvo aéreo movido a jato, identificado pela publicação como provavelmente um drone Geran-4.

O episódio é particularmente significativo porque o Tunguska é um produto típico da Guerra Fria. O sistema soviético foi concebido para acompanhar forças blindadas e mecanizadas e protegê-las contra aeronaves e helicópteros voando em baixa e muito baixa altitude. Combina dois canhões duplos de 30 mm com mísseis antiaéreos 9M311, radar e sistema de controle de tiro.

Segundo o Defense Express, os Tunguska ucranianos já haviam sido registrados contra drones em 2024 e também aparecem em imagens de 2026. Embora alguns exemplares estejam equipados com poucos mísseis 9M311, os canhões permanecem uma opção de interceptação relativamente econômica, com alcance de até cerca de 4 km.

A limitação dos estoques de mísseis é reveladora. Como os 9M311 são de origem russa, sua reposição é problemática. Os canhões, porém, continuam oferecendo uma capacidade própria.

O caso mostra que mesmo um sistema híbrido concebido décadas atrás pode continuar relevante quando a ameaça predominante se desloca para o seu envelope natural de emprego.

Há ainda uma ironia: o Tunguska se aproxima conceitualmente do Gepard. Ambos são sistemas autopropulsados de defesa antiaérea de baixa altura, dotados de radar, controle de tiro e canhões automáticos. A diferença é que o Tunguska acrescenta mísseis ao conjunto. 


Gepard: a experiência ucraniana é a mais importante 

Entre os sistemas de sua geração, o Gepard talvez seja o exemplo mais eloquente da reinvenção do canhão antiaéreo.

A Ucrânia emprega o Gepard contra drones russos desde os primeiros estágios da guerra em grande escala. O sistema foi concebido durante a Guerra Fria, mas seus dois canhões de 35 mm, sua elevada cadência de tiro e seus sensores continuam oferecendo uma combinação particularmente adequada à defesa contra alvos de baixa altitude.

A Rheinmetall continua fornecendo munição de 35 mm para os Gepard ucranianos. Em janeiro de 2025, a empresa anunciou um contrato para 180 mil tiros, depois de uma encomenda de 300 mil tiros feita em 2023.

O dado mais importante, contudo, não é apenas a quantidade de munição. É a demonstração operacional de que o conceito continua válido.

O Gepard consegue enfrentar drones porque foi concebido para adquirir, acompanhar e engajar alvos aéreos de forma rápida. Sua evolução para a guerra atual depende principalmente de sensores, integração e munição, e não da substituição de seu princípio básico de funcionamento. 


O próprio Exército Brasileiro identificou a lacuna 
A situação brasileira ganhou um elemento novo com a análise publicada pelo próprio Exército sobre a Operação Punhos de Aço 2025.

O estudo relata dificuldades do radar do Gepard para adquirir um aeromodelo de baixíssima seção reta radar. Diante da limitação, os operadores recorreram ao método manual, utilizando o periscópio para observar o alvo e corrigindo a trajetória do tiro pela observação dos disparos.

O valor dessa constatação está justamente em sua origem. Não se trata de uma avaliação de um observador externo ou de uma hipótese formulada pelo LRCA Defense Consulting. É uma dificuldade identificada durante o treinamento operacional da própria Força.

O País possui 37 Gepard 1A2, com dois canhões de 35 mm por viatura. A plataforma continua interessante. O desafio está em fazê-la detectar e acompanhar os alvos que mais caracterizam a ameaça contemporânea: pequenos, lentos, de baixa assinatura e potencialmente numerosos.

A resposta não precisa começar pela compra de uma nova viatura. Pode começar pela modernização da cadeia de detecção e engajamento.

A Suécia mantém o canhão de 40 mm no campo 
No exercício Baltic Zenith 2026, realizado na Letônia entre 1º e 10 de junho, tropas da Suécia, da Letônia, da Lituânia e do Canadá participaram de treinamento de defesa aérea de curto alcance com fogo real. A participação sueca incluiu o Lvkv 9040, variante antiaérea da família CV90, equipada com canhão automático de 40 mm.

O exercício não deve ser apresentado como uma validação formal de uma doutrina da OTAN. Ele demonstra, porém, algo mais simples e importante: em uma força militar moderna, integrada à estrutura de defesa aérea aliada, o canhão automático de médio calibre continua sendo considerado uma capacidade útil contra ameaças aéreas de baixa altura.

A Suécia não está ressuscitando um sistema obsoleto. Está mantendo o conceito em uma plataforma blindada moderna, com sensores e arquitetura de combate compatíveis com o campo de batalha atual.

É uma diferença fundamental em relação ao Bofors brasileiro de 2023. O problema não era o princípio do canhão. Era a combinação de plataforma, sensores, comando e controle e ciclo de vida. 


O Vietnã mostra que até sistemas muito antigos podem ser modernizados 
O Vietnã oferece uma outra perspectiva. A Fábrica A34 vem trabalhando na modernização dos sistemas antiaéreos 37 mm-2N, de origem soviética.

Publicações especializadas vietnamitas descrevem a incorporação de recursos eletro-ópticos, incluindo câmera noturna e telêmetro laser, ampliando a capacidade de operação em condições de baixa luminosidade e reduzindo a dependência dos métodos tradicionais de acompanhamento.

Vídeos divulgados pela mídia de defesa vietnamita apresentam iniciativas ainda mais ambiciosas, associadas à automação e ao emprego de inteligência artificial para identificação, acompanhamento e predição de alvos. Como nem todos esses detalhes podem ser confirmados independentemente, eles devem ser tratados como capacidades apresentadas pelo próprio programa vietnamita.

O aspecto relevante, porém, permanece confirmado: o Vietnã está investindo em sensores, automação e controle de tiro para prolongar a utilidade de uma arma concebida muitas décadas atrás.

É exatamente a lógica que aparece, em diferentes níveis tecnológicos, na Ucrânia, na Suécia e no Brasil. 



Não é o calibre. É o sistema 

Os exemplos parecem diferentes, mas obedecem a uma mesma lógica.

O Bofors L70 ucraniano, o Tunguska soviético, o Gepard alemão, o Lvkv 9040 sueco e o 37 mm vietnamita pertencem a gerações distintas. Alguns foram projetados na década de 1940, outros durante a Guerra Fria e outros já incorporam tecnologias contemporâneas.

O ponto comum é o emprego de um canhão automático contra ameaças aéreas que voam baixo e podem ser numerosas.

A diferença entre uma solução limitada e uma solução realmente eficaz está na cadeia completa: detectar, classificar, acompanhar, calcular, engajar e avaliar o resultado.

É por isso que a munição programável ganhou importância. Em vez de depender exclusivamente de um impacto direto, ela pode produzir uma nuvem de fragmentos no ponto calculado da trajetória do alvo. O princípio é empregado por sistemas modernos como o Skynex, da Rheinmetall, com munição AHEAD de 35 mm.

Para o Gepard brasileiro, isso significa que uma eventual modernização deve ser pensada como um sistema, e não apenas como uma atualização de um canhão.

Gepard agora, VBC AAe depois 
A experiência internacional não elimina a necessidade de uma nova geração de defesa antiaérea brasileira. Pelo contrário, ajuda a definir como chegar até ela.

No curto prazo, uma modernização do Gepard poderia recuperar rapidamente uma capacidade de defesa antiaérea de baixa altura já existente no inventário. A prioridade deveria ser a integração a sensores externos, o aperfeiçoamento da detecção e do acompanhamento de alvos de baixa assinatura, a avaliação de munição programável e a integração em rede com a arquitetura de defesa aérea.

No médio e longo prazo, uma VBC AAe nacional sobre o chassi do Guarani, equipada com torre moderna, radar adequado, sensores eletro-ópticos, integração em rede e munição programável, poderia representar a solução estrutural.

As duas iniciativas não competem necessariamente entre si. O Gepard modernizado pode ser a ponte entre a capacidade atual e a futura. A VBC AAe nacional seria a solução de nova geração.

A guerra dos drones está dando uma segunda vida aos canhões 
A principal lição da Ucrânia e dos demais exemplos não é que o mundo esteja simplesmente ressuscitando armas antigas.

O que está acontecendo é mais interessante. A guerra dos drones está fazendo com que forças militares reavaliem sistemas que haviam sido considerados superados porque a ameaça para a qual eles eram adequados desaparecera ou perdera prioridade.

O retorno do Bofors L70, a permanência do Tunguska, o desempenho do Gepard, o emprego sueco do canhão de 40 mm e a modernização vietnamita dos 37 mm apontam na mesma direção.

A idade do tubo não é o fator decisivo. O que importa é a capacidade de enxergar o alvo, acompanhar sua trajetória e colocar sobre ele, rapidamente e a custo compatível, uma quantidade suficiente de energia destrutiva.

Para o Brasil, a conclusão é particularmente relevante. O País já possui uma plataforma que reúne características adequadas à missão. Possui também empresas e instituições capazes de trabalhar com radares, sensores, comunicações, sistemas de comando e controle e integração tecnológica.

O próprio Exército já identificou a limitação que precisa ser superada. O Brasil, portanto, não precisa descobrir se o canhão de médio calibre ainda tem lugar na guerra dos drones. A Ucrânia já respondeu a essa pergunta.

A questão brasileira é outra: se o País possui 37 Gepard, canhões de 35 mm, pessoal treinado e uma base tecnológica capaz de modernizar sensores e sistemas de controle, quanto tempo ainda será necessário para transformar essa capacidade existente em uma verdadeira solução de defesa antidrone de baixa altura?

O velho gato ainda caça.  Mas, diante dos drones modernos, ele precisa de olhos novos.

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