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11 setembro, 2026

Gepard, Tunguska e Bofors: para enfrentar drones, os velhos canhões voltam à guerra

Da Ucrânia ao Vietnã, sistemas de várias gerações voltam a enfrentar drones de baixa altura. Para o Brasil, a experiência reforça a necessidade de modernizar o Gepard enquanto se constrói uma solução nacional de nova geração.



*LRCA Defense Consulting - 11/09/2026

O canhão antiaéreo voltou à guerra 

A guerra dos drones está produzindo uma transformação que parecia improvável há poucos anos: o retorno dos canhões automáticos de médio calibre ao centro da defesa antiaérea de baixa altura.

A razão é econômica e operacional. Drones pequenos, lentos, de baixa assinatura e empregados em grande quantidade impõem um desafio que nem sempre pode ser resolvido de maneira racional por mísseis de alto custo. A resposta vem sendo construída com uma combinação de sensores, radares, sistemas eletro-ópticos, controle de tiro, redes de comando e munições mais eficientes.

Mas existe outra característica dessa transformação: armas consideradas ultrapassadas estão recebendo uma segunda vida.

Na Ucrânia, Bofors L70, Gepard e o soviético 2S6 Tunguska continuam sendo empregados. A Suécia mantém o conceito de canhão automático de 40 mm em veículos blindados modernos. No Vietnã, antigos sistemas de 37 mm vêm recebendo novos sensores e recursos de automação.

O fenômeno tem uma consequência importante para o Brasil. O País não precisa simplesmente decidir entre conservar armas antigas ou comprar sistemas novos. Pode aproveitar plataformas existentes enquanto desenvolve uma capacidade de nova geração.

O Bofors brasileiro e a lição de 2023 
Em março de 2023, o Estado-Maior do Exército determinou, pela Portaria EME/C Ex nº 994, a desativação do Sistema de Defesa Antiaérea Bofors-FILA 40 mm. Os equipamentos haviam chegado ao fim de seu ciclo de vida operacional, com problemas de manutenção, integração e emprego.

A decisão de retirar de serviço uma plataforma obsoleta era compreensível. A questão que a guerra dos drones trouxe posteriormente é outra: a obsolescência daquela configuração não significava que o conceito do canhão antiaéreo de médio calibre tivesse perdido sua utilidade.

O mesmo Bofors L70, que havia sido retirado de serviço por países europeus, voltou ao campo de batalha ucraniano. A Lituânia transferiu 36 unidades do sistema para a Ucrânia em 2023, e os L70 passaram a integrar a defesa contra ameaças aéreas de baixa altitude.

O ensinamento não é que o Brasil deveria ter mantido indefinidamente seus Bofors. É que não se deve confundir a obsolescência de uma plataforma específica com a obsolescência da missão que ela desempenhava. 


O velho Tunguska também voltou à caça 
O exemplo mais recente e talvez mais surpreendente vem da própria Ucrânia.

Em 3 de setembro de 2026, o Defense Express informou que as Forças Armadas ucranianas divulgaram imagens de um sistema 2S6 Tunguska em operação. O vídeo foi publicado pelo 1020º Regimento de Mísseis Antiaéreos e mostra o sistema empregando seus canhões de 30 mm contra um alvo aéreo movido a jato, identificado pela publicação como provavelmente um drone Geran-4.

O episódio é particularmente significativo porque o Tunguska é um produto típico da Guerra Fria. O sistema soviético foi concebido para acompanhar forças blindadas e mecanizadas e protegê-las contra aeronaves e helicópteros voando em baixa e muito baixa altitude. Combina dois canhões duplos de 30 mm com mísseis antiaéreos 9M311, radar e sistema de controle de tiro.

Segundo o Defense Express, os Tunguska ucranianos já haviam sido registrados contra drones em 2024 e também aparecem em imagens de 2026. Embora alguns exemplares estejam equipados com poucos mísseis 9M311, os canhões permanecem uma opção de interceptação relativamente econômica, com alcance de até cerca de 4 km.

A limitação dos estoques de mísseis é reveladora. Como os 9M311 são de origem russa, sua reposição é problemática. Os canhões, porém, continuam oferecendo uma capacidade própria.

O caso mostra que mesmo um sistema híbrido concebido décadas atrás pode continuar relevante quando a ameaça predominante se desloca para o seu envelope natural de emprego.

Há ainda uma ironia: o Tunguska se aproxima conceitualmente do Gepard. Ambos são sistemas autopropulsados de defesa antiaérea de baixa altura, dotados de radar, controle de tiro e canhões automáticos. A diferença é que o Tunguska acrescenta mísseis ao conjunto. 


Gepard: a experiência ucraniana é a mais importante 

Entre os sistemas de sua geração, o Gepard talvez seja o exemplo mais eloquente da reinvenção do canhão antiaéreo.

A Ucrânia emprega o Gepard contra drones russos desde os primeiros estágios da guerra em grande escala. O sistema foi concebido durante a Guerra Fria, mas seus dois canhões de 35 mm, sua elevada cadência de tiro e seus sensores continuam oferecendo uma combinação particularmente adequada à defesa contra alvos de baixa altitude.

A Rheinmetall continua fornecendo munição de 35 mm para os Gepard ucranianos. Em janeiro de 2025, a empresa anunciou um contrato para 180 mil tiros, depois de uma encomenda de 300 mil tiros feita em 2023.

O dado mais importante, contudo, não é apenas a quantidade de munição. É a demonstração operacional de que o conceito continua válido.

O Gepard consegue enfrentar drones porque foi concebido para adquirir, acompanhar e engajar alvos aéreos de forma rápida. Sua evolução para a guerra atual depende principalmente de sensores, integração e munição, e não da substituição de seu princípio básico de funcionamento. 


O próprio Exército Brasileiro identificou a lacuna 
A situação brasileira ganhou um elemento novo com a análise publicada pelo próprio Exército sobre a Operação Punhos de Aço 2025.

O estudo relata dificuldades do radar do Gepard para adquirir um aeromodelo de baixíssima seção reta radar. Diante da limitação, os operadores recorreram ao método manual, utilizando o periscópio para observar o alvo e corrigindo a trajetória do tiro pela observação dos disparos.

O valor dessa constatação está justamente em sua origem. Não se trata de uma avaliação de um observador externo ou de uma hipótese formulada pelo LRCA Defense Consulting. É uma dificuldade identificada durante o treinamento operacional da própria Força.

O País possui 37 Gepard 1A2, com dois canhões de 35 mm por viatura. A plataforma continua interessante. O desafio está em fazê-la detectar e acompanhar os alvos que mais caracterizam a ameaça contemporânea: pequenos, lentos, de baixa assinatura e potencialmente numerosos.

A resposta não precisa começar pela compra de uma nova viatura. Pode começar pela modernização da cadeia de detecção e engajamento.

A Suécia mantém o canhão de 40 mm no campo 
No exercício Baltic Zenith 2026, realizado na Letônia entre 1º e 10 de junho, tropas da Suécia, da Letônia, da Lituânia e do Canadá participaram de treinamento de defesa aérea de curto alcance com fogo real. A participação sueca incluiu o Lvkv 9040, variante antiaérea da família CV90, equipada com canhão automático de 40 mm.

O exercício não deve ser apresentado como uma validação formal de uma doutrina da OTAN. Ele demonstra, porém, algo mais simples e importante: em uma força militar moderna, integrada à estrutura de defesa aérea aliada, o canhão automático de médio calibre continua sendo considerado uma capacidade útil contra ameaças aéreas de baixa altura.

A Suécia não está ressuscitando um sistema obsoleto. Está mantendo o conceito em uma plataforma blindada moderna, com sensores e arquitetura de combate compatíveis com o campo de batalha atual.

É uma diferença fundamental em relação ao Bofors brasileiro de 2023. O problema não era o princípio do canhão. Era a combinação de plataforma, sensores, comando e controle e ciclo de vida. 


O Vietnã mostra que até sistemas muito antigos podem ser modernizados 
O Vietnã oferece uma outra perspectiva. A Fábrica A34 vem trabalhando na modernização dos sistemas antiaéreos 37 mm-2N, de origem soviética.

Publicações especializadas vietnamitas descrevem a incorporação de recursos eletro-ópticos, incluindo câmera noturna e telêmetro laser, ampliando a capacidade de operação em condições de baixa luminosidade e reduzindo a dependência dos métodos tradicionais de acompanhamento.

Vídeos divulgados pela mídia de defesa vietnamita apresentam iniciativas ainda mais ambiciosas, associadas à automação e ao emprego de inteligência artificial para identificação, acompanhamento e predição de alvos. Como nem todos esses detalhes podem ser confirmados independentemente, eles devem ser tratados como capacidades apresentadas pelo próprio programa vietnamita.

O aspecto relevante, porém, permanece confirmado: o Vietnã está investindo em sensores, automação e controle de tiro para prolongar a utilidade de uma arma concebida muitas décadas atrás.

É exatamente a lógica que aparece, em diferentes níveis tecnológicos, na Ucrânia, na Suécia e no Brasil. 



Não é o calibre. É o sistema 

Os exemplos parecem diferentes, mas obedecem a uma mesma lógica.

O Bofors L70 ucraniano, o Tunguska soviético, o Gepard alemão, o Lvkv 9040 sueco e o 37 mm vietnamita pertencem a gerações distintas. Alguns foram projetados na década de 1940, outros durante a Guerra Fria e outros já incorporam tecnologias contemporâneas.

O ponto comum é o emprego de um canhão automático contra ameaças aéreas que voam baixo e podem ser numerosas.

A diferença entre uma solução limitada e uma solução realmente eficaz está na cadeia completa: detectar, classificar, acompanhar, calcular, engajar e avaliar o resultado.

É por isso que a munição programável ganhou importância. Em vez de depender exclusivamente de um impacto direto, ela pode produzir uma nuvem de fragmentos no ponto calculado da trajetória do alvo. O princípio é empregado por sistemas modernos como o Skynex, da Rheinmetall, com munição AHEAD de 35 mm.

Para o Gepard brasileiro, isso significa que uma eventual modernização deve ser pensada como um sistema, e não apenas como uma atualização de um canhão.

Gepard agora, VBC AAe depois 
A experiência internacional não elimina a necessidade de uma nova geração de defesa antiaérea brasileira. Pelo contrário, ajuda a definir como chegar até ela.

No curto prazo, uma modernização do Gepard poderia recuperar rapidamente uma capacidade de defesa antiaérea de baixa altura já existente no inventário. A prioridade deveria ser a integração a sensores externos, o aperfeiçoamento da detecção e do acompanhamento de alvos de baixa assinatura, a avaliação de munição programável e a integração em rede com a arquitetura de defesa aérea.

No médio e longo prazo, uma VBC AAe nacional sobre o chassi do Guarani, equipada com torre moderna, radar adequado, sensores eletro-ópticos, integração em rede e munição programável, poderia representar a solução estrutural.

As duas iniciativas não competem necessariamente entre si. O Gepard modernizado pode ser a ponte entre a capacidade atual e a futura. A VBC AAe nacional seria a solução de nova geração.

A guerra dos drones está dando uma segunda vida aos canhões 
A principal lição da Ucrânia e dos demais exemplos não é que o mundo esteja simplesmente ressuscitando armas antigas.

O que está acontecendo é mais interessante. A guerra dos drones está fazendo com que forças militares reavaliem sistemas que haviam sido considerados superados porque a ameaça para a qual eles eram adequados desaparecera ou perdera prioridade.

O retorno do Bofors L70, a permanência do Tunguska, o desempenho do Gepard, o emprego sueco do canhão de 40 mm e a modernização vietnamita dos 37 mm apontam na mesma direção.

A idade do tubo não é o fator decisivo. O que importa é a capacidade de enxergar o alvo, acompanhar sua trajetória e colocar sobre ele, rapidamente e a custo compatível, uma quantidade suficiente de energia destrutiva.

Para o Brasil, a conclusão é particularmente relevante. O País já possui uma plataforma que reúne características adequadas à missão. Possui também empresas e instituições capazes de trabalhar com radares, sensores, comunicações, sistemas de comando e controle e integração tecnológica.

O próprio Exército já identificou a limitação que precisa ser superada. O Brasil, portanto, não precisa descobrir se o canhão de médio calibre ainda tem lugar na guerra dos drones. A Ucrânia já respondeu a essa pergunta.

A questão brasileira é outra: se o País possui 37 Gepard, canhões de 35 mm, pessoal treinado e uma base tecnológica capaz de modernizar sensores e sistemas de controle, quanto tempo ainda será necessário para transformar essa capacidade existente em uma verdadeira solução de defesa antidrone de baixa altura?

O velho gato ainda caça.  Mas, diante dos drones modernos, ele precisa de olhos novos.

18 julho, 2026

Drones viram táxis de mísseis: a nova camada que estende o alcance da artilharia antiaérea

Alemanha e Rússia já demonstram, por caminhos opostos, que um drone pode multiplicar o alcance de um míssil de defesa aérea; no Brasil, a mesma empresa por trás do conceito alemão, a Diehl Defence, acaba de reforçar sua parceria industrial com a AEL Sistemas em meio à disputa ainda indefinida pelo futuro sistema antiaéreo de média altura do Exército


*LRCA Defense Consulting - 18/07/2026

A Diehl Defence, principal fabricante alemã de mísseis, e a Polaris Raumflugzeuge, startup aeroespacial também alemã, apresentaram na ILA Berlin 2026, em 10 de junho, um conceito que pode mudar a forma como sistemas de defesa antiaérea de curto e médio alcance são empregados. O Cobra 600, também chamado de Airborne Launching and Attack System (AirLAS), é um drone a jato capaz de carregar um único míssil IRIS-T e levá-lo a centenas de quilômetros de distância da bateria terrestre antes do lançamento, funcionando como um táxi de mísseis avançado.

Como funciona o táxi de mísseis
O Cobra 600 não carrega sensores próprios de busca de alvo. Em operação, o drone permanece conectado por link de dados a um sistema de defesa antiaérea terrestre, que detecta o alvo e o designa remotamente. O drone é então guiado até uma posição de disparo vantajosa, e o próprio buscador infravermelho de imagem (IIR) do míssil IRIS-T assume a aquisição final e o engajamento, após comando de disparo emitido por um operador em terra.

A diferença de alcance é o núcleo do conceito. Segundo a Diehl, o Cobra 600 com o míssil instalado tem alcance de cerca de 400 quilômetros, ante aproximadamente 40 quilômetros do IRIS-T SLM lançado do solo e cerca de 12 a 13 quilômetros do IRIS-T SLS, a versão de alcance ainda mais curto. Na prática, ao retirar o míssil do chão e levá-lo à frente por um vetor não tripulado, a Diehl transforma um sistema de defesa aérea de curto alcance em algo funcionalmente equivalente a um míssil de longo alcance, sem alterar o míssil em si.

O drone tem 6 metros de comprimento (origem do nome Cobra 600), configuração de asa delta com estabilizadores verticais nas pontas das asas e trem de pouso triciclo retrátil, o que permite decolagem e pouso em pistas convencionais ou trechos de rodovia preparados. O exemplar mostrado em Berlim usava dois motores turbojato JetCat P1000-PRO, com capacidade estrutural para receber mais dois, em configuração de quatro motores já antecipada em imagens conceituais divulgadas pela Polaris. O sistema é reutilizável: se o míssil não for disparado ou a missão for interrompida, o drone retorna à base.

O programa foi lançado em 2025, a partir de acordo de cooperação firmado no Paris Air Show daquele ano entre Helmut Rauch, presidente-executivo da Diehl Defence, e Alexander Kopp, presidente-executivo da Polaris Raumflugzeuge. O desenvolvimento é financiado majoritariamente pela própria Diehl, mas a empresa já teria recebido aporte de ao menos uma nação interessada, não identificada publicamente. O primeiro voo de teste, com um míssil fictício instalado, já foi concluído.

Um conceito que já tem precedente, ainda que rudimentar
A ideia de armar um drone com um míssil de defesa aérea não nasce isolada. Desde os primeiros anos da guerra na Ucrânia, a Rússia vem equipando variantes de seus drones Shahed/Geran, de fabricação iraniana licenciada, com mísseis ar-ar R-60, mais antigos e de capacidade inferior ao IRIS-T, ou mesmo mísseis portáteis de defesa antiaérea (MANPADS). O objetivo russo é semelhante em espírito, ou seja, ampliar a capacidade de interceptação de um vetor não tripulado, mas o resultado é tecnicamente mais limitado: o R-60 é uma arma de geração anterior, a integração é improvisada e a manobrabilidade das plataformas russas é inferior à do Cobra 600, que é maior, a jato e projetado desde a concepção para essa função.

Ainda assim, o paralelo russo importa para o argumento central da matéria: dois países em situações estratégicas muito diferentes, a Alemanha reforçando a defesa aérea da Otan e a Rússia sustentando uma guerra de atrito, chegaram, por caminhos distintos, à mesma conclusão. Um drone barato pode funcionar como extensão de alcance de um sistema de defesa antiaérea que, de outra forma, ficaria limitado ao seu envelope de disparo original.

Drone russo Geran-2 armado com um míssil ar-ar R-60 guiado por infravermelho

O que muda na equação da defesa antiaérea
O conceito ataca uma vulnerabilidade estrutural de qualquer bateria de defesa antiaérea terrestre: o lançador, estacionado e com coordenadas conhecidas, é um alvo de alto valor e baixa mobilidade relativa. Ao lançar o interceptador a partir de uma posição avançada e móvel, em vez de depender exclusivamente do lançador fixo, o operador ganha a possibilidade de engajar ameaças antes que elas cheguem ao alcance de radares terrestres, driblando limitações impostas por terreno e horizonte de radar, além de reduzir o número de radares e lançadores de alto valor que precisam ficar expostos perto da linha de frente.

A Diehl afirma que a arquitetura AirLAS tem potencial de integração com o Future Combat Air System (FCAS), o futuro sistema de combate aéreo europeu, e de adaptação para uso naval, o que sugere ambição além do nicho terrestre inicial. Ainda não há detalhes públicos sobre custo unitário do Cobra 600, cronograma de produção em série ou o nome da nação que já teria investido no programa.

E o Brasil?
O Brasil ainda não tem, em nenhuma fase de desenvolvimento conhecida, um conceito equivalente ao Cobra 600, mas o momento é particularmente sensível para o tema, porque a própria empresa por trás do drone alemão, a Diehl Defence, está no centro da disputa em curso pelo futuro sistema antiaéreo de média e alta altura do Exército Brasileiro, hoje limitado a meios de baixa altitude como o RBS-70 NG e o blindado Gepard. Reportagens do setor mostraram que, entre os candidatos avaliados, estão o IRIS-T SLM/SLS, da Diehl, o Aster (SAMP/T), da Eurosam, e o EMADS, da MBDA; uma portaria assinada pelo chefe do Estado-Maior do Exército, revelada em janeiro, já indicaria o EMADS, associado a um acordo de cooperação governamental com a Itália, como opção definida, mas sem data nem valor de contrato divulgados até o momento, o que significa que a disputa segue, na prática, em aberto.

Nesse cenário, a Diehl Defence e a AEL Sistemas assinaram, em 3 de julho de 2026, em Brasília, um memorando de entendimento para reforçar a cooperação nos programas brasileiros de defesa aérea terrestre de médio e longo alcance. No arranjo, a Diehl segue como contratante principal dos sistemas IRIS-T SLM e, no futuro, do IRIS-T SLX, enquanto a AEL Sistemas, subsidiária da israelense Elbit Systems com participação minoritária da Embraer, atua como parceira nacional responsável pela integração de componentes brasileiros, entre eles o enlace de dados tático Link BR2, além do suporte logístico no país. Segundo o executivo-chefe da Diehl, Helmut Rauch, a cooperação de longa data entre as duas empresas, já presente na integração do IRIS-T aos caças F-5M e F-39 Gripen da Força Aérea Brasileira, estabelece a base industrial para o IRIS-T SLX, que o executivo descreveu como fundamento de uma solução antiaérea soberana para o país.

O IRIS-T SLX, apresentado pela Diehl na feira Enforce Tac 2026, amplia o alcance de engajamento para perto de cem quilômetros, num mesmo lançador de oito células que também aceita munições SLM, sem exigir mudança de radar ou de arquitetura de controle, aproximando-se do patamar de sistemas como o Patriot americano, embora sem substituí-lo. Não há, até o momento, confirmação de que o memorando com a AEL Sistemas altere a definição já reportada para o programa de média altura do Exército; a leitura mais provável é que o acordo mire, antes, a consolidação da presença do IRIS-T já estabelecida na Força Aérea Brasileira como plataforma para uma futura camada terrestre baseada no SLX.

O episódio é relevante para esta matéria por um motivo direto: a mesma empresa que desenvolve o Cobra 600, e o mesmo míssil IRIS-T que o Cobra 600 carrega, já têm parceiro industrial estabelecido e reconhecido pelo Exército e pela Força Aérea Brasileiros. Isso não significa que o conceito de extensão de alcance por drone esteja sendo oferecido ao Brasil, não há indício disso nas fontes consultadas, mas reduz a distância entre a tecnologia demonstrada em Berlim e um eventual interesse brasileiro, caso o programa avance e a Diehl decida ampliar seu portfólio ofertado ao país.

É nesse ponto que vale olhar para as peças que o Brasil já tem no tabuleiro, ainda que nenhuma delas esteja hoje reunida num programa formal equivalente ao Cobra 600. No campo da plataforma aérea, a Stella Tecnologia é a candidata natural: a empresa, que já desenvolveu o Atobá, maior VANT de longa autonomia produzido no país, testou em voo, em dezembro de 2025, o Albatroz Vortex equipado com a turbina ATJR 15-5, da AERO Concepts, tornando o Brasil um dos poucos países capazes de projetar, fabricar e voar uma turbina a jato nacional integrada a um drone militar. Há ainda a Nest Design Aerospace, que apresentou o ATD-150, drone a jato voltado a simulação de alvos aéreos e de mísseis de cruzeiro, com motor da Turbomachine, outra fabricante nacional de turbinas.

Drones Nauru 1000C, da XMobots, armado com mísseis Enforcer Air produzidos pela MBDA

No campo da integração de armamento a um drone, a XMobots já tem experiência prática: o Nauru 1000C, primeiro drone armado brasileiro, recebeu o míssil leve guiado Enforcer, da MBDA, num arranjo tecnicamente distinto do Cobra 600, mas que demonstra domínio do processo de qualificar uma aeronave não tripulada para carregar e lançar um míssil guiado. Já a AEL Sistemas, subsidiária da Elbit Systems com participação minoritária da Embraer, é hoje parceira formal da própria Diehl Defence na integração do IRIS-T no Brasil, o que a credenciaria, em tese, a atuar como integradora nacional caso a Diehl decidisse um dia oferecer o conceito Cobra 600 ao País. 
 
Nenhuma dessas empresas anunciou, até o momento, um programa de extensão de alcance por drone nos moldes do AirLAS; o que existe, por ora, são competências isoladas, propulsão a jato nacional, integração de mísseis em drones e relacionamento industrial direto com a Diehl, que, somadas, aproximam o Brasil desse tipo de projeto mais do que a ausência de um programa formal sugere à primeira vista.

05 julho, 2026

Depois do EMADS, o que protegerá as baterias antiaéreas? A camada antidrone que o Brasil ainda não tem

Com a aquisição do sistema antiaéreo de média altura em andamento, o Exército Brasileiro precisa urgentemente de uma resposta cinética de curto alcance para proteger seus próprios lançadores, os ASTROS e instalações críticas. O Gepard modernizado pode ser a solução paliativa, e uma torre Skyranger 30 sobre o Guarani pode ser a definitiva.

 

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LRCA Defense Consulting - 05/07/2026

A decisão do Exército Brasileiro de adquirir o sistema antiaéreo de média altura EMADS, da MBDA/Leonardo, marca a entrada do país em uma capacidade de defesa aérea que simplesmente não existia antes. As futuras baterias do 12º Grupo de Artilharia Antiaérea, em Jundiaí, representarão um salto qualitativo sem precedentes na proteção do espaço aéreo brasileiro de baixa e média altitude.

Mas um sistema de médio alcance como o EMADS, por mais eficaz que seja contra aeronaves e mísseis de cruzeiro, carrega uma vulnerabilidade intrínseca: seus próprios lançadores, estacionados para o tiro, são alvos estáticos de alto valor. E um drone de ataque barato, voando rente ao solo, pode alcançá-los antes que qualquer míssil interceptador tenha tempo de reagir.

Com a experiência das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, a lição já foi aprendida pela Europa. A Bélgica formalizou em julho de 2026 a compra de 20 sistemas Skyranger 30, da Rheinmetall, como complemento direto aos 10 lançadores NASAMS adquiridos em conjunto com os Países Baixos, num pacote de 3,1 bilhões de euros. O conceito é preciso: o Skyranger protege as baterias NASAMS de drones de baixa altitude, e o NASAMS protege o espaço aéreo de médio alcance. Dois sistemas, duas camadas, um único ativo defensivo coerente.

O Brasil está prestes a ter a camada de médio alcance. Ainda não tem a camada de curto alcance para protegê-la.

O que o Brasil já tem: 37 canhões esperando um sensor
O Exército Brasileiro não está de mãos vazias. Desde 2013, opera 37 Viaturas Blindadas de Combate Antiaérea (VBC AAe) Gepard 1A2, adquiridas junto ao Exército Alemão por US$ 41 milhões, com cerca de 540.000 projéteis de 35 mm em estoque. As viaturas estão distribuídas entre a 5ª Brigada de Cavalaria Blindada, no Paraná, a 6ª Brigada de Infantaria Blindada, no Rio Grande do Sul, e a Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea, no Rio de Janeiro.

O Gepard tem dois canhões Oerlikon de 35 mm com cadência elevada e alcance de 5,5 km. Na Ucrânia, um único sistema desse tipo foi creditado com a destruição de mais de dez drones Shahed-136 e dois mísseis de cruzeiro. É o mesmo calibre que a Rheinmetall usa em seu sistema SKYNEX, hoje considerado o melhor produto cinético antidrone do mundo, embora haja relatos citando problemas com sua complexidade.

O problema brasileiro é o sensor, não o canhão. O Gepard 1A2 carrega dois radares orgânicos: um de busca em banda Echo e um de tiro em banda Juliet, ambos projetados para detectar aeronaves tripuladas com grande seção transversal de radar. Na Operação Punhos de Aço 2025, as guarnições da 6ª Brigada de Infantaria Blindada constataram que esses radares não conseguem adquirir drones de baixa seção radar. A solução foi recorrer ao método manual, usando o periscópio e corrigindo a trajetória dos projéteis em tempo real por observação direta, um processo eficaz, mas exigente e consumidor de munição.

O próprio blog do Exército foi honesto no diagnóstico: esse método manual será o prioritário para engajamento de drones, enquanto os radares orgânicos da viatura não forem adequados. Essa é precisamente a lacuna que uma modernização estrutural do Gepard poderia fechar.

Modernizar o Gepard: o que é necessário e o que já está em andamento
A modernização do Gepard para o papel antidrone não exige a substituição do canhão. Exige quatro intervenções, que podem ser implementadas de forma incremental:

A primeira, e mais urgente, é a integração via datalink a radares externos capazes de detectar alvos de baixa seção radar. O computador digital já embarcado no 1A2 tem capacidade latente de receber designação de estações externas, o que significa que, ao receber a coordenada do alvo de um radar moderno como o Embraer Saber M200, a viatura pode estar apontada e pronta antes que o alvo entre em seu campo de visão. Sete Gepard assim dispostos em rede com um centro de monitoramento podem cobrir uma área de 12 km². Esse conceito foi estudado na época da chegada das viaturas e permanece válido.

A segunda intervenção é a substituição ou complementação do radar orgânico de tiro por um sensor em banda X, com capacidade de rastrear alvos de baixa seção radar. A Rheinmetall, fabricante tanto do Gepard quanto do sistema SKYNEX, propôs à Ucrânia exatamente esse pacote: novo módulo de rastreamento com radar melhorado e sistema de direção de tiro otimizado para a ameaça drone. O mesmo pacote é potencialmente disponível para o Brasil.

A terceira, e talvez a mais transformadora, é a certificação para uso da munição AHEAD de 35 mm. Diferentemente do projétil convencional HEI-T, o AHEAD detona a uma distância calculada do alvo, lançando uma nuvem de subprojéteis tungstênio na trajetória do drone. Isso exige uma interface eletrônica entre o cano e o computador balístico para medir a velocidade do projétil na saída e programar o tempo de detonação em cada rodada individualmente. Os Gepard ucranianos, que usam munição convencional, necessitam de mais projéteis para abater cada alvo do que um SKYNEX com AHEAD. Para o Brasil, que tem estoque limitado, a eficiência por projétil é um fator relevante.

A quarta é a automação do ciclo de engajamento, o diferencial central do SKYNEX. O Gepard modernizado com sensor externo e AHEAD ainda depende de um atirador para fechar o ciclo. A automação completa exigiria a substituição do módulo de direção de tiro por um processador moderno capaz de calcular soluções de tiro autônomas, o que representa a intervenção mais cara e mais próxima de uma modernização de meia vida. A KNDS, detentora do programa Gepard, já propôs esse pacote integrado à Ucrânia. Para o Brasil, seria o caminho mais rápido para chegar a um Gepard funcionalmente equivalente ao SKYNEX.

Em paralelo, há um desenvolvimento nacional relevante já em curso. A ARES Aeroespacial e Defesa firmou contrato com o Exército Brasileiro para atualização tecnológica das torres UT-30BR já instaladas nos Guarani, incluindo o desenvolvimento de um kit antidrone. Esse contrato aponta na direção correta, mas parte de um calibre diferente (30 mm contra 35 mm) e de uma plataforma diferente do Gepard.

A hipótese Guarani com torre Skyranger 30: mais do que especulação
A proposta de instalar a torre Skyranger 30 sobre o Guarani 6x6 é tecnicamente fundamentada. A torre pesa entre 1,8 e 2,5 toneladas com munição, dependendo da configuração, e foi projetada especificamente para ser instalada em veículos rodados 6x6 de maior porte. A própria Rheinmetall desenvolveu, para a Áustria, uma versão com uma tonelada a menos que o modelo padrão para adequação ao chassi do Pandur EVO 6x6, demonstrando que a empresa tem experiência e disposição para adaptar a torre a plataformas mais leves.

O Guarani, com peso operacional em torno de 20 toneladas e projeto modular que já acomoda torres com canhão de 30 mm como a UT-30BR, tem o anel de torre e a estrutura superior dimensionados para sistemas nessa faixa de peso. A instalação da versão mais leve do Skyranger 30 é, portanto, uma hipótese tecnicamente plausível que mereceria estudo formal de viabilidade.

A vantagem estratégica de uma solução assim vai além da técnica. O Guarani é fabricado pela IDV em Sete Lagoas, Minas Gerais, com mais de 700 unidades entregues ao Exército e produção contínua prevista. Instalar uma torre Skyranger 30 sobre um chassi nacional significaria produção local do veículo, eventual transferência de tecnologia da torre e integração de conteúdo nacional em sensores e comunicações, alinhando-se diretamente à política de Nova Indústria Brasil e ao chamamento da Finep para desenvolvimento de sistemas não tripulados e defesa.

Há ainda um elemento de relacionamento industrial que torna essa hipótese menos especulativa do que parece. A Rheinmetall está no Brasil pela porta do programa de blindados sobre lagartas, com o Lynx equipado com torre Skyranger 35 como candidato ao programa da Nova Família de Blindados sobre lagartas. A empresa fez apresentações formais na Diretoria de Fabricação e na Chefia de Material do Exército. Mais relevante ainda: o sistema EMADS que o Brasil está adquirindo utiliza, no Exército Italiano, o radar X-TAR 3D da própria Rheinmetall. Isso significa que a empresa já é fornecedora indireta do programa de defesa antiaérea brasileiro, com relacionamento institucional estabelecido.

Pandur EVO Skyranger 30 das Forças Armadas Austríacas

A geometria do problema: o que precisa ser protegido
A questão da cobertura antidrone de curto alcance não se resume às futuras baterias EMADS. O Exército Brasileiro opera os ASTROS II MK6, lançadores de foguetes, de mísseis de cruzeito e, futuramente, do Missíl Tático Balístico (provavelmente na versão MK7). Um lançador ASTROS estacionado para tiro, coordenadas conhecidas, é um alvo de alto valor estratégico para qualquer adversário com capacidade de emprego de drones. A doutrina ucraniana demonstrou que sistemas de lançamento de foguetes são alvos prioritários para ataques por drones de baixo custo antes e imediatamente após o disparo.

O mesmo raciocínio se aplica a instalações críticas de infraestrutura nacional como hidrelétricas, refinarias, instalações portuárias, instalações de radar (vide Oriente Médio) e bases militares. Um sistema C-UAS de curto alcance, capaz de proteger uma área de 12 km², é exatamente o que a doutrina europeia emergente descreve como camada interna da defesa aérea em camadas: barata, móvel e pronta, para que os sistemas de prestígio como o EMADS e o NASAMS não precisem gastar mísseis de US$ 400.000 para abater drones muito mais baratos.

O cenário em perspectiva
O Exército Brasileiro tem em mãos uma janela de oportunidade que não estará aberta indefinidamente. O Gepard será o único meio cinético autopropulsado de curto alcance do inventário por muitos anos. Modernizá-lo com sensores adequados e munição AHEAD é a resposta imediata, possível de ser contratada rapidamente e com custo muito inferior à aquisição de um sistema novo. A Rheinmetall, com relacionamento estabelecido no Brasil e o pacote de modernização já desenvolvido para a Ucrânia, é o interlocutor natural.

No médio prazo, a decisão sobre uma VBC AAe nacional baseada no Guarani com torre Skyranger 30 é uma questão de doutrina, prioridade orçamentária e vontade política. Os elementos técnicos estão presentes: a plataforma é nacional, a torre existe, a compatibilidade de peso é plausível, e o fabricante já está no Brasil. O que falta é que o Exército formalize o estudo de viabilidade e inclua essa demanda no planejamento de longo prazo do Projeto Estratégico de Defesa Antiaérea.

O que não falta é urgência. A Bélgica decidiu comprar defesa antiaérea de curto alcance no mesmo ato em que comprou o NASAMS. O Brasil ainda não tomou essa decisão. E as baterias EMADS chegarão.

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