Acordo prevê acelerar a entrada em posição e digitalizar o apontamento do M2 Raiado, aumentando a precisão e reduzindo a exposição da guarnição no campo de batalha
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| Imagem meramente ilustrativa |
*LRCA Defense Consulting - 18/09/2026
O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e a Omnisys Engenharia Ltda
formalizaram, em 17 de setembro, um Acordo de Parceria para Pesquisa,
Desenvolvimento e Inovação destinado à automatização do Morteiro Pesado 120 mm
M2 Raiado.
A iniciativa pretende acelerar a transição do armamento entre as posições de transporte e de tiro, além de digitalizar seu apontamento. Os resultados esperados são maior rapidez na entrada em ação, redução de erros humanos e aumento da precisão na aplicação dos elementos de tiro.
Mais do que facilitar o trabalho da guarnição, a automatização procura encurtar o ciclo completo de emprego do morteiro: ocupar a posição, preparar a arma, receber os dados, apontar, disparar, corrigir e abandonar o local.
Essa rapidez tornou-se especialmente importante em um campo de batalha
marcado pela presença de drones, radares de contrabateria, sensores acústicos e
outros meios capazes de localizar a origem dos disparos e orientar uma resposta
adversária.
Um armamento concebido e produzido no País
O Morteiro Pesado 120 mm M2 Raiado foi desenvolvido no início dos anos 2000
pelo então Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento, posteriormente incorporado
ao CTEx, em 2005.
O armamento é fabricado pelo Arsenal de Guerra do Rio (AGR), organização militar responsável pela produção, manutenção e revitalização de diferentes sistemas empregados pelo Exército Brasileiro.
Com aproximadamente 717 quilos, o M2 Raiado é transportado sobre um reparo com rodas. Sua configuração permite o tiro em 360 graus, sem a necessidade de reposicionar completamente a base para engajar alvos em diferentes direções.
O sistema foi concebido para proporcionar apoio de fogo às unidades de Infantaria e Cavalaria, podendo ser transportado por terra ou por meios aéreos. Seu tubo raiado imprime rotação ao projétil, contribuindo para sua estabilidade durante o voo.
Em dezembro de 2022, o Comando de Operações Terrestres aprovou a primeira
edição do Manual Técnico Morteiro Pesado 120 mm M2 Raiado, EB70-MT-11.424. O
Exército também vem realizando a recuperação e a revitalização de unidades
existentes, demonstrando a intenção de preservar o sistema em serviço.
Da preparação manual à assistência automatizada
Na configuração convencional, a entrada em posição exige uma sequência de
operações realizadas pela guarnição. O conjunto precisa ser preparado e
estabilizado, a arma deve ser nivelada e orientada e os elementos de tiro
precisam ser aplicados aos mecanismos de direção e elevação.
A informação divulgada pelo CTEx não apresenta a arquitetura da solução que será desenvolvida. Entretanto, a referência à automatização da passagem entre transporte e tiro indica que o projeto poderá atuar também sobre os mecanismos do reparo, e não apenas sobre o aparelho de pontaria.
Atuadores elétricos, eletromecânicos ou eletro-hidráulicos poderão, em princípio, auxiliar na movimentação, estabilização e preparação do conjunto, reduzindo o esforço físico exigido da guarnição e o tempo necessário para colocar o morteiro em condições de disparar.
A solução efetivamente adotada, sua fonte de energia e seu grau de automação ainda dependerão do trabalho de desenvolvimento realizado pelo CTEx e pela Omnisys.
Apontamento digital reduz erros
No apontamento tradicional, a central de tiro calcula o azimute, a elevação e a
carga necessária para atingir o alvo. Esses elementos são transmitidos à
guarnição, que realiza manualmente os ajustes na arma, conferindo escalas,
níveis e referências.
Em um sistema digital, sensores podem determinar a orientação, a inclinação e a posição geográfica da peça. Um computador recebe os valores calculados pela central de tiro e informa ao operador, ou aplica por meio de atuadores, os movimentos necessários.
O sistema também pode confirmar quando o morteiro alcançou a orientação correta e facilitar o reapontamento para outro alvo ou a introdução de correções após os primeiros disparos.
Essa digitalização reduz erros associados à transmissão dos dados, à leitura das escalas, ao nivelamento e à aplicação do azimute e da elevação.
A automatização não elimina a dispersão própria da munição nem a influência
do vento, da temperatura, do desgaste do tubo e da qualidade das coordenadas do
alvo. O ganho está principalmente na precisão com que a solução de tiro
calculada é aplicada ao armamento.
Exército já testou sistema inercial de pontaria
A modernização do M2 Raiado possui um antecedente relevante. Entre 9 e 12 de
maio de 2023, o Arsenal de Guerra do Rio realizou, nas instalações do Centro de
Avaliações do Exército, testes para a certificação de um Sistema Inercial de
Pontaria produzido pela Safran Electronics & Defense Brasil.
Segundo a divulgação feita na ocasião pelo Exército, o equipamento empregava sensores giroscópicos correspondentes aos três eixos do Morteiro Pesado 120 mm M2A1 R.
O sistema coletava e processava automaticamente diferentes dados. Em seguida, comunicava-se com o Sistema Gênesis de Direção e Controle de Tiro, permitindo o correto nivelamento dos mecanismos de direção e a introdução das correções necessárias para atingir o alvo. A atividade foi divulgada pelo Exército e reproduzida pela DefesaNet.
O acordo agora firmado não esclarece se aquela solução será incorporada, modificada ou substituída. Também não informa se a Safran participará da nova etapa.
O dado confirmado é que o projeto com a Omnisys aparenta possuir escopo mais amplo, pois inclui expressamente a automatização da transição entre transporte e tiro, além da digitalização do apontamento.
Rapidez aumenta a capacidade de sobrevivência
O primeiro ganho da automação será a redução do tempo de reação. A transmissão
eletrônica dos elementos de tiro pode diminuir comunicações por voz, anotações,
conferências e ajustes sucessivos.
A peça poderá entrar em ação mais rapidamente, executar correções em menos tempo e transferir o fogo para outro alvo com maior agilidade.
O segundo ganho será a maior precisão do apontamento. Sensores inerciais e codificadores angulares permitem conhecer continuamente a orientação real do armamento. Se os dados calculados pela central de tiro forem enviados diretamente à peça, reduz-se a possibilidade de erro humano.
O terceiro, e talvez mais importante, será a sobrevivência da guarnição e do armamento.
O disparo de um morteiro produz diferentes assinaturas. A trajetória das granadas pode ser detectada por radares de contrabateria, enquanto drones, sensores acústicos e observadores inimigos podem identificar a posição por meio do som, da fumaça, do clarão ou da movimentação da tropa.
Quanto mais tempo a peça permanecer na mesma posição depois de abrir fogo, maior será a possibilidade de sofrer um ataque de drones, munições vagantes, artilharia ou outros meios adversários.
A automação reduz essa janela de vulnerabilidade ao permitir que o morteiro chegue, seja preparado, cumpra a missão e abandone a posição em menos tempo.
Essa lógica é conhecida como shoot and scoot, expressão utilizada para descrever a capacidade de disparar e deslocar-se antes da chegada dos fogos de resposta.
Sistemas automatizados mais sofisticados demonstram a importância
operacional desse conceito. O Patria NEMO, por exemplo, é apresentado pelo
fabricante como capaz de abrir fogo em menos de 25 segundos e abandonar
imediatamente a posição. O NEMO é um sistema em torre, muito diferente do
morteiro rebocado brasileiro, mas a comparação evidencia por que os tempos de
entrada e saída de posição se tornaram requisitos fundamentais.
Menos esforço para a guarnição
A automatização também poderá reduzir o desgaste físico dos militares
responsáveis por preparar uma arma com mais de 700 quilos.
A assistência mecânica tende a diminuir a fadiga, reduzir o risco de acidentes e ajudar a manter o desempenho durante missões prolongadas. Também poderá liberar parte da guarnição para tarefas como segurança da posição, comunicações, observação e preparação das munições.
Uma eventual redução no número de militares necessários para operar a peça, entretanto, não foi anunciada.
Mesmo com apontamento automatizado, permanecem atividades que exigem intervenção humana, entre elas o transporte das munições, a preparação das granadas, o carregamento do tubo, a segurança aproximada e a manutenção do sistema.
Também não há indicação de que o projeto incluirá um carregador automático. Assim, a cadência de tiro continuará dependendo, ao menos inicialmente, do trabalho da guarnição.
Munição nacional alcança até 12 quilômetros
O M2 Raiado emprega munições nacionais fabricadas pela IMBEL. O catálogo da
empresa apresenta diferentes opções para morteiros pesados de 120 mm.
A granada alto explosiva convencional possui alcance de 6.600 metros e carga de arrebentamento de 2,1 quilos de TNT. A munição alto explosiva pré-raiada alcança 8.150 metros e carrega 4,4 quilos de explosivo.
A versão pré-raiada com propulsão adicional pode atingir 12.000 metros, ampliando consideravelmente a área de atuação da unidade apoiada.
A automação do apontamento não aumentará diretamente esses alcances, que dependem da munição e das características balísticas do armamento. O ganho estará na velocidade e na precisão com que os fogos poderão ser desencadeados dentro da área já coberta pelo sistema.
Integração com o Sistema Gênesis
Uma futura integração com o Sistema Gênesis de Direção e Controle de Tiro
poderá conectar digitalmente o morteiro à cadeia de comando e controle.
Nesse modelo, as informações obtidas por observadores avançados, drones, radares ou outros sensores são processadas pela central de tiro e convertidas em elementos para cada peça.
Quando esses elementos chegam diretamente ao sistema de apontamento, elimina-se parte das transmissões intermediárias e reduz-se o tempo entre a identificação do alvo e a abertura do fogo.
A digitalização também facilita a concentração dos disparos de vários morteiros sobre um mesmo objetivo. Cada peça pode receber os dados correspondentes à sua posição e orientação, permitindo que os fogos cheguem de maneira coordenada.
Apesar do antecedente dos testes realizados em 2023, a integração do novo
sistema com o Gênesis ainda não foi mencionada no anúncio do CTEx e deverá ser
tratada como uma possibilidade técnica até que seja oficialmente confirmada.
Omnisys reúne competências de integração
Fundada em 1997 e controlada pelo Grupo Thales, a Omnisys atua em vigilância e
controle do espaço aéreo, defesa aérea, guerra eletrônica, sistemas de
rastreio, aviônicos, eletrônica de mísseis e aplicações espaciais.
A empresa possui experiência em sensores, processamento de sinais, eletrônica embarcada, integração de subsistemas e controle eletromecânico, competências compatíveis com um projeto de automatização do morteiro.
Em trabalho anterior para o Exército, a Omnisys desenvolveu o Sistema Transportável para Rastreio de Engenhos em Voo, destinado ao acompanhamento de mísseis, foguetes, granadas de artilharia, munições de grande calibre e aeronaves remotamente pilotadas.
Naquele programa, a empresa demonstrou a integração de subsistemas ópticos e de radar, além do controle eletromecânico dos movimentos angulares de uma antena.
A parceria com o CTEx reúne, portanto, o conhecimento militar e tecnológico acumulado no desenvolvimento do M2 Raiado com a capacidade industrial da Omnisys nas áreas de sensores, eletrônica, atuação mecânica e integração de sistemas.
Modernização não cria imediatamente um morteiro autopropulsado
A automatização anunciada não deve ser confundida com o desenvolvimento
imediato de um morteiro autopropulsado ou inteiramente automático.
O comunicado não menciona a instalação do M2 em uma viatura blindada, a adoção de carregador automático, a proteção da guarnição ou a capacidade de disparar a partir do interior de um veículo.
O avanço previsto concentra-se na transição entre as configurações de transporte e tiro e na digitalização do apontamento.
Ainda assim, se o projeto entregar preparação mecanizada, localização automática da peça, aplicação digital dos elementos de tiro e integração eficiente com o Sistema Gênesis, o salto operacional será expressivo.
O Exército poderá preservar um armamento desenvolvido no País, suas munições e a infraestrutura de fabricação existente, acrescentando recursos mais compatíveis com o combate contemporâneo.
Questões ainda precisam ser esclarecidas
O anúncio não informa o valor do acordo, o prazo de desenvolvimento, a
quantidade de protótipos nem o cronograma previsto para os testes.
Também não esclarece o grau de automação, a fonte de energia dos mecanismos, a participação de outras empresas, a possibilidade de modernizar todas as peças existentes ou a futura escala de produção.
Outro ponto a ser confirmado é a relação entre o novo projeto e o Sistema Inercial de Pontaria testado em 2023 com a Safran.
Essas definições serão importantes para medir o alcance industrial e operacional do programa. Mesmo em sua fase inicial, entretanto, o acordo sinaliza que o Exército pretende atualizar um de seus principais armamentos coletivos de apoio de fogo sem abandonar uma solução desenvolvida e produzida no País.
Para o M2 Raiado, a automação poderá representar menos tempo parado, maior precisão na aplicação dos dados e, principalmente, melhores condições para cumprir a missão de fogo e deixar a posição antes da resposta adversária.





