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05 junho, 2026

Do campo ao front: o drone pesado multimissão começa a mudar o combate, e o Brasil está atento

O Adis ucraniano consolida uma tendência já anunciada pelo SSNTFT 2026 do Exército: quadricópteros de grande porte, originalmente desenvolvidos para agricultura e logística civil, foram convertidos em ferramentas de linha de frente capazes de atacar, realizar minagem remota e reabastecer posições avançadas, e o Brasil já tem a base industrial para acompanhar essa evolução

Adis - drone bombardeiro quadricóptero pesado multimissão (Imagem: Martyn Tech)

*LRCA Defense Consulting - 05/06/2026

A empresa ucraniana Martyn Tech apresentou, no começo deste mês, o Adis, um bombardeiro quadricóptero pesado desenvolvido em resposta a necessidades diretas da linha de frente. Os números são significativos: 10 kg de carga útil em raio de combate de 20 km, cerca de uma hora de autonomia, com testes registrando 12 kg transportados por mais de 20 km ou 3 kg por mais de 50 km, a 65 km/h de velocidade de cruzeiro e até 400 m de altitude operacional. O drone está equipado com um sistema de câmera dupla para detecção e identificação de alvos. A empresa afirma que ele pode detectar objetos a distâncias de até 600 m durante o dia e até 150 m à noite.

O salto do controle via satélite
O elemento verdadeiramente diferenciador não está na carga útil, mas sim no enlace de controle. Ao incorporar comunicação via satélite como canal primário de comando, o Adis elimina a principal restrição dos quadricópteros de linha de frente anteriores: o horizonte de rádio. Com isso, os operadores podem ser posicionados muito além da área de lançamento, reduzindo sua exposição e transformando o que era uma improvisação tática de curto alcance em algo mais próximo de um sistema distribuído de fogos e logística.

A estrutura modular completa o quadro: a mesma plataforma pode ser reconfigurada para lançamento de munição, minagem remota (dispersão aérea de minas sobre acessos e flancos) ou entrega de carga, como baterias, suprimentos médicos e equipamentos especializados, a posições que estradas, valas e veículos expostos já não alcançam com segurança.

Novidade ou consolidação de uma tendência?
O Adis não inventa a categoria. Quadricópteros e hexacópteros pesados de ataque estão em uso regular na Ucrânia desde o outono de 2022, batizados pelos soldados russos de "Baba Yaga", uma referência ao aspecto abominável desses drones voando à noite carregados de munição. Plataformas como o Vampire (Skyfall) e o Kazhan (Reactive Drone) já carregam 15 kg ou mais e operam entre 20 km e 60 km. Em 2024, por decreto do presidente Zelensky, os sistemas não tripulados foram estabelecidos como uma força independente das Forças Armadas ucranianas, sinal de que a tecnologia deixou o estágio experimental.

O Adis representa um passo incremental, mas relevante: o controle via satélite é algo que as gerações anteriores resolviam com Starlink como retransmissor intermediário, solução mais vulnerável à guerra eletrônica do que um enlace direto embarcado. A diferença entre usar o Starlink como relay e ter o módulo de comunicação integrado ao piloto automático não é apenas técnica, mas sim de robustez operacional e de sobrevivência do elo de controle em ambiente saturado por contramedidas eletrônicas.

Os russos responderam... com atraso
As forças russas foram as primeiras a nomear os quadricópteros pesados ucranianos justamente porque não tinham equivalente no início do conflito. A adaptação levou tempo. Em 2024, unidades russas na região sul de Donetsk já operavam plataformas pesadas próprias equipadas com sistemas de lançamento de minas de 82 mm, projetadas para permanecer indetectáveis pelos sistemas de guerra eletrônica ucranianos.

Em maio de 2026, a Rússia apresentou o Berdysh, produzido pela Ural Drone Factory: um hexacóptero capaz de realizar funções de ataque, entrega de carga e retransmissão de comunicações, com alcance de até 25 km, teto de 1.000 m, velocidade de até 50 km/h e carga útil de até 20 kg. A plataforma confirma que ambos os lados do conflito chegaram, por caminhos distintos, à mesma conclusão operacional.

O Brasil no mesmo espectro
O 1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre (SSNTFT 2026), realizado entre 25 e 27 de maio de 2026 no Quartel-General do Exército e no Estande de Tiro General Darcy Lázaro, em Brasília, reuniu onze empresas da BID e revelou que o Brasil já opera nesse espectro, com objetivos e escala distintos dos do conflito ucraniano, mas com convergência técnica inegável. 

As demonstrações de maior impacto visual envolveram plataformas multirrotoras pesadas com payloads militares. 
A Taurus Armas exibiu um drone de ataque de grande porte capaz de operar armamento leve (fuzis e lança-granadas), incluindo o lançamento de projéteis de morteiro de 120 mm com 15 kg de peso, colocando o sistema diretamente no mesmo patamar de carga útil das primeiras gerações de "Baba Yaga" ucranianos. A Condor Não Letais apresentou o Condor Drop, quadricóptero tático adaptado para lançamento de agentes químicos de controle de distúrbios e apoio a missões de vigilância. As demais participantes: XMobots, Ares, PlasmaHub, Modirum Gespi, AeroID, ADTech, BR Vant, Ambipar e RADeCO, com demontrações e/ou exposições, completaram um painel que, segundo o Comandante do Exército, general Tomás Paiva, evidenciou a "rápida evolução da BID no desenvolvimento de sistemas não tripulados".

Nos casos da Condor e da Taurus, a plataforma base de voo (drone quadricóptero) foi desenvolvida sob encomenda por uma empresa brasileira especializada no desenvolvimento de RPAS (Remotely Piloted Aircraft System ou Sistema de Aeronave Remotamente Pilotada, em português) para a indústria de defesa e segurança, sem que as partes tenham feito declarações oficiais sobre a natureza dessas parcerias. Este modelo de desenvolvimento já produziu, fora do contexto do SSNTFT, uma plataforma da mesma família operando um array de radar embarcado para levantamento automatizado, solução desenvolvida para a Radaz e que, inclusive, já está sendo exportada para países da Europa e do Oriente Médio.

A camada menos visível, mas estrategicamente muito relevante do SSNTFT, foi a participação institucional da própria Diretoria de Fabricação (DF) e do Arsenal de Guerra do Rio (AGR). Além de a DF apresentar a situação atual de sua Iniciativa de Drones de Ataque ao Alto Comando (programa que, desde dezembro de 2025, percorreu um RFI com 37 empresas habilitadas - sendo 33 nacionais, um workshop com a BID e, em março de 2026, o lançamento do edital de pré-qualificação de SARP - Sistema de Aeronave Remotamente Pilotada de ataque), o AGR demonstrou um projeto próprio de desenvolvimento de drones bombardeiros e kamikazes, incluindo um conceito de container para fabricação de drones com manufatura aditiva (impressoras 3D). Trata-se, em essência, de uma fábrica de drones desdobrável em campanha, capacidade que as forças ucranianas desenvolveram empiricamente na linha de frente e que o Exército Brasileiro está buscando incorporar de forma planejada, com produção descentralizada e resiliente a rupturas na cadeia logística convencional.


Taurus - TAS lançador de granada 120mm

Quadricóptero da Condor Não Letais para lançamento de agentes químicos de controle de distúrbios
 

Drone Pelicano R3 como plataforma para o radar SAR RD350 da Radaz

O que falta e como pode ser resolvido
O hiato entre o estágio brasileiro e o Adis ucraniano é identificável e, em boa medida, endereçável. O principal elemento ausente nas plataformas nacionais é o enlace de controle via satélite integrado: a comunicação entre operador e drone ainda depende de rádio convencional, com todas as limitações de horizonte e vulnerabilidade à guerra eletrônica que isso implica.

A solução passa necessariamente pela escolha do tipo de satélite. O uso do Starlink (SpaceX) oferece baixa latência (20 a 40 milissegundos) suficiente para um completo controle manual em tempo real, mas cria dependência estratégica de uma empresa privada americana e de uma infraestrutura que pode ser restringida unilateralmente. O SGDC (Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas), operado pela Telebras com banda X dedicada às Forças Armadas, é soberano e cobre praticamente 100% do território nacional e a Amazônia Azul, mas a altitude de 36.000 km impõe latência de 600 a 800 milissegundos, inviável para pilotagem manual em tempo real, porém perfeitamente funcional para missões executadas por 
piloto automático com controle por waypoints, que é exatamente o modelo de emprego mais adequado para as missões de minagem remota, entrega de carga e ataques a alvos fixos.

A integração técnica em si não é um obstáculo de fronteira. Trata-se de engenharia de sistemas bem definida: seleção e qualificação do módulo de comunicação, adaptação estrutural da plataforma, desenvolvimento do firmware de integração com o 
piloto automático e validação da lógica de contingência. Um projeto dessa natureza, com financiamento e equipe adequados, pode ser executado em 12 a 24 meses.

O financiamento como elo que faltava
Em 26 de maio de 2026, a Finep e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação publicaram a Carta Convite MCTI/Finep/FNDCT — Promoção da Autonomia Tecnológica na Área da Defesa (chamada pública nº 943682), destinando até R$ 500 milhões em recursos não reembolsáveis do FNDCT às Instituições de Ciência, Tecnologia e Inovação vinculadas ao Ministério da Defesa (ICTMDs).

As linhas temáticas contempladas incluem explicitamente sistemas de guiamento, controle e navegação aplicados a veículos não tripulados aéreos, terrestres e navais, além de inteligência artificial, robótica, visão computacional e sensoriamento remoto. O edital exige cooperação com empresas da Base Industrial de Defesa (BID), criando o elo formal entre as ICTMDs (ITA, IME, IPqM e similares) e fabricantes como SkyDrones, XMobots e Stella Tecnologia. As submissões vão até 18 de setembro de 2026.

O edital representa o maior aporte público unitário já destinado exclusivamente à BID em projetos de pesquisa e desenvolvimento a fundo perdido, e chega em momento em que o ecossistema nacional de plataformas não tripuladas já demonstrou capacidade de integração com payloads militares reais. A licitação do Exército Brasileiro para aquisição de munição vagante, que atraiu habilitação de 37 fabricantes, sendo 33 nacionais, é outro indicador da profundidade desse ecossistema.

Adis - drone bombardeiro quadricóptero pesado multimissão (Imagem: Martyn Tech)

A lição ucraniana para a BID
A diferença fundamental entre o ecossistema ucraniano e o brasileiro não é tecnológica, mas de velocidade e de volume. Na Ucrânia, a linha de frente define o produto em semanas: uma necessidade identificada numa trincheira se transforma em especificação, protótipo, teste e produção em série em ciclos que seriam considerados impossíveis em qualquer processo de aquisição convencional. Em 2024, o país produziu mais de 30.000 drones bombardeiros. O Brasil, mesmo com empresas competentes e demanda institucional crescente, ainda opera em ciclos de aquisição que se contam em anos.

O Adis, nesse sentido, não é um produto isolado. É o marcador mais recente de uma tendência que o seminário SSNTFT 2026 do Exército Brasileiro já havia sinalizado em escala nacional recentemente: o drone pesado multimissão deixou de ser nicho e virou classe de aeronave utilitária de campo de batalha. Quem souber comprimir o ciclo entre demanda operacional, desenvolvimento industrial e produção em escala terá, nessa tecnologia, uma vantagem assimétrica de difícil compensação. 

07 novembro, 2025

SkyDrones e Radaz personalizam drones para projetos de ponta no Technology Innovation Institute nos Emirados

 


*LRCA Defense Consulting - 07/11/2025

A engenharia nacional de drones brasileiros ganhou destaque internacional ao embarcar duas plataformas Pelicano, da empresa SkyDrones, para o prestigiado Technology Innovation Institute (TII) nos Emirados Árabes Unidos. O TII, reconhecido mundialmente por seu pioneirismo em pesquisa aplicada e desenvolvimento tecnológico, recebeu os drones especialmente customizados para operar com radares da empresa brasileira Radaz.

A sincronização entre SkyDrones e Radaz resultou em soluções tecnológicas exclusivas, capazes de cumprir demandas específicas de sensoriamento remoto que nenhum drone do mercado global conseguia atender. A integração dessas inovações foi motivada pelas necessidades técnicas impostas pelo TII, que pesquisa e desenvolve drones autônomos e inteligentes, focados em aplicações que vão desde detecção de vazamentos subterrâneos até o mapeamento ambiental detalhado.

A SkyDrones, fundada há mais de 15 anos, destaca-se por desenvolver drones próprios e soluções sob medida para setores industriais e agrícolas, além de áreas civis e de defesa. Entre seus produtos, está o Pelicano, drone robusto e versátil, que agora voa longe em mercados internacionais, carregando tecnologia nacional para missões sofisticadas. A empresa oferece um portfólio completo, incluindo hardware, software e sistemas para gestão de frota e operações.

Já a Radaz, sediada em São José dos Campos, é referência mundial em radares de abertura sintética (SAR) para drones, com diferenciais tecnológicos inéditos como a operação simultânea em múltiplas bandas (C, L, P). Sua inovadora tecnologia conquistou o mercado estrangeiro, impulsionando a criação de uma subsidiária nos Emirados Árabes e fortalecendo a posição do Brasil como exportador de tecnologia de ponta.

O uso das plataformas Pelicano em Abu Dhabi reforça não só a capacidade tecnológica brasileira, mas também o valor da inovação real aplicada em áreas estratégicas de pesquisa globais. No TII, drones autônomos equipados com inteligência artificial atingem velocidades de até 80 km/h, navegando ambientes complexos sem necessidade de piloto humano ou sistemas de localização externos, resultado que indica o futuro dos veículos aéreos não tripulados.

Essa parceria simboliza a força da engenharia nacional e o potencial disruptivo das soluções brasileiras em cenários de alta tecnologia, destacando as empresas SkyDrones e Radaz como protagonistas da inovação aplicada no cenário internacional.

24 outubro, 2025

Inovação brasileira em radar SAR: Radaz fornece Sistema RD350 ao Serviço Geológico da Finlândia

 

*LRCA Defense Consulting - 24/10/2025

A Radaz, empresa brasileira especializada em radares de abertura sintética (SAR) embarcados em drones, confirmou em outubro de 2025 a entrega de um novo sistema RD350 ao GTK – Serviço Geológico da Finlândia (Geological Survey of Finland). O anúncio, feito nas redes sociais da empresa, destaca a expansão da presença internacional da tecnologia SAR brasileira e a aplicação do equipamento em estudos geológicos de alta precisão realizados pelo GTK, que é vinculado ao Ministério da Economia e Emprego da Finlândia e responsável pelo mapeamento e investigação geológica do território e do fundo marinho do país.​

O radar RD350 é um sistema compacto multibanda (C, L e P), com peso inferior a 5 kg, capaz de penetrar vegetação e solo para gerar imagens de sub-superfície em alta resolução. Produzido desde 2021, o RD350 vem sendo utilizado em operações de monitoramento ambiental, mineração, agronegócio e segurança, e já foi exportado para países como Alemanha, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido. Em 2025, o equipamento ganhou também uma nova versão em formato POD SAR para aeronaves do tipo VTOL, apresentada pela Radaz e Helisul Engenharia no evento ENAVSEG 2025, em Florianópolis, voltado à aviação de segurança pública.​

O GTK, novo cliente da Radaz, é uma instituição científica com cerca de 600 funcionários e centros laboratoriais voltados à geofísica, sedimentologia, geocronologia e geodiversidade marinha. Entre suas plataformas de pesquisa está o navio Geomari, dotado de instrumentos de sondagem acústica e sistemas sísmicos usados para mapeamento e amostragem do leito marinho. A adoção do radar brasileiro deve fortalecer o trabalho do GTK em projetos de mapeamento geológico e monitoramento ambiental no Mar Báltico e em outras regiões.​

Com essa venda, a Radaz reafirma sua posição como um dos principais expoentes da engenharia brasileira de sensoriamento remoto, exportando tecnologia de ponta desenvolvida integralmente no país para instituições de pesquisa de referência mundial, como a GTK. 

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