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28 outubro, 2026

Cinco organizações brasileiras articulam satélite para estudar a atmosfera da Amazônia

MoU assinado em São Paulo dá forma ao ATTOSat, missão já qualificada pela AEB, mas ainda sem financiamento definido



*LRCA Defense Consulting - 28/10/2026 - 13h09

A Fundação Ezute, a Concert Space (unidade da Concert Technologies), a HORUSEYE TECH, a TR Radares e a CRON Sistemas e Tecnologias assinaram, em 20 de outubro, um Memorando de Entendimentos (Memorandum of Understanding, MoU) para cooperar no desenvolvimento do ATTOSat, pequeno satélite brasileiro destinado ao estudo dos processos atmosféricos e climáticos da Amazônia. O acordo, firmado na sede da Ezute, em São Paulo, reúne competências de engenharia de sistemas, sensoriamento remoto, navegação e controle, integração de plataformas espaciais e operação de missões.


O objetivo é construir, lançar e operar um satélite capaz de coletar dados sobre aerossóis, formação de nuvens, queimadas e poluição atmosférica, com a possibilidade de também monitorar gases de efeito estufa. As informações deverão apoiar a pesquisa científica, a formulação de políticas públicas ambientais e as ações de adaptação às mudanças climáticas. Por enquanto, trata-se de uma missão proposta, e não de um satélite contratado ou em construção.

Uma torre que ganha olhos no espaço 
O nome ATTOSat vem de Amazon Tall Tower Observatory Satellite. A missão foi concebida para complementar, a partir da órbita, as medições do Amazon Tall Tower Observatory (ATTO), torre de pesquisa de 325 metros de altura instalada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã, cerca de 150 quilômetros a nordeste de Manaus. Em operação desde 2015, o observatório resulta de cooperação entre Brasil e Alemanha, com participação do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e dos Institutos Max Planck de Química e de Biogeoquímica.

A posição da torre permite analisar massas de ar que atravessaram centenas de quilômetros de floresta com mínima interferência humana. O interesse científico é grande: os aerossóis emitidos pela vegetação e pelas queimadas participam da formação de nuvens e influenciam o regime de chuvas, com efeitos que ultrapassam os limites da região. As medições feitas em solo, porém, têm alcance espacial limitado, lacuna que um satélite dedicado poderia reduzir.

Em apresentação divulgada em abril de 2026, a Concert Space descreveu uma arquitetura baseada em satélite do padrão CubeSat, com sensores hiperespectrais e polarimétricos voltados ao estudo de aerossóis, umidade, precipitação e propriedades das nuvens, prazo estimado de 48 meses para a execução e dados disponibilizados em plataforma aberta e gratuita. O comunicado mais recente acrescenta uma estrutura em solo para recepção, processamento e distribuição das informações, com operação orbital prevista por pelo menos dois anos. São parâmetros do conceito divulgado, ainda não especificações finais.

Cinco competências, uma arquitetura 
Pelo acordo, a Fundação Ezute responderá pela engenharia de sistemas integrada, pela coordenação técnica e administrativa e pela estruturação da proposta de financiamento. A Concert Space, que há mais de três décadas fornece sistemas de preparo, lançamento e rastreio de foguetes aos centros de lançamento de Alcântara (CLA) e da Barreira do Inferno (CLBI), ficará com os softwares de bordo, o processamento de dados e o suporte à operação.

A HORUSEYE TECH contribuirá com sistemas de navegação, orientação e controle; a TR Radares, com os equipamentos de sensoriamento, a calibração e a validação dos dados e os sistemas de apoio em solo; e a CRON, com o desenvolvimento e a integração da plataforma do satélite, os ensaios e a preparação para o lançamento. O MoU estabelece as bases da cooperação e do planejamento, mas não equivale à contratação das etapas industriais nem ao comprometimento dos recursos necessários.

Para Rafael Mordente, CEO da Concert Space, o ATTOSat nasce com uma "finalidade técnico-científica muito clara", e a entrada da Ezute agrega experiência em gestão de projetos complexos e engenharia de sistemas. Roberto Lorenzoni, diretor-presidente da fundação, vê na iniciativa a oportunidade de colocar tecnologia e conhecimento brasileiros a serviço de uma demanda que interessa a toda a sociedade.

A Ezute de volta à Amazônia 

A presença da Ezute tem significado particular. A fundação foi criada em 1997, com o nome de Fundação Atech, para atuar como integradora nacional do Sistema de Vigilância da Amazônia e do Sistema de Proteção da Amazônia (Sivam/Sipam), em parceria com o Ministério da Defesa e a Força Aérea Brasileira. Adotou a marca atual em 2013 e, desde então, participou de programas como o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz) e o Míssil Antinavio Nacional de Superfície (Mansup), da Marinha do Brasil. É credenciada pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa (EED).

Quase três décadas depois do Sivam, a instituição volta a trabalhar com o monitoramento da região amazônica, agora a partir do espaço e com finalidade científica. 


O que a AEB já reconheceu 
O ATTOSat já percorreu uma etapa formal na Agência Espacial Brasileira (AEB). Na VII Reunião Deliberativa Ordinária do Procedimento para Seleção e Adoção de Missões Espaciais (ProSAME), realizada em 4 de dezembro de 2025, a proposta foi uma das três selecionadas para a Carteira de Qualificação, ao lado de um nanossatélite universitário e do Microlançador Brasileiro (MLBR). O resultado foi divulgado pela agência em fevereiro de 2026. O release das empresas situa a admissão no primeiro semestre deste ano, o que não coincide com o registro oficial.

O ProSAME é o processo pelo qual a AEB seleciona as missões do Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE 2022-2031). A Carteira de Qualificação corresponde à análise técnica, em que se detalham requisitos, soluções, custos, cronogramas e riscos. Segue-se a Carteira de Habilitação, que examina, entre outros aspectos, a viabilidade financeira e a aderência programática, antes de uma eventual adoção. A seleção mostra que a proposta avançou institucionalmente, mas não garante recursos nem compromisso de lançamento.

Velhos conhecidos do MLBR 
A coincidência na reunião de dezembro não é casual. Concert, HORUSEYE TECH e CRON desenvolveram, por encomenda tecnológica da AEB, o Sistema de Navegação Inercial integrado à navegação por satélite (SNI-GNSS), concebido para o MLBR. O equipamento voou em dezembro de 2025 a bordo do foguete sul-coreano HANBIT-Nano, da INNOSPACE, lançado de Alcântara, e em 9 de outubro a Concert anunciou contrato com a indiana Skyroot Aerospace para ensaiá-lo no foguete Vikram I, como noticiou a LRCA Defense Consulting. O mesmo trio, portanto, está presente em duas das três propostas aprovadas naquela rodada do ProSAME.

A sobreposição sugere aproveitamento de conhecimento acumulado, mas não há confirmação pública de que o ATTOSat empregará o SNI-GNSS ou de que será lançado pelo MLBR ou por qualquer outro veículo específico. Na vertente científica, a Concert havia citado em abril a participação do INPA, do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Max Planck de Química; o novo comunicado não detalha o papel desses parceiros.

Autonomia tecnológica e uso dual 
Para o País, o interesse no ATTOSat vai além de um conjunto adicional de dados ambientais. Uma missão desenhada a partir de perguntas científicas sobre a atmosfera amazônica complementa informações de sistemas estrangeiros e amplia a capacidade nacional de definir o que observar, como tratar os dados e a quem distribuí-los.

A eventual execução também mobilizaria uma cadeia de competências em sistemas embarcados, sensores, integração de satélites, infraestrutura de solo e processamento de informações. Essas capacidades interessam ao desenvolvimento da indústria espacial e, conforme os requisitos de cada aplicação, podem servir a soluções de uso dual, ainda que a missão tenha finalidade exclusivamente civil.

Da intenção à execução 

O próximo desafio será transformar a articulação das cinco organizações em um empreendimento com arquitetura consolidada, responsabilidades formalizadas e recursos assegurados. Permanecem sem confirmação pública o orçamento, a fonte de financiamento, a configuração final dos sensores, o grau de nacionalização e a data de lançamento.

O mérito imediato do acordo está em reunir, de forma organizada, competências nacionais em torno de uma demanda científica de interesse público. Sua relevância industrial e estratégica crescerá se o grupo superar as etapas de qualificação, habilitação e financiamento e demonstrar que empresas e instituições brasileiras conseguem entregar, em conjunto, uma missão espacial completa, do projeto à operação.

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