Por trás de cada parceria isolada, uma arquitetura societária que também alcança espaço, cibersegurança, drones e mobilidade aérea urbana
*LRCA Defense Consulting - 16/08/2026
Quando um drone Nauru 1000C, armado com mísseis Enforcer produzidos pela MBDA, sobrevoar um exercício do Exército Brasileiro, poucos observadores associarão aquela plataforma à Embraer. A fabricante brasileira de aeronaves, afinal, é lembrada pelos jatos E2, pelo cargueiro militar KC-390, pelo caça leve Super Tucano e, mais recentemente, pelos eVTOLs da Eve Air Mobility e pelo radar SABER M200 Vigilante. Mas o Nauru 1000C é produzido pela XMobots, empresa da qual a Embraer é acionista desde 2022. E essa não é uma exceção isolada: é a ponta visível de uma rede societária que a companhia vem tecendo, de forma discreta e progressiva, dentro do coração da base industrial de defesa do País.
O mesmo raciocínio vale para as fragatas classe Tamandaré, que a Marinha do Brasil constrói em Itajaí (SC) para proteger a chamada Amazônia Azul. O sistema de gerenciamento de combate e o sistema de gerenciamento de plataforma dessas embarcações são fornecidos pela Atech, subsidiária integral da Embraer, que integra o consórcio Águas Azuis. Aviões, drones armados e agora navios de guerra: o denominador comum é uma mesma companhia, presente em cada elo por meio de participações societárias que raramente aparecem juntas em uma única reportagem.
![]() |
| Drone Nauru 1000C armado com mísseis MBDA Enforcer (inativos) |
O quebra-cabeça da defesa
Reunidas, as
participações da Embraer no setor de defesa e segurança formam um mosaico que
cobre praticamente toda a cadeia de valor de um conflito moderno. Na aviônica e
nos veículos aéreos não tripulados, a companhia detém 25% da AEL Sistemas,
subsidiária brasileira da israelense Elbit Systems, parceria firmada em 2011 e
responsável, entre outros produtos, pelo datalink Link-BR2 e por computadores
de missão do KC-390.
Nos drones de médio e grande porte, entrou em 2022 como acionista minoritária da XMobots, maior fabricante de drones da América Latina e responsável pelo Nauru 1000C, plataforma selecionada pelo Exército Brasileiro para missões de inteligência, vigilância, aquisição de alvos e reconhecimento. O aporte foi feito por meio de um fundo de investimento de cotista única, com opção contratual de novos aportes no futuro, cláusula que a companhia já teria utilizado quando a gestora Spectra Investimentos comprou, em 2024, a fatia de 20% que pertencia ao FIP Aerotec, ligado ao governo de Minas Gerais.
No mar, a Embraer
participa do consórcio Águas Azuis com 25% de participação total (12% via
Embraer Defesa & Segurança e 13% via Atech), ao lado da alemã thyssenkrupp
Marine Systems, líder da sociedade de propósito específico com os 75%
restantes. É a Atech quem assina, em cooperação com a Atlas Elektronik
(subsidiária da própria thyssenkrupp), o sistema de combate das quatro fragatas
contratadas pela Marinha, num programa orçado em cerca de R$ 9,1 bilhões.
Na fronteira terrestre, a Embraer Defesa & Segurança atua como integradora principal do SISFRON (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras), programa que cobre os 16.886 quilômetros de fronteira do País com radares, sensores e centros de controle em rede. Parte dessa integração se materializa em Centros de Comando e Controle Móveis (CC2), instalados em viaturas táticas: a conversão física dos veículos fica a cargo de subcontratadas como a RF COM e a ITURRI BRASIL, enquanto a Atech fornece os sistemas de comando e controle que equipam esses centros. Em novembro de 2025, a Embraer entregou ao Exército as primeiras quatro unidades de CC2 da Fase 2 do programa, somando mais de 50 soluções veiculares já entregues ao SISFRON entre viaturas de comunicações, centros móveis e postos de comando.
Na cibersegurança, área cada vez mais tratada como ativo estratégico de defesa, a Embraer é uma das cotistas do FIP Aeroespacial, fundo que reúne também BNDES, Finep e Desenvolve SP. Foi por meio dele que a companhia investiu R$ 20 milhões na Kryptus, empresa de Campinas reconhecida pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa e fornecedora de soluções de criptografia para a Marinha, o Exército, a Força Aérea e a Agência Brasileira de Inteligência. Na mesma semana daquele aporte, em julho de 2020, a Embraer assinou também a compra de participação acionária majoritária na Tempest Security Intelligence, uma das maiores companhias de cibersegurança do Brasil, que hoje figura formalmente como subsidiária do grupo.
Um ecossistema maior do que a defesa
Essa capilaridade
em defesa não nasceu isolada: é parte de um movimento mais amplo de
diversificação que a Embraer vem construindo há pelo menos uma década, e que
hoje inclui setores civis estratégicos. O caso mais visível é a Eve Air
Mobility, dedicada à mobilidade aérea urbana, da qual a Embraer detém
aproximadamente 73% do capital social, com ações negociadas diretamente na
NYSE. A fatia já foi maior (chegou a superar 90% logo após a fusão com a Zanite
Acquisition Corp, em 2021) e vem sendo diluída à medida que novos investidores,
entre eles a japonesa Nidec, aportam capital para acelerar a certificação do eVTOL.
No setor espacial, a Visiona Tecnologia Espacial é uma joint venture entre a Embraer Defesa & Segurança e a Telebras, responsável, entre outros projetos, pelo satélite VCUB1. Na manutenção aeronáutica internacional, a Embraer é dona de 65% da centenária OGMA, em Portugal, com os 35% restantes em mãos da estatal portuguesa idD. E na propulsão elétrica para aviação, a Nidec Aerospace, joint venture com sede em St. Louis (Estados Unidos), tem a Nidec como sócia majoritária, com 51%, e a Embraer com os 49% restantes, tendo justamente a Eve como cliente-lançadora dos motores elétricos que devem entrar em produção em massa a partir de 2026.
Ainda em julho de 2026, a Embraer concluiu a compra dos 50% remanescentes da EZ Air Interior, joint venture com a francesa Safran Cabin que produzia compartimentos de bagagem e painéis para a família E-Jet no México, tornando-se controladora integral da operação. É um sinal de que o apetite societário da companhia não se restringe à defesa: onde há tecnologia estratégica, sinergia industrial ou simples racional financeiro, a Embraer tende a aparecer como sócia, não apenas como cliente.
A engenharia por trás das participações
O que chama
atenção nesse mapeamento não é apenas a variedade de setores, mas a precisão
com que a Embraer calibra cada percentual de participação. Nos negócios em que
busca controle efetivo, como a Eve (73%) ou a OGMA (65%), a companhia garante
maioria acionária. Já nas parcerias em que prefere dividir risco tecnológico e
financeiro sem abrir mão de influência estratégica, como a Nidec Aerospace
(49%) ou a Águas Azuis (25%), aceita posições minoritárias, mas com direito a
assento nas decisões técnicas mais sensíveis, como os sistemas de combate das
fragatas.
Essa engenharia societária passa também por veículos financeiros pouco conhecidos do grande público, como fundos de investimento em participações (FIP) de cotista única, no caso da XMobots, ou fundos compartilhados com bancos públicos de fomento, como o FIP Aeroespacial (Kryptus e Tempest). São instrumentos que permitem à companhia testar apostas tecnológicas com exposição financeira limitada e, quando o negócio amadurece, decidir se aumenta a aposta, como fez na XMobots em 2024, ou se assume o controle total, como fez na EZ Air Interior em 2026.
Uma gigante que também é uma rede
O momento em que
essa arquitetura societária ganha relevância pública não é aleatório. Em 2026,
a Embraer emplacou uma sequência de anúncios em feiras como a Farnborough
International Airshow, elevou seu backlog a recordes e viu o KC-390
conquistar novos clientes, do Oriente Médio à Europa. É justamente nesse
momento de maior projeção global que a rede de participações da companhia,
historicamente tratada como assunto de bastidor corporativo, passa a ter peso estratégico
direto para o País: cada satélite lançado pela Visiona, cada fragata equipada
pela Atech e cada drone armado produzido pela XMobots carrega, em algum grau,
capital e tecnologia da Embraer.
Mais do que uma fabricante de aeronaves civis e militares, a Embraer se consolida como um nó central da base industrial de defesa e tecnologia brasileira, um papel que, justamente por se espalhar em participações minoritárias e joint ventures pouco divulgadas, tende a passar despercebido, mas que, montado peça por peça, revela uma estratégia de longo prazo, deliberada e coerente com a ambição de a companhia se firmar como uma das gigantes da aviação e da defesa em escala global.





Nenhum comentário:
Postar um comentário
Seu comentário será submetido ao Administrador. Não serão publicados comentários ofensivos ou que visem desabonar a imagem das empresas (críticas destrutivas).