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03 setembro, 2026

Do laboratório da USP às Forças Armadas: como a XMobots construiu uma indústria brasileira de drones de combate

Com mais de R$ 220 milhões investidos em soluções de Defesa desde 2022, empresa de São Carlos verticaliza tecnologia, avança em drones armados e mira operações navais e enxames autônomos 

Nauru 1000C armado com míssil MBDA Enforcer Air


*LRCA Defense Consulting - 03/09/2026 

A XMobots, fabricante brasileira de veículos aéreos não tripulados sediada em São Carlos, interior de São Paulo, informou ter destinado mais de R$ 220 milhões, desde 2022, ao desenvolvimento de soluções para Defesa e Segurança. O valor, revelado pela própria empresa, soma-se a outros R$ 11 milhões aplicados entre 2010 e 2022 em projetos de pesquisa apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). 


Reinaldo Junior - Diretor de Defesa da XMobots

Fundada em 2007 por Giovani Amianti, então estudante de mestrado da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), a empresa nasceu incubada no Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia da própria universidade (Cietec-USP). Quase duas décadas depois, tornou-se a única fabricante brasileira de drones próprios fornecidos simultaneamente ao Exército Brasileiro, à Marinha do Brasil, à Receita Federal e ao Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), além de ocupar, segundo o ranking da consultoria alemã Drone Industry Insights, a sexta posição entre as maiores empresas de drones do mundo. 

Uma cadeia produtiva verticalizada dentro de casa 
Com sede em São Carlos, polo aeronáutico e universitário do interior paulista, a XMobots conta atualmente com quadro de funcionários que já superou 500 colaboradores, mais da metade deles engenheiros de diferentes especialidades. Essa estrutura sustenta o principal diferencial da empresa: a verticalização de toda a cadeia tecnológica e produtiva, da engenharia aeronáutica ao software embarcado, passando por aviônicos, sensores, inteligência artificial, estruturas e propulsão.

Segundo a empresa, essa integração reduz peso, potência e custo dos sistemas, em abordagem que a companhia compara à lógica adotada pela Apple na integração entre software e hardware. A capacidade instalada de produção já ultrapassa duas mil unidades por ano, considerando as diferentes plataformas da linha Nauru e o sensor XSIS 222A. 

Linha de produção do Nauru 1000C

Nauru 1000C do Exército Brasileiro

Família Nauru: da vigilância tática ao ataque com munição 
O portfólio militar da XMobots está reunido na Família Nauru, conjunto de plataformas de diferentes portes e capacidades voltadas a missões de inteligência, vigilância, reconhecimento e aquisição de alvos, a chamada ISTAR.

O menor da linha, o Nauru 100D, pesa 9 kg, emprega tecnologia eVTOL (decolagem e pouso vertical elétrico) e alcança até seis horas de autonomia em campanha, com alcance de 30 quilômetros. Sua evolução armada, o Nauru 100D UCAV, foi apresentada ao Alto Comando do Exército em maio de 2026, durante o Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre, e voltou a ser exibida em abril, na LAAD Security Milipol Brazil, com direito a demonstração conjunta das versões ISR e UCAV que atingiu o alvo com precisão de 1,4 metro.

O Nauru 500C ISR, de 25 kg e autonomia de quatro horas, foi o primeiro VTOL autorizado pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) a operar além da linha de visada visual (BVLOS) no país, incluindo autorização inédita para voos noturnos obtida em 2024. Está hoje em uso pelo Censipam, pela Marinha do Brasil e pela Polícia Militar de Santa Catarina, além de empresas do setor de celulose.

Já o Nauru 1000C ISTAR, com 181 kg e autonomia de dez horas, é o modelo mais robusto em operação, entregue ao 1º Batalhão de Aviação do Exército, em Taubaté, no interior paulista, em dezembro de 2022. Passou por avaliação técnica e operacional do Centro de Avaliações do Exército (CAEx), concluída em julho de 2024, e por experimentação doutrinária encerrada em dezembro do mesmo ano, tendo ainda participado das operações Perseu (novembro de 2024) e IVR (março de 2025), esta última conjunta entre Exército, Marinha e Força Aérea.

Ao longo de sua trajetória, a Família Nauru acumulou cerca de 5 mil horas de voo e 5 mil operações, distribuídas entre mais de 1.500 voos do Nauru 100D, aproximadamente 2.600 do Nauru 500C e cerca de 800 do Nauru 1000C. 


Nauru 100D na versão bombardeiro (acima) e em voo noturno (abaixo)

Sensores, aviônicos e navegação: a arquitetura por trás dos drones 
Por trás das plataformas está uma arquitetura tecnológica própria, desenvolvida progressivamente pela empresa. Ela inclui os softwares de comando e controle XCockpit e XSIS Manager; o sistema de gerenciamento automático de bordo AMS XG, de sétima geração, que aplica redundâncias e aciona paraquedas em caso de falha; a navegação por filtro de Kalman estendido (EKF); o controle robusto TECS (Total Energy Control System); e o enlace de rádio definido por software com salto de frequência (FHSS), que blinda as comunicações contra tentativas de bloqueio deliberado, o jamming.

A empresa aposta ainda em baterias de lítio-íon em estado semi-sólido com troca rápida em campo (quick-connect), estruturas em polímeros avançados, espumas de impacto e tubos de carbono, e em manufatura aditiva combinada à injeção plástica para produção em escala.

No campo dos sensores, o XSIS 222A, de aproximadamente 6 kg e arquitetura compacta de baixo peso, consumo e tamanho (SWaP), integra imageamento diurno e noturno, câmera térmica, telêmetro a laser, rastreamento automático de alvos e leitura de placas veiculares por inteligência artificial. Desenvolvido originalmente para o Nauru 1000C ISTAR, o sensor já é adaptado também a helicópteros tripulados, como o Airbus AS350.

A empresa destaca ainda um algoritmo próprio de lançamento de alta precisão, testado no Nauru 100D UCAV com erro circular provável inferior a 2 metros, que corrige em tempo real os efeitos do vento e da velocidade sobre a munição, dispensando ajustes manuais do operador e permitindo que a aeronave seja recuperada, rearmada e reempregada em novas missões. 

Nauru 1000C ISTAR com sensor XSIS 222A

Marinha, Petrobras e a corrida pela Amazônia Azul 
A aproximação com a Marinha do Brasil se intensificou ao longo de 2026. Em fevereiro, o comandante Carlos Alexandre Tunala da Silva, oficial superior do Corpo de Fuzileiros Navais, visitou a sede da empresa em São Carlos para avaliar o emprego do Nauru 100D em missões de reconhecimento e vigilância em ambientes litorâneos, fluviais e expedicionários. Em abril, o drone foi testado pelos Fuzileiros Navais na Ilha da Marambaia, no litoral fluminense, em voos diurnos e noturnos. Em maio, autoridades de alto escalão da Marinha, incluindo o diretor geral do Material da Marinha, retornaram à empresa para tratar da integração de plataformas eVTOL a operações embarcadas em navios de superfície.

Em janeiro de 2026, a XMobots iniciou, em parceria com a Marinha e com a Petrobras, um programa orçado em R$ 50 milhões para adaptar a Família Nauru a operações navais e offshore, contemplando resistência à salinidade e à umidade, comunicação por satélite (SATCOM) e pouso e decolagem a partir de plataformas móveis. O interesse da Marinha se relaciona à vigilância da chamada Amazônia Azul, o território marítimo de cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados sobre o qual o Brasil reivindica direitos soberanos, hoje monitorado com apoio limitado de meios não tripulados nacionais. 


Nauru 500C na Marinha do Brasil

Capital, sócios e credenciamento como empresa de Defesa 
A expansão da XMobots no setor de Defesa acompanhou mudanças relevantes em sua estrutura societária. Em setembro de 2022, a Embraer anunciou acordo para participação minoritária na companhia, por meio de fundo cujo único cotista era a própria fabricante aeroespacial, com opção de aportes adicionais no futuro. O negócio sucedeu uma rodada Série A de R$ 30 milhões captada em 2019, liderada pelo fundo Aerotec, com participação da Confrapar. Em janeiro de 2024, a gestora Spectra adquiriu fatia de 20% na XMobots, movimento que coincidiu com ampliação da participação da Embraer, sem que os valores das transações fossem divulgados.

No plano regulatório, a razão social XMobots Aeroespacial e Defesa Ltda. figura entre as empresas avaliadas pelo Ministério da Defesa para credenciamento como Empresa Estratégica de Defesa (EED), categoria prevista na Lei 12.598/2012 que reconhece companhias consideradas essenciais à soberania tecnológica nacional. A companhia consolidou uma estrutura dedicada ao setor, a XMobots Defense, apresentada durante a LAAD Defence & Security de 2025 e hoje comandada por Reinaldo de Campos Gonçalves Junior, executivo com mais de dez anos de experiência no setor e passagens por empresas como Akaer, Becker Avionics e IACIT.

“Nossa estratégia é construir uma capacidade de Defesa que não termine na entrega de uma aeronave. Dominamos a engenharia, a produção, a integração, o treinamento, a manutenção e a evolução tecnológica do sistema. Essa verticalização nos permite responder com mais agilidade às necessidades das Forças Armadas e, ao mesmo tempo, manter dentro do País o conhecimento necessário para sustentar capacidades estratégicas”, afirma Reinaldo. 

Conceito de sistema contentorizado projetável da XMobots para emprego de enxames de drones 
(Créditos: @Defence360)

Cooperação internacional e o caminho até o UCAV nacional 
A evolução das plataformas armadas contou também com cooperação tecnológica externa. Em 2022, a XMobots firmou acordo com a MBDA, uma das principais empresas globais do setor de mísseis, para integrar os mísseis Enforcer Air ao Nauru 1000C. A parceria permitiu à empresa brasileira acumular conhecimento posteriormente aproveitado no desenvolvimento das capacidades armadas do Nauru 100D.

Para a XMobots, projetar, integrar, testar e operar uma aeronave de combate reutilizável exige domínio de múltiplas áreas de engenharia e sistemas críticos, competência que a empresa associa ao objetivo de reduzir a dependência de sistemas armados importados e fortalecer a cadeia produtiva nacional.

Próximas fronteiras: enxames, plataformas armadas e o Nauru 3000D 
Entre os projetos em desenvolvimento está o Nauru 1000C Armado, evolução da plataforma ISTAR para missões de ataque, avaliando arquitetura de ataque em mergulho (dive bomber) semelhante à do Nauru 100D, na qual o Nauru 1000C ISTAR identifica e acompanha o alvo enquanto uma segunda aeronave armada recebe os dados de posição, deslocamento e vento necessários ao cálculo da trajetória.

Outra frente é o Nauru 100D Swarm, arquitetura para coordenação de múltiplas aeronaves em uma mesma operação. Na configuração em desenvolvimento, três aeronaves cuidam do reconhecimento do ambiente e da aquisição de alvos, enquanto outras 27 atuam de forma coordenada a partir das informações obtidas durante a missão, combinando navegação, enlace de dados, processamento de informações e comando e controle compartilhados.

A empresa desenvolve ainda o Nauru 3000D, plataforma de maior porte, configuração VTOL, propulsão híbrida e até 14 horas de autonomia, projetada para módulos intercambiáveis de missões ISTAR, transporte de carga e transporte de tropas. Em cenário de referência estudado pela própria companhia, considerando o transporte equivalente a 28 soldados ao longo de 20 anos de operação, a solução distribuída com o Nauru 3000D apresentaria custo total cerca de 54% inferior ao de uma solução equivalente baseada em helicópteros, mantendo capacidade de transporte semelhante.

A companhia organiza essa evolução em um roteiro próprio, o programa FW1000, que classifica as plataformas em quatro categorias crescentes de porte e complexidade, da CAT0 (Nauru 100D) à CAT3 (Nauru 3000X), com certificação prevista para 2028. 


Uma indústria em ascensão dentro da Base Industrial de Defesa 
O avanço da XMobots ocorre em meio à expansão mais ampla da Base Industrial de Defesa brasileira em sistemas não tripulados, movimento que também inclui empresas como Taurus e Ambipar Robotics. Para analistas do setor, o desafio remanescente é a articulação dessas iniciativas dispersas em torno de uma estratégia nacional integrada para drones e robôs de combate, capaz de orientar prioridades de investimento e doutrina entre Exército, Marinha e Força Aérea.

Enquanto essa arquitetura institucional amadurece, a XMobots segue como a referência mais visível do setor: fornecedora estabelecida de duas três Forças Armadas brasileiras que hoje operam drones nacionais, parceira de programas industriais internacionais e protagonista dos primeiros testes brasileiros de drones armados reutilizáveis.

17 agosto, 2026

Nauru 100D: resposta brasileira à corrida por drones de combate reutilizáveis

Como a plataforma da XMobots reúne baixo custo, tecnologia nacional e o lastro industrial da Embraer para suprir uma lacuna crítica das Forças Armadas 


*LRCA Defense Consulting - 17/08/2026

Em um cenário de recursos orçamentários limitados e de conflitos recentes (Ucrânia, Nagorno-Karabakh, Oriente Médio) que colocaram os drones no centro da doutrina militar contemporânea, o Brasil tem à disposição uma alternativa que combina maturidade tecnológica, custo reduzido e controle nacional sobre toda a cadeia produtiva: o Nauru 100D, da XMobots. A plataforma reúne, hoje, um excelente equilíbrio entre capacidade operacional e viabilidade orçamentária, contando com potencial de expansão para novas capacidades e soluções tecnológicas nos próximos anos.

Uma empresa com histórico consolidado, não uma aposta especulativa 
A XMobots não é uma iniciativa recente. Fundada em 2007, em São Carlos (SP), a empresa é hoje a líder absoluta da América Latina no setor. Sua filosofia de verticalização total (motores, sensores, hardware, software e inteligência artificial embarcada desenvolvidos internamente) garante controle sobre a cadeia produtiva e facilidade de manutenção em campo, um diferencial relevante para um País de dimensões continentais e fronteiras remotas. A empresa já tem produtos em uso operacional: o Nauru 1000C ISTAR equipa o Exército Brasileiro no patrulhamento de fronteiras, enquanto o Nauru 500C ISR, primeiro VTOL híbrido certificado pela ANAC para voos BVLOS, foi adotado pela Marinha do Brasil em missões de busca e salvamento. O Nauru 100D, lançado em abril de 2025 sob a marca XMobots Defense, nasce, portanto, dentro de um ecossistema já testado, e não como um projeto isolado. 

Uma célula única, dois payloads
Consultada diretamente, a XMobots confirmou que as versões ISR e UCAV do Nauru 100D não são duas arquiteturas distintas coexistindo na mesma aeronave, mas a mesma célula aérea operando com módulos de payload intercambiáveis. No mesmo ponto de fixação sob a fuselagem, a configuração ISR recebe um suporte com gimbal eletro-óptico, enquanto a configuração UCAV recebe um suporte equipado com garra de lançamento de munição. Essa confirmação da fabricante esclarece um ponto importante sobre eventual perda de eficiência por multifuncionalidade: não há peso sensorial ocioso durante uma missão de ataque, nem espaço de munição desperdiçado durante uma missão de reconhecimento, porque cada aeronave carrega apenas o módulo correspondente à missão do momento. Do ponto de vista logístico, isso reforça ainda mais o argumento de custo-benefício, uma vez que a mesma frota de células pode ser realocada entre reconhecimento e ataque conforme a necessidade operacional, sem exigir duas linhas de produção, manutenção ou treinamento separadas.

Cálculo balístico em tempo real explica a precisão
A precisão de 1,4 metro de CEP registrada nos testes de 2026 não depende de guiamento terminal embarcado na munição, mas de um cálculo balístico realizado pela própria aeronave antes do lançamento. Segundo a XMobots, o sistema estima as condições atmosféricas (pressão, temperatura, umidade, velocidade e direção do vento) por meio de uma simulação reversa que leva em conta a camada limite e o cálculo balístico da munição empregada. Ao se aproximar do alvo, a aeronave refina essa simulação sete vezes por segundo, compensando variações de vento em tempo real, e só libera a munição no que a empresa descreve como o ponto ideal de lançamento. Trata-se, portanto, de uma solução de precisão baseada em processamento e modelagem física a bordo, e não em munição guiada de custo elevado, o que é coerente com a lógica de baixo custo por missão que sustenta todo o conceito do Nauru 100D.

Custo-benefício em um orçamento que não perdoa desperdício 

O argumento mais forte a favor do Nauru 100D talvez não seja apenas técnico, mas econômico. A versão UCAV (Unmanned Combat Aerial Vehicle) da plataforma foi projetada para retornar à base após o ataque, ser rearmada e reempregada em novos ciclos operacionais, ao contrário de munições vagantes de emprego único. Essa característica, testada em demonstração ao Exército Brasileiro em maio de 2026, resultou em precisão de 1,4 metro de CEP (Circular Error Probable), número competitivo mesmo diante de sistemas estrangeiros consolidados. Para uma força que não tem como sustentar a compra recorrente de munições guiadas importadas (caras, sujeitas a filas de produção e, muitas vezes, a restrições de exportação por parte do fabricante), um sistema reutilizável e nacional resolve, de uma só vez, três problemas: custo por missão, dependência externa e previsibilidade logística.

 

O conceito de enxame como multiplicador de força 
Além da versão individual, a XMobots desenvolve o conceito Swarm, que prevê o lançamento simultâneo de até 30 aeronaves a partir de um contêiner de 20 pés (três dedicadas a reconhecimento e designação de alvos, 27 ao ataque coordenado). A lógica é a saturação: sobrecarregar sistemas de defesa adversários com múltiplas ameaças ao mesmo tempo, elevando a probabilidade de êxito da missão sem depender de uma única plataforma cara e sofisticada. 

Com capacidade de produção declarada de 360 unidades por mês, a empresa demonstra que pretende operar em escala industrial, e não apenas apresentar um conceito de vitrine. Ainda que o Swarm e a versão UCAV sigam formalmente em fase de estudo e validação conceitual, o fato de a doutrina de emprego já estar formulada, com papéis definidos para cada drone dentro do enxame, indica um grau de maturidade acima do estágio puramente exploratório. 

A Embraer como lastro estratégico 
Um fator que reforça a credibilidade do investimento é a presença da Embraer no quadro societário da XMobots desde 2022, quando a fabricante brasileira de aeronaves adquiriu participação minoritária na empresa, com opção de aportes adicionais futuros. O movimento não foi apenas financeiro: a Embraer sinalizou interesse em ampliar sinergias com suas próprias áreas de desenvolvimento tecnológico e inovação, incluindo a Embraer-X. Esse vínculo dá à XMobots um lastro que poucas startups de defesa no Brasil possuem: a capacidade de recorrer à engenharia, à certificação aeronáutica e à musculatura industrial de uma companhia com décadas de experiência em produtos aeroespaciais complexos. Na prática, isso significa que apostar no Nauru 100D não é apostar apenas em uma empresa isolada, mas em um ecossistema que já provou capacidade de atrair capital estratégico e de gerar produtos além do drone em si, incluindo o desenvolvimento conjunto de mísseis integrados ao Nauru 1000C em parceria com a MBDA.

Sinais de interesse institucional já existem 
O interesse das Forças Armadas no Nauru 100D não é hipotético. O Exército Brasileiro assistiu à demonstração da versão armada durante o Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre, em Brasília, com a presença do comandante da Força, general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva. A Marinha do Brasil, por sua vez, recebeu autoridades da XMobots em sua sede em São Carlos em fevereiro de 2026 para avaliar o emprego do sistema em missões de vigilância litorânea, fluvial e na Amazônia Azul, e formalizou, em janeiro de 2026, cooperação técnica com a empresa e a Petrobras para adaptar a família Nauru a operações embarcadas, com investimento de 40 milhões de reais. Com cerca de 9 kg, o Nauru 100D se enquadra na Categoria 1 (mini e pequenos, de 2 a 150 kg) da classificação de SARP do Exército, voltada a emprego em nível de pelotão e companhia.

Uma janela concreta: o segundo edital de pré-qualificação da DF

O argumento ganhou um componente prático em agosto de 2026. A Diretoria de Fabricação (DF), órgão do Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT) do Exército Brasileiro, publicou o segundo Edital de Pré-Qualificação de drones de ataque, com o objetivo de identificar sistemas não tripulados de ataque com maturidade técnica demonstrada, para subsidiar decisão posterior quanto a emprego experimental, aquisição experimental, obtenção direta de prateleira ou continuidade de desenvolvimento. O processo abrange sistemas de propulsão elétrica com peso máximo de decolagem de 15 kg (Categoria 1), divididos em duas classes: DLM (drone lançador de munição) e SMRP (sistema de munição remotamente pilotada, os chamados "drones kamikaze"). 

Há videoconferência de esclarecimento marcada para 26 de agosto, e o prazo de inscrição das empresas interessadas se encerra em 4 de setembro de 2026. A distinção entre as duas classes é decisiva para este piloto: enquanto o SMRP corresponde a munições de emprego único, a classe DLM descreve exatamente o conceito do Nauru 100D UCAV, um drone lançador de munição que retorna à base e é reempregado, e não uma munição vagante que se destrói no impacto. Com cerca de 9 kg, o 100D está folgadamente dentro do teto de 15 kg estabelecido para a Categoria 1. Diferentemente das demonstrações e visitas institucionais já registradas, este edital representa um canal formal e com prazo definido pelo qual a XMobots pode submeter oficialmente o Nauru 100D UCAV à avaliação do Exército, o que torna a janela de oportunidade para a plataforma concreta e imediata, não apenas conceitual.

Imagem renderizada por IA

O que ainda falta percorrer 
As versões UCAV e Swarm do Nauru 100D permanecem, oficialmente, em fase de estudo e validação conceitual, sem contrato de aquisição firmado pelas Forças Armadas até o momento. A maturidade operacional de uma arma (resistência a contramedidas eletrônicas em ambiente real, autonomia de voo com carga útil de munição, produção em escala da versão armada) ainda precisa ser demonstrada além do ambiente controlado dos testes já realizados. Ainda assim, a combinação de histórico empresarial consolidado, presença acionária da Embraer, sistemas da XMobots já em uso operacional pelo Exército e pela Marinha, e uma arquitetura de custo pensada para as limitações orçamentárias brasileiras, coloca o Nauru 100D em posição de destaque entre as alternativas nacionais disponíveis para suprir uma lacuna que, sem solução doméstica, tende a ser preenchida por importação, com todo o custo financeiro e estratégico que isso implica. 

Saiba mais 
- Brasil avança para o campo de batalha autônomo: XMobots revela drone de combate com capacidade de retorno à base

- XMobots apresenta conceito de sistema contentorizado para lançamento de enxames de drones 

16 agosto, 2026

A expansão silenciosa da Embraer para dentro da defesa nacional

Por trás de cada parceria isolada, uma arquitetura societária que também alcança espaço, cibersegurança, drones e mobilidade aérea urbana


*LRCA Defense Consulting - 16/08/2026

Quando um drone Nauru 1000C, armado com mísseis Enforcer produzidos pela MBDA, sobrevoar um exercício do Exército Brasileiro, poucos observadores associarão aquela plataforma à Embraer. A fabricante brasileira de aeronaves, afinal, é lembrada pelos jatos E2, pelo cargueiro militar KC-390, pelo caça leve Super Tucano e, mais recentemente, pelos eVTOLs da Eve Air Mobility e pelo radar SABER M200 Vigilante. Mas o Nauru 1000C é produzido pela XMobots, empresa da qual a Embraer é acionista desde 2022. E essa não é uma exceção isolada: é a ponta visível de uma rede societária que a companhia vem tecendo, de forma discreta e progressiva, dentro do coração da base industrial de defesa do País.

O mesmo raciocínio vale para as fragatas classe Tamandaré, que a Marinha do Brasil constrói em Itajaí (SC) para proteger a chamada Amazônia Azul. O sistema de gerenciamento de combate e o sistema de gerenciamento de plataforma dessas embarcações são fornecidos pela Atech, subsidiária integral da Embraer, que integra o consórcio Águas Azuis. Aviões, drones armados e agora navios de guerra: o denominador comum é uma mesma companhia, presente em cada elo por meio de participações societárias que raramente aparecem juntas em uma única reportagem.

Drone Nauru 1000C armado com mísseis MBDA Enforcer (inativos)

O quebra-cabeça da defesa
Reunidas, as participações da Embraer no setor de defesa e segurança formam um mosaico que cobre praticamente toda a cadeia de valor de um conflito moderno. Na aviônica e nos veículos aéreos não tripulados, a companhia detém 25% da AEL Sistemas, subsidiária brasileira da israelense Elbit Systems, parceria firmada em 2011 e responsável, entre outros produtos, pelo datalink Link-BR2 e por computadores de missão do KC-390.

Nos drones de médio e grande porte, entrou em 2022 como acionista minoritária da XMobots, maior fabricante de drones da América Latina e responsável pelo Nauru 1000C, plataforma selecionada pelo Exército Brasileiro para missões de inteligência, vigilância, aquisição de alvos e reconhecimento. O aporte foi feito por meio de um fundo de investimento de cotista única, com opção contratual de novos aportes no futuro, cláusula que a companhia já teria utilizado quando a gestora Spectra Investimentos comprou, em 2024, a fatia de 20% que pertencia ao FIP Aerotec, ligado ao governo de Minas Gerais.

No mar, a Embraer participa do consórcio Águas Azuis com 25% de participação total (12% via Embraer Defesa & Segurança e 13% via Atech), ao lado da alemã thyssenkrupp Marine Systems, líder da sociedade de propósito específico com os 75% restantes. É a Atech quem assina, em cooperação com a Atlas Elektronik (subsidiária da própria thyssenkrupp), o sistema de combate das quatro fragatas contratadas pela Marinha, num programa orçado em cerca de R$ 9,1 bilhões.

Na fronteira terrestre, a Embraer Defesa & Segurança atua como integradora principal do SISFRON (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras), programa que cobre os 16.886 quilômetros de fronteira do País com radares, sensores e centros de controle em rede. Parte dessa integração se materializa em Centros de Comando e Controle Móveis (CC2), instalados em viaturas táticas: a conversão física dos veículos fica a cargo de subcontratadas como a RF COM e a ITURRI BRASIL, enquanto a Atech fornece os sistemas de comando e controle que equipam esses centros. Em novembro de 2025, a Embraer entregou ao Exército as primeiras quatro unidades de CC2 da Fase 2 do programa, somando mais de 50 soluções veiculares já entregues ao SISFRON entre viaturas de comunicações, centros móveis e postos de comando.

Na cibersegurança, área cada vez mais tratada como ativo estratégico de defesa, a Embraer é uma das cotistas do FIP Aeroespacial, fundo que reúne também BNDES, Finep e Desenvolve SP. Foi por meio dele que a companhia investiu R$ 20 milhões na Kryptus, empresa de Campinas reconhecida pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa e fornecedora de soluções de criptografia para a Marinha, o Exército, a Força Aérea e a Agência Brasileira de Inteligência. Na mesma semana daquele aporte, em julho de 2020, a Embraer assinou também a compra de participação acionária majoritária na Tempest Security Intelligence, uma das maiores companhias de cibersegurança do Brasil, que hoje figura formalmente como subsidiária do grupo.

 

Um ecossistema maior do que a defesa
Essa capilaridade em defesa não nasceu isolada: é parte de um movimento mais amplo de diversificação que a Embraer vem construindo há pelo menos uma década, e que hoje inclui setores civis estratégicos. O caso mais visível é a Eve Air Mobility, dedicada à mobilidade aérea urbana, da qual a Embraer detém aproximadamente 73% do capital social, com ações negociadas diretamente na NYSE. A fatia já foi maior (chegou a superar 90% logo após a fusão com a Zanite Acquisition Corp, em 2021) e vem sendo diluída à medida que novos investidores, entre eles a japonesa Nidec, aportam capital para acelerar a certificação do eVTOL.

No setor espacial, a Visiona Tecnologia Espacial é uma joint venture entre a Embraer Defesa & Segurança e a Telebras, responsável, entre outros projetos, pelo satélite VCUB1. Na manutenção aeronáutica internacional, a Embraer é dona de 65% da centenária OGMA, em Portugal, com os 35% restantes em mãos da estatal portuguesa idD. E na propulsão elétrica para aviação, a Nidec Aerospace, joint venture com sede em St. Louis (Estados Unidos), tem a Nidec como sócia majoritária, com 51%, e a Embraer com os 49% restantes, tendo justamente a Eve como cliente-lançadora dos motores elétricos que devem entrar em produção em massa a partir de 2026.

Ainda em julho de 2026, a Embraer concluiu a compra dos 50% remanescentes da EZ Air Interior, joint venture com a francesa Safran Cabin que produzia compartimentos de bagagem e painéis para a família E-Jet no México, tornando-se controladora integral da operação. É um sinal de que o apetite societário da companhia não se restringe à defesa: onde há tecnologia estratégica, sinergia industrial ou simples racional financeiro, a Embraer tende a aparecer como sócia, não apenas como cliente.

 

A engenharia por trás das participações
O que chama atenção nesse mapeamento não é apenas a variedade de setores, mas a precisão com que a Embraer calibra cada percentual de participação. Nos negócios em que busca controle efetivo, como a Eve (73%) ou a OGMA (65%), a companhia garante maioria acionária. Já nas parcerias em que prefere dividir risco tecnológico e financeiro sem abrir mão de influência estratégica, como a Nidec Aerospace (49%) ou a Águas Azuis (25%), aceita posições minoritárias, mas com direito a assento nas decisões técnicas mais sensíveis, como os sistemas de combate das fragatas.

Essa engenharia societária passa também por veículos financeiros pouco conhecidos do grande público, como fundos de investimento em participações (FIP) de cotista única, no caso da XMobots, ou fundos compartilhados com bancos públicos de fomento, como o FIP Aeroespacial (Kryptus e Tempest). São instrumentos que permitem à companhia testar apostas tecnológicas com exposição financeira limitada e, quando o negócio amadurece, decidir se aumenta a aposta, como fez na XMobots em 2024, ou se assume o controle total, como fez na EZ Air Interior em 2026.

Uma gigante que também é uma rede
O momento em que essa arquitetura societária ganha relevância pública não é aleatório. Em 2026, a Embraer emplacou uma sequência de anúncios em feiras como a Farnborough International Airshow, elevou seu backlog a recordes e viu o KC-390 conquistar novos clientes, do Oriente Médio à Europa. É justamente nesse momento de maior projeção global que a rede de participações da companhia, historicamente tratada como assunto de bastidor corporativo, passa a ter peso estratégico direto para o País: cada satélite lançado pela Visiona, cada fragata equipada pela Atech e cada drone armado produzido pela XMobots carrega, em algum grau, capital e tecnologia da Embraer.

Mais do que uma fabricante de aeronaves civis e militares, a Embraer se consolida como um nó central da base industrial de defesa e tecnologia brasileira, um papel que, justamente por se espalhar em participações minoritárias e joint ventures pouco divulgadas, tende a passar despercebido, mas que, montado peça por peça, revela uma estratégia de longo prazo, deliberada e coerente com a ambição de a companhia se firmar como uma das gigantes da aviação e da defesa em escala global.

21 junho, 2026

XMobots apresenta conceito de sistema contentorizado para lançamento de enxames de drones

Solução baseada na plataforma Nauru 100D prevê lançamento coordenado de até 30 aeronaves para missões de vigilância, reconhecimento e ataque, colocando a indústria brasileira de defesa em sintonia com tendências observadas nos conflitos contemporâneos 

*LRCA Defense Consulting - 21/06/2026

Entre as novidades apresentadas durante o Drone Show Robotics 2026, uma das que mais despertaram interesse no setor de defesa foi o conceito de sistema contentorizado projetável da XMobots para emprego de enxames de sistemas aéreos não tripulados. Baseado na plataforma Nauru 100D, o sistema foi concebido para armazenar, transportar e lançar múltiplas aeronaves destinadas a missões de vigilância, reconhecimento e ataque coordenado.

A proposta representa um avanço significativo em relação ao uso tradicional de drones táticos individuais. Instalado em um contêiner padrão de 20 pés, o sistema pode ser transportado por diferentes meios logísticos (rodoviário, ferroviário, aéreo ou marítimo) e deslocado rapidamente para áreas de interesse operacional.

Segundo informações divulgadas pela empresa, a configuração apresentada prevê o lançamento de até 30 drones em uma única operação. Desse total, três seriam empregados em missões de inteligência, vigilância, aquisição e reconhecimento de alvos (ISTAR), enquanto os demais atuariam em funções ofensivas.

Conceito de sistema contentorizado projetável da XMobots para emprego de enxames de drones (Créditos: @Defence360)

Guerra de enxame
O conceito se insere em uma das principais tendências observadas nos conflitos recentes: o uso de enxames de drones para ampliar a consciência situacional e saturar sistemas defensivos adversários.

Nesse modelo de operação, aeronaves de reconhecimento são lançadas inicialmente para identificar objetivos, transmitir informações em tempo real e atualizar a situação tática. A partir desses dados, os drones de ataque podem ser direcionados contra alvos previamente selecionados, atuando de forma coordenada.

A lógica é simples: em vez de depender de uma única plataforma de alto valor, emprega-se um conjunto de aeronaves menores e mais numerosas, aumentando a resiliência da missão e impondo desafios adicionais aos sistemas de defesa antiaérea.

Especialistas apontam que esse tipo de abordagem ganhou relevância após os conflitos na Ucrânia, no Oriente Médio e no Cáucaso, onde drones de baixo custo passaram a desempenhar papel central em operações de reconhecimento e ataque de precisão.

Mobilidade e flexibilidade

Um dos aspectos mais interessantes do sistema apresentado pela XMobots é sua arquitetura contentorizada.

Ao concentrar armazenamento, preparação, alimentação elétrica e lançamento em um único módulo transportável, o conceito reduz a necessidade de infraestrutura especializada e facilita a dispersão dos meios no terreno.

Em tese, o sistema poderia ser deslocado rapidamente para bases avançadas, áreas remotas ou pontos estratégicos, permanecendo em condição de emprego imediato.

Essa característica também amplia as possibilidades de integração com operações terrestres, navais e de proteção de infraestruturas críticas.

Evolução do Nauru 100D
A iniciativa deriva do Nauru 100D, sistema aéreo não tripulado apresentado pela XMobots para missões táticas de vigilância e reconhecimento.

A plataforma possui capacidade de decolagem e pouso vertical (eVTOL), sensores eletro-ópticos e infravermelhos, além de recursos de inteligência artificial para rastreamento automático de pessoas, veículos e outros alvos de interesse.

Com baixa assinatura acústica e reduzida necessidade de infraestrutura para operação, o Nauru 100D foi concebido para atender demandas de forças militares, órgãos de segurança pública e missões de monitoramento estratégico.

O novo conceito amplia significativamente o escopo da plataforma ao incorporar a possibilidade de operações em enxame e missões ofensivas coordenadas.

Brasil acompanha tendências globais
A apresentação ocorre em um momento de transformação acelerada no setor de defesa.

Nos últimos anos, países como Rússia, Ucrânia, Israel, Turquia, Estados Unidos, China e Irã investiram pesadamente em drones de ataque, munições vagantes e sistemas autônomos capazes de operar em grupos coordenados.

Ao apresentar uma solução com características semelhantes, a XMobots sinaliza a intenção de posicionar a indústria brasileira em um segmento de elevado valor tecnológico e crescente demanda internacional.

Mais do que uma nova aeronave, o sistema representa uma mudança de paradigma: a transição de operações centradas em plataformas individuais para arquiteturas distribuídas, nas quais dezenas de veículos cooperam para cumprir uma mesma missão.

Próximos passos
Apesar da repercussão positiva entre os participantes do evento, diversos detalhes permanecem sob sigilo. 

Como o sistema é, por enquanto, um conceito tecnológico que está em fase de avaliação de interesses e captura de requisitos, ainda não tem previsão de desenvolvimento. Por este motivo, a empresa não divulgou informações sobre os sistemas de comunicação utilizados, o nível de autonomia das aeronaves, a resistência a ações de guerra eletrônica ou o cronograma para eventual produção em série.

Mesmo assim, a solução já figura entre os projetos mais promissores apresentados pela indústria nacional de defesa nos últimos anos.

Caso alcance maturidade operacional, o sistema contentorizado baseado no Nauru 100D poderá representar um marco para a capacidade brasileira de desenvolver e empregar tecnologias de guerra em enxame, um dos campos mais dinâmicos e estratégicos da moderna guerra não tripulada.
 

16 maio, 2026

Alto escalão da Marinha visita XMobots e reforça parceria estratégica em drones nacionais

Almirante de esquadra e contra-almirante estiveram em São Carlos para conhecer os sistemas Nauru 100D, 500C e 1000C; relação entre a força naval e a empresa já inclui contrato vigente, testes operacionais com fuzileiros navais e acordo de R$ 40 milhões firmado com a Petrobras. 


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LRCA Defense Consulting - 16/05/2026

A XMobots, maior fabricante de drones da América Latina e empresa 100% nacional que conta com participação minoritária da Embraer, recebeu esta semana uma das visitas institucionais de maior peso já realizadas por representantes das Forças Armadas brasileiras a uma empresa privada de defesa. Segundo divulgação da própria companhia no LinkedIn, uma comitiva da Marinha do Brasil formada pelo Almirante de Esquadra Edgar Luiz Siqueira Barbosa, Diretor-Geral do Material da Marinha (DGMM); pelo Contra-Almirante Alexandre Veras Vasconcelos, Diretor da Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM); e pelo Capitão de Corveta Leonardo Rabetim de Oliveira, assistente do DGMM, visitou a sede da empresa em São Carlos (SP) para conhecer suas capacidades fabris, operacionais e de engenharia.

As fotos divulgadas mostram os oficiais sendo apresentados aos três modelos da família Nauru voltados à defesa: o Nauru 100D, drone tático de 9 kg projetado para missões de inteligência, vigilância, aquisição de alvos e reconhecimento (ISTAR); o Nauru 500C ISR, primeiro VTOL híbrido certificado pela Anac para voos além da linha de visada (BVLOS); e o Nauru 1000C ISTAR, plataforma de 150 kg já em uso pelo Exército Brasileiro e pela própria Marinha para missões de vigilância e reconhecimento de fronteiras e de áreas marítimas.

No comunicado, a XMobots descreveu o encontro como uma oportunidade de "aproximar as parcerias já existentes em projetos estratégicos", indicação de que a visita não representou uma aproximação inicial, mas o aprofundamento de uma relação institucional já consolidada.

Uma parceria construída em etapas
O interesse da Marinha pelos sistemas da XMobots tem raízes anteriores à visita desta semana. Em outubro de 2024, a força naval recebeu formalmente o drone Nauru 500C, rebatizado internamente como RQ-2, fruto de um acordo com Shell Brasil, CLS Brasil e XMobots para desenvolvimento de sistemas de busca e salvamento marítimo. O equipamento foi incorporado ao 1º Esquadrão de Aeronaves Remotamente Pilotadas (EsqdQE-1), vinculado ao Corpo de Fuzileiros Navais.

Em dezembro do mesmo ano, a Marinha ativou o Esquadrão de Drones Táticos de Esclarecimento e Ataque do Corpo de Fuzileiros Navais, demonstrando o compromisso institucional da força com a incorporação de sistemas não tripulados ao seu arsenal. E em janeiro de 2026, XMobots, Marinha do Brasil e Petrobras assinaram acordo de cooperação técnica no âmbito do projeto MMRE (Monitoramento Marítimo com Recursos Embarcados), com investimento total de R$ 40 milhões. O objetivo é adaptar os drones da família Nauru para operar a partir de navios em movimento, além de apoiar o monitoramento ambiental da Amazônia Azul e o combate ao tráfico no mar territorial brasileiro.

O projeto prevê adaptações significativas nos sistemas dos drones para suportar as condições severas do ambiente marítimo - salinidade elevada, umidade extrema, ventos fortes - além do desenvolvimento de algoritmos que permitam pousos e decolagens a partir de embarcações em movimento, como fragatas e navios-patrulha. Os testes de validação estão sendo realizados na Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia (RJ) e a bordo de embarcações da própria Marinha.

 

Fuzileiros navais testam o Nauru 100D na Marambaia
Paralelamente ao projeto MMRE, o drone tático Nauru 100D passou por avaliação operacional conduzida pelo Corpo de Fuzileiros Navais no Centro de Avaliação da Ilha da Marambaia (CADIM), na Baía de Sepetiba (RJ). Segundo relato da própria XMobots, o sistema foi submetido a voos diurnos e noturnos com rastreamento de embarcações, identificação de alvos com câmeras térmicas e eletro-ópticas, além de testes de facilidade de montagem e transporte.

A comitiva de avaliação reunia representantes do Batalhão de Combate Aéreo do Corpo de Fuzileiros Navais (BtlCmbAe) e do EsqdQE-1, além de pessoal das áreas de compras e materiais da força. O evento foi coordenado pelo Capitão de Mar e Guerra (FN) Carlos Alexandre Tunala da Silva, gerente de drones do Comando do Material de Fuzileiros Navais, que em fevereiro de 2026 já havia visitado a sede da XMobots em São Carlos para uma avaliação institucional prévia. Os resultados dos testes na Marambaia foram descritos internamente como "muito positivos".

O interesse dos fuzileiros navais pelo Nauru 100D tem explicação operacional direta. Em missões anfíbias, o sistema pode ser lançado a partir de embarcações para mapear praias de desembarque, identificar posições inimigas e transmitir imagens ao comandante da operação antes mesmo do primeiro fuzileiro pisar em terra. Com peso de 9 kg, montagem em menos de três minutos e operação por dois soldados, o drone oferece consciência situacional em tempo real sem expor pessoal a riscos desnecessários. Sua tecnologia de decolagem e pouso vertical (eVTOL) elimina a necessidade de pistas ou catapultas, o que é especialmente relevante para operações em ambientes costeiros, fluviais e insulares.

 

Tecnologia 100% nacional em um contexto geopolítico de urgência
O aprofundamento da relação entre a Marinha e a XMobots ocorre num momento em que os conflitos contemporâneos, sobretudo o da Ucrânia, reescreveram as doutrinas militares globais sobre o uso de drones. O que antes era tratado como recurso auxiliar passou a ser reconhecido como elemento central do campo de batalha moderno. Enxames de aeronaves não tripuladas saturaram sistemas de defesa antiaérea, drones FPV de baixo custo destruíram blindados avaliados em milhões de dólares, e sistemas de reconhecimento definiram batalhas ao fornecer coordenadas precisas para artilharia.

Nesse contexto, a escolha por tecnologia 100% nacional tem valor estratégico que vai além do custo. Um sistema cujos componentes dependem de fornecedores estrangeiros pode ter seu suprimento interrompido por sanções econômicas, embargos ou decisões comerciais de outros governos. A XMobots é hoje a única empresa brasileira com domínio vertical completo da cadeia de desenvolvimento de drones: hardware, software, sensores e inteligência artificial são todos produzidos internamente, com taxa de nacionalização próxima a 90% dos componentes.

Fundada em 2007 em São Carlos (SP) com foco inicial no agronegócio, a empresa acumula hoje mais de 700 colaboradores, entre os quais cerca de 60 engenheiros de pesquisa e desenvolvimento. É classificada como a 6ª maior fabricante de drones do mundo e a maior da América Latina, segundo a plataforma Drone Industry Insights. Desde 2022, conta com participação minoritária da Embraer em seu capital. Em paralelo, firmou acordo com a europeia MBDA para desenvolver uma versão armada do Nauru 1000C equipada com mísseis Enforcer, o que seria o primeiro sistema de arma aéreo não tripulado genuinamente brasileiro.

Do reconhecimento ao combate: o horizonte que a Marinha também avalia
Embora as parcerias formais firmadas até agora com a Marinha estejam centradas em vigilância, reconhecimento e monitoramento ambiental, a XMobots já tornou públicos dois conceitos que ampliam o escopo operacional da plataforma Nauru 100D. O primeiro é a versão UCAV (Unmanned Combat Aerial Vehicle), que prevê capacidade de ataque de precisão com munição de alto explosivo (HE) e carga antitanque (HEAT), correção de trajetória em tempo real e, sobretudo, retorno à base para rearmamento e novas missões, diferenciando o sistema das chamadas munições vagantes (drones kamikazes), descartadas no impacto.

O segundo conceito, chamado de Swarm (enxame), prevê o lançamento simultâneo de até 30 aeronaves a partir de um contêiner de 20 pés instalado em um caminhão ou navio. Três delas seriam destinadas ao reconhecimento e identificação de alvos por inteligência artificial; as outras 27, ao ataque coordenado e autônomo. O alcance do sistema variaria entre 120 km e 340 km, dependendo da versão. Ambos os conceitos estão em fase de desenvolvimento e validação, e a empresa declarou ter iniciado a fabricação de um lote-teste de 20 sistemas, com pedidos iniciais já recebidos.

Para a Marinha, o potencial dessas versões avançadas é considerável. Um enxame lançado de um navio poderia saturar defesas inimigas em operações de projeção de poder ou em cenários de defesa do litoral, enquanto as unidades de reconhecimento forneceriam inteligência em tempo real ao comandante da operação, uma doutrina que, até poucos anos, era exclusividade de potências como Estados Unidos e Israel.

 

O significado da visita atual
A presença do Diretor-Geral do Material da Marinha - um almirante de esquadra, o posto mais alto da hierarquia operacional abaixo do Comandante da Marinha - em uma visita técnica a um fabricante privado é um evento fora do comum. O DGMM é o responsável máximo pela cadeia logística e de material de toda a força naval, incluindo a aprovação de sistemas e equipamentos a serem incorporados ao inventário da Marinha. Sua presença em São Carlos, ao lado do Diretor da Aeronáutica da Marinha, sinaliza que as conversações entre a força e a XMobots alcançaram um nível institucional que vai além de projetos pontuais.

A Amazônia Azul, com os cerca de 5,7 milhões de km² de águas jurisdicionais sobre as quais o Brasil reivindica direitos soberanos, permanece como o principal vetor desta aproximação. Monitorar uma área desse porte com meios exclusivamente tripulados é operacionalmente inviável e economicamente insustentável. Drones com autonomia de até 10 horas, alcance de 60 km e capacidade de operar a partir de navios em movimento representam um multiplicador de força concreto para uma marinha que precisa vigiar fronteiras líquidas de dimensões continentais.

A decisão de incorporar novas plataformas da XMobots ao inventário da Marinha ainda depende de processos formais de aquisição, aprovação orçamentária e prioridades estratégicas. Mas a sequência de eventos dos últimos meses: contrato vigente, testes operacionais bem-sucedidos, acordo de R$ 40 milhões assinado e agora uma visita de alto escalão, sugere que o caminho entre interesse e aquisição nunca esteve tão curto.

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