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04 novembro, 2026

FlyBIS firma encomenda de eVTOLs da Eve, da Embraer, para o litoral catarinense e Serra Gaúcha

Acordo vinculante prevê duas aeronaves firmes e direitos de compra para outras dez; volume é menor que as 40 unidades anunciadas em 2022, mas marca a passagem da fase de intenções para o compromisso de frota no Sul do País 



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LRCA Defense Consulting - 04/11/2026 -  10h17

A Eve Air Mobility, empresa do grupo Embraer que desenvolve aeronaves elétricas de pouso e decolagem vertical (eVTOL), assinou nesta quarta-feira (4) um acordo vinculante com a FlyBIS Aviation Limited para o fornecimento de até 12 aeronaves. O contrato reúne duas encomendas firmes e direitos de compra para mais dez unidades, que deverão ser empregadas pela startup de mobilidade aérea avançada, sediada em Caxias do Sul (RS), em ligações entre cidades de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.

O anúncio foi divulgado a partir de Melbourne, na Flórida (EUA), e dá sequência à carta de intenções (Letter of Intent) que as duas empresas firmaram em dezembro de 2022. Na ocasião, a FlyBIS havia sinalizado a intenção de adquirir até 40 eVTOLs da Eve, número que passou a integrar a carteira de pedidos da fabricante, então estimada em até 2.770 aeronaves, como noticiou o LRCA na época.

Litoral e serra 
Entre as rotas em estudo estão conexões no litoral catarinense, envolvendo Navegantes, Balneário Camboriú e Florianópolis, e serviços para destinos turísticos da Serra Gaúcha, como Gramado e Bento Gonçalves. O desenho combina dois perfis de demanda: o fluxo de negócios e de veraneio na faixa litorânea de Santa Catarina e o turismo de serra no Rio Grande do Sul.

O argumento não é novo. Em 2022, o cofundador e CEO da FlyBIS, Gustavo Zanettini, já apontava que, em determinados trechos da região, percorrer 30 km de carro podia levar mais de uma hora e meia, dependendo da época do ano e do trânsito, o que tornaria essas ligações candidatas naturais à substituição pelo eVTOL. As distâncias envolvidas são, em tese, compatíveis com o alcance de cerca de 100 km projetado para a aeronave da Eve, que transportará quatro passageiros e um piloto.

“Este acordo vinculante é um passo importante em nossa relação com a FlyBIS e mostra como nossos clientes estão avançando do desenvolvimento inicial de mercado para compromissos concretos de frota”, afirmou Johann Bordais, CEO da Eve. Segundo ele, o Sul do Brasil concentra alta demanda por conexões de mobilidade aérea urbana justamente por reunir forte atividade turística e empresarial.

Para Zanettini, a assinatura representa um marco para a empresa e a aproxima da introdução de uma nova forma de conectividade regional e urbana na região. “A abordagem integrada da Eve, que combina a aeronave com serviços e suporte operacional, oferece uma base sólida enquanto nos preparamos para as futuras operações”, declarou.

As duas empresas seguirão trabalhando nos requisitos para a entrada em serviço, o que inclui planejamento de malha, prontidão operacional, infraestrutura e integração dos voos ao sistema de transporte mais amplo. O comunicado não traz data para o início das operações nem a localização dos vertiportos, mas os passos dados pela FlyBIS nos últimos meses ajudam a desenhar esse mapa.

Gramado e Santa Catarina 
Em 27 de julho de 2026, a FlyBIS assinou protocolo de intenções com a Prefeitura de Gramado para implantar uma das primeiras operações comerciais de eVTOL do País, com início previsto para 2028, conforme publicou o LRCA. O primeiro vertiporto da cidade deverá ser construído no complexo turístico Sirena Gramado, no bairro Mato Queimado, empreendimento de 205 hectares liderado por Dody Sirena e estimado em cerca de R$ 1 bilhão. A ligação entre Porto Alegre e o complexo foi estimada em 25 minutos de voo.

O protocolo com o município foi precedido por um memorando de entendimento com o Grupo Sirena, firmado em maio, durante o Gramado Summit. A empresa também celebrou acordo semelhante com o governo de Santa Catarina, que prevê operações na Ilha de Florianópolis no primeiro ano e, em uma segunda etapa, voos para Balneário Camboriú, Joinville e Porto Alegre. No Rio Grande do Sul, a malha inicial envolveria Gramado, Canela, Bento Gonçalves e Caxias do Sul, com expansão futura planejada para Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile.

Na ocasião, a FlyBIS informou que as três primeiras aeronaves seriam entregues no primeiro ano de operação no Rio Grande do Sul. O acordo agora assinado, com duas unidades firmes, sugere que a operação inaugural deverá começar em escala mais enxuta, ampliada conforme o exercício dos direitos de compra.

De 40 para 12 
A redução em relação ao número de 2022 chama atenção, mas deve ser lida à luz do mercado de eVTOLs, no qual cartas de intenção costumam expressar potencial de demanda, enquanto contratos vinculantes exigem compromisso financeiro. É essa conversão que investidores e analistas acompanham com mais atenção. Na teleconferência de resultados do segundo trimestre de 2026, Bordais informou que a Eve contava com cerca de 100 encomendas firmes, vindas da Revo e da AirX, dentro de uma carteira de aproximadamente 2.700 aeronaves avaliada em cerca de US$ 13,5 bilhões a preço de tabela, composta majoritariamente por cartas de intenção.

A estrutura do acordo com a FlyBIS se assemelha à adotada com a japonesa AirX, que em fevereiro de 2026 firmou pedido vinculante de até 50 aeronaves, com duas unidades firmes e opções para outras 48. A Revo, operadora paulistana controlada pela Omni Helicopters International (OHI), foi a primeira cliente a assinar contrato vinculante, em junho de 2025, durante o Paris Air Show, para até 50 eVTOLs, em negócio estimado em US$ 250 milhões. A própria Eve afirma que o Brasil já tem dois operadores comprometidos com a implantação de sua aeronave e vários outros interessados.

Quem é a FlyBIS 
Fundada em 10 de março de 2022, em Caxias do Sul, a FlyBIS tem como sócios Carlos Alberto Bertotto, Gustavo Flores da Cunha Zanettini, André Luis Tessari e a holding VZM Aero Participações. Zanettini, que comanda a empresa, é piloto de linha aérea com atuação na Europa e consultor de aviação. A empresa é apoiada pela Brave Aviation, cuja frota inclui jatos Embraer Phenom 100. Zanettini explicou, então, que a atuação da startup se concentraria no Sul do País e no Mercosul porque a Eve já tinha outros parceiros para as demais regiões brasileiras.

O plano original previa o início dos serviços em 2026, calendário que acompanhava a expectativa de certificação da aeronave à época e que acabou superado pelo cronograma do programa. Agora, a FlyBIS informa que está lançando uma nova rodada estratégica de captação de recursos para financiar a aquisição da frota, ampliar parcerias e expandir sua rede. O sucesso dessa captação tende a ser decisivo para que os dez direitos de compra sejam efetivamente exercidos.

O estágio do programa 
O acordo chega em um momento de avanço técnico do eVTOL da Eve. Após o primeiro voo, no fim de 2025, o protótipo de engenharia em escala real superou a marca de 70 voos. Em maio de 2026, a empresa encerrou o bloco de voos pairados (hover) e de baixa velocidade, depois de 59 voos. Em 3 de agosto, realizou o primeiro voo de transição parcial, com a ativação em voo da hélice propulsora traseira (pusher): o ensaio durou 3 minutos e 9 segundos e atingiu velocidade máxima de 30 nós (cerca de 55 km/h).

A fase de transição, em que a aeronave deixa de depender apenas dos oito rotores de sustentação e passa a voar apoiada nas asas (wing-borne flight), é considerada uma das mais críticas e de maior risco em projetos de configuração lift + cruise, como o da Eve. A empresa amplia progressivamente o envelope de voo nessa etapa e prevê iniciar, a partir do fim de 2026, a montagem de seis protótipos conformes, que serão usados na campanha de certificação.

O cronograma, contudo, foi revisto. A certificação de tipo pela ANAC, autoridade primária do programa, que antes era projetada para 2027, passou a ser esperada para 2028, mesmo horizonte indicado para a entrada em serviço. Em paralelo, a Eve conduz processos de validação junto à FAA, dos Estados Unidos, e à EASA, da União Europeia. A produção em série está prevista para a fábrica de Taubaté (SP).

Infraestrutura em discussão 
A preparação do ambiente regulatório e de infraestrutura foi tema de reunião promovida em 21 de setembro pelo Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), em Brasília, com representantes da Secretaria Nacional de Aviação Civil (SAC), da ANAC, do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) e da Eve. Na ocasião, ANAC e Eve projetaram para 2028 as primeiras operações comerciais de eVTOLs no País.

Em uma segunda etapa, o encontro foi ampliado aos ministérios do Turismo, de Minas e Energia e da Ciência, Tecnologia e Inovação, além da Anatel e da ANTT. Estiveram em pauta a certificação, os vertiportos, o fornecimento de energia para recarga, a segurança operacional, as telecomunicações e a integração ao espaço aéreo, temas que também condicionarão a viabilidade das rotas planejadas pela FlyBIS.

Para a Eve, que tem ações negociadas na Bolsa de Nova York (EVEX) e recibos de ações (BDR) na B3 (EVEB31), o Brasil reúne condições para estar entre os primeiros mercados a ganhar escala comercial após a certificação: apoio governamental e regulatório, um ecossistema em amadurecimento e forte demanda de passageiros em cidades onde a infraestrutura não acompanhou o crescimento. O contrato com a FlyBIS acrescenta ao mapa uma região fora do eixo São Paulo-Rio de Janeiro, com perfil marcadamente turístico, e transforma em compromisso firme uma parceria que, por quase quatro anos, permaneceu no campo das intenções.

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