Vídeo viral credita ao E190F voos noturnos no Brasil e uma vitória sobre a Boeing; a apuração mostra um programa premiado e tecnicamente sólido, que estreou na Europa em 2026 e ainda busca escala
*LRCA Defense Consulting - 08/11/2026 - 18h00
Um vídeo publicado pelo canal Radar Explicado, no YouTube, sob o título “Como a Embraer Transformou Seu Jato de Passageiros em Mina de Ouro!”, vem circulando com uma narrativa sedutora: jatos pintados de amarelo, com a marca da maior plataforma de e-commerce da América Latina, pousariam de madrugada nos principais aeroportos do País operando o E190F, o cargueiro convertido da Embraer, enquanto a Boeing teria sido apanhada de surpresa num nicho que desprezou. A apuração do LRCA confirma boa parte da lógica de engenharia e de mercado apresentada, mas encontra imprecisões que mudam o retrato. Os jatos amarelos que voam no Brasil não saíram do programa de fábrica da Embraer, e o E-Freighter, embora premiado e certificado nos três principais mercados regulatórios do mundo, avança em ritmo bem mais cauteloso do que o vídeo sugere.
O vazio das 15 toneladas
O ponto de partida do raciocínio está correto e é bem conhecido no setor. A carga típica do comércio eletrônico (caixas de calçados, roupas, eletrônicos embalados) ocupa muito espaço e pesa pouco. Nesse tipo de operação, o avião esgota o volume do porão antes de atingir o limite de peso, situação que os operadores descrevem como cube out em vez de weigh out. Um Boeing 737-800BCF, projetado para algo em torno de 23 toneladas, voa com capacidade estrutural ociosa quando lotado de pacotes leves. Na outra ponta, turboélices como o ATR 72F são econômicos, mas lentos e limitados a cerca de 8 a 9 toneladas.
Foi nesse intervalo que a Embraer posicionou o E190F e o E195F ao lançar o programa P2F (passenger to freighter), em 7 de março de 2022, em São José dos Campos (SP). Segundo a fabricante, os E-Jets convertidos oferecem mais de 40% de capacidade volumétrica e três vezes o alcance dos grandes turboélices cargueiros, com custos operacionais até 30% menores do que os de jatos de fuselagem estreita maiores. A empresa estima um mercado de cerca de 700 aeronaves dessa classe em 20 anos, sendo 250 para reposição de frotas existentes e 450 por crescimento da demanda, e identificou aproximadamente 470 E-Jets da primeira geração (380 E190 e 90 E195) disponíveis para conversão no mundo, à medida que as companhias migram para a família E2.
Uma cirurgia de fábrica
A conversão é feita nas instalações da Embraer no Brasil e vai muito além de retirar poltronas. O pacote inclui uma porta de carga dianteira de grandes dimensões no convés principal, sistema de movimentação de carga, reforço do piso, barreira rígida de carga de 9G com porta de acesso, sistema de detecção de fumaça com extintores para compartimento classe E no convés superior, alterações no sistema de gerenciamento de ar (refrigeração e pressurização) e provisões para o transporte de materiais perigosos. O sistema de carregamento foi desenvolvido pela U.S. Cargo Systems, da Carolina do Norte, e certificado pela FAA junto com a aeronave.
O vídeo descreve com riqueza a engenharia do recorte na fuselagem pressurizada e os reforços em torno da nova porta, inclusive o uso de anéis em titânio. A lógica de redistribuição de esforços é a de qualquer conversão estrutural séria, mas a Embraer não divulga publicamente o detalhamento dos materiais empregados, e esses pormenores devem ser lidos como interpretação do canal.
Nos números, há convergência. Somando o porão inferior e o convés principal, a carga útil estrutural máxima do E190F é de 13.150 kg, segundo a Embraer (versões anteriores do material da empresa falavam em 13.500 kg). Considerando a densidade típica do e-commerce, a carga útil líquida fica em 10.700 kg para o E190F e 12.300 kg para o E195F, exatamente os valores citados pelo canal. A fabricante informa que o sistema de carregamento acomoda até nove paletes e contêineres.
Certificação em tempo recorde
O primeiro E190F, de propriedade da arrendadora norte-americana Regional One, voou em 5 de abril de 2024, em São José dos Campos, e foi exibido publicamente em julho daquele ano no Farnborough International Airshow, no Reino Unido. A ANAC certificou a conversão em julho de 2024; a FAA, em setembro, com anúncio em 10 de outubro; e a EASA emitiu o certificado de tipo em 7 de novembro de 2024, divulgado pela Embraer em 10 de fevereiro de 2025, o que habilitou o cargueiro para operações globais.
Ao todo, foram 29 meses de desenvolvimento. O desempenho rendeu à Embraer, em março de 2026, o Program Excellence Award da Aviation Week na categoria OEM, como o LRCA registrou à época. Para o diretor de Programas de Aviação Comercial da empresa, Marcelo Tocci, o E-Freighter abriu uma nova fronteira para a fabricante ao transformar uma plataforma consagrada num cargueiro sob medida para a logística do comércio eletrônico.
Os jatos amarelos não são E190F
É aqui que a narrativa do vídeo tropeça. Os jatos com a pintura do Mercado Livre que operam no Brasil pertencem à Azul Linhas Aéreas Brasileiras e são E195 da primeira geração adaptados pela própria companhia, não E190F convertidos pela Embraer. Ainda em setembro de 2020, em plena pandemia, a Azul obteve autorização para operar o primeiro E195 cargueiro do mundo, com as poltronas removidas para levar pacotes na cabine, e dedicou parte dessas aeronaves a um cliente de comércio eletrônico.
Em fevereiro de 2022, a empresa apresentou o E195 F-Class, desenvolvido em parceria com a LHColus Tecnologia e certificado pela ANAC em 1º de fevereiro daquele ano. O protótipo, de matrícula PR-AXW, estreou comercialmente em 7 de fevereiro, num voo de Viracopos (Campinas) para Porto Alegre. A solução transporta cargas na cabine em contêineres resistentes ao fogo, com detecção de incêndio por câmeras térmicas, mas sem a grande porta de carga lateral que caracteriza o produto da Embraer. Em fevereiro de 2023, o E195 PR-AYJ, também convertido para carga, recebeu a pintura do Mercado Livre, tornando a Azul a terceira empresa no Brasil a voar com as cores da varejista, depois da GOL e da Sideral.
A própria Embraer, ao anunciar a estreia comercial do E-Freighter, ressaltou que as conversões anteriores da Azul envolveram modificações mais limitadas do que as do programa oficial. Em outras palavras, o pioneirismo brasileiro no uso de E-Jets como cargueiros é real, mas pertence à Azul; o E190F de fábrica ainda não opera no País.
Estreia na Europa e retomada comercial
O primeiro voo comercial de um E190F ocorreu em 9 de março de 2026, de Colônia, na Alemanha, para Larnaca, no Chipre, levando cargas expressas sensíveis ao tempo. A operadora lançadora é a Bridges Air Cargo, com certificado de operador aéreo em Malta e clientes como FedEx, DHL e UPS, que recebeu o avião em leasing da Regional One. Um segundo E190F entrou em serviço na mesma empresa em junho. Em setembro, a BermudAir, das Bermudas, anunciou que será a segunda companhia a operar o modelo, com um avião também arrendado da Regional One, voltado a cargas expressas e e-commerce em rotas que ligam o Caribe aos Estados Unidos e ao Canadá.
O impulso mais expressivo veio no Farnborough International Airshow de 2026, em 21 de julho, quando a arrendadora Azorra fechou 20 pedidos firmes de conversão e direitos de compra para mais 10, o maior compromisso já assumido com o programa. A empresa apontou América Latina, Sudeste Asiático, Oriente Médio e África como regiões-alvo. Antes disso, a Nordic Aviation Capital havia reservado até 10 posições de conversão em 2022, e a queniana Astral Aviation firmara memorando para as duas primeiras unidades.
O quadro, porém, está longe da euforia. Segundo levantamento do portal Airway, de setembro de 2026, o programa somava apenas 25 pedidos firmes e duas aeronaves em operação mais de quatro anos após o lançamento. A Embraer suspendeu temporariamente o desenvolvimento do E195F para concentrar esforços no E190F, e o custo da conversão teria reduzido a vantagem econômica para alguns operadores. Executivos da empresa já indicaram que, no futuro, o serviço poderá ser transferido para empresas de MRO (manutenção, reparo e revisão), capazes de oferecer preços menores. Na teleconferência de resultados do primeiro trimestre de 2026, o presidente e CEO, Francisco Gomes Neto, relatou interesse crescente do mercado após a estreia europeia, sobretudo no segmento de comércio eletrônico.
O primeiro E190F, de propriedade da arrendadora norte-americana Regional One, voou em 5 de abril de 2024, em São José dos Campos, e foi exibido publicamente em julho daquele ano no Farnborough International Airshow, no Reino Unido. A ANAC certificou a conversão em julho de 2024; a FAA, em setembro, com anúncio em 10 de outubro; e a EASA emitiu o certificado de tipo em 7 de novembro de 2024, divulgado pela Embraer em 10 de fevereiro de 2025, o que habilitou o cargueiro para operações globais.
Ao todo, foram 29 meses de desenvolvimento. O desempenho rendeu à Embraer, em março de 2026, o Program Excellence Award da Aviation Week na categoria OEM, como o LRCA registrou à época. Para o diretor de Programas de Aviação Comercial da empresa, Marcelo Tocci, o E-Freighter abriu uma nova fronteira para a fabricante ao transformar uma plataforma consagrada num cargueiro sob medida para a logística do comércio eletrônico.
Os jatos amarelos não são E190F
É aqui que a narrativa do vídeo tropeça. Os jatos com a pintura do Mercado Livre que operam no Brasil pertencem à Azul Linhas Aéreas Brasileiras e são E195 da primeira geração adaptados pela própria companhia, não E190F convertidos pela Embraer. Ainda em setembro de 2020, em plena pandemia, a Azul obteve autorização para operar o primeiro E195 cargueiro do mundo, com as poltronas removidas para levar pacotes na cabine, e dedicou parte dessas aeronaves a um cliente de comércio eletrônico.
Em fevereiro de 2022, a empresa apresentou o E195 F-Class, desenvolvido em parceria com a LHColus Tecnologia e certificado pela ANAC em 1º de fevereiro daquele ano. O protótipo, de matrícula PR-AXW, estreou comercialmente em 7 de fevereiro, num voo de Viracopos (Campinas) para Porto Alegre. A solução transporta cargas na cabine em contêineres resistentes ao fogo, com detecção de incêndio por câmeras térmicas, mas sem a grande porta de carga lateral que caracteriza o produto da Embraer. Em fevereiro de 2023, o E195 PR-AYJ, também convertido para carga, recebeu a pintura do Mercado Livre, tornando a Azul a terceira empresa no Brasil a voar com as cores da varejista, depois da GOL e da Sideral.
A própria Embraer, ao anunciar a estreia comercial do E-Freighter, ressaltou que as conversões anteriores da Azul envolveram modificações mais limitadas do que as do programa oficial. Em outras palavras, o pioneirismo brasileiro no uso de E-Jets como cargueiros é real, mas pertence à Azul; o E190F de fábrica ainda não opera no País.
Estreia na Europa e retomada comercial
O primeiro voo comercial de um E190F ocorreu em 9 de março de 2026, de Colônia, na Alemanha, para Larnaca, no Chipre, levando cargas expressas sensíveis ao tempo. A operadora lançadora é a Bridges Air Cargo, com certificado de operador aéreo em Malta e clientes como FedEx, DHL e UPS, que recebeu o avião em leasing da Regional One. Um segundo E190F entrou em serviço na mesma empresa em junho. Em setembro, a BermudAir, das Bermudas, anunciou que será a segunda companhia a operar o modelo, com um avião também arrendado da Regional One, voltado a cargas expressas e e-commerce em rotas que ligam o Caribe aos Estados Unidos e ao Canadá.
O impulso mais expressivo veio no Farnborough International Airshow de 2026, em 21 de julho, quando a arrendadora Azorra fechou 20 pedidos firmes de conversão e direitos de compra para mais 10, o maior compromisso já assumido com o programa. A empresa apontou América Latina, Sudeste Asiático, Oriente Médio e África como regiões-alvo. Antes disso, a Nordic Aviation Capital havia reservado até 10 posições de conversão em 2022, e a queniana Astral Aviation firmara memorando para as duas primeiras unidades.
O quadro, porém, está longe da euforia. Segundo levantamento do portal Airway, de setembro de 2026, o programa somava apenas 25 pedidos firmes e duas aeronaves em operação mais de quatro anos após o lançamento. A Embraer suspendeu temporariamente o desenvolvimento do E195F para concentrar esforços no E190F, e o custo da conversão teria reduzido a vantagem econômica para alguns operadores. Executivos da empresa já indicaram que, no futuro, o serviço poderá ser transferido para empresas de MRO (manutenção, reparo e revisão), capazes de oferecer preços menores. Na teleconferência de resultados do primeiro trimestre de 2026, o presidente e CEO, Francisco Gomes Neto, relatou interesse crescente do mercado após a estreia europeia, sobretudo no segmento de comércio eletrônico.
A Boeing foi mesmo surpreendida?
A tese de que a Embraer “pegou a Boeing de surpresa” é mais retórica do que factual. As grandes fabricantes concentram seus programas de conversão em jatos maiores, como o 737-800BCF e o A321P2F, num segmento de maior porte e volume, e nunca disputaram diretamente a faixa de 10 a 15 toneladas com produto de fábrica. É verdade que não há, hoje, equivalente da Boeing ou da Airbus nessa faixa, e que a Embraer chegou primeiro com certificação tripla. Mas a lacuna identificada pela fabricante brasileira ainda não se converteu em demanda na escala projetada, e o principal concorrente do E190F continua sendo o próprio 737 convertido, abundante e barato no mercado de usados.
Outro ponto exige cautela. O vídeo afirma que o cargueiro emitiria até 25% menos dióxido de carbono por hora de voo do que os cargueiros convertidos de primeira geração. O número que a Embraer divulgou no lançamento do programa, contudo, refere-se a um custo por viagem até 25% menor em comparação com modelos como o Boeing 737-300F, e não a emissões. A empresa associa o ganho ambiental à maior eficiência de uma aeronave mais nova, sem quantificá-lo dessa forma.
O que está em jogo para o País
Mesmo com o ritmo comercial mais lento, o E-Freighter tem valor estratégico para a Embraer e para a indústria aeronáutica nacional. Ao oferecer uma segunda vida aos E-Jets da primeira geração, o programa tende a sustentar o valor residual de uma frota de mais de mil aeronaves espalhadas pelo mundo, atrativo relevante para arrendadoras como Regional One e Azorra. Enquanto a conversão permanecer em São José dos Campos, também preserva no Brasil competências em engenharia estrutural, ensaios e certificação.
No mercado doméstico, a combinação entre o crescimento do e-commerce, a experiência pioneira da Azul com E195 cargueiros e o interesse já manifestado pelos Correios, que em abril de 2024 assinaram com a Embraer um acordo para estudar o uso do E190F, do E195F e do C-390 no transporte de cargas, indica que há espaço para o produto. Se os jatos amarelos que hoje cruzam a madrugada brasileira serão um dia E190F de fábrica, porém, é uma resposta que o mercado ainda não deu.



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