Transição política no país vizinho reacende esperanças
de retomada de parcerias militares interrompidas há quase duas décadas
*LRCA Defense Consulting - 04/01/2026
A saída de Nicolás Maduro do poder na Venezuela e a possível
ascensão de um governo alinhado ao Ocidente colocou em pauta uma questão
estratégica para o Brasil: a retomada de negócios na área de defesa com o país
vizinho. Depois de quase 20 anos de dependência de fornecedores russos e
chineses, Caracas poderia se transformar em um mercado promissor para a
indústria brasileira, que registrou exportações recordes em 2025.
A Venezuela possui uma das maiores forças armadas da América
do Sul, equipada majoritariamente com material bélico russo, incluindo caças
Su-30, sistemas antiaéreos S-300 e fuzis AK-103. Um eventual governo
pró-ocidental teria motivações políticas e operacionais para diversificar seus
fornecedores, abrindo espaço para empresas brasileiras como a Embraer, IVECO, SIATT, Atech e
desenvolvedoras de sistemas de vigilância.
Um mercado perdido que pode ressurgir
A relação entre Brasil e Venezuela no setor de defesa já foi promissora.
Nos anos 1990 e início dos 2000, a Venezuela adquiriu aeronaves brasileiras,
incluindo o caça AMX-T desenvolvido pela Embraer em parceria com a italiana
Aermacchi. Negociações avançadas para a compra do A-29 Super Tucano estavam em
curso quando Hugo Chávez assumiu o poder e reorientou radicalmente a política
externa venezuelana.
Sob pressão dos Estados Unidos, que impuseram restrições à
venda de equipamentos com componentes americanos para Venezuela, e alinhado
ideologicamente à Rússia, Chávez pivotou completamente seus contratos
militares. Moscou se tornou o principal fornecedor de Caracas, em negócios que
ultrapassaram US$ 10 bilhões ao longo de duas décadas.
"A Venezuela tinha uma relação comercial estabelecida
com o Brasil na área de defesa. O Super Tucano era uma plataforma ideal para as
necessidades venezuelanas, mas a geopolítica impediu que o negócio
avançasse", explica um analista de defesa.
Agora, com a possibilidade de um governo pró-ocidental em
Caracas, esse cenário pode se inverter.
Oportunidades concretas no horizonte
Especialistas identificam três áreas principais onde a indústria brasileira
poderia se beneficiar de uma mudança de regime na Venezuela:
- Modernização da frota aérea: surge como a
oportunidade mais evidente. Os caças Su-30MK2 venezuelanos, adquiridos nos anos
2000, enfrentam desafios crescentes de manutenção devido a sanções
internacionais que dificultam o acesso a peças de reposição. Um novo governo
poderia buscar alternativas mais acessíveis e politicamente viáveis.
Para substituir os jatos supersônicos russos, uma opção
tecnicamente viável seria o caça sueco Saab Gripen E, que a Embraer já fabrica
sob licença no Brasil. O Gripen E é um caça multifuncional de quarta geração plus,
com capacidades avançadas de combate ar-ar e ar-solo, aviônica de última
geração e custos operacionais significativamente menores que plataformas russas
ou americanas.
A presença da linha de montagem da Embraer em Gavião Peixoto
(SP) representa uma vantagem estratégica. Além de reduzir custos logísticos
pela proximidade geográfica, a fabricação regional facilitaria programas de
manutenção, transferência de tecnologia e treinamento de pessoal venezuelano. O
Gripen já despertou interesse de outros países sul-americanos, e uma eventual
venda para a Venezuela poderia consolidar uma plataforma comum na região,
facilitando exercícios conjuntos e padronização operacional.
Para missões de contrainsurgência, patrulhamento de
fronteiras e treinamento avançado, o A-29 Super Tucano da Embraer aparece como
candidato natural complementar. A aeronave turboélice, já operada por mais de 20 países no mundo, tem reputação consolidada na América Latina, onde está presente no Brasil, Chile, Colômbia, Equador, República Dominicana, Paraguai, Uruguai, Honduras e Panamá (contrato recente), demonstrando a penetração da indústria brasileira na região.. Com custo de operação
significativamente menor que jatos supersônicos e capacidade comprovada em
ambientes desafiadores, o Super Tucano poderia atender às necessidades venezuelanas
de vigilância e controle territorial em uma força aérea modernizada e
diversificada.
Ainda na aviação militar, o cargueiro tático C-390
Millennium da Embraer surge como alternativa para substituir os antigos
transportes russos da Venezuela. A aeronave, que já opera na Força Aérea
Brasileira e foi adquirida por Portugal, Hungria, Holanda, Áustria e República
Tcheca, oferece capacidade de transporte estratégico com tecnologia ocidental,
facilitando interoperabilidade com outras forças aéreas da região e apoio
logístico mais acessível que as plataformas russas.
- Manutenção e suporte técnico representam outra
frente promissora. Mesmo que a Venezuela mantenha parte do inventário russo a
curto prazo, a necessidade de serviços de manutenção, treinamento de pessoal e
modernização de sistemas legados abre espaço para empresas brasileiras que têm
desenvolvido capacidades em toda a cadeia de suporte militar.
A base industrial de defesa brasileira viveu uma expansão
notável nos últimos anos, com exportações atingindo níveis recordes em 2025.
Essa infraestrutura poderia ser aproveitada para criar programas de cooperação
técnica-militar com a Venezuela, seguindo modelos já estabelecidos com outros
vizinhos sul-americanos.
- Armamentos e sistemas de defesa configuram um
segmento adicional de oportunidades. A SIATT, empresa brasileira em parceria
com o grupo emiratense EDGE, desenvolve mísseis anti-carro e anti-navio que
poderiam substituir sistemas russos envelhecidos. Esses armamentos representam
capacidade crítica para forças terrestres e navais, áreas em que a Venezuela
também necessitará modernização caso opte por diversificar seus fornecedores.
- Integração de sistemas de comando e controle emerge
como necessidade estratégica em qualquer processo de modernização militar. A
Atech, subsidiária da Embraer especializada em soluções C4ISR (Comando,
Controle, Comunicações, Computadores, Inteligência, Vigilância e
Reconhecimento), poderia fornecer a arquitetura necessária para integrar
diferentes plataformas e sensores em uma rede de defesa coesa e compatível com
padrões ocidentais. Essa integração seria fundamental para que forças armadas
venezuelanas operassem eficientemente com equipamentos de múltiplas origens.
Complementando a modernização tecnológica, sistemas
criptográficos da Kryptus garantiriam comunicações seguras e soberania
informacional. A empresa brasileira, referência em criptografia e segurança
cibernética, poderia fornecer soluções para proteger as comunicações militares
venezuelanas, substituindo sistemas russos que um novo governo provavelmente
consideraria vulneráveis ou politicamente indesejáveis.
- Segurança de fronteiras constitui uma área de interesse mútuo. Brasil e Venezuela compartilham 2.199 quilômetros de fronteira, uma região complexa marcada por contrabando, mineração ilegal e presença de grupos armados. Sistemas de vigilância, drones de reconhecimento e veículos blindados para patrulhamento — áreas em que empresas brasileiras têm experiência — poderiam fazer parte de iniciativas conjuntas de segurança fronteiriça.
A IVECO, que produz a família de blindados Guarani para o Exército brasileiro, poderia encontrar um mercado receptivo para veículos de transporte de tropas e patrulhamento adaptados às condições amazônicas. A Akaer, empresa de São José dos Campos especializada em engenharia aeroespacial e defesa, também oferece soluções relevantes como a modernização do blindado Cascavel NG, sistemas de visão noturna e drones como o Albatross, além de participar da produção do C-390 Millennium e desenvolver tecnologias para satélites.
No segmento de veículos aéreos não tripulados, o Brasil dispõe de capacidades industriais avançadas. A XMobots, líder em drones na América Latina com sede em São Carlos, desenvolve sistemas como o Nauru 1000C (já adquirido pelo Exército Brasileiro) e o Nauru 500C ISR, drones VTOL com autonomia de até 28 horas utilizados para vigilância de fronteiras. A empresa também lançou recentemente o Nauru 100D, um drone tático militar com capacidade de ataque de precisão. A Stella Tecnologia, de Duque de Caxias, é pioneira em VANTs de classe MALE (Medium-Altitude Long-Endurance) no Brasil, tendo desenvolvido o Atobá, maior drone do hemisfério Sul, com 11 metros de envergadura e 24 horas de autonomia, além do Albatroz, projetado para operações embarcadas. Recentemente, a Stella firmou parceria estratégica com o grupo francês Thales para desenvolvimento conjunto de sistemas de vigilância e defesa embarcados em UAVs.
A Mac Jee, grupo brasileiro da Base Industrial de Defesa sediado em São José dos Campos, completa o portfólio com munições aéreas guiadas (família BGB), o sistema de lançamento de foguetes Armadillo e o kit DAGGER de orientação de munição aérea com inteligência artificial, capaz de atingir alvos a mais de 120 km com alta precisão. A empresa possui fábricas em São José dos Campos e Paraibuna, com capacidade de produção de materiais energéticos e carregamento de munições.

Obstáculos no caminho
Apesar das oportunidades teóricas, diversos fatores podem limitar ou adiar
esse potencial de negócios.
O primeiro e mais evidente é a devastadora situação
econômica venezuelana. Anos de crise econômica, hiperinflação e colapso da
produção petrolífera deixaram o país sem recursos significativos para
investimentos militares. Mesmo com um novo governo, a prioridade será
reconstrução econômica, infraestrutura básica e serviços sociais, e não a aquisição
de equipamentos de defesa.
A eventual administração temporária dos Estados Unidos na
Venezuela, focada em estabilização política e recuperação do setor petrolífero,
tende a adiar qualquer discussão sobre modernização militar. Washington tem
interesses próprios e poderia pressionar por contratos com fabricantes
americanos quando chegar o momento de reequipar as forças armadas venezuelanas.
Há também a questão diplomática delicada. O Brasil condenou
publicamente a intervenção americana na Venezuela, defendendo soluções
negociadas e o princípio da não-intervenção. Essa posição, embora coerente com
a tradição diplomática brasileira, pode complicar as relações com um eventual
governo venezuelano instalado sob auspícios americanos.
"O Brasil manteve uma posição de relativa neutralidade
durante a crise venezuelana, o que pode ser uma vantagem em termos de
credibilidade regional, mas também pode ser vista como falta de alinhamento
claro pelos novos dirigentes em Caracas", pondera um diplomata brasileiro
que acompanha a questão.
Além disso, a indústria de defesa brasileira enfrentaria
competição acirrada de players tradicionais. Estados Unidos e Europa têm
décadas de experiência em acordos de defesa atrelados a pacotes de
financiamento, assistência técnica e alinhamento político. O Brasil teria que
competir não apenas em qualidade e preço, mas em capacidade de oferecer
condições comerciais atrativas.
Visão de longo prazo
Analistas concordam que, mesmo diante dos obstáculos, uma Venezuela estável
e integrada ao sistema ocidental poderia, em médio e longo prazos, trazer
benefícios para toda a indústria de defesa sul-americana.
O Brasil historicamente exerceu protagonismo em iniciativas
de cooperação militar regional. Uma Venezuela normalizada poderia se reintegrar
a esses mecanismos, fortalecendo cadeias produtivas e possibilitando projetos
conjuntos de desenvolvimento tecnológico.
"No curto prazo, o impacto será limitado pela realidade
econômica venezuelana. Mas se olharmos para um horizonte de cinco a dez anos,
com recuperação econômica do país, estamos falando de um mercado potencial
significativo para produtos de defesa compatíveis com as capacidades
brasileiras", avalia um executivo do setor.
A questão transcende aspectos puramente comerciais. Para o
Brasil, fortalecer laços de defesa com vizinhos faz parte de uma estratégia
mais ampla de protagonismo regional e desenvolvimento de capacidades
tecnológicas próprias. A Venezuela, com suas forças armadas numerosas e
necessidades evidentes de modernização, poderia ser peça importante nesse
tabuleiro.
Por enquanto, resta aguardar. A transição política na
Venezuela ainda é incerta, a situação econômica permanece crítica e as
prioridades imediatas estão distantes da compra de equipamentos militares. Mas
para a indústria de defesa brasileira, que demonstrou resiliência e capacidade
de crescimento mesmo em tempos adversos, a possibilidade de reconquistar um
mercado perdido há duas décadas representa uma esperança concreta, ainda que
distante, no horizonte estratégico regional.