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Acordo com a EOS dá aos engenheiros da BIZU Space acesso à formação em projeto para manufatura aditiva e ao suporte técnico da fabricante, no momento em que a empresa desenvolve o terceiro estágio a propulsão líquida do MLBR
Michael Wohlfart (Gerente de Equipe de Desenvolvimento de Negócios e Academia da EOS) e Raphael Galate (Cofundador da BIZU Space) celebram a nova parceria (da esquerda para a direita)
*LRCA Defense Consulting - 31/10/2026 -21h39 A fabricante alemã EOS, uma das líderes mundiais em manufatura aditiva industrial, e a BIZU Space, startup de São José dos Campos (SP) especializada em motores de foguete a propelente líquido, anunciaram em 29 de outubro uma colaboração voltada a componentes de propulsão espacial. O comunicado foi divulgado simultaneamente em Krailling, sede da EOS nos arredores de Munique, e na cidade paulista, principal polo aeroespacial do País.
Pelo acordo, os engenheiros da BIZU Space terão acesso à formação em Design for Additive Manufacturing (DfAM), a metodologia de projeto pensada desde o início para a impressão 3D, oferecida pela Additive Minds Academy, braço educacional da EOS. O pacote inclui ainda apoio de engenharia dos especialistas da Additive Minds, a consultoria técnica da fabricante. O objetivo declarado é aplicar a impressão 3D em metal a peças críticas de motores de foguete, como câmaras de combustão e turbobombas de ciclo fechado.
Por que imprimir um motor de foguete A câmara de combustão de um motor líquido opera sob pressões e temperaturas extremas e depende de canais internos de refrigeração, por onde circula o próprio propelente antes de ser queimado. Na fabricação convencional, essas peças exigem usinagem complexa, soldagem e brasagem de muitas partes, com prazos longos e custo elevado. A impressão em leito de pó metálico permite produzir a câmara em peça única, com os canais já integrados, e alterar o projeto entre uma campanha de testes e outra em semanas, não em meses.
É por isso que a EOS acumulou clientes no setor de lançadores. A norte-americana Launcher imprimiu em liga de cobre, numa máquina EOS M 290, seu primeiro motor de demonstração; a australiana Gilmour Space escolheu a empresa como parceira de manufatura aditiva em 2023; e a alemã Isar Aerospace, que alcançou a órbita na segunda tentativa, produz a câmara de empuxo de seus motores com equipamentos da EOS e da AMCM, subsidiária do grupo dedicada a impressoras de grande formato. A ArianeGroup, responsável pelo Ariane 6, também integra a carteira.
Na nota, Michael Wohlfart, gerente de desenvolvimento de negócios e da Academy da EOS, afirmou que os programas mais bem-sucedidos de manufatura aditiva combinam tecnologia e educação, e que a meta é dar aos engenheiros domínio do projeto para impressão 3D em aplicações exigentes como a propulsão espacial. Raphael Galate, cofundador da BIZU Space, disse que o setor espacial brasileiro vive uma fase de crescimento e que trabalhar com a EOS ajudará a consolidar a competência necessária para as futuras aplicações da empresa.
Quem é a BIZU Space Fundada por engenheiros formados no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a BIZU Space se define como desenvolvedora verticalizada de propulsão e tecnologias de lançamento. Projeta motores de alto desempenho com propelentes estocáveis, destinados a estágios superiores de lançadores, sistemas de controle de reação, foguetes de treinamento e veículos de transferência orbital. Em julho, a empresa contava com 14 profissionais das engenharias aeroespacial, aeronáutica, química, mecânica e eletrônica.
A startup opera no Parque Tecnológico da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), onde montou o T8, banco de ensaios privado para motores líquidos e híbridos, distribuído em contêineres que abrigam a central de controle, um laboratório de química e a bancada de testes. Em 29 de maio, a empresa lançou de Virgínia (MG), na missão Trem Baum, o FTL-Perseu, apresentado como o primeiro foguete brasileiro a decolar e voar exclusivamente com propulsão líquida. O release da EOS registra ainda um teste de queima estática (hot-fire) do sistema propulsivo da empresa realizado em outubro.
O elo com o Microlançador Brasileiro O peso estratégico da parceria está no Microlançador Brasileiro (MLBR), veículo de 12 metros desenvolvido por um consórcio de cerca de dez empresas nacionais, com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e acompanhamento da Agência Espacial Brasileira (AEB). O programa recebeu R$ 189 milhões da Finep e tem na linha de frente a CENIC Engenharia, a PlasmaHub e a Delsis Aerospace, de São José dos Campos, a Etsys, de Jacareí (SP), e a Concert Space, de Belo Horizonte. A configuração básica prevê três estágios a propelente sólido e capacidade para colocar cerca de 40 kg em órbita baixa, a 450 km de altitude, a partir do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão.
A BIZU Space entra justamente na evolução do lançador. Em 18 de junho, durante a SpaceBR Show, em São Paulo, a Finep e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) formalizaram R$ 25 milhões para a empresa desenvolver um terceiro estágio a propulsão líquida para o MLBR, num dos primeiros contratos da segunda rodada da chamada Mais Inovação Brasil voltada à Base Industrial de Defesa (BID). Segundo o chefe de propulsão da empresa, Nicolas Miquelin, a troca do motor sólido pelo líquido no último estágio permitiria controlar o empuxo, desligar e religar o motor e dobrar a carga útil, para cerca de 80 kg.
O cronograma, porém, segue apertado. Em abril, a Força Aérea Brasileira (FAB) e as empresas do consórcio trabalhavam com o primeiro voo em 2027, meta considerada otimista por especialistas ouvidos pela revista Pesquisa FAPESP, e o início das campanhas de lançamento passou a ser reavaliado desde então.
O que a parceria não diz O comunicado trata de capacitação e apoio de engenharia, e não informa valores, prazo de vigência nem se a BIZU Space pretende adquirir impressoras da EOS ou contratar a fabricação das peças junto a prestadores de serviço que operam equipamentos da marca. Tampouco detalha qual liga metálica será empregada, escolha relevante num campo em que ligas de cobre e superligas de níquel disputam a preferência dos projetistas de câmaras de combustão.
Ainda assim, o movimento ajuda a entender a lógica do novo ciclo espacial brasileiro. Depois de décadas em que a propulsão líquida ficou restrita a programas de pesquisa do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), uma empresa privada de pequeno porte busca no exterior não um motor pronto, mas o conhecimento para projetar e fabricar o seu. Para um País que tenta garantir acesso autônomo ao espaço, a diferença entre comprar componentes e dominar o processo que os produz é, em última análise, o que separa dependência de soberania tecnológica.
*LRCA Defense Consulting - 15/06/2026 (atualizado em 23/06 às 16h15)
O Arsenal de Guerra do Rio publicou no PNCP o edital para aquisição do protótipo de sua Unidade Móvel para fabricação de drones, com 12 impressoras 3D e painel solar para operação fora da rede elétrica. O conceito, que chega simultaneamente a arsenais de países como EUA e Finlândia, muda a lógica da produção de sistemas não tripulados: em vez de fabricar em escala central e estocar, produz-se no campo, no momento certo, com o design certo.
Do estudo ao edital: a trajetória do AGR O conceito não surgiu pronto no 1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre (SSNTFT 2026). Ele tem uma trajetória documentada que começa pelo menos um ano antes. Em junho de 2025, durante a 41ª Reunião dos Diretores de Arsenais de Guerra (REDAG), realizada no Departamento de Ciência e Tecnologia em Brasília, o Sistema de Fabricação do Exército recebeu, de forma inédita, solicitação da Chefia de Material de Aviação do Exército (CMAvEx) para estudar a produção de aeronaves remotamente pilotadas por manufatura aditiva — impressão 3D aplicada à fabricação de estruturas, componentes e peças de drones.
Onze meses depois, no SSNTFT realizado entre 25 e 27 de maio de 2026, militares do Arsenal de Guerra do Rio (AGR) apresentaram ao Alto Comando o resultado desses estudos: um projeto próprio de desenvolvimento de drones bombardeiros e kamikazes e, como elemento central, um conceito de container para fabricação de drones com manufatura aditiva — uma fábrica de drones desdobrável em campanha.
O projeto saiu do papel em junho de 2026. O Edital nº 90002/2026, publicado no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) em 15 de junho pelo Comando do Exército, unidade compradora Arsenal de Guerra do Rio (UASG 160285), tem como objeto a aquisição do protótipo da Unidade Móvel para fabricação de drones. A modalidade é pregão eletrônico com sistema de registro de preço (Lei 14.133/2021, art. 28, I), com recebimento de propostas entre 15 e 25 de junho de 2026, e valor total estimado de R$ 278.548,80. O que o edital revela sobre a unidade A composição dos itens do edital dá ao conceito uma escala concreta, até aqui inédita em qualquer fonte aberta sobre o programa. O protótipo é formado por um container escritório (R$ 100.576,38), 12 impressoras 3D (R$ 13.157,74 cada, totalizando R$ 157.892,88), dois notebooks, dois monitores e duas estações de solda — além de outros cinco itens não detalhados na consulta pública inicial. A proporção entre o valor do container e o das impressoras mostra onde está o verdadeiro investimento do projeto: mais da metade do orçamento vai para a capacidade de impressão em si, não para a estrutura que a abriga.
O detalhe técnico mais relevante consta apenas numa nota de esclarecimento anexada ao edital, e não no Termo de Referência original: o item "container escritório" inclui painel solar integrado com sistema híbrido de armazenagem e uso de energia, permitindo que a unidade opere tanto conectada à rede elétrica quanto de forma autônoma, por bateria. Essa especificação confirma que o AGR projetou a unidade para emprego off-grid — em ambiente desprovido de infraestrutura elétrica fixa —, o que é precisamente a condição esperada de uma fábrica de campanha desdobrável próxima à linha de frente, e não de uma instalação fixa de retaguarda.
A lição ucraniana
O
modelo de produção centralizada de drones, que dominou o pensamento logístico
até 2022, mostrou sua fragilidade na Ucrânia. Fabricar em larga escala,
transportar para a frente de combate, estocar e esperar o momento do emprego
criou uma vulnerabilidade estrutural: o design do drone pode tornar-se obsoleto
antes de chegar ao campo de batalha. Na guerra de drones, frequências, cargas
úteis, métodos de guiamento e contramedidas eletrônicas podem mudar em semanas.
A
resposta ucraniana foi empírica e brutal: unidades avançadas passaram a
fabricar e reparar drones in loco, com impressoras 3D portáteis,
componentes eletrônicos disponíveis comercialmente e arquivos de design
atualizados remotamente. O ciclo de adaptação - detectar uma nova contramedida
russa, redesenhar o drone, imprimir, testar e reempregar - passou a ser medido
em dias, não em meses.
Tim
De Zitter, analista da Defesa Belga especializado em sistemas C-UAS e munições
vagantes, sintetizou a transformação conceitual em publicação do dia 15 de
junho: a fábrica móvel não é apenas um meio de produção, mas parte integrante
da cadeia de kill chain de defesa aérea. Segundo ele, "o campo de
batalha não pergunta mais quem tem o drone melhor, mas sim quem consegue
reconstruir o drone melhor amanhã". A lógica é a mesma para drones de
ataque e para interceptadores: a capacidade de adaptar e produzir mais rápido
que o adversário vale mais do que qualquer design específico.
Fábrica de drones em container (renderização de Tim De Zitter)
O
conceito em números: o que já existe no mercado
O
AGR não está sozinho nessa direção. Nos últimos meses, pelo menos três
iniciativas paralelas e independentes chegaram ao mesmo conceito operacional, o
que valida a ideia sem que nenhuma delas sirva como modelo direto para a
solução brasileira.
A
empresa finlandesa Sensofusion lançou, em março de 2026, a Tactical Drone Factory:
uma instalação completa de fabricação de drones comprimida num container padrão
de 20 pés (ISO 668, compatível com STANAG), equipada com impressoras 3D
industriais para estruturas em plástico de carbono, estação de montagem de
eletrônicos e estoque de peças de reposição. Capacidade declarada:
aproximadamente 50 drones interceptadores por dia, operados por uma equipe
reduzida, desdobráveis em qualquer lugar do mundo. A troca de modelo de drone
requer apenas o carregamento de um novo arquivo de design, com adaptação imediata
a novas ameaças, sem necessidade de nova linha de produção.
Nos
Estados Unidos, a startup Firestorm Labs desenvolveu o xCell, plataforma de
manufatura em container capaz de imprimir sistemas de drones em menos de 24
horas. Em abril de 2026, a empresa captou US$ 82 milhões para expandir o
conceito. O Exército americano já usou o xCell para imprimir peças de reposição
de um veículo blindado Bradley diretamente no campo, substituindo componentes
que, pelo processo convencional, levariam meses para ser adquiridos. O Rock
Island Arsenal-Joint Manufacturing and Technology Center (RIA-JMTC), principal
arsenal de fabricação do Exército dos EUA, desenvolve versão orgânica do mesmo
conceito, com foco em produção descentralizada de drones em escala para as
forças terrestres americanas.
Os
três casos compartilham uma premissa: instalações fixas de fabricação são
alvos. Uma fábrica dentro de um container pode ser movida, ocultada, replicada
e reprogramada. A resiliência logística vira capacidade de combate.
Tactical Drone Factory, da Sensofusion
O que ainda falta para operacionalizar o conceito O edital cobre a estrutura física da unidade — container, impressoras, estações de trabalho e de solda —, mas não esgota o desafio de transformar esse protótipo em capacidade operacional real. Pelo menos quatro questões de integração permanecem fora do escopo do pregão e são decisivas para o sucesso do conceito:
- Eletrônicos e autopilotos: as impressoras 3D fabricam fuselagens e estruturas, mas os componentes eletrônicos (controladores de voo, receptores GPS, módulos de comunicação, baterias) precisam estar disponíveis em estoque no container ou ser adquiridos localmente. A dependência de componentes de origem asiática é o principal vetor de fragilidade logística, e o edital não contempla esse suprimento.
- Materiais de impressão: filamentos de fibra de carbono, nylon reforçado e resinas de alta resistência são os materiais adequados para estruturas de drones sujeitas a vibrações e impactos. Não são consumíveis triviais, pois exigem controle de temperatura, umidade e prazo de validade, fatores que pesam ainda mais em emprego de campanha sob calor, poeira ou umidade elevada.
- Software e arquivos de design: a vantagem competitiva real do container não está na impressora em si, mas na capacidade de atualizar o design do drone remotamente, em resposta a uma nova ameaça ou contramedida. Isso exige infraestrutura séria de transmissão de arquivos, compatível com os requisitos de segurança da informação das Forças Armadas, peça que não aparece em nenhum item do edital.
- Operadores: uma equipe reduzida precisa dominar tanto a operação das impressoras quanto a montagem eletrônica e os testes de voo. A curva de treinamento é um fator crítico para o tempo entre o pedido e o primeiro drone operacional, e nenhuma capacitação consta como item da contratação atual.
A ausência desses quatro elementos no edital não é necessariamente uma falha de planejamento: é provável que estejam previstos em contratações ou desenvolvimentos posteriores, já que o objeto desta licitação é explicitamente o protótipo da unidade física. Mas é exatamente nesse hiato, entre o container entregue e o drone produzido, que residirá o verdadeiro teste de maturidade do projeto.
O
que está em jogo para a BID
O edital, ainda que de valor modesto para os padrões da indústria de defesa, é um marco de processo: é a primeira contratação formal e documentada do programa, com prazo curto entre publicação e abertura de propostas (dez dias), o que sinaliza prioridade interna do Exército para validar o conceito rapidamente.
O contexto mais amplo reforça a urgência. A Carta Convite MCTI/Finep/FNDCT nº 943682, com R$ 500 milhões em recursos não reembolsáveis para ICTMDs, tem entre suas linhas temáticas explícitas os sistemas de guiamento e navegação para veículos não tripulados, inteligência artificial e robótica, exatamente as tecnologias que uma unidade de fabricação avançada de drones demanda. O prazo de submissão vai até 18 de setembro de 2026, criando uma janela de articulação entre o protótipo já licitado pelo AGR e o financiamento disponível pela Finep para etapas posteriores de desenvolvimento e escala.
Tactical Drone Factory, da Sensofusion, embarcada em uma viatura
O
limite da validação operacional
Uma
ressalva é necessária. O conceito de container de fabricação de drones, seja na
versão brasileira, finlandesa ou americana, ainda não tem validação operacional
plena em ambiente de combate real. Cinquenta drones por dia numa linha de
produção controlada é uma métrica de capacidade industrial, não de eficácia em
campo. A pressão logística, a guerra eletrônica, a escassez de peças, as
condições climáticas e o desgaste dos operadores são variáveis que apenas o
emprego real consegue avaliar.
A
direção, porém, está correta, e isso é o que importa para o planejamento de
longo prazo. O Exército Brasileiro, ao buscar parceiros para um protótipo de
fábrica móvel de drones, está comprimindo o ciclo que na Ucrânia levou três
anos de guerra para ser aprendido empiricamente. Aprender antes do conflito,
com tempo e recursos para errar e corrigir, é exatamente o tipo de vantagem que
um programa de defesa deve perseguir.
Tecnologia que nasceu em laboratórios civis
transforma-se em arma estratégica nos campos de batalha da Ucrânia e impulsiona
a indústria brasileira de defesa
“Fábrica” de impressão 3D independente da The ExOne Company que opera a partir de um contêiner de transporte
*LRCA Defense Consulting - 18/02/2026
Quando o Exército Brasileiro publicou recentemente um artigo
técnico sobre Manufatura Aditiva e seus usos militares, poucos imaginavam que
aquela análise acadêmica refletia uma revolução silenciosa que já transformava
campos de batalha a milhares de quilômetros de distância. Na Ucrânia, soldados
imprimem peças de drones em impressoras 3D instaladas próximo à linha de
frente. Nos Estados Unidos, a Força Aérea substitui componentes de aeronaves
antigas com peças fabricadas digitalmente. E no Brasil, empresas como Taurus,
Embraer e XMobots investem milhões para dominar uma tecnologia que promete
redefinir não apenas como se fabricam armas, mas como se conduzem as guerras
modernas.
Do laboratório ao campo de batalha A Manufatura Aditiva (MA), conhecida popularmente como impressão 3D, consiste na
formação de objetos tridimensionais por meio da deposição sucessiva de camadas
de material. Embora tenha sido criada em 1984 e consolidada inicialmente em
setores civis como indústria automotiva, aeroespacial e médica, seu uso vem
crescendo de maneira exponencial no campo militar, oferecendo rapidez,
autonomia e flexibilidade em cenários onde cada segundo pode determinar o
destino de uma missão.
O artigo do EBlog do Exército Brasileiro, assinado pelo Subtenente Julio Cezar Rodrigues Eloi, detalha como essa tecnologia pode contribuir
para operações, logística e capacidades estratégicas das forças armadas. O
documento ressalta que a MA já ultrapassou a esfera experimental e se integra
gradualmente aos processos tradicionais de defesa em diversos países.
O caso ucraniano: quando a necessidade vira inovação Nenhum caso ilustra melhor o potencial militar da impressão 3D do que a
guerra na Ucrânia. Desde a invasão russa em fevereiro de 2022, o país
transformou-se em um gigantesco laboratório de inovação militar. Em 2024, foram
construídos 1,5 milhão de drones de ataque e reconhecimento, com expectativa de
produção de 4,5 milhões até o final do ano, um salto astronômico em relação às
300 mil unidades de 2023.
Empresas como a Wild Hornets operam verdadeiras fazendas de
impressoras 3D, dezenas de equipamentos Bambu Lab e Elegoo funcionando 24
horas por dia, para produzir componentes dos drones interceptadores Sting, que
combatem os Shaheds iranianos. A organização afirma ter neutralizado 1.738
ativos inimigos no valor de US$ 1,69 bilhão, incluindo 448 UAVs adversários.
Outras fabricantes ucranianas, como a TAF Drones, operam
instalações secretas no oeste da Ucrânia onde mais de 100 funcionários produzem
cerca de 1.000 drones diariamente. O modelo ucraniano demonstrou que a
impressão 3D permite iteração em ciclos curtíssimos: imprimir, montar, testar e
modificar projetos quase em tempo real. Um protótipo que funciona hoje pode ser
ajustado até amanhã, comprimindo ciclos de desenvolvimento que levariam anos na
fabricação aeroespacial tradicional em questão de semanas.
"Praticamente toda brigada ucraniana tem uma unidade de
drones, com capacidade de reparo e também de produção de novos drones",
explica Sandro Teixeira Moita, professor na Escola de Comando e Estado-Maior do
Exército Brasileiro. "Por mais incrível que pareça, um dos principais
insumos para o esforço de guerra ucraniano é o polímero, material que a
impressora 3D usa para a impressão de peças de drones."
Mas não é apenas na produção de drones que a Ucrânia inovou.
O país desenvolveu também capacidades em impressão 3D de metal para peças de
reposição de equipamentos militares. Empresas britânicas como a Babcock, em
parceria com a QinetiQ, receberam contratos para produzir desenhos digitais e
arquivos CAD de equipamentos essenciais, permitindo que o pessoal ucraniano
imprima peças localmente conforme necessário, reduzindo drasticamente a
dependência de cadeias de suprimentos externas.
Estados Unidos: investimento bilionário em autonomia
logística Se a Ucrânia improvisou sua revolução em manufatura aditiva sob pressão, os
Estados Unidos a planejaram meticulosamente. Desde 2017, as Forças Armadas
norte-americanas fazem investimentos substanciais em impressão 3D para melhorar
a resiliência da cadeia de suprimentos e o desempenho operacional geral.
Em 2021, o Departamento de Defesa dos EUA contratou a The
ExOne Company para desenvolver uma "fábrica" de impressão 3D
independente que opera a partir de um contêiner de transporte. Em 2022, o
fabricante australiano SPEE3D foi selecionado pela Marinha para fornecer sua
tecnologia de manutenção MAINTENX. Em 2024, os militares do Reino Unido
receberam seu primeiro lote de componentes impressos em 3D para sistemas navais
e de artilharia.
O mercado global de impressão 3D militar deve registrar uma
taxa de crescimento anual composta (CAGR) superior a 10% durante o período
2024-2029, segundo a Mordor Intelligence. O mercado aeroespacial e de defesa
especificamente deve atingir US$ 8,20 bilhões até 2029, crescendo a um CAGR de
15,13%.
A 3D Systems, em colaboração com a Força Aérea dos EUA, usa
fabricação aditiva para substituir peças difíceis de construir para aeronaves
militares antigas. Em novembro de 2024, a Agência de Logística de Defesa
concedeu um contrato para um componente impresso em 3D que protege a aeronave
F-15 contra danos estruturais, o primeiro contrato nesta categoria para
manufatura aditiva.
Brasil na vanguarda: Taurus, Embraer e XMobots
Impressora suíça 3D DMP (Direct Metal Priting) Flex 350, da 3D Systems, em uso na Taurus
Taurus: pioneira em Manufatura Aditiva Metálica A Taurus Armas foi pioneira na América do Sul ao receber, em abril de 2020,
a impressora suíça 3D DMP (Direct Metal Printing) Flex 350, da 3D Systems, a
primeira entregue em todo o Hemisfério Sul. O sistema de fabricação Direct
Metal Printing de alto desempenho oferece redução de desperdício, maiores
velocidades de impressão e peças de metal com propriedades mecânicas
excelentes.
Imprimindo em metal, a impressora faz o protótipo inteiro de
uma arma em apenas um dia ininterrupto de trabalho, enquanto o processo
anterior utilizava terceiros e demorava muitos dias. Além de precisão muito
maior, por ser totalmente robotizado, o processo gera considerável ganho de
tempo e economia de recursos.
Mas a Taurus não parou aí. A empresa também domina a
tecnologia Metal Injection Molding (MIM), sendo uma das apenas duas fabricantes
de armas no mundo com essa capacidade, e a única abaixo do Equador. Hoje,
fabrica mais de 80 mil peças MIM por dia, com planos de chegar a 110 mil
peças/dia após a instalação de um terceiro forno contínuo.
A empresa gaúcha tornou-se referência global ao anunciar a
produção de armas com grafeno, material revolucionário que proporciona melhor
desempenho contra oxidação, potencializa propriedades mecânicas como
resistência ao impacto e reduz o peso das armas. A versão da pistola GX4 com
grafeno, lançada em 2021, foi a primeira arma do mundo a usar esse material.
Embraer: aviões mais leves, mais eficientes A Embraer utiliza a Manufatura Aditiva para construir peças de plástico
encontradas no interior dos E-Jets E2, resultando em componentes até 40% mais
leves. O Termoplástico AM substituiu o processo demorado e manual anteriormente
utilizado para preparação e usinagem de peças e ferramentas.
As peças agora levam 50% menos tempo de produção, geram 65%
menos resíduos e evitam o contato de compostos orgânicos voláteis com os
funcionários. A MA é usada para construir 37 tipos de peças internas nos E2s,
incluindo grades de ar-condicionado, unidades de proteção de sistemas, flanges
do sistema de sucção dos lavatórios e dutos de ar.
"No ano passado, produzimos mais de 1.800 peças por MA para o programa E2. Nossos engenheiros já estão trabalhando para criar peças de
metal por meio do mesmo processo de MA", informou a fabricante brasileira.
"A manufatura aditiva é apenas mais uma ferramenta que nos ajuda a tornar
nossos E2s os aviões mais ecologicamente corretos do mercado".
XMobots: da Ucrânia para São Carlos É no caso da XMobots, maior fabricante de drones da América Latina, que
vemos a convergência entre a experiência ucraniana e a capacidade industrial
brasileira. A empresa de São Carlos (SP) consolidou recentemente uma parceria
estratégica com a SKA Automação de Engenharias, representante da HP no Brasil,
trazendo impressoras 3D industriais de última geração para seu chão de fábrica.
A aliança posiciona o Brasil na fronteira tecnológica da
manufatura aditiva para defesa, com a mesma tecnologia que tem permitido à
Ucrânia produzir milhares de drones por mês. A XMobots deixou de usar impressão
3D apenas como ferramenta de prototipagem para tratá-la como pilar central da
manufatura de seus sistemas de defesa.
As soluções aplicam-se diretamente ao desenvolvimento dos
drones da família Nauru, especialmente os modelos Nauru 100D ISTAR, Nauru 500C
ISR e Nauru 1000C ISTAR — plataformas táticas pensadas para missões de
inteligência, vigilância, reconhecimento e aquisição de alvos.
O Nauru 1000C ISTAR, selecionado pelo Exército Brasileiro
para missões de monitoramento de fronteiras, é um drone VTOL (decolagem e pouso
vertical) de categoria 2 com envergadura de 7,7 metros, autonomia de 10 horas e
capacidade de carga útil de 18 kg. A empresa também firmou parceria com a MBDA,
maior empresa europeia de mísseis, para desenvolver a versão armada do Nauru
1000C com mísseis Enforcer Air, tornando-o o primeiro drone brasileiro a
integrar capacidade de ataque guiado de precisão.
A impressão 3D industrial entra como facilitadora em
diversos pontos críticos: produção de carenagens, suportes internos, pods de
sensores e estruturas secundárias complexas; redução de ferramental, gabaritos
e dispositivos de montagem; e iteração rápida de novas geometrias, acelerando
drasticamente o ciclo entre projeto e validação em campo.
Drone Nauru 100D, da XMobots
Vantagens e desafios da impressão 3D militar O artigo do EBlog sistematiza as principais vantagens e limitações da
tecnologia em ambientes de combate. Entre as vantagens destacam-se:
Produção
rápida e local de armamentos, munições e drones, atuando como fonte
alternativa em situações de escassez;
Fabricação
de componentes personalizados e sob demanda, aumentando a
adaptabilidade da tropa e acelerando reparos em campo;
Redução
de custos e dependência de fornecedores externos;
Autonomia
logística em operações remotas ou em ambientes hostis.
Quanto às limitações:
Durabilidade
menor das peças quando comparada às armas convencionais, devido ao uso
predominante de polímeros;
Confiabilidade
operacional dependente da qualidade do material e da habilidade do
operador, restringindo seu emprego a funções emergenciais ou suplementares;
Desafios
de certificação e controle de qualidade em ambientes militares
regulados;
Questões
de propriedade intelectual e segurança cibernética dos arquivos
digitais.
Aplicações além das armas A tecnologia não se limita à produção de armamentos. Pesquisadores
identificaram aplicações em diversos campos:
- Construção e engenharia: o Exército e a Marinha dos
EUA estão utilizando impressão 3D para construir quartéis militares,
aproveitando misturas de cimento e concreto de alta performance depositadas
camada por camada por robôs. Projetos menores podem ser concluídos em um dia,
enquanto estruturas maiores ficam prontas em uma semana.
- Equipamentos individuais: a tecnologia oferece
vantagens importantes ao permitir a produção de equipamentos personalizados
como capacetes, coletes e protetores auriculares ajustados às características
anatômicas de cada militar, melhorando conforto, proteção e capacidade
operacional.
- Veículos blindados: pesquisas relacionadas ao
Challenger 3 e aos veículos Boxer, da Rheinmetall BAE Systems Land, demonstram
que componentes estruturais podem ser fabricados por impressão 3D.
- Sistemas aeroespaciais: a NASA testa materiais
impressos em 3D para aplicações futuras no espaço. O mecanismo SuperDraco, que
fornece impulso de escape para a cápsula espacial Dragon V2 da SpaceX, está
totalmente impresso em 3D.
O futuro: impressão 4D e materiais inteligentes Pesquisadores apontam que a Manufatura Aditiva poderá viabilizar a produção
de sensores biométricos e exoesqueletos, ampliando significativamente as
capacidades físicas e cognitivas de militares em operação. A impressão 4D,
evolução natural da impressão 3D, incorpora materiais inteligentes capazes de
responder a estímulos externos.
Tal avanço pode permitir, por exemplo, uniformes com
camuflagem adaptativa ou sistemas capazes de alterar sua estrutura conforme
variáveis ambientais, ampliando as possibilidades de proteção e desempenho. A
tendência é a evolução em direção ao uso de materiais mais leves, resistentes e
complexos, além da integração de elementos eletrônicos.
Soberania tecnológica: o caso brasileiro Para o Brasil, as iniciativas da Taurus, Embraer e XMobots representam mais
do que avanços tecnológicos pontuais. Elas sinalizam:
- Soberania industrial em um dos segmentos mais
críticos da defesa contemporânea, reduzindo dependência de cadeias externas
para modificações ou lotes especiais de componentes.
- Alinhamento com as melhores práticas que emergem do
"laboratório de guerra" ucraniano, mas adaptadas à realidade de um
grande país em paz, com capacidade de construir essa infraestrutura em ambiente
controlado.
- Capacidade de resposta rápida a novas demandas das
Forças Armadas e de clientes internacionais, uma vantagem competitiva crucial
em mercados onde o tempo de desenvolvimento determina contratos.
A XMobots, fundada em 2007 e incubada no CIETEC-USP, emprega
hoje cerca de 700 funcionários e ocupa o 6º lugar no ranking mundial da Drone
Industry Insights. A empresa recebeu investimento da Embraer em 2022,
consolidando sua posição estratégica no setor aeroespacial brasileiro.
"Nosso objetivo é dar à Ucrânia a capacidade de recriar
as peças militares de que precisa, onde e quando realmente for
necessário", afirmou Tom Newman, CEO da Babcock's Land Sector, ao comentar
a parceria com a QinetiQ para apoio ao esforço de guerra ucraniano. A mesma
lógica se aplica ao Brasil: ter capacidade instalada de manufatura aditiva
significa poder responder rapidamente a crises sem depender de cadeias de
suprimento internacionais vulneráveis.
Lições da guerra e perspectivas futuras O Tenente-Coronel Ben Irwin-Clark, comandante do 1º Batalhão de Guardas Irlandeses do Exército Britânico, foi direto ao afirmar que a decisão de investir em
produção interna de drones foi "definitivamente uma lição que aprendemos
da Ucrânia". Os britânicos já imprimiram seu primeiro corpo completo de
drone e treinam 78 soldados como pilotos ou instrutores.
A Holanda desenvolveu o AMCOD (Additive Manufacturing
Container of Defense), um hub de reparo móvel na forma de contêiner de
transporte projetado para ser instalado em qualquer navio da Marinha Real
Holandesa, equipado com ar-condicionado, ventilação e fonte de alimentação
ininterrupta para produção de peças de polímero 24 horas por dia.
No Mali, desde 2015, o Exército Holandês utiliza impressão
3D para substituir peças de sobressalentes desgastadas dos veículos Fennek pelo
clima do deserto, reduzindo drasticamente os prazos de entrega que antes
dependiam de cadeias logísticas complexas.
A nova era da Defesa Os exemplos apresentados demonstram que a manufatura aditiva oferece
vantagens expressivas ao ambiente militar, especialmente em termos de redução
de custos, rapidez na produção, autonomia logística e personalização de
equipamentos. Esses benefícios se estendem à fabricação de armamentos,
munições, peças sobressalentes, equipamentos individuais e até estruturas de
construção civil.
Enquanto a Ucrânia demonstra que a impressão 3D pode
sustentar produção quase artesanal, mas em grande escala, de drones militares,
empresas brasileiras como Taurus, Embraer e XMobots mostram que o país é capaz
de transformar essa lógica em política industrial: fábricas digitais de defesa,
com robôs industriais, linhas seriadas e manufatura aditiva integrada.
Em um cenário em que a próxima geração de conflitos será
protagonizada por enxames de drones projetados, fabricados e modificados em
ciclos cada vez mais curtos, ter empresas brasileiras dominando impressão 3D
industrial é jogar na mesma liga de quem hoje redefine a guerra na Ucrânia, só
que com a vantagem de construir essa capacidade desde já, em ambiente
controlado, para quando o país precisar.
Como ressalta o artigo do EBlog do Exército Brasileiro,
fatores como segurança cibernética e sustentabilidade serão determinantes para
a evolução da Manufatura Aditiva nas próximas décadas. A mensagem é clara: o
Brasil não está apenas observando a revolução da manufatura aditiva na defesa.
Está construindo, em São Carlos, São Leopoldo e São José dos Campos, os pilares
dessa nova era.
Parceria estratégica com SKA e HP coloca
fabricante brasileira de drones no seleto grupo de países que dominam
manufatura aditiva para aplicações militares
*LRCA Defense Consulting - 06/02/2026
Enquanto a Ucrânia revoluciona a guerra moderna com
drones produzidos em impressoras 3D espalhadas por fábricas secretas próximas à
linha de frente, o Brasil dá um salto estratégico na mesma direção, mas com uma
vantagem: a capacidade de construir essa tecnologia crítica em ambiente
controlado, antes que seja necessário utilizá-la sob pressão de conflito.
A XMobots, maior fabricante de drones da América
Latina, acaba de consolidar uma parceria que posiciona o país na fronteira
tecnológica da manufatura aditiva para defesa. A aliança com a SKA Automação de
Engenharias, representante da HP no Brasil, traz para o chão de fábrica
brasileiro impressoras 3D industriais de última geração, a mesma tecnologia que
tem permitido à Ucrânia produzir milhares de drones por mês em condições
extremas.
Da linha de frente ao laboratório industrial Na Ucrânia, a guerra transformou a impressão 3D de promessa em
infraestrutura crítica. Empresas como Wild Hornets operam fazendas de
impressoras (dezenas de equipamentos Bambu Lab e Elegoo funcionando 24 horas
por dia) para produzir componentes de drones interceptadores Sting que combatem
os Shaheds iranianos. A Wild Hornets afirma ter neutralizado 1.738 ativos
inimigos no valor de US$ 1,69 bilhão, incluindo 448 UAVs adversários.
Outras fabricantes ucranianas, como a TAF Drones,
operam instalações secretas no oeste da Ucrânia onde mais de 100 funcionários
produzem cerca de 1.000 drones diariamente usando tecnologias de manufatura que
incluem impressoras 3D. O país já produz mais de quatro milhões de drones
anualmente, estabelecendo novos paradigmas para a indústria global.
O modelo ucraniano demonstrou que a impressão 3D
permite iteração em ciclos curtíssimos: imprimir, montar, testar e modificar
projetos quase em tempo real. Um protótipo que funciona hoje pode ser ajustado
até amanhã, com peças impressas localmente ou provenientes de fornecedores
regionais, comprimindo ciclos de desenvolvimento que poderiam levar anos na
fabricação aeroespacial tradicional em questão de semanas.
Essa agilidade não passou despercebida pelas forças da
OTAN. O Tenente-Coronel Ben Irwin-Clark, comandante do 1º Batalhão Irish Guards
do Exército Britânico, afirmou que a decisão de investir em produção interna de
drones foi "definitivamente uma lição que aprendemos da Ucrânia". Os
britânicos já imprimiram seu primeiro corpo completo de drone e treinam 78
soldados como pilotos ou instrutores.
XMobots: da prototipagem à produção em série É nesse contexto global que a parceria entre XMobots, SKA e HP ganha
relevância estratégica. Durante visita recente à fábrica em São Carlos (SP),
representantes da SKA conheceram a integração das impressoras HP de última
geração aos processos produtivos da empresa, uma tecnologia ainda rara no
Brasil.
Participaram do encontro Jeisiane Valério, COO da
XMobots, e Gabriel Setim Porto Alegre, vice-presidente de Programas, além de
Paulo Ricardo, gerente de Projetos e Manufatura; Gustavo Francisco Nuñez Reyna
Junior, gerente de P&D em Sistemas Elétricos e Eletrônicos; e Gustavo
Sulino, supervisor de Produção Mecânica.
A XMobots deixou de usar impressão 3D apenas como
ferramenta de prototipagem para tratá-la como pilar central da manufatura de
seus sistemas de defesa. Com a SKA como parceira tecnológica, a empresa acessa
um ecossistema de softwares, processos e materiais que permitem fabricar em
série componentes de alta precisão, com repetibilidade e rastreabilidade,
exatamente o tipo de requisito que diferencia um laboratório experimental de
uma linha de produção militar certificada.
A família Nauru: casos de uso da Manufatura Aditiva As soluções aplicam-se diretamente ao desenvolvimento dos drones da família
Nauru, especialmente os modelos Nauru 100D ISTAR, Nauru 500C ISR
e Nauru 1000C ISTAR, plataformas táticas pensadas para missões de
inteligência, vigilância, reconhecimento e aquisição de alvos.
O Nauru 1000C ISTAR, por exemplo, é o drone VTOL
(decolagem e pouso vertical) de categoria 2 selecionado pelo Exército
Brasileiro para missões de monitoramento de fronteiras. Com envergadura de 7,7
metros, autonomia de 10 horas e capacidade de carga útil de 18 kg, o sistema
integra sensores eletro-ópticos, infravermelho, telêmetro laser e sistemas SAR
e GMTI para vigilância.
A XMobots também firmou parceria com a MBDA, maior
empresa europeia de mísseis, para desenvolver a versão armada do Nauru 1000C
com mísseis Enforcer Air, tornando-o o primeiro drone brasileiro a integrar
capacidade de ataque guiado de precisão.
A impressão 3D industrial entra como facilitadora em
diversos pontos críticos:
Produção de carenagens, suportes
internos, pods de sensores e estruturas secundárias complexas:
geometrias que seriam inviáveis ou extremamente custosas com processos
tradicionais;
Redução de ferramental,
gabaritos e dispositivos de montagem, acelerando a entrada em produção;
Iteração rápida de novas
geometrias, hardpoints, dutos e layouts internos, encurtando
drasticamente o ciclo entre projeto e validação em campo.
Drone Nauru 1000C, da XMobots, armado com mísseis Enforcer Air produzidos pela MBDA
Manufatura Aditiva para defesa: casos globais A adoção da impressão 3D pela indústria de defesa não é novidade nos países
desenvolvidos. A HP anunciou recentemente a disponibilidade geral do material
HP 3D HR PA 11 Gen2 para seus sistemas Multi Jet Fusion, oferecendo até 80% de
reusabilidade de pó e até 40% de redução nos custos variáveis de peças,
confirmando sua prontidão para componentes aeroespaciais, de defesa e energia.
A HP também lançou sua primeira impressora industrial
de filamento, a HP IF 600HT, projetada especificamente para materiais de alta
temperatura para fabricar peças complexas para ambientes exigentes como
aeroespacial e defesa.
Empresas como BMW, John Deere e Schneider Electric já
utilizam as impressoras HP Multi Jet Fusion para produção em série de
componentes finais, não apenas protótipos. Na defesa, a tecnologia permite
produzir desde brackets e jigs até peças estruturais certificadas para voo.
Soberania tecnológica em defesa Para o Brasil, a parceria XMobots–SKA–HP representa mais do que um avanço
tecnológico pontual. Ela sinaliza:
- Soberania industrial em um dos segmentos mais
críticos da defesa contemporânea, reduzindo dependência de cadeias externas
para modificações ou lotes especiais de componentes;
- Alinhamento com as melhores práticas que emergem
do "laboratório de guerra" ucraniano, mas adaptadas à realidade de um
grande país em paz, com capacidade de construir essa infraestrutura em ambiente
controlado;
- Capacidade de resposta rápida a novas demandas
das Forças Armadas e de clientes internacionais, uma vantagem competitiva
crucial em mercados onde o tempo de desenvolvimento determina contratos.
Fundada em 2007 e incubada no CIETEC-USP, a XMobots
emprega hoje cerca de 700 funcionários e é líder no desenvolvimento de
aeronaves remotamente pilotadas na América Latina, ocupando o 6º lugar no
ranking mundial da Drone Industry Insights. A empresa recebeu investimento da
Embraer em 2022, consolidando sua posição estratégica no setor aeroespacial
brasileiro.
Drone Nauru 500C
O futuro da guerra... e da indústria Enquanto a Ucrânia demonstra que a impressão 3D pode
sustentar produção quase artesanal, mas em grande escala de drones militares, a
XMobots mostra que o Brasil é capaz de transformar essa lógica em política
industrial: uma fábrica digital de defesa, com robôs industriais, linhas
seriadas e manufatura aditiva integrada.
Em um cenário em que a próxima geração de conflitos
será protagonizada por enxames de drones projetados, fabricados e modificados
em ciclos cada vez mais curtos, ter uma XMobots conectada à SKA e à HP,
dominando impressão 3D industrial no Brasil, é jogar na mesma liga de quem hoje
redefine a guerra na Ucrânia, só que com a vantagem de construir essa
capacidade desde já, em ambiente controlado, para quando o país precisar.
A mensagem é clara: o Brasil não está apenas observando
a revolução da manufatura aditiva na defesa. Está construindo, em São Carlos,
um dos pilares dessa nova era.
Sobre a XMobots Fundada em 2007, a XMobots é a maior fabricante de
drones do Brasil e da América Latina, com sede em São Carlos (SP). A empresa
desenvolve 100% da tecnologia presente em seus produtos: mecânica, hardware,
software e inteligência artificial. Com aproximadamente 700 funcionários, a
XMobots atende os mercados de agricultura, defesa, segurança pública e
geotecnologia.
Sobre a SKA Automação de Engenharias A SKA é representante oficial da HP no Brasil para
soluções de impressão 3D industrial, oferecendo consultoria técnica,
implementação de processos e suporte especializado para manufatura aditiva em
diversos segmentos industriais.
Sobre a HP 3D Printing A HP é líder global em soluções de manufatura aditiva,
com tecnologias Multi Jet Fusion (MJF) e Metal Jet que atendem indústrias
aeroespacial, automotiva, de bens de consumo e defesa. A empresa investe
continuamente em novos materiais e plataformas para expandir as aplicações de
impressão 3D na produção industrial em série.