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16 outubro, 2026

Índia transforma compra de aviões em política industrial, e Embraer disputa espaço nas duas pontas

Com linhas de montagem em operação, um programa de 60 cargueiros militares e a exigência de produção local, Nova Délhi testa parceiros estrangeiros. A Embraer aposta no C-390 com a Mahindra e no E175 com a Adani, mas cada frente depende de encomendas ainda não confirmadas



*LRCA Defense Consulting - 16/10/2026 - 13h08

A Índia quer que cada grande compra aeronáutica deixe no país fábricas, fornecedores e engenheiros. A lógica das iniciativas Make in India e Atmanirbhar Bharat, impulsionadas pelo governo de Narendra Modi, é condicionar o acesso ao terceiro maior mercado de transporte aéreo do mundo à transferência de atividades industriais. Para fabricantes estrangeiros, a política abre oportunidades; para o governo indiano, a questão central é quanto do conhecimento e do valor agregado permanecerá efetivamente em território nacional. 

O teste mais visível dessa política é o programa de aeronaves de transporte médio (MTA) da Força Aérea Indiana (IAF). Em 12 de agosto de 2026, o Ministério da Defesa indiano emitiu o pedido de propostas (RFP) para 60 aeronaves, avaliadas em cerca de ₹1 lakh crore (aproximadamente US$ 10,4 bilhões). A brasileira Embraer concorre com o C-390 Millennium, em parceria com a Mahindra; a norte-americana Lockheed Martin oferece o C-130J Super Hercules, associada à Tata Advanced Systems Limited (TASL). O resultado dependerá do desempenho das aeronaves, mas também de qual proposta contribuir mais para a indústria que a Índia pretende construir. 

Uma cadeia aeronáutica em formação 
O exemplo mais concreto dessa estratégia é o C295, produzido pela Airbus em parceria com a TASL. O contrato, assinado em setembro de 2021, prevê 56 aeronaves para a IAF: 16 fabricadas em Sevilha, na Espanha, e 40 produzidas na Índia. A linha de montagem final de Vadodara, em Gujarat, foi inaugurada em outubro de 2024. O primeiro C295 montado no país saiu da linha em maio de 2026 e realizou o voo inaugural em junho; a entrega à IAF estava prevista para setembro. Segundo os parceiros, o programa já envolve mais de 13 mil peças e 4 mil subconjuntos fabricados localmente, 37 fornecedores indianos e mais de 85% da montagem estrutural e final das unidades indianas. Motores e aviônica, porém, continuam a vir de fornecedores estrangeiros, e a produção das 40 aeronaves deve estender-se até 2031. 

Nas asas rotativas, a Airbus e a TASL inauguraram em fevereiro de 2026, em Vemagal, no estado de Karnataka, a primeira linha privada de montagem de helicópteros do país, dedicada ao H125. O primeiro lote está previsto para o início de 2027. A Lockheed Martin, por sua vez, mantém desde 2010 a Tata Lockheed Martin Aerostructures Limited (TLMAL), em Hyderabad, que já entregou 250 empenagens para a linha global do C-130J. Completa o quadro a estatal Hindustan Aeronautics Limited (HAL), responsável pelo caça Tejas e pelo Su-30MKI, com instalações em Bengaluru e Nashik. 

Esses polos estão em estágios diferentes. Anúncio, inauguração de fábrica, primeiro voo, entrega, certificação e produção sustentada são etapas distintas, e apenas parte delas foi cumprida em cada caso.

Um programa desenhado para produzir no país 
O programa MTA destina-se a substituir os An-32, em operação na IAF desde 1984, e, possivelmente, parte dos Il-76. Aprovado pelo Defence Procurement Board em 2 de março de 2026, segue o modelo Buy and Make: 12 aeronaves serão entregues prontas para voo (fly away) e 48 serão produzidas na Índia por meio de parceria entre o fabricante estrangeiro e uma empresa indiana, responsável também por centros de manutenção, reparo e revisão (MRO). As entregas deverão começar em até 36 meses após a assinatura do contrato, e a imprensa indiana menciona uma opção de ampliação de 50% do lote, o que representaria mais 30 unidades.

O RFP foi encaminhado a Tata, Mahindra, Adani Defence & Aerospace, Reliance Defence e HAL. A IAF busca aeronaves na faixa de 18 a 30 toneladas, capazes de operar em grande altitude e em pistas não preparadas, como as Advanced Landing Grounds de Ladakh e do Nordeste indiano, requisito que reflete as lições da crise com a China na fronteira himalaia. As exigências de conteúdo nacional ainda precisam ser confirmadas pelos documentos oficiais: segundo o portal ThePrint, a indigenização mínima seria de 40%, com elevação escalonada até 60%; a Tribune India fala em percentual progressivamente superior a 50%. 

A disputa não se limita, em tese, a dois concorrentes. A Airbus ofereceu o A400M, com apoio do governo alemão e promessa de até 85% de conteúdo local em fases, mas a aeronave, com carga útil de 37 toneladas, excede o requisito, e a imprensa indiana prevê sua saída da competição. O ThePrint também noticiou que a HAL retomou a articulação com a Rússia, revivendo o projeto conjunto de transporte encerrado em 2016. Na prática, o C-390 e o C-130J são apontados como os principais candidatos. 

A frente militar da Embraer 
A parceria entre Embraer e Mahindra começou com um memorando de entendimento em fevereiro de 2024. Em outubro de 2025, quando a fabricante brasileira inaugurou sua subsidiária em Nova Délhi, as empresas firmaram um acordo de cooperação estratégica para industrialização, fabricação, montagem, cadeia de suprimentos e MRO. Em fevereiro de 2026, durante a visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Índia, anunciaram planos para uma estrutura de manutenção do C-390 no país, condicionada à seleção da aeronave. 

Em 1º de outubro de 2026, as duas empresas identificaram Nagpur, em Maharashtra, como local proposto para a linha de montagem final do C-390. A unidade reuniria montagem, integração de sistemas, engenharia de fabricação e desenvolvimento de fornecedores locais. Vinod Sahay, do Conselho Executivo do Grupo Mahindra, agradeceu ao governo estadual pela rápida alocação do terreno. O anúncio, contudo, não informou área, investimento nem prazo de construção, e a implantação depende da escolha do C-390 e de uma encomenda efetiva. Em junho, executivos da Embraer haviam declarado à FlightGlobal a disposição de reproduzir na Índia a estrutura de Gavião Peixoto (SP), incluindo a montagem estrutural da fuselagem, e de usar a linha indiana para atender exportações.

O passo societário veio em seguida. Em 9 de outubro, a Mahindra Defence Systems Limited (MDSL) firmou acordo para vender à Embraer 51% da Novavayu Aerospace Limited, constituída em 29 de julho de 2026. A conclusão está prevista até 1º de dezembro. Conforme registrou o LRCA, o preço da participação, cerca de ₹510 mil, e a ausência de receitas indicam a compra de uma sociedade recém-criada, sem atividade comercial conhecida. A operação oferece uma estrutura empresarial para projetos futuros, mas nenhum documento público confirma que a Novavayu operará a unidade de Nagpur.

A Embraer não chega à IAF como estranha. A força aérea opera o sistema de alerta aéreo antecipado Netra, desenvolvido sobre o jato ERJ-145, e, segundo publicação reproduzida pelo LRCA em março, a aquisição de mais seis células para a versão Netra Mk-1A recebeu aprovação do Defence Acquisition Council e do Comitê de Segurança do Gabinete, o que elevará essa frota a nove aeronaves. 


A frente comercial depende de 200 encomendas 
Na aviação civil, a parceira é a Adani Defence & Aerospace. O primeiro memorando foi assinado em janeiro de 2026 e ampliado em 21 de fevereiro, em cerimônia acompanhada por Lula e pelo ministro indiano do Comércio e da Indústria, Piyush Goyal. O objetivo é instalar uma linha de montagem final do jato regional E175, alinhada ao programa indiano de aeronaves de transporte regional. Em junho, segundo o Economic Times, a Região Especial de Investimento de Dholera (DSIR), em Gujarat, foi escolhida como sede, superando Bhogapuram, em Andhra Pradesh. 

A condição, porém, é comercial. O presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto, afirmou que a linha só se torna viável com pedidos firmes de ao menos 200 aeronaves; a construção levaria 24 meses, o que permitiria as primeiras entregas em 2028 caso as encomendas fossem fechadas ainda em 2026. Como alternativa, a empresa avalia um centro de acabamento, onde aviões produzidos no Brasil receberiam pintura e interiores. A família E-Jets obteve em julho a certificação de tipo da autoridade de aviação civil indiana (DGCA), e há negociações em curso com a IndiGo, a maior companhia aérea do país, e com a estatal Alliance Air. A Embraer soma cerca de 50 aeronaves de 11 modelos em operação na Índia, entre elas os E175 da Star Air. 

As duas frentes são formalmente separadas. Em 27 de setembro, o presidente da Embraer Defesa & Segurança, Bosco da Costa Junior, reafirmou à agência ANI que a Mahindra é a parceira no programa militar e que a colaboração com a Adani se restringe à aviação comercial. O esclarecimento foi relevante porque a Adani também recebeu o RFP do MTA. Não há evidência pública de que o governo indiano avalie as duas iniciativas em conjunto.

Vantagens que não se anulam 
A Lockheed Martin parte de uma posição consolidada. A IAF adquiriu 12 C-130J a partir de 2011, um deles perdido em acidente em 2014, e conhece a aeronave em operações exigentes, como os pousos na pista de Daulat Beg Oldi, em Ladakh. Tripulações, mecânicos e infraestrutura já estão formados. Além da TLMAL, a TASL iniciou em 18 de dezembro de 2025, em Bengaluru, a construção de uma instalação de MRO para o C-130J, com conclusão prevista para o fim de 2026 e recebimento da primeira aeronave no início de 2027. Desde setembro de 2024, as duas empresas estudam também a ampliação da fabricação e a montagem local do Super Hercules.

O C-390 responde com desempenho e potencial industrial. De acordo com os fabricantes, o C-130J-30 transporta até cerca de 20 toneladas e voa a 356 nós de cruzeiro, enquanto o C-390, movido a turbofans, leva até 26 toneladas e atinge 470 nós. A diferença, de aproximadamente 30% em carga e 32% em velocidade, pode reduzir o número de surtidas necessárias para a mesma missão. Desempenho em altitude, condições de pista, disponibilidade e custo ao longo do ciclo de vida, porém, terão de ser examinados conforme os requisitos efetivos da IAF, sem que um único indicador defina o vencedor. O C-390 oferece ainda à Índia a possibilidade de ingressar desde cedo na cadeia de um programa relativamente novo, cuja frota mundial está em expansão, enquanto o C-130J representa padronização e menor risco de transição. 

Do anúncio à autonomia
A eventual coexistência de polos em Vadodara, Vemagal, Hyderabad, Bengaluru, Nashik, Nagpur e Dholera aponta para uma especialização territorial crescente, mas esses centros têm maturidades muito diferentes: alguns produzem há anos, outros acabam de entregar a primeira aeronave e dois existem apenas como propostas condicionadas a encomendas. Montar aeronaves com conjuntos importados não equivale a dominar engenharia, ensaios, integração e certificação. A consolidação da Índia como polo aeronáutico dependerá de pedidos continuados, produtividade, qualidade certificada, mão de obra qualificada e capacidade exportadora. 

Para a Embraer, a Índia representa mais do que a venda de cargueiros. A presença simultânea nos segmentos militar e comercial, somada ao histórico do Netra e aos fornecedores indianos já integrados à sua cadeia, pode estabelecer relações industriais duradouras. A questão em aberto não é apenas qual aeronave a Índia comprará, mas qual parceria contribuirá melhor para a indústria que o país deseja construir. O C-390 encontra um ambiente favorável à sua proposta de industrialização; o C-130J reúne presença operacional e cadeia produtiva comprovadas. A decisão dependerá de critérios e compromissos que ainda não podem ser considerados resolvidos.

15 outubro, 2026

Avibras passa ao controle dos irmãos Batista e prepara expansão internacional

Aquisição pela Globe Investimentos encerra etapa da reorganização societária; Bruno Dantas assume o conselho e exportações ganham prioridade no plano de recuperação 



 *LRCA Defense Consulting - 15/10/2026 - 15h16

A Avibras Aeroco anunciou nesta quinta-feira, 15 de outubro, a conclusão da venda da totalidade de seu capital à Globe Investimentos, empresa de investimentos pessoais dos empresários Joesley e Wesley Batista. A operação, realizada por meio da aquisição integral da Nova AVB, controladora da fabricante, preserva o controle acionário brasileiro de uma das principais empresas da Base Industrial de Defesa (BID). Ao mesmo tempo, Bruno Dantas assume a presidência executiva do Conselho de Administração, com a missão de apoiar a reconstrução industrial e ampliar a presença internacional da companhia.

O comunicado da Avibras estabelece como prioridades a retomada da produção em escala, o cumprimento dos compromissos assumidos e o crescimento, especialmente por meio das exportações. A empresa não divulgou o valor da aquisição, novos aportes financeiros ou metas de faturamento e vendas externas.

Da recuperação judicial à mudança de controle 
Fundada em 1961, a Avibras enfrentou uma crise prolongada, entrou em recuperação judicial em 2022 e passou por paralisação de atividades e conflitos trabalhistas. A reestruturação separou ativos industriais e tecnológicos na Avibras Aeroco, cuja produção foi retomada em maio de 2026. Em agosto, a proposta de aquisição pela Globe foi submetida ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade); em setembro, a Superintendência-Geral do órgão aprovou a operação sem restrições, por não identificar sobreposição relevante de atividades entre os grupos.

A estrutura societária anunciada é precisa: a Globe torna-se acionista única da Nova AVB, que detém integralmente a Avibras Aeroco. A própria empresa esclarece que a Globe é um family office dos irmãos Batista e não integra a J&F S.A. Essa distinção é relevante para identificar corretamente a adquirente e evitar atribuir a compra diretamente ao conglomerado.

Bruno Dantas e a busca por mercados externos 
Ex-presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Bruno Dantas possui trajetória no controle externo e na auditoria internacional. Presidiu a Organização Internacional das Instituições Superiores de Controle (INTOSAI) e integrou o Conselho de Auditores das Nações Unidas, por eleição da Assembleia Geral. Segundo o comunicado, sua experiência deverá contribuir para o relacionamento institucional com governos estrangeiros, compradores centrais dos grandes sistemas militares.

A atribuição de Dantas é estratégica, mas não equivale à confirmação de contratos internacionais. A conquista de encomendas dependerá de negociações governamentais, requisitos operacionais, autorizações de exportação, capacidade de entrega e condições de financiamento. Sami Hassuani permanece identificado no comunicado como presidente da Avibras Aeroco.

A retomada industrial já apresenta resultados 
A aquisição ocorre poucos dias depois de um marco operacional: em 6 de outubro, a Avibras Aeroco entregou ao Exército Brasileiro o primeiro lote de munições desde a retomada das atividades. O recebimento ocorreu no Centro de Logística de Mísseis e Foguetes, em Formosa (GO). A LRCA Defense Consulting noticiou a entrega e destacou que a fabricante não informou a quantidade nem os modelos das munições, o que impede vinculá-la, com segurança, a um contrato específico.

Outro elemento da recuperação é o Contrato nº 130/2023, no valor de R$ 60,8 milhões, cujos direitos e obrigações foram transferidos à Avibras Aeroco. Conforme documentação examinada pela LRCA, o fornecimento prevê 3.072 foguetes para o Sistema ASTROS: 2.624 AV-SS-09 TS, de treinamento, e 448 SS-30, acondicionados em 56 contêineres com oito unidades cada. A existência do contrato demonstra demanda doméstica, mas não comprova, por si só, a execução integral das entregas.

Tecnologia estratégica e desafios da nova fase 
A Avibras reúne competências em propulsão, foguetes, mísseis e integração de sistemas complexos. Seu produto mais conhecido é o Sistema de Artilharia ASTROS, que contribuiu para projetar a indústria brasileira de defesa no exterior. A preservação de instalações, conhecimento acumulado e equipes especializadas é particularmente importante porque capacidades dessa natureza exigem tempo, investimentos e continuidade para serem recompostas.

Para transformar a aquisição em recuperação sustentável, a nova controladora precisará conciliar capital de giro, fornecedores, pessoal qualificado, cumprimento de obrigações e uma carteira consistente de encomendas. No mercado externo, a expansão também depende de apoio institucional e da capacidade de oferecer suporte logístico de longo prazo. Esses são desafios decorrentes da natureza do setor, não resultados já alcançados pela transação.

A conclusão da compra representa, portanto, uma mudança relevante na estrutura de controle e nas perspectivas comerciais da Avibras. A retomada das entregas ao Exército fornece um primeiro indicador concreto de reativação industrial. A dimensão da recuperação, entretanto, será medida pela regularidade da produção, pela execução dos contratos e pela efetiva conquista de novos mercados.

Embraer recupera contrato com a Portugália e amplia suporte à frota regional da TAP

Acordo abrange 19 E-Jets e marca o retorno da companhia portuguesa ao Programa Pool após experiência com outro fornecedor



*LRCA Defense Consulting - 15/10/2026 - 09h16

A Embraer anunciou nesta quinta-feira, 15 de outubro de 2026, em Lisboa, a assinatura de um contrato com a Portugália Airlines, empresa do Grupo TAP que opera sob a marca TAP Express, para fornecer suporte de componentes a seus 19 jatos regionais. O acordo do Programa Pool contempla 12 aeronaves E190 e sete E195, utilizadas principalmente em ligações europeias e do Norte da África.

Mais do que a dimensão da frota, o anúncio chama a atenção pelo retorno da companhia portuguesa ao programa da fabricante brasileira. A Portugália havia recorrido temporariamente a outro fornecedor, depois de uma longa relação com a Embraer iniciada ainda na época dos jatos ERJ145.

Um retorno apoiado em décadas de relacionamento 

Segundo Mário Lobato de Faria, diretor-geral da Portugália Airlines, a companhia participou da estruturação do Programa Pool na época do lançamento do ERJ145 e foi atendida durante décadas pela Embraer. Após uma breve experiência com um fornecedor alternativo, decidiu retornar ao serviço original.

O executivo destacou a qualidade do relacionamento com a equipe da Embraer, a flexibilidade na transição e a capacidade de acomodar as exigências operacionais da empresa. A declaração indica que o atendimento e a continuidade do suporte tiveram peso na escolha, embora o comunicado não informe as condições financeiras do novo contrato nem identifique o fornecedor anterior.

A relação não é inédita: em fevereiro de 2022, o LRCA registrou que a Embraer havia renovado um acordo do Programa Pool com a TAP Express no trimestre anterior. O anúncio de 2026 representa, assim, um novo capítulo de uma parceria de longa duração.

O que o Programa Pool oferece 
O contrato prevê acesso a mais de 300 componentes de diferentes sistemas dos E-Jets, com serviços de troca antecipada, reparo e revisão geral. Em vez de manter individualmente estoques elevados de peças reparáveis, a companhia pode recorrer à rede de suporte da Embraer, com níveis de desempenho contratualmente estabelecidos.

O modelo busca reduzir custos de armazenagem e de manutenção de inventário, acelerar a reposição de componentes e limitar períodos de indisponibilidade das aeronaves. Esses benefícios são objetivos do programa, e não resultados específicos já mensurados na operação da Portugália.

A importância da Portugália na malha da TAP 
Fundada há 36 anos e integrante do Grupo TAP desde 2007, a Portugália opera exclusivamente para a TAP Air Portugal sob a marca TAP Express, no modelo ACMI, que envolve o fornecimento de aeronaves, tripulações, manutenção e seguro. De acordo com os dados divulgados no comunicado, a companhia responde por aproximadamente 25% dos voos do grupo.

Sua frota de 19 E-Jets atende principalmente destinos em Portugal, Espanha, França, Itália, Alemanha, Reino Unido, Irlanda e Marrocos. Nesse contexto, a disponibilidade de aeronaves e peças é relevante para preservar a regularidade das conexões regionais e alimentar a malha da TAP.

Serviços e suporte ganham dimensão estratégica 
Carlos Naufel, presidente e CEO da Embraer Services & Support, afirmou que o novo acordo fortalece a parceria histórica e expressa a confiança da Portugália nas soluções da fabricante. Para a Embraer, contratos dessa natureza também prolongam o relacionamento comercial muito além da entrega das aeronaves.

O anúncio ocorre apenas dois dias depois do acordo do Programa Pool com a LATAM para apoiar 24 E195-E2 encomendados, com 50 opções adicionais de compra. Em setembro, a Japan Airlines também renovou o suporte à sua frota de 32 E-Jets. Os três movimentos ilustram diferentes funções do negócio: entrada em serviço de novos aviões, continuidade de contratos existentes e recuperação de um operador histórico.

A Embraer não divulgou o valor nem a duração do contrato com a Portugália. Assim, não é possível quantificar seu impacto financeiro. Ainda assim, a recuperação da companhia portuguesa reforça a relevância competitiva da rede global de manutenção, reparo, revisão e distribuição de componentes, um diferencial que pode influenciar a escolha e a permanência de operadores na família de aeronaves da fabricante brasileira.

14 outubro, 2026

Exército inaugura enlace quântico de 12 km e amplia proteção de suas redes estratégicas

Demonstração de comunicação quântica entre o CITEx e o Ministério da Defesa e ativação de estrutura dedicada à segurança da EBNet reforçam a proteção das redes estratégicas e a autonomia tecnológica do Exército Brasileiro



*LRCA Defense Consulting - 14/10/2026 - 22h05

O Exército Brasileiro apresentou, em 30 de setembro de 2026, em Brasília, dois avanços voltados à proteção de sua infraestrutura digital: a inauguração da Rede Quandanga de Comunicação Quântica, que liga o Centro Integrado de Telemática do Exército (CITEx) ao Ministério da Defesa, e a ativação do Centro de Operações e Segurança de Rede do Sistema de Telemática do Exército. Embora tenham funções distintas, as iniciativas convergem para a ampliação da segurança e da resiliência das comunicações militares.

A Rede Quandanga utiliza 12 quilômetros de fibra óptica entre as duas organizações. Segundo o Exército, trata-se da maior ligação quântica por fibra óptica realizada no Brasil. O enlace foi desenvolvido a partir de pesquisas do Instituto Militar de Engenharia (IME), que integrou um equipamento importado responsável pelo canal quântico e pela distribuição de chaves criptográficas a um dispositivo brasileiro de criptografia. A informação foi apresentada pelo coronel Vítor Andrezo, gerente do projeto.

Um teste de interceptação 
Durante a cerimônia, os responsáveis demonstraram transmissões de dados por uma conexão convencional e por outra protegida pela tecnologia quântica, submetendo ambas a simulações de ataque. De acordo com o relato oficial, a tentativa de violação foi bem-sucedida no canal convencional, enquanto o sistema quântico identificou e impediu a interceptação simulada. O resultado demonstra o funcionamento do arranjo nas condições do ensaio, mas não significa que toda a infraestrutura conectada esteja imune a ataques cibernéticos.

A tecnologia empregada está associada à distribuição quântica de chaves, conhecida pela sigla QKD, de Quantum Key Distribution. Em vez de transportar necessariamente os dados por um canal quântico, o método utiliza propriedades físicas de estados quânticos para estabelecer chaves criptográficas e revelar determinadas interferências no processo de distribuição. A proteção final das informações também depende dos algoritmos, equipamentos e procedimentos de segurança utilizados nos sistemas convencionais. 


Da pesquisa à aplicação institucional 
A inauguração em Brasília representa uma nova etapa de uma trajetória de pesquisas que o LRCA acompanha desde 2025. Naquele ano, o portal noticiou a instalação do primeiro enlace óptico no espaço livre do Exército, entre o IME e o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro. Com aproximadamente 800 metros e capacidade de até 1 Gbit/s, a ligação emprega comunicação óptica por laser e integra a infraestrutura de pesquisa associada às redes Hermes Quântica e Rio Quântica. Esse enlace óptico não deve ser confundido com um sistema QKD plenamente operacional.

Em setembro de 2026, pesquisadores do IME vinculados à Rede Hermes Quântica ativaram um equipamento de QKD baseado no protocolo BB84. Segundo o instituto, os ensaios iniciais utilizaram bobinas de fibra óptica equivalentes a 40 quilômetros de percurso, em ambiente laboratorial. O sistema, fornecido pela suíça ID Quantique, possui alcance nominal de até 120 quilômetros, sujeito às condições da implementação. O IME também anunciou planos de ensaios em enlaces reais no Rio de Janeiro e, posteriormente, na Região Amazônica, utilizando infraestrutura do Programa Amazônia Conectada.

A Rede Hermes Quântica, coordenada pelo IME, concentra-se em aplicações de Defesa. A Rede Rio Quântica envolve, além do instituto militar, a Universidade Federal Fluminense, o CBPF, a PUC-Rio e a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Os projetos recebem apoio de instrumentos de fomento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, incluindo recursos da FINEP e do CNPq.

Supervisão centralizada da EBNet 
O segundo anúncio foi a ativação do Centro de Operações e Segurança de Rede do Sistema de Telemática do Exército, subordinado ao CITEx. A nova estrutura reúne, pela primeira vez, as atividades de observação, monitoramento e operação da rede corporativa privativa da Força, a EBNet.

Segundo o general de brigada Rodolfo Roque Salguero de La Vega Filho, chefe do CITEx, o centro concentra informações captadas por equipamentos, sensores e sistemas, permitindo acompanhamento mais proativo da rede. A centralização busca antecipar falhas, reduzir interrupções e reforçar a proteção dos serviços digitais utilizados pelo Exército. A medida resulta da padronização de soluções e da adoção de novas ferramentas de monitoramento e segurança.

O novo centro não deve ser confundido com a Rede Quandanga: enquanto o enlace quântico constitui uma aplicação específica de proteção da distribuição de chaves, o centro atua na gestão e na segurança da infraestrutura de telemática. O anúncio conjunto não comprova que a tecnologia quântica já esteja integrada ao conjunto da EBNet. 


Soberania tecnológica e perspectivas para a Defesa 
A aproximação entre instituições de pesquisa e estruturas operacionais é especialmente relevante em um cenário de crescente dependência das Forças Armadas de redes digitais para comando, controle, logística e intercâmbio de informações. A capacidade de desenvolver, integrar e avaliar soluções críticas no País reduz determinadas dependências tecnológicas, embora a presença de equipamento importado no enlace mostre que a autonomia nessa área ainda é um objetivo em construção.

A iniciativa se insere em um esforço mais amplo. O Programa Defesa Cibernética na Defesa Nacional, conduzido sob liderança do Exército, inclui uma Iniciativa Quântica no âmbito de seu subprograma de independência tecnológica. Em setembro de 2026, o Exército e o Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer também firmaram entendimento para desenvolver o Projeto AURORA, voltado à pesquisa de redes optoeletrônicas resilientes e tecnologias de comunicação quântica. Não há, contudo, elementos suficientes para afirmar que esses projetos já constituam uma arquitetura operacional integrada.

Na cerimônia em Brasília, o general de Exército Hertz Pires do Nascimento, chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia, associou os lançamentos ao esforço de modernização da segurança digital da Força e mencionou o exercício Guardião Cibernético 8.0 como outra expressão dessa prioridade institucional.

A evolução das pesquisas do IME até a demonstração de um enlace de 12 quilômetros entre organizações da Defesa constitui um resultado concreto. O desafio seguinte será ampliar a maturidade dos sistemas, avaliar sua operação continuada e determinar em que medida poderão ser incorporados a redes militares de maior abrangência. Por ora, a importância dos anúncios está na combinação entre experimentação tecnológica, integração nacional de soluções criptográficas e fortalecimento da gestão cotidiana das comunicações do Exército.

Embraer vence disputa com Airbus e conquista encomenda de até 26 E190-E2 da Japan Airlines

Decisão confirma vantagem antecipada pelo LRCA em setembro, amplia presença da fabricante brasileira no Japão e fortalece perspectivas para a família E2



*LRCA Defense Consulting - 13/10/2026 - 08h15

A Japan Airlines (JAL) anunciou nesta quarta-feira, 14 de outubro, a escolha do Embraer E190-E2 para renovar a frota regional de sua subsidiária J-AIR. O compromisso abrange 26 aeronaves, sendo 16 pedidos firmes e dez opções de compra, com entregas previstas a partir do ano fiscal japonês de 2029. A decisão representa uma vitória comercial da fabricante brasileira em uma concorrência na qual o Airbus A220 também era considerado.

A confirmação dá sequência à reportagem publicada pelo LRCA em 22 de setembro, que apontava a vantagem da Embraer na disputa, ainda sem decisão formal. Na ocasião, a expectativa divulgada era de aproximadamente 20 aeronaves. O anúncio oficial estabelece agora o volume contratado e a composição entre encomendas firmes e opções.

Renovação de uma operação consolidada 
A J-AIR, sediada no Aeroporto Internacional de Osaka (Itami), conecta cidades de diversas regiões japonesas. Sua frota regional reúne 18 E170 e 14 E190, segundo o levantamento publicado anteriormente pelo LRCA. O E190-E2 foi selecionado como sucessor dessa geração de aeronaves, mas a JAL ainda não detalhou o ritmo de retirada de cada modelo, a configuração de cabine nem a eventual conversão das opções em pedidos firmes.

A escolha se insere na estratégia JAL Group Management Vision 2035, que procura preservar a conectividade doméstica em um ambiente marcado pela redução da demanda de viagens de negócios, mudanças demográficas, inflação e pressões cambiais. Para a companhia, modernizar a frota é uma forma de conciliar custos operacionais, eficiência ambiental e manutenção de rotas essenciais à economia regional.

Tecnologia e custos operacionais 
O E190-E2 emprega motores Pratt & Whitney PW1900G e asas redesenhadas. Segundo a JAL, essas características proporcionam menor consumo de combustível, emissões de dióxido de carbono e ruído em comparação com aeronaves da geração anterior, além de contribuir para reduzir custos de manutenção. A ficha técnica divulgada pela empresa indica capacidade padrão de 97 a 114 assentos e alcance de até 5.463 quilômetros. A configuração específica da J-AIR não foi informada.

Em declaração publicada no comunicado, Mitsuko Tottori, presidente e CEO do Grupo JAL, destacou o desempenho ambiental e econômico do novo avião e sua contribuição para preservar uma rede aérea doméstica sustentável, considerada infraestrutura social indispensável para as comunidades japonesas.

O peso da relação com a Embraer 
A encomenda sucede a renovação plurianual, anunciada em setembro, do Programa Pool de suporte a componentes da atual frota da J-AIR. O acordo cobre peças reparáveis e serviços de manutenção, favorecendo a disponibilidade das aeronaves durante a transição. Conforme informações divulgadas anteriormente pela Embraer e reproduzidas pelo LRCA, a frota regional havia registrado confiabilidade média de serviço de 99,8% nos seis meses anteriores à renovação do contrato.

Essa experiência operacional ajuda a explicar a competitividade da fabricante brasileira, embora a JAL não tenha divulgado os critérios e pesos utilizados na comparação entre propostas. A continuidade com a família Embraer pode oferecer vantagens em familiaridade operacional e estrutura de suporte, mas os benefícios concretos dependerão dos contratos e do planejamento de implantação.

Japão ganha relevância para a família E2 
A escolha da JAL se soma aos compromissos anteriormente anunciados pela ANA Holdings, concorrente japonesa que, segundo o levantamento do LRCA, acumulava 23 pedidos firmes de E190-E2 e cinco opções. Considerados esses números e o anúncio atual, as duas empresas passam a representar 39 encomendas firmes e 15 opções da família E190-E2. Essa concentração pode favorecer, ao longo do tempo, uma base mais ampla de serviços, treinamento e manutenção no Japão, embora não exista anúncio específico de novos investimentos nesse sentido.

A decisão também tem valor simbólico após o encerramento, em 2023, do programa japonês Mitsubishi SpaceJet. A JAL havia planejado incorporar 32 aeronaves desse projeto, que não chegou à fase de entregas. O E190-E2 passa agora a integrar a solução de renovação regional, sem que isso permita equiparar automaticamente os volumes dos dois programas.

Uma vitória confirmada, com detalhes ainda pendentes 
O anúncio encerra a incerteza sobre o fabricante escolhido, mas não esclarece o valor financeiro do negócio, o cronograma completo das entregas ou os aeroportos e rotas que receberão primeiro os novos aviões. Também não significa que as dez opções já constituam vendas definitivas.

Para a Embraer, o resultado consolida a presença em um mercado exigente e fortalece sua posição perante a Airbus no segmento de jatos regionais. Para a JAL, representa uma decisão de longo prazo destinada a manter a capilaridade de sua malha doméstica. O que o LRCA havia identificado em setembro como uma vantagem competitiva transforma-se, agora, em uma encomenda formal.

13 outubro, 2026

Atech: a engrenagem que dá à Embraer domínio de sistemas, do escudo antidrone ao cérebro das fragatas

Publicação do CEO Rodrigo Persico expõe o portfólio de proteção contra drones da subsidiária, que une sensores, inteligência e comando e controle, e revela o peso de uma empresa pouco visível para o Grupo Embraer na defesa aérea, no controle do espaço aéreo e na Marinha do Brasil



*LRCA Defense Consulting - 13/10/2026 - 17h01

Quando se fala em Embraer, a imagem que vem à mente é a de aviões: o KC-390 Millennium, o A-29 Super Tucano, os jatos comerciais e executivos. Mas boa parte da inteligência que o grupo vende às Forças Armadas não voa. Ela está em consoles, servidores e algoritmos desenvolvidos pela Atech, a subsidiária paulistana que se define como a “casa de sistemas” da Base Industrial de Defesa (BID) brasileira. Nesta terça-feira (13), o diretor-presidente da empresa, Rodrigo Persico, usou o LinkedIn para apresentar o portfólio antidrone da Atech, chamado em inglês de counter-unmanned aerial systems (C-UAS), e reafirmar que se trata de tecnologia brasileira voltada à proteção de pessoas, operações e ativos estratégicos.

Segundo a publicação, as soluções da empresa integram sensores de radiofrequência, radares, câmeras e recursos de comando e controle para detectar, identificar, classificar e apoiar a neutralização de ameaças aéreas. Persico destacou ainda a capacidade de localizar a origem dos sinais de controle, o que ajuda a identificar o operador do drone hostil e a coordenar as forças de resposta, e listou cinco frentes de emprego: defesa, segurança pública, grandes eventos, infraestruturas críticas e emergências, como o combate a incêndios.

A mensagem chega num momento em que o drone barato se tornou uma das principais ameaças do campo de batalha e da segurança urbana, e ajuda a entender por que uma empresa de cerca de 550 a 600 funcionários (o número varia conforme a fonte) ocupa posição tão estratégica dentro do Grupo Embraer. 


Do sensor ao policial na porta do piloto 
O núcleo do sistema antidrone é a plataforma Arkhe Integrated Surveillance (Arkhe IS), da família de produtos Arkhe, que reúne as soluções de defesa e segurança da Atech. Conforme o material técnico da empresa e a reportagem publicada pelo portal LRCA em abril, a arquitetura é multissensor e modular. Seu ponto de partida é um sensor de radiofrequência passivo, que cobre de 70 MHz a 6 GHz (incluindo as faixas de 433, 868 e 915 MHz e de 2,4, 5,2 e 5,8 GHz, usadas pela grande maioria dos drones comerciais) e opera em 360 graus, de dia ou de noite, inclusive sob mau tempo. Por ser passivo, ou seja, apenas “escuta” o espectro, o sensor dispensa homologação da Anatel.

O equipamento detecta drones com ou sem Remote ID, o protocolo de identificação remota, e coleta telemetria dos modelos comerciais que usam protocolo aberto. Para aeronaves não colaborativas, o modo Strobe executa a radiogoniometria (direction finding), apontando o azimute de origem do sinal. Com dois ou mais sensores, o sistema faz a triangulação e fixa a posição do drone e do rádio controle. O alvo aparece georreferenciado na interface do operador, com simbologia padronizada pela norma militar MIL-STD-2525, e pode ser classificado como amigo, neutro ou hostil. Um módulo de aprendizado de máquina (machine learning) refina a classificação, reduz falsos positivos e apoia a manutenção preditiva.

Sobre essa base, a solução agrega radares, câmeras eletro-ópticas e infravermelhas (EO/IR) e meios de neutralização, como bloqueadores (jammers), que interrompem o enlace do drone, e spoofers, que manipulam os sinais de navegação para desviá-lo. A instalação pode ser fixa (prédios e torres), móvel (viaturas) ou transportável (tripés), e a empresa propõe uma escalada gradual: o cliente começa com sensores de radiofrequência e incorpora radares e câmeras conforme a criticidade da área e o orçamento. Prever a integração de interferidores, porém, não significa que toda configuração entregue inclua neutralização ativa: o emprego de jammers no Brasil depende de autorização e de avaliação de riscos, sobretudo nas proximidades de aeroportos e de sistemas de comunicação sensíveis. O alcance de detecção também não é universal, pois varia com a altura de instalação, a linha de visada e as interferências do local.

O diferencial que a Atech mais enfatiza, e que Persico repetiu na postagem, é tratar o problema como questão de inteligência, e não apenas de bloqueio. Quando um drone é classificado como hostil, a localização da aeronave e do piloto é repassada ao Arkhe GDI, a plataforma de gestão de incidentes, que coordena as equipes em campo, exibe a posição dos agentes e dos drones policiais e transmite vídeo em tempo real. Em áreas sem cobertura celular, a comunicação segue por satélite, por meio de kits de mochila (os “Mochilinks”). Os dados acumulados alimentam o Arkhe Data Analysis, que gera mapas de calor, históricos de modelos detectados e pontos recorrentes de decolagem, enquanto o módulo Arkhe Athena cuida da segurança cibernética de todo o conjunto.

“O desafio é identificar rapidamente o que é risco e reagir antes que o problema se torne um incidente”, resumiu Claudio Nascimento, gerente comercial da Atech. A solução foi apresentada ao público na LAAD Security Milipol Brazil 2026, realizada de 14 a 16 de abril, em São Paulo, com demonstrações ao vivo do fluxo completo, da detecção à resposta. Na ocasião, o diretor de Negócios de Defesa, Giacomo Staniscia, afirmou que o objetivo era mostrar como a empresa pode apoiar inclusive operações de busca e captura do operador. 


Um mercado aquecido, e ainda dependente de fornecedores estrangeiros 
As cinco frentes citadas por Persico não são hipotéticas. Drones já são usados para lançar drogas e celulares em presídios, sobrevoar multidões, transportar contrabando nas fronteiras e, no limite, carregar explosivos. Em 2025, o governo do Rio de Janeiro abriu pregão para comprar 80 sistemas antidrone, de quase R$ 27 milhões, destinados às polícias Civil e Militar e à administração penitenciária. Em junho de 2026, a Polícia Federal fechou contrato de R$ 21,7 milhões com a israelense D-Fend Solutions para seis sistemas (quatro fixos e dois móveis), dentro do esquema de segurança dos candidatos à Presidência da República nas eleições deste ano.

O dado revela, ao mesmo tempo, a demanda e o espaço ainda ocupado por tecnologia importada. É exatamente nesse ponto que a Atech aposta no argumento da soberania: ao manter internamente todo o ciclo de desenvolvimento, da concepção ao suporte, a empresa oferece às forças de segurança e às Forças Armadas um sistema cujos algoritmos, base de dados e atualizações permanecem sob controle nacional. Ainda assim, nem a postagem de Persico nem os documentos públicos da empresa informam contratos específicos, quantidades de sistemas entregues ou resultados de ensaios operacionais da solução, o que impede, por ora, medir o estágio comercial do produto.

Do solo ao ar: a ponte com o Super Tucano 
A integração entre a Atech e a controladora fica evidente no conceito antidrone do A-29 Super Tucano. Em novembro de 2025, a Embraer anunciou o SANT (Super Tucano Anti-Drone Tactics), conceito operacional que permite aos operadores atuais e futuros da aeronave interceptar drones com os sensores e armamentos já qualificados: a torre eletro-óptica com designador laser, as metralhadoras .50 nas asas e foguetes de 70 mm guiados a laser. Não se trata de uma nova versão do avião, mas de uma missão adicional.

A peça que fecha a cadeia sensor-atirador é justamente a rede terrestre da Atech. Segundo o material da empresa, quando o C-UAS terrestre é integrado a aeronaves de ataque leve como o A-29, as coordenadas dos alvos detectados pelos sensores no solo chegam à cabine pelo enlace de dados, ampliando o alcance e a eficácia da neutralização. Na prática, o grupo passa a oferecer um pacote completo, em que a subsidiária detecta e coordena, e o avião da Embraer engaja ameaças maiores, como os drones de ataque do tipo Shahed. 


O cérebro das Fragatas Classe Tamandaré 
Se no antidrone a Atech constrói mercado, no mar ela já ocupa uma das posições mais sensíveis da Defesa brasileira. No Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT), contratado em 2020 com o consórcio Águas Azuis, formado por TKMS, Embraer Defesa & Segurança e Atech, a empresa responde pelo desenvolvimento e integração do Sistema de Gerenciamento de Combate (CMS, na sigla em inglês), do enlace de dados táticos e das atividades de integração e testes do sistema de combate, em parceria com a alemã ATLAS ELEKTRONIK, subsidiária da TKMS. Também é responsável, com a L3Harris, pelo Sistema Integrado de Gerenciamento da Plataforma (IPMS).

O CMS integra os 22 componentes do sistema de combate do navio: radares, sonar, guerra eletrônica, optrônicos, mísseis antiaéreos de lançamento vertical, torpedos e o canhão de 76 mm. O sistema compila os dados dos sensores, identifica e classifica múltiplas ameaças e sugere ao comando a melhor resposta tática. O IPMS, por sua vez, monitora e controla 68 sistemas de propulsão, energia, auxiliares e controle de avarias. Os laboratórios de integração e testes funcionam no escritório da Atech no Rio de Janeiro, inaugurado em outubro de 2021.

O ano de 2026 marcou a consolidação desse trabalho. Entre 9 e 13 de abril, a fragata Tamandaré (F200) passou pela certificação técnica e operacional de seus sistemas de combate na área marítima de Cabo Frio (RJ), incluindo o lançamento de torpedo que testou a integração entre sonar, sistema de lançamento e CMS. O navio foi incorporado à Esquadra em 24 de abril. No mesmo mês, a Atech e a Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha (DSAM) assinaram um Protocolo de Intenções voltado à evolução contínua do CMS ao longo da vida útil dos navios. O documento sinaliza a intenção de manter a parceria, mas não equivale, por si só, à contratação de novos desenvolvimentos. Em maio, a empresa inaugurou na Base Naval do Rio de Janeiro o Simulador Tático e o Centro de Suporte do Sistema de Combate (CSSC), instalado no Centro de Apoio a Sistemas Operativos (Casop), estrutura que permite configurar o sistema, validar atualizações de software e treinar as tripulações antes do embarque.

O programa soma R$ 12 bilhões no primeiro lote, inserido no Novo PAC, e prevê a entrega das quatro fragatas, construídas pela TKMS Estaleiro Brasil Sul, em Itajaí (SC), até 2029. A Atech é também a receptora da transferência de tecnologia dos dois sistemas, o que dá à Marinha capacidade de manter e evoluir o “cérebro” dos navios sem depender exclusivamente de fornecedores europeus. A Força já manifestou intenção de contratar um segundo lote de quatro fragatas, com meta de elevar o conteúdo local de 32% para 42% e integrar o míssil antinavio nacional MANSUP-ER, o que tende a ampliar o papel da empresa. 

C4I, espaço aéreo e até o reator do submarino 
A competência em comando, controle, comunicações, computação e inteligência (C4I) é a origem da Atech. A empresa atua na evolução do Dacom (Defesa Aérea e Circulação Operacional Militar), o sistema central de comando e controle da defesa aeroespacial brasileira, e há mais de três décadas desenvolve, em parceria com o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) e a Comissão de Implantação do Sistema de Controle do Espaço Aéreo (Ciscea), os sistemas que gerenciam o tráfego aéreo do País, como o Sigma e o Sagitario. 

Segundo a Embraer, as soluções da subsidiária apoiam a gestão de cerca de 22 milhões de quilômetros quadrados de espaço aéreo, área que inclui a porção oceânica sob responsabilidade brasileira. Em julho de 2024, durante o Farnborough International Airshow, a Atech fechou com o Decea dois contratos que somam US$ 17 milhões para modernizar esses sistemas, e o relatório da administração de 2025 registra mais quatro contratos com o órgão para desenvolver e modernizar sistemas de controle de tráfego aéreo. No Dacom, a empresa firmou no mesmo ano acordo de continuidade do Simulador de Operações Militares (SOpM).

O portfólio vai além. A empresa é a principal fornecedora dos sistemas de instrumentação e controle do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (Labgene), protótipo em terra da planta de propulsão do submarino convencionalmente armado com propulsão nuclear Álvaro Alberto, e concluiu em 2025 os testes desses sistemas. Também desenvolveu o sistema de missão N-TDMS dos helicópteros AH-15B Super Cougar da Marinha, participa dos simuladores do caça Gripen e integra, há cinco anos consecutivos, o exercício Locked Shields, o maior treinamento de ciberdefesa do mundo, organizado pelo centro de excelência da OTAN em Tallinn.

No exterior, a Atech fornece sistemas de gestão de fluxo de tráfego aéreo à Índia e sistemas de vigilância aérea e terrestre a programas de defesa no Norte da África. Em setembro de 2025, assinou contrato com a sul-africana ATNS para modernizar o gerenciamento de fluxo de tráfego aéreo no Aeroporto Internacional O.R. Tambo, em Joanesburgo, com conclusão prevista para o terceiro trimestre de 2027. Em junho de 2025, abriu em Lisboa seu primeiro escritório fora do Brasil, ao lado da Embraer Defense Europe. Em junho deste ano, firmou parceria com o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP (ICMC/USP) para usar inteligência artificial na previsão de trajetórias de aeronaves em quatro dimensões. A experiência em tráfego aéreo também serve a outra empresa do grupo: em 2023, a Eve Air Mobility informou que a Atech apoiou o desenvolvimento de seu software de gestão de tráfego aéreo urbano, voltado aos futuros “carros voadores”. 


Por que a Atech importa para a Embraer 
A empresa nasceu em dezembro de 2009, da cisão parcial da Fundação Atech, herdeira de um programa de absorção de tecnologia de controle de tráfego aéreo da Força Aérea Brasileira iniciado na década de 1980. A Embraer Defesa & Segurança comprou 50% do capital em abril de 2011 e assumiu o controle total em 2013. Credenciada como Empresa Estratégica de Defesa (EED) pelo Ministério da Defesa, a Atech mantém unidades em São Paulo, Rio de Janeiro, São José dos Campos e Brasília.

Para o grupo, a subsidiária cumpre ao menos três funções. A primeira é transformar a Embraer de fabricante de plataformas em fornecedora de soluções integradas: o avião, o radar, o centro de comando e o software que une tudo. A segunda é financeira, pois os contratos de suporte e atualização de sistemas de missão e de tráfego aéreo geram receitas recorrentes que suavizam os ciclos longos das encomendas de aeronaves. A terceira é a credibilidade internacional: o sistema brasileiro de gestão de tráfego aéreo é reconhecido pela Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), e a presença em programas como o Labgene e as fragatas atesta capacidade de lidar com sistemas de missão crítica.

Os números confirmam o peso da operação. Segundo as demonstrações financeiras de 2025, a Atech, controlada integralmente pela Embraer Defesa e Segurança Participações, registrou receita líquida de R$ 344,6 milhões, alta de cerca de 27% sobre os R$ 271,3 milhões de 2024. O lucro líquido somou R$ 70,6 milhões, pouco abaixo dos R$ 73,9 milhões do ano anterior. O relatório da administração aponta ainda crescimento de 75% nas vendas e de 25% na carteira de pedidos (backlog), indicadores que se referem a negócios fechados e não devem ser confundidos com a receita reconhecida no exercício. Um detalhe chama a atenção: o documento não menciona a linha antidrone entre os destaques do ano, o que indica que o C-UAS, embora promissor, ainda não tem peso relevante no faturamento. 


A estratégia ganhou novo instrumento em 28 de abril, quando a Atech assinou memorando de entendimento com a ALADA, estatal designada pelo Ministério da Defesa para conduzir exportações no modelo governo a governo (G2G). O acordo pode facilitar a venda de sistemas de C4I e antidrone a governos estrangeiros, em sintonia com as negociações que a própria Embraer conduz para o KC-390 e o Super Tucano.

À frente da empresa está um executivo formado dentro do grupo. Engenheiro mecânico pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com MBAs pela FIA-USP e pela Fundação Getulio Vargas (FGV), Rodrigo Persico acumula mais de duas décadas na Embraer, onde atuou em engenharia de produto no Brasil e no exterior e, a partir de março de 2020, ocupou a vice-presidência de Inteligência de Mercado da unidade de Defesa & Segurança, antes de suceder Edson Mallaco na presidência da Atech.

O que vem pela frente 
A demanda por proteção antidrone deve continuar crescendo, impulsionada pelas lições da Ucrânia e do Oriente Médio, pela proteção de grandes eventos e pela escalada do uso criminoso dessas aeronaves no País. O posicionamento da Atech, porém, tem limites que convém observar. Sensores de radiofrequência dependem de que o drone emita sinais. Aeronaves totalmente autônomas, que voam sem enlace de rádio, ou os drones FPV guiados por fibra óptica, cada vez mais comuns no front ucraniano, não deixam rastro no espectro. Contra esse tipo de ameaça, a detecção depende de radares e câmeras, e a neutralização exige meios cinéticos (hard kill), que a empresa não fabrica e precisaria integrar por meio de parceiros.
No entanto, sua grande capacidade de integração representa um passo importante em direção a esse objetivo.

É justamente nessa capacidade de integração que reside a principal vantagem da subsidiária. Como camada de comando e controle, o Arkhe pode, em tese, agregar sensores e armas de diferentes fabricantes, inclusive os de uma eventual defesa antiaérea em camadas do Exército e da Força Aérea. Se essa vocação de integradora se confirmar também no antidrone, como já ocorre nas fragatas e no controle do espaço aéreo, a Atech tende a deixar de ser a parte menos visível do Grupo Embraer para se tornar uma das mais estratégicas.

Embraer amplia parceria com a LATAM e assume suporte de componentes dos novos E195-E2

Contrato do Programa Pool contempla mais de 300 componentes e reforça a estrutura de manutenção para a expansão da companhia aérea no Brasil



*LRCA Defense Consulting - 12/10/2026 - 09h25

A Embraer e o LATAM Airlines Group anunciaram nesta terça-feira, 13 de outubro, em Santiago do Chile, um acordo para incluir a futura frota de E195-E2 da companhia aérea no Programa Pool de compartilhamento de componentes da fabricante brasileira. O contrato abrange as 24 aeronaves encomendadas em caráter firme e estabelece uma estrutura de suporte técnico e logístico para sua introdução nas operações da LATAM. O grupo também possui opções de compra de outros 50 jatos.

O anúncio ocorre em um momento decisivo da parceria. Em 8 de outubro, as empresas celebraram, em São José dos Campos (SP), o início do processo de entrega do primeiro E195-E2 da LATAM, de um total de 12 aeronaves previstas para 2026. A chegada do modelo inaugura uma nova etapa de expansão da malha aérea da companhia no Brasil.

Como funciona o Programa Pool 

O acordo compreende mais de 300 componentes de diferentes sistemas do E195-E2 e prevê fornecimento de peças por meio de trocas antecipadas, serviços de reparo e revisão geral, além da manutenção de um estoque selecionado nas instalações da LATAM no Brasil. Em vez de adquirir e armazenar individualmente um grande volume de componentes sobressalentes, a companhia passa a contar com uma estrutura compartilhada de atendimento, administrada pela Embraer.

Na prática, o modelo procura reduzir o tempo de indisponibilidade das aeronaves quando algum componente precisa ser substituído. O acesso a peças de reposição, associado à capacidade de reparo e à gestão de estoques, é especialmente importante na fase de entrada em serviço de um novo tipo de avião, quando a empresa ainda está consolidando seus processos de manutenção e sua cadeia de suprimentos.

Segundo a Embraer, o programa permite reduzir despesas com reparos, estoques e armazenagem, operando sob níveis de desempenho contratualmente garantidos. O comunicado, entretanto, não informa o valor financeiro do novo acordo, sua duração nem os indicadores específicos de disponibilidade previstos.

“Este acordo do Programa de Pool de Componentes representa um passo importante para a LATAM na preparação para a introdução do E195-E2 em sua frota”, afirmou Carlos Naufel, presidente e CEO da Embraer Serviços e Suporte, segundo o comunicado divulgado pela fabricante. O executivo destacou o objetivo de oferecer uma solução de suporte robusta e economicamente eficiente desde o primeiro dia de operação.

Uma frota voltada à ampliação da conectividade 
A encomenda dos E195-E2 foi anunciada em setembro de 2025 e envolve 24 pedidos firmes, avaliados em aproximadamente US$ 2,1 bilhões a preços de tabela, além de 50 opções de compra. As opções não constituem vendas adicionais confirmadas. Inicialmente, os jatos serão destinados à LATAM Airlines Brasil, embora o grupo tenha indicado a possibilidade de utilização futura por outras afiliadas sul-americanas.

Em agosto de 2026, a LATAM apresentou a primeira fase de utilização do modelo no Brasil: até 14 aeronaves incorporadas gradualmente entre novembro de 2026 e março de 2027, distribuídas por 42 rotas. O planejamento inclui quatro novas bases, em Cabo Frio (RJ), Ji-Paraná (RO), Macaé (RJ) e Rondonópolis (MT), elevando a rede doméstica prevista para 67 destinos nessa etapa.

O E195-E2 permitirá à LATAM ajustar a capacidade oferecida em mercados nos quais aeronaves maiores podem não representar a solução operacional mais adequada. Esse perfil favorece a abertura de ligações e a ampliação de frequências, embora a viabilidade de cada rota dependa da demanda e dos custos efetivos de operação.

O valor estratégico do suporte pós-venda 
Para a Embraer, o contrato também reforça uma frente de negócios que se estende muito além da entrega das aeronaves. Serviços de manutenção, reparo, revisão e fornecimento de componentes acompanham os aviões ao longo de sua vida operacional e podem gerar receitas recorrentes, além de estreitar o relacionamento com os operadores.

A presença de um estoque selecionado de componentes nas instalações da LATAM no Brasil merece atenção especial. Essa solução aproxima peças críticas da operação e pode reduzir a dependência de remessas emergenciais, embora o comunicado não detalhe a localização, a quantidade de itens ou os prazos de atendimento contratados.

O novo acordo, portanto, complementa a aquisição dos E195-E2 com uma estrutura de sustentação operacional. Seu resultado deverá ser avaliado na prática, à medida que as aeronaves entrarem em serviço e a LATAM ampliar sua rede, especialmente quanto à disponibilidade da frota, à eficiência da manutenção e à regularidade dos voos.

12 outubro, 2026

Mac Jee levará tecnologia brasileira à produção de explosivos estratégicos nos Estados Unidos

Parceria com o ICOR Group prevê produção de TNT, RDX e outros materiais energéticos na Louisiana, com financiamento privado e protagonismo tecnológico da empresa brasileira



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LRCA Defense Consulting - 12/10/2026 - 20h45 (atualizado às 22h2)

A brasileira Mac Jee e o ICOR Group, conglomerado industrial de origem lituana, anunciaram nesta segunda-feira, 12 de outubro de 2026, durante a AUSA Annual Meeting and Exposition, em Washington, D.C., um acordo para avançar na constituição de uma joint venture destinada a desenvolver a produção de TNT, RDX e outros materiais energéticos nos Estados Unidos. A iniciativa, prevista para receber financiamento privado, busca ampliar a capacidade produtiva norte-americana de insumos críticos para munições e fortalecer a resiliência da cadeia de suprimentos de defesa. 

Considerada uma das maiores exposições mundiais dedicadas à defesa terrestre, a AUSA 2026 (Association of the United States Army Annual Meeting & Exposition), realizada entre 12 e 14 de outubro, em Washington, D.C., deverá reunir mais de 40 mil participantes e 750 empresas expositoras, incluindo gigantes como Lockheed Martin, General Dynamics, BAE Systems, Boeing e Rheinmetall. Entre os principais temas desta edição estão a modernização do Exército norte-americano, o emprego de drones, a inteligência artificial, a guerra eletrônica e os sistemas de fogos de precisão. A escolha desse ambiente para anunciar a parceria confere maior visibilidade internacional à Mac Jee e evidencia a oportunidade de inserir tecnologia brasileira em um segmento estratégico da indústria de defesa dos Estados Unidos.

A participação brasileira é o principal diferencial tecnológico do empreendimento. Segundo o comunicado conjunto, a Mac Jee deverá liderar a concepção dos processos, a engenharia, a integração de equipamentos e o comissionamento. Ao ICOR Group caberão o desenvolvimento do local, a coordenação do financiamento e o relacionamento com o Exército dos Estados Unidos, grandes contratantes de defesa e autoridades federais, estaduais e locais.

Uma fábrica existente como ponto de partida 

O projeto poderá aproveitar uma antiga planta de produção de amônia na Louisiana, de propriedade do ICOR Group. A infraestrutura industrial existente é apontada como uma possível base para o desenvolvimento da instalação. A escolha, contudo, não é definitiva: o grupo condiciona a implementação no local às consultas necessárias com as autoridades locais. 
No entanto, representa um passo importante em direção a esse objetivo.
O comunicado não informa o montante previsto para o investimento, a capacidade de produção nem o cronograma. Tampouco confirma o início das obras ou a entrada em operação. A referência ao financiamento privado caracteriza a estrutura anunciada para a iniciativa, sem permitir concluir que não haverá incentivos ou outras formas de participação pública no futuro.

Tecnologia brasileira em materiais energéticos 
TNT e RDX são substâncias empregadas na fabricação de munições e cargas explosivas. O fornecimento desses materiais tem importância para a continuidade da produção de armamentos, incluindo munições de artilharia e aplicações em mísseis. Por isso, ampliar fontes domésticas de produção constitui um objetivo estratégico para a indústria de defesa norte-americana.

A Mac Jee afirma possuir experiência na concepção, modernização e implantação de linhas de produção de TNT, RDX dos tipos I e II, HMX e composições energéticas relacionadas, inclusive em projetos fora do Brasil. A referência ao HMX demonstra a abrangência de suas competências, mas não significa que esse produto esteja confirmado no escopo da futura fábrica.

A empresa já divulgou anteriormente a implantação de uma planta de materiais energéticos na Arábia Saudita, com capacidade declarada de 2 mil toneladas anuais de TNT e 120 toneladas anuais de RDX. Essa experiência ajuda a contextualizar a escolha da Mac Jee como parceira tecnológica, mas não permite inferir a capacidade da instalação planejada nos Estados Unidos.

“Nossa contribuição para este projeto se apoia em nossa tecnologia de processo, na experiência de nossas equipes de engenharia e em nossa capacidade de conduzir projetos industriais complexos desde a concepção até o comissionamento”, declarou Alessandra Stefani, CEO da Mac Jee, na divulgação brasileira do acordo.

O parceiro internacional e a divisão de responsabilidades 
Fundado em 1990, o ICOR Group tem origem na Lituânia e informa reunir mais de 3 mil empregados, mais de 100 empresas e atividades em mais de 60 países. Sua atuação abrange engenharia industrial, energia, manufatura, infraestrutura, gestão de instalações e outros segmentos. No empreendimento norte-americano, o grupo contribuirá com o ativo industrial, a estruturação do projeto e a interlocução com os potenciais interessados institucionais e comerciais.

Jonas Steikūnas, diretor de desenvolvimento de negócios do ICOR Group, afirmou que a combinação da experiência industrial e da capacidade de investimento do grupo com a tecnologia e a engenharia da Mac Jee pretende estabelecer uma plataforma norte-americana de longo prazo para materiais energéticos críticos.

Uma oportunidade para a Base Industrial de Defesa brasileira 

A relevância do anúncio para o Brasil está no papel reservado à Mac Jee: em vez de figurar apenas como fornecedora de equipamentos, a empresa brasileira participa do conceito industrial e da implantação de processos especializados em um mercado estratégico. Trata-se de uma demonstração de capacidade de internacionalização tecnológica, ainda sujeita à concretização do empreendimento.

O acordo também amplia a visibilidade da atuação internacional da companhia, que mantém instalações em São José dos Campos e Paraibuna e operações no exterior, incluindo França e Arábia Saudita, conforme sua apresentação institucional.

Os próximos marcos a acompanhar são a definição do local, a estrutura societária, o fechamento do financiamento, as autorizações aplicáveis, a capacidade projetada e o calendário de implantação. Até que esses dados sejam divulgados, a iniciativa deve ser tratada como um projeto industrial em desenvolvimento, não como uma fábrica já em construção.

11 outubro, 2026

Retaguarda sob fogo: o alerta de um logístico do Exército

Em artigo na Revista Doutrina Militar Terrestre, o coronel Jonathas da Costa Jardim sustenta que drones e mísseis de longo alcance acabaram com a ideia de uma retaguarda segura e propõe rever a forma como a Força Terrestre posiciona e protege suas bases logísticas



*LRCA Defense Consulting - 11/10/2026 -12h15

Durante décadas, bastou afastar os depósitos de munição, combustível e peças algumas dezenas de quilômetros da linha de frente para mantê-los fora de perigo, porque a artilharia inimiga simplesmente não chegava lá. Essa premissa, que ainda orienta os manuais do Exército Brasileiro (EB), vem sendo desmontada diariamente na Ucrânia, na Rússia e no Oriente Médio. É o que demonstra o coronel Jonathas da Costa Jardim no artigo "A vulnerabilidade de estruturas logísticas face aos sistemas de ataque de longo alcance", publicado na edição de maio a agosto de 2026 da Revista Doutrina Militar Terrestre.

O texto parte de uma constatação incômoda: pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, instalações logísticas situadas a centenas de quilômetros da linha de contato estão sendo atacadas e destruídas de forma sistemática por mísseis de cruzeiro, drones kamikaze e munições guiadas. Para o autor, não se trata de um fenômeno restrito ao teatro russo-ucraniano, mas de uma tendência que redefine o próprio conceito de vulnerabilidade logística, e o Exército precisa se preparar para ela ainda em tempo de paz.

Quem é o coronel Jonathas 
Para o leitor fora dos quartéis, o nome pode não dizer muito, mas o currículo explica por que suas análises merecem atenção. Oficial do Quadro de Material Bélico, declarado aspirante pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) em 2002, ele fez carreira justamente na engrenagem que mantém o Exército em condições de combater: manutenção, suprimento e transporte.

Comandou a 111ª Companhia de Apoio de Material Bélico, no biênio 2017-2018, e o Batalhão Central de Manutenção e Suprimento (BCMS), em 2024-2025. O BCMS é subordinado à Base de Apoio Logístico (Ba Ap Log), do Comando Logístico (COLOG), organização que faz a ponte entre o material produzido pela indústria e as unidades operacionais. Ou seja, o autor escreve sobre a vulnerabilidade dos nós logísticos depois de ter comandado um deles.

A formação acadêmica acompanha a experiência de tropa. Jonathas é mestre em Ciências Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), concluiu o curso de Comando e Estado-Maior na ECEME (2019-2020) e obteve mestrado acadêmico em Segurança e Defesa pela Universidade de Madras, na Índia (2023). Também é bacharel em Direito, pela Universidade São José, e pós-graduado em Direito Militar, pela Fundação Trompowsky. Foi instrutor da EsAO (2012-2013) e, a partir de 2021, da ECEME, ou seja, ajudou a formar as gerações de capitães e oficiais de estado-maior que hoje planejam a logística da Força.

O currículo internacional é extenso. Fez o curso de Operações de Inteligência na Escuela de Inteligencia Militar del Ejército, na Bolívia (2014), o aperfeiçoamento de oficiais em logística na Escuela de Armas, na Argentina, e o curso de Estado-Maior de Defesa no Defense Services Staff College, na Índia (2022-2023). Atualmente, é aluno do Curso de Estado-Maior Conjunto da Academia de Defensa Militar Conjunta (ADEMIC), das Forças Armadas do Equador. Essa trajetória lhe dá uma visão comparada de como diferentes exércitos pensam o apoio ao combate.

Uma produção dedicada à logística 
O artigo mais recente é o capítulo atual de uma linha de pesquisa coerente. Em 2023, na revista PADECEME, da ECEME, Jonathas analisou a logística da guerra russo-ucraniana à luz dos fatores da decisão. Na edição de janeiro a março de 2025 da própria Doutrina Militar Terrestre, ainda como tenente-coronel e comandante do BCMS, tratou dos desafios logísticos do EB no contexto das Operações Multidomínio. Ali defendeu a criação de um Comando de Transportes Logísticos (COMTL), vinculado ao Ministério da Defesa, e apresentou o projeto do BCMS de impressão 3D de peças de reposição para rádios Harris e Motorola, itens de difícil aquisição.

Em maio de 2026, em coautoria com o tenente-coronel Átila Alves de Souza, publicou na Revista Brasileira Militar de Ciências um estudo sobre logística preditiva como multiplicador de força. O texto usa a Operação Epic Fury como exemplo de emprego de inteligência artificial na coordenação entre logística e operações e propõe indicadores de confiabilidade e disponibilidade para o EB. O fio condutor de toda essa produção é o mesmo: acompanhar as guerras em curso quase em tempo real e convertê-las em propostas concretas para a doutrina brasileira.

Uma doutrina pensada para a artilharia de tubo 
O núcleo do novo artigo é a análise dos manuais de campanha que regem a logística terrestre, em especial Logística Militar Terrestre (EB70-MC-10.238, hoje em revisão pelo Centro de Doutrina do Exército), Batalhão Logístico (EB70-MC-10.317) e Grupamento Logístico (EB70-MC-10.357). Segundo o autor, esses documentos estabelecem que as bases logísticas devem ficar "fora do alcance da artilharia do inimigo" e organizam sua defesa contra forças especiais infiltradas, mas não tratam de forma sistemática da proteção contra mísseis de cruzeiro, drones de longo alcance ou munições lançadas de aeronaves.

Na prática, o parâmetro implícito de segurança acaba sendo dado pelos próprios sistemas do EB: o obuseiro autopropulsado M109 A5+ BR, com alcance máximo de 30 km, e os foguetes do sistema ASTROS II, que vão de 30 a 90 km. Pelo critério tradicional, uma base logística de brigada posicionada a 80 km da linha de contato seria considerada segura. Contra drones com autonomia de 300 a 800 km ou mísseis de cruzeiro que passam de 1.000 km, ela está exposta. O coronel chama essa situação de "segurança ilusória".

Jonathas tem o cuidado de não acusar a doutrina de erro. Para ele, o descompasso decorre da mudança radical do cenário tecnológico nos últimos 15 anos. Ele lembra que a ideia de paralisar o inimigo atacando os nós de sua estrutura industrial e logística já existia nos anos 1930, com a Industrial Web Theory da Air Corps Tactical School norte-americana. A novidade, escreve, está na tecnologia, que tornou esses ataques mais baratos, numerosos e precisos.

A conta econômica explica a escolha dos alvos. Um drone do tipo Shahed-136 custa entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, enquanto um míssil Patriot PAC-3 usado para interceptá-lo passa de US$ 3 milhões. Do outro lado, a destruição de uma única base logística de brigada pode tirar de combate uma grande unidade inteira por dias ou semanas, com prejuízo de dezenas de milhões de dólares em material. Para quem ataca, a troca é amplamente vantajosa.

A guerra confirma o diagnóstico 
O artigo apoia o diagnóstico em casos recentes. Cita a Operação Epic Fury, com quase mil ataques nas primeiras doze horas, empregando bombardeiros B-2, caças F-22 e F-16 e mais de 160 mísseis de cruzeiro Tomahawk contra alvos a mais de 1.500 km das plataformas de lançamento. Registra também que, em maio de 2026, mais de 500 drones ucranianos de longo alcance atingiram a região de Moscou e refinarias russas, comprometendo cerca de 25% da capacidade de refino e paralisando temporariamente as unidades de Kirishi, Norsi e Ryazan. Um gráfico elaborado pelo autor mostra ataques ucranianos documentados entre 2023 e 2026 a até 1.300 km da fronteira.

Dados de outras fontes, do mesmo período, reforçam a tese. Na Ucrânia, o Ministério da Defesa lançou em maio o programa Logistics Lockdown, voltado a escalar ataques com drones de médio alcance contra a logística russa entre 20 e 150 km atrás da linha de frente. O Institute for the Study of War (ISW) contabilizou ao menos 303 ataques desse tipo em junho, quase 50% a mais que os 210 registrados em maio. Segundo a Guarda Nacional ucraniana, os russos passaram a desmontar comboios e a deslocar suprimentos em viaturas isoladas mesmo a 20 ou 70 km da frente, exatamente o tipo de dispersão forçada que o coronel descreve.

Em profundidade estratégica, a campanha contra a indústria de energia russa também se intensificou. Levantamento do Financial Times com dados da consultoria polonesa Rochan Consulting apontou pelo menos 194 ataques bem-sucedidos de drones ucranianos contra refinarias russas desde o início de 2026, com recorde de 16 em maio. Em julho, Kiev atingiu uma refinaria em Ufa, a mais de 1.300 km da linha de frente.

No Oriente Médio, segundo o Comando Central norte-americano, a Operação Epic Fury, iniciada pelos Estados Unidos com Israel em 28 de fevereiro de 2026, mirou desde o primeiro momento centros de comando e controle da Guarda Revolucionária, defesas antiaéreas, locais de lançamento de mísseis e drones e bases aéreas iranianas. O Comando Central norte-americano informou que a força-tarefa Scorpion Strike empregou, pela primeira vez em combate, drones de ataque de mão única de baixo custo. A retaliação iraniana, por sua vez, atingiu infraestrutura de energia no Golfo, com incêndio em um polo petrolífero saudita e interrupção temporária da produção de gás natural liquefeito no Catar. Nos dois teatros, as cadeias de suprimento viraram alvo prioritário.

A retaguarda como zona de combate 
Um dos pontos mais fortes do artigo é a análise do Warfighter Exercise 26-03, conduzido pelo V Corps do Exército dos Estados Unidos em março de 2026, na Polônia (Camp Kościuszko) e em Fort Knox, com divisões alemã, lituana e polonesa da OTAN. A principal lição registrada foi que a área de retaguarda deixou de ser um espaço logístico passivo e passou a ser uma zona de combate ativa, que exige comando e controle próprio, defesa antiaérea integrada e poder de combate dedicado.

No exercício, as Maneuver Enhancement Brigades norte-americanas, especializadas em segurança da retaguarda, só protegeram a área de forma eficaz quando reforçadas por uma força-tarefa de infantaria mecanizada com artilharia de 155 mm, morteiros e viaturas blindadas armadas com canhões de 30 mm. Para o autor, se até um exército tecnologicamente superior enfrenta lacunas em defesa antiaérea de curto alcance, guerra eletrônica e mobilidade na retaguarda, o EB, que não dispõe de estruturas equivalentes, precisa olhar para o problema com urgência.

Antiaérea para quem abastece a tropa 
O coronel aponta uma fragilidade estrutural: os grupamentos e batalhões logísticos não possuem artilharia antiaérea orgânica, e o menor escalão que a possui é a brigada. Como as prioridades de defesa antiaérea são definidas pelo comandante a partir da análise de vulnerabilidade, importância, recuperabilidade e possibilidades do inimigo aéreo (fatores VIRP), as instalações logísticas raramente aparecem no topo da lista. Em combate de alta intensidade, os meios disponíveis tendem a ir para os elementos de manobra, deixando janelas de vulnerabilidade exploráveis pelo adversário. Na síntese do autor, a necessidade é maior que a disponibilidade.

O que o autor propõe 
A primeira proposta é a dispersão. Em vez de grandes bases concentradas, Jonathas defende fragmentar a base logística de brigada em destacamentos logísticos geograficamente dispersos, capazes de operar de 48 a 72 horas sem apoio externo, e apoiados por hubs logísticos distribuídos em profundidade. Para reduzir a cauda logística, sugere investir em manufatura aditiva em combate, telemanutenção, plataformas elétricas de transporte com baixa assinatura térmica e acústica e fontes de energia renovável.

A segunda é elevar a prioridade antiaérea das estruturas logísticas no exame de situação, com defesa em camadas composta por mísseis portáteis (Manpads), sistemas anti-SARP com guerra eletrônica, detecção acústica e por radiofrequência, canhões de 20 a 30 mm com munição programável e radares de vigilância para alvos lentos e de baixa altitude. Ele vincula a proposta ao Programa Estratégico Sentinela, dedicado à defesa antiaérea da Força Terrestre e um dos sete programas prioritários do Portfólio Estratégico do Exército, aprovado pelo Estado-Maior em 4 de março de 2026, e sugere considerar capacidades inspiradas no Iron Dome israelense para proteger estruturas críticas e a Base Industrial de Defesa (BID).

A terceira é substituir o critério único de distância por "Zonas de Risco Logístico Escalonadas": uma faixa vermelha, de 0 a 200 km da linha de contato, com dispersão máxima, defesa antiaérea integral e camuflagem; uma amarela, de 200 a 500 km, com dispersão recomendada e antiaérea seletiva; e uma verde, acima de 500 km, com vigilância e planos de contingência. O autor recomenda incorporar o modelo aos exercícios da EsAO e da ECEME, para que os jovens líderes aprendam desde cedo a tratar a proteção da logística como prioridade.

A Zona de Interior também está no alcance 
O artigo vai além do campo de batalha. Jonathas lembra que a BID e as instalações logísticas centrais, como a Base de Apoio Logístico do Exército, formam o elo entre a capacidade produtiva e o emprego operacional. Mesmo com as fábricas intactas, a destruição desse nó interromperia o fluxo para a zona de combate por meses. Em território nacional, tais instalações podem ser alcançadas por mísseis lançados de navios ou submarinos, por aeronaves operando em standoff com armamento de mais de 300 km de alcance ou por forças que atuem por meio de proxies.

O autor reconhece que as ameaças potenciais ao País não dispõem hoje desses sistemas. O argumento é que estruturas permanentes, adestramento conjunto e subordinações claras não surgem no momento do conflito e precisam ser construídos antes. Por isso, conclui que integrar a defesa antiaérea à logística, criar redundância geográfica de capacidades produtivas e desenvolver sistemas nacionais de ataque de longo alcance são investimentos estratégicos para preservar a autonomia operacional brasileira.

O Exército já se movimenta 
As propostas chegam em um momento em que a Força começa a reagir ao problema. Entre o fim de julho e o início de agosto de 2026, o Comando de Defesa Antiaérea do Exército conduziu em Formosa (GO) o exercício Sagitta Primus 2026, com mais de 500 militares de 23 organizações militares e participação da Força Aérea Brasileira. Pela primeira vez, o exercício incluiu uma experimentação doutrinária com uma seção anti-SARP, coordenada pelo Centro de Doutrina do Exército, e demonstrações de empresas da BID. O próprio coronel cita o exercício entre suas referências.

Em março, o Exército entregou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva um plano de R$ 456 bilhões em investimentos até 2040, no qual a ausência de defesa antiaérea de média altura aparece como uma das lacunas mais graves. Também está prevista para 2026 a contratação de um sistema de defesa antiaérea de até R$ 3,4 bilhões, apresentado como capaz de interceptar drones e mísseis de cruzeiro. O artigo de Jonathas acrescenta a esse debate uma pergunta que costuma ficar em segundo plano: quem vai proteger quem abastece a tropa.

O texto abre com uma frase atribuída ao general Dwight D. Eisenhower, segundo a qual batalhas, campanhas e guerras são ganhas ou perdidas principalmente pela logística. O que o coronel acrescenta é que, na guerra de 2026, a logística deixou de estar a salvo apenas por estar longe.

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