SatVHR
supera simulação de lançamento no LIT do INPE e consolida o maior projeto de
subvenção da história da Finep, em momento em que o Brasil debate sua
dependência de satélites estrangeiros
*
LRCA Defense Consulting - 15/05/2026
O Satélite de
Pequeno Porte de Altíssima Resolução, batizado de SatVHR, passou com folga por
um dos testes mais rigorosos de seu desenvolvimento: a simulação das vibrações
extremas que ocorrem durante o lançamento de um foguete. A notícia, divulgada
pela Visiona Tecnologia Espacial na última terça-feira, representa um passo
decisivo para que o Brasil coloque, pela primeira vez, em órbita um satélite
óptico de observação da Terra de altíssima resolução integralmente projetado em
solo nacional.
O que é o SatVHR e por que o teste importa
O SatVHR foi concebido para capturar imagens detalhadas de
grandes áreas do território com resolução sub-métrica de 0,75 metro. Em
linguagem prática, isso significa que, a partir do espaço, o satélite
conseguirá distinguir objetos com menos de um metro de tamanho na superfície
terrestre. Essa capacidade abre portas para aplicações que vão da defesa e da
vigilância de fronteiras ao monitoramento ambiental da Amazônia, passando pelo
ordenamento territorial, a proteção de terras indígenas e o suporte ao agronegócio.
O teste superado agora, chamado de teste de vibração,
submete o modelo estrutural e térmico do satélite a cargas mecânicas ainda mais
severas do que as previstas no lançamento real. O procedimento foi realizado no
Laboratório de Integração e Testes (LIT) do Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (INPE), em São José dos Campos, considerado o principal laboratório
espacial da América Latina.
"O objetivo aqui é simples: ter certeza de que o
satélite vai resistir ao momento mais crítico da missão, a decolagem, sem
sofrer danos ou deformações que comprometam seu funcionamento. É um teste muito
duro em que submetemos o satélite a cargas ainda mais severas do que as que ele
enfrentará no lançamento", afirmou Himilcon Carvalho, diretor de
Tecnologia Espacial da Visiona.
A preocupação tem razão de ser: mesmo pequenas deformações
estruturais podem desalinhar sensores de orientação e o sistema óptico da
câmera, comprometendo de forma irreversível a missão. Com o teste concluído com
sucesso e boa margem de segurança, a equipe ganhou a confiança necessária para
avançar às próximas etapas do projeto.
"O satélite SatVHR requer extrema precisão para
funcionar. O sucesso neste teste tão crítico nos dá confiança de que estamos na
direção certa", disse João Paulo Rodrigues Campos, presidente e CEO da
Visiona.
Um projeto de envergadura nacional
O SatVHR é muito mais do que um produto de uma única
empresa. O projeto é liderado pela Visiona, joint-venture entre a Embraer
Defesa & Segurança e a Telebras, criada em 2012 para atender aos objetivos
do Programa Espacial Brasileiro. O desenvolvimento reúne um consórcio amplo: as
empresas Equatorial Sistemas, Fibraforte, Kryptus, OPTO Space & Defense e
Orbital Engenharia participam como coexecutoras, ao lado de instituições de
pesquisa como o próprio INPE, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), o
Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), o Instituto SENAI de Inovação, a AEL
Sistemas e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
O contrato foi assinado em maio de 2023 com a Financiadora
de Estudos e Projetos (Finep) e prevê investimento total de R$ 219 milhões em
subvenção econômica do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (FNDCT). Trata-se do maior projeto de subvenção econômica já
concedido pela Finep em sua história. O resultado esperado é também inédito: o
SatVHR deverá ser o satélite com maior índice de conteúdo nacional já
desenvolvido no país.
O reconhecimento externo já veio. Em março de 2026, a
Visiona recebeu, no Palácio do Itamaraty, em Brasília, o Prêmio Finep de
Inovação 2025, na categoria Tecnologias de Interesse para a Soberania e a
Defesa Nacionais. A cerimônia contou com a presença da ministra da Ciência,
Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, e do presidente da Finep, Luiz Antônio
Elias.
Uma trajetória de aprendizado acumulado
O SatVHR não nasce do zero. Ele é o ponto de chegada de uma
trajetória de acúmulo tecnológico que a Visiona vem construindo nos últimos
anos. Em 2017, a empresa foi responsável pelo Satélite Geoestacionário de
Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC-1), voltado a comunicações militares e
banda larga. Em abril de 2023, lançou o VCUB1, o primeiro nanossatélite de
observação da Terra e coleta de dados desenvolvido por uma empresa privada
brasileira.
O VCUB1 operou por quase dois anos em órbita e encerrou sua
missão em fevereiro de 2025, ao reentrar na atmosfera conforme planejado. O
satélite serviu como banco de testes para tecnologias de navegação, gestão de
bordo e comunicação que não podiam ser verificadas integralmente em
laboratório. Segundo o diretor de Tecnologia da Visiona, Himilcon Carvalho,
essas soluções agora migrarão para o SatVHR.

O Brasil espacial: potencial imenso, investimento modesto, dependência externa
A importância do SatVHR precisa ser lida em um contexto mais
amplo: o Brasil é uma das maiores economias do planeta, ocupa posição singular
na geopolítica por seu tamanho continental, sua biodiversidade e seus recursos
naturais, mas permanece entre os países do G20 que menos investem no setor
espacial.
Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI)
revelou que, em 2023, o Brasil destinou apenas US$ 47 milhões em recursos
públicos ao setor espacial, o equivalente a 0,002% do PIB. O valor coloca o
país à frente apenas do México entre as 20 maiores economias do mundo e é cerca
de 30 vezes menor do que a média do grupo. Para comparação, os Estados Unidos
investiram US$ 73,2 bilhões (0,264% do PIB) no mesmo ano; a China, entre US$ 14
e 18 bilhões; Índia e Rússia, entre US$ 1,5 e 2,5 bilhões.
Atualmente o Brasil opera apenas 24 satélites entre os mais
de 13 mil em órbita ao redor da Terra. A dependência de infraestrutura
estrangeira é concreta: um levantamento do Programa Espacial Brasileiro (PEB)
aponta que só o Poder Executivo federal demanda, anualmente, R$ 860 milhões em
serviços espaciais contratados de terceiros. Entre 2013 e 2023, o orçamento da
Agência Espacial Brasileira (AEB) foi reduzido em 68%.
"A indústria espacial brasileira pode ser protagonista
global, assim como a respeitada indústria aeronáutica. Atualmente dependemos de
satélites estrangeiros para atender a necessidades básicas da sociedade
brasileira. Temos que mitigar essa vulnerabilidade que ameaça nossa
soberania", alerta Julio Shidara, presidente da Associação das Indústrias
Aeroespaciais do Brasil (AIAB).
Soberania como prioridade de Estado
Diante desse diagnóstico, iniciativas como o SatVHR ganham
significado estratégico que vai além da engenharia. Dominar a produção de
satélites de observação em alta resolução significa, na prática, reduzir a
dependência de fornecedores estrangeiros para dados sobre o próprio território
nacional, em áreas sensíveis que incluem defesa, monitoramento ambiental,
controle de fronteiras e gestão de recursos naturais.
Analistas do setor apontam que a experiência acumulada em
projetos nacionais como o SatVHR cria um ecossistema industrial e científico
que transcende o equipamento em si. Ela forma engenheiros especializados,
fortalece fornecedores locais, gera propriedade intelectual e cria base para
projetos futuros, inclusive comerciais.
O governo federal, por sua vez, incluiu o setor aeroespacial
na Nova Indústria Brasil (NIB), política industrial lançada pelo Conselho
Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI). A missão 6 da NIB prevê aportes
de cerca de R$ 113 bilhões para ampliar o domínio brasileiro em radares,
satélites e foguetes, com meta de alcançar até 55% de domínio das tecnologias
críticas de defesa até 2026 e 75% até 2033.
Em paralelo, o Microlançador Brasileiro (MLBR) está em
desenvolvimento com investimento de R$ 189 milhões do Ministério da Ciência,
Tecnologia e Inovação, em parceria com a Agência Espacial Brasileira (AEB). Com
cerca de 12 metros de altura e capacidade para transportar satélites de até 40
quilos, o foguete visa dar ao Brasil autonomia de lançamento orbital a partir
de Alcântara (MA), cuja localização próxima à linha do Equador representa
vantagem competitiva rara no mercado espacial global. Os primeiros lançamentos
estão previstos para 2027.
Próximos passos do SatVHR
Com o teste de vibração concluído, o SatVHR avança para as
etapas subsequentes de qualificação. O modelo estrutural e térmico, que foi o
objeto dos testes atuais, dará lugar ao modelo de voo, que incorporará todos os
sistemas funcionais do satélite. O projeto foi contratado para entrega até o
fim de 2026, o que coloca o lançamento como possibilidade concreta ainda dentro
do calendário original.
Para o Brasil, colocar em órbita um satélite de altíssima
resolução de concepção inteiramente nacional representaria um marco comparável,
guardadas as proporções, ao que significou a aviação regional para a Embraer
nas décadas de 1980 e 1990. Seria a prova de que o país tem capacidade de
desenvolver tecnologia espacial de ponta, não apenas de operar e consumir o que
outros produzem.
O teste concluído no LIT do INPE, por menor que pareça ao
grande público, é um tijolo nessa construção. E cada tijolo conta.