Enquanto a empresa desenvolve revestimento de grafeno para reduzir a assinatura de radar de aviões e drones militares, o Brasil já figura como pioneiro mundial no uso do material em armamento leve, mas ainda não possui um programa conhecido voltado à absorção de radar
*LRCA Defense Consulting - 12/07/2026
Portugal deu um passo relevante na corrida global pela tecnologia stealth. A GTechPlasma, spin-off do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, desenvolveu um material à base de grafeno capaz de absorver radiação eletromagnética, incluindo ondas de radar, o que poderia reduzir de forma significativa a visibilidade de aeronaves e drones militares aos sistemas de deteção. A informação foi divulgada pela Euronews em reportagem publicada em 30 de junho de 2026.
Tecnologia de plasma permite
controlar o grafeno em nível atômico
Segundo Bruno Soares Gonçalves,
cofundador da GTechPlasma e também presidente do Instituto de Plasmas e Fusão
Nuclear, a empresa criou um sistema baseado em plasma que produz grafeno a
partir de precursores como álcool etílico ou metano. A equipe afirma conseguir
controlar o material em nível atômico, o que permitiria ajustar suas
propriedades conforme a aplicação pretendida, seja para absorção de radar,
blindagem eletromagnética, armazenamento de hidrogênio ou separação de terras
raras e urânio. O dispositivo utilizado no processo está patenteado nos Estados
Unidos, no Japão e na Europa, segundo o pesquisador.
De caça a pássaro: a promessa
de reduzir a assinatura de radar
De acordo com estimativas
apresentadas pela própria empresa, ainda não validadas por testes
independentes, um caça F-16 revestido com o material desenvolvido pela
GTechPlasma passaria a apresentar, ao radar, uma assinatura equivalente à de um
pássaro. Gonçalves argumenta que essa redução representaria vantagem
estratégica relevante em missões militares, já que dificultaria ou atrasaria a
deteção da aeronave pelo adversário. O executivo destaca ainda que soluções
semelhantes são raras e fortemente controladas em nível internacional, citando
que o material que reveste o caça norte-americano F-35 não pode ser exportado,
o que abriria espaço estratégico para uma tecnologia desenvolvida em território
europeu.
Produção ainda em escala
reduzida, mas já em fase de industrialização
Atualmente, os dispositivos da
GTechPlasma produzem cerca de 40 miligramas de grafeno de alta qualidade por
minuto, ainda em forma de pó. A empresa afirma já ter fornecido 260 gramas do
material a um fabricante português de drones, não identificado, para fins de
teste em aplicações de absorção de radar. Para escalar a produção, a
GTechPlasma fechou parceria com a Plasmaphene, empresa sediada em Vila Viçosa e
beneficiária de financiamento do programa Compete 2030, que ficará responsável
por industrializar o equipamento. O objetivo de médio prazo é migrar do pó para
revestimentos ou tintas prontos para aplicação direta em superfícies como
drones e aeronaves.
Brasil já é pioneiro mundial em
armamento leve com grafeno
Se, na aviação militar, o
Brasil ainda não tem um programa conhecido de material absorvedor de radar
equivalente ao português, o País já figura, desde 2021, como pioneiro mundial
no uso do grafeno aplicado a armamento leve. A Taurus Armas mantém, desde então,
convênio com a Universidade de Caxias do Sul (UCS) e sua planta industrial
UCSGraphene, considerada a maior produtora de grafeno da América Latina, para
pesquisa e desenvolvimento de armas com o material.
Em julho de 2022, a empresa lançou a pistola GX4 Graphene, apresentada como a primeira arma de fogo do mundo com grafeno incorporado a componentes injetados e ao revestimento das peças metálicas, por meio de tecnologia exclusiva batizada de Cerakote Graphene. A Taurus também desenvolveu, com a Taurus Helmets, o primeiro capacete automobilístico com grafeno do mundo, e incorporou o material à pistola TX9, lançada no início de 2026 para o mercado americano de aplicação da lei. A empresa já mencionou publicamente, ainda sem data confirmada, planos de lançar uma submetralhadora com grafeno e nióbio.
Reservas de grafite dão
vantagem estratégica ao País
A aposta brasileira no grafeno
é reforçada por um fator geológico: o Brasil detém a maior reserva mundial de
grafite, matéria-prima do grafeno, o que já foi apontado publicamente pela
própria Taurus como vantagem competitiva para o desenvolvimento de novas
tecnologias no País. Essa condição sugere que o Brasil reúne, ao menos em tese,
condições para avançar também no campo dos materiais absorvedores de radar,
ainda que não haja, até o momento, indícios de um programa nacional voltado
especificamente a essa aplicação.
Grafeno não é solução stealth
isolada, alertam especialistas
Análise publicada pelo portal
português ECO pondera que o grafeno não deve ser tratado como uma solução stealth
completa por si só. Segundo o texto, a redução de assinatura depende também da
geometria da aeronave e de sistemas de guerra eletrônica, e a eficácia de
revestimentos absorvedores tende a variar conforme a frequência do radar
utilizado pelo adversário. O avanço de radares quânticos e de sistemas de
deteção cada vez mais sofisticados também é citado como fator que pode reduzir,
no longo prazo, a vantagem obtida com esse tipo de material.
Ainda assim, a iniciativa portuguesa reforça uma tendência já em curso na indústria de defesa europeia: a incorporação de propriedades de baixa assinatura diretamente em componentes estruturais, em vez de revestimentos espessos e tradicionais. Para o Brasil, cuja indústria de defesa já demonstrou disposição para investir em grafeno em outras frentes, o episódio pode servir de referência para eventuais estudos voltados à aplicação do material em plataformas aéreas e em drones militares.

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