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domingo, novembro 08, 2020

Estatal chinesa FAW Group demonstrou interesse em adquirir a Iveco

Caso a venda venha se concretizar, como ficaria a divisão brasileira que fabrica a Família de Blindados Guarani?

Fábrica da Iveco em Sete Lagoas (MG)

*LRCA Defense Consulting, com Reuters - 08/11/2020

A montadora estatal chinesa China FAW Group Corporation (anteriormente First Automobile Works - a primeira montadora de automóveis da China) manteve negociações para adquirir o grupo italiano de caminhões Iveco no início deste ano, mas agora foram suspensas, disseram duas pessoas próximas ao assunto.

A FAW fez uma oferta preliminar em julho, avaliando a Iveco em pouco mais de 3 bilhões de euros (US $ 3,5 bilhões), disse uma das fontes. No entanto, a oferta foi recusada pela CNH Industrial, controladora da Iveco, porque considerou a avaliação baixa.

A CNH Industrial é líder global no setor de bens de capital e, por meio de seus diversos negócios, projeta, produz e comercializa equipamentos agrícolas e de construção, caminhões, veículos comerciais, ônibus e veículos especiais, além de um amplo portfólio de aplicações em powertrain.  Entre suas principais marcas estão: Case, Steyr, New Holland, Iveco, HeuliezBus, Magirus, FTP Powertrains e a Iveco, subdividida em quatro marcas: Iveco (caminhões comerciais), Iveco Astra (caminhões pesados), Iveco Bus (ônibus) e Iveco Defense Vehicles (veículos militares e para forças de segurança), com sede em Bolzano, norte da Itália.

A FAW, sediada em Changchun, que fabrica caminhões pesados ​​com sua própria marca, agora reluta em fazer acordos internacionais para não ser vista como se aproveitando das empresas em dificuldades durante a pandemia de COVID-19, disse a segunda fonte. Alguns governos europeus tentaram proteger indústrias-chave do interesse estrangeiro indesejado neste ano, à medida que a pandemia do coronavírus atingiu empresas em todos os setores.

A fabricante de veículos e equipamentos CNH Industrial disse, no ano passado, que planejava dividir a empresa em duas e listar seus negócios de caminhões e ônibus Iveco, de margem inferior, junto com a divisão de motores FPT, em um esforço para aumentar os valores dos ativos do grupo e simplificar seus negócios, mas os planos foram adiados.

A FAW, que também tem parceria com a Volkswagen AG  e Toyota Motor para fazer veículos de passageiros na China, não quis comentar, assim como a CNH Industrial.

Alguns veículos da Iveco Brasil

A Iveco, menor das tradicionais fabricantes de caminhões da Europa, concorre com empresas como Volkswagen, Daimler e Grupo Volvo. Ela fabrica vans na China com a estatal SAIC.

A venda da Iveco seria uma alternativa ao spin-off planejado inicialmente, destinado a ser finalizado no início de 2021, mas que foi adiado "para o próximo ano ou além" devido às consequências da crise do coronavírus, disse a CNH Industrial.

O principal acionista da CNH industrial, Exor S.p.A, a poderosa holding da família italiana Agnelli, principal acionista de diversos grupos e empresas (Juventus F.C., Economist Group, Almacantar, Fiat Chrysler Automobiles, Banca Leonardo, PartnerRe, Welltec e Ferrari), disse que seria um acionista significativo em ambas as entidades após a conclusão de um processo de cisão, mas se recusou a comentar a história.

Iveco Brasil
Com sede no Brasil desde 1997, a Iveco ​dedica-se à produção e à comercialização de caminhões e
ônibus em uma moderna fábrica em Sete Lagoas (MG).

No local, foi construído o mais moderno Centro de Desenvolvimento de Produto da América Latina, o primeiro centro da Iveco fora da Europa, onde são criados os futuros produtos da empresa para o mercado brasileiro e latino americano. O plano de expansão continuou em 2009, quando a empresa também criou uma nova unidade produtiva de caminhões pesados no complexo industrial de Sete Lagoas e, assim, ampliou a capacidade da fábrica para 70 mil unidades por ano.

A montadora conta também com o Centro de Operações de Peças Iveco (COPI), o maior do gênero na América Latina. Localizado em Sorocaba (SP), o COPI possui 10 mil m² de área construída e 100 mil m³ de área de armazenamento, assegurando que as peças do veículo sempre cheguem ao cliente o mais rápido possível.

Iveco Veículos de Defesa

Fruto da parceria entre a Iveco e o Exército Brasileiro, é também em Sete Lagoas que é produzida a Viatura Blindada de Transporte de Pessoal Média sobre Rodas VBTP-MR Guarani, um blindado anfíbio com capacidade para até 11 tripulantes, que é o primeiro modelo projetado e fabricado na unidade da Iveco Veículos de Defesa no Brasil – a única fora da Europa.

A VBTP Guarani é baseada no Iveco SuperAV 8x8 e foi pensada como sucessor do tradicional veículo nacional Engesa EE-11 Urutu. O programa inclui uma versão 8x8 de combate e reconhecimento, destinada a substituir o Engesa EE-9 Cascavel, com canhão 105 mm, bem como até outras 15 versões de interesse do Exército: Viatura Blindada de Combate de Fuzileiro, Viatura Blindada de Combate Morteiro Médio, Viatura Blindada de Combate Morteiro Pesado, Viatura Blindada Especial de Central de Direção de Tiro, Viatura Blindada Especial Posto de Comando, Viatura Blindada Especial de Comunicações, Viatura Blindada Especial Socorro, Viatura Blindada Especial Oficina, Viatura Blindada de Transporte Especializado Ambulância, Viatura Blindada de Reconhecimento Leve, Viatura Blindada de Combate Anticarro - Leve de Rodas, Viatura Blindada Especial Observador Avançado - Leve de Rodas, Viatura Blindada de Combate Morteiro - Leve de Rodas, Viatura Blindada Especial Radar - Leve de Rodas e Viatura Blindada Especial Posto de Comando - Leve de Rodas.

Em 2009, o Exército e a Iveco assinaram o contrato de produção do Projeto Viatura Blindada de Transporte de Pessoal - Médio sobre Rodas (VBTP-MR), que prevê a fabricação no Brasil de até 2.044 unidades, em um período de 20 anos. Em 2014, foi entregue o veículo de número 100, ano que finalizou com 128 VBTP-MR Guarani entregues, número de chegou a 400, em julho de 2019.

Exportações do Guarani
Em 2015, aconteceu a primeira exportação da VBTP Guarani, tendo o Líbano como destino, em um pacote com outras 70 viaturas produzidas na Itália pela Iveco Defense Vehicles, entregues entre 2016 e 2017
Guarani nas Forças Armadas do Líbano

No ano em curso, foram vendidas 28 VBTP Guarani para o Exército Filipino. A venda foi intermediada por Israel, dentro um pacote maior de blindados e sistemas C2 produzidos nesse país.

Recentemente, o ministro da defesa da Argentina visitou a fábrica da Iveco no Brasil e manifestou a possibilidade de aquisição de uma quantidade não revelada de Guarani para o Exército Argentino.

Tais exportações evidenciam a qualidade do projeto brasileiro e colocam o Brasil novamente no mercado de fornecedor de veículos blindados, recuperando parte do espaço perdido com o fechamento de empresas como ENGESA e Bernardini, e podendo gerar bons frutos para outras empresas nacionais no futuro. 

Guarani: um Projeto Estratégico do Exército
O processo de transformação do Exército, em consonância com a Estratégia Nacional de Defesa, busca levar uma Força Terrestre da Era Industrial para a Era do Conhecimento, sem alterar, no entanto, seus princípios, crenças e valores, conduzindo o Exército ao patamar de Força Armada de país desenvolvido e ator global, contando para isso com a modernização de equipamentos e desenvolvimento de tecnologias para recuperar a capacidade de operar com eficiência. Esses novos equipamentos irão fazer com que se mude o modo de ação e a visão de emprego da Força.

Nesse contexto, o vetor Ciência e Tecnologia é considerado um elemento central, dotado de efetiva capacidade de orientar e impulsionar as áreas operacional, logística e administrativa do Exército Brasileiro.


Um dos Projetos Estratégicos de grande vulto é o Projeto Guarani, que teve início em 2007 no Escritório de Projetos do DCT no Rio de Janeiro e tem por objetivo transformar as Organizações Militares (OM) de Infantaria Motorizada em Mecanizada e modernizar as OM de Cavalaria Mecanizada. Para isso, estão sendo desenvolvidas novas Viaturas para compor a família de Viaturas Blindadas sobre Rodas, a fim de dotar a Força Terrestre de meios para incrementar a dissuasão e a defesa do território nacional.

Atualmente as Condicionantes Doutrinárias e Operacionais estabeleceram uma nova Família de Blindados sobre Rodas em dois modelos básicos: subfamília média composta de viaturas 6x6 e 8x8, e uma subfamília leve, formada por viaturas do tipo 4x4: a Família Guarani.

Consequências de uma possível venda da Iveco para a estatal chinesa FAW Group?

Caminhões FAW MV3 do Exército Chinês

As informações disponíveis até o momento não permitem precisar se todas as quatro divisões da Iveco estariam em negociação ou se incluiriam apenas as divisões que fabricam caminhões, que são as atividades primordiais da empresa estatal chinesa.

É relevante observar que o grupo chinês também produz as diversas versões do FAW MV3, sistema de transporte tático de terceira geração desenvolvido pela FAW. Desde 2011, o FAW MV3 é o caminhão militar padronizado amplamente utilizado pelo Exército Chinês. Assim, a linha de veículos militares da Iveco (na Itália e/ou no Brasil) poderia também, por hipótese, fazer fazer parte do negócio.

Considerando que a Família de Viaturas Guarani é um dos mais estratégicos projetos do Exército Brasileiro, pelo menos até 2029, resta questionar quais seriam as consequências futuras para o País, caso se concretize a venda da Iveco Veículos de Defesa para a empresa estatal chinesa.

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