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24 janeiro, 2026

A Guerra Informacional do Século XXI

Estudo propõe modelo estratégico para enfrentar batalhas narrativas na era digital, em contribuição significativa para a doutrina militar brasileira


*LRCA Defense Consulting - 24/01/2026

Em um mundo onde a informação circula instantaneamente por plataformas digitais e a inteligência artificial molda percepções, as Forças Armadas enfrentam um novo campo de batalha: a dimensão informacional. É nesse contexto que o tenente-coronel do Exército Brasileiro Luiz Eduardo Maciel Lopes e a professora doutora Karenine Miracully Rocha da Cunha apresentam uma contribuição significativa para a doutrina militar brasileira.

O desafio da "Névoa de Conceitos"
O estudo publicado no livro "CEP 60: a Dimensão Humana do Exército Brasileiro" aborda um problema crucial: a falta de padronização conceitual entre as diferentes forças militares brasileiras quando se trata de operações informacionais. Como observa o pesquisador Walker, citado pelos autores, "cada componente das Forças Armadas (Marinha, Exército e Aeronáutica) acaba conformando uma maneira própria lexical de se relacionar com as Operações de Informação".

Essa fragmentação conceitual é especialmente problemática na era da "plataformização" — termo que descreve o domínio crescente das plataformas online em praticamente todas as esferas da vida, do comércio à educação, passando pela comunicação e até pela guerra.

Comunicação estratégica: além dos quartéis
Os autores partem de dois conceitos centrais adotados pelo Exército Brasileiro: Comunicação Estratégica e Manobra Informacional. Enquanto a primeira é relativamente bem definida ("esforços deliberados para atuar sobre os públicos designados para criar, fortalecer ou preservar condições favoráveis ao avanço dos interesses, políticas e objetivos da nação"), a segunda permanecia nebulosa na doutrina militar.

Inspirados pelo modelo norte-americano de "Communication Synchronization", Lopes e Cunha propõem uma estrutura hierárquica que organiza a comunicação em três níveis: narrativa (a visão global do contexto), temas (ideias convergentes que apoiam a narrativa) e mensagens (comunicações específicas para públicos determinados).

O Modelo Tripla Hélice: quando a psicanálise encontra a estratégia militar
A contribuição mais inovadora do trabalho é o "Modelo Tripla Hélice", desenvolvido por Lopes e reconhecido como "trabalho útil" pelo Exército Brasileiro. Inspirado surpreendentemente na psicanálise lacaniana, especificamente no conceito de nó borromeano (que representa os registros do real, simbólico e imaginário), o modelo propõe uma representação visual das três dimensões do ambiente operacional: física, informacional e humana.

"A representação das condições do ambiente operacional em suas três dimensões possibilitaria uma atuação coordenada de capacidades para criar novas condições de organização para os sujeitos componentes da população", explicam os autores.

Propaganda na era digital: desafios éticos e operacionais
Um dos aspectos mais controversos do estudo é a discussão sobre propaganda cinza (sem autoria clara) e propaganda negra (com autoria falsa). Os autores reconhecem que tecnologias como deepfakes e ferramentas de inteligência artificial colocaram a produção dessas propagandas "ao alcance de qualquer indivíduo".

O trabalho não defende ou condena essas práticas, mas propõe um "passo a passo" teórico para seu emprego, caso sejam decididas pelos comandantes militares, sempre enfatizando a necessidade de "minucioso estudo de situação, tendo em vista os riscos que elas ensejam".

Relevância para o mundo atual
Em 2026, com conflitos híbridos multiplicando-se globalmente e campanhas de desinformação influenciando desde eleições até percepções sobre guerras, o trabalho de Lopes e Cunha ganha especial relevância. O estudo cita como exemplo contundente a explosão coordenada de dispositivos eletrônicos do Hezbollah em setembro de 2024, demonstrando como operações podem simultaneamente atingir as dimensões física, lógica e cognitiva.

A pesquisa não apenas contribui para a doutrina militar brasileira, mas também oferece ferramentas conceituais para compreender como estados e organizações disputam narrativas e percepções em um ambiente onde, como enfatizam os autores citando Kunsch, "as organizações precisam planejar a comunicação em uma perspectiva global".

Uma definição para Manobra Informacional
Como conclusão, os autores propõem uma definição inédita: Manobra Informacional seria "um conjunto de ações assinadas, subordinadas à Comunicação Estratégica, e não assinadas, cujos efeitos devem ser coordenados e sincronizados com a manobra física, voltados para fazer fluir para dentro de um ambiente operacional as construções de capacidades produtoras de linguagens".

Em outras palavras: na guerra moderna, tão importante quanto movimentar tropas é movimentar narrativas, percepções e informações de forma coordenada, estratégica e, quando necessário, invisível.


Sobre os autores:
- Luiz Eduardo Maciel Lopes é tenente-coronel do Exército Brasileiro, comandante do 8º Regimento de Cavalaria Mecanizado, com formação multidisciplinar que inclui Letras, Psicologia Comportamental e Comunicação Social.

- Karenine Miracully Rocha da Cunha é doutora em Ciências da Comunicação pela USP e professora do Centro de Estudos de Pessoal e Forte Duque de Caxias.

Este artigo baseia-se no capítulo "Força 40: Comunicação Estratégica e Manobra Informacional à Luz do Modelo Tripla Hélice", publicado em obra coletiva sobre a Dimensão Humana do Exército Brasileiro.

 

 

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