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17 janeiro, 2026

Duas falhas em três semanas: Brasil perde ao menos 10 satélites em desastres espaciais consecutivos

Em apenas oito meses, explosão em Alcântara e duas falhas indianas consecutivas interrompem avanço do programa espacial brasileiro e colocam em xeque a retomada de parcerias internacionais 

Imagens: Dheeraj Khandelwal

*LRCA Defense Consulting - 17/01/2026 (atualizado com correções em 18/01 às 15h18)

O Brasil encerra 2025 e inicia 2026 com um dos períodos mais sombrios de sua história espacial recente: duas falhas catastróficas de lançamentos em apenas três semanas resultaram na perda de ao menos 10 satélites e cargas úteis nacionais, milhões de dólares em investimentos e anos de pesquisa acadêmica. 

O mais recente revés aconteceu na madrugada de segunda-feira (12), quando o foguete indiano PSLV-C62 sofreu uma anomalia crítica durante o terceiro estágio do voo, destruindo cinco nanossatélites brasileiros — exatamente o mesmo tipo de problema que vitimou a missão anterior PSLV-C61 em maio de 2025, embora sem cargas brasileiras a bordo naquela ocasião.

Apenas três semanas antes, em 22 de dezembro de 2025, o sonho do primeiro lançamento orbital comercial brasileiro desde 1999 transformou-se em pesadelo quando o foguete sul-coreano HANBIT-Nano explodiu 46 segundos após decolar do Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, levando consigo ao menos cinco satélites e experimentos brasileiros.

A tragédia em solo brasileiro
A perda mais simbólica ocorreu em Alcântara. Depois de 26 anos sem tentativas de lançamentos orbitais — desde a falha do VLS-1 em 1999 e a tragédia que matou 21 pessoas em 2003 — o Brasil apostou na Operação Spaceward como marco da retomada do seu programa espacial. O HANBIT-Nano transportava oito cargas úteis, incluindo ao menos cinco satélites e experimentos desenvolvidos por instituições brasileiras:

Jussara-K: desenvolvido no Laboratório de Eletrônica e Sistemas Embarcados Espaciais da Universidade Federal do Maranhão, o satélite reunia diversas tecnologias nacionais e tinha como missão coletar dados ambientais de plataformas terrestres, incluindo informações sobre focos de queimadas.

PionBR-2 - Cientistas de Alcântara: também da UFMA, levava mensagens de aproximadamente 300 crianças participantes do projeto Cientistas de Alcântara ao espaço — um sonho educacional que se transformou em destroços sobre o solo maranhense.

FloripaSat-2A e FloripaSat-2B: desenvolvidos pela Universidade Federal de Santa Catarina, faziam parte de um projeto de constelação de nanossatélites para monitoramento ambiental.

SNI-GNSS: experimento da Agência Espacial Brasileira em parceria com empresas nacionais para testes de tecnologia de navegação por satélite.

Outras cargas científicas da Castro Leite Consultoria também integravam a missão.

A transmissão ao vivo pela Innospace, empresa sul-coreana responsável pelo foguete, capturou o momento exato da falha. Imagens mostraram uma grande nuvem de fogo envolvendo o veículo quando este atingiu a fase de curva gravitacional. A empresa cortou o sinal abruptamente, substituindo as imagens por uma mensagem lacônica: "Nós experimentamos uma anomalia durante o voo".

O foguete colidiu com o solo pouco após a decolagem. De acordo com a Força Aérea Brasileira, que coordenava a operação, "o veículo iniciou sua trajetória conforme o previsto. No entanto, houve uma anomalia no veículo que o fez colidir com o solo". Equipes da Aeronáutica e do Corpo de Bombeiros foram enviadas ao local para análise dos destroços. A causa exata da explosão ainda não foi esclarecida.

A repetição indiana
Menos de um mês depois, em 12 de janeiro de 2026, o Brasil viu mais cinco satélites serem destruídos quando o PSLV-C62 falhou, de forma perturbadoramente idêntica ao PSLV-C61 que havia falhado em maio de 2025. Embora não houvesse satélites brasileiros no PSLV-C61, o padrão de falha já estava estabelecido: problemas no terceiro estágio do foguete levando à perda total da missão.

A missão PSLV-C62 começou com uma decolagem perfeita às 10h18 IST (1h48 horário de Brasília) do Centro Espacial Satish Dhawan. Os dois primeiros estágios funcionaram normalmente, mas quando o veículo transitou para o terceiro estágio, aproximadamente oito minutos após o início do voo, o desastre se repetiu: queda acentuada na pressão da câmara do motor PS3, aumento de perturbação na taxa de rolamento e desvio significativo da trajetória.

Entre os 16 satélites destruídos, cinco eram brasileiros, todos integrados ao Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE 2022-2031):

Aldebaran-I: desenvolvido pela Universidade Federal do Maranhão com apoio da Agência Espacial Brasileira, era o principal destaque brasileiro na missão. Resultado de cinco anos de trabalho, o cubesat padrão 1U (um cubo de 10 centímetros) tinha como missão auxiliar na identificação de focos de queimadas e apoiar autoridades costeiras em operações de busca e resgate de pequenas embarcações pesqueiras. O nome homenageava a estrela mais brilhante da constelação de Touro.

Orbital Temple, EduSat-1, Galaxy Explorer e UaiSat: estes quatro nanossatélites representavam projetos acadêmicos de baixo custo e alta relevância social, desenvolvidos por equipes de diversas instituições brasileiras. A AlltoSpace foi responsável pela integração da constelação brasileira ao PSLV-C62.

Um "cavalo de batalha" em crise
A semelhança entre as falhas do PSLV-C61 (maio de 2025) e do PSLV-C62 (janeiro de 2026) levanta questões críticas. O PSLV (Veículo de Lançamento de Satélites Polares) é considerado o "cavalo de batalha" da ISRO, com um histórico de 64 lançamentos ao longo de 33 anos e apenas quatro falhas em toda sua história operacional — até 2025. O foguete foi responsável por missões históricas, incluindo o Chandrayaan-1 e a primeira sonda indiana a Marte.

"Teria sido diferente se qualquer outro lançador tivesse falhado, mas uma falha do PSLV nos preocupa", comentou um cientista da ISRO após o incidente do PSLV-C62. Esta é a primeira vez que o veículo falha em duas missões consecutivas, um padrão inédito que ameaça a reputação da agência espacial indiana no mercado comercial global.

Especialistas questionam se as correções após o PSLV-C61 foram realmente implementadas antes do lançamento do PSLV-C62. Segundo a publicação The Week, o relatório de análise de falha do PSLV-C61 ainda aguardava aprovação no gabinete do Primeiro Ministro indiano quando a missão C62 foi autorizada.

A anomalia consistente no terceiro estágio (PS3) aponta para problemas sistêmicos. Telemetria de ambas as missões indicou uma queda na pressão da câmara do motor de propelente sólido, seguida de perda de controle do veículo. Especialistas levantam duas hipóteses principais: defeitos de fabricação em um lote de propelente sólido ou materiais de revestimento, ou limitações do projeto de 30 anos do PSLV ao lidar com configurações modernas mais pesadas e complexas de múltiplos satélites.

Além dos cinco satélites brasileiros, o PSLV-C62 também transportava cargas importantes de outros países e da própria Índia:

- EOS-N1 (Anvesha): um satélite de vigilância estratégica da Organização de Pesquisa e Desenvolvimento em Defesa (DRDO) da Índia, equipado com imagens hiperespectrais para monitoramento militar.

- AyulSAT (OrbitAID): um demonstrador tecnológico pioneiro para reabastecimento em órbita, uma tecnologia atualmente detida apenas pela China.

- Cargas úteis internacionais: satélites do Reino Unido, Tailândia, Nepal e Espanha, incluindo a cápsula de reentrada KID.

- Golpe ao setor privado indiano: a Dhruva Space, sediada em Hyderabad, perdeu sete satélites de uma única vez, um grande golpe para o crescente ecossistema espacial privado da Índia.

Impactos múltiplos
O prejuízo financeiro combinado das duas falhas recentes é estimado entre 250 e 350 milhões de dólares. Mas o custo transcende os números. Para universidades brasileiras, a perda representa anos de pesquisa, desenvolvimento e formação de recursos humanos. O Aldebaran-I, por exemplo, envolveu cinco anos de trabalho da UFMA. O Jussara-K reunia tecnologias nacionais desenvolvidas em parceria com instituições como a Universidade Federal de São João Del-Rei.

Para as startups e empresas do setor espacial privado brasileiro, o impacto pode ser ainda mais devastador. A sequência de falhas ameaça a confiança de investidores justamente quando o país tentava consolidar sua posição no mercado espacial comercial global.

A Agência Espacial Brasileira reconheceu em nota oficial que "falhas dessa natureza fazem parte do ciclo de desenvolvimento de sistemas espaciais", mas ressaltou seu compromisso em "acompanhar os relatórios oficiais sobre as falhas" para incorporar recomendações técnicas e adotar medidas mitigadoras em futuras campanhas.

Imagens: Innospace

Alcântara: promessa e frustração
A explosão do HANBIT-Nano foi particularmente dolorosa porque representava a retomada das operações comerciais em Alcântara após mais de duas décadas de inatividade orbital. O Centro de Lançamento de Alcântara possui posição estratégica a apenas dois graus da linha do Equador, o que proporciona economia de até 30% no gasto de combustíveis — uma vantagem competitiva significativa no mercado global.

O lançamento fazia parte da Operação Spaceward, resultado de edital de chamamento público lançado pela AEB em 2020. A Innospace assinou contrato com o Comando da Aeronáutica em 2022. O foguete HANBIT-Nano, com 21,8 metros de altura e 1,4 metro de diâmetro, já havia enfrentado três adiamentos sucessivos por problemas técnicos antes da tentativa final. Foram detectadas anormalidades em válvulas, problemas no sistema de refrigeração do oxidante e falhas nos sinais durante testes de aviônicos.

É fundamental ressaltar que a responsabilidade pelo incidente recai exclusivamente sobre a Innospace. Toda a infraestrutura e operação brasileira — coordenada pela Força Aérea Brasileira e pela Agência Espacial Brasileira — funcionou de forma impecável. A preparação do Centro de Lançamento de Alcântara, os procedimentos de segurança, o controle de tráfego aéreo e marítimo, a logística de apoio e todos os sistemas sob responsabilidade brasileira operaram dentro das especificações previstas. A decolagem ocorreu conforme planejado, e a falha que levou à explosão foi identificada como sendo do próprio veículo lançador sul-coreano durante sua fase de voo inicial. Este desempenho técnico da equipe brasileira demonstra que o país possui capacidade operacional comprovada para hospedar missões espaciais internacionais, e que Alcântara está pronto para receber futuras operações comerciais de outros clientes.

Kim Soo-jong, CEO da Innospace, pediu desculpas aos acionistas pelo resultado em carta oficial, mas destacou que os dados de voo, propulsão e operação coletados serão usados para uma nova tentativa prevista para o primeiro semestre de 2026. A empresa segue o exemplo de gigantes globais do setor espacial que também enfrentaram falhas em estágios iniciais de lançamentos comerciais.

O legado da tragédia de 2003
O acidente de dezembro de 2025 inevitavelmente evoca memórias da maior tragédia do programa espacial brasileiro. Em 22 de agosto de 2003, um acionamento intempestivo de uma pequena peça causou a explosão do VLS-1 (Veículo Lançador de Satélite) ainda no prédio de montagem, matando 21 técnicos civis e destruindo o Centro de Lançamento de Alcântara. O desastre paralisou as atividades espaciais brasileiras por anos e deixou cicatrizes profundas no programa nacional.

"Ainda não era nem no lançamento, ali era a preparação do veículo lançador de satélite dentro do prédio de montagem", lembra o senador Astronauta Marcos Pontes. "A gente precisa aprender com os acidentes. Então aquele acidente eu tenho certeza que ele ensinou muita coisa pro próprio instituto".

Antes de 2003, houve outras tentativas frustradas. Em 1997, o primeiro VLS nacional falhou ao tentar lançar um satélite coletor de dados. Em 1999, uma falha no segundo estágio do segundo VLS obrigou o cancelamento do lançamento do satélite SACI-2.

ISRO sob pressão
Para a ISRO, as falhas consecutivas do PSLV representam não apenas um desafio técnico, mas uma crise de confiança. Todos os lançamentos do PSLV foram suspensos até pelo menos meados de fevereiro de 2026, enquanto um Comitê de Análise de Falhas investiga por que o estágio PS3, tradicionalmente a parte mais estável do foguete, está falhando repentinamente.

A agência enfrenta uma corrida contra o tempo para restaurar a confiança no PSLV, especialmente com missões de grande destaque como as expansões Gaganyaan (programa de voos tripulados) e NavIC (sistema de navegação por satélite) que se aproximam. O impacto sobre o setor espacial comercial indiano pode ser duradouro. Prêmios de seguros para lançamentos indianos devem subir entre 20 e 30%, ameaçando a vantagem de custo que tornou a ISRO líder global no mercado de pequenos satélites.

O presidente da ISRO, V. Narayanan, prometeu divulgar um relatório detalhado após a conclusão da análise, mas críticos argumentam que a transparência deveria ter sido maior após a primeira falha. A NewSpace India Limited, braço comercial da ISRO, enfrenta agora um acúmulo massivo de missões adiadas.

Um futuro incerto
A sequência de falhas levanta questões fundamentais sobre a estratégia espacial brasileira. Durante décadas, o país dependeu de parceiros internacionais para lançar seus satélites, dada a falta de um veículo lançador nacional operacional. O VLS-1 nunca foi bem-sucedido, e o projeto foi oficialmente encerrado após a tragédia de 2003.

A tentativa de usar Alcântara como plataforma para lançamentos comerciais de empresas estrangeiras — possibilitada pelo Acordo de Salvaguardas Tecnológicas assinado em 2019 — era vista como caminho pragmático para retomar a atividade espacial brasileira e gerar receita. A explosão do HANBIT-Nano questiona essa abordagem, embora o desempenho impecável da infraestrutura brasileira demonstre a viabilidade técnica do centro de lançamento.

Ao mesmo tempo, a dependência histórica do Brasil em relação ao PSLV indiano para lançar satélites nacionais enfrenta agora sua própria crise. Com dois lançamentos indianos consecutivos falhando da mesma forma, surge a pergunta: onde o Brasil lançará seus próximos satélites?

A Agência Espacial Brasileira reafirmou seu compromisso em apoiar iniciativas nacionais que promovam capacitação, inovação e acesso ao espaço. Apesar da perda do Aldebaran-I e dos demais satélites, os projetos geraram avanços relevantes, incluindo a formação de mão de obra especializada e a realização de ensaios de qualificação alinhados ao PNAE.

Pedro Pallotta, divulgador científico e especialista em temas espaciais, resume o desafio: "Temos um potencial muito grande desperdiçado ao longo das últimas décadas, que hoje é um problema em relação a outros países, como EUA, Rússia, China, Índia, entre outros".

Próximos passos
Para a Innospace, uma nova tentativa de lançamento do HANBIT-Nano está prevista para o primeiro semestre de 2026, com foco em correções tecnológicas baseadas nos fenômenos observados no voo de dezembro, verificações adicionais para garantir estabilidade operacional e acúmulo de maturidade técnica seguindo o exemplo de gigantes globais do setor.

Para a ISRO, o "cavalo de batalha" permanece no chão até que o "fantasma" do PS3 seja finalmente exorcizado. A agência prometeu transparência na divulgação dos resultados da investigação.

Para o Brasil, resta aguardar, recalibrar e, mais uma vez, reconstruir. Enquanto os destroços de ao menos 10 satélites e cargas úteis perdidos orbitam como lixo espacial ou viraram cinzas na atmosfera, a comunidade científica nacional se pergunta quando — e como — o país conseguirá finalmente retomar sua jornada ao espaço.

A pergunta permanece sem resposta: qual será a próxima oportunidade de colocar satélites nacionais em órbita, e em qual veículo lançador o país poderá confiar?

*A atualização corrige a questão da falha indiana em 2025, cujo lançador não possuía satélites brasileiros, e também o número total de satélites perdidos (de 12 para 10), haja vista que dois eram somente experimentos segundo as fontes. 

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