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10 fevereiro, 2026

O país que esqueceu de quem o defende e o socorre quando o Estado falha

 


*Luiz Alberto Cureau Jr. - 10/02/2026

Em países como os Estados Unidos, a carreira militar continua cercada de respeito explícito. Civis cumprimentam soldados com um simples e poderoso “thank you for your service”. Não é folclore, é cultura. A farda representa sacrifício, compromisso nacional e continuidade histórica. Famílias se orgulham de ter militares entre seus membros, e muitos filhos seguem essa trajetória como herança moral transmitida entre gerações.

No Brasil, esse elo simbólico foi se rompendo silenciosamente, não se sabe se de forma natural ou deliberadamente construída ao longo do tempo. Os números mostram queda consistente nas inscrições para as academias militares e aumento da evasão, inclusive entre oficiais experientes. Isso não ocorre por acaso. É reflexo de um esvaziamento cívico mais amplo, que começa muito antes da porta dos quartéis.

Durante décadas, o civismo era cultivado desde cedo. Colégios ensinavam o valor dos símbolos nacionais. Bandas marciais, simples e acessíveis, despertavam disciplina, pertencimento e orgulho. Desfiles cívicos mobilizavam cidades inteiras. Cantar o Hino Nacional era um gesto natural. Esses elementos não formavam militares, formavam cidadãos conscientes do Estado, da Nação e de suas responsabilidades coletivas.

Hoje, esse repertório praticamente desapareceu. O mundo mudou, é verdade. A hiperconectividade ampliou opções e comparações imediatas. Disciplina, hierarquia e sacrifício passaram a competir com promessas de conforto, autonomia e retorno financeiro rápido. Mas isso não explica tudo.

Nos Estados Unidos, o mesmo mundo digital existe. A diferença está na mensagem transmitida. Lá, defesa não é gasto, é pilar da nação, sustentado por instituições fortes. O militar é visto como alguém disposto a assumir encargos que a maioria não assume. Aqui, muitas vezes, ele se torna invisível ou hostilizado. Em certos ambientes, vestir a farda pode até ser arriscado, em outros, simplesmente menosprezado.

Internamente, o problema se agrava com a perda da convivência militar intensa. Celulares, redes sociais e a redução de espaços de socialização enfraquecem o espírito de corpo, cimento invisível da carreira das armas. As academias não perderam sua essência, foi a sociedade que deixou de reforçá-la.

A busca por uma vida mais confortável não é falta de patriotismo. É consequência de um país que não reconhece nem recompensa, material e simbolicamente, quem escolhe servir. Também não é ausência de ameaças. A história mostra que as nações só percebem o valor da defesa quando já é tarde.

Reverter esse quadro exige mais do que ajustes salariais. Exige educação básica, reinternalizar o civismo, recuperar símbolos, rituais e referências. Como sempre lembra meu pai: “é preciso manter a liturgia do cargo”. Defesa exige pessoas vocacionadas, bem preparadas, bem remuneradas e tratadas como ativos que sintam orgulho de envergar suas fardas. 

Prestígio não se decreta. Ele se constrói. 

 

*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 do Exército Brasileiro, Doutor em Ciências Militares e Bacharel em Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército. Foi comandante do Centro de Capacitação Física do Exército, comandante da 6ª Bda Infantaria Blindada e, atualmente, é consultor em meio ambiente e projetos de crédito de carbono no Instituto Climático VBH em Brasília.   

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