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29 março, 2026

Indústria de defesa, entre a intenção e a realidade, o contraste com a Coreia do Sul

 


*Luiz Alberto Cureau Jr. - 29/03/2026

Existe um ponto que separa países que constroem poder daqueles que apenas o consomem: a previsibilidade estratégica. E, no campo da defesa, isso se traduz em orçamento estável, planejamento de longo prazo e integração entre Estado e indústria.

A Coreia do Sul entendeu isso há décadas. O Brasil, ainda não.

Enquanto os sul-coreanos mantêm investimentos consistentes entre 2,6% e 2,8% do PIB em defesa, com foco claro em inovação e exportação, o Brasil oscila entre 1,2% e 1,4%, sendo que mais de 70% desse valor é consumido por despesas com pessoal. Resultado, baixa capacidade de investimento, descontinuidade de projetos e perda de competitividade.

A diferença aparece no produto final.

A Coreia do Sul figura entre os maiores exportadores globais de sistemas de defesa, com portfólio completo, de blindados a sistemas avançados. Não é coincidência. É método.

O Brasil, por outro lado, ainda depende de ciclos políticos. Projetos avançam, recuam ou ficam em espera conforme o governo de turno. Isso não é estratégia, é improviso institucionalizado.

E o cenário global não permite mais hesitação.

A guerra contemporânea combina alta tecnologia com soluções de baixo custo e alta escala, como drones e sistemas autônomos. Quem domina essa equação, qualidade + volume + custo, estabelece vantagem operacional.

Hoje, o Brasil possui empresas relevantes, como Embraer e Avibras, mas operam como ilhas, falta escala, coordenação e continuidade.

Em que estágio estamos?

Um estágio intermediário, com capacidade técnica instalada, mas sem densidade industrial e inserção global consistente.

O que precisa ser feito?

Estabelecer um orçamento de defesa com horizonte mínimo de 15 anos, reduzir a rigidez dos gastos, ampliar investimento em tecnologia, integrar Forças Armadas, indústria e academia, priorizar drones, sistemas autônomos e ciberdefesa, e criar uma política agressiva de exportação.

Quanto tempo levaríamos?

Com disciplina estratégica, de 10 a 15 anos para alcançar patamar semelhante ao da Coreia do Sul.

Como acelerar?

Parcerias internacionais são fundamentais. A Coreia do Sul é parceiro natural, domina produção em escala e busca expandir mercados. A lógica deve ser clara, coprodução e transferência de tecnologia, não simples aquisição.

Mas é preciso franqueza: parceria sem estratégia vira dependência.

No fim, o debate não é técnico. É político e estratégico.

O Brasil precisa decidir se quer uma indústria de defesa relevante ou continuará tratando defesa como custo.

Porque, na prática, quem não constrói capacidade, comprará dependência certamente. 

*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 do Exército Brasileiro, Doutor em Ciências Militares e Bacharel em Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército. Foi comandante do Centro de Capacitação Física do Exército, comandante da 6ª Bda Infantaria Blindada e, atualmente, é consultor em meio ambiente e projetos de crédito de carbono no Instituto Climático VBH em Brasília.  

 

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