Acordo assinado em 3 de março prevê avaliação de compatibilidade das munições 30x173mm da CBC com os canhões SeaSnake das Fragatas Classe Tamandaré, visando reduzir dependência de fornecedores estrangeiros
*LRCA Defense Consulting - 08/03/2026
A Marinha do Brasil (MB) deu um passo significativo rumo à independência logística em artilharia naval ao assinar, em 3 de março de 2026, um Protocolo de Intenções com a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC). O acordo, firmado pela Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha (DSAM), abre caminho para que munições produzidas inteiramente no Brasil possam abastecer os novos canhões SeaSnake, sistemas de defesa de curto alcance instalados nas modernas Fragatas Classe Tamandaré.
O acordo e seus protagonistas
O documento foi assinado pelo Vice-Almirante Carlos Henrique
de Lima Zampieri, Diretor de Sistemas de Armas da Marinha, e pelo Sr. Paulo
Ricardo Nascimento Gomes, Diretor Executivo Comercial & Marketing da CBC. A
cerimônia, realizada na sede da DSAM, representa a consolidação de um diálogo
que vinha sendo construído entre a Força Naval e a indústria privada nacional
no setor de munições.
Ao comentar o acordo, o Vice-Almirante Zampieri destacou a importância estratégica da iniciativa. "A iniciativa reforça o compromisso da Marinha do Brasil com o fortalecimento da Base Industrial de Defesa e com o desenvolvimento de soluções nacionais capazes de apoiar o preparo e o emprego da Força Naval", declarou a autoridade naval.
A CBC, fundada em 1926, é hoje uma das maiores fabricantes de munições do mundo, com presença em países da OTAN e unidades produtivas no Brasil, Alemanha e República Tcheca. Classificada como Empresa Estratégica de Defesa, a companhia tem sede em Ribeirão Pires (SP) e atua como fornecedora das Forças Armadas e de segurança pública brasileiras.

SeaSnake
O canhão SeaSnake e o desafio
logístico
No centro do acordo está a questão logística dos canhões
SeaSnake 30, desenvolvidos pela alemã Rheinmetall. Instalados nas Fragatas
Classe Tamandaré, esses sistemas de armas remotamente controlados são
classificados como CIWS (Close-In Weapon System), ou seja, defesa de curto
alcance para ameaças aéreas e de superfície, incluindo drones, mísseis de
cruzeiro e embarcações.
O SeaSnake emprega o canhão revólver KCE-30/ABM, de calibre 30x173mm, com cadência impressionante de 1.100 tiros por minuto. Um diferencial tecnológico do sistema é a capacidade de disparar munição ABM (Air Burst Munition), que detona em ponto predefinido da trajetória, gerando uma nuvem de fragmentos capaz de neutralizar ameaças por proximidade, sem necessidade de impacto direto.
Até o momento, o suprimento de munição para esse calibre provinha do exterior. Em 2024, a Marinha adquiriu lotes por valor equivalente a CHF 3,8 milhões (francos suíços), indicando origem suíça do fornecedor. A dependência de insumos importados em operações de defesa representa uma vulnerabilidade estratégica conhecida, e é exatamente esse ponto que a parceria com a CBC visa endereçar.
As Fragatas Tamandaré: o
maior projeto naval do século XXI brasileiro
As Fragatas Classe Tamandaré são o maior e mais caro
programa de construção naval de defesa já desenvolvido no Brasil. Encomendadas
em 2020 pelo valor total de R$ 11,1 bilhões, as quatro unidades - Tamandaré
(F200), Jerônimo de Albuquerque (F201), Cunha Moreira (F202) e Mariz e Barros
(F203) - são baseadas no projeto MEKO A-100, da alemã Thyssenkrupp Marine
Systems (TKMS).
Com 107 metros de comprimento, deslocamento de 3.500 toneladas e velocidade de até 25 nós, os navios são projetados para missões de escolta, patrulha oceânica e defesa da chamada Amazônia Azul, área de 5,7 milhões de km² de águas jurisdicionais brasileiras. O arsenal é robusto: mísseis antiaéreos Sea Ceptor (12 células VLS), mísseis antinavio MANSUP, canhão principal OTO Melara 76mm, torpedos antissubmarinos e o próprio SeaSnake.
Em fevereiro de 2026, a fragata F200 Tamandaré recebeu certificação da Det Norske Veritas (DNV), consolidando sua transição de navio em construção para navio operacional e tornando a questão do suprimento de munição ainda mais urgente e concreta.
Base Industrial de Defesa: o
pano de fundo estratégico
O acordo MB-CBC se insere em um contexto mais amplo de
fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID) brasileira. A dependência de
tecnologia e insumos estrangeiros em sistemas de defesa é tema recorrente nos
debates estratégicos das Forças Armadas. No caso das Tamandaré, analistas já
apontavam que a cadeia logística - da fragata ao canhão, do canhão à munição - estava majoritariamente nas mãos de fornecedores alemães e suíços.
O precedente histórico favorece o otimismo: no caso do canhão britânico MK8 de 114mm, utilizado nas Fragatas Classe Niterói, a munição foi posteriormente nacionalizada com sucesso. O Corpo de Fuzileiros Navais também deu passos recentes nessa direção, ao adquirir 120 espingardas CBC Military 3.0 RT 19" Tactical, um sinal de que o relacionamento entre a Marinha e a CBC precede e extrapola o acordo ora firmado.
Para além da dimensão técnica, o protocolo carrega um simbolismo político relevante: trata-se de uma aposta na capacidade da indústria privada nacional de competir, em qualidade e confiabilidade, com fornecedores internacionais de primeira linha, e de ocupar espaços estratégicos no abastecimento das forças de defesa.
Próximos passos e
perspectivas
O Protocolo de Intenções não representa ainda um contrato de
fornecimento. A etapa seguinte prevê avaliações técnicas de compatibilidade
entre as munições 30x173mm produzidas pela CBC e os canhões SeaSnake instalados
nas fragatas. Testes de desempenho, confiabilidade e segurança serão conduzidos
antes de qualquer decisão de compra.
O alcance potencial do acordo, contudo, vai além das quatro fragatas. A Marinha sinalizou interesse em ampliar o uso do SeaSnake para outros navios de maior porte, como o porta-helicópteros NAM Atlântico e o futuro navio de desembarque NDM Oiapoque. Se a CBC for homologada como fornecedora para o calibre 30x173mm, a demanda pode crescer substancialmente ao longo da próxima década.
No cenário geopolítico atual, marcado por incertezas nas cadeias de suprimento globais e crescente valorização da autonomia estratégica, a iniciativa da MB e da CBC aponta na direção certa. O sucesso da avaliação técnica determinará se o Brasil dará mais um passo concreto na construção de uma marinha verdadeiramente soberana, da quilha ao projétil.


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