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04 abril, 2026

Brasil aposta na SIATT para romper dependência estrangeira em mísseis e consolidar soberania naval

Seleção da empresa para revalidar o Penguin Mk2 marca virada estratégica: do reparo de armamento norueguês à produção de mísseis 100% nacionais 

Imagem meramente ilustrativa

*LRCA Defense Consulting - 04/04/2026

Em um movimento que vai muito além da manutenção rotineira de armamentos, a Marinha do Brasil escolheu a SIATT, empresa brasileira especializada em sistemas guiados, para conduzir a revalidação e extensão de vida útil do míssil ar-superfície Penguin Mk2 Mod 7, equipado nos helicópteros AH-11B Super Lynx da Força Naval. A decisão, materializada a partir de um Pedido de Informação (RFI) lançado pela Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha (DSAM) em 11 de dezembro de 2025, inaugura um novo capítulo da indústria de defesa nacional: o Brasil começa a dominar tecnologias críticas que antes dependiam integralmente de fornecedores estrangeiros.

O RFI abriu uma janela de cerca de um mês, de 15 de dezembro de 2025 a 16 de janeiro de 2026, para que empresas manifestassem interesse em inspecionar, requalificar e ampliar a vida operacional dos mísseis noruegueses Penguin, fabricados originalmente pela Kongsberg Defence & Aerospace. A escolha da SIATT para o processo representa a aposta da Marinha na capacidade nacional de lidar com tecnologias estrangeiras sensíveis, transferindo para o país o conhecimento em guiagem infravermelha passiva e em extensão de vida de sistemas de armas complexos.

Uma empresa em ascensão acelerada
A SIATT não é uma novidade no ecossistema de defesa brasileiro, mas vive hoje seu momento de maior protagonismo. Fundada em 2015 e especializada no desenvolvimento e integração de sistemas de defesa e segurança, incluindo mísseis e armamentos, a empresa inaugurou em setembro de 2025 sua nova sede e unidade de produção em São José dos Campos, com 6.000 metros quadrados de instalações. A nova planta abriga laboratórios de pesquisa e desenvolvimento de última geração, além de linhas de produção modernas, infraestrutura que coloca a SIATT em patamar comparável a congêneres de países com tradição armamentista consolidada.

A nova unidade gerará 200 empregos diretos e mais 600 oportunidades indiretas. Parte dessa expansão foi viabilizada por uma parceria estratégica com o conglomerado dos Emirados Árabes Unidos: o EDGE Group comprou 50% da SIATT em 2023. O investimento já soma R$ 3 bilhões e deve gerar cerca de 800 empregos diretos e indiretos, consolidando São José dos Campos como polo da indústria de defesa.

Na inauguração da nova sede, o CEO do EDGE Group, Hamad Al Marar, deixou clara a ambição do projeto: "Esta foi a nossa primeira aposta no Brasil, em 2023, e desde então avançamos de uma planta de pesquisa e desenvolvimento para uma instalação industrial robusta. Isso reflete o compromisso da SIATT em reforçar a autonomia tecnológica do Brasil e gerar valor de longo prazo para sua base de defesa."

Do Penguin ao MARSUP: a lógica do aprendizado acumulado
A escolha da SIATT para trabalhar no Penguin Mk2 insere-se em uma estratégia deliberada da Marinha: usar a manutenção de sistemas estrangeiros como trampolim para o desenvolvimento de capacidade nacional equivalente. O know-how absorvido no processo de requalificação do míssil norueguês alimenta diretamente o programa MARSUP, o futuro míssil ar-superfície antinavio 100% brasileiro.

A SIATT e a Marinha do Brasil assinaram, em 23 de fevereiro de 2026, um Protocolo de Intenções para estudos e intercâmbio de informações voltados ao desenvolvimento conjunto de dois grupos de mísseis ar-superfície antinavio denominados MARSUP. O documento foi assinado pelo Vice-Almirante Carlos Henrique Zampieri, Diretor da DSAM, e por Rogério Salvador, presidente da SIATT, na sede da Diretoria, no Rio de Janeiro.

O foco dos estudos é avaliar a adaptação da tecnologia já consolidada no projeto do MANSUP para equipar aeronaves subordinadas ao Comando da Força Aeronaval da Marinha, com o objetivo de validar tecnicamente a evolução desta capacidade. Em outras palavras, o que voa sobre o oceano disparando mísseis a partir de fragatas poderá, em breve, ser lançado também por helicópteros navais, com tecnologia inteiramente concebida no Brasil.

Para o presidente da SIATT, o acordo com a Marinha tem dimensão histórica. "Este protocolo marca um avanço concreto na evolução de uma capacidade construída ao longo de anos pela indústria nacional. Ele demonstra a maturidade tecnológica alcançada pela SIATT e, sobretudo, o talento da nossa equipe, que tem sido protagonista na condução de projetos estratégicos e na entrega de soluções críticas para a Defesa do Brasil", declarou Rogério Salvador.

O MANSUP como espinha dorsal de uma família de mísseis
No centro da estratégia de autonomia da Marinha está o MANSUP  (Míssil Antinavio de Superfície), desenvolvido sob liderança da Força Naval com participação determinante da SIATT. O MANSUP é considerado um dos principais projetos estratégicos da Marinha e foi projetado para equipar navios da Força, incluindo as fragatas da Classe Tamandaré.

Em 2025, a Marinha e a SIATT assinaram um acordo de compartilhamento de propriedade intelectual para o desenvolvimento e a produção do míssil. O contrato define regras de uso, modificações, produção e exploração comercial dos mísseis no Brasil e no exterior, com pagamento de royalties à Marinha. Na prática, os sistemas poderão ser utilizados pelas Forças Armadas brasileiras e também exportados.

O alcance estratégico dessa família de mísseis vai além das fronteiras nacionais. A versão de longo alcance, o MANSUP-ER, já é vista como produto exportável de alto valor. "A ideia é ter essa produção local de mísseis, para podermos exportar para o mundo todo, principalmente para Ásia e África", disse o CFO do EDGE Group, Rodrigo Torres.

Amazônia Azul: dissuasão enquanto a indústria amadurece
A manutenção dos Super Lynx operacionais com o Penguin, enquanto o MARSUP ainda está em desenvolvimento, não é um detalhe logístico. É um elemento central da doutrina de negação do mar que a Marinha adota para proteger a chamada Amazônia Azul, a vasta área de jurisdição marítima brasileira com cerca de 4,5 milhões de quilômetros quadrados.

O lançamento aéreo de um míssil ar-superfície amplia o envelope de engajamento, viabiliza múltiplos vetores e maiores distâncias, reforçando a doutrina de negação do mar e elevando o poder dissuasório nacional. Integrado a meios navais e aeronavais, o sistema favorece operações combinadas, reduz janelas de reação e melhora a sobrevivência das plataformas.

A estratégia alinha-se à Política Nacional de Produção para Defesa e às diretrizes da Lei 14.133/2021, que prioriza aquisições locais e reduz a exposição do país a riscos de embargo tecnológico. Ao depender menos da Kongsberg e de outros fornecedores estrangeiros, o Brasil ganha não apenas em economia, mas em resiliência operacional.

Brasil na vanguarda regional
Analistas do setor veem na trajetória da SIATT os contornos de uma liderança regional em mísseis que o Brasil ainda não havia alcançado. O acordo com a SIATT, reconhecida como Empresa Estratégica de Defesa, fortalece a Base Industrial de Defesa ao impulsionar inovação, empregos qualificados e consolidação de conhecimento tecnológico. A expansão de uma família de mísseis nacionais cria um ciclo virtuoso, no qual demandas operacionais da Marinha estimulam soluções locais e sustentáveis para defesa.

Da revalidação de um míssil norueguês dos anos 1970 à produção de armas inteiramente nacionais com potencial de exportação para dezenas de países, esse é o arco estratégico que a Marinha do Brasil e a SIATT estão percorrendo juntas. A cada contrato assinado, a cada lançamento bem-sucedido do MANSUP, o Brasil se aproxima de um lugar até recentemente reservado a poucas nações: o de país capaz não apenas de usar, mas de projetar, fabricar e vender mísseis de combate ao mundo.

Saiba mais:
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