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29 junho, 2026

Indústria de defesa brasileira pode perder mais uma empresa estratégica para os Emirados Árabes Unidos?

Informes sobre a venda da Akaer ao EDGE Group reabrem debate sobre controle estrangeiro em empresas estratégicas da base industrial de defesa nacional


*LRCA Defense Consulting - 29/06/2026

Fundada em 1992, em São José dos Campos (SP), a Akaer Engenharia S.A. é hoje uma das principais peças da base industrial de defesa (BID) brasileira, um ecossistema formado por mais de 1.100 empresas. Classificada como Empresa Estratégica de Defesa (EED), a companhia acumula mais de 32 anos de atuação nos setores aeroespacial, de defesa e de indústria 4.0, com mais de 10 milhões de horas de engenharia dedicadas ao desenvolvimento e à produção de sistemas e estruturas aeronáuticas.

A empresa, que hoje conta com cerca de 600 a 700 funcionários, já recebeu, por três edições consecutivas, o título de empresa mais inovadora do Brasil, concedido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Reconhecida como Tier 1 Global Supplier (fornecedora de primeira linha de grandes integradores mundiais), atua em mais de 20 países e mantém escritórios comerciais na Turquia e em Portugal. Em janeiro de 2024, anunciou a implantação de uma nova unidade no Parque Tecnológico Aeroespacial de Salvador, na Bahia, com potencial de gerar 1.000 empregos diretos e outros 5.000 indiretos em até cinco anos, além de um faturamento acumulado projetado de R$ 5 bilhões no mesmo período.

Esse porte e essa capilaridade internacional explicam por que qualquer movimento envolvendo o controle acionário da Akaer (seja uma fusão, seja uma venda) tem repercussão imediata sobre o conjunto da BID, dado o papel da empresa como fornecedora de estruturas aeronáuticas, sistemas optrônicos e soluções para veículos blindados de uso militar.


Cascavel NG

Histórico: parcerias com as forças armadas brasileiras

Desde o início dos anos 2010, a Akaer mantém vínculo estreito com o Exército Brasileiro. Em julho de 2022, a Força assinou com o consórcio Força Terrestre (liderado pela Akaer, com a Opto Space & Defense e a Universal) o contrato para a primeira fase de modernização de 98 viaturas blindadas de reconhecimento EE-9 Cascavel, projeto batizado de Cascavel NG. O programa prevê novo motor, câmbio automático, suspensão adaptativa, torre automatizada, conjunto optrônico de última geração e computador de tiro balístico integrado, este último testado com disparos reais no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), em fevereiro de 2026. A viatura modernizada também está sendo avaliada para receber o míssil anticarro MAX 1.2 AC, da SIATT.

Outro fornecimento relevante ao Exército é o monóculo de imagem termal OLHAR, desenvolvido pela Opto Space & Defense (unidade do Grupo Akaer) para o Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e classificado pelo Ministério da Defesa como Produto Estratégico de Defesa (PED). Com a Força Aérea Brasileira (FAB), a Akaer prestou serviços de revitalização das asas da aeronave de patrulha marítima P3 Orion.

Aeronave de patrulha marítima P3 Orion

Histórico: parcerias com a indústria aeroespacial nacional
A relação mais longeva e estruturante da Akaer no setor é com o programa Gripen, da Força Aérea Brasileira. A parceria com a Saab começou em 2008, com um memorando de entendimento, e ganhou densidade em 2009, quando a Akaer foi contratada para o desenvolvimento da fuselagem central e traseira do Gripen NG. Em 2012, a Saab adquiriu uma participação de 15% na Akaer, elevada depois ao teto de 40%; em 2019, a Akaer passou a deter 10% da Saab Aeronáutica Montagens (SAM), unidade fabril de São Bernardo do Campo (SP) dedicada à produção de aeroestruturas dos caças. Esta participação foi modificada posteriormente, como será visto no decorrer da matéria.

No âmbito da Embraer, a unidade de negócios Equatorial Sistemas (do Grupo Akaer) foi selecionada pela Finep, em 2023, como coexecutora do projeto liderado pela fabricante de aviões na linha temática de aeronave demonstradora para transporte de passageiros; na linha temática de aeronaves remotamente pilotadas com mais de 150 kg, a própria Akaer foi classificada em primeiro lugar e assumiu a liderança do projeto.

No KC-390 Millennium, aeronave de transporte militar da Embraer, a Akaer integra a cadeia industrial fornecendo gabaritos para a montagem da fuselagem e de grandes subconjuntos, como o trem de pouso, moldes para peças compostas e partes aerodinâmicas, plataformas industriais de montagem e ferramentas de inspeção destinadas a assegurar tolerâncias rigorosas.
 

C-390 e Gripen

Histórico: parcerias internacionais e de pesquisa
A internacionalização da Akaer passa por acordos com fabricantes aeronáuticos de diferentes continentes. Com a turca Turkish Aerospace Industries (TAI), a empresa participa, desde 2024, do desenvolvimento estrutural do HÜRJET, aeronave supersônica de treinamento avançado e ataque leve. Com a argentina FAdeA (Fábrica Argentina de Aviones Brigadier San Martín), assinou, no mesmo ano, um memorando de entendimento para projetos conjuntos envolvendo automação e robótica na fabricação de peças aeronáuticas. Já com a portuguesa EEA Aircraft and Maintenance, oficializou, em fevereiro de 2025, acordo estratégico para fabricar no Brasil a estrutura completa do LUS-222, aeronave bimotora de transporte regional e de carga prevista para voar a partir de 2027.

No campo da pesquisa básica, a Akaer concluiu a primeira etapa do desenvolvimento das plantas de purificação de argônio líquido do DUNE (Deep Underground Neutrino Experiment), um dos maiores experimentos de física de partículas do mundo, liderado pelo Fermilab e coordenado pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos. A empresa também mantém parceria de longa data com a Dassault Systèmes, cuja plataforma 3D EXPERIENCE foi implantada na Akaer em apenas 53 dias, e desenvolve, em conjunto com a Fatec de São José dos Campos, programa de capacitação de novos engenheiros.

Em março de 2024, a Akaer foi selecionada pela alemã Deutsche Aircraft como parceira estratégica no desenvolvimento do D328eco, turboélice de aviação regional sustentável, ficando responsável pela fabricação da fuselagem dianteira, incluindo industrialização, ferramental, prototipagem e estudos de engenharia. A linha de montagem foi inaugurada em 12 de agosto de 2025, em São José dos Campos, marco para a aviação regional sustentável.


Ainda em 2025, a Akaer assinou memorando de entendimento (MoU) com a turca Aselsan, líder em eletrônica de defesa, para o desenvolvimento conjunto de soluções na área. Durante o Dubai Airshow 2025, a empresa anunciou parceria estratégica com a Advanced Military Maintenance, Repair and Overhaul Center (AMMROC), com sede em Al Ain, no emirado de Abu Dhabi (EAU), voltada ao desenvolvimento conjunto de aeronaves multimissão de última geração e à execução de futuros programas de modernização, somando a expertise da AMMROC em manutenção, reparo, revisão, integração e suporte técnico de frotas às capacidades de engenharia e manufatura da Akaer.

No mesmo evento, a Akaer firmou parceria estratégica com a instituição financeira Boavista Pay, frente digital e tecnológica do Banco Boavista, instituição financeira brasileira integrante do Grupo Boavista; o Boavista Pay conta com fundo de investimento estimado em US$ 1 bilhão e atuação no Brasil e no exterior, e o acordo deve acelerar o desenvolvimento de programas como o D328eco, o WindRunner e o LUS-222, além de outros projetos mantidos sob confidencialidade.

Em junho de 2025, durante o Paris Air Show, a Radia anunciou parceria com a Akaer para o desenvolvimento da cabine pressurizada do WindRunner e o suporte à integração de sistemas críticos da aeronave, marco que reflete a presença brasileira em um consórcio global até então dominado por empresas dos Estados Unidos, da Itália e da Espanha.

Os problemas: atrasos salariais e o fracasso do programa de microlançador
Por trás da expansão internacional, no entanto, a Akaer enfrenta dois problemas estruturais que vêm se acumulando desde 2025.

O primeiro envolve o programa de veículo lançador de pequeno porte (VLPP), uma das iniciativas mais ambiciosas do setor espacial brasileiro nos últimos anos. Em novembro de 2023, a Akaer assumiu a liderança do consórcio responsável pelo VLN-AKR, projeto de foguete de três estágios financiado pela Finep, com as startups Acrux Aerospace Technologies, Breng Engenharia e Tecnologia, e Essado de Morais como coexecutoras. Segundo o fundador da Acrux, Oswaldo Loureda, a relação com a Akaer foi difícil desde o início: a empresa não teria avisado as coexecutoras sobre o repasse de R$ 41,3 milhões da Finep, e as startups só teriam tomado conhecimento da transferência por conversas informais, levando seis meses para receber sua parte. Em agosto de 2025, a Finep bloqueou as contas do consórcio depois de identificar que a Akaer não conseguiu comprovar a aplicação ou o repasse de pelo menos R$ 24,5 milhões dos R$ 41,3 milhões já recebidos. O programa foi formalmente cancelado em fevereiro de 2026, e mais de 40 funcionários e bolsistas das coexecutoras tiveram de ser dispensados. Em nota, a Akaer afirmou atuar em conformidade com os termos contratuais e atribuiu o episódio a “ajustes de natureza administrativa e financeira”.

O segundo problema é recorrente: atrasos no pagamento de salários e benefícios. O Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região denuncia o padrão desde março de 2025, quando relatou atraso no pagamento de fevereiro, FGTS pendente havia dez meses e bloqueio do convênio médico. Em dezembro de 2025, a situação se repetiu, com atraso de salários, 13º e vale-alimentação, além da suspensão dos convênios médico e odontológico. Em fevereiro de 2026, cerca de 700 trabalhadores ainda não tinham recebido os vencimentos de janeiro; em assembleia, os funcionários autorizaram o sindicato a negociar diretamente com a direção da empresa, e a chegada da Polícia Militar ao protesto gerou tensão. No mesmo mês, o sindicato classificou o quadro como “crítico e de natureza sistêmica”, afetando cerca de 600 trabalhadores e envolvendo também o FGTS, parado havia cerca de um ano.

Drones: outro ponto de contato entre a Akaer e o EDGE Group
Além das estruturas aeronáuticas, há um terceiro elo, menos conhecido, entre a Akaer e o EDGE Group: o segmento de aeronaves remotamente pilotadas. Desde 2019, a Akaer desenvolve sistemas não tripulados próprios, como o Albatross (classe 3, com 1.000 kg de peso básico, originalmente concebido para patrulha marítima e reconhecimento e depois adaptado para carga paga de armamento de até 320 kg), o Osprey (monomotor, voltado a reconhecimento e ataque leve ao solo), o conceito AKR-HA (uma plataforma de altitude estratosférica do tipo HAPS) e o AKR-H2, UAV de propulsão híbrida a hidrogênio financiado pela Finep.

Esse histórico ajuda a explicar por que a Akaer aparece como parceira internacional em pelo menos dois programas de UAV do próprio EDGE Group. Segundo o dossê estratégico “Uninhabited Middle East”, do International Institute for Strategic Studies (IISS), publicado em 2026, a Akaer contribuiu com o design e a análise de desempenho do motor do REACH-S, UAV MALE da ADASI (subsidiária do EDGE Group), e também aparece como parceira internacional do Jeniah, o veículo de combate não tripulado a jato da mesma empresa. O próprio relatório do IISS observa que essa informação foi apurada por meio de perfis profissionais de engenheiros da Akaer, e não por comunicado oficial das partes. O mesmo dossê lista a Akaer como parceira de design do Samoom, UAV MALE da saudita Intra Defense Technologies, ao lado da sul-africana Hensoldt e da belga ULPower Aero Engines.

Esse vínculo prévio no campo de drones, somado ao histórico já consolidado em estruturas aeronáuticas e optrônica, reforça a hipótese de que o interesse do EDGE Group pela Akaer vai além da engenharia tradicional. O momento também é favorável a esse tipo de combinação: as Forças Armadas brasileiras vivem um período de interesse crescente por sistemas não tripulados, do Exército à Marinha, em programas que vão de vigilância de fronteira a munições vagantes. Uma Akaer sob controle do EDGE Group, com experiência prévia em UAVs de média altitude e longa autonomia, poderia se tornar uma porta de entrada natural para que o grupo emiradense ofereça ao Brasil não apenas estruturas aeronáuticas, mas também drones militares, justamente no momento em que essa demanda se intensifica internamente.
Albatross (direita) e Osprey (esquerda) formam a nova família de UAVs da  Akaer (2023)

O boato da venda ao EDGE Group
É nesse cenário de expansão internacional combinada à fragilidade financeira que ganhou força, em junho de 2026, os informes de que a Akaer estaria próxima de ser vendida ao EDGE Group, conglomerado de defesa dos Emirados Árabes Unidos. O informe, veiculado inicialmente pelo canal Base Militar Vídeo Magazine e repercutido pelo blog Brazilian Space em 22 de junho, sustenta que a negociação já estaria concluída havia cerca de três meses, restando apenas o anuncio oficial. Um segundo canal especializado em defesa também repercutiu o informe nos dias seguintes. Até o momento, porém, nenhuma das partes (Akaer, EDGE Group ou a controladora Connectus Gestão e Participações) confirmou oficialmente a operação, e os principais veículos especializados do setor de defesa brasileiro não publicaram matéria própria sobre o tema.

A relação entre as duas empresas não é recente: em abril de 2023, durante a LAAD, Akaer e EDGE Group assinaram um memorando de entendimento prevendo cooperação no desenvolvimento e na produção de sistemas de alta tecnologia para os setores aeroespacial e de defesa nos dois países. Desde então, o grupo emiradense ampliou significativamente sua presença no Brasil, com a aquisição de 50% da Siatt (2023) e de 51% da Condor, além de outros investimentos, somando cerca de US$ 3 bilhões aplicados no país. Em junho de 2026, a EDGE Group lançou ainda a EDGE Europe, com sede em Paris, reforçando o ritmo acelerado de aquisições do grupo em diferentes continentes.

Um fator que poderia facilitar uma eventual negociação é a atual estrutura acionária da Akaer. A Saab, que chegou a deter 42,21% da holding Akaer Participações S.A., teve sua participação integralmente recomprada pela Connectus Gestão e Participações em outubro de 2023, com aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) sem restrições. Hoje, portanto, a Connectus controla 100% da Akaer Participações, o que dispensaria a negociação com um sócio estrangeiro caso uma venda ao EDGE Group venha a se confirmar.

Parceria estratégica entre o EDGE Group e a Akaer, firmada durante a LAAD 2023

O que significaria mais uma perda brasileira para o EDGE Group
Se confirmada, a venda da Akaer seria a terceira operação relevante do EDGE Group na BID brasileira em poucos anos, depois da SIATT e da Condor, e reforçaria um padrão: o grupo emiradense tem priorizado o controle integral das empresas em que investe, e não apenas parcerias tecnológicas pontuais.

Do lado positivo, a entrada de capital estrangeiro tende a resolver, de forma relativamente rápida, a crise financeira que hoje compromete salários, FGTS e benefícios de cerca de 600 trabalhadores, além de preservar empregos qualificados que, sem aporte externo, estariam sob risco real de extinção. O histórico do grupo no país (com a construção da nova fábrica da SIATT, em São José dos Campos, e a expansão da Condor) sugere disposição real de investir em capacidade produtiva local, e não apenas de absorver tecnologia. A Akaer também ganharia acesso à rede comercial global do EDGE Group, hoje presente em mais de 30 países, o que poderia abrir mercados que a empresa, isoladamente, dificilmente alcançaria.

Do lado negativo, a venda representaria a concentração de um terceiro ativo estratégico da BID nas mãos de um único grupo estrangeiro, em um setor (estruturas aeronáuticas militares, optrônica, drones e blindados) diretamente ligado a programas sensíveis das Forças Armadas brasileiras, como o Cascavel NG, o Gripen e o C-390. Há ainda o precedente observado quando a Saab adquiriu a Atmos Sistemas, em 2020: uma vez sob controle estrangeiro integral, a tendência é que decisões de engenharia, propriedade intelectual e até a sede de operações migrem para fora do raio de influência nacional, o que poderia esvaziar, no médio prazo, a autonomia tecnológica que a própria Akaer ajudou a construir ao longo de três décadas. Pesa também o momento da operação: uma venda negociada quando a empresa atravessa crise financeira aguda tende a ocorrer em condições menos favoráveis ao vendedor nacional, levantando a questão de saber se o país estaria abrindo mão de um ativo estratégico por um valor inferior ao que teria em condições normais.

Como Empresa Estratégica de Defesa, qualquer mudança de controle acionário da Akaer para capital estrangeiro dependerá de aprovação formal do governo brasileiro, o que deve colocar o Ministério da Defesa no centro da decisão caso o boato se confirme.

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