Eric Béranger se reuniu
com líderes das três Forças em 1º e 2 de junho; encontro ocorre na esteira do
MoU com a Mac Jee e do retorno da Avibras Aeroco ao mercado
*LRCA Defense Consulting - 03/06/2026
Eric Béranger, CEO da MBDA, concluiu nos dias 1º e 2 de junho uma visita oficial ao Brasil que reuniu os altos comandos das três Forças Armadas e representantes diplomáticos de três países europeus. A agenda, incomum pela abrangência, ocorre em um momento em que o maior grupo europeu de mísseis acumula, em rápida sucessão, novas amarras com a Base Industrial de Defesa brasileira: a Mac Jee assinou um Memorando de Entendimento (MoU) com a empresa em 29 de maio, e a Avibras Aeroco, parceira histórica da MBDA desde 2013, retomou atividades após aporte de R$ 300 milhões do grupo J&F. Para analistas do setor, a coincidência de datas dificilmente é fortuita.
Agenda de alto nível
A delegação
da MBDA incluiu Florent Duleux, vice-presidente sênior de vendas para
exportação; Ricardo Mantovani, vice-presidente de vendas para as Américas; e
Pierre Marquis, diretor-geral da subsidiária brasileira, com sede no Rio de
Janeiro desde 2024. No lado brasileiro, as reuniões institucionais alcançaram o
Almirante Marcos Sampaio Olsen, Comandante da Marinha; o Tenente-Brigadeiro do
Ar Walcyr Josué de Castilho Araújo, Chefe do Estado-Maior da Aeronáutica
(EMAER); e o General Eduardo Tavares Martins, Subchefe do Estado-Maior do
Exército (EME).
O caráter triservice da visita é digno de nota. A MBDA fornece sistemas para as três Forças: o míssil Meteor ao caça F-39E Gripen da Força Aérea Brasileira; o sistema Sea Ceptor (com o míssil CAMM) e três versões do Exocet às fragatas Classe Tamandaré e a outras plataformas da Marinha; o Exocet SM39 aos submarinos Scorpène BR; o Exocet AM39 aos helicópteros H225M; e, desde dezembro de 2025, o sistema EMADS ao Exército, adquirido por acordo Governo a Governo (G2G) com a Itália, com investimento previsto de até R$ 5 bilhões.
A agenda diplomática não foi menos expressiva: os embaixadores da Itália (Alessandro Cortese) e da França (Emmanuel Lenain) e o vice-embaixador do Reino Unido (Tony Kay) participaram de encontros com a delegação. O trio de países corresponde exatamente à estrutura acionária da MBDA: Airbus (37,5%), BAE Systems (37,5%) e Leonardo (25%).
Operação BVR-X e o Meteor no Gripen brasileiro
Ao ser
questionado sobre a Operação BVR-X, evento em que a Força Aérea Brasileira
realizou, pela primeira vez, lançamentos do míssil Meteor integrado ao Gripen,
Béranger classificou o resultado como um avanço extremamente significativo para
as capacidades tecnológicas brasileiras. Segundo ele, os dois lançamentos
realizados demonstraram tanto o desempenho do míssil quanto a eficiência da
cooperação entre as equipes da MBDA e os profissionais brasileiros envolvidos.
O Meteor é um míssil ar-ar de médio alcance propulsionado por motor ramjet e alcance de até 200 km. Além do Gripen, está em processo de integração aos caças KF-21 e F-35 e já equipa o Rafale e o Eurofighter.
Expansão produtiva e investimentos
A visita
acontece em um momento de expansão acelerada da MBDA. Em 2025, a empresa
registrou receita de € 5,8 bilhões, recebeu € 13,2 bilhões em novos pedidos e
encerrou o ano com carteira de encomendas de € 44,4 bilhões. Entre 2023 e o
final de 2025, a produção de mísseis dobrou; para 2026, a previsão é de
crescimento adicional de 40%, com destaque para a duplicação da produção dos
mísseis Aster. O plano de investimentos para 2026–2030 soma € 5 bilhões em solo
europeu, e a empresa planeja contratar 2.800 novos funcionários apenas em 2026.
Esse contexto de crescimento robusto explica, em parte, o interesse da MBDA em diversificar e aprofundar sua cadeia de suprimentos em parceiros industriais confiáveis fora da Europa, e o Brasil emerge como um candidato natural, com capacidade instalada em materiais energéticos, propulsão sólida e integração de sistemas.
Mac Jee, Avibras e a teia de parcerias na BID
O MoU
assinado com a Mac Jee em 29 de maio formaliza um diálogo que remonta ao Paris
Air Show de 2023, quando as duas empresas tornaram públicas a intensidade de
seus intercâmbios. Em 28 de abril de 2026, representantes da MBDA visitaram as
instalações da Mac Jee em São José dos Campos e Paraibuna, discutindo processos
industriais e perspectivas de cooperação em propulsão e materiais energéticos.
A Mac Jee, fundada em 2007 e com capital 100% nacional, possui um portfólio que inclui munições aéreas das séries MK e BLU, o kit de guiagem de precisão Dagger, o lançador de foguetes Armadillo, o drone suicida Anshar e linhas de produção de TNT, RDX, HMX e propelentes sólidos compósitos. Em novembro de 2025, adquiriu da extinta Mectron, em parceria com a FAB, a propriedade intelectual dos mísseis MAR-1 e MAA-1B. A empresa participa ainda do programa hipersônico PROPHIPER 14-X, desenvolvendo o foguete acelerador RATO-14X em colaboração com o IEAv, o IAE e o ITA.
Já a Avibras Aeroco, reestruturada com aporte do grupo J&F, mantém em seu portfólio um sistema de defesa antiaérea de média altitude com parceiro não identificado nominalmente, mas que analistas do setor apontam como a própria MBDA, em razão do histórico documentado de cooperação. As duas empresas trabalharam juntas por mais de uma década no conceito AV-MMA, baseado no míssil CAMM, chegando a apresentá-lo conjuntamente ao Exército em 2014. O colapso financeiro da Avibras em 2022 interrompeu esse processo no exato momento em que a demanda por defesa antiaérea de média altitude se acelerava.
Com a formalização do EMADS e a perspectiva de transferência de tecnologia para fabricação de mísseis no Brasil, sinalizada pelo Ministério da Defesa, a Avibras Aeroco reaparece como candidata natural a sediar essa produção. Nenhuma outra empresa nacional acumula experiência equivalente na integração de sistemas superfície-ar nessa faixa de altitude.

Sistema de defesa antiaérea de média altitude no ASTROS MK6 (renderização Avibras Aeroco)
Supplier's Day e o fortalecimento da cadeia local
A visita de
Béranger também serviu para reafirmar iniciativas recentes voltadas à
integração da indústria brasileira à cadeia global de fornecimento da MBDA. Em
maio, a empresa realizou no Rio de Janeiro o primeiro Supplier's Day da
MBDA no Brasil, reunindo 16 empresas nacionais com equipes globais de compras
do grupo. O evento contou com apoio do Ministério da Defesa, por meio da
Secretaria de Produtos de Defesa (SEPROD), da ABIMDE e da Finep.
"Apoiar as três Forças Armadas demonstra que a MBDA está em uma trajetória sólida de consolidação e crescimento no Brasil", afirmou Béranger ao ser questionado sobre o potencial estratégico do país. O CEO destacou ainda que um dos pilares da subsidiária brasileira é aprofundar a cooperação industrial, "um dos fundamentos do nosso DNA".
Quadro consolidado da visita
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Aspecto |
Detalhe |
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Período da visita |
1º e 2 de junho de 2026 |
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Liderança MBDA presente |
Eric Béranger (CEO); Florent Duleux (VP Sênior de Vendas para Exportação); Ricardo Mantovani (VP de Vendas para as Américas); Pierre Marquis (Diretor-Geral no Brasil) |
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Autoridades militares brasileiras |
Almirante Marcos Sampaio Olsen (Comandante da Marinha); Tenente-Brigadeiro Walcyr Josué de Castilho Araújo (Chefe do EMAER); General Eduardo Tavares Martins (Subchefe do EME) |
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Autoridades diplomáticas |
Embaixadores da Itália, França e Vice-Embaixador do Reino Unido |
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Programas ativos com as FA brasileiras |
Gripen (Meteor), Tamandaré (Sea Ceptor/CAMM e Exocet), Scorpène BR (Exocet SM39), H225M (Exocet AM39), EMADS (Exército) |
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MBDA — receita (2025) |
€ 5,8 bilhões |
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MBDA — carteira de pedidos |
€ 44,4 bilhões |
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MBDA — plano de investimento 2026–2030 |
€ 5 bilhões (Europa) |
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Crescimento de produção previsto (2026) |
+40% total; mísseis Aster: +100% |
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Parceiros industriais nacionais (recentes) |
Mac Jee (MoU, mai./2026); Avibras Aeroco (relacionamento histórico, retomado) |
Perspectiva
A visita de
Béranger ao Brasil, pela sua abrangência institucional e pelo momento em que
ocorre, consolida a percepção de que o país ocupa um papel crescente na
estratégia global da MBDA. O encontro simultâneo com os altos comandos das três
Forças, aliado ao recente MoU com a Mac Jee e ao retorno da Avibras Aeroco ao
mercado, sugere que a MBDA trabalha para construir no Brasil um ecossistema
industrial integrado, combinando plataformas operacionais já em serviço,
programas de aquisição em curso, transferência de tecnologia e desenvolvimento
de fornecedores locais.
O conteúdo concreto dessas parcerias, porém, ainda precisa se materializar em contratos e projetos. Por ora, a teia de acordos de intenção e visitas de alto nível sinaliza direção, mas o ritmo de execução dependerá de fatores que vão além da vontade das partes: orçamento de defesa, prioridades das Forças e dinâmica política. A janela, no entanto, parece aberta.



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