Acordo entre a controlada da Embraer e o braço
de energia do grupo japonês mira a infraestrutura de recarga para eVTOLs em São
Paulo e Nova York, com operação comercial prevista para 2028
*LRCA Defense Consulting - 17/07/2026
A Eve Air Mobility, subsidiária de mobilidade
aérea urbana controlada pela Embraer, e a Hitachi Energy, braço de energia do
grupo japonês Hitachi, assinaram nesta sexta-feira (17) um Memorando de
Entendimento (MoU) para desenvolver conjuntamente a infraestrutura elétrica
necessária à operação em escala de aeronaves elétricas de decolagem e pouso
vertical, os eVTOLs. O acordo foi anunciado simultaneamente no Brasil e nos
Estados Unidos e tem como foco inicial as cidades de São Paulo e Nova York,
apontadas pelas empresas como mercados prioritários em função do já elevado
tráfego de helicópteros.
Segundo as companhias, à medida que a mobilidade
aérea urbana (UAM, na sigla em inglês) se aproxima da operação comercial, o
principal gargalo deixa de ser o desenvolvimento das próprias aeronaves e passa
a ser a garantia de energia suficiente, disponível e confiável para abastecer
os vertiportos, os pontos de pouso, decolagem, embarque e recarga dos eVTOLs.
Por se tratar de um memorando de entendimento voltado ao alinhamento de estudos
e futuras frentes de cooperação, as empresas informaram que o acordo não prevê,
por ora, investimentos ou aportes financeiros definidos.
Recarga
rápida como condição para escalar a operação
Pelo acordo, a Hitachi Energy adaptará sua
plataforma de carregamento Grid-eMotion, já utilizada em outros segmentos de
eletromobilidade, às exigências específicas dos eVTOLs. A tecnologia segue o
conceito que a empresa chama de “grid to plug”, ou seja, o transporte de
energia desde a rede das transmissoras até as tomadas em que as aeronaves serão
conectadas para recarga, garantindo maior confiabilidade e menor exposição a
oscilações comuns na rede de distribuição.
Diferentemente dos automóveis elétricos, que
costumam permanecer estacionados por longos períodos durante a recarga, os
eVTOLs foram projetados para realizar diversos voos curtos ao longo do dia, o
que exige ciclos de recarga rápidos entre uma operação e outra. Essa dinâmica é
considerada determinante para viabilizar economicamente o serviço, sobretudo
para operadoras como a Revo, empresa de táxi aéreo que já assinou o primeiro
pedido firme de aeronaves da Eve, no valor de 250 milhões de dólares, referente
a 50 unidades.
Uma das soluções em estudo prevê que os
equipamentos mais pesados, responsáveis pela conversão de energia e pelo
gerenciamento do sistema, permaneçam instalados no térreo dos edifícios,
enquanto nos topos das construções, onde ficarão os vertiportos, seriam
instalados apenas os dispensadores de energia conectados ao sistema
centralizado. A estratégia busca reduzir a carga estrutural sobre as
edificações e liberar espaço operacional nas plataformas de pouso.
Rede
elétrica brasileira precisará evoluir, diz Hitachi Energy
Para Glauco Freitas, presidente da Hitachi
Energy no Brasil e executivo líder para o Sul da América Latina, o Sistema
Interligado Nacional (SIN) é referência mundial em interconexão, mas ainda não
está preparado para o volume de demanda energética que os futuros vertiportos
deverão gerar. “O sistema elétrico brasileiro hoje é referência mundial: quase
99% do País está conectado, só falta Fernando Noronha”, afirmou o executivo,
segundo o site Brasil 247. “É uma rede extremamente interconectada. Mas, para a
demanda que está por vir, ela não está preparada. É uma jornada.”
Já Luiz Mauad, vice-presidente de Serviços ao
Cliente da Eve, destacou que o desafio da eletrificação vai muito além da
simples instalação de carregadores. “A infraestrutura elétrica é um elemento
fundamental para viabilizar operações seguras, eficientes e escaláveis de
eVTOL. Não se trata apenas de instalar carregadores, mas de planejar a
disponibilidade de potência, os ciclos de recarga, a integração com a rede e a
operação em solo”, disse o executivo, conforme reportagem da Reuters replicada
pelo InfoMoney.
Mauad afirmou ainda que a Eve vem firmando
acordos com outras companhias para desenvolver diferentes frentes da mobilidade
aérea urbana, sem revelar, no entanto, a identidade desses parceiros. Segundo
ele, os estudos internos da empresa apontam para mais de 300 eVTOLs em operação
em São Paulo nas próximas duas décadas, conectando mais de 35 pontos
estratégicos da região metropolitana, com entrada gradual da frota seguida de
escalada progressiva.
Segunda
vida das baterias e frente global de negócios
Além da recarga, a parceria vai explorar o
potencial de reaproveitamento das baterias dos eVTOLs em sistemas de
armazenamento de energia, após o fim de seu ciclo de vida na aviação, ampliando
a sustentabilidade do ecossistema como um todo. O memorando também estabelece
uma frente conjunta de modelagem de negócios e de relacionamento coordenado com
clientes, visando a expansão global da infraestrutura de mobilidade aérea
urbana.
Em nota oficial divulgada pela Hitachi Energy, o
presidente-executivo da Eve, Johann Bordais, afirmou que a construção de um
ecossistema de mobilidade aérea urbana bem-sucedido depende da colaboração
entre diferentes setores da economia. “A colaboração com a Hitachi Energy apoia
nossos esforços contínuos para ajudar a viabilizar a infraestrutura necessária
para operações de eVTOL seguras, eficientes, escaláveis e economicamente
sustentáveis em todo o mundo”, declarou.
Já Marco Berardi, responsável pela área de
Soluções e Serviços de Rede e Qualidade de Energia da Hitachi Energy, associou
o acordo ao desafio mais amplo da transição energética global. “Nenhuma empresa
ou país, isoladamente, pode fazer a transição energética acontecer, por isso
estamos entusiasmados em colaborar com a Eve para acelerar conjuntamente a
descarbonização da mobilidade aérea urbana”, disse o executivo.
Contexto:
carteira de encomendas e prazo de certificação
A Eve, listada na Bolsa de Nova York (NYSE: EVEX
e EVEXW) e também na B3 (EVEB31), soma atualmente cerca de 2.700 cartas de
intenção de compra de eVTOLs em diferentes mercados. A aeronave, projetada para
transportar quatro passageiros, segue em campanha de voos de teste na unidade
da Embraer em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo, com certificação e
início de operação comercial previstos para 2028.
Do lado da Hitachi Energy, a companhia informou
manter investimentos superiores a 9 bilhões de dólares em expansão de pesquisa
e desenvolvimento, capacidade fabril, engenharia e colaborações estratégicas
voltadas à eletrificação e à modernização de redes elétricas em todo o mundo.
A parceria com a Hitachi Energy é a primeira
assinada pela Eve especificamente com o escopo de recarga das baterias de seus
eVTOLs, somando-se a um histórico recente de colaborações da empresa no eixo de
infraestrutura em solo, que inclui, por exemplo, a participação da Eve no
sandbox regulatório da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para
vertiportos, ao lado da VertiMob Infrastructure e do consórcio formado por Pax
Aeroportos e UrbanV.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Seu comentário será submetido ao Administrador. Não serão publicados comentários ofensivos ou que visem desabonar a imagem das empresas (críticas destrutivas).