Com fatia minoritária da SIATT na aeroespacial de São José dos Campos, grupo dos Emirados Árabes Unidos fecha a terceira aquisição na base industrial de defesa brasileira desde 2023
*LRCA Defense Consulting - 04/09/2026
O EDGE, conglomerado estatal de defesa e tecnologia dos Emirados Árabes Unidos, anunciou nesta sexta-feira (4) a conclusão da compra da Akaer, empresa de engenharia aeroespacial de São José dos Campos (SP). O anúncio confirma o fechamento do negócio cujo acordo de compra e venda de ações, o share purchase agreement, havia sido assinado em cerimônia realizada em julho, quando as partes revelaram a intenção de transferir 100% do capital da companhia brasileira ao grupo emiradense.
Segundo comunicado da EDGE, todas as condições precedentes usuais para o fechamento da operação foram cumpridas, o que torna a Akaer, na prática, uma subsidiária integral do grupo dos Emirados. “A conclusão desta aquisição marca um importante passo para a EDGE no Brasil. Aguardamos com expectativa a contribuição contínua da Akaer para o ecossistema de defesa do País e a força que seu talento de engenharia traz às capacidades da EDGE em todo o grupo”, disse Hamad Al Marar, diretor-presidente (CEO) da EDGE.
A novidade: SIATT entra no capital da Akaer
O ponto que distingue esta etapa da operação em relação ao que havia sido anunciado em julho é a estrutura societária adotada para viabilizar o fechamento. A EDGE informou que, como parte da transação, uma participação minoritária no capital da Akaer será mantida pela SIATT, empresa brasileira de mísseis e sistemas de alta tecnologia da qual o próprio grupo emiradense já é sócio. Segundo a EDGE, esse desenho societário reflete a estrutura corporativa acertada para a aquisição, com o objetivo de preservar o enquadramento da Akaer como Empresa Estratégica de Defesa (EED), classificação concedida pelo Ministério da Defesa a companhias responsáveis pelo desenvolvimento ou pela produção de bens e tecnologias consideradas essenciais à defesa nacional.
A fórmula chama a atenção porque, até então, o mecanismo discutido publicamente para a manutenção do status de EED da Akaer era a permanência de uma participação brasileira direta, nos moldes do que ocorre na própria SIATT, cujos sócios fundadores brasileiros mantêm o controle votante da empresa. Ao colocar a SIATT, e não um sócio brasileiro independente, como titular da fatia minoritária da Akaer, a EDGE cria uma cadeia societária em que uma empresa já parcialmente sua passa a deter parte de outra companhia do mesmo grupo em solo brasileiro. O desenho definitivo da governança e o percentual exato reservado à SIATT não foram detalhados pelas empresas.
Quem é a Akaer
Fundada em 1992 e sediada em São José dos Campos, a Akaer acumula mais de 10 milhões de horas de engenharia aeroespacial em programas civis e militares. A empresa participou do desenvolvimento do caça F‑39 Gripen, da Força Aérea Brasileira; do cargueiro multimissão KC‑390 Millennium, da Embraer; da revitalização estrutural das asas dos aviões de patrulha P‑3AM Orion; e venceu, em 2023, a licitação para modernizar o blindado EE‑9 Cascavel do Exército. A companhia também assina o Opto‑ThermoScan, sistema de medição de temperatura corporal, e foi selecionada recentemente pela alemã Deutsche Aircraft para fabricar a fuselagem dianteira do turboélice D328eco, tornando‑se a primeira fornecedora brasileira de nível 1 (Tier 1) da indústria aeroespacial global.
A companhia já trabalhava em parceria com a EDGE no desenvolvimento e na industrialização de sistemas não tripulados antes mesmo da aquisição, incluindo o programa de drone de grande porte JENIAH. Segundo o diretor financeiro (CFO) da EDGE, Rodrigo Torres, cerca de 40% da receita da Akaer já vinha de contratos com o grupo emiradense no momento do anúncio, em julho.
Como a venda chegou a esse ponto
A negociação avançou em meio a dificuldades financeiras enfrentadas pela Akaer, que acumulou dívidas e passou a ter problemas para honrar compromissos com funcionários e fornecedores. Em julho, Torres afirmou à CNN Brasil que o Ministério da Defesa e integrantes das Forças Armadas procuraram a EDGE durante a feira LAAD para discutir alternativas que evitassem o fechamento da empresa, pedindo que se avaliasse uma parceria capaz de impedir a falência da companhia. O governo havia liberado, via Finep, R$ 41,3 milhões para a Akaer; parte da verba foi cancelada em 2025 em razão de um suposto desvio de recursos.
O atual controlador da Akaer, Cesar Silva, deixará a gestão da empresa, mas deve permanecer como consultor da EDGE por um período de um a dois anos, segundo apurado à época do anúncio. A estrutura acionária da companhia também facilitou a operação: a sueca Saab, que chegou a deter 42,21% da holding Akaer Participações S.A., teve sua fatia integralmente recomprada pela então controladora Connectus Gestão e Participações em outubro de 2023, com aprovação sem restrições do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), o que dispensou a negociação com um sócio estrangeiro na operação com a EDGE.
Terceira aquisição do grupo emiradense na defesa brasileira
A Akaer é a terceira compra da EDGE na base industrial de defesa (BID) brasileira desde setembro de 2023. As duas anteriores foram a SIATT, cujos sócios fundadores brasileiros mantêm 50,1% do capital e 60% do capital votante, e a Condor Tecnologias Não Letais, líder mundial em armamentos não letais, na qual a EDGE detém participação majoritária. Executivos do grupo já afirmaram publicamente que o investimento acumulado da EDGE no Brasil soma cerca de R$ 3 bilhões (em torno de US$ 590 milhões). O valor pago pela Akaer não foi divulgado pelas empresas.
Com Akaer, Condor e SIATT sob o mesmo guarda-chuva, o grupo passa a reunir, dentro do País, capacidades que vão do projeto conceitual de plataformas (com a Akaer) a mísseis guiados e sistemas de navegação (com a SIATT) e armamentos não letais (com a Condor). A Akaer também aparece, segundo dossiê do International Institute for Strategic Studies (IISS) sobre sistemas não tripulados no Oriente Médio, como parceira de projeto do motor do REACH-S, UAV da ADASI, subsidiária da EDGE, e do Samoom, drone da saudita Intra Defense Technologies, ao lado da sul-africana Hensoldt e da belga ULPower Aero Engines.
Questionamentos sobre soberania
A operação também gerou reação de entidades ligadas à ciência e à engenharia nacionais. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o Clube de Engenharia e outras entidades levaram à Presidência da República um pedido de suspensão da operação e de auditoria, argumentando que a manutenção do enquadramento como EED para uma empresa de controle integralmente estrangeiro representa um nó jurídico ainda não resolvido. Até a conclusão do negócio, o governo não havia explicitado publicamente o critério que seria adotado para validar a preservação do status da Akaer.
Analistas da BID citam como precedente a aquisição da Atmos Sistemas pela sueca Saab, em 2020, quando decisões de engenharia e propriedade intelectual passaram, no médio prazo, a migrar para fora do raio de influência nacional, o que reforça o interesse em acompanhar como a EDGE conduzirá a governança e a transferência de tecnologia na Akaer.
O que observar daqui para frente
Falta ainda esclarecer o percentual exato da participação da SIATT no capital da Akaer e o desenho final de governança que sustentará o enquadramento como EED perante o Ministério da Defesa. Também merece atenção o ritmo de novos anúncios prometidos pela EDGE para o Brasil, inclusive em cibersegurança e produção local, que podem indicar se o padrão agora observado, de uma empresa do próprio grupo servindo de veículo para cumprir exigências societárias brasileiras, se repetirá em outras companhias da base industrial de defesa nacional.

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